Folguinha.


Para Rubem Alves

 

Campinas, 2000

Das primeiras vezes que saímos juntos, ele me levou a um bar chamado Dalí. Eu ainda não sabia, mas estava diante do pai dos meus dois filhos.

O Dalí ficava numa casa grande e charmosa, com mesas espalhadas pelo quintal, ao pé de uma antiga árvore. Pouco guardei do lugar na memória, exceto, talvez, a árvore. Eu não sabia, mas o dono, da casa e do bar, era o Rubem Alves.

O bar não teve vida muito longa.

 

2010

O mais velho fez seis anos e mudou de escola. Foi para o primeiro ano. A escola é em outro bairro e o caminho novo se tornou o itinerário de todo santo dia, duas vezes ao dia, na ida e na volta.

 

2013

A amiga mostrou um folheto. Restaurante novo, perto da escola. Eu já havia visto a placa. Afinal, passávamos em frente a ele todo santo dia, duas vezes ao dia, na ida e na volta. Disse ela que a comida era boa, então fomos lá almoçar. Depois, seria só deixar as crianças na escola, a dois quarteirões dali.

A amiga tinha razão, a comida era boa. E o restaurante ficava numa casa grande e charmosa, com mesas espalhadas pelo quintal, ao pé de uma antiga árvore.

Troco dois dedos de prosa com a dona. Eu não sabia, mas estava no velho Dalí, agora sob novo nome – Flor de Pimenta – , nova direção, novo tudo.

Não me dei conta de que estava, com meus filhos, na mesma casa onde funcionara o bar em que fui com o futuro pai deles naquele ano de 2000. São os nós, ou laços, ou voltas, do tempo.

Nem percebera que, há quatro anos, passo ali em frente. Não reconheci a rua, por certo mudada desde aquela época.

Quantos fatos semelhantes devem, neste exato instante, rodear minha vida, sem que eu os note? Quantas coisas vivo e revivo o tempo todo, sem saber das conexões que as envolvem? Quantas pessoas encontro, não por acaso, mas por obra de um inteligente e certeiro objetivo? Quanto, daquilo que importa, ainda não sei?

A vida deveria vir com um alerta automático, um bipe universal, notificando cada acontecimento que merecesse um pouco mais da nossa atenção.

 

2014

O restaurante, assim como o bar, também não teve vida longa. Mal abriu, fechou.

Rubem Alves está internado desde o dia 10 de julho no Centro Médico de Campinas, com infecção pulmonar. Desejo que ele viva muito, mas também desejo que esse tão-tão-querido siga seu melhor caminho, seja qual for. (Ninguém tem “bem” no nome à toa.)

O meu, já sei: em dez dias as crianças recomeçam as aulas, e será hora de tornar a fazer o mesmo itinerário de todo santo dia, duas vezes ao dia, na ida e na volta, e passar em frente à árvore do velho Rubem.

Independente de qualquer coisa, sigo aguardando, confiante, pela invenção do tal bipe universal.


Roupa de sonhar

arte: Andrea Joseph

arte: Andrea Joseph

Tenho dois pijamas de frio e quatro de calor. Moro, afinal, num patropi.

Tirando um, dos de frio, adquirido por ocasião de viagem e receio de topar, mulambenta, com algum hóspede no corredor do hotel, os demais foram todos presentes. Não tenho o hábito de comprar. Assim como em ações, não sei investir em pijamas.

Sempre que saio disposta e decidida a renovar meu guarda-roupa noturno, volto para casa com sapatos novos, um livro da Adélia Prado, uma bolsa, um anel. Retorno de mãos cheias, mas não de pijamas. Posso esperar até o Natal.

Pijamas permanecerão ocultos sob o edredom, na maior parte de sua vida útil. Por isso, tenho tendência a achá-los sempre caros. Considerando que nem marido, nem Morfeu, ligam se durmo de Any Any, Victoria Secret ou moletom velho da Hering, as súbitas mudanças de planos quando vou às compras fazem certo sentido.

Meus pijamas, claro, também zanzam pela sala, pela cozinha, pelo quintal. Eventualmente, se transformam na roupa oficial do dia, em finais de semana tão preguiçosos quanto eu. Passeiam na rua, também, em caso de resgate do gato fujão. Nessa hora sou lépida, como se a velocidade me tornasse invisível. (Invisível fica o gato.)

E, apesar de preferir ganhá-los a comprá-los, engana-se quem pensa que não os valorizo, que os subestimo. Ao contrário: não é qualquer um que levo para cama.

O bom pijama é aquele que conhece você tão bem quanto seu melhor amigo. Sabe deixá-lo à vontade, não lhe pressiona; só lhe quer por perto. O bom pijama também é como filho: você o reconhece pelo cheiro, o seu cheiro. Se alguém falar mal dele, você vira fera. Se ameaçam separá-los, incluindo-o na sacola de doações para a igreja, é caso de polícia.

Pijamas vestem o corpo enquanto a alma, ao dormirmos, passeia nua. Nunca estou de pijama em meus sonhos, a roupa é sempre outra, inventada. (Mais um motivo para não investir demais na peça.)

Na Mooca da minha infância havia um senhor que ficava de pijama na porta de sua casa, provavelmente o dia inteiro, conferindo o movimento na rua. Cumprimentava todos que passavam por ele, conhecidos ou não. Sempre bem arrumado, pijamas novos. Devia ter bem mais de seis modelos. Minha irmã e eu o apelidamos de Pijamildo. Ele parecia meio lelé. Só não sabíamos que a pijamice era, na verdade, sua melhor lucidez. Pijama é o uniforme da escola de sonhar.


Deus salve os stewards

Steward: profissional que cuida da segurança interna dos estádios. Ficam de plantão nos pontos nervosos, como entradas de vestiários e acessos às arquibancadas. No campo, postam-se de costas para o jogo, em constante vigilância da torcida. Missão: apaziguar os mais invocados, garantir que nenhum engraçadinho tente beijar o Messi. Colaborar, enfim, para que tudo saia nos conformes.

Deus salve os stewards.

Stewards não se distraem ou olham para os lados. Para trás, o campo, nem pensar. (Penso nos cavalos obrigados a usar anteolhos, para que enxerguem somente o caminho à frente.) Stewards não estão ali para torcer. Não assistem um minuto sequer dos noventa. Sentem que tem gol a caminho pelo crescendo da galera. Sabem do lance perigoso porque a arquibancada treme. Veem refletidas no convexo coletivo dos olhos dos torcedores cada bola na trave, cada pênalti cobrado e pago à vista.

Stewards dispensam qualquer emoção, perdem os melhores lances, não acompanham a engenharia da partida. Sou eu que vejo, pela tela HD, a gota de suor na testa do jogador da Bélgica. Eu que decifro a tatuagem do Sneijder. Eu que testemunho a L3 do Neymar ir para o beleléu. Stewards vão à Roma e veem o Papa pelo replay.

Stewards são impávidos. Stewards não comemoram. Stewards não tiram selfies. Stewards não paqueram as musas. Stewards são os excluídos da festa. Foram convidados mas não podem dançar, nem tomar umas. Estão de castigo. Lembram? Antigamente, colocavam-se as crianças de castigo viradas para a parede. A torcida é a parede do steward.

Stewards não roem as unhas, não agitam bandeiras, não xingam, não rezam. Mas também não infartam. O que os olhos não veem, o coração não sente.

Stewards são muitos, uniformizados, mas é como se não estivessem ali. A invisibilidade é verde e laranja.

Deus salve os stewards.


A verdade sobre comer, rezar e amar

arte: Paul Downey

arte: Paul Downey

Há no mundo um exército dedicado a nos convencer de que cozinhar é uma experiência próxima ao nirvana, o maior ato de amor, a epifania máxima.

Cozinhar pode ser literalmente delicioso, quando rotina, obrigação e horário não estão na parada.

No combate ao mimimi culinário, minha colher de pau e eu estamos aqui para lhes dizer, ó chefs afetivos, que o negócio não é bem assim.

A magia de poder preparar no fogão o alimento da ou das pessoas amadas, embora real, não se aplica a quem precisa fazê-lo todo santo dia, sob a vigilância implacável do relógio e da agenda.

Fora isso, é, de fato, estimulante preparar aquele peixe com molho de não-sei-o-quê guarnecido com lascas de não-sei-que-lá junto com os amigos. Fora isso, faz sentido sovar longamente a massa do pão integral e esperar, como numa gestação, que ela cresça, forte e bela. Fora isso, dá vontade de fotografar o cuscuz lindão e postar no Instagram. Fora isso, pinta alegria ao ver como o bolo de cenoura ficou fofinho e as crianças vibram ao saber que vai ter cobertura de chocolate também.

Há dias – não  poucos – em que cozinhar resume-se a um ato mecânico, necessário para cumprir o protocolo diário (em especial de quem tem filhos pequenos) e atender a uma necessidade fisiológica, sua ou de outrem. Uma pitada de carinho, às vezes nem isso, porque a cabeça está em outras paragens, e pronto. Todos alimentados? É o que importa. Vamos, estamos atrasados.

Há dias – muitos – em que não há poesia alguma no ato de cozinhar. Como naqueles onde eu preciso correr para preparar e servir o almoço a tempo de as crianças não se atrasarem para a aula. Não há ternura possível na produção da torta de legumes quando o relógio, cinicamente, parece andar no fast-forward. Não posso impregnar o suflê, o arroz, o feijão e a salada com boas energias se não avisto mais o fundo da pia, a ajudante ligou dizendo que não vem e a reunião é às duas.

E mais: haja amor e criatividade para compor cardápios diários balanceados com proteínas, leguminosas, carboidratos, hortaliças e tudo que a pirâmide alimentar exige. Quisera ser faraó e viver embalsamada para não ter mais que decidir o que vamos comer. Peço perdão pelas fadas que sepultei, recorrendo ao velho Miojo. Não resta dúvida de que serei exemplarmente condenada pelo fadicídio, quando estiver diante de Deus prestando contas.

Nessas horas, penso que sou uma espécie de alien que pariu. Passo a me autoclassificar como mãe desnaturada, relapsa, sem coração. Mas há algo bastante errado quando o significado de férias é não precisar fazer varejão. Se minha relação com os brócoles, as cenouras e os tomates anda desgatada, lanço mão do self-service. Nem toda cozinha industrial será castigada.

O lirismo permanente do ato de cozinhar, tão declamado pelos soldados da comida afetiva, fica bonito no cinema, na fotografia com frase de efeito que circula no Facebook, na prosa do Mia Couto. Mas quase não combina com o meu dia-a-dia de gente normal. Só de vez em quando.


Jardim da infância

arte: Julie

arte: Julie

Não é o diretor, a pessoa mais importante de uma escola. É o jardineiro.

Um diretor cuida de alunos. Um jardineiro cuida de plantas. Todo aluno é uma espécie de planta.

Seu Clóvis era o diretor. Sisudo, austero e formal, como exigia o personagem. Sempre de terno cinza. De poucas aparições. Às vezes, surgia de surpresa durante a aula, tínhamos de ficar em pé. Eu tinha medo dele.

Seu Teodoro era o jardineiro. Amável, calado e introspectivo, como exigia o personagem. Sempre de macacão azul-marinho. Podia ser visto quase todos os dias entre as roseiras ou podando os pinheiros. Eu não tinha medo dele.

O que aprendi nos nove anos que passei ali, do pré-primário ao ginásio, o que absorvi das ciências e das geografias, o que sofri com as matemáticas e o que viajei com as letras foi definido, de certa forma, pelo Seu Clóvis.

Seu Teodoro não me ensinou nada.

É dele, no entanto, que me lembro quando passo em frente à velha escola estadual de primeiro grau. Seus pinheiros, ladeando a escola inteira, ainda estão lá. Não me parecem mais tão felizes como eram sob seus cuidados. Ou eu que prefiro pensar assim. A nostalgia é uma lembrança com photoshop.

Procuro o Seu Clóvis no Google. Encontro várias referências, memórias de ex-alunos – de amor e ódio – espalhadas nas comunidades virtuais e em páginas antigas do Diário Oficial.

De Seu Teodoro não se encontra nada. Ninguém parece se lembrar dele, quarenta anos depois. Exceto a garotinha sardenta que morava a um quarteirão dali. Se vivo, ele seria do tipo que não acessa internet, não tem email, nem smartphone. As plantas são a única, fundamental e melhor rede social para um jardineiro. Nem tudo precisa estar no Google para ser importante.

O nome Clóvis significa “guerreiro célebre”. Teodoro, “presente de Deus”. Nada é por acaso.

Da rua, não se vê mais o jardim do velho Teodoro através das compridas grades de ferro. Porque não tem mais grade. É tudo muro, agora. Sinal dos tempos. Só se avista, da rua, os pinheiros da cintura pra cima. Seu Teodoro certamente não aprovaria a tristonha intervenção arquitetônica que escondeu do bairro o seu jardim e, por tabela, suas crianças de uniforme.

Nunca soube o nome, nem o rosto, nem nada, dos outros jardineiros que assumiram suas plantas depois que ele foi embora. Nem nas escolas onde estudei depois. Deve ser por isso, e somente por isso, que chamam essa época de jardim da infância.


Crônica de minuto #56

Pizzaria nova no bairro, do amigo de meu pai. A amizade era grande e ele até emprestara seu talento publicitário, sugerindo o nome e desenhando a logomarca para o lugar.

Assim que abriu, fomos. Prestigiar a amizade e a placa na entrada, de co-autoria do seu Tonico.

Elogiadas as instalações, dado o dedo de prosa com o dono-amigo – que veio, orgulhoso, cumprimentar todos à mesa – , avaliado o cardápio, pedidas as bebidas, era a hora. “Vamos escolher?”. Pensa daqui, pondera dali e, com pleno exercício da democracia, chegamos à eleita: quatro queijos.

Pizza chega, a família se entreolha.

Cada quadrante estava preenchido por um dos quatro recheios, separadamente. Ao nordeste, a mussarela. No sudeste, provolone. Ao noroeste, o catupiry. No sudoeste, parmesão. Separados pela fronteira imaginária estabelecida pelo pizzaiolo, os queijos não se falavam. Não rolou a orgia queijística a que estamos acostumados. Nem o sincretismo laticínico. Era ado, ado, ado, cada queijo no seu quadrado.

Redondo, no caso.


A Copa do meu mundo

Arte: Juliana Alia

Arte: Juliana Alia

Fecho os olhos com força: eu, três anos recém-completos. Minha mãe estourando pipoca na panela. Do meu ponto de vista, o fogão é mais alto que eu. Ela desliga o fogo, transfere a pipoca para uma vasilha, pulveriza o sal, encosta a porta que dá para o quintal e me chama, “Vamos?”. Para a sala, nos juntar aos outros. A partida vai começar. Ou já começou. Ou está no meio. No fim. Não importa.

Copa de 70, México.

Não sei se a pipoca antológica foi no dia do primeiro jogo, quatro gols em cima da Tchecoslováquia. Ou se foi quando fizemos um a zero contra a Inglaterra. Ou no dia dos três a dois na Romênia. Pode ser que tenha sido quando o Peru perdeu da gente por quatro a dois, ou quando vencemos o Uruguai por três a um. Quem sabe, foi no dia da épica final: quatro a um na mais-que-bela Itália, e a Jules Rimet era nossa.

Só sei que é na cozinha que moram as melhores lembranças.

Hoje o Brasil enfrenta o México. Não tem Pelé, nem Jairzinho, nem Gerson, nem Tostão, nem Rivelino. Tem outros. E tem pipoca, também. Pipoca é quando o milho faz gol.

Eu tinha uma Susi Mexicana. Susi é a irmã brasileira da Barbie, nascida no final dos anos sessenta, e já falecida. Ela vinha com uma roupa típica e tinha o pescoço mais longo que das outras Susis. Cresci achando que todas as mexicanas eram pescoçudas. Nunca fui ao México. Mas li que havia pipoca nas pirâmides astecas, há quatro mil anos.

Esta é a décima segunda copa da minha vida. Há sete sou órfã da pipoca materna. E o mundo é tão redondo que hoje, n’alguma cozinha deste país, haverá uma menina de três anos aguardando sua mãe terminar a pipoca, não mais de panela, mas de microondas. Ela vai transferi-la para uma vasilha, pulverizar o sal, encostar a porta da cozinha que dá para o quintal e chamá-la, “Vamos?”. Ela irá. Tem sempre uma partida começando.


Os estranhos

“Silêncio”, Paris, 2014 – Simone Huck

 

Eu tenho.

Você também.

Todo mundo tem.

No álbum de fotografias daquela viagem a Paris. Ou Foz do Iguaçu. No registro, feito pelo garçom mal-humorado, da turma reunida na pizzaria, ano passado. Na foto tirada pelo celular na festa junina do seu filho.

Lá estão eles: os estranhos.

Os desconhecidos que participam das suas fotografias e são adicionados às suas recordações. Pessoas que você não sabe e nunca saberá quem são. Um exército de incógnitas humanas marcando presença na sua intimidade. Coadjuvantes do acaso. Interferências imagéticas eternizadas no enredo da sua vida. Gente que habitou o mesmo cenário que você, no instante da imortalização de um fato.

É quase impossível evitá-los, vêm junto com o clique.

O casal que também curtia a lua de mel e algum frio sob o Arco do Triunfo. Ou Usina de Itaipu. A criança irrequieta, e por isso ‘borrada’, na mesa ao lado da sua, na pizzaria. Os padrinhos da parceira do seu filho, em pleno momento tietagem depois da dança de quadrilha.

Quem é essa gente toda? Que histórias de vida têm, o que faziam ali, onde estão agora?

A mulher gorda e incompleta no canto esquerdo daquela foto do seu ex, no parque. Ventava naquele dia, o cabelo dele desalinhou. Um ano depois, o namoro também.

A turma atrás de você na fila da montanha-russa. Pelos traços e cor dos cabelos, ao menos dois são irmãos. Será que você também está no álbum deles? Seus cabelos, talvez.

O homem só, de costas, na escadaria da igreja escolhida por você para plano de fundo da última foto do último dia das suas férias. Que ano, mesmo?

E todos os fragmentos de corpos e objetos, cabeças, pés, mãos, bolsas. Centenas de recortes de vidas mescladas, por um átimo, à sua. Para sempre.

No instante congelado, há quem estabeleça afeto com o estranho de suas recordações. O amigo confessou que, em seus sonhos mais secretos, ainda nutre esperança de reencontrar a moça de cabelos vermelhos cujo rosto ele só sabe os olhos. Verdes? Acidentalmente, ele a registrou comprando postais, no por-do-sol mais lindo que já houve. Piazza Catullo, Riva Del Garda, Itália, outono de 1997 – para o caso de alguém ter alguma informação.


Onde está o quarenta e três?

Em pronto-socorro, urgências e emergências são numeradas. Noventa e oito, trezentos e dezesseis, cento e vinte e dois. Fratura passa na frente de febre, virose vem depois de intoxicação.

É como praça de alimentação do shopping, onde fomes também são numeradas. A senha avisa quando a comida está pronta. No hospital, a senha avisa quando o socorro está pronto.

A senha do meu pai é um-sete-um. Ele gosta de prestar atenção aos números chamados no painel, pii, pii. Esbraveja quando o um-sete-dois é convocado. Acha que passou na sua frente. Explico: não está em sequência, depende da prioridade, da especialidade. Ele entende, depois esquece. Aparece o cinquenta e ele desanima, “Ih, tem mais de cem antes de mim”.

Onde é que retira a senha da paciência?

Meia hora de espera num pronto-socorro é suficiente para decorarmos o local, as placas de sinalização, nos familiarizarmos com os funcionários que vão e vêm. Nos habituamos até com os pacientes. Dependendo, viram amigos por um dia. Pena que o assunto é sempre doença.

O painel apita: senha quarenta e três.

Ninguém se levanta. Quem está em pé, não se mexe. Os grudados na TV muda permanecem atentos às cenas, brincando de descobrir as falas. Há diversão num PS.

O painel segue em frente e chama oitenta e nove, trinta e três, cento e dois. Pii, pii, pii. O oitenta e nove é gordinho, enxuga a testa com um lenço xadrez e sai em disparada rumo à sala de atendimento. Que será que tem, além de pressa? A trinta e três está com febre há três dias, faltou no trabalho, o marido também não anda bem, quer só ver se os dois ficarem de cama, quem vai levar o mais novo pra escola? Não vi o cento e dois, eu estava no café. Lá não precisa de senha.

O painel dá uma chance ao quarenta e três, pii. Ninguém aparece.

O segurança, com ares de investigador, olha em direção à plateia adoentada. Quer identificar o paciente distraído. Pergunta em voz alta, a senha verbal é uma exceção justificada.

O painel nervoso apita três vezes seguidas, quarenta e três, quarenta e três, quarenta e três! Onde terá se enfiado? É o que toda gente quer saber.

Começa o burburinho. Foi fazer xixi. Dormiu. Deu problema com o convênio.

A despeito do mistério, nova leva é chamada, pii, pii, pii, pii. O segurança empunha o rádio, vai até a porta, diz qualquer coisa em código para alguém do outro lado da linha.

O quarenta e três é, oficialmente, um foragido hospitalar.

O painel chora a ausência do doente ímpar, que também é primo e tem o número atômico do tecnécio.

Enquanto isso, a ruiva de saia longa e cólica renal caminha amparada pelo marido. Os gêmeos idênticos também na dor de barriga não querem ficar no colo da mãe, choramingam, ganham o chão, tentam lamber o pé da cadeira. A mãe puxa um, arrasta outro, realoca-os nas cadeiras. Eles descem de novo. Ela desiste. Ser mãe é padecer no PS.

Esperançoso, o painel não desiste, pii, pii, piiii! Arde na urgência e na emergência de encontrar o desaparecido, tal fosse caso de vida ou morte.

(Emergência e urgência, nunca compreendi a diferença. Uma saudade pode ser urgente? E amor emergente que vive a urgência de amar? Filho apertado para ir ao banheiro, no meio da rua, é qual das duas?)

Ninguém mais fala em dengue, chuva ou copa. O paradeiro do quarenta e três é a pauta do plantão. Desistiu e foi embora? Não está na lanchonete? Será que morreu? Risinhos proibidos vêm da recepção.

Um colega do segurança junta-se a ele na missão. Checam cantos, inspecionam banheiros, rondam o estacionamento em frente. Estão em busca do paciente perdido. O painel dá seu último suspiro. Quarenta e três, adeus.

Meu pai continua firme na paranoia de que estão passando gente na frente. O quarenta e três, aos poucos, vai sendo esquecido do público enumerado e enfermo. Seus quinze minutos de fama se esgotaram. Nem o painel quer mais saber dele, a fila andou.

Um-sete-um. Vamos, pai.


A falta que o F me faz (*)

Vi o gato brincando com algo no chão, todo animado. Fui conferir, ele costuma torturar lagartixas. Nunca deixo, liberto todas e ele me odeia por isso. Atrás do pé da mesa, identifiquei o objeto de tanta alegria: a letra F do teclado do meu notebook.

A pobre consoante, parceira de tantas frases, caíra sabe-se lá como e agora era um pedaço de plástico sem ânima, arremessado de lá pra cá e de cá pra lá na sala de jantar. Como sempre faço com as lagartixas, ralhei com o gato e acabei com a farra. Tentei reimplantá-la, estudei-lhe a engrenagem, resisti à tentação do Super Bonder. Guardei-a para, um dia, levá-la à assistência técnica. Nunca fui. E não sei mais onde a guardei. O F se foi, para sempre. È finito.

Sei de cor sua posição no teclado, desde os tempos em que datilografava os trabalhos de História na velha Olivetti. É verdade que preciso apertar mais o dedo ali, no buraco deixado por ele. Como alguém que muda o andar quando perde uma perna, e nem por isso deixa de chegar aonde precisa. F F f F f f f f. Vê? Quem precisa da assistência técnica?

No teclado banguelo D e G ficaram sem o vizinho do meio. Sabem que F não morreu, só não está mais entre nós. Como um anjo virtual, ele segue conferindo significado à cada palavra onde é requisitado. Faca, farinha, aferição, fermento, afinidade, fantasia, elfo, fé (firme, forte). Franco.

Se alguém vai usar meu notebook deficiente, é preciso avisar da letra faltante. Igual quando se orienta uma pessoa que começa a conversar com um surdo, “Ele não ouve”. A pessoa fica incomodada, hesitante, com certo medo de piorar a situação.

Tem gente que perde braço, dedo, namorado, e aprende a viver sem. Se reinventa. Eu aprendi, por exemplo, a viver sem a minha mãe. O buraco (fundo) que ela deixou nem é mais buraco. E basta que eu me lembre dela para que ela exista. (Não sei, porém, se saberia reinventar a falta de um filho.)

As letras, como as pessoas, moram no pensamento. Não nos teclados.

Assim como da minha mãe, também sinto falta do F ao meu alcance, na ponta dos dedos. Acostumei-me, porém. Reinventei-me? Não sei. Só sei que continuo escrevendo felicidade do mesmo jeito.

 

(*) Licença poética de “A falta que ela me faz”, livro (indispensável) de Fernando Sabino.


Vá lamber sabão!

arte: Zoraida de Torres

arte: Zoraida de Torres

Os sabonetes andam, não de hoje, atrevidos.

Do tempo em que nove em cada dez estrelas usavam Lux até os anos dois mil, uma passada rápida nas gôndolas do supermercado confirma: não se toma mais banho como antigamente.

Se para minha avó bastava escolher entre sabonete para pele normal ou seca, tenho à minha disposição opções para pele normal, seca, desanimada, em crise, moderna, retrô, light, diet, integral. O sabonete ganhou predicado afetivo, social, mágico e, por que não?, gastronômico.

Valei-me! Sabão é sabão.

Provocar, relaxar e estimular são os verbos preferidos dos slogans. Há também aqueles que não se contentaram com o universo do banheiro e se estenderam à sagrada cozinha, incluindo na receita ingredientes inusitados como vinho, macadâmia, morango, chantily. Agora me lavo com medo de engordar. Vou ter que instalar uma lava-louças no lugar da banheira.

Vou ao delírio quando vejo um rótulo minimalista e sincero: “sabonete para banho”.

Tem sabonete candidato a último romântico oferecendo buquê de sonhos, prometendo suavidade de pétalas, sensação luminosa, maciez renovadora. Uns, mais atirados, convidam: “degusta-me”, “seduza-me”. Já já precisarão colocar a classificação indicativa nas embalagens.

Um sabonete, para ser capaz de estimular meus sentidos, teria que ter o gosto do pão de batata que minha mãe fazia ou o cheiro do meu primeiro carro zero.

Para ser merecedor do título de relaxante, um sabonete precisaria saber fazer massagem nos pés, contar uma boa história ao pé do ouvido, preparar chá de alfazema. Energizante? Bastaria que cantasse “Fistfull of love” igualzinho ao Antony.

Dá para deixar os meus sentidos em paz? Eu só queria sair do chuveiro limpa e razoavelmente cheirosa.

Porque contra cansaço, angústia contemporânea, falta de amor ou paciência, não tem lauril éter sulfato de sódio, anfótero betaínico ou fragrância que resolvam, meu bem.

Atribuir superpoderes àquilo que foi feito para limpar, perfumar e, no máximo, não ressecar, soa a desespero. É forçar a barra do sabonete. Líquido, inclusive.


Desencaixotando

arte: Petter Duvander

arte: Petter Duvander

O pior, pior mesmo, de se mudar não é a fase de procurar o novo lar pela cidade, nem passar uma temporada fazendo dos classificados sua única fonte de leitura, nem ouvir lorota de corretor, nem sondar se os novos vizinhos são gente boa, nem aguentar o azulejo cor de rosa do lavabo. O pior, pior mesmo, é desfazer as caixas.

Elas, a solução perfeita para acomodar o que vai no caminhão, do frágil ao inquebrável. Elas, a redenção para que suas calcinhas e sutiãs não embarquem junto às ferramentas do marido ou aos carrinhos do filho mais novo. Elas, a promessa de que as coisas ficarão tão de jeito que, no máximo em dois dias, praticamente se auto-organizarão em seus destinos.

Enquanto a coisarada é embalada nas caixas mágicas, transportadas da casa velha até o caminhão de mudança e do caminhão até a casa nova, você se compadece dos moços que tiveram de estacionar na rua porque o regulamento do condomínio não deixa entrar caminhão grande e, portanto, têm de carregar o peso por cem metros no muque, sobem e descem escadas quando a tralha não cabe no elevador, suam em bicas, ensopam o uniforme azul marinho. “Aceitam uma água geladinha?”. É o máximo que você pode fazer por eles.

Porém, assim que a última caixa pousa no chão da casa nova, são eles que, secretamente, se compadecem de você. Dali, eles se vão, felizes da vida, tratar de mais duas mudanças, uma na zona norte e outra na zona sul. Embalar, transportar da casa até o caminhão e do caminhão até a casa nova, estacionar na rua por causa do regulamento, cem metros no muque, as escadas, as bicas, o uniforme ensopado. Um deleite, perto dos intermináveis e desesperadores momentos que você vai viver desfazendo as caixas que, repentinamente, deixaram de ser mágicas. Ser carregador de caixas, e não desfazedor delas: que dádiva!

Fazê-las é o céu. Desfazê-las é o inferno. Conviver com elas é alguma coisa entre um e outro. Os gatos, dada a longa espera, até desistem de ganhar seus novos, grandes e espaçosos brinquedos. Gatos, o mundo sabe, adoram caixas de qualquer tipo e tamanho.

Para cada caixa desfeita surgem duas, cheinhas, num processo semelhante ao da abiogênese. Não há lógica à luz da ciência, física quântica ou ocultismo, que explique por que encaixotar leva um dia e desencaixotar, vinte.

Ou mais.

Há nove anos nos mudamos para nossa casa atual. Há nove anos duas caixas de papelão permanecem num canto do meu quarto, embora já tenham habitado o corredor. Integradas à paisagem doméstica, adquiriram até utilidade com o passar do tempo. Desenvolvi afeição por elas. Cogitei revesti-las com algum material decorativo, de modo a ficarem mais jeitosas. Imbuída de coragem, comecei a desfazê-las umas três vezes, e três vezes desisti. Onde enfiar aquilo tudo? Já nem sei mais o que é “aquilo tudo”, não me lembro do seu conteúdo e não levo jeito para Pandora. Um rótulo puído, escrito à mão com marcador preto, indica que ambas abrigam álbuns de fotografia, que ficaram sem lugar nos armários novos e a preguiça de reconfigurar os espaços venceu. Afinal, para quê tanto papel, se a memória de quatro gerações cabe num pendrive?

O pior, pior mesmo, é explicar as caixas, quando alguém passa por ali e pergunta.


O dia em que não jantei com Carpinejar

arte: Robin Ator

arte: Robin Ator

Quatro anos atrás, estive no Festival Internacional da Leitura, aqui na cidade. Por causa dele: Fabrício Carpinejar. Ninguém em casa quis ir, fui só. Prometi voltar logo, só queria vê-lo. Jantaríamos todos juntos depois, marido, cria e eu. Era dia de pastel. Praticamente dia santo.

Depois de ouvir por quarenta e cinco minutos o poeta tuitar seus pensamentos, apresentei-me, pedi autógrafo. Ele assinou a primeira página de “Mulher perdigueira”, trocamos dois dedos de prosa. Contei que minha amiga era a organizadora do evento e coisa e tal. Foi quando ele falou. Dali sairiam, ele mais não-sei-quem, talvez a amiga incluída, para jantar. Pizza.

– Vem com a gente?

Tinha o pastel. Como ligar em casa e dizer, “Ó, vão jantando. Vou dar uma saída.”?

Como explicar aos pequenos, então com três e seis anos, quem era aquele homem de sapatos vermelhos que subtraíra a mamãe do pastelaço em família?

E como declinar o convite para um petit comité com o vencedor do Jabuti? Uma desfeita literária imperdoável, passível de castigo dos fantasmas da academia.

Fiz o que não o coração, mas talvez o fígado, o rim ou o pâncreas mandou. “Não dá, Carpinejar”. Contei-lhe. O poeta compreendeu. Ou fingiu que compreendeu. Os poetas ainda são fingidores?

A caminho do estacionamento, eu não estava só. Juntaram-se a mim o anjinho e o diabinho, aqueles minisseres que vivem de aconselhar. Empoleirados em meus ombros, seguiram dando pitacos. Assim que dobrei a esquina, a eles juntaram-se outros, e mais outros, formando em meus ombros uma comitiva, quase uma convenção de porta-vozes do certo, do errado, das possibilidades e tentações em geral. Eu mal caminhava, tanto peso. A ordem inteira dos querubins versus a trupe do tinhoso. Quando contei, já eram uns vinte de cada partido. Todos arrulhando ao mesmo tempo ao pé do meu ouvido. E eu só queria achar o canhoto do estacionamento, perdido na bolsa.

– Vai, boba! – dizia um.

– Mas tem as crianças… – outro ponderava.

– Quem é esse Carpinejar? – o lá de trás queria saber.

– Aquele que pinta as unhas. – algum respondeu.

– “Mulher perdigueira” nem é tão bom assim.

– Gostei mais de “Canalha”.

– É, “Canalha” é bom.

– Vai ter pastel de quê?

– Chiu! – ordenei. – Vocês não sabem de nada. Combinei de jantar com a minha família e é o que vou fazer. Eles estão me esperando.

Um a um, foram todos desaparecendo. (No fim das contas, todos tinham razão. Não havia certo ou errado.) Pude ouvir, ao longe, um deles em provocativa cantarolação, “Tá com vergonha, tá com vergonha”.

Pode ser. Pode ser que eu tenha ficado com vergonha de ir comer pizza com o Carpinejar. E o medo de sorrir com manjericão nos dentes?

Cheguei em casa e contei ao marido, que estranhou: “Devia ter ido.”

Quatro anos depois da não-pizza, metade arrependida, metade conformada, ainda penso. Paciência. Bobagem fritar os miolos por causa do convite derramado.


A casa de Gilda

arte: Francisco Javier Gamboa

arte: Francisco Javier Gamboa

Doutora Gilda é a pediatra das crianças. Atende em uma casa térrea de rua, cravada num quarteirão no centro da cidade. Na casa, outrora o lar de alguma família, há uma varanda em forma de arco e um jardim bem cuidado, cheio de flores. No portão baixo, um trinco. Dos simples, sem cadeado, sem interfone, sem trava eletrônica. Entra quem quiser. É quase a casa de uma tia, não fossem as cadeiras pretas pareadas logo na entrada e a ausência do café com bolo de laranja. Somos pacientes ou visitas?

Seu consultório é um oásis na terra das salas de médicos dos edifícios comerciais, sem janelas, sem vento, sem luz que não a das lâmpadas frias. Onde ninguém fica sabendo se faz sol ou se chove lá fora, exceto quando o paciente chega ensopado ou suando em bicas.

Na longa espera – doutora Gilda não foge à etiqueta médica e está sempre atrasada – é comum ver seus pacientes-mirins (os meus incluídos) brincando de pular as pedras do jardim ou fazendo do portão o pique do esconde-esconde. Se os pais não estivessem por perto, aboletados nas muretas da varanda, quem passa pela rua poderia jurar que ali funciona um animado jardim da infância.

Doutora Gilda é do Rio. Ela é carioca, ela é carioca. A medicina praticada em sua clínica não é inédita, nem ousada, nem encantadora. É tradicional, arroz com feijão bem feitinhos. Encantadora é a casa onde atende. Um dos antigos quartos de dormir é a sua sala. A janela, do tipo veneziana, dá para o jardim onde as crianças fazem bagunça. Igual às casas das tias. Como ela é mais velha que eu, quase dá vontade de chamá-la de tia Gilda. Mas não tenho tia médica. As minhas, no máximo, benzem. Além do mais, falta o café com bolo de laranja.

Próxima visita, só daqui seis meses.


Sete dias

arte: juliana moraes

arte: juliana moraes

Ontem fui à missa da mãe de minha amiga. Já são sete dias, na contagem terrena, desde que ela partiu. Somos semanais. E precisamos das missas para pontuar as chegadas, as partidas e os durantes da vida. O que é uma missa, se não uma conversa, coletiva e no viva-voz, com Deus?

Antes de ontem, conversamos longamente, ela e eu. Ela falou das mudanças que a vida quer que ela dê conta, dos aprendizados com pai e mãe, esses sujeitos compostos, determinados e nada ocultos da nossa história. Queixou-se do inferno astral – faz anos semana que vem. A morte é um tipo de aniversário.

Cheguei atrasada, a missa já havia começado. Sentei-me atrás, em silêncio. Escaneei o salão, à procura da minha amiga. Logo avistei seu cabelão anelado, no primeiro banco, à esquerda. Durante a celebração, foram suas costas que vi. Não soube de seus olhos, se secos ou molhados. De costas, ninguém é alegre ou triste.

(É da fachada que todos cuidam mais: gravata, colar, estampas, enfeites. Adereços, assim como emoções, estão invariavelmente na parte da frente. Vivemos todos em uma imensa igreja, porém. E também somos demoradamente vistos por trás…)

Quando eu era nova, nas missas, queria ser como as pessoas que sabiam todos os ritos, faziam os movimentos na hora certa, conheciam as rezas, cantavam as músicas sem precisar olhar no papelzinho. Eu, semianalfabeta católica,  nunca sabia o que fazer: em que hora deveria me levantar ou erguer as mãos ou fazer o sinal da cruz; desconhecia todos os refrões e não entendia por que não podia mastigar a hóstia, mas esperar que aquela massa insípida e redonda se dissolvesse por completo em minha boca. Preocupada em acompanhar a coreografia e não errar, não me atinha à fala do padre. ‘Colava’ de quem estivesse ao meu lado. Mesmo assim, estava sempre perdida, deslocada, atrasada. Ontem, soube: ainda estou.

Sempre quis saber se a pessoa que se foi assiste sua própria missa. Encarapitada n’alguma imagem de santo, zanzando pela nave da igreja ou flutuando feito nuvem ao lado de quem ficou. Pensei no dia, lá na frente, em que os amigos de meus filhos comparecerão à minha missa de sétimo dia, como fiz ontem. Que saberão, os amigos, de mim? Eu pouco sei da mãe da minha amiga. Eles não saberão nada. Não saberão, inclusive, como é gostoso encarapitar-se n’alguma imagem de santo, zanzar pela nave da igreja e flutuar feito nuvem ao lado de quem ficou.

Para Monica


Pé de gente

foto-montagem / arquivo pessoal

Sessão de RPG. Estou deitada, meus pés suspensos. Atados por uma espécie de cinto, ligado à uma roldana que os mantêm no ar. Sozinha na sala, encaro-os por dez minutos, como parte do exercício que promete reestruturar globalmente minha postura. Por dez minutos, não são as unhas cor de vinho ou a gérbera tatuada em preto e branco no pé esquerdo que escaneio. O que procuro, neles, são os pés dos meus filhos. Que arquivos genéticos, dos meus, transmiti aos deles?

Beijei, de manhãzinha e à exaustão, dois pares de pés. Os dele, caídos fora do edredon amarfanhado, ao lado da tartaruga azul de pelúcia. Os dela, gentilmente alinhados com o gato negro de verdade. Aproveitei e medi, conferi, cheirei os minipés que ajudei a construir, célula por célula. Namorei-lhes a geografia já tão decorada. Varri-lhes as solas, descobri por onde andaram e imaginei por onde ainda andarão. Levei nisso tudo bem menos que dez minutos; o passo do tempo no quarto deles é outro. Agi com cautela e silêncio, para que não acordassem. É a melhor hora (mas não única) do dia para a adoração. O raro momento em que seus pés estão quietos. A inquietude inviabiliza o fetiche maternal.

O fisioterapeuta reaparece, quer saber se está tudo bem. Não, não está. Não há um só detalhe nos pés dos meus filhos que tenham puxado aos meus. Nem a unha do mindinho, nem o formato do dedão, nada. É tudo diferente, sabe? – lamento em pensamento. Não, ele não sabe. Ajeita qualquer coisa na roldana e sai novamente, precisa ver o paciente da outra sala.

Beijo mais os pés de meus filhos que seus rostos, será? Os pés que já habitaram meu ventre – cada par a seu tempo – , muitas vezes passeando sob minhas costelas, me fazendo rir em plena reunião de diretoria. Cujos retratos ilustram suas carteiras de saúde, carinhosamente mantidas desde seus nascimentos: horário em que vieram ao mundo, tipo sanguíneo, primeiras observações médicas, “RN a termo”, notas do teste de Apgar, evolução de pesos x alturas, vacinas que tomaram. A racionalidade de um filho, enfim. No documento, fundamental mesmo é o pezinho carimbado na contracapa, a primeira pegada, o marco zero de suas biografias em progresso. Reparo no desenho que forma a planta de seus pés. Há uma espécie de árvore (genealógica?) desenhada ali, posso ver suas ramificações. São legítimos pés de gente, a me dizer que a história não para por aqui. E se não carregam de mim os traços externos, hão de levar dentro de si, por onde caminharem, algo de mim. Sobretudo, meus beijos exagerados.


Meu pai

arquivo pessoal

arquivo pessoal

Quero falar das coisas engraçadas que meu pai faz. E que ele nem sabe que faz. Em seu jeito inventivo e peculiar de viver, num permanente e bem resolvido estado de confusão, ele é um personagem de si mesmo. Este é um recorte biográfico autorizado, que sobressai ao resto de sua personalidade. Porque sou filha e vejo as coisas ao modo filial.

Antes, conto: ele é Antonio Batista Franco, ou só Tonico. Ou Joaquim, em indecifrável licença poética familiar, praticada apenas pelos três filhos – e nenhum dos três sabe ao certo como surgiu esse Joaquim. Tonico nasceu em Tapiratiba, interior de SP, em dois de fevereiro de 1932. Já foi sapateiro, contínuo de banco, depois caixa, motorista de táxi, comerciante. Queria mesmo era ser cantor de ópera. (Desde que nasci, ouço-o cantar uma debochada versão, de sua autoria, para “La donna è mobile”, de Verdi. E eu cresci achando que “è mobile”, por conta da pronúncia, era o nome de uma mulher. Dona Imóbili.)

Pulo o resto da biografia, direto às toniquices. Apenas uma amostra delas; são muitas e variadas. Umas são antigas, outras atuais, algumas desde sempre. Não estão em ordem cronológica, já que todas poderiam se dar a qualquer tempo. É que não me recordo de meu pai sendo de outro jeito que não esse.

Quero contar que ele, sempre que viaja, leva uma bolsa térmica que faz as vezes de mala. Não adianta presenteá-lo com a melhor e mais bonita mala do mundo. É na velha bolsa térmica cinza que ele ajeita suas roupas, o prestobarba, a escova de dentes, as meias, as cuecas, o livro, o caderno, a caneta, a boina, o rolo de papel higiênico. Também não adianta alertá-lo que aquilo ali não é uma mala. Ele não vai ouvir. (Interessante é ver que, tirante a estética e a convenção social, dá no mesmo.)

Quero contar também que ele cantou o hino da França numa versão franco-brasileira impublicável, para meia dúzia de franceses desconhecidos, numa praça em Grenoble, e fez o maior sucesso.

E que ele comeu a ração da Luna, a cachorrinha da neta, pensando que era petisco, como amendoim ou coisa parecida, que se serve antes da refeição. Quem mandou deixar em cima da mesa?

Que ele, quando se dirigia à festinha junina na escola do neto, errou de rua, entrou na festa errada e lá ficou, conversando com os convidados. Só depois de algum tempo foi reparar que nós não estávamos lá.

Que ele, num encontro de família, se dirigiu a uma tia nossa perguntando se ela, a tia, não tinha vindo.

Que ele, num velório, por engano disse ‘meus parabéns’ ao parente do morto, em vez de ‘meus pêsames’.

Que ele tomou um ônibus errado, foi parar no outro lado da cidade e voltou xingando o motorista que, segundo ele, deliberadamente havia feito outro itinerário.

Que ele, temporariamente incumbido de cuidar da nossa gatinha Dóris que precisava 1) usar protetor solar no focinho e 2) comer uma ração pastosa que vinha em um frasco semelhante ao do protetor, se confundiu e passou a ração no seu focinho. E ainda brigou com a pobrezinha, porque ela lambeu tudo, feliz da vida.

Que ele foi se deitar e se cobriu com uma toalha de mesa que estava no varal, pensando que era uma colcha. Detectada a confusão e com os pés descobertos, ele justificou: “Bem que eu vi, estava muito curta”.

Que seus óculos estavam meio largos e escorregavam nariz abaixo, então ele lançou mão, sem cerimônia, de um considerável pedaço de fita crepe amarela que lhe atravessava a testa, para mantê-los no lugar. Tem, inclusive, registro fotográfico disso.

Que ele usa o cinto apertado demais, demais mesmo, com um medo inexplicável da calça cair. Até os médicos, preocupados, já tentaram fazer com que ele o afrouxasse. Nada.

Que ele, de alguns anos para cá, conta as mesmas histórias como se fosse a primeira vez, mantendo, inclusive, a empolgação original.

E que, aonde quer que eu vá parar nesta vida, o mundo dará um jeito de deixá-lo perto de mim, por mais que eu tente fugir. E eu resolvi não discutir mais com Deus.

Por isso, quero registrar as coisas engraçadas que meu pai faz. Só as engraçadas; nada de falar das que me põem doida, às vezes. Uma espécie de inventário afetivo, para garantia das memórias e risadas futuras. Porque ele está velhinho e anda esquecendo tudo. E eu também vou esquecer. Aliás, já tinha esquecido, minha irmã que me ajudou a lembrar da maioria.


Com jeito

Naquele supermercado o preço é bom. Mas o carrinho não. É um centro atacadista, onde a maioria dos fregueses costuma comprar aos montes – e mais barato – , geralmente para abastecer seu negócio próprio. Eu não tenho negócio próprio, mas também vou ali para comprar aos montes. Um lar é uma espécie de negócio próprio.

E o carrinho deles é ruim. É desses de puxar, e não de empurrar, igual aos outros. Dia de fazer supermercado é dia de sentir-me um cavalo à frente de uma carroça abarrotada de leite, arroz, feijão, sabão em pó, tudo em embalagem tamanho família. Tenho pesadelos na véspera, procrastino, invento cólicas.

Eles também têm carrinhos normais, à razão de um para dez dos de puxar. Os normais são bons de empurrar, espaçosos. Mas quem quer um desses precisa contar com a sorte. Ou com a gentileza.

Era dia de sacrifício. Acionei meu radar assim que estacionei. Nada de carrinho normal. Procurei nos cantos. Nenhum. Suspirei, antevendo o suplício iminente. Quase relinchei de tristeza. Avistei uma funcionária, era a deixa.

– Oi! Por favor, você sabe se tem daquele outro carrinho, menor? – e aproveitei para desabafar – Esses aqui são tão desajeitados… Gesticulei para ilustrar melhor, apontando os trambolhos.

Ela sorriu, olhou ao redor, pediu um minuto e saiu. Logo surgiu no horizonte empunhando um carrinho normal – e era para mim! A felicidade tem quatro rodinhas, meu bem.

Entregou-me e disse:

– Você pediu com educação, aí eu fui buscar um pra você. Tem gente que chega aqui dando bronca, exigindo. Pra esses eu digo que não tem, acabou. Mas quando é com gentileza, a coisa muda.

Agradeci, saquei minha listinha de compras e segui meu destino.

Não é sempre que sou moça fina e educada. Não sou gentil em período integral. Talvez meio-período e olhe lá. Depende do dia, do vento, da umidade relativa do ar. Logo, não é sempre que consigo o que quero – seja um carrinho no supermercado, uma reivindicação para melhorar o bairro, um “sim” para um projeto, algum favor.

Quanta coisa já não devo ter deixado de conseguir na supervida, por não ter pedido com jeito.

O mundo é das pessoas gentis. Os melhores carrinhos de supermercado também.


A santa, a paixão e a vida como ela é

Arte: Simon Roberts

Arte: Simon Roberts

Ela abre os olhos e vê, pela fresta da cortina, que o dia não amanheceu. Levanta-se, ouve a chuva, olha o relógio e desaba na cama. Cogita faltar ao trabalho e, sonada, traça a estratégia: a) seu avô sofreu um derrame; b) um dos gêmeos passou a madrugada fazendo inalação; c) ela bateu o carro e esperou duas horas pelo guincho.

A semana é santa. Ela não.

Desmotivada pela fagulha da retidão que habita seu DNA, e também por amor, ela deixa o avô em paz. Acorda os gêmeos que, graças a Deus, respiram perfeitamente. Todos tomam café da manhã e seguem  no carro que, ufa!, está intacto. Ela os deixa na escola e acelera. O único coelho da história é o da Alice: sempre atrasado. Prepara-se para o sacrifício, a reunião é às nove.

Na hora do almoço, no shopping, ela lembra que precisa de sapatos novos e esquece que não tem dinheiro. Mas hoje é terça-feira da paixão pelas botas com franjas.

À tarde, ela repassa cronogramas, ajusta prazos. Diz não ao cliente, sabendo que, por isso, será crucificada antes de sexta-feira.

A semana é santa. Ela não.

No portão da escola, ela é a última mãe na saída. Exausta, beija as crianças. Está levemente arrependida por ter poupado o avô do derrame. Chegando em casa, ela põe os gêmeos no banho. Enquanto prepara o jantar, ela detecta o último Danette na geladeira. Certa de que isso dará briga na hora da sobremesa, ela resolve o futuro conflito ali mesmo. Os gêmeos já estão descendo as escadas, mas deu tempo de lamber a tampinha também.

Depois do jantar, ela sobe para o quarto, leva o iPad para o banheiro e faz o xixi mais demorado da sua vida. Finge que não ouve os gêmeos chamando por ela. Apura o olfato e estabelece consigo uma condição: se sentir cheiro de gás, ela desce.

A semana é santa. Ela não.

Ainda faltam quarta e quinta. Para o feriado, ela já anunciou: vai dormir feito pedra. Ressurreição só no domingo, depois do meio-dia.


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