Ao infinito e além

Ilustração: Backbone-flute/Flickr.com

- Eu não vou comer isso, parece um cérebro.

A mãe colocou as castanhas portuguesas de volta na vasilha, tentou as avelãs.

- Eca!

A única época que o menino via as oleaginosas era no Natal, e sempre na casa da madrinha. Não se pode amar o que pouco se vê.

- Mas você nem experimentou…

O garoto pousou o Buzz Lightyear no prato onde seria servido o jantar. Encarou a fruta e teve uma ideia – imagem é tudo.

- Quero Nescau Cereal.

- Não tem Nescau Cereal na ceia de Natal, Rodrigo.

- Tem, sim. Lá no armário da cozinha.

A mãe baixou os olhos. Suspirou.

- Pode até ter no armário da Dinda, mas você não vai comer e pronto. Viu como a mesa está bonita?

- Por que tanto enfeite?

- Porque é uma noite especial. A gente reúne a família, tem coisas gostosas que não tem todo dia em casa. Vai, experimenta a castanha.

O moleque examinou a iguaria, se animou.

- É de chocolate?

Pais têm sempre três opções quando falam com seus filhos: mentir, omitir e dizer a verdade. Silêncio não é opção, é saída pela tangente. Quando o assunto é alimentação, a tentação do vale-tudo pela nutrição é forte. Assim como ganhar tempo, dar uma chance à sorte, provocar o destino para ver no que dá.

- Vamos ver se você descobre.

Ele apanhou as avelãs, sentiu-lhes a textura, o cheiro. Abocanhou uma, atirou-a longe.

- Rodrigo, não cospe!

A madrinha, de longe e atarantada com as velas que não paravam nos castiçais, assistia tudo. Por certo, pensando: “Sai dessa, companheira”.

- Quero Nescau Cereal.

Se as crianças permanecessem com seus níveis de obstinação e persistência preservados na idade adulta, que seria do mundo?

- Já disse pra você que hoje não é dia de comer isso.

Bacalhau, canjica, peru. Algumas comidas obedecem a um finito calendário gastronômico, muito aquém das possibilidades criativas. Para muitos, elas não fazem sentido fora do contexto-padrão. Há também os que batem continência ao relógio (“Não é hora de pipoca”) ou ao figurino (“Você vai comer tomate com leite???”). As regras desenham os cardápios, para que as pessoas fiquem meramente ilustrativas.

- Mas eu quero.

A desistência, às vezes, é a melhor aliada de uma mãe. E madrinhas são as salvadoras da infância – quase tudo se resolve perto de uma. Ela tem ares de fada e pode até ser mãe dos seus, mas não é dos outros – o que lhe desonera um bocado. A Dinda, que dispensara os castiçais e enfiara as velas em pequenas xicarazinhas coloridas de café, apagou a brasa do fósforo entre dois dedos recém-lambidos e foi lá resgatar o afilhado da escravidão dos sabores:

- Vem comigo, meu bem. Aposto como lá na cozinha a gente vai achar alguma coisa gostosa para você comer.

Foram os dois, menino e Buzz Lightyear, voando. O infinito e o além eram logo ali.

(Des)Empregada III, o furto

Ilustração: Toon Van de Putte/Flickr.com

Depois de ser abandonada e, em seguida, traída com o padeiro, enfim eu encontrara uma nova empregada. Meu lugar ao sol – e não ao tanque – parecia despontar no horizonte doméstico. Só parecia.

Estranhar, eu estranhei. A mulher tinha todos os dias livres e rara boa vontade. Gostava de gatos e tatuagens e tinha filhos pequenos como eu, o que tornava toda empatia possível. Poucos dias se passaram, peguei-a no pulo. A bolsa gorda, recheada, momentos antes dela encerrar o expediente. Ataulfo Alves bem que avisou: “Laranja madura, na beira da estrada… Tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé”.

Se “A menina que roubava livros” virou best-seller, que destino estaria reservado à mulher que roubava brinquedos?

As duas, menina e mulher, têm histórias de vida pontuadas por dificuldades e dissabores. Salvos os respectivos cenários, as épocas, as devidas proporções e a boa dose de ficção, o que a Morte, narradora no livro, haveria de dizer, nesse caso?

Talvez ela, a Morte, me convidasse para um cafezinho ao entardecer e apontasse o farto oceano de brinquedos nos quartos dos meus filhos como razão para minha versão doméstica de Liesel Meminger agir. Não tenho inventário detalhado a respeito, posto ser essa tarefa hercúlea e inútil. Quem é capaz de identificar quem é quem na comunidade de Pollys e Barbies, contabilizar a esquadrilha de aviões, a esquadra de navios e os Legos que se valem do misterioso poder da geração espontânea? A brinquedoteca das crianças é superlativa, conjugada no coletivo. O excesso de brinquedos em casa é tão evidente quanto questionável, mas já desisti de nadar contra a maré, panfletando que isso não faz sentido. Porém, (talvez) ao contrário da história do livro, isso nunca deu e jamais dará a alguém o direito de apossar-se do que não é seu. A mulher, no papel de Robin Hood de si mesma, desconhece que justiça social se dá por outros meios e com outros fins.

Por outro lado, a Morte poderia apelar à compaixão, ao sugerir que eu imaginasse a mulher chegando em casa, depois do dia de trabalho que lhe rendeu uns parcos reais, e encontrasse seu menino a brincar com o caminhãozinho sem uma das rodas e uma velha e desbotada girafa de pelúcia, ao mesmo tempo que repassasse mentalmente a fascinante (aos seus olhos) paisagem da nossa casa. Eu diria à Morte que sim, estou acostumada a esse exercício. E o que posso fazer por essa mãe é pagá-la direitinho o combinado, para que ela tenha condições de proporcionar o mesmo aos seus filhos. Direito de todo cidadão e cidadã – igual ao direito de propriedade que ninguém pode tascar.

A Morte também tentaria me convencer a relaxar, contando ter visto coisas bem piores ao longo de sua, digamos, existência. Por esse lado, meia dúzia de Hot Wheels a menos para quem tem uma frota de três dígitos dos carrinhos é, de fato, titica.

Ou nada disso, e a Morte faria o que mais a diverte – pegar de surpresa – e me diria a inesperada e oblíqua verdade sobre o crime (?) cometido, que eu ainda não havia suspeitado: preciso escolher melhor minhas laranjas.

Férias!

Queridos, queridas

Fui ali e volto já.

Quer dizer, volto em janeiro de 2012. Que não será o ano do fim do mundo, mas o ano 4 do Fio da meada (nem eu acredito). Tem mais de trezentos textos aqui. Aposto como tem algum que vocês ainda não leram.

Até lá, vou dando as caras no Facebook.

No mais, desejo que todos reinventem seu Natal e virem o ano com toda alegria possível.

Um beijo, dos grandes, em cada um.

A comédia da vida materna

Ilustração: Marcello Akira/Flickr.com

Descobrir, eu descobri faz tempo. Dureza foi admitir, por para fora, desabafar. Vamos estabelecer: é mais fácil ser executiva numa multinacional japonesa do que ser mãe de filhos pequenos. Trabalhar de segunda a sexta e eventualmente nos finais de semana, das nove às dezenove (na melhor das hipóteses)? Fichinha. Conviver com chefe doidinho, cumprir prazos imorais, apresentar resultado negativo na frente do CEO? Café pequeno.

Se não, vejamos.

Nos escritórios a cem metros do chão você trabalha sossegada, elabora suas análises de mercado em paz, traça estratégias para a empresa e atende clientes e parceiros, sem se preocupar em checar as janelas (que jamais têm rede de proteção), para o caso de ter algum colega de trabalho pendurado nelas, crente que é um super-herói indestrutível.

Durante o almoço no refeitório, seus colegas não se estapeiam, nem atiram farofa um no outro. O mais novo não reclama, choramingando, que o mais velho disse que ele é feio e burro. Todos sentam-se direito e comem a salada inteira. E se não comem, rá! Problema deles. Você não tem nada, nadica a ver com isso.

Nas reuniões de equipe, para falar sobre o novo organograma – mais ou menos quando uma família se reúne para discutir a nova divisão de tarefas, onde cada um deverá manter o próprio armário minimamente organizado – , ninguém interrompe reclamando que está com fome, nem pede para sair antes porque vai começar “Uma banda lá em casa” na TV.

No ambiente de trabalho, todo mundo vai sozinho ao banheiro. Número 2, inclusive.

Se a reunião é no cliente e o pessoal do marketing tem que ir junto, você vai de motorista e a coisa flui que é uma beleza. Não há brigas a serem apartadas no banco de trás, nem súplicas para que todos coloquem o cinto de segurança (e fiquem com ele durante o trajeto).

Os departamentos de Compras e Financeiro podem até tentar enlouquecer você, mas nada se compara a uma tarde com as crianças no shopping, na intenção de renovar o guarda-roupa deles.

Você não precisa ameaçar contar até três para seus funcionários começarem o relatório bimestral de vendas.

No final do expediente, não existe a menor necessidade de pedir ao estagiário que recolha a bagunça antes de ir embora. Ele guarda tudo sem você mandar!

Por essas e outras (ah, muitas outras), é definitivo: ser mãe é para poucas. Mãe de filhos em férias, meu caso, para pouquíssimas. A amiga, compadecida, ri da minha situação e recomenda que eu relaxe, encarne algum personagem de desenho animado e me jogue na farra. Numa espécie de “se você não pode com eles…” revisitado. Nam nam. Vou é recorrer à mitologia. Quero ser Medusa, uma das Górgonas. Para transformar em pedra todo humano com menos de um metro e trinta de altura que ouse me fitar, requisitando, de três em três minutos, toda sorte de coisas. (Ao final das férias, prometo, reverto o feitiço.)

Depois dizem que a maternidade realiza a mulher. Ora, ora. Maternidade realiza consultas, exames e partos. Ponto final.

E ainda é dezembro. Não sou a antimãe, nem a reencarnação de Herodes. Sou apenas uma genitora levemente ensandecida. Sabedora das deliciosas vantagens da vida materna sobre a vida executiva. O problema é que até o fim de janeiro do ano que vem, quando as aulas voltam, eu não vou conseguir me lembrar de quase nenhuma.

Do que não muda

Ilustração: Adam Koford/Flickr.com

As coisas todas do mundo podem ter mudado pelo caminho do tempo. Em muitas, se mexeu um bocado. Algumas se extinguiram, no mesmo compasso em que outras brotaram. Há as integralmente transformadas. Porém, ou muito me engano, ou o jeito de embrulhar presentes segue do mesmo jeito.

Tirante as pirotecnias da moda (que essas sempre vão existir), como embalagens que piscam, caixas em formatos inéditos, sacolinhas pós-modernas, papéis com padronagens inesperadas, a maioria absoluta das pessoas e lojas ainda prepara seus mimos como antigamente. Os regalos podem ter mudado; o que os veste, não.

“É para presente?”, quer saber a moça que faz pacotes na livraria. E não é a livraria do Seu Joaquim, aquela, remanescente no bairro, que envelheceu com o dono. É livraria grande, dessas com filiais no país inteiro. Aonde aporta todo tipo de novidade da cultura e dos saberes.

Ela desenrola o papel estampado de uma grande bobina, instalada no antiquado suporte de ferro – trambolho igual ao das lojas de onde vinham meus presentes de aniversário e Natal (os únicos do ano). Mede o objeto, calcula a quantidade de papel, corta. Posiciona o dito cujo que, no caso, nem livro é; trata-se de uma caixa de discos blu-ray de uma dessas séries que passa na TV a cabo. E prossegue seu trabalho, com os mesmos ingredientes e modo de fazer do passado. Ajeita aqui, alisa ali. Muitas dobras e durex depois, a moça providencia o acabamento: faz uma espécie de leque, no próprio papel, bota laço de fita, etiqueta de/para e pronto. Exatamente igual aos meus presentes de criança. É só aguardar o sorriso de quem vai ganhá-lo.

Não foi nessa livraria, mas numa loja de roupas, que flagrei a empacotadeira, bastante jovem, passando a ponta da tesoura num teco de fitilho colorido e ele, zás, se enrolou inteiro. Virou o antológico “rabinho de porco”, velho conhecido da criançada que hoje tem filho marmanjo (não digo “fio de telefone”, que esse mudou muito, nem fio tem mais). E lá foi o traje, confeccionado com tecido tecnológico e zíper de última geração, fazer bonito em seu pacote vintage-sem-querer.

Igual preparar receita de bolo de chocolate e chamar gato fazendo psh psh psh, a arte de embrulhar presentes é parte do folclore, está no DNA de um povo. É assim que se faz e não se fala mais nisso. Entra era, sai era, permanecerá como sempre foi.

Que bom.

Os queridos diários

Ilustração: Shelly/Flickr.com

L. perguntou, na lata e por e-mail: o que fazer com os diários antigos?

Eu, que não sabia se ela só compartilhava a dúvida, ou se assumira que eu já os tivera, gelei. Onde estão os meus?

O primeiro diário a gente não esquece. E também não lembra onde o guardou. Foi Silvana que fez para mim, eu tinha oito anos. O caderno comum ganhou capa especial em papel camurça cor de vinho, com um arranjo de flores e trigos (por que trigo, minha irmã?), feito com aquela técnica da raspagem. Vieram outros depois, aprendi a confeccioná-los. De mesma serventia, mas sem o mesmo encanto do original.

Recheado de ilustrações, era um relatório de bobajadas pueris: o que eu fizera e como, descrições das pessoas da família, pedidos de desculpas por não ter escrito no final de semana. Como se diários fossem pessoas, carentes de apresentações e explicações. (E não são?) Aos poucos, fui acrescentando crítica aos registros. Os primeiros pensamentos de gente grande. Com que idade o encerrei? Pudesse, reviraria a casa. Agora.

Diários são feitos para serem lidos; mente quem diz o contrário. Ainda que o único leitor esperado seja o próprio autor. Queremos ser lidos por nós mesmos e a escrita é, quase sempre, o melhor dos espelhos. Diário é uma longa carta onde remetente e destinatário são a mesma pessoa. Já nasce entregue.

Diário é uma espécie de caixa-preta. As informações mais importantes do nosso voo particular estão ali, protegidas. A boa notícia: não é necessário esperar pelo dia da explosão, nem da queda, para entender o que houve e há. Basta abri-lo numa página qualquer.

O revés: diário é um dos mais cruéis instrumentos de tortura e chantagem. Se dá sopa, é abduzido. Geralmente por irmãos mais velhos ou amigos-da-onça. Com sorte, terão sua liberdade negociada. Na maioria dos casos, porém, serão devastados, varridos. Ou, em tempos de internet, escaneados e postados para Deus e o mundo ler. Deus não costuma passar as coisas adiante. Já o mundo…

E o que fazer com os diários alheios, sob nossa guarda? Resgatei os da minha mãe, entre uma mudança e outra. Acessei sua caixa-preta (tarde demais) e fiz meu inventário particular de memórias. Diários também têm dessa; sabendo que serão lidos depois, seus donos escrevem neles o que não puderam (ou não quiseram) dizer em vida. Ainda não encontrei um jeito de dizer a ela que tudo ficou e sempre ficará bem.

***

Quanto à L., direi-lhe, assim que possível: o melhor a fazer com os velhos diários, querida, é nada. Próprios ou não, eles não precisam mais de nós, nem nós deles. A partir da última palavra publicada na última linha da derradeira folha em branco, não estamos mais no controle. Eles mesmos darão um jeito de sumir. E, mesmo destruídos, é bom que se saiba: suas histórias já foram impressas no imorredouro do tempo.

Culpa da santa

Caros e caras

Ontem foi feriado em Campinas. Dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade. De modos que o negócio aqui embolou e hoje não tem crônica. Aproveita para ler uma que você ainda não leu…

Até terça que vem. Dia de Santa Luzia, que também dá feriado, só que em outras paragens.

Beijo,

Consulta imaginária com o médico que não existe

Ilustração: Michael Young/Flickr.com

Entro na sala com cheiro de baunilha. Acomodo-me na cadeira lilás e pergunto, na lata: “O que eu tenho, doutor?”. Ele me olha por cima dos óculos à la John Lennon e diz que, antes, precisa pedir alguns exames. Adianta, porém, o que eu estou atrasada em saber: “Está me parecendo um caso de vida que está ao contrário. Ou do avesso”.

Sempre quis ir a um médico onde eu não precisasse falar demais para que ele soubesse tudo. Que não visse no fígado só um fígado, nem tratasse a dor como final das contas. Que costurasse o que fosse notando em mim, e eu saísse da consulta com um patchwork feito dos meus quarenta e quatro retalhos particulares. Nem médico de verdade ele precisaria ser. Há horas que precisamos de gente que não é o que é. Irmão que não é irmão. Professor que não é professor. E assim por diante. Não vale para amigo, nem construtor; confiança e casa são coisas que não podem cair.

Primeiro, ele ausculta meu coração. Não me conta, no entanto, o que o músculo involuntário lhe revela. Diz que é segredo. Segredos do coração.

Quer saber quando foi a última vez que me descabelei, bufei pelas ventas, subi nas tamancas, rodei a baiana. “Nesta semana?”, pergunto. Ele me olha novamente por cima dos óculos, preciso entender esse seu sinal.

Diz que precisa examinar minhas raízes, prontamente lhe mostro meus pés. Ele ri. “São os olhos e os ouvidos que eu quero ver”. Preciso ser menos literal.

Conto que meu relógio cronológico está de mal do biológico. “Para isso não há remédio, ele avisa. “Eles não são à prova de tempo. Nem dê corda”.

Peço uma pomada para as ideias. “Elas coçam à noite, doutor, não me deixam dormir”. Ele sorri um sorriso antigo e apanha qualquer coisa no armário. “Passe isto nelas, uma vez ao dia”. É amostra grátis não-tributada de atitude.

Reclamo da memória. Às vezes, nas minhas pesquisas mentais aparece “page not found”. Ele me recomenda exercícios de repassar, todo dia, como foi o anterior. “E vale mudar alguma coisa, doutor?”. O olhar sobre os óculos, de novo. Gosto desse cara.

Na despedida, o médico de suavidade bege e avental idem não quer cobrar a consulta. Elogia o timbre da minha voz, mas não repara em meu anel de borboleta, quebrado. Receita pílulas brancas para sonhar colorido, e diz que eu só preciso amanhecer.

O rei, a imigrante e a falta de saudade

Foto: vovó Carmela, vovô Antônio (ao centro) e a filharada.
E a data, que só reparei depois.

Elvis não morreu, ao contrário da Vovó Carmela. No mesmo ano em que ele, já que é assim, não o fez. Sei muitíssimo mais dele que dela. Estranho?

Faz trinta e quatro anos e dois dias que ela morreu. Trinta e quatro anos e cento e oito dias, ele. Dele, se fala – e muito. E dela?

Ele é famoso. Ela não. O Google tem setenta e sete milhões e quinhentos mil resultados para o nome dele. Cento e sessenta para o dela. E nenhum é ela. Deveria existir a “Deuspedia”. Cada ser com seu verbete, atualizado por Ele e seu staff.

Vovó Carmela é mãe da minha avó, mãe da minha mãe. Sou a penúltima bonequinha da matrioska. Ninguém a chamava de bisavó, nem de bisa. Já considerei seu nome pavoroso, sentia pena de uma prima que fora batizada em sua homenagem. Hoje, não mais.

Na casa dela seus filhos, os filhos dos filhos e os filhos dos filhos dos filhos se reuniam em compridas tardes de sábado. O invariável cardápio: chá-mate dulcíssimo e pelando de quente, o pão com manteiga. O chá vinha nas xícaras  de bolinhas, de porcelana tão fininha quanto a pele da matriarca. Quem ganhava sua fatia de pão podia ia brincar lá fora. Quantos passarinhos alimentei com minhas migalhas chovidas? E quem ficou com as xícaras? Não é só a infância que é cheia de questões. Eu não conversava com ela nessas visitas. Velhos têm mania de perguntar coisas às crianças através dos seus pais, mesmo que elas estejam presentes, como se não fossem capazes de responder sobre suas vidas: “Ela vai bem na escola?”. “Ela quer mais pão?”. Eu também não perguntava nada sobre ela, nem a ela, nem a ninguém. Só queria saber do Elvis. Eu, que derivei dela, não dele, ia bem na escola. E sempre queria mais pão.

Ela, que sei tão pouco. Só que tinha imensos cabelos cinza-claro, permanentemente enrolados num coque e presos num pente-fivela. Que usava vestidões compridos e arrastava os chinelos. É todo meu conhecimento. Sequer de sua voz me lembro. Já da do outro… Minha irmã me ajuda, por e-mail: “Carmela Mameli nasceu em 16/05/1889, filha de Diogo Mamelli (o pai tem 2 L) e Elena Pucci. Nunca consegui saber a cidade, só sei que é na Sardenha. Casou-se em 30/10/1908 em Jacutinga e morreu em 30/11/1977 em São Paulo. Não lembro do quê exatamente ela morreu, lembro que ela tinha uma hérnia enorme na barriga, de longa data… Lembro também que depois que ela quebrou a perna não saiu mais da cama e morreu logo depois”. Ter irmãos, penso, é bom para tudo.

Ela, que tinha alguma coisa com o dia trinta. Ela, que não sei se gostava do Elvis. Ela, que não está sempre no meu pensamento. Talvez não nos tenhamos tratado tão bem quanto deveríamos. Se é que, n’algum dia, nos amamos com ternura, nenhuma das duas ficou sabendo. É assim que junto tudo: as letras das canções do rei do rock, a imigrante de onde me originei e a minha confessa falta de saudade.

Quando eu envelhecer, devo cuidar dos meus trajes e penteados. É deles que, provavelmente, meus bisnetos mais se lembrarão. Mais, muito mais, que da minha voz. Que, aliás, nunca aprendeu a cantar nada direito.

Crônica de minuto para quem não tem o que fazer

Foto: Alexandre Fávero/Flickr.com

Sempre dou uma olhada no que o Google, principalmente, manda para este blog. São palavras-chave e frases que as pessoas digitam nos buscadores e, sabe Deus como, acabam chegando no Fio da meada.

Quando penso que já vi de tudo (“como fingir que está passando mal”, “teste de qualquer coisa”, “feitiço para voltar atrás no tempo”, “como escrever uma carta para um amigo esposo de sua amiga”, “onde comprar uma engrenagem planetária crônica de nylon”), ele me vem com essa: “saci de beca”.

Que os brasileiros estão estudando mais, eu já sabia. Não imaginava, porém, que o acesso à educação houvesse chegado tão longe. Em quê estarão se formando os pererês?

Se à noite todos os gatos são pardos, de beca ninguém sabe quem tem uma perna só.

Isso é sério. Muito sério.

Crônica de minuto #40

Nina, cinco anos, anunciou:

– A partir de hoje, eu vou ser boazinha.

Depois, mudou de ideia. Misturou, de propósito, as figurinhas do irmão (separadas por time), recusou-se a recolher os brinquedos e fechou a porta na cara da amiga.

Ela prefere ser essa metamorfose ambulante.

Sentado à beira do caminho

Ilustração: Nerosunero/Flickr.com

Não gosto de ver sofá abandonado. Aqueles, rejeitados em seus lares e despejados anonimamente nas avenidas, canteiros, praças, terrenos baldios. Exilados de suas salas, condenados às intempéries da solidão urbana. Separados do abajur, distantes do tapete. Alguns em razoável estado, até. Nunca há alguém neles, lendo jornal enquanto o ônibus não vem, tirando uma soneca ou simplesmente sentado à beira do caminho. Em vez do living room, por que não a rua de estar? Nem o gato vadio precisa dele para afiar suas unhas. O vira-lata não quer trepar nele. Descontextualizado, o sofá na rua é o inusitado que passa batido, a travessura impune do anticidadão.

Ele, que já fez bonito nas lojas. Ele, entregue por rapazes uniformizados e recebido em casa com festa. Ele, zelado diariamente pela dona do lar com paninho e multiuso, onde o caçula era proibido de traçar um bife. Ele, cujo plástico da embalagem foi mantido até dois meses (ou mais) após a compra. Ele.

Culpa do tempo, esse implacável. A espuma, carcomida, já não sustenta a família. Aparecem as primeiras manchas de senilidade. As molas falham, surgem os nhecs. Com a chegada do Natal, o decreto: perda total. Não vale a pena reformar, é o preço de um novo (e ainda dá para dividir no cheque). A instituição de caridade não manifestou interesse, teriam que consertar para oferecer no bazar. O negócio é substituir. Sem ideia melhor, as vias públicas acenam com a única e possível solução. “Alguém passa e leva”. Lá vai ele, viver ao ar livre. Fazer sala para ninguém. Assistir a TV aberta das ruas. Quem mudou o canal?

Como ele vai parar ali é mistério. Sofá, cá entre nós, não é objeto de fácil descarte, como latinha de cerveja, embalagem de biscoito, bituca de cigarro. A menos que origem e destino estejam num raio de trinta metros, o transporte de um exemplar, de dois ou três lugares, requer planejamento e algum muque. A caminhonete do namorado da filha. A Kombi do vizinho. A calada da noite?

Há quem se compadeça e o retire do abandono, enxergando nele a serventia do passado. São os sofás adotados. No novo lar, ele ganha revestimento bacana, espuma da boa. Igual cachorro andarilho recolhido por alma caridosa, fica tinindo, late de alegria. E é fiel ao seu novo dono. Até que a chaise longue, aquela da novela, os separe.

Desenhações

"Casamento de sóis", dela, 2011

Filhos em ação: dezenas de folhas de sulfite e milhares de canetinhas espalhadas pelo chão da sala. Está certo, não são milhares. Duas dúzias, no máximo. Há um arco-íris sobre o tapete, qualquer hora descobrirão que é voador. Ensaio mandar recolher tudo – as pontas porosas são cruéis com a mobília. Leio a paciência tatuada em meu antebraço. Eles precisam de ar.

Vejo seus desenhos com olhos de mãe, ávida por sinais que garantam que eles são crianças alegres. Procuro sorrisos nos traços humanos, paz nos cenários caseiros, harmonia nas paisagens. Além do evidente, nunca sei direito o quê identificar; sigo considerando tudo bonito. Sei que ela é romântica e sempre me desenha de cabelos compridos. Ele passou da fase dos trens, ampliou seu repertório e faz plantas arquitetônicas com cortes transversais. Sei também que não gostaria de descobrir nos retratos algum resultado da minha habitual impaciência materna. Quando uma tatuagem alcança a pele do coração?

Na idade deles, meus desenhos eram feitos com canetinhas Sylvapen, unânime objeto de desejo da criançada. O luxo era o estojo com doze. Na maioria das vezes, porém, eu tinha que me contentar com o de seis. Agora as crianças ganham estojos com vinte, trinta, cem canetinhas. Não há cor impossível.

Hoje, especialmente hoje, eu precisava da minha mãe. Para saber dos olhos dela quando via meus desenhos. Se também buscava neles evidências de que tudo estava bem com sua caçula. Não lembro se ela guardava algum consigo, como eu faço com os dos netos que ela não conheceu. E também nunca mais fiz desenhos para ela. Ela não pediu mais.

Quando pequena, grávida de imagens, eu dava à luz macieiras carregadas. Montanhas simétricas com o sol por detrás do vale formado. Algumas esquisitices. Mulheres de perfil, mania perpetuada nos cadernos até depois da adolescência. Quando desenhava pessoas, logo alguém perguntava “Quem é?”. Coisa mais aborrecida. Não era gente de verdade, era gente inventada. Por via das dúvidas, não faço essa pergunta aos meus filhos. Faço outras. É minha maior contribuição à imaginação deles.

A parede da sala de jantar é o lugar das exposições de arte temporárias. Nela estão algumas de suas obras, grudadas com durex. Amanhã vai ter mais uma. Se eu ainda souber desenhar maçãs.

"Hora do banho", dele, 2011

Crônica de minuto para um feriado

Foto: Romana Klee/Flickr.com

A mais nova da mesa ganhava todas as rodadas do jogo da velha. Ela escolhia sempre o x (para dar sorte?), analisava a estratégia da adversária e, poucos movimentos depois, fechava o jogo. Até que as amigas resolveram acabar com a farra: “Agora você vai ficar com o o. Resignada, ela aceitou. E iniciou a partida. Não deu outra: ganhou de novo. “Você está proibida de começar”, decretaram. Ela se recolheu, concordou com a cabeça. Aguardou a oponente posicionar seu x. Pensou um bocadinho, fez a jogada, aguardou a resposta. Pimba, ganhou de novo. As demais confabularam. Nem o trote na sorte, tampouco a revogação do direito ao primeiro lance haviam dado jeito. E todas ali eram macacas velhas no esporte. O café. Só podia ser o café. “Traz um chá para ela”, a da ponta pediu ao garçom. A contragosto, ela serviu-se da infusão de hibisco com limão. Ganhou. Trocaram de lugar na mesa, culpando o leste de favorecê-la. Dispensaram o x e o o , substituídos pelos saquinhos de açúcar e adoçante, respectivamente. Confabularam novamente, sem sucesso. Ela continuou papando todas.

O jogo não era mais delas. Pediram a conta.

Ferro de passar pensamento

Ilustração: J.D. Welch/Flickr.com

Deixei os edredons na lavanderia, acabou o inverno. No dia de buscá-los, esperando minha vez de ser atendida – a moça à minha frente retirava uma dúzia de vestidos, conferindo um por um –, prestei atenção à funcionária que passava as roupas lá dentro. Modo de dizer; eu a assisti. Penando sem empregada, me embasbaquei com sua destreza com o tailleur, invejei sua rapidez com a calça social. Acima de tudo, me espantei com sua serenidade diante da coleção de ternos amarfanhados que a aguardavam na fila. No quesito paciência, eu quis ser ela.

Logo entendi: ao seu dispor está uma engenhoca pós-moderna maior que o lavabo da minha casa, com um ferro esquisitão acoplado a uma prancha high-tech – que em nada lembram minha humilde tábua de passar adquirida no camelô e o Arno financiado em três vezes no cartão –, inflando e desinflando a um simples comando do seu pé. Ao fazer isso, a prancha suga a roupa sobre ela, deixando-a esticadinha, pronta para receber o vapor que a deixará perfeita. Braços especiais para mangas rebeldes, cabides e araras que colaboram e mantêm passado o que acaba de ser passado. Tecnologia de planeta mais avançado, evidentemente. Suspiro.

Puxei assunto, a conferência da cri-cri ia longe. Ela contou que passa uma camisa em quatro minutos. Num dia, chega a passar cinquenta. Perguntei se ela precisa de antidepressivos. Aplaudi ao vê-la lidar com o paletó, que parecia querer tirá-la para dançar, de tão gentil em suas mãos. Quis comprar a máquina, “Pago bem”. Pedi emprestada. Cogitei entrar para o mundo do crime. Depois me lembrei que ela não caberia na minha diminuta área de serviço.

Nem liguei para a dona que resmungava a cada vestido examinado (o plissado de um não tinha ficado bom, a gola de outro estava torta). Eu ficaria horas assistindo à passadeira, com o entusiasmo de quem presencia uma apresentação do Cirque du Soleil. Passar bem uma roupa é tão difícil quanto encarar o trapézio, tão mágico quanto um show de ilusionismo. E a lavanderia nem cobra ingresso.

Vinte minutos depois, saí equilibrando meus edredons. Ao enfiá-los no porta-malas, a revelação: ora, a passadeira está bem equipada, é por isso que tudo fica fácil. Seus apetrechos foram projetados para simplificar o seu trabalho. Doze horas de treinamento na franqueadora e, dali para frente, era mamão com açúcar.

***

Nem sempre me vejo equipada para a vida. Talvez por isso, às vezes, tudo pareça mais árduo. E se eu tivesse uma lavanderia na cabeça para deixar as ideias novinhas em folha? Um ferro de passar pensamento? Que eliminasse o vinco dos velhos hábitos, alinhasse as fibras emaranhadas das vontades doidas, desse vigor à costura diária das experiências. Uma ferramenta de viver, não de passar pela vida. De preferência, não tão implacável como ferro, nem tão suave quanto algodão. Sob medida, porém, para a vida no 220.

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