Vai ou racha

Ilustração: Adreson Vita Sá

Nada deve ser mais ocultado num casamento que calcanhar rachado.

É preferível revelar o que aconteceu naquela viagem a Porto Seguro quando vocês ainda namoravam, fornecer detalhes da república onde você morou no tempo de faculdade, falar das suas vadiagens adolescentes e até confessar que já beijou uma mulher, a expor na relação um par de calcanhares prejudicados. Será o fim. Restará, apenas, decidir quem fica com a Nespresso.

Antes seu marido descobrir que não foi você a autora do salmão ao molho de gengibre que o conquistou no primeiro jantar na sua casa, que você espia o Facebook do sócio dele todo dia e que aquele vestido não custou cento e cinquenta reais, do que vocês terem uma noite de amor interrompida por um carinho, digamos, mais cortante sob os lençóis. Pior: ter que explicar por que namora sempre de meia soquete.

E a culpa é toda sua. Passa o verão metida em rasteirinhas, anda descalça pelo quintal curtindo sua fase natureba de “conexão com a terra”, capricha no hidratante da região superior e negligencia a inferior. Pensa que só as formigas e seres rastejantes notam seus pés e que semiárido é somente uma região do nordeste. Não, querida. Passível de justa causa, sola de pé desertificada tem peso dois em relação à celulite. Depois não reclame. Nem chore de saudade dos tamancos e dos sapatos Chanel.

Se o problema lhe assolar, mantenha o segredo a sete chaves (e jogue todas fora). Veja o que aconteceu a Aquiles. Em períodos de seca, para poupar o relacionamento e a palmilha dos seus calçados, lance mão de tudo que disserem para você fazer. De simpatias a receitinhas caseiras – sempre escondida, na calada da noite. Invista uma grana preta naquela dermatologista que não atende nenhum convênio. Faça promessa para Santa Rita, a das causas impossíveis. Se nem ela topar, peça emprestado ao marceneiro de sua confiança a lixadeira e a politriz. Recorra ao SUS.

Ou vai, ou racha.

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5 comentários sobre “Vai ou racha

  1. Silmara, este seu texto é sensacional!!!
    Eu me auto-intitulo “matuta do pé rachado” (porque nasci no interior de Alagoas), mas abomino um pé rachado. Sou daquelas que não botava os pés no chão, exigência de minha mãe, que sempre me dizia para eu NÃO ser uma “matuta do pé rachado”. Ela, lá, conhecia certos segredinhos que eu ainda não desconfiava quando era menininha.
    Nenhum namoro resiste a isso. Se chegou a casamento, é porque o moço certamente era desavidado… beijos,

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  2. Caros e caras: algumas pessoas não estão conseguindo postar comentários aqui… Sorry, eu não sei o que está acontecendo 😦 Vou tentar ver as configs. Tem um link desse post no meu Facebook, e sempre há o email. Beijos!

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  3. Sabe que eu nunca havia pensado nisso??? hahahahaha
    Os segredos inconfessáveis que você citou são mesmo piores do que um calcanhar áspero! E um salve à minha podóloga!!! \o/
    Bjoooo

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