Arquivo da categoria: Crônicas de minuto

Crônica de minuto #62

A casa de meu sogro está à venda. Aos poucos, ela foi se esvaziando. No rateio do espólio afetivo os quadros em talagarça e as tapeçarias de Dona Jacy, os bibelôs, os LPs, os livros disto e daquilo foram ganhando novos donos e donas. Menos o anjo de ferro. Acabou ficando encostado no quintal, ninguém sabia o que fazer com ele.

Falta-lhe uma asa. É anjo deficiente.

Asas sempre vêm aos pares. É só ver as aves, os aviões. Menos xícara, que funciona bem com uma só.

Passei por ele, ao lado de outros cacarecos. Tristonho e aparentemente conformado com seu provável destino, a reciclagem. Fiquei com dó, catei. Avisei a cunhada, “Ó, está comigo”.

Agora ele vai morar no sítio. Já fez amizade com o São Francisco ao seu lado, sobre a lareira, que não fica lhe enchendo de perguntas, querendo saber o que aconteceu com a outra asa. Para ele, isso não importa. Santos são inclusivos por natureza. Anjo deficiente tem prioridade na fila para falar com Deus? Santo Antonio tem, está sempre com criança no colo.

Se alguém vir uma asa de anjo perdida, é favor contatar a família.

Crônica de minuto #61

mentalize-itaiana
“Mentalize”, Itaiana Battoni

Vi no jornal da TV, a moça do tempo está grávida. Pensei: hoje está bom para escrever um pouquinho. Temperatura mínima de duas palavras, máxima de duas mil. Pancadas de café ao longo do dia.

A moça do tempo está grávida. Ela espera el niño. A espera, invariavelmente, é feita de tempo. Tempo bom, tempo nublado, tempestade, furacão. Todas as condições cabem numa barriga de mulher.

A moça do tempo está grávida. Ela mostra onde vai fazer frio. Dentro dela, no entanto, é sempre verão. Seu corpo é um mapa múndi e ela está grávida de sol, encoberto por nuvens de curiosidade, “Como será o rostinho?”. O tempo, eterno gestante, vai parindo a todo instante. Seus filhos se chamam acontecimentos.

A moça do tempo não sabe a hora que seu bebê vai nascer. Quando sentir que chegou a vez, irá ventando para a maternidade. Nesse dia, será que vai chover nos olhos dela? Não sei. Mas a previsão é que ele seja muito amado.

Crônica de minuto #60

engraxate

Uma vontade da infância: ter meus sapatos lustrados por um engraxate, na Praça d­­­­­­­­a Sé.

Ele me chamaria de chefia e, enquanto fumaria um cigarro, daria um trato nos meus pisantes. Eu folhearia o jornal. Pessoas importantes leem jornais e têm sapatos engraxados, pensava.

Nunca via, sentada nas cadeironas de madeira, uma mulher sendo atendida. Também nunca me perguntei por que. Cresci, ficou sendo uma espécie de vontade não-autorizada. Talvez eu não achasse aquilo adequado para mulheres. E a vontade, perdendo o lustro, feneceu.

Quantas vontades se sepultam, em nome da adequação? Quais, de fato, mereceriam esse fim?

Nunca mais passei pela Praça da Sé. Desconfio que não existam mais engraxates por lá. Sumiram, assim como somem as vontades desautorizadas.

Crônica de minuto #59

Quando eu era pequena, meu pai nunca mandava a gente colocar o cinto de segurança no carro. Porque ninguém usava cinto de segurança naquela época. Os carros vinham equipados, mas era um acessório inútil, condenado a permanecer intacto, enroladinho, exatamente como saíra da fábrica. O quanto viajamos no Fusquinha, todos tão soltos.

Quando meu pai entra no meu carro eu preciso, invariavelmente, pedir para ele colocar o cinto de segurança. Ele, que já foi motorista de táxi, nunca se lembra. Porque nunca usou. E sempre se atrapalha. Eu sempre fico irritada e tenho de ajudá-lo. Ele sempre reclama que o cinto deve estar com problema. Eu sempre peço a Deus que me dê paciência com quem tantas vezes me levou passear de carro.

Hoje eu sei o real significado dos três pontos dos cintos. Pai, filha e Espírito Santo.

Amém.

Crônica de minuto #58

“sem título”, 2013 – Simone Huck
“sem título”, 2013 – Simone Huck

Aconteceu que ontem foi meu aniversário. E também o funeral do marido da minha amiga. Entre comemorar meu nascimento e lamentar a morte alheia, eu não sabia se ficava alegre ou triste. Na dúvida, fui os dois. A mim, chegavam as mensagens virtuais de parabéns. A ela, num desolador tête-à-tête, as de pêsames. Em todas, um brinde aos polos da existência – mais conectados, simultâneos e implacáveis do que se imagina.

Ele pedira para ser cremado. Sem velório, sem delongas. No crematório, a sala da cerimônia, ou sala da despedida, é uma espécie de arena. No centro, quem vai; ao redor, em circulares bancos cor de cinza-dor, quem fica. Pareceu-me aquele programa de entrevistas da TV, o Roda-Viva. No centro, sempre um pobre sabatinado; em volta, impiedosos inquisidores e suas mortíferas questões. Na despedida de ontem, as perguntas dos que (desta vez) ficaram eram feitas em silêncio. E ninguém sabia as respostas.

Para Dinah.

Crônica de minuto #57

Quero sair de casa todos os dias pela manhã e pendurar na maçaneta, do lado de fora, uma plaquinha escrito “Favor arrumar”, dessas de hotel.

Assim, quando eu retornar, por obra da mesma espécie das fadas-camareiras dos hotéis, as camas estarão impecavelmente feitas, as roupas dobradas e alinhadas sobre o pufe, o chão varrido e os banheiros tão limpos como se nunca houvesse passado gente por ali. Da mesma forma, todas as ideias, projetos e vontades que ficaram largadas pelo meio irão para seus devidos lugares.

Eu virarei, então, a plaquinha para “Não perturbe”. E não só ninguém baterá à porta, como nada de ruim, triste ou chato entrará.

No dia seguinte e a vida inteira, a mesma coisa.

O problema – ou solução – é que, na vida, não sou hóspede. Sou dona.

Crônica de minuto #56

Pizzaria nova no bairro, do amigo de meu pai. A amizade era grande e ele até emprestara seu talento publicitário, sugerindo o nome e desenhando a logomarca para o lugar.

Assim que abriu, fomos. Prestigiar a amizade e a placa na entrada, de co-autoria do seu Tonico.

Elogiadas as instalações, dado o dedo de prosa com o dono-amigo – que veio, orgulhoso, cumprimentar todos à mesa – , avaliado o cardápio, pedidas as bebidas, era a hora. “Vamos escolher?”. Pensa daqui, pondera dali e, com pleno exercício da democracia, chegamos à eleita: quatro queijos.

Pizza chega, a família se entreolha.

Cada quadrante estava preenchido por um dos quatro recheios, separadamente. Ao nordeste, a mussarela. No sudeste, provolone. Ao noroeste, o catupiry. No sudoeste, parmesão. Separados pela fronteira imaginária estabelecida pelo pizzaiolo, os queijos não se falavam. Não rolou a orgia queijística a que estamos acostumados. Nem o sincretismo laticínico. Era ado, ado, ado, cada queijo no seu quadrado.

Redondo, no caso.

Crônica de minuto #55

Luca foi fazer lição de casa e precisou pesquisar o significado de uma palavra. Alcançou o livrão na estante e, antes mesmo de abri-lo, espantou-se:

– Quanto pesa esse dicionário, mãe?

(Comprei o velho Aurélio com um dos meus primeiros salários. A edição é de 1986.)

Não sei quanto pesa a reunião de todas as palavras ditas diariamente em português. E também as não ditas, as só pensadas, as ensaiadas, as ocultas e as mentidas. As curtas, as compridas. As simples, as não. Quem pesa mais, o sinônimo ou o antônimo? Quanto pesam as cento e dezesseis palavras que compõem este texto?

– Um dicionário tem o peso do mundo, filho. E, veja você, não é difícil carregá-lo.

Crônica de minuto para quem não acredita em Papai Noel

Arte: Kohei
Arte: Kohei

Luca quis porque quis saber se quem dava os presentes para ele e para a irmã no dia de Natal era o Papai Noel ou nós. Fui insistentemente inquirida ao longo do dia. Desconversei o quanto deu; Nina, a caçula, crente de carteirinha, estava sempre por perto.

Disse que não escreveria cartinha coisa nenhuma. “Quero ver se ele adivinha o que eu quero ganhar”. Expliquei que Papai Noel não é Deus, nem anjo ou qualquer outra entidade dotada de onisciência. E que não gosta de ser testado. Ele pensou, pensou, e anunciou: escreveria, então, mas a esconderia no quarto. Por um segundo, imaginei-me fuçando gavetas, revirando a estante.

Se ele apontou a opção – ele ou nós – é porque alguma pista ele já tinha. Não havia mais o que esconder. Mesmo assim, fugi da inquisição. Quem sou eu para desmascarar o bom velhinho?

A objetividade me doía. Foi como pisar descalça em um chão pelando. Falei sobre crença, fantasia, imaginação. Deixei na entrelinha. Fui covarde. Logo eu, sempre tão na lata. No fim, quem deu as respostas foi ele mesmo. Eu apenas confirmei.

Num misto de regozijo e decepção, ele ainda não sabe direito se desacreditar no Papai Noel é um bom negócio. Anda preocupado, questionando se sua ‘descoberta’ foi precoce ou tardia – ele tem nove, um pé nos dez. Receoso, também, pelos presentes que virão. Sobretudo, encasquetou que Natal perdeu a graça.

(Que podia eu, que não nutro simpatia pelo circo do Natal, lhe dizer? Que acho um saco o presente-obrigação? Que me cansam o peru, a neve forjada, a Missa do Galo? Só gosto de Jesus e queria lhe desejar feliz aniversário, sem firulas.)

Dei-lhe um beijo para selar sua descoberta e um abraço para me despedir da sua infância. Ele prometeu ajudar a manter o segredo para a irmã. Ganhei um aliado. E Papai Noel, mais um parceiro.

 

Crônica de minuto #54

Arte: Jim Media Art
Arte: Jim Media Art

Sei que estou envelhecendo quando, ao preencher um cadastro eletrônico, vou muito lá embaixo para selecionar o ano do meu nascimento.

Sei que envelheço quando invoco com o manobrista do estacionamento que põe o meu banco para trás.

Sei que, além de envelhecida, estou mais impaciente que de costume quando pulo todos os anúncios do You Tube assim que é dada a deixa.

Sei que envelheço quando, ao fim de um dia com as crianças e suas energias infindáveis, cantarolo repetidamente “Eu quero o silêncio das línguas cansadas”.

Sei que envelheci quando lembro, não sem alguma nostalgia, de quando eu ia à loja da Telesp pagar a prestação do plano de expansão.

Sei que não só estou envelhecendo como ficando distraída, quando tenho ideias brilhantes do tipo desenvolver um alarme sonoro para pias de banheiros públicos, acionado automaticamente sempre que um anel é esquecido ali.

Sei que estou envelhecendo quando prefiro dormir de estrela do mar a dormir de conchinha – ainda que a praia não seja a minha praia.

Envelhecer é ônus e é bônus.

Crônica de minuto #53

Foto: Degilbo
Foto: Degilbo

Qualquer escritório, repartição, escola, escrivaninha, balcão ou mesa sabe: a quantidade de clipes que se vão nunca é igual, sequer semelhante, à quantidade de clipes que voltam. Ao fechar o movimento do dia, a diferença no caixa sempre estará lá. A contabilidade não bate: saiu mais clipe do que entrou. Não falha. Fica-se sempre devendo.

Alguém não está repassando os clipes adiante. Alguém tem mais clipes do que deveria. Não é a distribuição de renda, o maior desafio capitalista; é a justa e igualitária distribuição de clipes de papel. Com o eterno déficit, a pergunta que não quer calar: para onde vão os clipes que não voltam? Mistério insondável.

Há – só pode ser – um universo paralelo aonde todos eles vão parar. Nele, uma poderosa força eletromagnética suga todos os clipes do nosso mundo terreno, sem deixar rastro.

Nem a tecnologia, que tanto reduziu os papéis no planeta, os fez desaparecer com tanta expressividade como o enigma da abdução dos clipes. Sorte do tal universo paralelo, que deve se alimentar de pedacinhos de arame retorcidos, tragados da nossa dimensão enquanto estamos dormindo. E ele – o tal – tem notória predileção pelas coisas miúdas. Das graúdas, não quer nem saber. Alguém já viu cama, geladeira, tapete de três por dois desaparecer assim, do dia pra noite?

Não venço abastecer a mesa onde trabalho, em casa. Inovei, comprei uns coloridos, outros enfeitadinhos, para não perdê-los de vista. Das duas dúzias compradas no último mês, não resta nem meia. Que também (suspiro) estão com os dias contados. Ninguém sabe, ninguém viu. Está certo que tenho crianças, e crianças também são dotadas de uma poderosa força eletromagnética capaz de fazer sumir todas as suas coisas. Algumas, mais tarde, serão recuperadas sob o sofá, atrás da geladeira. Outras se vão, para sempre, no sumidouro do tempo.

Situação semelhante vivem os pregadores de roupas. Vão sumindo, vão sumindo. Quando me dou conta, não há o suficiente para pendurar as camisas no varal. Aliás, as tampas dos potes plásticos e as colheres de café também padecem da mesma sina.

Universo paralelo, tende piedade de nós.

Crônica de minuto #52

Foto: Russ Morris
Foto: Russ Morris

I

Um beijo no rosto, um só, a registrar olás e adeuses. Dado (e recebido), quase sempre, na bochecha direita. Sem maiores delongas, smack! Um par de estalos, quase simultâneo, quase combinado.

II

Dois beijos no rosto, dois, a registrar olás e adeuses. Na dupla conferência de bochechas, quatro estalos gerados. Isso quando há estalo. É o começo do demais.

III

Três, oh!, três beijos no rosto, a registrar olás e adeuses. Beija dum lado, beija do outro, volta ao primeiro lado já beijado e o beija de novo, reforçando a pegada. É tempo, movimento e beijo em excesso, investidos numa breve saudação ou despedida. São seis estalos.

Quantos trocariam três no rosto por um de língua?

Trinta trilhões de beijos beijados por dia no mundo, faz de conta que a conta é essa. Quem começa?

Três, dois, um, já.

Crônica de minuto #51

Arte: Juan María

Ele queria um romance de mão dupla.

Ela insistia na mão única.

Ele acreditava numa conversão.

Ela mantinha distância.

A esperança é verde.

Ele engatou a terceira antes da segunda.

Ela fechou o cruzamento.

Ele foi multado por excesso de paixão.

Ela cometeu infração grave: mudou de amor sem dar seta.

O ciúme é vermelho.

Ele atrapalhara o trânsito com seus sonhos tão românticos.

Ela fora na contramão dos planos dele.

Ele quisera ser preferencial.

Ela lhe dera um balão.

A solidão é amarela.

Crônica de minuto #50

Xampu que deixa o cabelo duas vezes mais resistente. Pasta de dente que deixa o hálito três vezes mais fresco. Pilha que dura seis vezes mais. Sabão em pó que lava duas vezes mais branco. Cloro em gel que limpa três vezes mais. Adoçante que adoça cinco vezes mais.

Eu, consumidora distraída, achando que era a propaganda, a alma do negócio. Não. É a matemática, meu bem.

Como se calcula o frescor de um bafo, a força sansônica de um fio de cabelo, a brancura do uniforme do filho? De que jeito medir o tamanho de uma limpeza, estimar a dimensão da doçura? O doce mais doce que o doce de batata-doce, todos sabem, é o doce de batata-doce.

Eu, que sou mil vezes mais esperta que muita gente, perdi a conta de quantas vezes caí nesse conto. Eu, que tenho duas vezes a idade do publicitário que bola a papagaiada, já conduzi minha compra baseada no apelo. Depois, sequer consegui tirar a prova dos nove.

É normal, às vezes, não parar para pensar. Mas só às vezes.

Hoje, quando vejo anúncio assim, dou três vezes mais risada. E fujo dez vezes mais rápido.

Crônica de minuto para quem não joga Candy Crush

Eu não jogo Dragon City, Subway Surfers, FarmVille, Angry Birds Friends, Criminal Case, Fruit Ninja Frenzy, nem Papa Pear. Pet Rescue? Já jogo na vida real. A única coisa que o Candy Crush me faz pensar é em Fanta. Não faço coro à imensa maioria das Causes. Também não compareci a nenhum dos 94 eventos para os quais fui convidada, virtualmente, no último semestre. Sou praticamente uma marginal online, a chata digital que não quer brincar de nada.

O velho vício em jogos agora vem acompanhado de uma nova adicção: enviar solicitações para Deus e o mundo nas redes sociais. O viciado, em breve, contará com uma inédita modalidade de grupo de ajuda: a dos dependentes públicos, já que de anônimos não têm nada.

Declino todos os convites que recebo no Facebook e nem fico constrangida por não dar satisfação. Talvez seja esse meu jogo favorito. Mas sei: não foi assim que mamãe ensinou. Quando alguém chamava, “Quer brincar de esconde-esconde?”, e eu não queria, tinha que, ao menos, dizer o porquê. Agora não tenho mais.

Crônica de minuto #49

A loja de roupas baratas, na avenida de mão única e comércio múltiplo, abre às oito em ponto. Às oito e um a vendedora está na porta, aguardando os primeiros fregueses do dia. Que, ela sabe, tardarão a aparecer.

Padaria abre cedo. Banca de jornal também. Igualmente, posto de gasolina. Laboratório de análises clínicas. Escola. Há uma lógica, um propósito cristalino, uma serventia sabida na alvorada de alguns estabelecimentos. Não há, porém, explicação para a loja de roupas da avenida. Quem é que compra saias e calças às oito da manhã? Ninguém entra em uma, tão cedo, e pede, “Posso ver aquele jeans de sessenta e nove?”.

Nenhum corpo – nem alma – precisa de camisa nova a essa hora. Nunca vi amiga que contasse, “Comprei esta blusa ontem, às oito da manhã”. Reparem; é sempre ao meio-dia e quinze, às três e vinte da tarde, cinco e dez, dez pras nove da noite (quando é shopping). Quando muito, às dez e cinquenta, um pouco antes do almoço. Às oito, não.

E a vendedora de cabelos anelados e meia-calça fumê precisa estar a postos, impecável, às oito e um. É sua obrigação, sabia disso quando foi contratada. Tarde demais para pensar nisso. (Ou seria cedo o bastante para mudar de emprego?) Ela rói as unhas enquanto o ônibus segue em seu engole-vomita-gente no ponto em frente à loja. Que padece, assim como ela, de invisibilidade matutina crônica.

E se eu estacionar – é de dentro do meu carro que espio a vendedora enquanto o sinal não abre – e ir ter com ela? Perguntar-lhe, cheia de nove horas, sobre o vestido florido da vitrine, “Que tecido é?”. Apenas para entretê-la, ativar-lhe as ideias, fazê-la sentir-se útil.

Mas é cedo até para a compaixão.

Crônica de minuto para quem tem gato

Arte: Peter Neish
Arte: Peter Neish

Entro no banheiro, ele vem junto. Gato gosta de acompanhar o dono nesse destino. É seu favor diário. Fica ali, roçando a quina do armário e investigando um fiapo de qualquer coisa, caído ao lado do cesto de roupas. Amante de espaços mais amplos, é na limitação azulejada do dois por dois que um gato mantém a relação com seu dono em dia.

Ele pede colo, eu dou. Ele não quer saber o que estou fazendo ali sentada. Um colo é um colo.

É noite. Aviso-lhe: “Amanhã é mais um dia”. Antevejo a rotina de afazeres, deduzo acontecimentos; ele não. A repetição dos dias não o incomoda. Também não o seduz. Gato é atemporal. Melhor: proprietário de seu tempo. Todos os eventos mundiais cabem em uma lambida na pata.

Ele salta à pia. Encara o espelho e conclui: não há outro mundo dentro dele, Alice estava enganada. Ensaia uma espécie de capoeira com a bolinha de papel amassada que larguei ali. Não preciso da bula do hidratante, mesmo. Esse horóscopo testado dermatologicamente, a informar que o tempo correrá macio a partir de agora. Fiz aniversário, o presente já começou. Gatos vêm do futuro?

Ele desce. Ouve algo lá fora, que meu ouvido humano não capta, e se prepara para uma eventual defesa. Ele enxerga, escuta e se move melhor que eu; é de admirar que seus ancestrais não tenham dominado o mundo.

Inicio o banho, ele se enrodilha  sobre o tapetinho. O som da água é sua canção de ninar. O vapor morno faz seus pelos negros brilharem. Desligo o chuveiro, saio do box e pulo o tapete para não incomodá-lo em sua soneca.

Ele finge que dorme. Observa, olhos semicerrados, meu ritual pós-banho. Todo gato é um voyeur declarado e preguiçoso.

Ele fica comigo até o fim. Saio, ele sai também. E não sei mais quem acompanhou quem.

Crônica de minuto #48

Quando fizemos o primeiro ultrassom do nosso filho, a médica disse que ele nasceria, provavelmente, entre os dias 24 e 29 de dezembro. Como mãe, minha primeira ordem foi: “Não nasça nesses dias, meu filho”. Falei-lhe sobre a forte concorrência com a festa de aniversário do Menino Jesus, a enorme possibilidade de todos os seus amigos estarem viajando nessa época etc. Ele, por garantia, obedeceu. E levou tão a sério o que eu dissera, que foi preciso uma cesárea no Dia de Reis. O garoto não queria saber de vir ao mundo.

Quando fizemos o primeiro ultrassom da nossa filha, a médica disse que a data provável para o parto seria 16 de outubro. Por coincidência, dia do aniversário do pai. Este abriu um sorrisão. “Calma”, ela disse. “É só uma previsão”. Como pai, seu primeiro pedido foi assertivo, quase uma torcida particular. Igual ao irmão, ela tratou de atendê-lo. Nem foi preciso marcar cirurgia; ela chegou, espontaneamente, no dia combinado.

Hoje, ele finge não me ouvir quando lhe peço para tomar banho e arrumar seu quarto. Ela se recusa a comer a salada e recolher os brinquedos.

Lembrei-me de uma passagem d’O Pequeno Príncipe. Disse o rei, que gostava de dar ordens razoáveis e cumpríveis: “Se eu ordenasse que um general se transformasse em gaivota, e o general não me obedecesse, a culpa não seria do general, seria minha”.

O rei está certo. Mas ele não disse nada sobre banhos, saladas e arrumações de quarto.

A mães e pais não cabe tanta razoabilidade assim. Nosso reinado é outro.

Crônica de minuto para quem sabe escrever

Arte: Chrysti

Filho recém-alfabetizado dá nisso: Nina escreveu o alfabeto inteirinho, de A a Z, sabe onde? Na colcha da cama dela. Novinha, acabou de ganhar. Catou a Bic e foi lá, treinar letra de forma.

Em seu papel de algodão cru, caprichou na caligrafia e expôs o recente aprendizado. Criança não diferencia os meios de comunicação autorizados dos não-autorizados.

Eu me lembro muito bem de, mais ou menos na idade dela, ter decorado a parede da sala de casa com uma canetinha. O “painel” consistia em uma longa estrada que nascia por detrás do sofá, subia e descia algumas montanhas, dobrava a quina e terminava atrás da poltrona. Fiz vários carrinhos trafegando, para conferir realismo à cena. Achei lindo. Não me recordo do que aconteceu depois. Considerando que podíamos brincar com as peças do aparelho de jantar da minha mãe, bem como com seus anéis e colares, a bronca pela estrada não deve ter sido tão feia.

E agora?, pergunto à Hello Kitty estampada na colcha. Mas que bobagem, as colchas não falam. Tampouco a gatinha do desenho. Através do seu olhar, ela chama minha atenção para o K e o Z espelhados e diz que é preciso falar algo à Nina. Que ainda não sei o quê. Faltam-me as letras.

Crônica de minuto #47 ou Feliz Natal

O mais bonito no presépio instalado na sala de casa, quando eu era criança, não era a manjedoura. Nem José, nem Maria, nem as vaquinhas fungando atrás do berço improvisado. Não era nem o Menino Jesus, para ser honesta. O mais interessante no presépio era o laguinho, feito com um pedaço de espelho.

Quando as peças eram desencaixotadas, após longo exílio no armário desde o Dia de Reis, minha maior preocupação era se o espelho estaria intacto. Temia que houvesse quebrado. Mas alguém estendia o pano verde de cetim e o cenário natalino ia sendo produzido. Reis magos surgiam ao lado de camponeses, ovelhas. A neve de isopor dava o ar da graça em meio ao morno dezembro. O lago era desembrulhado. O Natal estava garantido.

Eu brincava com a serragem em volta dele, imitando terra. Assim, dava contornos diferentes à lagoinha, todos os dias. Ora colocava o carneirinho tomando água numa margem, ora na outra. Alterava a órbita dos personagens, mudava os patos de lugar. Eu não queria saber de nascimento, eu já tinha um Natal só meu; era esse o nome da minha rua. E eu só queria saber do espelho. Tal um índio encantado diante das bugigangas que o homem português traria ao nosso continente, tantos anos depois daquela noite feliz. Tal a rainha má e perguntadeira, obcecada pela própria beleza. Tal Narciso, o moço autoapaixonado. Mas eu não era nenhum deles; era uma menina, que via importância no desimportante.

Por isso, hoje tento prestar bastante atenção aos olhos dos meus filhos quando admiram um presépio ou falam de Natal. Que é para descobrir qual fotografia particular, do nascimento mais icônico do planeta, eles levarão consigo vida afora. Quais lembranças, quando adultos forem, lhes serão mais líquidas. Feito a água, imaginária e doce, que se entregava ao velho espelho, espelho meu.

Crônica de minuto #46

Coloquei uma plaquinha de identificação na minha felicidade, com meu nome, endereço e telefone. Assim, se ela se perder de mim, alguém há de encontrá-la e devolvê-la. Porque não se fica com a felicidade dos outros. Felicidade ninguém tasca, é pessoal. (Mas dá para transferir.)

É verdade, porém, que nunca topei com uma felicidade perdida, sem dono. Também nunca vi felicidade abandonada. E quem seria o doido?

Tem quem doe a sua felicidade, veja só. E quem adota fica o quê? Feliz, é claro.

A plaquinha da minha é só precaução. Para o caso dela escapar, nunca se sabe. Mas a minha felicidade atende pelo nome e está vacinada. Quem chegar perto dela, não precisa ter medo. Ela não morde.

Crônica de minuto #45

Minha cozinha agora tem um daqueles multiprocessadores de alimentos que cortam, fatiam, espremem, substituem liquidificador e batedeira, cantam, dançam, representam, chuleiam, caseiam e bordam. Praticamente um ser vivo.

Quando o porteiro ligou, avisando da encomenda, fui correndo buscar. Caminhei cem metros e tive que voltar até em casa. Peguei o carro. A embalagem pesa doze quilos, tem setenta e cinco centímetros de altura. Quase a metade da minha. Não é um aparelho elétrico; é um novo morador. Preciso arrumar-lhe um quarto com armário, para acomodar seus acessórios. Talvez, até um nome, certidão de nascimento, essas humanidades.

Ainda está na caixa, repousado sobre a mesa de jantar. Tenho medo de montá-lo e descobrir que fala, anda sozinho, vai usar meu xampu. E se quiser dar palpite nos meus panos de prato, tão velhinhos? Se não gostar de gatos? Se disser que estou gorda? Toda cautela é pouca com uma engenhoca que rala cenouras em dois segundos.

Quem dera eu também possuísse uma dúzia de acessórios e, a cada um que vestisse, ganhasse um superpoder diferente. Cortar males pela raiz, espremer as ideias até obter seu sumo, triturar tristezas sólidas até virarem alegrias líquidas, fazer purê da frustração, compreender as massas. E ainda poder ajustar a velocidade no feitio das coisas.

A vida seria um banquete.

Crônica de minuto para quem calça 28

Arte: Frank Douwes

Na loja de calçados para renovar os pisantes dos filhos – pé de criança cresce mais rápido que bambu. Por um instante, quis que não fosse verdade: a caçula tirou as meias e os sapatos para experimentar o modelito cor de laranja e uma generosa porção de areia, clandestinamente vinda do parquinho da escola, se espalhou pelo chão. A aula deve ter sido animada naquela tarde.

Vendedoras ocupadas, fregueses entrando e saindo, não cabia pedir uma vassoura. Tomei rápida decisão e fiz a primeira coisa (muito) feia do dia: discretamente, apanhei uma das meias e “varri” com ela a areia para debaixo de um pufe. É dessas lojas com vários, coloridinhos, para a criançada sentar e se esbaldar em meio ao mar de opções. Aproveitei e descarreguei ali os grãos que restavam nos sapatinhos dela.

Lá ficou a areia criminosa, sob a proteção de courino lilás. Uma das vendedoras, de repente, inventou de arrumar o lugar. Ajeitou sapatos nas prateleiras, recolheu pares separados e… decidiu alinhar os pufes. Rezei, vibrei, torci para que ela não mexesse no pufe “x”. Como explicar aquela areia ali, combinando perfeitamente com o estado do uniforme da minha filha? Mentalização bem sucedida, passei a fazer a guarda do pufe.

Ter filhos pequenos é autorizar a vida a nos meter em saias-justas, outorgar à humanidade o direito de falar mal de nós.

Crianças revelam as mentiras dos adultos com verdades inconvenientes (“Fulano, não fomos ao seu aniversário porque fomos viajar”, ao que elas prontamente rebatem, na frente do Fulano, “Não fomos, não! Ficamos em casa!”). Flagram o nosso mau comportamento gastronômico, se atacamos o Doritos antes do jantar. Lascam comentários desconcertantemente sinceros se ganham um presente e detestam. Criam na sociedade a convicção de que nada ensinamos a elas, quando saímos de um restaurante e percebemos que nossa mesa ficou interditada para faxina. Ou quando agarram dez coxinhas ao final da festinha do amigo, “Para levar pra casa”.

Abreviei a compra dos sapatos novos, torcendo para não ser delatada pelo mais velho. Certifiquei-me que o pufe continuava no lugar e fomos embora. Ninguém viu nada.

Crônica de minuto #44

Nina, cinco anos, surgiu na porta. Afoita, chamou:

– Vem todo mundo ver!

Fomos, “todo mundo”, ver o que havia na rua.

No céu, um bando de pássaros fazia festa no ar. Vinte, trinta? Juntos em delicado balé aéreo, numa versão reduzida daquele fenômeno dos estorninhos na tal da “murmuration”, quando dezenas de milhares deles usam a imensidão azul para uma performance única, espontânea, breve e espetacular. Dessas de quedar bobo o mais apático dos sujeitos.

Naquele dia, não importava se eram milhares ou vinte pássaros. Meu embasbacamento foi igual.

Quando é filho, mãe aumenta tudo.

Crônica de minuto #43

Meus filhos, quando gostam muito de uma roupa, não querem saber se é “de sair” ou “de ficar em casa”. Eles querem usá-la todo santo dia.

Meus filhos, quando não querem falar com alguém ao telefone, mesmo que seja um parente fazendo aniversário, simplesmente não falam.

Meus filhos, quando veem algo interessante na rua, param. E não importa o que estavam indo fazer, nem que horas são.

Meus filhos, quando querem alguma coisa, fazem de tudo para consegui-la. Tudo.

Meus filhos, quando estão cansados, dormem. Quando tristes, choram. Com fome? Comem.

Tenho dúvidas sobre quem está educando quem na família.

Crônica de minuto #42

Se você é senhorita e deseja forrar de cetim prata seu velho scarpim azul-marinho, para usar na formatura da sua sobrinha, não recorra à sapataria que tem nome de santo. Aquela, da avenida. Lá, só se forram sapatos para senhoras. É o que diz na entrada, em letras garrafais.

Caso você seja rapaz e tenha lhe dado na veneta transformar o mocassim antigão do seu pai, forrando-o de camurça verde-limão, para fazer bonito na festa dos anos setenta que a turma da faculdade inventou, a sapataria que tem nome de santo não é o endereço certo.

Mesmo que você não passe de uma garotinha, e sua mãe, que é senhora, queira vê-la entrar na igreja com mimosos sapatinhos em estilo boneca forrados de tafetá cor de pérola, posto que você, a caçula temporã, será pajem no casamento da filha mais velha, melhor procurar outra sapataria. Não é a que tem nome de santo que dará conta da tarefa. A senhora sua mãe deve ser a titular dos sapatos em questão.

Na sapataria que tem nome de santo a regra para efetuação do serviço, registrada na fachada em meados do século passado e ainda vigente no atual, é clara. Venha você da rua de baixo ou da rua de cima, 0 santo não lhe ajudará. Nem com reza forte. Tampouco milagres ali se dão. Não leu a placa? Oras. Ali só se forram sapatos de senhoras. Favor não insistir.

Crônica de minuto para começo de mês

Arte: Tadashi Kumai

Maio está cansado. Ontem foi seu último dia de trabalho. Está em férias a partir de hoje e só volta ano que vem, em pleno feriado. Fez o que pôde, ainda que tenha deixado tanta coisa para Junho resolver. Junho diz que é tudo culpa de Abril, que não sabe lidar com Março. E quem fica mal na foto é Fevereiro, que nem gosta tanto assim de ziriguidum. Enquanto Janeiro morre de preguiça, Dezembro lamenta ter passado tão rápido – bem que Novembro avisou. Outubro, feito criança, reclama que Setembro vive de primavera. Agosto, irado, vai ter com Julho, que não quer ir à escola. E é por isso que Junho anda sempre tão ocupado, sabendo que todo ano Maio tira férias.

Crônica de minuto em 3D

Arte: Isabelle

Não me convide para assistir um 3D no cinema, eu não vou (mais). Não insista. Não carece pagar meu ingresso, queisso. É que não gosto dos óculos, são grandalhões e incômodos. Ocupam tanto espaço no meu rosto que me distraem, perco várias cenas imaginando como fico com eles. Os fabricantes não precisariam chegar ao ponto de consultar um esteta ótico, mas noções básicas de ergonomia ajudariam um bocado. Da poltrona, me volto para trás; quero conferir quem, além de mim, desistiu deles nos primeiros quinze minutos e assistiu o resto do filme sem. Ninguém. Estou só.

Está bem, não é só por isso. Também não enxergo direito com eles, sou a cega em terras de reis e rainhas e príncipes, todos sentados. Os óculos embaçam. Escurecem tudo, dão reflexos. O efeito especial mais nítido é o que me faz ter a precisa sensação de ter comprado gato por lebre.

Sim, há mais. Quem disse que quero estar ali, no meio da aventura, tal uma espectadora-coadjuvante? Quem declarou que a humanidade ama 3D? Deve ter havido algum plebiscito mundial votando a questão, o qual não fiquei sabendo e, portanto, faltei.

Isso posto, agora sei das três dimensões: desconforto, desserviço, dispêndio.

Realidade virtual, realidade 3D. Excessos de interatividade, exageros da cumplicidade. Viver já é uma experiência sensorial e tanto. Às vezes, sinto falta da realidade, somente ela.

Crônica de minuto para ficar triste num instante

Arte: João Grando

A mãe do João Hélio disse que, naquele dia, gostaria de ter tido superpoderes para salvá-lo.

O pai do Mitchill disse que gostaria de voltar no tempo para mudar o desfecho da história, ou avançar nele, até um dia em que tudo houvesse, enfim, passado.

Outras mães e outros pais, vivedores da experiência de sepultar um filho, também já desejaram ter superpoderes, mas não disseram nada. Superquerer não é superpoder.

Super-heróis, pense nisso, são inspirados em pai e mãe. A coisa da proteção, do cuidado. Uma vez que a estes foi concedido o superpoder de trazer uma pessoa ao mundo, igualmente deveria lhes ser concedido mais um, para mantê-la por aqui. Imitar Ícaro, domar Cronos – não importa qual. Desde que pudessem, através dele, garantir a existência daquele que lhes é confiado.

Aos pais e mães tristes, calados ou manifestos, se não recebem o poder providencial, cabe apenas a capacidade de superação. Que, de certa forma, é um jeito de ser super.

Crônica de minuto #41

Uso cheques há duas dúzias de anos. Nesse tempo, quase tudo mudou no planeta. Menos o talão de cheques. De layout essencialmente intacto ao longo do século, necessário no comércio que não se rendeu aos meios eletrônicos de pagamento e útil nas horas em que o “sistema” dá pane, o objeto guarda as características de seus ancestrais. Em especial, o prolixo canhoto.

Com bankline, cartão de débito, cartão de crédito e programinhas para gerenciar a vida financeira, nem o cidadão com TOC controla tanto dado. Tirando os campos “pago a”, “em” (data) e “este cheque” (valor), não escrevo mais nada. Saldo anterior, lançamentos, total,  saldo atual… O pessoal de trás na fila do supermercado há de chiar, se o cidadão resolve anotar tudo.

Um sorvete para quem põe lá “saldo anterior”. Duplo com cobertura para quem registra, faz as contas e atualiza o “saldo atual”. Quem? Quem?

Crônica de minuto para quem está só

Ilustração: Bill Tozier/Flickr.com

Deu seta, parou no acostamento ao lado do telefone de apoio. “Faltam duzentos e vinte quilômetros, Araras é uma lonjura”. Tirou o fone do gancho, chamou. Enquanto aguardava, na estrada o caminhão carregado de galinhas deixava para trás uma nuvem de penas. “Bicho besta, esse”. Do outro lado a moça atendeu, resmungou um blablablá qualquer e perguntou:

– Em que posso ajudar?

– Nada, não. Só queria conversar um pouco.

Outro caminhão, desta vez uma cegonha, carregada de carros-bebês. Ele, que fora trazido por uma cegonha estúpida, nunca vira uma de verdade. Nem arara. Só galinha.

– Não entendi, senhor. O senhor precisa de auxílio?

– Não. Parei pra prosear. Calorão, hein?

A atendente pôs no mudo e fez sinal para a colega, “Outro doido”.

– Senhor… O senhor se encontra em alguma emergência, houve algum acidente?

Duzentos e vinte quilômetros, ainda. Estrada gosta de solidão, e vice-versa.

– Deixa eu perguntar uma coisa. Você acredita em cegonha?

Solidões podem ser emergentes, mas nunca acidentais. A atendente tinha mais o que fazer. Desligou.

Crônica de minuto para quem não tem o que fazer

Foto: Alexandre Fávero/Flickr.com

Sempre dou uma olhada no que o Google, principalmente, manda para este blog. São palavras-chave e frases que as pessoas digitam nos buscadores e, sabe Deus como, acabam chegando no Fio da meada.

Quando penso que já vi de tudo (“como fingir que está passando mal”, “teste de qualquer coisa”, “feitiço para voltar atrás no tempo”, “como escrever uma carta para um amigo esposo de sua amiga”, “onde comprar uma engrenagem planetária crônica de nylon”), ele me vem com essa: “saci de beca”.

Que os brasileiros estão estudando mais, eu já sabia. Não imaginava, porém, que o acesso à educação houvesse chegado tão longe. Em quê estarão se formando os pererês?

Se à noite todos os gatos são pardos, de beca ninguém sabe quem tem uma perna só.

Isso é sério. Muito sério.

Crônica de minuto #40

Nina, cinco anos, anunciou:

– A partir de hoje, eu vou ser boazinha.

Depois, mudou de ideia. Misturou, de propósito, as figurinhas do irmão (separadas por time), recusou-se a recolher os brinquedos e fechou a porta na cara da amiga.

Ela prefere ser essa metamorfose ambulante.

Crônica de minuto para um feriado

Foto: Romana Klee/Flickr.com

A mais nova da mesa ganhava todas as rodadas do jogo da velha. Ela escolhia sempre o x (para dar sorte?), analisava a estratégia da adversária e, poucos movimentos depois, fechava o jogo. Até que as amigas resolveram acabar com a farra: “Agora você vai ficar com o o. Resignada, ela aceitou. E iniciou a partida. Não deu outra: ganhou de novo. “Você está proibida de começar”, decretaram. Ela se recolheu, concordou com a cabeça. Aguardou a oponente posicionar seu x. Pensou um bocadinho, fez a jogada, aguardou a resposta. Pimba, ganhou de novo. As demais confabularam. Nem o trote na sorte, tampouco a revogação do direito ao primeiro lance haviam dado jeito. E todas ali eram macacas velhas no esporte. O café. Só podia ser o café. “Traz um chá para ela”, a da ponta pediu ao garçom. A contragosto, ela serviu-se da infusão de hibisco com limão. Ganhou. Trocaram de lugar na mesa, culpando o leste de favorecê-la. Dispensaram o x e o o , substituídos pelos saquinhos de açúcar e adoçante, respectivamente. Confabularam novamente, sem sucesso. Ela continuou papando todas.

O jogo não era mais delas. Pediram a conta.

Crônica de minuto #39

Ilustração: Gustav Klim/Flickr.com

Luca, sete anos, lança a questão:

– Mãe, como o céu nasceu?

Inicio uma breve explanação sobre espaço, sol, luz, aquelas coisas. Ele ouve tudo, interessadíssimo. Dou sequência, na medida que meus parcos conhecimentos sobre o tema permitem, e falo das cores, planeta, atmosfera… De repente, não mais que de repente, ele interrompe:

– Quero mingau de chocolate.

Incrível o talento das crianças para zapear pensamento. De céu para chocolate em trinta segundos. Mas faz sentido. Colocar o segundo na boca e ter a sensação de estar no primeiro também leva isso.

Crônica de minuto #38

Quando Luca, sete anos, recebe sua mesada, pede para ir à papelaria, banca de jornal ou loja de brinquedos. E compra uma caneta, um caderno, gibis, figurinhas ou carrinho do Hot Wheels.

Ele sempre diz à Nina, quatro anos, para escolher alguma coisa “baratinha”. E ela sai de lá com um presentinho do irmão.

Nessa hora, esqueço as campanhas anticonsumismo. Nessa hora, finjo que ensinar a poupar não é tão importante assim. Nessa hora, presto atenção ao melhor da história. E penso que ela daria um belo comercial para aquele cartão de crédito.

Crônica de minuto #37

E mais um dente de leite do Luca se foi. Ele o deixou sob o travesseiro, na hora de dormir. Todo mundo sabe que a Fada dos Dentes passa na casa das crianças, leva o dito cujo e deixa um dinheirinho no lugar. De manhã, ele veio todo feliz mostrar: vinte reais.

Bem que podia existir a Fada dos Cabelos. Eu juntaria a centena de fios que caem todo dia da minha cabeça e, se ela fosse tão generosa como a colega, ficaria rica.

Crônica de minuto para quem pensa muito

Ilustração: Michael Young/Flickr.com

Repartir um prêmio em dinheiro que você nem punha fé? Não pense duas vezes. Apostar tudo naquele namoro que ninguém põe fé: pense duas vezes.

Ultrapassar aquele caminhão só porque a pressa está maior que de costume? Pense duas vezes. Agradecer ao anjo da guarda por ter escapado de ir para o beleléu, por causa do dito cujo: não pense duas vezes.

Socorrer o cãozinho atropelado que as pessoas fingiram não ver? Não pense duas vezes. Comprar um animalzinho, em vez de adotar: pense duas vezes.

Derrubar o fícus em frente à sua casa porque suas raízes levantaram um bocadinho a calçada, e agora você precisa desviar, de leve, para entrar na garagem? Pense duas vezes. Parar dois minutinhos para fotografar o ipê rosa que amanheceu florido na rua de cima: não pense duas vezes.

Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano? Não pense duas vezes. Traçar um pratão de nhoque ao sugo com pão italiano: pense duas vezes.

Topar uma proposta para trabalhar mais feliz e ganhar um tiquinho menos? Não pense duas vezes. O contrário: pense duas vezes.

Cortar os cabelos porque deu uma vontade súbita, assim, do nada, sem explicação? Não pense duas vezes. Mantê-los longos apenas porque seu namorado gosta, e vive pedindo, com aquele olhar que você conhece bem, para você deixá-los assim? Pense duas vezes.

Adicionar, multiplicar e dividir os bons amigos nas redes sociais? Não pense duas vezes. Subtrai-los da sua vida porque, de vez em quando, eles não concordam com você: pense duas vezes.

Aproveitar o triz de inspiração para guinar a vida praquele lado que ela, há tempos, precisa? Não pense duas vezes. Se pensar uma vez e meia, o triz já era.

Pensar uma, duas ou três vezes. Não pensar. Ter cérebro à vela, com vento comandando o pensamento. Ideia motorizada, para ir o mais longe possível em menos tempo. Mente a jato, para perder de vista o que ficou para trás.

Dou-lhe uma. Dou-lhe duas. Dou-lhe todas.

Crônica de minuto #35

Luca:

– Mãe, me ensina a tricotar?

– Ensino, filho. [Surpresa] Mas para quê?

– Para eu fazer um cachecol para você.

A gente posa de mãe moderninha, que cria filho e filha igual, diz que menino pode fazer balé e menina pode fazer judô, ensina que não tem ‘cor de menino’ e ‘cor de menina’.

Aí eles vêm com uma dessa e pronto.

Nada como um filho para escancarar: ainda somos e vivemos como nossos pais.

Crônica de minuto #34

Luca, sete anos, no banco de trás:

– Mãe, como se faz bebê?

Silmara, quarenta e quatro, no volante:

– É assim: na barriga da mulher tem um ovinh…

– Olha, mãe! Um Camaro do outro lado da rua!

[Ele é d-o-i-d-o com esse carro]

– Uau! Bonito, hein, filho? O motor deve ser 6.2. Puxa vida!

Resolvido.

Crônica de minuto #33

– Mãe, põe um rock?

Fui ver se tinha algo no porta-luvas. Tinha. Ao primeiro acorde de “Miss you”, dos Stones, Nina, sentadinha no banco de trás, bateu palmas e se remexeu até onde o cinto de segurança deixou. Pelo retrovisor, fotografei-a na minha Rolleyfex particular, aquela embutida na cabeça.

É, filha. Às vezes, você me enlouquece. Mas quando nos despedimos na porta da escola, fico sempre com uma certeza: I will miss you.

Crônica de minuto #32

– Vamos?

Sobre a pequena e redonda mesa da doceria, os restos da comilança. Três xícaras de café, meia dúzia de guardanapos melecados. Na rua, ajeito a cria no banco do carro e suspendo o olhar para compreender o sol do inverno. Ali perto, sem que eu os note, estão eles. Os invisíveis: o homem, as duas crianças pequenas, o cavalo que puxa a carroça deles.

Invisíveis para mim. Não para o marido. Que pede um minuto, atravessa ligeiro a rua, volta à doceria e de lá sai com quatro mousses de morango, embrulhadinhas no capricho. São para os invisíveis. A quarta iguaria é para a presumida e também invisível mãe, talvez a esperar em casa pela turma. Ou não. Nunca se sabe.

Deveria estar na constituição federal: todos têm direito a um doce saboroso e fresquinho nas tardes de domingo.

O pai, tímido, agradece. Não é todo dia que alguém se importa com ele. E com a família dele.

Todos são iguais perante um doce. Crianças, feitas com açúcar e com afeto, são mais iguais ainda. Sejam elas filhas e filhos de quem for.

Falta o último personagem. Este, sim, de invisibilidade insuperável: o cavalo que puxa a carroça. Que também gosta de doce. Mas que nem constituição tem.

Crônica de minuto #30

Tenho me preocupado com os beijos. Aqueles, encomendados e jamais entregues.

– Mande um beijo para Fulano.

Pouca gente se lembra deles depois. São os beijos esquecidos. Os que aguardam delivery, atrasados em sua missão. Muitos vão se extraviando pelo caminho. Outros, desorientados, seguem beijando o vento, os rostos anônimos e as bocas distraídas.

Deveria existir nas cidades, a exemplo da seção de achados e perdidos, um lugar especial para acolher os beijos na mesma situação. Mas só os perdidos. Porque ninguém acha beijo na rua. Ou acha? E se acha, devolve ou fica para si? Beijo achado não é beijo roubado.

Quando se faz o pedido a alguém, “Mande um beijo”, está dada a ordem ao universo, que trata de criá-lo, à imagem e semelhança da lembrança. O beijo, então, em milésimos de segundos, toma forma, cresce e nasce, deixando para trás o útero insondável do pensamento. Se acaso não chegar ao seu destino, viverá sua vida de beijo pairando sobre o planeta, imigrando entre os países, aguardando o instante da realização. Que, no caso dos esquecidos, é nunca. E beijo órfão não é beijo feliz. Nem aqui. Nem na China.

Crônica de minuto #29

Estava eu a cortar as unhas do pé do Luca. (Gesto íntimo entre mãe e filho, mais que banhar; já dei banho em alguns amigos dele, mas jamais cortei-lhes as unhas.) Num pé, fui do dedão pro dedinho. Noutro, do dedinho pro dedão. Não foi intencional, mas o suficiente para ele observar: “No esquerdo você cortou em ordem decrescente e, no direito, em ordem crescente”. Adoro mentes analíticas. De filho, então, nem se fala.

Crônica de minuto para quem tem filhos (não tão) pequenos

Ilustração: Leon Rice-Whetton/Flickr.com

Botei reparo hoje: na nossa estante há um exemplar do livro “A vida do bebê”. Aquele do doutor De Lamare, espécie de bíblia de toda recém-mãe. E que diacho ele faz ali se, em casa, o último nasceu há cinco anos? É o mesmo que manter no armário as roupas de grávida; fundamentais na gestação, elas perdem o sentido depois que o rebento vem ao mundo. (OK, ainda servem por alguns meses.) Do mesmo jeito, o livro, essencial nos primeiros tempos dos pequenos, vai se tornando dispensável, como é de esperar. Cumpriu sua missão – e que missão. Mantê-lo na estante não é exatamente como ter à disposição Grande Sertão: Veredas, A Metamorfose, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Nem como prevenção: nunca me ligaram, tarde da noite, pedindo ajuda para um bebê com cólica. É o tipo da publicação que carece de rodízio, precisa circular, ir para os pais da hora. Sem esquentar lugar em casa de criança crescida.

Fato: no desafiador jogo da maternidade, mudei de fase. O de sete já dorme fora, a de quatro acessa o You Tube sozinha. A linda bebê da capa do livro já está na puberdade. O dito cujo fará mais sentido em outras estantes. (Quem o quiser de presente, é só dar um alô.)

Fato dois: se vasculhar bem, é capaz de eu encontrar, nas entranhas da casa, objetos que marcaram os primeiros meses, ou anos, dos meus filhos. E que não fazem parte do rol das necessárias e saudáveis recordações, como o primeiro uniforme do Cruzeiro e a primeira Barbie. Culpa da distração, esquecimento ou da roda-viva do dia-a-dia, que engole até a elementar tarefa de reciclar as coisas, se acumulando aqui e ali. Ou, simplesmente, por apego. E não tem pais que resistiram o quanto puderam ao desvencilhamento do cadeirão, das mamadeiras, do peniquinho, das colheres na hora das refeições? Como se – clichê, eu sei – os filhos fossem seres da terra do nunca.

Eu poso de mãe moderna e isso e aquilo, mas terá o tal do livro na estante provado, por a mais b, que não é bem assim? Oh céus.

Nota: e o meu exemplar d’A vida do Bebê agora está em terras cariocas. Foi pelo Sedex para o simpático leitor que comentou aí embaixo. Tomara que, depois que a filhinha dele crescer, o livro vá igualmente parar noutras estantes, onde possa continuar sendo útil aos papais e mamães.

Crônica de minuto #28

Abri aleatoriamente o caderno que uso para trabalhar, queria uma folha em branco. E folha em branco se arranca do meio, nunca a próxima livre. Ali, encontrei desenhos das crianças: um trem comprido e uma minhoca com laço na cabeça. Não tive dúvida sobre quem fez qual. Fiz de conta que era uma surpresa para mim, beijá-los era urgente. E há quem não acredite que a arte transforma a vida.

Crônica de minuto para quem tem medo de dentista

Nina apanhou lápis, borracha, e pediu que eu sentasse na poltrona. Sentei. Mandou-me abrir a boca. Abri. Acendeu a luminária, ajustou-a sobre meu rosto e avisou: “Eu sou a dentista”. Com o lápis, examinou meus dentes: “Você está escovando direitinho!”. Ufa. Notou, porém, algo no primeiro molar. Passou a borracha. “Saiu”.

Já pensou? Dente torto redesenhado. Cárie apagada num piscar de olhos. E giz de cera branco na mácula deixada pelo cafezinho. Consultórios dentários funcionariam ao lado das papelarias. Seria a extinção dos motores, agulhas e cheiros esquisitos.

Ao final da breve consulta, ela me ofereceu um espelho. Não é que meu sorriso estava mesmo diferente?

Crônica de minuto #26

Sempre que estou com a página do Facebook aberta, meus filhos se penduram no meu ombro e vão perguntando: “Quem é esse?”, “Quem é essa?”. Muitos eu não conheço, são amigos dos amigos. A imensa galeria de gente forma, de fato, um mosaico de vidas para lá de interessante. Às vezes, dá vontade de brincar de responder: “É o inventor do purê de batatas”. “É a moça que dubla a Jessie no Toy Story”. “É o dono da vendinha da rua de baixo”. Só para ver a cabecinha deles trabalhando. Não seria maldade, seria?

Crônica de minuto para quem está com fome

Quinta-feira, meio-dia. Recorro ao self-service da padaria. Se Jesus Cristo viesse filar a boia em casa, sem avisar, teria de topar dividir o marmitex. Sem muita vocação para ir além dos pães e doces, o lugar é bom de atendimento e a gente releva. Por isso, obedeço à mensagem no saquinho do pão, e volto sempre.

Pinço meia-dúzia de batatas no buffet e uma guarda da Guarda Municipal, farda azul-marinho e brincos miúdos, encosta no balcão. Chama o rapaz da balança no canto, quer ter um particular com ele. Fala-lhe baixo ao pé do ouvido. É feio prestar atenção na conversa dos outros, então faço a primeira coisa feia do dia (o brigadeiro no café-da-manhã, escondido das crianças, não conta; é a TPM). A guarda quer saber se pode pagar a quentinha depois. Pediu fiado. E seu olhar envergonhado denunciou: nenhum treinamento da corporação foi capaz de lhe preparar para a situação.

Guarda não é anjo da guarda, que vive de energia cósmica. Carece de arroz com feijão para patrulhar a cidade. Mas nem sempre o vale-refeição dura até o fim do mês. A minha vontade de lhe pagar o almoço só não foi maior que o medo dela chiar.

Se todo comerciante avisa seus clientes que “fiado, só amanhã”, a quinta-feira virou sexta.

Crônica de minuto #25

Após longo verão, minhas botas saíram para passear. Estranharam a casa: “Esta estante é nova”, disse o pé direito. O esquerdo emendou: “O gatinho preto também”. No quintal, encantaram-se com as pencas floridas da primavera. E logo se entristeceram: não sabiam que Bodhi, a cachorrinha, havia morrido. Falaram que engordei e que meu cabelo está melhor assim. Passei um café, elas ficaram surpresas. Sim, eu aprendi a fazer.

Crônica de minuto #24

Falei palavrão – dos cabeludos – na frente da cria. Saiu, escapou, fazer o quê. Eles me enlouquecem quando fingem não me escutar. Pedi oito vezes para colocarem o uniforme, hora de ir para a escola. E eu tinha reunião em seguida. Gente grande é escrava do relógio. Gente pequena, da brincadeira. Tempo e diversão são coisas que não combinam. O palavrão foi o jeito que meu cérebro encontrou para resolver a parada, aplacar a fúria, impedir uma implosão. E, claro, evitar o atraso.

Os dois me lançaram um olhar de incompreensão. Então pode?

Incoerência materna é bicho de muito mais que sete cabeças. Faça o que eu digo, mas não fale o que eu falo. Um bom palavrão na hora certa é bálsamo para o coração em ebulição. Por que esconder isso da criança? O que há, afinal, por trás do bom-mocismo linguístico?

Lancei mão do silêncio para lidar com o desconcerto dos pequenos. Não fiz a emenda; o soneto já estava destruído. Porém, se é que alguém quer saber, funcionou: os dois se vestiram em segundos. Assentar o episódio aqui dentro levou mais tempo.

Crônica de minuto #23

Para lavar o carro é R$ 25. Mas por conta dos farelos de biscoito, caixinhas de Toddy (com canudinho melecado), chiclete no tapete, um Bis esquecido e derretido no porta-treco e mais alguns materiais orgânicos irreconhecíveis sob os bancos, eu paguei R$ 30. E nem pude reclamar. Isso porque recolhi antes todos os brinquedos que estavam espalhados. O que polui o meio ambiente não é fumaça de escapamento. É filho.

Crônica de minuto para quem está com pressa

Quando eu era pequena, sempre que passava, à noite, pelas estradas em obras, deslumbrava-me com a iluminação. Tão bela. Pontos de luz cor de âmbar enfileirados ao longo da via, parecia Natal. No dia em que passei mais devagar por eles, descobri: não passavam de baldes de plástico cor de laranja com uma lâmpada comum dentro. Decepção instantânea.

Toda ilusão que se revela corre riscos. Coelho de mágico sabe o que estou falando.

Sempre achei bonitos aqueles desenhos que os baristas fazem na espuma de leite dos espressos. Um singelo coração, pulsando na batida do grão de café. Uma doce palavra boiando, o recado está dado. Um efeito caleidoscópico, a alucinar a xícara. Por um instante, deixo a mágica intacta; sei que não resistirá ao bombardeio do açúcar. Deve ser fácil fazê-los, mas não quero aprender (e ver que são como os baldes). Prefiro o mistério que os envolve, assim o encanto se perpetua.

No seu próximo cafezinho – que será daqui a pouco, eu sei que você está com pressa –, pense nisso.

Crônica de minuto #22

A caminho de casa com a Janis Joplin berrando por um verão, espio pelo retrovisor do carro e dou de cara com o por-do-sol mais lindo de todas as estações. Estaciono para vê-lo melhor. Falo para as crianças, no banco de trás, olharem também. E meu fim de tarde vira cinema. Eu entendo a sua cantoria, baby. Semana que vem já é outono. Don’t you cry.

Crônica de minuto para quem enxerga bem

Ilustração: Jeff Turner/Flickr.com

À minha frente, na fila, ela chegou a esbarrar em mim. Desculpou-se. Não foi nada, respondi. Pediu um pão de queijo, um espresso, quis saber se tinham macaron. Quando o gerente do café, Thiago – não posso ver crachá, que leio –, aproximou a maquininha do cartão da mão tateante da moça, foi que notei. Era cega. E estava de salto alto. Eu, que tenho dois olhos funcionando bem, não me animo a reativar os meus, empoeirando no armário.

Olhos cegos não são olhos desligados. Tampouco são como aqueles bolsos falsos, só decorando a roupa. Olhos cegos inventam para si outra função. Aprendem o invisível. Farejam o oculto. São bolsos onde a alma guarda alguns dos seus segredos.

O Thiago, que enxerga longe, não só a ajudou na hora de pagar, como a acompanhou até a mesa. Fez a acessibilidade na prática, recheada de gentileza.

O contraponto: no final do nosso lanche o Luca, sete anos, quis mais um croissant. Dei-lhe três reais, deixei-o ir comprar sozinho. Ele ficou na fila, bonitinho. Na sua vez, o Thiago não o enxergou junto ao balcão que tinha quase a sua altura, e já ia atendendo o próximo freguês. O que os olhos do Thiago não viram de perto, meu coração sentiu de longe. Levantei-me e fui ao caixa, ajudar meu filho.

Enxergar ou não enxergar. Eis a questão.

Crônica de minuto #21

Criança de colo ainda, conheceu três orfanatos. Sempre o mesmo enredo, não havia lugar para ele. Nunca houvera, enfim. Sequer no útero original foi bem-vindo; ele é que não obedecera às ordens de despejo. Da infância, cerzida a caridade, só recordava dos confetes de papel colorido que ganhava na quarta-feira de cinzas. Os que haviam sobrado. Aprendeu a fazer festa depois da festa. Fez alegoria da solidão. Inventou sua história com os pedaços de vida que os outros não queriam mais. Vida de retalhos que não combinavam entre si. Teimou tanto em ser feliz, que um dia costurou e vestiu sua própria fantasia de alegria. Nunca mais tirou.

Crônica de minuto #20

Adoro aquelas plaquinhas que se vê nas ruas, “Possui CNH e não dirige?”. Penso em tudo que estamos habilitados e autorizados a fazer, mas não fazemos. Por causa da preguiça, do medo, da falta de tempo, da chuva, do sol. Vou espalhar umas por aí, também: “Possui boca e não sorri?”. “Possui mão e não faz carinho?”. “Possui sabedoria e não usa?”.

Crônica de minuto # 19

Quando meus cabelos iam até a cintura, as pessoas diziam “Que cabelo lindo”. Depois que passei a usá-los curtos, bem curtos, as pessoas passaram a dizer “Que cabelo bacana”. Lindo é diferente de bacana. É como se cabelos curtos não estivessem autorizados à beleza. Só à bacanice. É o paradigma do cabelão, dando nó no mito do feminino. (Pense nisso quando for lavar os seus.)

Crônica de minuto # 18

Na água fervente, o espaguete vai cozinhando. Na hora de experimentar-lhe o ponto, já quase al dente, nada de pinçar um fio só. Apanho logo uma boa meada, encho o garfo. Não economizo na degustação, meu jantar começa ali. Renego a antiga lição de que se deve provar apenas um tiquinho das coisas que cozinham. Farto-me de uma vez, direto da panela.

Crônica de minuto # 16

Sou uma taurina cercada de aquarianos por todos os lados. Pai, dois irmãos, duas cunhadas, uma tia, um punhado de grandes amigos e uma penca de ex-colegas de trabalho. Sou uma verdadeira ilha, com seres de ar à minha volta. Eu, que sou terra pura, e das vermelhas. Para completar, uma vertente da astrologia afirma que já estamos na Era de Aquário. Estou n’água.

Crônica de minuto #14

Fazia tempo que eu não me via no meio de uma ligação cruzada. Pensei que a tecnologia havia deixado isso lá atrás, junto com os aparelhos telefônicos de disco. Não deixou. À minha conversa com a cunhada, hoje pela manhã, fragmentos de outra vieram se misturar. Uma tia adoentada, chuva e – acho – viagem para a praia. Os sujeitos, ocultos, nada suspeitaram da escuta involuntária. Ao desligar, a dúvida. O que será que a tia tinha?

Crônica de minuto #13

Luca saiu do banho e, peladão, passou a toalha pelo ombro e pelo quadril. “Olha, mãe. Minha faixa de presidente”. Ri. Mas não sei se gostaria de vê-lo, um dia, tomando conta da república. Se alguém falasse mal dele, eu ia lá tirar satisfação. Mãe é mãe. Melhor, portanto, resolver isso já: “Vai pendurar essa toalha e por pijama, menino”.

Crônica de minuto #12

Tinha quatro brincos na orelha da moça que comprava Chicabon. Estava na minha frente e eu vi. Ela contou ao rapaz do caixa: trabalhava quatro dias por semana em casa de família. Quatro ônibus, dois para ir, dois para voltar. Era quarta-feira, passava um pouco das quatro da tarde. E há quem diga que fazer supermercado não tem graça.

Crônica de minuto #11

Joguei memória com as crianças, era de bichos. Acertei três, só. Não sou boa em lembrar das coisas passageiras, ainda mais aos pares. Meu negócio é o passado, com recordações tão eternas quanto únicas. Vou virando uma por uma, e não encontro nenhuma igual à outra. Crio, assim, meu próprio jogo: algumas eu deixo viradas para baixo – não fazem falta. Outras, para cima. Para sempre.

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Para Nara.

Crônica de minuto #10

Pelo rádio do carro, o Roger me pergunta: “Quem é você?”. Respondo, confiante. Digo meu nome e meia dúzia de palavras que me definem. E vou me distraindo com as coisas da rua, tem loja nova no quarteirão de cima. Ele não se dá por satisfeito, realmente quer saber. Insiste na questão, tantas vezes que fico doida. Eu sei, ele quer me testar. Só para ver se uma hora eu vacilo e erro a resposta. Nem vem, Roger. Nem vem.

Crônica de minuto #9

Luca saiu do banho, vestiu o pijama, enfiou as pantufas, botou o videogame embaixo do braço e, imitando gente grande, avisou: “Vou para uma reunião”. Quando ele crescer e for trabalhar, tomara que não perca esse sorriso. Afinal, no trabalho é tudo mais ou menos como um jogo. Tem objetivos, fases, conquistas, derrotas, amigos e, de vez em quando, inimigos. A diferença: nem sempre dá para apertar um botão e desligá-lo. Mas até lá isso pode ter mudado.

Crônica de minuto #8

Fiz como Deus pediu: cresci e multipliquei-me. Só que Ele se esqueceu de dizer o que fazer com os ‘produtos’ nas férias escolares. Os meus, por exemplo, estão na sala, entediados porque lá fora é só chuva. Procurei uma resposta – ao menos uma dica – nas Escrituras, e necas. Espertinho, Ele. Ou então, eu que sou ruim em matemática.

Crônica de minuto #7

Todo dia, o gato vem zanzar na frente do computador enquanto eu escrevo no blog. Se roça em tudo, como quem diz “Estou aqui”. Até a hora que – não falha – ele derruba a webcam com o rabo. Todo dia, eu reclamo. Todo dia, ele se faz de desentendido. Todo dia me levanto, recoloco a câmera no lugar e ele ganha um afago. Todo dia, ele salta da mesa e vai embora, feliz. É o nosso jeito de discutir a relação.

Crônica de minuto #6

Meu creme antissinais acabou junto com 2010. Hoje, último dia do ano, vi que ele não chegará a 2011. Passá-lo em meu rosto todos os dias é um claro sinal de que o tempo, esse sim, passa. E mais: não espera ninguém. Tenho que providenciar refil. Só para o creme, no entanto. Para o tempo, infelizmente, não há.

Crônica de minuto #5

Nina encheu de coxinhas suas pequenas mãos, numa festa de aniversário, na hora de ir embora. Perguntei por que fazia aquilo, e ela respondeu: “Porque em casa não tem, mãe”. Precaução, para as crianças, tem outro significado. Vergonha, pelo jeito, também.

Crônica de minuto #4

Fiquem vocês sabendo: as roupas que não usamos mais, mas que continuam guardadas nos armários, ganham outra função: vestir as almas que vagueiam pela nossa casa. Elas aproveitam tudinho. Portanto, se não quiserem ver alma penada, nem pelada, melhor dar um destino à coisarada.

Crônica de minuto #3

No avião, o moço da poltrona ao lado apanhou o celular e, antes de desligá-lo, contemplou demoradamente as duas meninas que lhe sorriam através do display. Suas filhas, não tive dúvida. Assim como não tive dúvida dos seus pensamentos naquela hora. O amor é uma coisa tão previsível. Mas só de vez em quando.

(E dá um belo papel de parede.)

Crônica de minuto #2

Quando eu era pequena, sempre ganhava cortes de tecido de presente, geralmente das tias. Que viravam, pelas mãos da minha mãe, vestidos e blusas. Ninguém mais me dá cortes de tecido. Acho que é porque nem tenho mais tantas tias. Ou então, porque minha mãe não está mais aqui para fazer minhas roupas. As coisas todas têm suas razões.

Crônica de minuto #1

Não tem nada melhor que lavar louça ouvindo Rolling Stones. Nada. Podem largar a cozinha por minha conta. Mandem os talheres, assadeiras e tupperwares. Lavarei os pratos do mundo de bom grado. Esponja e detergente são meus, ninguém tasca. Panela ensaboada sob os acordes de “Beast of burden” jamais será a mesma. Há de fazer um feijão mais saboroso, deixar o arroz mais soltinho. Louça lavada, alma idem.