Meu pai

arquivo pessoal

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Quero falar das coisas engraçadas que meu pai faz. E que ele nem sabe que faz. Em seu jeito inventivo e peculiar de viver, num permanente e bem resolvido estado de confusão, ele é um personagem de si mesmo. Este é um recorte biográfico autorizado, que sobressai ao resto de sua personalidade. Porque sou filha e vejo as coisas ao modo filial.

Antes, conto: ele é Antonio Batista Franco, ou só Tonico. Ou Joaquim, em indecifrável licença poética familiar, praticada apenas pelos três filhos – não se sabe ao certo como surgiu esse Joaquim. Tonico nasceu em Tapiratiba, interior de SP, em dois de fevereiro de 1932. Já foi sapateiro, contínuo de banco, depois caixa, motorista de táxi, comerciante. Queria mesmo era ser cantor de ópera. (Desde que nasci, ouço-o cantar uma debochada versão, de sua autoria, para “La donna è mobile”, de Verdi. E eu cresci achando que “è mobile”, por conta da pronúncia, era o nome de uma mulher. Dona Imóbili.)

Pulo o resto da biografia, direto às toniquices. Umas são antigas, outras atuais, algumas desde sempre. Não estão em ordem cronológica, já que todas poderiam se dar a qualquer tempo. É que não me recordo de meu pai sendo de outro jeito que não esse.

Quero contar que ele, sempre que viaja, leva uma bolsa térmica que faz as vezes de mala. Não adianta presenteá-lo com a melhor e mais bonita mala do mundo. É na velha bolsa térmica cinza que ele ajeita suas roupas, o prestobarba, a escova de dentes, as meias, as cuecas, o livro, o caderno, a caneta, a boina, o rolo de papel higiênico. Também não adianta alertá-lo que aquilo ali não é uma mala. Ele não vai ouvir. (Interessante é ver que, tirante a estética e a convenção social, dá no mesmo.)

Quero contar também que ele cantou o hino da França numa versão franco-brasileira, também de sua autoria e levemente de baixo calão, em público para meia dúzia de franceses desconhecidos, numa praça em Grenoble, e fez o maior sucesso.

E que ele comeu a ração da Luna, a cachorrinha da neta, pensando que era petisco, como amendoim ou coisa parecida, que se serve antes da refeição. Quem mandou deixar em cima da mesa?

Que ele, quando se dirigia à festinha junina na escola do neto, errou de rua, entrou na festa errada e lá ficou, conversando com os convidados. Só depois de muito tempo foi reparar que nós não estávamos lá.

Que ele, num encontro de família, se dirigiu a uma tia nossa perguntando se ela, a tia, não tinha vindo.

Que ele, num velório, por engano disse ‘meus parabéns’ ao parente do morto, em vez de ‘meus pêsames’.

Que ele tomou um ônibus errado, foi parar do outro lado da cidade e voltou xingando o motorista que, segundo ele, deliberadamente havia feito outro itinerário.

Que ele, temporariamente incumbido de cuidar da nossa gatinha Dóris que precisava 1) usar protetor solar no focinho e 2) comer uma ração pastosa que vinha em um frasco semelhante ao do protetor solar, se confundiu e passou a ração no seu focinho. E ainda brigou com a pobrezinha, porque ela lambeu tudo, feliz da vida.

Que ele foi se deitar e se cobriu com uma toalha de mesa que estava no varal, pensando que era uma colcha. Detectada a confusão e com os pés descobertos, ele justificou: “Bem que eu vi, estava muito curta”.

Que seus óculos estavam meio largos e escorregavam nariz abaixo, então ele lançou mão, sem cerimônia, de um pedaço de fita crepe amarela que lhe atravessava a testa, para mantê-los no lugar. Tem, inclusive, registro fotográfico disso.

Que ele usa o cinto apertado demais, demais mesmo, com um medo inexplicável da calça cair. Até os médicos, preocupados, já tentaram fazer com que ele o afrouxasse. Nada.

Que ele, de alguns anos para cá, conta as mesmas histórias como se fosse a primeira vez, mantendo, inclusive, a empolgação original.

E que, aonde quer que eu vá parar nesta vida, o mundo dará um jeito de deixá-lo perto de mim, por mais que eu tente fugir. E eu resolvi não discutir mais com Deus.

Por isso, quero registrar as coisas engraçadas que meu pai faz, numa espécie de inventário. Porque ele anda esquecendo tudo. E eu também vou esquecer. Aliás, já tinha esquecido, minha irmã que me ajudou a lembrar da maioria.


Com jeito

Naquele supermercado o preço é bom. Mas o carrinho não. É um centro atacadista, onde a maioria dos fregueses costuma comprar aos montes – e mais barato – , geralmente para abastecer seu negócio próprio. Eu não tenho negócio próprio, mas também vou ali para comprar aos montes. Um lar é uma espécie de negócio próprio.

E o carrinho deles é ruim. É desses de puxar, e não de empurrar, igual aos outros. Dia de fazer supermercado é dia de sentir-me um cavalo à frente de uma carroça abarrotada de leite, arroz, feijão, sabão em pó, tudo em embalagem tamanho família. Tenho pesadelos na véspera, procrastino, invento cólicas.

Eles também têm carrinhos normais, à razão de um para dez dos de puxar. Os normais são bons de empurrar, espaçosos. Mas quem quer um desses precisa contar com a sorte. Ou com a gentileza.

Era dia de sacrifício. Acionei meu radar assim que estacionei. Nada de carrinho normal. Procurei nos cantos. Nenhum. Suspirei, antevendo o suplício iminente. Quase relinchei de tristeza. Avistei uma funcionária, era a deixa.

– Oi! Por favor, você sabe se tem daquele outro carrinho, menor? – e aproveitei para desabafar – Esses aqui são tão desajeitados… Gesticulei para ilustrar melhor, apontando os trambolhos.

Ela sorriu, olhou ao redor, pediu um minuto e saiu. Logo surgiu no horizonte empunhando um carrinho normal – e era para mim! A felicidade tem quatro rodinhas, meu bem.

Entregou-me e disse:

– Você pediu com educação, aí eu fui buscar um pra você. Tem gente que chega aqui dando bronca, exigindo. Pra esses eu digo que não tem, acabou. Mas quando é com gentileza, a coisa muda.

Agradeci, saquei minha listinha de compras e segui meu destino.

Não é sempre que sou moça fina e educada. Não sou gentil em período integral. Talvez meio-período e olhe lá. Depende do dia, do vento, da umidade relativa do ar. Logo, não é sempre que consigo o que quero – seja um carrinho no supermercado, uma reivindicação para melhorar o bairro, um “sim” para um projeto, algum favor.

Quanta coisa já não devo ter deixado de conseguir na supervida, por não ter pedido com jeito.

O mundo é das pessoas gentis. Os melhores carrinhos de supermercado também.


A santa, a paixão e a vida como ela é

Arte: Simon Roberts

Arte: Simon Roberts

Ela abre os olhos e vê, pela fresta da cortina, que o dia não amanheceu. Levanta-se, ouve a chuva, olha o relógio e desaba na cama. Cogita faltar ao trabalho e, sonada, traça a estratégia: a) seu avô sofreu um derrame; b) um dos gêmeos passou a madrugada fazendo inalação; c) ela bateu o carro e esperou duas horas pelo guincho.

A semana é santa. Ela não.

Desmotivada pela fagulha da retidão que habita seu DNA, e também por amor, ela deixa o avô em paz. Acorda os gêmeos que, graças a Deus, respiram perfeitamente. Todos tomam café da manhã e seguem  no carro que, ufa!, está intacto. Ela os deixa na escola e acelera. O único coelho da história é o da Alice: sempre atrasado. Prepara-se para o sacrifício, a reunião é às nove.

Na hora do almoço, no shopping, ela lembra que precisa de sapatos novos e esquece que não tem dinheiro. Mas hoje é terça-feira da paixão pelas botas com franjas.

À tarde, ela repassa cronogramas, ajusta prazos. Diz não ao cliente, sabendo que, por isso, será crucificada antes de sexta-feira.

A semana é santa. Ela não.

No portão da escola, ela é a última mãe na saída. Exausta, beija as crianças. Está levemente arrependida por ter poupado o avô do derrame. Chegando em casa, ela põe os gêmeos no banho. Enquanto prepara o jantar, ela detecta o último Danette na geladeira. Certa de que isso dará briga na hora da sobremesa, ela resolve o futuro conflito ali mesmo. Os gêmeos já estão descendo as escadas, mas deu tempo de lamber a tampinha também.

Depois do jantar, ela sobe para o quarto, leva o iPad para o banheiro e faz o xixi mais demorado da sua vida. Finge que não ouve os gêmeos chamando por ela. Apura o olfato e estabelece consigo uma condição: se sentir cheiro de gás, ela desce.

A semana é santa. Ela não.

Ainda faltam quarta e quinta. Para o feriado, ela já anunciou: vai dormir feito pedra. Ressurreição só no domingo, depois do meio-dia.


Visite minha cozinha

Arte: Jérôme Motte

Arte: Jérôme Motte

Visite minha cozinha. É nela onde refogo as manias, asso os medos, torro a paciência e lavo meu coração de louça.

Visite minha cozinha. Ali escolho humores e amores, invento modos de fazer e desfazer. Mantenho o dia aquecido em banho Maria e sigo rezando, Livrai-me de todo sal, amém.

Visite minha cozinha. Mas atenção: facas e palavras estão sempre afiadas.

Visite minha cozinha. É o lar que habito e de onde me mudo. Às vezes, acerto o tempero. Às vezes, erro a mão; o abraço, não.

Visite minha cozinha, repare na bagunça, nos meus pés descalços e no gato que cochila na cadeira.

Visite minha cozinha. O fogo é brando e o café, forte. Tenho um fraco pelos extremos.

Visite minha cozinha e prove os ingredientes sagrados e profanos das minhas receitas. É minha salada espiritual.

Visite minha cozinha – ao mesmo tempo, altar de adoração e sacrifício. O lugar onde preparo (nem sempre com alegria) o alimento e gero combustível para o bom dia de todos. Há, no mundo, responsabilidade maior?

Visite minha cozinha. Pode vir sem avisar. Mas não tenha hora para ir embora; não sei preparar o futuro na pressão. Ajeite-se à mesa, o presente está sempre servido. Bem passado ou ao ponto, você escolhe.


Encontro vocálico

Foto: Allison Fontaine-Capel

Nina vem mostrar a lição de casa: tem que pesquisar seis palavras com encontro vocálico. Não está nada contente. Está bem chateada, aliás. Diz que vai demorar muito, que é uma trabalheira, que é muito difícil e não conseguirá achar nenhuma nas revistas espalhadas sobre sua escrivaninha. Ela não sabe, mas só na sua ladainha já foram cinco encontros vocálicos.

Olho-a bem dentro dos seus olhos castanhos.

Devo lhe dizer que eu daria tudo, mas tudo mesmo, para que, no dia de hoje, sendo o que sou e estando onde me encontro, minha máxima obrigação consistisse em rastrear uma revista, localizar meia dúzia de palavras, recortá-las e colá-las num caderno?

Devo contar o quanto me faria feliz gastar o quê?, dez minutos numa tarefa, para em seguida estar absolutamente livre para flanar pela casa, ver TV, brincar com os gatos, ir ver se tem algum amigo na rua, ou, se assim eu quisesse, livre até para – veja só – ir dormir às oito e meia da noite sem dar satisfação, ou sequer precisar passar os olhos na agenda para planejar o dia seguinte?

Talvez, no fundo, seja minha missão maior lhe dizer que, ao longo da vida, ela topará e terá que lidar com toda sorte de encontros vocálicos. Uns bons, outros nem tanto, mas todos essenciais. Ditongos, tritongos, hiatos: patrão, angústia, saudade, dieta, doença, viagem, paixão, separação, alegria, desilusão, cefaleia, salário, solidão, frio. Bem mais que a meia dúzia que ela precisa recortar para amanhã. Não adianta explicar o futuro a alguém com menos de um metro e trinta e dentes de leite.

Ou devo apenas lhe dizer, como boa, assertiva e focada mãe, que ou ela pega firme na lição ou não tem Chiquititas depois?

Conheci o pai dela em uma noite de verão. Foi nosso primeiro encontro vocálico, ainda que não soubéssemos disso. Trocamos telefones, nos falamos dias depois, combinamos de sair. Um longo passeio foi nosso segundo encontro vocálico. Começamos a namorar, moramos juntos e nos casamos. Mas não noivamos e a cerimônia não teve véu, nem marcha nupcial; pulamos todos esses encontros vocálicos. Daquela noite de verão em diante surgiriam duas pessoas, seu irmão e ela. E, de lá pra cá, entre ele e eu, tem encontro vocálico toda hora. Bom dia, tchau, como foi o trabalho, me dá um beijo, boa noite. Nosso derradeiro encontro (ou será desencontro?) vocálico há de ser a viuvez, minha ou dele. Nossa lição de casa estará feita.

Nina vira a página e se anima. “Olha, mãe: ‘estação’!”, diz, caprichando na sílaba tônica. Enquanto recorta a palavra da página, pergunta em qual estamos. Respondo: outono.

Vê, filha? Encontro vocálico é o que não falta nessa vida de meu Deus.


A mão que passa o esmalte

Foto: Eva the Weaver

E eu, que julgava ser uma mulher autossuficiente?

Que jurava por Deus ser capaz de me cuidar sem precisar de ninguém?

Que acreditava ter despontado no século XXI cônscia da máxima cabalista que garante estar em mim o poder para tudo?

Enganei-me bonito: não consigo pintar minhas próprias unhas. Logo, pouco ou nada disso é verdade. Caí do cavalo.

Havia decidido não mais gastar dezenove (dezenove!) reais por semana na manicure para tê-las feitas. É que fiz as contas do investimento, de hoje até o presumido fim dos meus dias, e tomei um susto. Considerando que também tenho pés com o mesmo direito (sem trocadilho) e fazê-los custa mais caro e nunca entendi o porquê, posto ser idêntica a quantidade de dedos.

Tudo pronto: ajeito, com rigor profissional, a parafernália sobre a mesa da sala de jantar. Alicate, lixa, algodão, palito de laranjeira, arsenal multicolorido de esmaltes, acetona, toalhinha, água morna. Trinta e cinco exaustivos minutos de trabalho: acho que tirei cutícula demais, pega mal ir à reunião com Band-Aid do Ben 10? Não domino o pincel, que aparenta ter vida própria. Extrapolo os limites geográficos de noventa por cento das unhas, tento corrigir. Será que acetona estraga a madeira da mesa? O palitinho escapa, derrubo o vidro de esmalte, apanho-o com a unha molhada, pronto, lá se foi mais uma. Esse algodão não presta, gruda em tudo. Alcanço o iPad no canto da mesa, vou no Google, “como remover esmalte de jeans”. Afinal, o que são dezenove reais? Apanho o telefone, Fulana tem horário para hoje?

Eis aqui, à revelia, minha declaração de dependência da manicure.

A manchete futura, no jornal: Dona Silmara Franco, 128 anos, vai ao salão fazer as unhas antes de receber a homenagem do Guiness Book como mulher mais velha do mundo. Não sei como serão os jornais em 2095, nem se ainda existirá o Guiness Book, muito menos se haverá manicures. Só sei que continuarei sendo uma mulher incapaz de esmaltar, decentemente, as próprias unhas.

Meu reino para saber se Angela Merkel consegue fazer, minimamente bem, sua manicure. Ainda que não precise; o ponto aqui é talento.

Com algum ensinamento e algum chão, sou capaz de produzir, processar e preparar meu próprio alimento. Costuro e tricoto minhas vestes, passo roupa com a mão esquerda, desenho um gato com os olhos vendados, tudo com relativa facilidade. Já pintar as unhas… É uma incapacidade definitiva, impassível de evolução. Falta em mim o gene responsável pela valiosa habilidade. Teria meu caso indicação médica para uma ressonância magnética, regressão, terapia de unhas passadas?

Que ninguém venha com coleção de frases do tipo “Querer é poder”, “Supere seus limites”, “Quem acredita sempre alcança”. Nenhuma delas se aplica à automanicure.

Que ninguém questione o hábito, também. Uma mulher de unhas (bem) feitas pode dominar o mundo. Assim que o esmalte secar, claro.

A cada tentativa de virar o jogo – na verdade, apenas três ou quatro, ao longo de quase três décadas de esmaltação – a história se repete. Diante do kit manicure sinto-me como uma criança de três anos apresentada ao mundo maravilhoso da tinta guache. Uma artista plástica pós-abstracionismo com referências no movimento punk e sob efeito de alucinógenos. Uma garotinha brincando de cabra-cega no terreno acidentado do parquinho da escola. A ideia de fazer uma poupança com os valores deixados semanalmente nos cofres dos salões vai, invariavelmente, para as cucuias.

Bem que queria, mas não estou nas mãos de Deus, como diz aquele adesivo de carro. Estou, irremediável e eternamente, na mão de quem passa o esmalte.


Medo do medo que dá

Arte: Ricardo Lago

Arte: Ricardo Lago

De criança, eu tinha medo de perder meus pais. Hoje tenho medo de perder meus filhos. Nunca queremos ficar sozinhos no meio da história.

De criança, apavoravam-me a prova de matemática e a professora de matemática. Hoje, dá medo fazer as contas no fim do mês. O que só comprova: o assunto é mesmo um bicho de duas mais cinco, ou seja, sete cabeças.

De criança, escondia meu diário no guarda-roupa, atrás das blusas de lã, com medo de que lessem. Hoje, o medo me faz proteger tudo – celular, computador, cartão de crédito – com senha. E não tenho mais diário.

De criança, tinha medo de falar com estranhos. Cresci, perdi o medo. Depois do Facebook, então, nem se fala.

De criança, morria de medo de engasgar com bala Soft. Hoje, a única bala que me assusta é a perdida.

De criança, tinha medo de casa mal assombrada. Hoje, tenho é de casa mal construída.

De criança, tinha medo de ver gente morta. Hoje, tenho medo de não saber o que lhe dizer, quando topar com uma.

De criança, temia a injeção. Hoje, temo a bactéria.

Certa vez, li num livro: “Dome seu medo!”. Parecia simples. Afinal, era só inverter as sílabas. Medo, no entanto (só depois soube), não é animal selvagem para ser domado. De medo, fica-se amigo. E despede-se com abraço, quando ele se vai. Sempre há de se conhecer um novo.


Boneca de papel

No restaurante, brinco de colocar a saia azul da mulher de blusa xadrez, sentada na mesa em frente, na moça de sapatilha de florzinha, em pé ao lado da porta. Penso também que ficaria melhor a bolsa da que acaba de entrar, com longas alças e fivela de borboleta, na que está sentada aguardando a conta. E o vestido rodado da ruiva que traça um pratão de yakisoba bem que ficaria bonito na garçonete, limitada ao triste uniforme que lhe aperta as ancas.

Não devo ter brincado o suficiente com as minhas bonecas de papel, quando era criança.

Em cinco minutos, altero a configuração do público feminino do restaurante. Corrijo, melhoro, salvo. Pena que nenhuma delas ficará sabendo.

As bonecas de papel não eram como as de hoje, superproduzidas, compradas em loja. Nós mesmas as fazíamos. Minha mãe desenhou as primeiras para nós. Recortava a cartolina, criava os modelitos. Depois minha irmã e eu aprendemos a técnica e passamos a criar nossas próprias bonecas. Não podíamos esquecer de fazer a abinha para dobrar sobre os ombros, na cintura. Caso contrário, a roupa não parava. Eu não fazia somente roupas, mas os acessórios também: chapéus, bolsas, botas. Para um guarda-roupa completo, bastavam papel e lápis de cor.

Hoje, a brincadeira dispensa a cartolina e o lápis de cor e pode ser brincada em qualquer lugar: supermercado, fila de banco, escritório. Até na aula de meditação. Só não dá para chamar a irmã para brincar junto, agora ela mora longe. Também não posso impedir que as bonecas, no meio da brincadeira, vão embora.

As bonecas de papel só tinham frente. Não tinham perfil, nem costas. Mesmo assim, rendiam uma tarde inteira de diversão. Não havia vitrine impossível para elas. Os casacos mais sofisticados, daqueles longos, elas podiam ter. Vestidos de baile, botas até o joelho, chapéus maravilhosos. Minissaias, vestidos “de ficar em casa”. Não havia roupa que a minha imaginação não pudesse lhes dar.

As mulheres do restaurante têm frente, costas, perfil. São bonecas em 3D. Apressadas, trazem para o almoço, pendurados no pescoço, os crachás das empresas onde trabalham. Não querem brincar. Alheias a mim, servem-se das batatas e dos tomates, pedem refrigerante zero, riem alto, engolem a refeição, levantam-se, vão embora. O papel delas é outro.


Te amo, Caetano

Arte: Lu Arembepe

São dezoito minutos do dia novo. Eu ainda estou no dia velho, conectada às manchetes de ontem. Como um marinheiro atraído pelo canto da sereia, sigo hipnotizada pelo noticiário on-line dos quatro cantos, de todos os santos. Estou diante da minha infinita banca de infindáveis revistas. Sabe quem lê tanta notícia, Caetano? Eu.

Aprendo sete dicas de linguagem corporal para quem faz apresentações. Mas eu não tenho nenhuma apresentação em vista.

Confiro cinquenta e três famosos sem Photoshop. Concedo meu palpite mental a cada um. Gisele é Gisele.

Tenho insights a respeito da vida, da Dilma e do aspartame nos refrigerantes. Todos os assuntos se amalgamam na rede.

Respondo doze mensagens e mantenho uma no rascunho, preciso pensar. Olho de soslaio o spam, avisto: “Como enlouquecer um homem”. Já faço isso, meu bem. Basta eu levar o tablet para cama e ficar navegando pela tudosfera.

Deixo comentário em cinco postagens. Em outra, penso, mas não escrevo. Me encho de preguiça.

Curto outras doze. Na décima segunda, já não me lembro mais o que curti na primeira.

Volto a um dos comentários que fiz, edito. Assim fica melhor.

Assisto pela quinta vez o vídeo de duas ex-elefantas de circo, amicíssimas, que não se viam há vinte e dois anos. Não tenho lenço à mão; meu documento diz que eu choro à toa.

E o avião da Malásia, hein?

Ouço duas músicas antigas (não caetanas) e sinto saudade. O Google facilita a nostalgia.

A semana teve dentes, pernas, bandeiras e uma ameaça de bomba que fechou a sede do Facebook, na California. A Brigitte Bardot está no Twitter, Caetano.

Bocejo, mas não me rendo.

Há um artigo recomendado para mim. Para mim! O título diz que nós, pessoas, não precisamos escovar os dentes. Não lerei o resto e a informação residual que acompanhará meus sonhos é: não preciso mais escovar os dentes. Alegria, alegria.

Vejo imagem de uma macarronada, clico no modo de fazer. Estou sem fome, mas com telefone, no coração do Brasil.

Fico triste, Paulo Goulart morreu. Fico alegre, a cachorrinha de três patas foi adotada por uma família de Nova Iguaçu. Fiquei bipolar depois da internet.

Confiro vinte e duas notificações. Esqueci de notificar as crianças sobre as toalhas molhadas no chão. Lembro de três coisas que não posso deixar de fazer assim que amanhecer. Na falta de caneta e papel, escrevo para mim mesma no Messenger. Logo aparece: “visualizada”. Posso ficar tranquila; eu vi meu recado.

Bocejo, desta vez me rendo. Caetano, eu vou dormir.

Por que não? Por que não?


De que lado estamos?

Arte: Juliana Moraes

Meu marido e eu já moramos em três casas diferentes. Nas três, sempre dormi do lado esquerdo da cama que, por sua vez, ficava próximo à porta. Não me recordo de essa ter sido, em nenhuma das vezes, uma escolha racional. Foi chegar e ir instalando travesseiro e pijama no “meu lado”. Nos hotéis, em casa de parentes, o padrão perto-da-porta se repete. É intuitivo.

(Leitores casados agora estão pensando em que lado da cama dormem e por que.)

Em território doméstico, a exceção foi inaugurada há pouco tempo: como ele se levanta antes, negociou para ficar próximo ao banheiro. Quis dar três passos e estar na ducha, em vez de dez, caso precisasse dar a volta na cama. Qualquer providência que o ajude a ganhar tempo pela manhã, ainda que alguns segundos, é bem-vinda. Ele não sabe, mas sinto falta do meu autoproclamado lugar.

Reparei em alguns quartos (eu reparo) e concluí que estou com a maioria: mulheres escolhem o lado mais próximo da porta, seja ele o lado esquerdo da cama ou não. Para os casais, a definição do lado de dormir é natural, regida por um acordo silencioso e invisível. Dispensa argumentações ou reivindicações. É feita de paz.

Coincidência? Ordem mundial? Ou lógica ancestral da maternidade, mesmo quando ela nem é exercida? Afinal, quem está perto da porta socorre primeiro (em tese; não vale para sonos de pedra) o filho que acorda chorando no meio da noite.

O mundo é organizado, explicado e obcecado pelos lados. O lado escuro da lua. O lado A e o lado B dos velhos discos de vinil. O lado esquerdo do peito, a abrigar, simbolicamente, amores e amigos. O lado direito do cérebro, a casa da criatividade. Política, educação, ativismo social, todos divididos em lados. O lado bom e o lado mau das coisas. O lado ocidental e o lado oriental. A vida do lado de cá, a vida do lado de lá. De se esperar que descanso e sonho, as fundações do mundo, seguissem também a geografia da lateralidade.

Na última configuração do quarto dos meus pais, minha mãe dormia do lado esquerdo, justamente o lado da porta. Há, portanto, herança genética no meu jeito de dormir. Desde que enviuvou, meu pai dorme em uma cama de solteiro. Nunca mais precisou escolher seu lado.


E eu não morri

Arte: Steve Bridger

Eu viajaria no dia seguinte, pela manhã, e retornaria à noite. Na véspera, me vi redigindo longo e detalhado email ao marido, com um inventário de informações e eventuais providências sobre a rotina da casa, das crianças, do meu trabalho em andamento. Por quê? Para o caso do avião cair e eu morrer, oras.

Tive medo de partir desta para melhor e não quis lhe dar trabalho para descobrir o modus operandi de algumas coisas que somente eu cuido ou sei. Não que ele seja alheio a elas, mas as minúcias, como a senha do meu computador, não é exatamente assunto que se lembre de conversar no jantar. Precaução extra de minha parte? Maluquice? Talvez apenas um devaneio de insubstitubilidade. Como se a Terra fosse interromper sua rotação, caso eu esticasse as canelas. Ou, como bem pontuou a amiga psicanalista assim que soube da missiva candidata a póstuma: meu caso é grave.

Se eu batesse as botas durante o voo, como é que o marido daria conta de saber, com relativa facilidade, quando as crianças têm consulta no pediatra? Que remédios meu pai toma? Onde está o bilhete da Mega Sena do concurso de amanhã? (Vai que.) Como ele daria a notícia aos leitores deste blog e aos meus amigos do Facebook, se não soubesse logins e senhas?

Contatos, pendências, compromissos marcados, as ONG’s de proteção animal que eu ajudo, a reiteração de que sou doadora de órgãos. Tudo se perderia entre as missas de sétimo dia e de um ano. Eu bem que tentaria falar com ele, mas não é certeza de que o wi-fi do lado de lá seja bom.

Nem em meus mais esquisitos sonhos pensei numa ação preventiva como essa. É algo que não passa pela cabeça. Como se morrer fosse uma possibilidade remota. Como se isso só acometesse quem viaja de avião. Ah, o nosso ingênuo imaginário. A morte pode estar em um tropeção na sala, num atropelamento besta, num  assalto, num infarto sem aviso prévio. Nunca cogitamos a impermanência no cotidiano.

Fui caprichando no email. Quando cheguei ao item 9, ri. Nisso que dá ter trabalhado em planejamento. Imaginei o marido lendo o email no outro dia, e eu em casa, vivinha da silva, dando comida aos gatos, levando as crianças para a escola. Como de costume.

Mesmo rindo e duvidando da sua utilidade, enviei o email. Ele não respondeu. Deve estar aguardando o melhor momento para fazer piada.

É bom estar viva.


Crônica de minuto #55

Luca foi fazer lição de casa e precisou pesquisar o significado de uma palavra. Alcançou o livrão na estante e, antes mesmo de abri-lo, espantou-se:

– Quanto pesa esse dicionário, mãe?

(Comprei o velho Aurélio com um dos meus primeiros salários. A edição é de 1986.)

Não sei quanto pesa a reunião de todas as palavras ditas diariamente em português. E também as não ditas, as só pensadas, as ensaiadas, as ocultas e as mentidas. As curtas, as compridas. As simples, as não. Quem pesa mais, o sinônimo ou o antônimo? Quanto pesam as cento e dezesseis palavras que compõem este texto?

– Um dicionário tem o peso do mundo, filho. E, veja você, não é difícil carregá-lo.


Dia da noiva

Foto: Scott Sherrill-Mix

Foto: Scott Sherrill-Mix

Eu, casada, bodas de marfim, dois filhos próprios e um gentilmente cedido, reivindico o dia da noiva que não tive. Eu, que não vivi a icônica tríade véu-grinalda-igreja; eu, que pulei o protocolo do noivado e fui direto aos finalmentes; eu, que não tive nada dessas coisas, venho requerer o direito inalienável e inexpurgável de incorporar, forever and ever, o dia da noiva aos meus dias de esposa.

Porque toda mulher casada há dois dias, dois meses ou vinte anos precisa de um dia da noiva. Vários, ao longo do mês.

Toda não-casada também.

Toda mãe de filho – pequeno, médio ou grande – precisa de um dia da noiva.

Aliás, toda mãe e toda não-mãe.

E toda avó.

Toda tia.

Toda filha.

Toda prima e toda sobrinha também merecem um dia da noiva.

Todo homem, todo pai e todo filho. A todo espírito santo também cabe um dia da noiva, para por os pezões invisíveis para cima, relaxar e não pensar nos problemas terrenos.

Aos desavisados: não um dia da noiva que preceda o ‘sim’, dia de borboletas no estômago, de pura preparação estética para o (des)conhecido porvir. Não como rito de passagem. Não como dia de paparico extra com banho de cinquenta minutos e demais firulas pré-nupciais.

Não.

Dia da noiva como dia próprio. Dia de dedicação plena ao ego. Dia de nada-mais-importante-a-fazer. Dia de ler três revistas inteiras. Dia de tempo sobrando. Dia de sumir, só aparecer mais tarde e todo mundo entender. Dia de cinema solitário. Dia de comparecer ao auto-altar. Dia de ver o dia pedindo, tentando, insistindo, querendo lhe desposar.

Proclame também o seu dia da noiva. Mesmo que você não seja uma. Aliás, tanto melhor.

Peça-se em casamento. E aceite.


Casal

Apanho o xampu, cabelos curtos precisam d’um pouco só. A primeira ensaboada é “pra tirar o grosso” – quem falava assim? Modo de dizer, em cabelo lavado todo santo dia sujeira nenhuma tasca. Repito a operação para melhores resultados. O rótulo que diz.

Volto o frasco ao seu lugar de costume, no canto, mais à mão. Reparo que o do condicionador, ao lado, com capacidade para os mesmos duzentos e cinquenta mililitros, está quase cheio. O do xampu, quase vazio. Não, não é papo sobre otimismo e pessimismo. É papo de amor, bicho.

Xampu e condicionador são, essencialmente, um casal. Apesar de vendidos separadamente, formam uma unidade, têm ingredientes ativos semelhantes. São complementares. Foram feitos – assim espera o fabricante – para habitar o mesmo lar, box, banheira, pia, frasqueira.

Eu gosto de comprar o casal. Eles não brigam, deixam o mesmo perfume nos meus cabelos. E eu sigo acreditando nos melhores resultados. Por conta da crença, eles nunca findam juntos. O xampu morre antes. O condicionador sempre fica viúvo.

***

Minha mãe se foi antes do meu pai. E ela não estava nem pela metade. Será que eu a usei demais, mais que a meu pai? Soubesse, eu a teria a usado menos, para que durasse mais. Meu pai continua lá. Quase vazio, mas lá.

Pai e mãe, apesar de nascidos e crescidos separadamente, aos olhos dos filhos, formam uma unidade, têm ingredientes ativos semelhantes. São complementares. Foram feitos – assim esperam os filhos – para habitar o mesmo lar, para sempre. O que quase nunca acontece, por separação ou morte. Separação é quando o amor não faz mais espuma. Viuvez é quando, de uma hora pra outra, o banho acaba.

Meu pai nunca quis se casar de novo. Permanecer viúvo, mais que de amor, é um ato de coragem. A saudade, às vezes, arde nos olhos.

***

Coloquei um xampu novo ao lado do velho condicionador; salvei-lhe da solidão. Porém, tal uma filha mimada, estranhei o casal logo de cara. Não são nada parecidos – apesar dos benditos ingredientes ativos semelhantes. Vamos ver como é que os dois, juntos, se saem. Porque não tem nada pior que rebeldia. Nem de filho, nem de cabelo.


Estou só olhando

Foto: Cameron Russell

Entro.

Meus pés, treinados, me levam à seção dos vestidos. Os longos ficam a oeste. A leste, os curtos. Um espelho superlativo, ao norte. O caixa cruel, ao sul. São os pontos cardeais do consumo, orientando minha fome de roupa nova.

A vendedora surge, sorridente. Quer curar a minha deliciosa solidão.

– Estou só olhando.

Ela não sabe, mas eu minto. Não estou só olhando.

Uma a uma, puxo de leve as peças nos cabides, a fim de sabê-las melhor. Meus sentidos estão irremediavelmente despertos. Além dos olhos, curiosos, os ouvidos detectam conversas paralelas; calculo começos de histórias, invento finais. Farejo mangas e golas e entretelas. Arrepio na aspereza da fazenda. Quero comer o vestido de morangos.

Vê, moça? Não posso apenas estar olhando. Mente quem diz.

Penso, nauseada, na possibilidade de mãos infantis, indevidas e não-autorizadas, terem pregado aqueles botões, ao mesmo tempo em que matuto, aflita, no que farei para o jantar. Que horas são?

Dedico dez segundos de compaixão aos que derretem no verão externo, agradecendo a dádiva do ar condicionado interno, a reproduzir o outono com notável perfeição.

Vê, moça? A frase-padrão, que serve para se poder zanzar sossegada por entre as araras, é uma farsa.

Ela, vendedora, ronda. Insiste:

– Procurando alguma coisa especial?

Todos os dias, meu bem. Incansavelmente. Sigo procurando especiarias e especialidades em tudo: uma água quente sob a ducha, para terminar de me acordar. Uma manga doce para meu café da manhã. A volta de todos, em segurança, para casa – todo retorno ao ninho é especial. A esperança de que o dia tenha início, meio e sim. Mas hoje, confesso, procuro mesmo é algo que não me deixe barriguda. Devo respondê-la, será? Vendedora não tem tempo de ouvir. Vendedora só tem tempo de vender. Se eu levo todos os sentidos quando vou às compras, ela só traz um quando vem trabalhar.

O espelho do norte me encara. Ordena que eu confira meu layout original, do Oiapoque da minha écharpe ao Chuí das minhas sapatilhas. Que tipo de animal geográfico paramentado eu sou, afinal?

Saibam, moças vendedoras do mundo todo; nunca estaremos só olhando.

Finjo conferir o preço na etiqueta mas, em verdade, estou pensando na última vez que fui ao cinema, tentando lembrar qual é a capital do Camboja, me dando conta de que não tenho dinheiro. Todos as angústias cabem no bolso de uma camisa verde-limão.

Apanho uma pantalona, coloco-a na frente do meu corpo, tem que fazer barra, sempre tem. Conto as lampadinhas piscantes da vitrine e lembro do dia em que ganhei minha primeira bicicleta – não sei se foi de Natal ou aniversário. O banco veio muito alto, eu era (sou) pequena. A loja não faz ajuste.

Provo, reprovo, hesito, aprovo. Minhas roupas são cheias de verbos. Uma década e dois filhos me afastaram do 38, me puseram no 42 e me trouxeram de volta ao 40. Às vezes, não sei costurar passado e presente.

Ela, moça, quer saber até quando só olharei. Disfarça a impaciência e diz para eu ficar à vontade. Todo vendedor mente. Todo freguês, também.


Cartinha do Papai Noel

Foto: Tom Magliery

Foto: Tom Magliery

Queridas crianças

Todos os anos, eu recebo bilhões de cartinhas de vocês. De algum tempo para cá, passei a receber e-mails também (já são dezenove milhões de mensagens não-lidas). No mês passado, recebi uma pelo WhatsApp. Como a maioria dos adultos, eu também não dou conta de ler tudo. Um dos motivos: vocês escrevem demais. Falta foco, meninos.

A verdade é que eu não me importo tanto assim se vocês foram bonzinhos e boazinhas o ano todo. Vocês não precisam me enviar um relatório comportamental. Nem leio essa parte. Andei pesquisando sobre as crianças índigo, e penso que ser bonzinho não define muita coisa. Nem é garantia de que, assim, vocês ganharão presentes. Na vida, as coisas não funcionam assim. Seus pais ainda não ensinaram isso?

A vida aqui no Polo Norte, preciso dizer, não anda fácil. Depois da PEC dos Elfos, meus ajudantes querem redução da jornada e direito ao Fundo de Garantia. Não tenho para quem repassar esses custos. A sorte é que, até agora, nenhum deles me processou na Justiça do Trabalho.

Então, eu tive algumas ideias e quero compartilhá-las com vocês.

Pretendo escalonar a entrega dos presentes. Já sei; vocês não sabem o que é escalonar. Por que nunca pedem dicionários no Natal? Bem, funcionará assim: a entrega será feita ao longo do ano. Quem tem nome começando de A até I continua ganhando os presentes no Natal. Nomes de J a R receberão seus presentes na Páscoa, através do Coelhinho. Ele é meu chapa. Nomes de S até Z terão seus mimos entregues pela Fada dos Dentes, a cada ‘janelinha’ inaugurada. Quem não tiver mais dentes de leite certamente não acredita mais em mim, nem nela, e ficará tudo certo. Que tal?

Para aqueles que preferem enviar suas cartinhas por e-mail, peço que coloquem o que querem ganhar no campo “assunto”. Ajudará um bocado. E, por favor, evitem mandar links do Submarino etc.. Ano passado, muitas cartinhas foram parar no spam. Que trabalheira! Em tempo: cartas por WhatsApp não serão aceitas. É impossível decifrar aqueles desenhinhos que vocês colocam no meio das frases.

Ah, ia esquecendo de avisar: este ano não usarei trenó. Está cada vez mais complicado trabalhar com as renas. Os protetores de animais andam reclamando. Dizem que elas sofrem maus tratos, vejam vocês! Se souberem de alguém que queira adotá-las, me avisem. Estão todas castradas e vacinadas.

Por fim, aproveito para dar um toque: digam aos seus pais que não fica muito bonito aqueles bonequinhos de Papai Noel nas janelas e varandas, subindo escadinhas que nascem do nada. Parecem uma versão lapônica do Homem Aranha. Era para ser fofo? Alguns são pendurados tão de qualquer jeito, que beijam as paredes. É entristecedor.

Por ora, é isso. Conto com a ajuda de vocês, crianças.

Abraços natalinos, ho ho ho, aquelas coisas todas.

Noel


Crônica de minuto para quem não acredita em Papai Noel

Arte: Kohei

Arte: Kohei

Luca quis porque quis saber se quem dava os presentes para ele e para a irmã no dia de Natal era o Papai Noel ou nós. Fui insistentemente inquirida ao longo do dia. Desconversei o quanto deu; Nina, a caçula, crente de carteirinha, estava sempre por perto.

Disse que não escreveria cartinha coisa nenhuma. “Quero ver se ele adivinha o que eu quero ganhar”. Expliquei que Papai Noel não é Deus, nem anjo ou qualquer outra entidade dotada de onisciência. E que não gosta de ser testado. Ele pensou, pensou, e anunciou: escreveria, então, mas a esconderia no quarto. Por um segundo, imaginei-me fuçando gavetas, revirando a estante.

Se ele apontou a opção – ele ou nós – é porque alguma pista ele já tinha. Não havia mais o que esconder. Mesmo assim, fugi da inquisição. Quem sou eu para desmascarar o bom velhinho?

A objetividade me doía. Foi como pisar descalça em um chão pelando. Falei sobre crença, fantasia, imaginação. Deixei na entrelinha. Fui covarde. Logo eu, sempre tão na lata. No fim, quem deu as respostas foi ele mesmo. Eu apenas confirmei.

Num misto de regozijo e decepção, ele ainda não sabe direito se desacreditar no Papai Noel é um bom negócio. Anda preocupado, questionando se sua ‘descoberta’ foi precoce ou tardia – ele tem nove, um pé nos dez. Receoso, também, pelos presentes que virão. Sobretudo, encasquetou que Natal perdeu a graça.

(Que podia eu, que não nutro simpatia pelo circo do Natal, lhe dizer? Que acho um saco o presente-obrigação? Que me cansam o peru, a neve forjada, a Missa do Galo? Só gosto de Jesus e queria lhe desejar feliz aniversário, sem firulas.)

Dei-lhe um beijo para selar sua descoberta e um abraço para me despedir da sua infância. Ele prometeu ajudar a manter o segredo para a irmã. Ganhei um aliado. E Papai Noel, mais um parceiro.

 


Os mitos do amor

Foto: Paul Moody

Foto: Paul Moody

Dos mitos que os amantes inventam para o amor, três são dignos de nota.

O primeiro e mais falacioso: dois em um.

A medicina tem um baita trabalho para tentar corrigir o engano da natureza, que faz duas pessoas nascerem grudadas – os gêmeos xifópagos. E alguns malucos apaixonados, veja só, insistem em querer “se tornar um”, ainda que simbolicamente. Nem na plena adolescência, contaminada de certa crença em príncipes encantados, a ideia da fundição amorosa me agradava. “Dois em um” só fica bem em alguns produtos, como xampu & condicionador, impressora & scanner. Num relacionamento, é bom que cada um continue com seu corpo, sua alma, seus segredos, seus amigos, seus carros e seus RGs. Sem essa de um completar o outro. A única pessoa que me completa é o frentista do posto. Peço sempre para ele completar com gasolina comum (ou etanol, quando está em conta).

O segundo, tipicamente pueril: dormir de conchinha.

Conchinhas do mar são fofas. Quem nunca colecionou, quando criança? Era ir à praia e voltar para casa trazendo aquele montão, que logo ia para o lixo. Um dia, alguém cismou de compará-las ao modo dos casais enamorados dormirem, assim, encaixados, grudados. A concha, no entanto, é uma carapaça. Rígida, ela guarda em si um molusco. Eu que não quero ser carapaça, nem dormir ao lado de uma carapaça. Muito menos com molusco. Gostoso mesmo é dormir feito estrela do mar, como diz minha amiga. Espalhadona, solta, à volonté. O que não significa, evidentemente, falta de amor ou romantismo. As estrelas do mar são livres, se movimentam. As do céu brilham, para quem tiver olhos de vê-las e ouvidos de ouvi-las. Ora direis… Amar e mar têm as mesmas letras, e é só isso. Façamos assim, para não haver briga, nem cara feia, na hora de nanar: cinco minutos de conchinha e sete horas e cinquenta e cinco minutos de estrela. Pronto.

O terceiro e mais ardido: a pimenta.

Dez entre dez revistas femininas lançam mão, três vezes ao ano, da expressão “apimentar a relação” e seus similares, buscando reanimar relacionamentos combalidos. Dá-lhe cinta-liga, elixires, malabarismos, pirotecnias, apoteoses. Pimenta, todo mundo sabe, queima o gogó, arde nos olhos. Um amor que faz chorar, quem há de querer? Fosse assim, vatapá seria afrodisíaco. Pimenta na relação é para os masoquistas de plantão, candidatos a uma úlcera afetiva. Melhor seria “manjericar” o namoro. Ou “coentrar”, “tomilhar”, “papricar” o casamento. Mais saudável, mais gostoso.

Há mais mitos no amor. Muito mais. Cada um que descubra e desmistifique – ou não – o seu.


O dente mole de todos nós

Arte: Lilian Ling

Arte: Lilian Ling

Nina passou semanas com um dente-de-leite mole. Preso apenas por um fiapo, num cai-não-cai de dar aflição. Mas ela se recusava a deixá-lo ir. Não permitia que ninguém chegasse perto do dente moribundo. Enfrentou situações complicadas. O dente mole a atrapalhava para mastigar, beber, tomar sorvete, falar. Sem abrir mão dele, seu lema parecia ser: “Mais vale um dente velho, mole e conhecido que uma ‘janelinha’ aberta para o (dente) novo e desconhecido”.

Eu, encarnando a mãe-dentista, tentava persuadi-la, “Não vai doer nada”, “Vou bem devagar”. Nem. Ela travava os lábios, fazendo a guarda do dente frouxo.

Vaidade? Talvez. A Barbie nunca ficou banguela na vida.

Medo? Sim. De um possível sofrimento, de uma eventual dor. Medo do novo, enfim. Ou nem tanto, posto que não era o primeiro dente a cair. Mas o medo velhaco, às vezes, se traveste de novidade. Só para assustar quem não arrisca. Buuu!

***

Todo mundo tem um “dente mole” na vida. Ou mais de um. Vai dizer que não? Aquele incômodo – físico, mental, material – com o qual se aprendeu, ou se acostumou, a conviver. Aquele, tão de casa. Aquele, que passou da hora de ser resolvido. Aquele, que nem precisava mais estar ali, mas está. Aquele, que simplesmente vai ficando.

O MBA medíocre e sem sentido. O trabalho tedioso e o chefe massacrante. O namorado ogro e babaca. O apartamento mal iluminado e estreito, onde não cabe nem um sonho. A rede social viciante, sugadora de tempo e energia. A operadora de celular que age de má fé e a loja que atende mal. O excesso de peso e a falta de dinheiro. A dor nas costas, a enxaqueca, a alergia.

Tem pessoas que, tão logo a coisa fique antiga ou desconfortável, como um simbólico dente que começa a amolecer e implorar pelo caminho natural da renovação, o extraem, sem dó, nem piedade. Livram-se num piscar de olhos, sem dramas, sem delongas, sem chorumela. Xô!

E tem as que mantêm seus “dentes moles” ad aeternum. Numa espécie de validação do hábito, de apego à rotina, de receio do que vem depois. Ainda que seja um estorvo.

***

Acabou que o dente da Nina se foi. Estavam unidos por um breve fio de pensamento. Ela deixou, enfim, que eu o tocasse. O suficiente para que o pedaço de osso sem vida, ploc!, saísse na minha mão. Ela abriu um olhão deste tamanho, aliviada. Ela, que já tem outras janelinhas, agora exibe um sorriso-varanda.

***

Anda. Arranca você também o seu “dente mole”. Quem sabe a Fada, não a do Dente, mas a da Atitude, passe pela sua casa à noite e deixe um presente sob seu travesseiro.


Error

Arte: Id-Iom

Arte: Id-Iom

A mãe de um amigo do marido morreu. “Quantos anos?”, perguntei. A gente quer sempre saber a idade de quem morreu, assim como o peso de quem nasceu. Para, em seguida, inquirir de quê que foi e com quantos centímetros, respectivamente. São as perguntas-padrão, ponteando a curiosidade matemática nos extremos da vida.

“Era bem velhinha”, ele respondeu. Soltei um “Ah” vestido de ligeira tristeza, porém conformado. E segui com meus afazeres, sem choque, sem pena, sem filosofias. Tudo bem morrer velhinho, então.

Há algum tempo, a filha do amigo de uma amiga morreu. Perguntas feitas, respostas dadas, fiz coro na unânime inconformação: uma criança! Ninguém acreditou.

A velhice autoriza a morte. A juventude, não. O velho que morre está em conformidade com a vida. O jovem que o faz comete infração grave contra a (inventada) legislação da natureza. E quanto mais novo, parece, maior o agravante.

É como se disséssemos ao velho: “Já viveu o bastante; pode ir”. E, da mesma forma, ao jovem: “Ainda não viveu o que tinha para viver; tem de ficar!”.

Por um instante, incomodei-me com a possibilidade de ninguém ligar quando eu morrer, quem sabe, com oitenta e quatro anos. Não que eu vá querer choro e vela (nem fita amarela), mas não gostaria que considerassem justa a minha morte apenas por conta da idade que terei no derradeiro dia. E se eu ainda não tiver vivido tudo a que tenho direito? Se ainda tiver planos? Se ainda estiver aprendendo a tocar piano? Quem decide os fins, afinal de contas?

Culpa do planejamento. Assim como se programam tarefas ao longo dos dias da semana, viver está distribuído em anos. Nascer, engatinhar, andar, brincar, estudar, trabalhar, comprar uma casa na cidade, casar, ter filhos, continuar trabalhando, fazer um cruzeiro, ter netos, se aposentar, comprar uma casa na praia, ter bisnetos, morrer. Tirante as pontas, poucas variações dessa ordem são aceitas. Se se morre fora do script, é como se a brincadeira não houvesse valido. Falha na programação. Error.

Não quero mais saber a idade dos mortos. Nem o peso, tampouco altura, dos recém-nascidos. Vou querer saber, sobre eles, outras coisas, mais relevantes para uma lembrança ou votos de vida.

O que explica o mundo, desconfio, não são as respostas. São as perguntas.


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