Entrei no restaurante e avistei, em uma das mesas, uma amiga. Ela não me viu. Adivinha o que eu fiz? Fingi que não a vi. Na esteira rolante do fingimento, servi-me, sentei-me, almocei, paguei a conta, vim embora. E passei o resto do dia arrependida e tentando compreender porque diabos eu fiz aquilo.

Gente é o único bicho que finge, e não são só os poetas. Alguns animais até juramos que são capazes de fingir. Você dá uma bronca no gato e ele olha para o lado, ou começa a se lamber, “Não é comigo”. Mas, em tese, somos os detentores da qualidade. Quem não finge na vida? Que não sabe de nada, ou sabe tudo. Que está dormindo, triste ou com dor. Que está passando mal (para se livrar daquela reunião chata, ou de visitar a tia idem). Que está entendendo tudo. Que está tudo bem. Tem aquele que finge não estar prestando atenção na conversa dos outros. Não ter visto que havia mais pessoas na fila. Que finge que é cego. Ou surdo. Gente que finge amor. Simpatia. Compaixão. Prazer. Gente que finge que esqueceu. Que se finge de bobo. Ou que é inteligente. Que não viu o garoto pedindo um trocado. Que não recebeu o email. Há quem finja interesse em história boba. E, veja só, tem até quem finge não ver a amiga no restaurante. Mas ninguém finge raiva, nem ódio. Fingimento deve, portanto, servir só para coisa relativamente positiva. Alguém finge ser invejoso ou cruel?

E por que se finge, afinal? Qual o mecanismo por trás do fingimento? Fingimento é camuflagem. Falsidade. Espécie de mentira – porém, amparado numa verdade. Fingir para agradar alguém é submissão. Para se sobressair em algum aspecto, vaidade. Para não admitir falhas: perfeccionismo. Para não errar, medo. Fingimentos podem até ser sinceros, por que não? Nem todo fingimento é baseado numa intenção má. Aliás, poucos devem sê-lo, de fato. (Finja que acredita nisso, por favor.) Fingir é humano, ancestral. Crianças fingem que estão cozinhando para as bonecas, pilotando um foguete. E se divertem até.

No caso da minha amiga, nada me convenceu. Então não gosto dela? Sim, gosto. E muito. Eu estava com pressa? Nem um pouco. Eu lhe devia alguma coisa – dinheiro, informação, satisfação? Nada. Ela estava acompanhada e eu não queria incomodá-la? Não. Eu estava acompanhada? Também não. Então é simples: sou uma besta. Só não sei disso. Ou sei – e finjo que não sei. E se minha amiga também tivesse me visto, e resolveu fingir que não? Rá.

Pensando bem, tem a preguiça. Preguiça de ir lá, cumprimentar, contar como vai a vida, o trabalho, as crianças, o livro que um dia sai. Tem horas em que é bom sossegar a fala, fingir-se de muda. Poupar a língua da alma.

Passei a tarde angustiada. De verdade, sem fingimento. Das duas uma: conto tudo para minha amiga, ou finjo que nada aconteceu.

Foto: Anniferrr/Flickr.com

Passou um rímel no olho do furacão. Um batom na boca do povo. Um pente nas ideias. E saiu. Marchava como um soldado. Sua cabeça não era de papel, nem de vento. Naquele dia, era de chumbo.

Então sua filha não poderia estudar na mesma escola que as outras crianças da rua? Aquilo não estava certo, não. Sete e sete são quatorze. Com mais sete, vinte e um: de fato, ela tinha muitos namorados. Mas não gostava de nenhum. E, acima de tudo, não gostava de ver sua garotinha sendo tratada diferente. Pois agora o diretor da escola veria o que era bom para tosse. Justo ele, que era um xarope.

Desceu a rua pela sombra enquanto ensaiava o discurso. Senhor Diretor, a mensalidade da minha filha está atrasada? Não, senhora. (Sim, ele teria de chamá-la de senhora, igual fazia com as outras mães.) Senhor Diretor, minha filha, por acaso, desrespeita alguém aqui? Não, senhora. Senhor Diretor, minha filha sabe quanto é dois mais dois? Sabe, sim senhora. Então pronto, senhor Diretor. Estamos acertados? Estamos, minha senhora – ele diria e lhe ofereceria um chá de jasmim.

Na esquina, abriu a bolsa e buscou a medalhinha de Santa Maria Madalena. Ela, que também era Maria, mas não ia e nem vinha com as outras, apertou-a firme nas mãos, guardou-a e retomou a marcha. Então estamos acertados, senhor Diretor?

Chegou à escola rodeada de pinheiros, subiu a escadaria. Era aguardada. Assim que entrou na sala do diretor, recebeu um envelope. Uma página com assinaturas pedindo a saída de sua filha. Na verdade, era ela que queriam ver longe. Sua filha era apenas o meio, o animal sacrificado em noite de lua cheia. Não houve senhora, nem acerto, nem chá de jasmim.

Ela tentou retrucar. Falou sua parte do discurso ensaiado, mas o diretor não disse a dele. Ela improvisou, sem conseguir, contudo, estabelecer o roteiro imaginado. Disse, por fim e aos berros, que aquela escola era como uma canoa sem direção, prestes a virar. Porque ninguém ali sabia remar direito. O diretor riu, escancaradamente. E ela pôde ver: no céu de sua boca não havia estrela alguma. Era um céu estéril. Como tudo ali.

Foto: Anthony Kelly/Flickr.com

Cena 1. Terceira vez que eu via a moça naquele café. Na primeira, só pensei em falar. Na segunda, deu vontade de falar. Mas ela se levantou antes da mesa e foi embora. Na terceira, pensei, deu vontade e ela olhou em minha direção. Soltei:

– Seu cabelo é muito bonito.

A moça fingiu que não entendeu e murmurou o Ãn? mais blasé deste mundo. Elogiar desconhecido é quase sempre arriscado, a gente nunca sabe o que vai encontrar. E quando o elogiado faz que não escutou, repetir o elogio pode tornar tudo sem graça. Desejei ter ficado de bico calado, mas tive que dizer de novo. Aquilo de ajoelhar e ter que rezar. Ela então passou as mãos nos cabelos e lançou-me um olhar de incompreensão:

– Ele está tão sujo…

Cena 2. Festa na casa de amigos, reparo na roupa de uma convidada. Como a dona do traje era minha amiga, espécie de comadre, me senti à vontade:

– Gostei do seu vestido!

A amiga não posou de blasé e entendeu de primeira. Mas retrucou, com a mesma incompreensão da moça do café:

– É tão velho…

Cena 3. Reunião de trabalho. Meu radar, treinadíssimo, capta um par de sapatos maravilhosos. Nem tanto o céu, nem tanto a terra: quem os calçava não era uma desconhecida, tampouco alguém muito íntimo. Aproveitei uma brecha:

– Amei seu sapato.

A mulher, diferentemente das outras duas, sorriu e aparentemente gostou do elogio. Porém, precisou revelar:

– Paguei tão baratinho…

Que diacho. Mulher quando recebe elogio tem sempre que dar uma explicação. Como se não o merecesse, e precisasse de uma justificativa para estar ou ser bonita. Como se procurasse algum detalhe que lhe diminuísse o valor. Ou então, é o contrário. Uma tentativa, ainda que inconsciente, de se valorizar mais. Como se dissesse: “Meus cabelos são bonitos mesmo imundos”. “Meu vestido é antiquíssimo e eu fico linda nele”. “Eu uso sapatos baratos, mas veja como estou elegante com eles”. Não sei o que é pior.

As pessoas elogiam por vários motivos. Para lisonjear. Por interesse. Porque têm a expectativa do agradecimento – querem atenção, então dão atenção. Ou para registrar uma opinião ou impressão. Eu elogio porque acho a coisa ou a atitude bonita, e penso que a pessoa gostará de saber disso. Simples assim. Para mim, não importava se o cabelo havia sido lavado naquele dia ou três dias atrás; se o vestido era novo ou se já andava sozinho; se os sapatos haviam custado os olhos da cara ou uma mixaria. Achei bonito, e ponto final. Coisa mais feia recusar elogio.

Repare: acontece quando o elogio é para mulher, onde ela própria é a elogiada. Se você elogiar o filho dela, ela concordará (e até complementará). Elogie um homem – sua gravata, por exemplo – e ele simplesmente responderá: Obrigado. Já viu homem explicando que a gravata era do camelô, ou que estava no fundo da gaveta, ou então que comprou em Nova York? Tem certas horas em que a objetividade masculina é invejável.

Cena 4. Tirei o cartão da bolsa, ia pagar minhas compras. A moça do caixa usava um anel que era luxo só. Grudei os olhos nele, suspirei… e pedi:

– Débito, por favor.

Foto: Sonson/Flickr.com

Aonde vão parar as cartas de amor que não chegam aos destinos? Os bilhetes e emails românticos, nunca lidos, perdidos e esquecidos pelos caminhos, ares e fios?

A missão de toda carta de amor, em papel ou pixel, é chegar até alguém. Se a carta, depois de escrita, não chega a ninguém, suas palavras se desfazem, e as letras retornam aos seus lugares no alfabeto. Palavras são reuniões de letras que se gostam. E, assim como as vírgulas e os pontos, todos voltam para suas casas. Ficam esperando nova oportunidade de dar um passeio. (Amor, às vezes, tem mais pontos de interrogação que de exclamação.)

O que é feito do amor da carta que não chega ao seu destino? Quem sabe ele se dissolva em átomos e fique espalhado sobre o planeta, para quem quiser colher: é de graça, mesmo. Ou então, quem sabe o amor vire a dúvida do sim, do não e daquele bobo do talvez.

E o que é feito da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Sabe-se lá. Mas uma coisa é certa: dá uma tristeza danada não saber o que aconteceu com o amor postado em vão.

E o que é feito da tristeza da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Vira solidão. Principalmente de manhã, ao acordar, quando não tem ninguém ao lado para dar bom dia ou perguntar se está sol, exceto o criado. Que é mudo. Não vai responder.

E o que é feito da solidão da tristeza da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Vira vazio. Aquele, que se instala no sofá nas noites de sábado e fica cantando músicas grudentas só para chatear. Mas repare bem no cantinho do olhar dele: aquilo ali é esperança. E das boas.

E o que é feito da esperança da solidão da tristeza da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Essa vira sonho, e é dele que nasce todo o resto que vem antes e depois de uma simples carta.

Então, na próxima vez que você escrever uma carta de amor, esteja ciente: mesmo que não seja entregue, de fato, ela é capaz de criar quase tudo que há no universo. Sendo assim, melhor caprichar.

Ilustração: Eli Brody/Flickr.com

Encontrei com o Seu Tonico dia desses. Estava chateado, o telefone tinha pifado outra vez. Com voz grave e decidida, anunciou:

– Amanhã vou na Telefônica resolver isso.

Seu Tonico, nascido na Revolução de 32, é do tempo em que quando alguém tinha um problema com um produto ou serviço que não estava bom, ia lá resolver tudo direto com o dono da coisa. Está certo, podia não ser exatamente com o dono, mas com algum funcionário dele, num lugar onde o dono provavelmente estaria. Ele é da época em que as relações – comerciais ou não – tinham mais olho-no-olho, mais tête-à-tête. No caso das comerciais, muita coisa mudou desde que seu Tonico despediu-se do lugar onde nasceu e cresceu e foi parar na capital, deixando para trás a vida sossegada da fazenda onde seu pai trabalhava, o banho de rio e a vaca Beleza que um dia, enfezada, correra atrás dele até a porteira, para poder pastar sossegada.

Hoje, quando o assunto é prestação de serviços, ninguém mais vê cara. Nem coração. É tudo virtual, seco, pobre. Enquanto Seu Tonico ia contando os problemas com a linha, eu tentava explicar que o telefone dele nem da Telefônica é. Seu Tonico é do tempo em que só existia uma companhia nesse setor. Era pior, porém, mais simples. Expliquei que era outra empresa, a mesma da TV a cabo, a coisa dos combos.

– Então eu vou lá.

Se Seu Tonico batesse na porta da companhia, talvez nem conseguisse ser recebido. Talvez tivesse trabalho para se fazer entender e talvez tomasse um chá de cadeira até que alguém resolvesse ver o que ele queria. Talvez tentassem, como a vaca Beleza, enxotá-lo dali, para garantir a paz do lugar. Talvez em pouco tempo se instalasse o burburinho, e a recepcionista, perdida, não saberia o que fazer com ele. Ligaria de ramal em ramal:

– Tem um senhor aqui querendo falar com alguém.

– Mas o que ele quer?

– Ele quer falar com alguém.

– Sobre o quê?

– Um problema no telefone dele.

– Aqui a gente não resolve problema de telefone.

– Mas aqui não é uma companhia telefônica?

– É. Mas ele tem que ligar no Atendimento.

– Mas ele disse que não vai embora enquanto alguém não falar com ele.

– Ai meu Deus.

E Seu Tonico, sentadinho no sofá bonito da recepção, seria observado de longe pelo Segurança. Vai que. Não haveria ninguém disponível para resolver aquele pepino, lidar com aquele intruso, aquele corpo estranho. Mesmo que o corpo estranho fosse a razão de viver da companhia: o cliente.

Pensando bem, seria interessante Seu Tonico ir fazer uma visitinha lá. Só para abalar a rotina paquidérmica da empresa, alvoroçar os ânimos, botar os neurônios da turma para funcionar. Mas eu o convenci de que agora é diferente, sem contudo, estar certa de que isso é bom. O instinto de proteção falou mais alto. Afinal de contas, não é certo deixar o pai da gente arrumar confusão.

Ilustração:Amy-Wong.com/Flickr.com

Pessoa-livro. Cada dia com ela é uma página: a gente vai descobrindo a história aos poucos. E no capítulo final, das três, uma: ou a gente entendeu tudo, ou não entendeu nada, ou pensa que entendeu. Aí, só mesmo lendo tudo de novo. É quando o casamento se faz necessário, que é para ler um pouco por dia. Tem as pessoas que, de tanto que já escreveram, viraram livros de fato: Você já leu Drummond? Tem a pessoa-prosa: ela vai contando as coisas e você fica lá até o fim, deliciado. E tem a pessoa-verso: vive rimando os acontecimentos da vida, dando a tudo um sentido especial.

Pessoa-música. Umas, a gente ouve uma única vez e já está bom. Outras, a gente quer ouvir sempre, decorar a letra, traduzir, fazer versão. Tem aquela que a gente descobre por acaso, se apaixona, e passa o resto da vida tentando por no iPod. Tem as que desafinam, e as que são capazes das notas mais impossíveis. No céu de todas elas, repare, há sempre uma clave de sol brilhando.

Pessoa-quadro. Estas aqui são como as pinturas dos grandes mestres: você não se cansa de admirar. Cada vez que as vê, repara num detalhe que não tinha visto da última vez. Algumas dão até vontade de roubar. Só para pendurar na sala. Outras – gostem ou não do traço, da técnica, do tema – não morrem jamais. Ficam eternizadas na memória. Pena que, para algumas, a gente só dê valor quando elas desaparecem.

Pessoa-arte abstrata. Quanto mais você a observa, menos a entende. Mesmo assim, ela atrai o seu olhar. Você não sabe qual é a dela, nem para quê ela serve, muito menos o que ela quer com você. Uma incógnita.

Pessoa-escultura. Não adianta: você tem que tocá-la. Descobrir do quê é feita, conferir as formas, saber se é macia, áspera, fria ou quente. Se pulsa ou se é inerte. Às vezes, é preciso olhá-la de todos os ângulos para compreender-lhe as  dimensões. É o tipo de pessoa que a gente deseja carregar nos braços de vez em quando.

Pessoa-filme. A pré-estreia dela são os minutos anteriores ao seu nascimento: só gente especial pode assistir. Depois, quando ela entra em cartaz, todo mundo pode acompanhar o desenrolar da história. Que pode ser de amor ou não. Pode ser triste, pode ser alegre. Pode ter aventura ou ser um drama. Às vezes, comédia. Mas que fique claro: ninguém faz cinema por acaso. Tem, por fim, as pessoas que são como os filmes antigos, clássicos. Essas nunca saem de moda. E todo mundo deveria assisti-las de vez em quando. Elas têm um bocado a ensinar.

Foto: Leandro Mise/Flickr.com

Domingo passado fui comprar comida para os gatos, estava no fim. Com fila no caixa, meu passatempo predileto entrou em ação: olhar gente. Mais precisamente, as mulheres. Mulher adora prestar atenção em mulher, e isso é coisa que nem mulher entende o porquê.

A primavera, prestes a se despedir, disse ao que veio. Sol de fazer brotar o que fingiu estar seco, brisa quente. Dia branco, preguiça no ar. E todas as mulheres na loja vestiam vestidos. Todas. Como se uma ordem cósmica tivesse sido dada a elas ao amanhecer daquele sétimo dia, véspera do Dia dos Mortos: Vão viver! Obedientes, as mulheres trataram de tirar os seus do armário. Floridos, xadrezes, listrados, verdes, azuis, rosas, amarelos, com alças, sem alças. E numa coisa todas combinaram: o comprimento, mais curto neste pré-verão. Eu, claro, reparei nas pernas todas.

Conferi se eram bonitas ou nem tanto. Se eram gordas ou magras. Longas ou curtas. Branquelas ou bronzeadas. Se o cirurgião vascular teria trabalho por ali ou não. Se tinham ou não manchinhas roxas, dessas que aparecem quando a gente bate na quina da cadeira. Se o formato denunciava a caminhada diária ou a perna para o ar. Brinquei de trocar mentalmente as pernas de um corpo para outro, para ver como elas ficariam – o que não é nada fácil. Brinquei de tentar adivinhar como era o rosto, olhando primeiro para as pernas. Errei feio: as pernas mais gordinhas não estavam nos rostos mais redondos. Nos pés, dá-lhe rasteirinhas e chinelos cheios de bossa. A fila andou e eu pensei: o conforto há de vencer. A redenção dos pés, finalmente.

Quando eu tinha vinte anos, não usava vestido. Suspirava ao lembrar das minhas pernas aos quinze. Queria ter a cabeça dos vinte, no corpo dos quinze: tudo tão no lugar.

Fiz trinta anos, e já voltara a usar vestidos. Mas suspirava ao recordar das pernas dos vinte. Queria ter a cabeça dos trinta, no corpo dos vinte: eu era feliz e não sabia.

Aos quarenta, continuei metida nos vestidos. E ainda suspiro ao pensar nas pernas dos trinta. Queria ter a cabeça dos quarenta, no corpo dos trinta: como é que pode a gente mudar tanto em uma década?

Já que existe certa inteligência nisso tudo, resolvi não esperar meus cinquenta anos. Desta vez, a nostalgia será ao contrário, e vale para todas as partes do corpo. Dou um pulo lá na frente e, sabendo que sentirei saudades de agora, declaro-me, hoje, pronta e perfeita para o que minha imaginação me autorizar a vestir. Tirando o que for tão curto quanto a vida, eu vou é botar o meu bloco na rua.

Foto: Mat Gartside/Flickr.com

Richard Bach nem sonhava. Mas em tempos de internet, telefone celular, conexão sem fio e GPS, longe é mesmo um lugar que não existe. Ninguém mais fica, involuntariamente, longe de ninguém. Toda conexão é possível. Mais que isso: desejada.

Essa história de ver e falar com todo mundo na hora em que bem se entende, do lugar em que se esteja, empolga. É bom. Diz que não? Ver, em tempo real, como é o quarto do seu filho de dezesseis anos em intercâmbio de um ano na Nova Zelândia. Falar com sua irmã que trabalha numa estação da Antártida como se ela estivesse ali, na rua ao lado. Assistir ao vivo o show do U2 na Califórnia, do melhor camarote que há: o seu computador. Achar e ser achável.

Está certo: reduziram-se as distâncias e produziu-se uma espécie de onipresença. Isso é bom e não tem volta, o que é fascinante. Pois bem. Quero é saber o que foi feito da distância. E agora, que ninguém consegue mais desaparecer, sumir, escafeder-se? Conseguir, consegue. Mas dá trabalho. Arlindo Orlando, aquele caminhoneiro fictício da pacata Miracema do Norte, não conseguiria ter fugido assim tão fácil da sua noiva, fosse hoje. Como fica o mundo, então?

Com tanta presença, qual o futuro da saudade? Assim como os mistérios insondáveis do não estar, a necessidade do cadê, a curiosidade sobre como deve ser – tudo parece estar com os dias contados. A lembrança, que é feita de ausência, pode ser extinta. Tudo é perto e pertencente demais. Mas não é. Nem pode ser.

Gente precisa de desconexão para existir. [Quem diria. Logo eu, pensar isso.] Precisa saber da distância fundamental que marca sua posição no planeta. Precisa do despertencimento e do tempo que constroi as relações todas. Precisa da demora – e não da volta ao mundo em oitenta cliques.

Longe precisa ser um lugar real. O universo, imenso, deve continuar assim. Sua grandeza é que dá dimensão às coisas. Sem ela, nós nos perdemos – em tamanho, função e sentido.

Ilustração: Julio Minervino/Flickr.com

O menino pulava para lá e para cá no grande sofá da sala de espera. Entre uma cambalhota e outra, esbarrava no vaso amarelo da planta de mentira e a mãe ia ficando furiosa. Na terceira vez em que o pé do moleque quase levou pelos ares os óculos do homem carrancudo que esperava ao seu lado, ela lascou: Se você não parar, o Homem do Saco vai levar você embora. E o garoto ficou quietinho até a hora em que anunciaram o nome da sua mãe e os dois entraram no consultório do médico. O terror havia vencido.

Eis o estrago que o medo – sentimento dos mais originais que, se valioso na essência, pode se tornar maléfico – pode causar na vida de uma pessoa. No caso, uma pessoinha. Será que a imagem construída pelo menino do ‘homem’ e seu ‘saco’ poderia ser comparada ao fantasma da violência urbana ou da perspectiva da falta de dinheiro para um adulto? Uma criança acredita sempre nos seus pais, referência máxima – ou única – na infância. Mesmo que eles lhe digam uma bobagem, digamos, romântica como essa. Convenhamos, quem usaria um saco para raptar crianças?

Eu também conheci o Homem do Saco. Mas para mim ele tinha outro nome. No bairro onde cresci existia um andarilho dos seus quarenta anos, com barba e cabelos longos. Não era feio. Era, sim, muito sujo e mal-ajambrado. Levava nas costas uma trouxa encardida como ele, espécie de saco, onde acomodava suas catações. Daí a fantasia de que ele poderia carregar ali uma criança arteira ou desobediente. Além de significar uma ameaça terrível para as crianças do pedaço, em casa ele ainda tinha o estigma de não ser um cara legal. Quando tocava a campainha para pedir comida ou dinheiro, minha mãe dizia: Ih, é aquele chato. E ele virou o Homem Chato. Lembro direitinho do pavor que eu sentia quando o via no portão. Levei anos para descobrir que não cabia uma criança naquele saco.

Essa estratégia do medo, transmitida oralmente por gerações, tem lá seus méritos e dá resultados até hoje – o garoto da sala de espera tornou-se um anjinho em segundos. Talvez esse medo seja importante e faça parte do amadurecimento. Mas será que o preço não é alto? É mesmo na base do medo que se controla alguém? Por quanto tempo? E com quais consequências?

Medo é como vento: dependendo da intensidade, velocidade e direção, pode ser devastador. Ou paralisante. Medo de errar no trabalho, de não acertar na roupa. De falar em público, de pagar mico, do que os outros vão pensar. De atrasar, de esquecer, de lembrar, de rir, de chorar. De engordar, de cair, de tentar. De ouvir não, de dizer sim, de dançar, de telefonar no dia seguinte. De casar, de separar. De dar o braço a torcer, de não dar conta, de perdoar, de mudar, de voltar. De quebrar, de machucar, de perder o emprego. De ficar doente, de morrer, de partir. E de amar, como diz a canção: O medo de amar é o medo de ter / De a todo momento escolher / Com acerto e precisão a melhor direção / O medo de amar é não arriscar / Esperando que façam por nós / O que é nosso dever: recusar o poder…

A mãe do garoto nem imaginava o que estava fazendo com seu filho. Pudera: ela própria deve ter tido, na infância, seus pesadelos com o Homem do Saco, fosse ele chato ou não. Mas, cá entre nós: cambalhota na sala de espera também já era demais.

Nota: não encontrei nenhum link de “O medo de amar” (Beto Guedes/Fernando Brant) para colocar aqui. O Homem do Saco levou todos.

Foto: Gilberto Filho/Flickr.com

Outro dia minha neta fez um passeio com a escola. Foram ao museu. Ela voltou encantada com as coisas que viu. E particularmente impressionada com um objeto, muito popular antigamente: a chapinha. Quem diria. Uma engenhoca com traços de duas eras tão distintas – a Moderna e a Medieval – ser capaz de tanto sucesso no passado.

Minha neta não sabe da missa a metade. Quem se recorda do Curvex, do contraditório Invisible Bra (absolutamente perceptível), da ombreira e do Botox? Dos velhos desfiles de moda com moças de olhares sombrios e roupas que precisavam de legendas? E das meias-calças que não duravam uma temporada? O que me fez lembrar de outro nonsense de outrora: a depilação com cera.

E fazer supermercado? Nada mais insólito: os produtos iam das prateleiras para o carrinho, do carrinho para a esteira, da esteira para as sacolas, retornavam ao carrinho, passavam para o porta-malas, e somente depois de todas as etapas é que chegavam à despensa. Nem dá para explicar como é que esse processo perdurou por tanto tempo.

Quem se lembra de quando não se reciclava lixo, o esgoto ia para o mar e a gente quase cozinhou o planeta?

Lembro-me de existir dono que não recolhia a caca do cachorro na rua, de gente que abandonava cachorro, comia cachorro, atropelava cachorro e ia embora, como se nada tivesse acontecido. Tempos bicudos, aqueles.

E como era triste a época em que as mulheres ganhavam menos que os homens, tinham que se vestir como eles no trabalho e, dependendo da profissão, nem tatuagem podia aparecer. Parece que as coisas já melhoraram: o trabalho voltou a ter sua função original e praticamente não se vê mais por aí quem endoideça – ou morra – por causa dele. E pensar que naqueles tempos também se morria de tanta coisa sem sentido: bala perdida, fome, gripe, raiva.

Minha neta quis saber se eu já usei chapinha. Sem graça, como quem confessa já ter usado algum tipo de droga, revelei que sim. Mas só uma vez, quando conheci seu avô – tratei de explicar.

Nota: não tenho neta, viu? Digamos que eu tenha inventado essa história mais ou menos em 2045.

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

Quem é que admite? Passar um dia inteiro sem tomar banho, só porque não deu vontade de entrar no chuveiro. Enfiar o dedo no nariz quando o lenço de papel não dá conta. Ver quem é no telefone e não atender, de propósito. Espiar o armário do banheiro na casa dos outros. Ter vontade de mandar a vizinha hipocondríaca caçar sapo com bodoque.

Quem confessa? Mandar, por trinta minutos, o meio-ambiente se danar: você precisa daquele banho comprido. Pensar imediatamente numa piadinha quando alguém conta uma tragédia. Ver o preço na etiqueta maior do que o lançado no caixa, e ficar bem quietinha. Arrotar livremente quando está sozinha. Encolher a barriga quando está acompanhada. Abaixar o som da TV para ouvir melhor a briga dos vizinhos. Não saber onde fica o óleo do carro. Torcer para o funcionário pedir as contas e sumir da sua vida. Já ter pensado os piores pensamentos, justamente com as pessoas que você mais ama.

Quem assume? Escrever o próprio nome no Google para ver o que vem. Abrir a geladeira e beber o refrigerante no gargalo quando não tem ninguém olhando. Ter dificuldade para localizar o Quênia no mapa-múndi, assim, de primeira. Fazer a barra da calça com Durex. Nunca ter assistido Casablanca e achar aqueles dois uns chatos de galochas. Fingir que está dormindo. Fingir que entendeu a piada. Comer todos os Danoninhos de uma vez só. Procrastinar até o último instante possível. Sentir inveja dos casais que saem sozinhos à noite. E, apesar de amar incondicionalmente seus filhos e não saber mais viver sem eles, ter uma certa saudade de quando você ainda não os tinha.

Juntos, os segredos – os bobinhos e os significativos – pesam. Exigem portas, gavetas e chaves extras na alma. Mas vários podem se tornar públicos, sem tantos receios e complicações. Já outros, é certo: nem que a vaca tussa.

Foto: Nicholas Petrone/Flickr.com

– Eu vim cuidar do jardim.

O homem franzino pousou no chão a sacola vermelha muito velha, encardida e cheia de ferramentas: pazinha, tesoura, luvas e regador, igualmente velhos. A mulher de uniforme azul o olhava, incrédula, através das longas grades dos portões de ferro que, quando fechados, formavam uma clave de sol. Ele repetiu, e a mulher se afastou.

– Espere aí que eu vou chamar a patroa, disse. E correu para dentro da casa.

Lá, deu a notícia. Disse que o homem não era nenhum daqueles que, de quinze em quinze dias, apareciam para mexer nas plantas. Descreveu-o com nojo, apertando as mãos contra o peito. Estava com medo. A dona da casa foi chamar o marido. O maestro, concentrado na partitura sobre o piano, tentava escrever o último compasso da valsa quando ela deu o aviso: um estranho estava tentando entrar em casa. Em instantes, a paz do lar fora ameaçada: quem era aquele homem?

– Melhor chamar a polícia, sugeriu a mulher de azul.

A dona da casa ordenou que as portas e cortinas fossem fechadas, Sem dar bandeira, ouviu?, enquanto ensaiava uma coreografia de pânico da sala de jantar para o estúdio, do estúdio para a sala de jantar. Agora ela espiava através das cortinas. Quem é que se atrevia a tentar invadir sua fortaleza? Avistou o pequeno homem que aguardava na calçada, recostado à sombra do flamboyant.

– Ele ainda não foi embora!

Reunidos, os três discutiram hipóteses e traçaram rotas de fuga, até um eventual enfrentamento. Não, ninguém havia trocado a empresa de jardinagem. Tampouco era dia, aqueles moços só vinham às quartas, lembrou a mulher de azul. Não, ninguém havia sido seguido naqueles dias. Nenhum telefonema estranho, também.

– Ele ameaçou você?, o maestro perguntou.

– Ameaçar, ele não ameaçou. Mas o senhor tinha que ver as roupas dele, disse. Era o nojo de novo.

– Então eu vou lá.

A dona da casa disse que ele estava doido, a mulher de azul fez o sinal da cruz. Mas quando o maestro encasquetava, ninguém podia fazer nada. As duas o acompanharam até o hall da entrada, assistiriam tudo escondidas.

Ele chegou ao portão, chamou o homem. Perguntou quem era ele. O homem disse que se chamava Theodoro e morava só, longe dali, mas aquele era seu caminho desde que conhecera uma moça na rua de cima, Uma médica muito importante. Ela lhe dava, toda semana, comida e remédio para a cabeça que, diziam, não era muito boa. Contou também que era jardineiro e que toda vez que passava ali em frente via um jardim fino e bem cuidado. Mas triste.

– Está vendo a dracena? O sol castiga aquele canto o dia inteiro. Ela não gosta. Diferente da pata-de-elefante, que gosta de sol, mas está na sombra. Tem que trocar as duas de lugar, entende? Hoje eu vim mais cedo, só para cuidar das suas plantas. Trouxe sementes de girassol, quando eles crescerem os beijinhos vão parecer crianças dançando em volta.

E continuou. Disse, sem saber com quem falava, que jardim é que nem orquestra, uma planta depende da outra. O maestro, esquecendo a suspeita, ouvia tudo com atenção. Fez sinal para a esposa abrir os portões. Ela abriu foi um olho deste tamanho. Ele repetiu o sinal, para desespero da mulher de azul, que já estava roxa.

A clave de sol se abriu, Theodoro carregou suas coisas para dentro. O maestro mostrou o restante do jardim e pediu licença, precisava trabalhar. Beijou a esposa, pediu um vinho e voltou ao estúdio. Encontrara o compasso que faltava para sua valsa. Que agora já tinha nome: O Baile do Girassol.

Foto: Eduardo Amorim/Flickr.com

Ter varinha de condão. Descobrir uma passagem secreta na parede e ir parar em outro mundo. Ter dez centímetros a mais, e que os preços tivessem uma casa decimal a menos. Fazer cinema. Ter jeito com os números. Gravar meus sonhos em DVD, para assisti-los depois.

Ter vinte anos na década de sessenta e vivido a bossa nova in loco. Ter escrito O Guardador de Rebanhos e conseguido ler A Divina Comédia até o fim. Fazer Tai Chi Chuan na praia ao amanhecer. Semear vento, colher brisa, correr para o abraço, deixar para lá, fazer de conta.

Ver uma foca ficar feliz, pondo uma bola no seu nariz. Ouvir Deus e ter certeza que não é apenas a minha imaginação. Ser a Jeannie. A Feiticeira. E a Mary Tyler Moore, vez por outra. Poder ficar invisível. Guardar os amigos numa caixinha para nunca perdê-los. Encontrar o médico – ou médica – que me ajudou a nascer. Visitar o passado, num dia de Natal, na velha casa da Rua Natal. Mas só como observadora.

Saber, sem engano, quem fui nas outras vidas. Ver o mundo pelos olhos de um gato. Ter assistido um show dos Beatles. Ser entrevistada pelo Jô Soares. Saber fazer café. Entrar em uma fotografia. Ter conhecido o Maestro Antonio Carlos Jobim. Ter a voz da Karen Carpenter. E saber a quê Gilberto Gil estava se referindo, naquele papo maluco de abacateiros e refazendas.

Ter inventado o Google. Topar com um fantasma e perguntar umas coisas para ele. Fazer um afago num leão. Ver a Terra lá de cima. Botar meu bloco na rua. Saber o que teria acontecido na minha vida se eu tivesse virado à direita e não à esquerda. Só por curiosidade.

Falar francês. Ter um Beetle. Inventar uma pílula que tinja os cabelos. Poder desatarraxar a cabeça de vez em quando. Saber como se dança o baião, quem pintou a mula preta e o que é que a baiana tem. Hibernar como os ursos e só acordar na primavera, com o café-da-manhã na mesa.

Em tempos de querença sem fim, bom mesmo é acreditar que tudo vai dar certo e que todas as coisas têm sentido. Até a calça saruel e a bolsa de valores.

Ilustração: Mike Sagmeister/Flickr.com

O moço do caixa passava suas compras e quis saber se ela já adiantara o relógio. Ela colocou os mirtilos na esteira – era a primeira vez que via aquela frutinha azul –, abriu a bolsa e procurou o celular. Há anos o relógio ficara órfão do seu pulso, agora só conferia as horas pelo visor do telefone. O tempo definitivamente saíra da frente dos seus olhos, perdendo-se para sempre na barafunda na bolsa.

Não, ela ainda não havia ajustado a hora. Seu dia, portanto, acabava de ficar mais curto. Uma hora a menos, suspirou. E, como aquele coelho branco de Alice do País das Maravilhas, lembrou: estava atrasada.

Apressou-se em embalar suas coisas: o sorvete com o sabão em pó, a goiabada longe do queijo, o peixe para o domingo junto com a lasanha da segunda. Despediu-se do moço e voou para casa.

No carro, a caminho de casa, uma música fez questão de acompanhá-la pelo rádio:

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo

Descarregou as compras e foi acertar os relógios. E não adiantou apenas uma hora, mas sim várias. Teve uma ideia: avançou um dia inteiro. Uma semana toda. Chegou ao mês seguinte. E quando se deu conta, havia ido parar a dois verões depois daquele dia no supermercado.

Desanimada, ela constatou que naqueles anos a única novidade havia sido os mirtilos. A pós-graduação não saíra do papel. A reforma do apartamento não passara da cozinha. Não conhecia a cara do filho. Que nem nascera, pois não tivera coragem de dizer sim ao homem da sua vida. A caixa com os livros da última mudança ainda estava num canto da sala. E seus pais aguardavam sua promessa de levá-los para um passeio de navio. Achou que era hora de acertar os ponteiros com o tempo.

Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo…

Não seria fácil, ela sabia. Mas combinou que voltaria ao dia do supermercado e, sem pressa, saborearia os mirtilos. Faria a matrícula na universidade, assim que chamasse o namorado para uma conversa séria. Teria uma semana para libertar seus livros do cativeiro de papelão. Marcaria as férias e ligaria para os pais. E decidiria, enfim, que os azulejos da cozinha seriam azuis. Em homenagem aos blueberries.

Ficariam amigos, ela e o tempo. Não só em todas as estações do ano, mas nas de trem, nas de rádio. E, como uma promessa, lhe diria:

… acredito ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo

Ilustração: Fernando Weno/Flickr.com

O Brasil já teve sete moedas desde que nasci. E, depois de grande, eu me adaptei bem a pelo menos cinco delas. Foi fácil me familiarizar com a TV a cabo e seu jeito novo de assistir televisão. A transição do bip para o telefone celular foi tranquila (embora eu andasse com os dois, o sinal não era lá essas coisas). Aprendi a usar o email de um dia para o outro. Aderi sem problemas à ideia de separar o lixo na minha casa. E não vejo nada demais quando um amigo me conta como conheceu o namorado. Mas tem uma coisa que eu ainda não consegui me acostumar: lista de casamento.

Lista de casamento foi inventada para fazer a gente se esquecer do significado de presente. Todo mundo sabe como funciona: os noivos vão a uma, duas, três lojas, escolhem uma porção de presentes que gostariam de ganhar, o vendedor põe tudo numa lista enorme, os convidados vão até essas lojas, escolhem um item, pagam e mandam entregar. Ou fazem tudo isso de casa mesmo. E pronto. Tarefa cumprida. No máximo, vai um bilhetinho junto, com uma frase óbvia sobre amor, casamento, votos de felicidade e outras patacoadas, escolhida dentre meia dúzia de opções que a loja já preparou para clientes sem muita criatividade ou paciência.

Agora a gente já não precisa mais quebrar a cabeça pensando num presente especial para os noivos. Ninguém quer saber se eles são clássicos ou modernos; se vão morar num apartamento ou numa casa espaçosa; se gostam de azul ou se preferem verde. Alguém resolveu facilitar tudo. As palavras de ordem: simplificar, não ter trabalho, ganhar tempo. As lojas estão preparadas para trocar os presentes repetidos, ou aqueles que não agradaram muito. O jogo de panelas, mais o de copos e a dúzia de bandejas viram um único presente. Quem deu esse home theater para vocês? Na verdade, o tio, a tia, o amigo, a prima, o irmão, a cunhada, o avô. A saia justa na primeira visita: Gostaram do vaso de murano? Aquele que virou forninho elétrico.

Vá lá. Ninguém anda com tempo sobrando para longas peregrinações em busca do presente perfeito. Mas a facilitação exagerada arranca o charme dos rituais. Amputa o sentido de presentear. Manda para as cucuias o carinho, o afeto e o desejo original de ver o outro feliz.

Hora de reinventar o presente de casamento. E, por que não, o próprio casamento. O que já é outra história. Bem mais comprida.

Ilustração: Frank Bonilla/Flickr.com

Entrei feliz no provador, encontrara o jeans que eu procurava. Era um desses provadores com dois espelhos. Fechei a cortina e levei um susto. Vi minha imagem projetada no espelho da frente, que se projetou no de trás, que refletiu na frente e novamente no de trás, e assim sucessivamente. Entrei sozinha e agora éramos muitas. Incontáveis e idênticas.

Brinquei de ser várias, como sempre desejei ser quando criança. Naquele metro quadrado comandei um exército de mim mesma, num balé perfeito. Como as moças do nado sincronizado. Mas o país da água era diferente do país do espelho, onde nem era preciso ensaio. Bastava levantar a mão, e todas acompanhavam. Que Esther Williams, que nada. Sou mais a Alice.

Minhas cópias bem que poderiam sair do espelho e vir dar uma mãozinha. Uma não, várias. Se duas cabeças pensam melhor que uma, o que dirá de infinitas? Enquanto uma trabalharia sem trégua, outra viveria eternamente em férias, trazendo presentes do mundo inteiro para todos. Uma seria mãe em tempo integral, outra não perderia uma festa. Uma cuidaria da casa, outra só dos bichos e das plantas. Uma cozinharia coisas gostosas, outra se dedicaria aos amigos.

Uma leria todos os livros e revistas que existem, outra escreveria livros e mais livros. Uma aprenderia a tocar piano, outra faria um mestrado. Uma tomaria café com os amigos todas as tardes. Outra seria cantora de bossa nova, que nem a Astrud Gilberto. Uma se engajaria na política, outra passaria o dia comprando sapatos novos.

Uma acordaria e dormiria tarde, outra dormiria e acordaria cedo. Só para viver o dia na íntegra. Uma compreenderia todas as coisas do universo, outra não estaria nem aí. Uma saberia com quantos paus se faz uma canoa, outra só saberia remar. Uma seria doce, gentil, educada, talentosa e resiliente, e agradaria aos outros o tempo todo. Outra seria livre para mandar todo mundo lamber sabão quando desse na telha.

Múltipla assim, eu daria conta de ser e fazer tudo o que eu quisesse, precisasse e inventasse. Vinte e quatro horas seriam mais que suficientes. Mas nem tudo seriam flores: eu e minhas cópias continuaríamos a ter o mesmo DNA, os mesmos pontos de vista e as mesmas opiniões, tudo sincronizado como as moças nas piscinas. Mais que clones, elas seriam a réplica de tudo o que há em mim. De bom e de ruim. Defeitos duplicados, manias triplicadas. Pensando bem, um bando de mim não teria assim tanta serventia.

Ficou bom?, a vendedora perguntou lá fora. Fiz um sinal com o dedo em frente à boca, Shhhh. E ficamos todas nós bem quietinhas. Apanhei minhas coisas e despedi-me delas com um aceno, prontamente retribuído.

Saí da loja sozinha e feliz com a compra. A calça jeans estava em promoção, e a barra ainda saiu de graça.

Foto: George Thomson/Flickr.com

Parece que toda escolha vem com um bônus: a culpa.

A culpa é filha do bem e do mal. Criada, desde pequena, pela moral. Mimada, ela se instala na nossa casa e lá fica, dando pitaco em tudo. A gente não percebe, mas presta uma atenção danada ao que ela diz. Porém, a culpa, tirando crime e acidente de trânsito, não está a serviço de ninguém. Ela é um desserviço contra todos nós.

A culpa por trabalhar muito. Por trabalhar pouco. Por não trabalhar. Por ter casado cedo, por ter casado tarde. Por amar demais. De menos. Por ter ido. Por ter ficado.

Culpa pela traição imaginada, pela efetiva e pela que sequer se deixou virar ideia. Culpa por acordar tarde. Por ter dito não. Por ter dito sim. Por não ter dito nada e ficado na mesma. Por ter dito muito e estragado tudo.

Culpa por ter cuidado da carreira em vez dos filhos. Culpa pelo vice-versa. Ou por não ter escolhido nem uma coisa nem outra, já que as duas pareceram desinteressantes. Culpa pelo cansaço do corpo, que não encara mais nenhuma vontade da cabeça. E pela fadiga da cabeça, que não acompanha o resto do corpo.

Culpa por não rezar. Por não fazer ginástica. Por ler menos do que gostaria. Por não gostar de ler. Pelo trigésimo par de sapatos no armário em vez da consulta no dentista. Pela indisciplina, pela bagunça. Pelo prazer de um vinho fora de hora. E por não saber que horas são.

Tem mais. Culpa por não telefonar para os amigos. Por esquecer o aniversário do pai. Culpa pelo ócio fundamental. Por topar um trabalho pelo dinheiro, sem prazer. Ou por aceitá-lo por prazer, sem pensar na grana. Culpa por tolerar a insatisfação, por denunciá-la ou até por senti-la. Culpa pela sobremesa, pela mesa inteira. Pelo sono diurno e pela insônia noturna. A culpa, simplesmente por se sentir culpada.

Desculpas à parte, o negócio é o seguinte: hora de parar com a síndrome da crucificação. Já basta aquele moço. Que, aliás, não tinha culpa no cartório.

Foto: Khawkins/Flickr.com

Tem coisas que marcam a gente, se não para sempre, por muito tempo. Uma fotografia, um livro, uma canção. E outras, que não vêm traduzidas sob forma alguma. São as experiências. As que a gente vive quando cresce e vai trabalhar, por exemplo. Coisas como pagar a conta do restaurante com o próprio salário, desafiar a hierarquia, cumprir uma meta insana, dominar a preguiça. No meu caso, um dos grandes marcos foi algo simples, mas não menos emblemático. A verdade é que nunca mais fui a mesma depois que flagrei um diretor com a meia furada.

Naquele dia, durante a reunião onde eu deveria prestar atenção a uma pauta insossa, meu olhar se ausentou, como sempre fazia, e foi passear. Para ver se encontrava algo interessante. E encontrou. Sob a mesa. Aquele homem simpático, porém inatingível, hermético e sério em tempo integral, tinha um insuspeitável rombo na meia. Revelado assim, por acaso. Tempos depois, considerei aquela uma das minhas principais iniciações corporativas, espécie de revelação. Nem minha primeira demissão causara tanto rebuliço em mim.

Meias furadas nunca foram objeto de estudo nos ambientes empresariais. Não há literatura a respeito no mundo dos negócios. Jamais se abordou o tema em uma dinâmica. Porém, existe algo de revelador em um superior de meias esburacadas. Meia de chefe – sempre acreditei – deveria ser neutra, clássica, impecável e imaculada. Invisível. Mas ali, diante de mim, estava o contraponto. Quem era aquele homem, então?

Lembro direitinho: era um furo iniciante, que nascia no calcanhar e se estendia, discretamente, em direção ao tornozelo. Meia antiga, só poderia ser. Meia nova não fura por qualquer coisa. Constatações à parte, eu estava diante da segunda revelação: chefes também usam meias velhas.

Eu estava desconcertada. Como era possível alguém tocar um negócio daquele porte, conduzir uma orquestra com tantas pessoas, liderar e decidir, com uma meia avariada? A cena nunca mais se repetiu, mas aquele furo deixara um enorme buraco nas minhas convicções, com o raiar da terceira revelação: a meia não faz o chefe.

Foto: Rich/Flickr.com

Na camiseta cor de céu

Mora a borboleta bordada

Em fios de verde oliva e laranja lima.

A borboleta de verdade ficou curiosa e pousou

Para conversar com a amiga

Que estava tão quietinha.

Perguntou seu nome

E a borboleta bordada não respondeu.

Quis saber qual flor ela gostava mais

E a borboleta bordada não respondeu.

A borboleta de verdade desistiu e voou.

A borboleta bordada chamou baixinho

Mas não deu tempo de contar

Que não tinha nome

E gostava das margaridas

Mas preferia os girassóis.

Foto: Pink Sherbet/Flickr.com

Outro dia o Benedito apareceu aqui em casa. Já era noitinha. Eu fechava as cortinas quando bati o olho nele, sentado na poltrona que dá para o jardim. Queria saber o que eu queria com ele.

– Como assim?, perguntei. Sentei-me no sofá, aproveitei e fiz um cafuné no gato. Que se esticou e ficou imenso. Um Gato-Elástico.

– É que você vive falando meu nome. Vim ver o que é.

Ele tinha razão. Não tem pessoa no mundo que evoque mais São Benedito do que eu. Ora é São, ora é Santo. Mas é sempre ele, como se não existisse mais santo nenhum, que eu chamo para acudir. Na hora da pressa, da raiva, do desespero, da paciência esgotada. Quando levo uma fechada no trânsito. Se percebo que não vai dar tempo de entregar o trabalho. Quando a filha chama, pela vigésima terceira vez em cinco minutos, ou a cancela do estacionamento do shopping resolve emperrar bem na minha vez. Ou, no telefone, quando a moça da pizzaria não entende o nome de onde eu moro (se minha profissão fosse batizar prédios e condomínios, seria tudo “Parque das Flores”, “Residencial Maria”).

Ensaiei as desculpas ao santo mouro quando ele, amavelmente, me interrompeu. Todo santo é amável.

– Não é que eu não queira ajudá-la. E entrelaçou as mãos sobre a túnica, como quem se prepara para fazer uma importante explanação. – É que cada santo tem o seu departamento, compreende? A Edwiges, por exemplo, cuida do Financeiro. Se é para ontem, o Expedito dá conta do recado. Aliás, ele é bom de marketing, tem até outdoor com o nome dele. Para Achados & Perdidos, Longino é o cara. E nem precisa dos pulinhos, isso é invenção.

– Longino? Mas não é Longuinho?

– Pois é. Tanto tempo se passou, minha filha. Ficou Longuinho. Mais fácil de dizer. Ele não se importa, leva a coisa como um apelido carinhoso.

O gato acordou, se espreguiçou mais uma vez e lembrou que era hora do banho. Ali mesmo no sofá. Eu não sabia se servia um café, não faço ideia do que gente canonizada gosta de beber. Fiquei sem graça pelo tanto que devo tê-lo incomodado. Logo ele, que não é de nenhum departamento específico, deve ser dos Serviços Gerais. Mas ele é santo, deve relevar uma porção de coisas.

O Benedito descobriu, sem querer, que a poltrona reclinava. Deitou-se, ficou sentado, deitou-se de novo, pés balançando sob as vestes (aquilo era um All Star?), rindo uma risada gostosa de quem acabara de inventar uma diversão.

– E vou lhe falar mais uma coisa, disse, ajeitando-se e encerrando a santa risada, enquanto buscava ao lado da poltrona o entendimento da engenhoca. – Acho que você não precisa de tanta ajuda assim.

E não preciso mesmo, o santo estava certo. Difícil é mudar o padrão. E agora, o que é que eu vou dizer naquelas horas? Será que tem algum santo das manias bobas?

Mas eu vou dar um jeito de agradecer ao Benedito pela visita. Amanhã mesmo passo naquela loja que tem umas poltronas bonitas, escolho uma reclinável, branca, bem macia. E pergunto se eles entregam no céu.

Ilustração: Daybeezho/Flickr.com

A vida é feita basicamente das primeiras coisas, um pouco das últimas, e o resto das que vão ficando pelo meio. A gente vai pondo número nos fatos, brincando de reger a história e sempre prestando mais atenção nas pontas – opostas e, por vezes, complementares –, que são o início e o fim. Parece que assim fica mais fácil entender o mundo.

Quem não se lembra do primeiro fantasma embaixo da cama? Do primeiro choro no escuro. A primeira peça de teatro na escola e a última chance de você ser um artista. O primeiro bichinho de estimação que você viu morrer e pediu para enterrar numa caixa de sapatos no jardim da sua casa. A primeira vez que você ouviu Papai Noel chamar baixinho sua mãe de ‘querida’, e a última vez que você acreditou nele. A primeira bronca feia. O primeiro gol. A primeira bota de cano longo. A primeira bicicleta. E a última vez que você andou nela com as rodinhas de apoio.

O primeiro salto alto. A dor estranhamente boa da primeira depilação. O primeiro email enviado e o primeiro recebido. A primeira canção do Led Zeppelin que você ouviu. A primeira fotografia três por quatro. O primeiro esmalte vermelho. A primeira poesia feita assim, de uma vez só. O primeiro show que você foi sem seus pais. O primeiro porre e a primeira amnésia. O primeiro prêmio na escola e a primeira vez que você se achou o máximo. O primeiro computador só seu. O primeiro amor. O primeiro rio de lágrimas, que você achou que seria o último. A primeira saudade. O primeiro xeque-mate. A última chamada no vestibular. A entrevista para o primeiro emprego.

O primeiro salário e a primeira certeza: você ganhava mal. O primeiro cartão de crédito, a primeira fatura e o juramento de que seria a última vez que você gastaria tanto. O primeiro carro. A primeira demissão. A primeira vez que você falou com Deus, e ele respondeu. A primeira dívida. O primeiro negócio próprio e a última vez que você tirou férias. O primeiro cliente e o primeiro mês sem grana.

A primeira estria. O primeiro carro com ar-condicionado. A primeira dor de cotovelo. O último dia de solteira. A última nota na carteira. O primeiro assalto. O primeiro cabelo branco. O primeiro infeliz que chamou você de senhora. O primeiro filho aos quarenta e nove. A última chamada para o embarque. O primeiro casamento aos sessenta e sete. A última esperança. O primeiro tempo. O último dia do ano. O primeiro dia da semana, que ninguém entra num acordo se é domingo ou segunda. A última vez que você se olhou no espelho e desejou que a barriga fosse transparente, só para ver sua filha lá dentro, pronta para o mundo. E a primeira noite com ela nos braços.

O primeiro ovo da primeira galinha. A primeira vez frente a frente com a Morte e a última que ela foi embora sem você. O primeiro negro a ser isto, a primeira negra a fazer aquilo. O primeiro homem na lua. A primeira carta de amor do seu filho. O último dos moicanos.

O primeiro segredo guardado e o último revelado. O primeiro pensamento ao acordar. O último antes de dormir. O último voo. O último dia do resto da sua vida. O último beijo. O último sopro de ar. E a primeira vez que você viu uma estrela tão de perto.

Foto: Philippa Willitts/Flickr.com

O pente que me penteia anda estranho. Agora fica meio desajeitado nas mãos, e deu de querer botar coisas na minha cabeça. Quer saber por que é que tenho essa mania de só me ver de frente, sem dar conta que tenho um lado atrás. Mandou-me colocar outro espelho na porta do armário, em frente ao que já está lá. Para que eles conversem?, perguntei. Não, boba. Para que você veja como é de costas, o pente respondeu. Em nove das dez vezes que me olho no espelho, é para prestar atenção na frente. No perfil também. Mas lá, onde não há olhos, nem boca, nem peito, mas há nuca, ombros, tatuagem, bunda, batata de perna, não.

O pente que me penteia também tem uma conversa esquisita. Diz que veio da China e que bom mesmo é ser careca. Quem tem pelo é bicho, filosofa. Digo que já está combinado: quando eu fizer sessenta e sete, cabeça toda branquinha, passo máquina um. O pente quer saber porque 67. Ano em que nasci. Vim ao mundo com máquina um, só que meio desregulada. Então, é para voltar às origens. ‘Ashes to ashes’.

No contraponto do papo capilar, o pente que me penteia conta um segredo: gostaria é de desembaraçar as ideias das pessoas. Que vivem com nós e caraminholas demais. Sonha fazer num cabelo cheio de ondas um tsunami de coisas novas, levando os pensamentos a mares nunca dantes navegados. Nos lisos, um penteado para se achar o fio da meada. Ele sabe que é na cabeça que as coisas nascem, vivem e morrem, então é ali que elas podem ser reinventadas. E eu, que não sou boba, fico só prestando atenção.

E teu pente, o que te fala?

Ilustração: Abhi/Flickr.com

Qual foi a última vez que você disse não? Mas não em uma frase qualquer, do tipo “Não vi a novela ontem” ou “Você não pode ir brincar lá fora”, nem “Hoje não posso sair com você”. Fáceis demais, essas.

Quero saber é daquele não proclamado em respeito à sua opinião, à sua vontade, aos seus limites. O inesperado não, tomando meio mundo de assombro, quando todos juravam que seria (mais) um sim seu. Um não firme, sem vacilo e, contudo, cheio de carinho (ou nem tanto). O não repleto de coragem e vazio de medo. Nana-ni-na-não, dito com propriedade a alguém que se acostumou demais ao sim. Um não cinematográfico, com direito a um ou mais queixos caídos lhe assistindo. Vale até aquele não de muitos decibéis em plena madrugada, marcando de vez a aurora da sua vida.

Confesse: faz tempo.

O sim é irmão mais velho do não. Irmão de olho azul: a gente insiste em achá-lo mais bonito e mais simpático que o caçula. E o não, que não é o primogênito, nem tem olho claro, nem é tão legal, fica lá, negado num canto da vida. Tímido, demora a entrar em campo, e geralmente só o faz quando a coisa está feia mesmo. E às vezes pode ser tarde. É do tipo que desconhece seu poder, até mostrar que sabe fazer gol, virando o jogo nos quarenta e quatro do segundo tempo. É aquele sujeito que tem umas idéias diferentes, mas que, com jeitinho, aprende a se impor e passa a ser respeitado na roda.

Todo não, assim como todo sim, tem seu preço. A diferença é que o não costuma ser pago à vista, enquanto o sim acaba sendo quitado em prestações, geralmente em mais vezes do que se pretendia. Um costuma ser mais em conta que o outro, embora isso dependa da lógica do mercado, que às vezes não tem lógica alguma.

É o sim quem torna oficial – e presunçosamente eterno – um amor. Mas é o não quem decreta seu fim. O sim é quase uma promessa de vida no coração. O não são as águas de março que fecham o verão. Juntos, os dois movem o mundo.

Na semana ainda na metade, pense na pergunta que a primavera faz. Vale tudo para descobrir com quantos nãos se faz um sim, e quantos sins estão por trás de um bom não. Só para saber qual dos dois irmãos tem tomado mais conta de você. Pelo sim, pelo não.

Ilustração: Torley/Flickr.com

Qual foi a última vez que você se deu um presente? Presente mesmo, na melhor – e talvez única – acepção da palavra. Que tenha contado com o ritual da busca por algo especial, a escolha final entre duas ou três opções, ou então o martelo batido logo na primeira, É esse! Pensar na melhor cor e não no melhor preço. A felicidade ao mandar embrulhar para presente. Tudo isso para a pessoa mais batuta que há: você.

Diz aí. Quando foi?

A gente costuma chamar de presente próprio o que, no fundo, não passa de suprimento de necessidade. Algo que se empurrou com a barriga um tempão, para um belo dia resolver, Vou me dar um aparelho celular decente. Ou: Estou precisando de meias novas. Isso não é presente para si. Nem aqui nem na China.

Auto-presente bom mesmo é aquele que você ama, sonha e namora todos os dias. Uma coisa que você tem certeza que pode mudar sua vida (ou pelo menos uma parte dela). Algo que talvez só você saiba o quanto merece. Pode ser objeto. E pode não ser. Um intervalo de dez minutos no trabalho para enfiar os pés na fonte da praça, a dois quarteirões do escritório. Libertar os cabelos do eterno rabo-de-cavalo, onde eles vivem confinados só porque não são como você queria. O pedido de demissão por justa, mais que justa, causa própria. Vale tudo para descobrir com quantos sentimentos se faz um presente.

Há quem reconheça uma verdadeira dádiva em tudo. Passar na avenida um minuto antes do acidente. Não se lembrar, de bate-pronto, da última vez que precisou levar o filho ao pronto-socorro. Poder comer qualquer coisa que der na telha.

Bobo dizer, mas o fato é que a vida já é um presente e tanto. Para ser usado todo dia, bem à mostra. Para dizer ao primeiro que aparecer: Olha o que eu ganhei.

Está difícil lembrar? Então, por favor: tarefa número um para a semana que acabou de começar. Depois passe aqui para contar.

Foto: Filipe Oliveira/Flickr.com

É preciso prestar nova atenção ao que, na vida, ficou por fazer. Agora, junto às obras inacabadas espalhadas pela minha cidade, há mais uma imagem desconstruída, desta vez noutro lugar. Uma coisa é o edifício não-terminado sem ninguém dentro. Outra coisa é o que, não finalizado, tem gente dentro.

O primeiro só cutuca. Faz lembrar das obras e dos projetos de vida que ficaram pelo caminho, rascunhados e embargados lá dentro da cabeça. Já o segundo põe os olhos fazendo de conta que não estão vendo nada. Os mesmos olhos da mesma cabeça das ideias inconclusas.

No edifício por terminar com ferros retorcidos e aparentes, das paredes mal erguidas, de janelas eternamente abertas na veneziana de papelão e dos chãos crus, meu Deus, mora gente. Muita gente. Gente de vida pela metade, igualmente inacabada como os planos da cabeça.

Da rua se vê um varal estendido na não-varanda do segundo andar. Duas camisetas, três pares de meias, duas calças jeans, três sutiãs velhos, meia dúzia de calcinhas e roupas de criança. São as únicas cores do não-prédio. Os únicos sinais de vida na obra morta de dez andares. Cada peça de roupa estendida representa um direito subtraído do cidadão incompleto, numa exposição indesejada e quase maldita em plena metrópole dita desenvolvida e das boas oportunidades.

A nova atenção, prestada a contragosto, tira, por instantes, a graça do meu período sabático na capital mineira. À noite, entre um pensamento e outro, confiro o varal onde pendurei, uma a uma, as ideias do dia. E me dou conta: muitas ainda não secaram. Nem vão secar.

Algumas pessoas têm me pedido para reproduzir esta cartinha, mudando o destinatário, para dar à filha, ao sobrinho, ao filho da amiga. Claro que pode! Só que a carta original, para a Letícia, tem detalhes que são só para ela. Então, para facilitar, reescrevi algumas coisas e criei esta “Carta genérica para um bebê” (rs). Fiquem à vontade para copiá-la. Ficarei feliz. (E se puderem dar o crédito, melhor ainda.)

Bebê,

que bom que você está de volta.

Você nem nasceu ainda, mas eu vou lhe contar algumas coisas deste mundo. Só para refrescar a sua memória ancestral. Porque você já sabe tudo, mas vai esquecer.

Vou explicar. Aqui tem uma coisa chamada banco. Na entrada dele existe uma porta giratória com uma caixinha, e a gente precisa deixar algumas coisas nela antes de entrar. Depois que entramos, pegamos de volta.

Nascer é mais ou menos como entrar nesse lugar. A gente deixa todo o nosso conhecimento numa caixinha lá na porta do planeta, que também é giratório. A diferença é que levamos algum tempo, às vezes uma vida inteira, para pegar tudo de volta. Depois explico o que é banco.

É preciso dizer: aqui é bem legal, mas um pouco esquisito. Está tudo dividido em países. Mas se você observar o planeta de cima – da estrela de onde você vem, por exemplo – verá que é uma coisa só. Parece óbvio, mas muita gente ainda não percebeu isso.

Além dos quatro elementos – água, terra, fogo e ar – nosso mundo tem três coisas básicas: gente, bicho e planta.

As plantas estavam aqui antes de nós. Não fossem elas, a gente não teria flor para enfeitar a casa e o cabelo. Nem sombra para tirar uma soneca. Nem alimento. Assim que você puder, peça para sua mãe preparar morangos picadinhos com mel. É imperdível. O mel vem da abelha, que é um tipo de bicho.

Os bichos também já moravam no planeta. Não existe um que não seja bonito. Urso, gato, cavalo, gaivota, leão-marinho, joaninha. Se bem que a barata não é nada bonita. Mas não há um bicho que não seja importante. Quer dizer, tem a barata, que eu não sei para quê serve.

Por fim, viemos nós. É importante saber uma coisa: quem chega por último precisa respeitar os que chegaram antes. Muitas pessoas vão tentar lhe convencer do contrário. Não acredite.

Para contar tudo isso – gente, bicho, planta – existe a matemática. Matemática é uma coisa meio chata. Mas ajuda um bocado. É com ela que você vai aprender a contar quantos dias faltam para o Natal, quantos bombons de chocolate você já comeu e quantas pessoas estão ao seu lado para o que der e vier. Essa conta é a mais importante. Preste atenção quando a professora lhe ensinar sobre o infinito. Vai lhe ajudar a entender melhor o amor dos seus pais por você.

Tem mais coisas bacanas aqui. A música que sua mãe canta para você, desde o dia que soube que você viria. A cara de bobo do seu pai quando olha para você. O cinema, feito com as histórias que saem das cabeças das pessoas. Também tem a água. Que é parecida com a que você já conhece. Aqui fora tem mais. Muito mais. O oceano é feito de água. E quando a gente olha para ele, parece que ele não acaba mais. Mas sem fim, só mesmo o amor.

Faltou explicar o que é banco. Mas acho que você não entenderia. Aliás, ninguém entende direito. Esqueça.

Por fim, existe a família. Família é tudo de bom. Mas, às vezes, pode torrar um pouquinho a nossa paciência. Talvez torre a sua. Mas acredite: isso não terá a menor importância. Porque família é de onde a gente veio e para onde a gente sempre volta.

Vai por mim.

Um beijinho,

Ilustração: Reway/Flickr.com

Querida

Que bom que você está de volta.

Você nem nasceu ainda, mas eu vou lhe contar algumas coisas deste mundo. Só para refrescar a sua memória ancestral. Porque você já sabe tudo, mas vai esquecer.

Vou explicar. Aqui tem uma coisa chamada banco. Na entrada dele existe uma porta giratória com uma caixinha, e a gente precisa deixar algumas coisas nela antes de entrar. Depois que entramos, pegamos as coisas de volta.

Nascer é mais ou menos como entrar nesse lugar. A gente deixa todo o nosso conhecimento numa caixinha lá na porta do planeta, que também é giratório. A diferença é que levamos algum tempo, às vezes uma vida inteira, para pegar tudo de volta. Depois explico o que é banco.

É preciso dizer: aqui é bem legal, mas um pouco esquisito. Está tudo dividido em países. Mas se você observar o planeta de cima – da estrela de onde você vem, por exemplo – verá que é uma coisa só. Parece óbvio, mas muita gente ainda não percebeu isso.

Além dos quatro elementos – água, terra, fogo e ar – nosso mundo tem três coisas básicas: gente, bicho e planta.

As plantas estavam aqui antes de nós. Não fossem elas, a gente não teria flor para enfeitar a casa e o cabelo. Nem sombra para tirar uma soneca. Nem alimento. Assim que você puder, peça para sua mãe preparar morangos picadinhos com mel. É imperdível. O mel vem da abelha, que é um tipo de bicho.

Os bichos também já moravam no planeta. Não existe um que não seja bonito. Urso, gato, cavalo, gaivota, leão-marinho, joaninha. Se bem que a barata não é nada bonita. Mas não há um bicho que não seja importante. Quer dizer, tem a barata, que eu não sei para quê serve.

Por fim, viemos nós. É importante saber uma coisa: quem chega por último precisa respeitar os que chegaram antes. Muitas pessoas vão tentar lhe convencer do contrário. Não acredite.

Para contar tudo isso – gente, bicho, planta – existe a matemática. Matemática é uma coisa meio chata, Letícia. Mas ajuda um bocado. É com ela que você vai aprender a contar quantos dias faltam para o Natal, quantos bombons de chocolate você já comeu e quantas pessoas estão ao seu lado para o que der e vier. Essa conta é a mais importante. Preste atenção quando a professora lhe ensinar sobre o infinito. Vai lhe ajudar a entender melhor o amor.

Tem mais coisas bacanas aqui. A música que sua mãe canta para você, desde o dia que soube que você viria. O cinema, feito com as histórias que saem das cabeças das pessoas. As bolsas e os sapatos (quando você crescer, saberá). Também tem a água. Que é parecida com a que você já conhece. Aqui fora tem mais. Muito mais. O oceano é feito de água. E quando a gente olha para ele, parece que ele não acaba mais. Mas sem fim, Letícia, só mesmo o amor.

Faltou explicar o que é banco. Mas acho que você não entenderia. Aliás, ninguém entende direito. Esqueça.

Por fim, Letícia, existe a família. Família é tudo de bom. Mas, às vezes, pode torrar um pouquinho a nossa paciência. Talvez torre a sua. Mas acredite em mim: isso não terá a menor importância. Porque família é de onde a gente veio e para onde a gente sempre volta. A sua família, se for como sua mãe, é linda. E eu desejo que, quando você tiver idade para ler esta carta, ela esteja completa.

Um beijinho,

Ilustração: Rafael Assis/Flickr.com

O rapaz bem que tentou. Mas não conseguiu alcançar o ônibus. Correu o mais que pôde, segurando com uma das mãos o bolso da camisa e com a outra, a mochila. De nada adiantou. O motorista não o viu. Se o visse, talvez sua vida, em plena primavera, mudasse de itinerário.

Se alcançasse o ônibus, talvez visse a moça com camiseta de flor sentada no penúltimo banco. Ela é linda, e talvez eles se apaixonassem.

Se eles se apaixonassem, talvez fossem morar juntos no próximo verão.

Se eles fossem morar juntos, provavelmente já teriam montado um apartamento do jeitinho deles, com varanda para a montanha e tudo, até o outono.

Se eles montassem um apartamento do jeitinho deles, é certo que pensariam, no inverno, como seria bom ter um filho.

Que nasceria na primavera, junto com os primeiros botões de rosa da varanda.

Daria seus primeiros passos num verão.

Balbuciaria as primeiras palavras num outono.

E seria batizado num inverno.

Muitas primaveras depois, os dois voltariam ao ponto de partida: não se (re)conheceriam. E, num verão, estariam prontos para seguir novos itinerários. Cada um, o seu. Se renovariam a cada estação, sucessivamente. Assim como as plantas e os bichos.

Mas o rapaz não alcançou aquele ônibus. Que partiu levando uma das possibilidades da sua vida.

Não faz mal: dali vinte minutos chegou outra.

Foto: Jim Frazier/Flickr.com

Viagens no tempo são sempre fascinantes. A vontade de pousar noutra época vive no imaginário das pessoas desde que o mundo é mundo. Por curiosidade ou arrependimento, a gente vive querendo dar um pulinho na história, para trás ou para frente. E nessa hora qualquer coisa serve de transporte, nem precisa ser máquina do tempo.

Pois eu acabo de arrumar um bom transportador. Ganhei o livro de um amigo de infância. (Desses que a gente conhece depois de grande.) O título vai logo avisando que os sonhos não envelhecem. É sobre os rapazes que, nos anos sessenta, inventaram de compor, cantar e tocar de um jeito que só eles. Eles não sabiam disso na época. Mas cada canção daquela turma é, para mim, motivo para o desejo de viajar. Só para dar uma espiada em como tudo começou. Para ver, sobretudo, o Milton antes de ele ser o que é. E o bom de viajar no tempo é que a gente pode inventar umas coisas aqui e ali.

Minha viagem foi de trem. Porque viagem no tempo que se preza não é assim, pá-pum, como nos filmes. Não é só dormir e acordar em outro século. Nem é atravessar o fundo falso de um armário e dar de cara com castelos e távolas redondas. Muito menos entrar num carro maluco e encontrar seus pais quando eles nem sonhavam em se casar. Viagem para Minas Gerais, inclusive as que cruzam o tempo, precisa ser contemplada. Eu até que fui perto – quatro décadas atrás – mas sacolejei um bocado na velha estrada de ferro. O livro e eu.

Desço na estação de Belo Horizonte. Confiro nos jornais de uma banca o dia em que cheguei. Abro o livro: esse está bom. Não foi difícil achar a avenida Amazonas e o tal do Edifício Levy, onde parte da turma morava e se reunia no começo. (Para minha frustração, não tinha clube nenhum, muito menos na esquina.) Como os tempos eram outros, entro no prédio sem precisar dizer a ninguém aonde eu vou. Nem ser anunciada. Ponho o livro sob o blusão, pego o elevador e subo ao 17º.

Toco a campainha e uma senhora abre a porta. Apesar de estar ainda na página trinta e sete do livro, deduzo que é dona Maricota, mãe do Márcio, o Borges, contador da história. Ela me olha da cabeça aos pés. Eu deveria ter colocado um vestido, ninguém usava moletom ainda. Finjo que sou uma conhecida e arrisco: Os rapazes estão aí? Torço para que ela entenda; se eu tiver que explicar alguma coisa, estarei perdida. Ela sorri e me convida a entrar. Pergunta se eu não sou a irmã de uma vizinha lá de Santa Tereza. Aproveito a deixa. Ela aponta o “quarto dos homens” e lá vou eu. No corredor, ela me chama, e eu estremeço. Eu ia levar esses biscoitos para eles, mas você pode levar. Preciso tirar o feijão do fogo.

Bandeja na mão, livro escondido, descubro o quarto pelos acordes que vêm dele. Estremeço de novo: onde é que eu havia amarrado minha égua? Não tinha ideia do que veria. Mas sabia que um Milton de boina é que não seria. Respiro fundo e bato duas vezes na porta.

Quase certeza: é o próprio Márcio, novinho, quem abre. Comecei a achar péssima aquela história de viajar no tempo. Ele me olha da cabeça aos pés, que roupa era aquela? Perpetuando a confusão, digo que sou irmã da ex-vizinha e só estava entregando o lanchinho. Os quatro rapazes param de tocar. Um Milton – muitíssimo diferente, sentado em uma das camas – me salva, Já estava com fome. Não resisto. Então você é o Milton Nascimento… Ele corrige, enquanto abocanha um biscoito: Milton do Nascimento. Insisto: Para mim é Milton Nascimento. E quase solto: Ninguém fala o ‘do’.

A situação, já esquisita, fica insólita de vez. Meia dúzia de palavras trocadas, estico os olhos para os papéis sobre o criado-mudo, na ingênua esperança de ler alguma coisa familiar. Sinto o livro querendo aparecer sob o blusão. E, sem ter nada a dizer, despeço-me, tentando decorar cada centímetro do que vira. Digo que preciso voltar à estação. Os rapazes já devoraram os biscoitos e agora retornam ao ensaio.

Já estou de saída do quarto quando Milton pergunta, Qual trem você pega? Invento, já que para viajar no tempo qualquer um serve: O das dezoito. Ele, talvez percebendo algo, acena e pede: Depois, mande notícias do mundo de lá.

Foto: Silmara Franco/Arquivo pessoal

De vez em quando é bom passar um tempo com quem já partiu. No Dia dos Pais eu vesti o colete que fora do meu avô. Na semana seguinte, enquanto eu procurava no meu armário o que usar, bati os olhos em uma roupa. E senti saudades da minha mãe. Meu avô sempre dizia que não era certo filho ir primeiro que pai.

Mas ela foi. Dona Angelina fazia umas panquecas que eu nunca vi igual. A coisa mais simples do planeta: uma em cima da outra, e muito molho de tomate. Só. Sem recheios nem firulas. Uma torre de panquecas. Construída aos poucos, no calor da velha frigideira cheia de furinhos em relevo que eu jamais soube onde foi parar.

Sempre tive dificuldade para pensar na minha mãe como uma jovem dos anos sessenta, onde quase tudo parecia estar em ebulição – música, comportamento, política. Dona Angelina era dona de casa exemplar. Dois filhos, mais eu chegando no finalzinho da década. Mamãe não fervia. (Ou fervia. E eu preferi acreditar no contrário.)

Por aqueles anos, ela foi madrinha de um casamento. Ela, que nunca teve dinheiro sobrando, foi esperta: investiu em algo que usaria depois. Comprou um conjunto, espécie de tailleur, na Prelude (chique, na época). Vermelho, num suave xadrez com preto e azul marinho. Ela só não imaginava que a aquisição fosse render tanto.

Quarenta e cinco anos depois, apanho do cabide o que guardei daquele conjunto: a blusa com o casaqueto. A etiqueta ainda está lá, amarelada e puída. Mas o poodle, marca da confecção, continua empertigado em seus pompons. Digo bom dia ao totó, visto a blusa e vamos, mamãe e eu.

Ela me dá o braço e vai contando, com certa pena, que a saia do conjunto, de tão usada, não sobreviveu. Disse estar espantada como a peça combina comigo, ela pensava que éramos mulheres bem diferentes. Mamãe às vezes acha que eu deveria ferver menos.

Pergunto como vai a vida do lado de lá. Ela olha para o céu, em seguida para o chão. Desvia de um formigueiro e me conta de novo a história de um tio que desdenhou dela ao vê-la, muito criança, caprichando no plural, Olha quantas formiguinhas! Só para se divertir, mandou que ela colocasse a mão no formigueiro. Ela obedeceu. E as formigas não tiveram dó.

Rimos mais uma vez e nos despedimos com um beijo, como sempre. Antes de ir ela me lembrou: aquela blusa não deve secar ao sol.

Álbum de família
Foto: Harshad Sharman/Flickr.com

Prestem atenção nas coisas que não foram terminadas. Aquelas que ficaram pela metade, ou nem isso. Prédios inacabados, por exemplo. Toda cidade tem os seus. Largados crus, eles parecem instalações de alguma exposição de arte esquisita. São interferências destoantes na cidade que pulsa noutro ritmo. Viram esqueletos urbanos, incompletos e sem razão. A gente se acostuma com eles, mas não deveria.

Todos os dias, esses prédios ficam à espera de alguém que os conclua. Enquanto isso não acontece, vivem um drama com jeitão de Shakespeare: são ou não são? Não compreendem porque acabaram assim. Ninguém lhes contou que, em determinado momento, alguma coisa deu errado. Que alguém mudou de idéia, ou o dinheiro acabou, ou uma lei tratou de impedir que fossem para frente. E, como nas obras nem sempre é possível apertar a tecla undo, alguém determinou que seria melhor deixá-los ali, semi-erguidos. Os quase-prédios, enfeando a cidade.

Agora prestem atenção nas obras que a gente vai embargando pela vida. Todo mundo tem as suas. As ideias, as vontades, os projetos de vida que são só sonhados. Os que não saem “da planta”, ou que faltam uma parte. Ficam inconclusos, ocupando espaço lá dentro da cabeça. Iguaizinhos aos prédios tristes com cor de abandono, espalhados pela cidade.

A gente se acostuma com eles. Mas não deveria.

Álbum de família

Fato: os filhos dos seus bisnetos não saberão nada sobre você. Na melhor das hipóteses, muito pouco. Ouvirão algumas histórias nas reuniões de família, verão uma fotografia num álbum amarelado ou num arquivo escondido de um computador. Um vídeo, talvez. Mas, acredite: eles não saberão de você do jeito que você se conhece.

Não saberão para que time você torce, nem se você gosta de rock ou se prefere jazz. Ninguém lhes contará que você já foi ao Egito, ou que sabe fazer mousse de maracujá. Nunca imaginarão que você já teve uma banda ou que escreve poesias. Nem que você consegue desenhar cavalo, que é a coisa mais difícil deste mundo. Ou que chegou a dirigir uma empresa, antes de se aposentar e ir viver lá no meio do mato com os sacis. Muito menos que sua paixão era a dança e que você já se apresentou no Municipal. Jamais saberão como é a sua voz. Se a sua risada é estrondosa ou discreta, ou como você gosta de pentear os cabelos. E que você sempre chora nos filmes de amor.

Dos nossos avós a gente costuma se lembrar bem. Com um pouquinho de sorte, dos bisavós também guardamos alguma recordação. Mas poder abraçar os trisavós é para poucos. Ter tomado um chá da tarde com os tataravós, definitivamente, é raridade. Pena. A gente deveria saber mais das pessoas de onde viemos. Para ter uma ideia de como chegamos aqui e para onde vamos. Mas para isso cada um precisa fazer sua parte: contar muitas histórias aos filhos, várias vezes, até enjoar. Para que eles as contem aos seus e assim por diante.

E, do mesmo jeito que se aprende História – do mundo, do Brasil – na escola, deveríamos ter também ter uma matéria chamada “A sua História”. Onde a gente aprendesse a escrever os livros de família de um jeito diferente, cheios dos detalhes essenciais que geralmente passam desapercebidos. E também a plantar em grandes cadernos de desenho a nossa árvore genealógica, não só com seus ramos. Com as flores também.

Foto: Karl Eschenbach/Flickr.com

Era trinta e um de maio, domingo. Chuva fina na cidade. E ele acabara de nascer. Pela segunda vez.

Na primeira, há trinta e nove anos, também era trinta e um de maio. Também era domingo. E também chovia no Rio de Janeiro. Seu pai estava ensopado, nenhum táxi queria parar. Sua mãe, menos ensopada, aguardava sob a marquise do velho prédio onde moravam. Contava os minutos. Os intervalos entre as contrações ficando menores. E os dos táxis, maiores. Foram salvos pelo dono do mercadinho, que passava pela rua e reconheceu seu pai.

Foram os três para a maternidade, na Kombi sem bancos atrás. O homem e o pai foram na frente. A mãe atrás, deitada. Por pouco, muito pouco, ele não nasceria ali, em meio às três caixas de mamão papaya e seis engradados de laranjas. Mas acabou nascendo pelas mãos do médico de plantão que não tinha nome. Suas únicas palavras, nos trinta e seis minutos em que estiveram juntos – mãe, pai e médico – foram: É um menino.

Vinte e quatro horas depois os três deixavam a maternidade. Na porta, uma mulher sentada no chão dividia um sanduíche com um cão. Acenou para eles e disse: Feliz Natal! O pai estranhou – não era dezembro –, mas a mãe não. Às vezes mães sabem mais coisas que os pais. Quando criança, gostava de vê-la montando o presépio, contando histórias de três magos que eram reis. Ele queria saber o que era o Natal. Ela explicava que é o nascimento de alguém. Ou renascimento.

Na segunda vez, uma viagem a trabalho. Primeira vez em Paris. Mala feita e terno novo. E um congestionamento interminável até o aeroporto. Perdeu o avião.

Frustrado, tomou o táxi de volta para casa com passagem, mala e terno. Pararam em um sinal e lá veio o moleque, sem ligar para a chuva. (Moleques e sinais parecem ter sido feitos um para o outro.  Mas atenção: não são.)

Com pena do garoto encharcado, comprou dele um Mentos. Ao devolver o troco de três reais, ele abriu um sorriso e disse: Feliz Natal, moço! O motorista achou graça, não era dezembro.

À noite, ele, que aprendera muitas coisas com sua mãe, entenderia o que o moleque dissera. O avião que perdera se perderia no mar poucas horas depois de decolar. Antes de dormir, em meio à prece, atinou. Ninguém precisa perder um voo que não houve para nascer de novo. Todos os dias.

Isaac Nazal/Flickr.com

Na revista colorida

Sem índice nem número de página

Há sempre alguém se casando

E um fulano que se separou.

Há a mulher que vai ter bebê

Perto da outra que acabou de ter um

Inexplicavelmente enxuta e sem olheiras.

Há uma família feliz em férias

Onde ninguém briga e nenhuma criança chora.

Há alguém querendo aparecer

E outro que faz de tudo para se esconder.

Há uma pessoa fazendo força para ser lembrada

Ao lado da que deveria ser esquecida.

Em meio aos anúncios de sorrisos em liquidação

Surge um beijo sem foco

Uma pose sem graça

E uma legenda sem ambição.

Há recém-apaixonados

Com grandes chances de se desapaixonarem

Até a próxima edição.

Uma traição aqui,

Outra reconciliação ali

E nada que altere a vida.

Sempre há um quarto feito para tudo, menos dormir

Em algum apartamento deslumbrantemente falso

Ou num castelo de mentira

Onde mulheres posam deitadas esticando seus pezinhos.

São bailarinas de um espetáculo impossível

Com roupas que não amassam nem criam bolinhas.

Há sempre as confraternizações esquisitas

De harmonia indecifrável

Reunindo alhos e bugalhos

Que brincam de ser amigos de infância.

No planeta-pose até as histórias tristes se dissolvem

Ficando fotogênicas e agradáveis.

Ninguém tem problemas.

Ninguém tem cárie.

Ninguém tem saldo negativo.

Ninguém tem chulé.

Revistas assim são estranhas companhias para a espera

Do médico atrasado

Da manicure desapressada

Ou do cabeleireiro ocupado.

E eu, entre um cafezinho e outro,

Deixo que elas sentem ao meu lado

E puxem conversa comigo.

A.K.M.Adam/Flickr.com

A gente deveria ter quatro olhos. Os dois já existentes, que olham para fora. E mais dois, que olhassem para dentro. Que fossem além do tal terceiro. Que pudessem ver a nascente do pensamento e descobrissem como é que surge esse nosso olhar para o mundo, para as pessoas, os bichos, as coisas todas.

Esses olhos extras veriam onde é que nasce o amor. Como ele se forma e de quê ele precisa para crescer. E também o que o faz morrer. Sabendo disso, talvez a gente se enganasse menos e se cuidasse mais.

Um par de olhos extras mostraria, com alguma exatidão, de onde vem o ódio e do quê ele se alimenta. Assim, bastaria negar-lhe o nutriente básico, essencial. Para vê-lo minguar, até sumir. Embora sempre vá existir quem goste dele bem gordo. Tem doido para tudo.

E a saudade? A gente costuma se enganar sobre ela. Olhos comuns, de olhar para fora, veem na falta – de alguém ou de alguma coisa – a sua verdadeira fonte. Às vezes, a tristeza. Mas só os olhos extras saberiam que é tudo culpa do apego, aquele sentimento que insiste em dizer que tudo é nosso.

Com olhos extras a gente poderia ver a raiz da dor. Dor de qualquer tipo: de coração, de cabeça, de cotovelo. A gente conseguiria vê-la como ela realmente é lá dentro, desnuda e chorosa. Sim, porque aqui fora todo mundo sabe os disfarces que ela usa.

(Pensando bem, deve existir quem já tenha esses olhos a mais. São as pessoas que a gente vive dizendo que não são deste mundo.)

Olhos extras também poderiam dizer onde, afinal das contas, se esconde a tal felicidade. Olhos comuns (os mais espertos, claro) já deram a dica: é dentro da gente. Mas a gente é muito grande por dentro. Dá preguiça procurar. Nessa hora, os extras, que também teriam boca e certo senso de humor, falariam bem baixinho ao pé do nosso ouvido:“Ela está em cada uma dos cem trilhões de células desse seu corpo. É só ligar os pontos, oras bolas.”

Eva Ekeblad/Flickr.com

Há algo de enfadonho e perigoso nas pessoas muito certinhas. Naquelas cuja fala não tem graves nem agudos, só médios. Nas que nunca desafinam, e ficam sem saber dos acordes interessantes que podem existir entre uma dissonância e outra.

Pessoas retas demais, dessas que parecem ter quatro lados idênticos, não encaram uma curva do meio do caminho. Mas também jamais derrapam. O que poderia, de vez em quando, levá-las a lugares inesperadamente bons.

É preciso cuidado com pessoas que nunca gritam. Que jamais arriscam um palavrão. Um bom palavrão na hora certa é bálsamo para o coração em ebulição.

Levante a mão quem já foi assim.

Pessoas exageradamente arrumadas são viciadas no ton sur ton. Estão sempre a salvo, protegidas do erro. Contam com a aprovação do bando, mas acabam por se mesclar com qualquer fundo, qualquer estampa. Ficam invisíveis. E como geralmente não lembram onde puseram suas cabeças, precisam de alguém que as ajude a encontrá-las depois.

Dá vontade de suspirar ver sapato combinando com cinto. De desanimar de vez, se bolsa ou gravata entram no arranjo. Quem faz isso destoa é do mundo, incerto e múltiplo por definição.

Não existe graça alguma em quem não quis, ao menos uma vez na vida, morrer de amor. E não pode haver verdade em alguém que nunca contou uma mentirinha sequer.

Deve-se desconfiar de quem tem sala de estar igualzinha à da revista de decoração. De quem não tem pelo menos um armário bagunçado. De quem tem criança e não tem brinquedo espalhado pela casa. De quem faz tudo certo no trabalho.

Quem é assim, levante a mão. Se for capaz.

Divertido mesmo é quem divide, provoca, bota pra quebrar. Quem não vibra no uníssono do bom senso comum. Quem ama alto e chora mais alto ainda. Quem faz, todos os dias, alguma coisa de um jeito diferente.

Para ficar mais interessante (desde que não comprometa saúde, segurança ou sentimento dos outros), gente precisa ter, vez por outra, um quê de desatino, uma pitada de desequilíbrio, um desejo de contravenção, uma certa dose de malandragem. Senão, lá na frente, não terá valido a pena.

Agora, vamos lá. Levante a mão quem um dia quer ser assim.

Era uma vez uma cidade. Na cidade havia uma avenida. Na avenida tinha um canteiro. No canteiro, duas árvores. Melhor dizendo: duas palmeiras. Que cresceram juntas. Não só juntas, mas quase entrelaçadas. E, não se sabe desde quando, as palmeiras da avenida vivem num eterno abraço. Na verdade, ninguém sabe se é abraço ou quase beijo.

Irmãs, talvez elas se abracem para se proteger da cidade, do barulho, da bagunça. Amantes, talvez se enlacem para ensaiar o beijo. Que jamais acontece. Pois enquanto a vida corre ao lado delas, alguém aperta o pause. Como num filme, quando a gente quer ver melhor uma cena. Ou quando vai beber água, atender o telefone ou ouvir o que o filho quer.

As palmeiras da avenida são estátuas talhadas em madeira, como aquelas pessoas pintadas de branco imitando estátuas no sinal. Com algumas diferenças. Uma é o tipo de seiva que corre dentro de cada uma. Outra é que as palmeiras, assim como as árvores, não nos pedem dinheiro.

Quando a cidade cochila, por certo as palmeiras da avenida se largam por alguns instantes. Dão uma volta, vão conversar com as amigas ao longo do canteiro. E logo retornam aos seus postos.

Para assistir ao abraço – ou quase beijo – das palmeiras é melhor apertar outro botãozinho no controle remoto que comanda a vida: o da câmera lenta. Assim se vê melhor as coisas.

(Campineiros em slow motion podem assisti-las na avenida Júlio Prestes. Pertinho do Balão da Bela Vista. Foto: Silmara)

Gonc.A/Flickr.com

Vivia mandando que o Diabo o carregasse. Um dia, o Diabo resolveu obedecer. Vou contar direitinho como foi. Porque o Diabo também precisa que alguém alivie as coisas para o seu lado.

A mulher, embora bonita, não era flor que se cheirasse. Mas fazia o melhor pão de queijo de todo o triângulo mineiro. E pão de queijo bom, mas bom mesmo, é difícil de fazer. Não pode ter queijo demais, nem de menos. O polvilho tem que ser aquele. E por aí vai. A fama garantia à mulher um bom punhado de amigos, que esticavam o caminho só para dar uma passadinha em sua casa. Entre os amigos, havia os admiradores. Públicos e secretos. Dos secretos ela gostava mais. Caprichava na massa do pão quando sabia que um deles iria vê-la.

Até o dia em que um da turma dos secretos, durante a visita, resolveu fincar o pé lá. E não quis mais sair. Prometeu aumentar a casa, fazer um bom puxado para a cozinha. Dizia que com o que ganhava na loja de material para construção os dois poderiam viver, assim ela não precisaria mais consertar roupa dos outros. A proposta foi ficando interessante, e ela deu sua mão ao homem. Agora só os amigos podiam passar lá.

Mas como eu disse, a mulher não era flor que se cheirasse. Era do tipo de flor que se planta por engano, e depois que se descobre o perfume ruim é preciso arrancar tudo. Até a raiz. E, dia depois de dia, a mulher tratou de infernizar a vida do homem com toda sorte de insulto e implicação. De manhã até a noite. Encerrava o palavreado sempre com a mesma ordem ao Diabo. Que, no começo, não dava muita bola.

Mas o Diabo, sempre muito educado, foi se aborrecendo. Não gostava que lhe dessem ordens. Se tem uma coisa que o Diabo preza é a sua independência. Deus sabe disso, e é por isso que cada um fica na sua.

Passaram-se alguns anos e a mulher, não se dando conta do mundinho esquisito que criava à sua volta com sua maledicência, adoeceu. Ficou magra de dar dó. O pão foi mudando o sabor, os amigos foram sumindo. Apenas o fiel e paciente marido continuou ao seu lado, comendo o pão que ela amassava todos os dias.

Certa tarde, ele foi ajudá-la a por a mesa para o café. Sem querer, esbarrou no cesto de pães recém-assados e foi tudo ao chão. A mulher não só repetiu a ordem ao Diabo com mais fúria que das outras vezes, como também mandou que o Raio, irmão gêmeo do Relâmpago, partisse o homem em dois.

Aí o Diabo se enfezou. Disposto a resolver aquela história, vestiu seu terno, ajeitou o nó da gravata no espelho, conferiu os sapatos e foi até a casa da mulher. Tocou a campainha, o homem veio atender. Quando abriu a porta, pôde ouvir a mulher esbravejando lá dentro. Viu o ódio que lhe tomara conta. Pôde sentir, também, o aroma sem vida do pão espalhado pelo tapete da sala de jantar. Da porta mesmo, chamou o homem de canto e sussurrou algo no seu ouvido. Ele arregalou os olhos, virou-se para a mulher e sorriu. Despediu-se com um breve aceno, e pulou no ombro do Diabo. Lá se foram os dois rua acima e, na praça, desapareceram na sombra de um jequitibá.

Percebendo que tinha alguma coisa a ver com aquilo, a mulher tratou de recolher os pães enquanto matutava que diabos havia acontecido. Tomou seu café, não sem uma pulga atrás da orelha. No finalzinho do dia, foi para a porta esperar o marido. Que nunca mais voltou.

E, por via das dúvidas, passou a tomar mais cuidado com o que dizia.

Foto: Tom Magliery/Flickr.com

Trabalhar em jornal garante boas histórias. Esta que vou contar é muito, muito antiga. Era meu segundo emprego, e eu a ouvi de um colega, que também a ouvira de alguém. Certamente, ela é contada até hoje. Força da tradição oral num lugar que nasceu por conta da escrita.

O local: Folha de S.Paulo. O cenário: um elevador. O protagonista: Octavio Frias de Oliveira, dono de tudo aquilo. Os coadjuvantes: um homem qualquer para dar graça na história e outro, que não é qualquer um, para registrar e perpetuar a cena.

Num dia de trabalho, lá pelas tantas nosso protagonista tomou o elevador no nono andar com o homem que não é qualquer um. Foi quando pararam no terceiro andar e o homem qualquer entrou. Vendo o seu Frias com seu jaquetão próximo à porta, e sem saber de quem se tratava, ele não teve dúvida e tascou: Térreo, por favor.

O homem que não é qualquer um contou que o seu Frias não se abalou. Disse “Pois não” e gentilmente apertou o botão do térreo. E continuou seu trabalho – coisa que fez até os noventa e três anos, pouco tempo antes de pegar outro elevador, desta vez para aquele andar lá de cima.

Certas histórias levam alguns minutos para acontecer. Alguns segundos para serem contadas. E contam com a eternidade para serem lembradas.

Todo mundo corre o risco de viver algo assim. Se você for o homem qualquer da história, não é preciso ter vergonha. Nem durante, nem depois. Se você assistir a uma cena dessas, espalhe. Agora, se você for o protagonista, relaxe. Aperte o térreo.

Historinha breve para uma quarta-feira de inverno que, tudo indica, deve chover.

Foto: Pink Sherbet/Flickr.com

Era dia dos mais sem graça. Dia bom, porém. Mas com jeito de dia usado, daqueles que parecem já ter acontecido. À noitinha dei um pulo no aeroporto, o avô das crianças vinha passar uns dias em casa. Enquanto o esperava, brinquei de prestar atenção no mosaico de gente e mala que se formava a cada embarque e desembarque. E acabei encontrando ali a graça do meu dia. Aeroportos são estações de trem com asas.

Um velho numa cadeira de rodas passou pela minha frente. Atrás dele, um bebê num carrinho. Cada qual com seu condutor. Eles não estavam juntos. Mas tinham algo em comum, além dos cabelos ralos: os dois dependiam de alguém para cuidar deles.

Infância e velhice passam à nossa frente o tempo todo. Para notá-las é preciso ter olhos de ver. O que não é nada fácil para quem está na metade do caminho, longe das duas pontas. A gente se esquece do que já foi e finge não saber do que será.

Saber os dois – bebê e velho – é exercício. De paciência, para o primeiro. De cuidado, para o segundo. Porque o velho é um espelho mágico que mostra o futuro. Então, meu amigo, é bom se cuidar. Começando pelo coração, que é a casa da cabeça. Ele manda no resto. Manda até nas pernas, nossas rodas de verdade.

O bebê do aeroporto era risonho, inquieto na sua fome de novidade. O velho era sério, imóvel. Olhava para o nada, já que tudo lhe parecia conhecido. Bebê e velho eram começo e fim. Oito e oitenta – meses e anos. Diferença e indiferença. Partida e chegada. Como as origens e os destinos lá no grande painel do mundo, que troca as informações a todo instante. O bebê ia para o velho. O velho vinha do bebê. O bebê me disse de onde eu vinha. O velho me mostrou para onde eu ia. E os dois me lembraram que o tempo passa é muito rápido. Voando, eu diria.

Foto: George/Flickr.com

A história que minha professora contou foi assim. Certa vez, a diretora da escola recebeu um telefonema. Como tantos outros que ela recebia todos os dias. Era uma escola de idiomas. Do outro lado da linha, uma mulher queria saber sobre as aulas de francês. Os horários, os métodos. A diretora respondia tudo sem a menor dificuldade, nenhum desafio. Seria mais um dia comum na sua vida. A mulher perguntou se poderia ter aulas em domicílio, não costumava sair muito de casa. Sim, poderia. Perguntou se seria possível um curso bem rápido, ela tinha pressa. Sim, poderia.

Na maioria das vezes, aquele tipo de conversa terminaria ali. O interessado ficaria de dar uma passadinha na escola, ou não, e tudo mais caminharia dentro da normalidade. Mas a diretora se interessou e quis saber mais sobre a mulher que tinha tanta pressa. Foi dando corda. E olhe que norte-americano, principalmente em Michigan, não é lá um povo de falar muito. Costuma dizer apenas o essencial, ou pouco mais que isso. Se você parar um deles na rua para perguntar onde fica tal rua e ele não souber, é exatamente isso que ele lhe dirá: Não sei. E continuará seu caminho. Mas se pedir a informação a um brasileiro, por exemplo, aí é bem diferente. Se ele não souber, tratará de saber. Chamará outra pessoa que passa pela rua, só para ver se ela sabe. Irá com a pessoa que perguntou até um posto de gasolina. Em pouco tempo se formará uma verdadeira equipe tentando encontrar aquela rua. E provavelmente descobrirão onde ela fica.

A mulher contou que era cantora. Havia sido convidada para se apresentar para pessoas muito importantes. Franceses. Cantaria na língua deles e não queria que aquele seu sotaque norte-americano ficasse muito saliente.

Embalada na prosa, a diretora disse que por certo ela deveria cantar muito bem. A mulher, sem modéstia, disse que sim. E lascou: Na verdade, milhões de pessoas acham isso, querida.

Nessa altura a diretora, que até então só a chamara pelo sobrenome, Franklin, quis saber de quem se tratava. A mulher respondeu: Aretha.

A professora contou que, depois do susto, a diretora engasgou e, ao contrário dos minutos anteriores, teve certa dificuldade para levar a conversa até o fim. Gente é esquisita à beça.

A dama do soul teve suas aulas e deve ter feito bonito no dia. E eu aprendi: até os deuses vão à escola.

Christo Bakalov/Flickr.com

Você, que sai para trabalhar todos os dias às oito e quinze em ponto e nem nota as florzinhas que caíram da velha árvore sobre seu carro durante a madrugada. Que desaprendeu a ouvir o vento e não reconhece mais o cheiro de chuva chegando. Que não tem nenhuma fotografia de nenhum amigo de infância.

Você, que cantou parabéns para seu avô calculando o quanto a festa tinha lhe custado. Que gostava de enrolar os dedos nos cabelos da sua mãe para dormir e hoje só dorme direito se estiver sozinho. Que já quis ter um dragão e não deixa seus filhos terem um cachorro.

Você, que puxou o tapete do seu colega de trabalho e depois foi chorar no banheiro, mais por raiva do que por remorso. Que não confessa para ninguém o que lhe dá medo de verdade, com medo da coisa acontecer. Que nem ficou sabendo que o bebê da vizinha já nasceu. Que não deixou sua filha ouvir o moço que tocava violino na rua, para não se atrasar na consulta com o médico. Que não se deu conta do quanto é parecido com seu pai.

Você, que nunca saiu de pijama na rua e não sabe o que é nadar pelado. Que entrava na casa da sua avó e sentia o aroma do pão assando e ia correndo beijá-la, louco de saudade e fome.

Você, que sabe o quanto seu funcionário caprichou no relatório, mas preferiu lembrá-lo dos itens que faltaram. Que veste um sorriso diferente conforme a roupa do freguês. Que não gosta que seus filhos brinquem descalços.

Você, que nunca levou um gatinho para casa e implorou aos seus pais para ficar com ele. Que nunca apertou a campainha e saiu correndo. Que não tira o relógio e nunca tem tempo. Que não percebeu que derrubaram o ipê amarelo da sua rua. Que sonhava em ver um show dos Beatles e hoje nem liga para a coleção deles bem ali, na sua estante.

Você, que nunca andou na contramão. Que não espera seu filho tentar amarrar o sapato sozinho e já vai amarrando por ele. Que não perdia um dia de Vila Sésamo e que hoje se irrita com tudo na TV que não seja noticiário.

Você, que vê o olhar do cão faminto e engole o último pedaço do salgadinho. Que vai de carro a dois quarteirões da sua casa e acha isso normal. Que cruzou com a empregada hoje cedo na cozinha, disse bom dia mas não até amanhã. Que se irrita sempre com o motorista da frente. E com o do lado. E com o de trás também.

Você, que tem barco, mas não tem amigo de verdade. Que quando criança queria viajar numa nave espacial, e hoje diz para seu sobrinho de quatro anos que essas coisas não existem.

Você, que não tem ninguém lhe esperando em casa.

É com você mesmo que eu estou falando. Eu tenho três notícias. A primeira é que seu pé não é doente. A segunda: sua cabeça é que é ruim. A terceira é que tudo nesta vida tem conserto.

Foto: Denis Collette/Flickr.com

Casa de gente morta não é para gente viva ficar entrando. Se a casa de alguém que morreu fica vazia por um tempo, certas almas pensam que ela está vaga e se mudam para lá. E não se deve incomodar os mortos.

Meu irmão dizia que via ‘pessoas’ na casa dos meus avós. Eram várias freiras enfileiradas cruzando o pequeno quarto, indo para não se sabia aonde. E o quarto ficava no caminho delas. Minha mãe não achou aquilo bom para uma criança e resolveu procurar ajuda. Depois disso ele nunca mais as viu. Por certo alguém pediu para que elas fizessem outro trajeto e não passassem mais por ali. E elas obedeceram.

Quando meu avô morreu, anos depois da minha avó, fomos até a casa dele buscar algumas coisas e separar o que seria doado. Eu não quis entrar sozinha. Não queria incomodar os mortos que haviam se mudado para lá. Nem as freiras, talvez liberadas para fazer o velho caminho.

Minha irmã abriu o armário. Vi o terno cinza do meu avô, o único que ele tinha. Quase nunca o usava. Foi meu pai quem me contou porque o terno se chama assim. Porque é composto de três peças: calça, colete e paletó. Mas os ternos de hoje em dia raramente têm colete. Deveriam mudar o nome, então.

Pedi para ficar com o colete. E ele acabou ficando guardado no meu armário por muito tempo. Semana passada, decidi usá-lo. Levei-o à costureira para ajustar. Éramos da mesma altura, mas o ombro do meu avô era mais largo que o meu. No dia em que morreu ele parecia tão miúdo. Parar de respirar deixa as pessoas menores.

Hoje é a primeira vez que eu o visto. Saí de casa bem cedo e a vizinha, estranhando me ver em pé àquela hora, perguntou aonde eu ia. Respondi: Vou passear com o meu avô. Ela sorriu e lembrou: Hoje a gente precisa dar um abraço neles também.

Concordei. Já estava fazendo isso.


A gente guarda na gaveta das lembranças que existe em nossa cabeça algumas imagens especiais que, de tão eloquentes, silenciam tudo à nossa volta. Imagens formadas a partir do que vimos de verdade ou do que apenas vimos retratado, ou ainda do que ouvimos dizer. Essas imagens – as reais e as imaginadas – ficam nessa gaveta, num compartimento secreto. De vez em quando elas escapam. E vão se projetar lá na tela da memória.

Uma das muitas imagens da minha grande gaveta é também uma das que sempre me chocam. Nunca compreendi muito bem como é que essa escapa. Mas a visão dos pequenos sapatos das crianças mortas nos campos de concentração nazistas é, sem a menor dúvida, uma das mais paralisantes, doloridas e assombrosas imagens que já vi. E apesar de ter visto boa parte das coisas que se mostrou ao mundo sobre esses lugares – todas terríveis em sua incompreensível natureza de brutalidade, intolerância e maldade – percebo que da missa não sei a metade.

Mas os sapatos. Poucos objetos dizem mais sobre o holocausto do que eles. O milhão e meio de pares de sapatos de meninos e meninas, mais os quatro milhões e meio de pares dos adultos, são uma espécie de síntese dura e intragável das alucinações de um homem.

Estive perto deles por duas vezes. A primeira, há vinte e dois anos, num ex-campo. A segunda, há nove, em um dos museus que se ergueram, não para que o horror fosse perpetuado, mas justamente para que seu oposto seja eternizado. Eu o visitei com uma amiga. Sem muita vontade de estar ali, eu tentava não ver os objetos, as fotografias, as legendas. Mas algumas coisas me atraíram. Não teve jeito.

Parei em frente a uma vitrine embutida na parede, com pouco mais de um metro e meio de largura. Nela, vários pares de sapatinhos organizados lado a lado. São tão diferentes dos sapatos de criança de hoje. Em couro trabalhado, com fivelas, cadarços e enfeites eles eram, na verdade, miniaturas dos sapatos dos adultos.

Pensei na história de cada um daqueles pares. Um presente de uma mãe amorosa ou de um tio querido num dia de aniversário, com festa, balões, bolo de chocolate e crianças felizes correndo pela casa. Comprado por um pai zeloso para o primeiro dia de aula do filho. Aqueles sapatos participaram das brincadeiras de seus donos. Pisaram as ruas de uma Europa ainda quase tranquila. Mas, sobretudo, foram usados por delicados, frágeis e inocentes pés.

Minha amiga acenou lá na frente, estava adiantada no roteiro da exposição. Fiz um sinal para que ela seguisse, nos encontraríamos na saída.

Cheguei mais perto da vitrine. E dei asas à imaginação: e se ali dentro estivessem, de verdade, os donos daqueles sapatos? Talvez uma menina loura de seus cinco anos, com um casaco marrom, tentando me dizer alguma coisa. E um garoto de imensos olhos castanhos vidrados de pânico, carregando nos braços o irmãozinho que dormia. E mais meia dúzia de crianças, igualmente belas e assustadas. Como num daqueles filmes batidos onde o presente se mescla ao passado, imaginei que se eu tocasse o vidro que nos separava poderia ouvir, então, seus gritos e lamentos num idioma incompreensível. Mas a linguagem do medo é universal, assim como o choro. E eu entenderia o que diziam.

Encerrei meus devaneios e fui encontrar minha amiga. Sei que sempre houve e haverá ainda tantas outras crianças sem seus sapatos como aquelas do museu, e também as que jamais ganharão esse tipo de honra, e ainda as que nem sapatos terão. Cada uma com sua história triste. Mas hoje, só por hoje, e não sei por que, eu queria poder falar aos donos daqueles pequenos sapatos que, embora desejasse, eu não poderia ajudá-los. Eu conhecia o filme. E sabia como ele terminava.

Wordle.net

A primeira vez que comprei uma agenda foi quando entrei na faculdade. Achei que teria coisas demais para fazer e tive medo de esquecer alguma. Também acreditava que com ela eu pareceria uma mulher ocupada. E gente ocupada não tem tempo, mas tem agenda.

Agendas, depois eu descobri, servem para nos lembrar que não damos conta do que temos, ou cismamos que temos, de fazer. Agendas são os coronéis do dia-a-dia, a todo instante nos mandando por a vida em ordem.

O que, no meu caso, é inatingível. Transfiro tarefas de hoje para amanhã, as de amanhã para depois de amanhã, e depois para a semana que vem, para o mês seguinte. De tempos em tempos preciso revisar tudo e buscar tarefas esquecidas lá no passado, como quem encontra uma roupa no fundo do armário da qual já não se lembrava mais.

E um dia me dou conta: muito do que precisava ter sido feito, não foi. Muito do que fôra agendado era simplesmente inútil. E o pouco que realizei parece ter sumido no vácuo do não-realizado. Terão os dias ficado mais curtos, ou a vida mais cheia de tarefas? Ou será o nosso cérebro que está batendo o pino? Ou nada disso e é Cronos que está nos sacaneando?

Com o tempo virei refém da agenda, escrava do Palm Top. Que resolveu agora alternar períodos de lucidez com períodos de sonolência. Aparelhos eletrônicos também ficam doentes.

Para me salvar, inventei de usar caderninhos. Que, além de fazer as vezes de agenda, têm outra função em tempos de esquecimento fácil – ou crônico. É nele que registro as ideias captadas do mundo ao meu redor, matéria-prima do que vai virar história. E elas – as ideias – surgem sem aviso prévio. Daí a importância de ter algo à mão, funcionando, para atender ao chamado da inspiração. (O que também não é garantia nenhuma que dela vá sair algo de bom.)

Perder a inspiração de vista, como quem perde alguém na multidão, pode ser como perder um trem. Que partirá sem mim caso eu não esteja na plataforma na hora certa. Sem dó, ele irá embora seguindo seu ofício de inspirar alguém mais atento ao tempo.

Vejo ao longe a fumaça da velha locomotiva, riscando de cinza um colorido céu invernal. Ouço seu apito, é a inspiração chegando. Ela pára por alguns segundos na plataforma do pensamento. Abrem-se as portas das ideias, embarco e aboleto-me ao lado da melhor janela. E fico lá, desenhando e combinando no caderno-agenda as letras que vou encontrando pelas paisagens.

Desembarco, enfim, em qualquer estação. Qualquer uma serve, qualquer uma vale. Durante a viagem formei tantas palavras que é preciso agora por ordem nelas. Vou penteando uma por uma. Para que no dia certo elas cheguem, quem sabe, ao coração de quem as lê.

R.Chappo/Flickr.com

Houve um tempo em que eu, jovem, ficava até triste quando via a sua revista. Como naquelas vezes onde eu, criança, não podia ganhar a boneca que falava. Meu pai dizia que eu era uma boa menina e a merecia. Mas que ela não era para mim. De um jeito parecido, eu folheava as páginas da revista e percebia que nada, ou quase nada, ou muito pouco, era para mim.

E eu ia ficando triste, querida editora.

Um dia entendi porque a boneca falante não poderia ser minha. Adulta, também notei que havia alguma coisa errada na sua revista. Porque você dizia que ela era para mim. Mas não era.

Hoje eu passeio pelas páginas onde você sugere coisas para que eu tenha um guarda-roupa bonitão e para que eu seja feliz. E me dá uma vontade doida de perguntar, querida editora.

Quantas leitoras da sua revista podem, de verdade, pagar pelos jeans, pelas blusas, pelas bolsas e pelos sapatos de três dígitos, tão próximos dos quatro, da sua vitrine de papel? Porque eu sei que metade das suas leitoras são mulheres como eu. E eu não posso. Você acredita, de coração, que ser sexy e sedutora seja coisa que se ensine num passo-a-passo?

Certa vez, uma amiga se apiedou da minha primeira dúvida enquanto tomávamos um chá –e eu lembro, era de capim-santo– e revelou: “É para pegar as ideias. Depois a gente vai atrás dos similares”. A dúvida só cresceu. Para quê mesmo a gente precisa pegar essas ideias? Não dá para termos as nossas? E se o original não dá, para que desejar o parecido, o quase igual? “A gente é imitador por natureza”, devolveu a amiga. E eu fechei o bico.

Então é assim, querida editora. A gente pega emprestada a sua ideia. Que não é sua, pois você emprestou de alguém. Que, por sua vez, não é o dono da ideia, e também emprestou de outro. E a gente vai pegando ideias emprestadas e se ajeitando cada vez mais nos balaios, um dentro do outro, formando o grande balaio-mãe das ideias comuns.

Querida editora, que graça isso tem?

Não é que eu desgoste totalmente da sua revista. Até gosto. Sou consumidora, afinal das contas. Mas a compra quase imaginária e a estética equalizada das suas páginas não deixam a vida meio sem sal?

Como eu lhe disse, houve um tempo em que eu até ficava triste quando via a sua revista. Mas hoje eu já sei de algumas coisas. Por exemplo, que aquela boneca não falava de verdade coisa nenhuma, querida editora.

Um abraço,

Foto: TW Collins/Flickr.com

Enquanto eu tomava meu café-da-manhã, uma abelha entrou pela janela. Logo seu radar detectou o pote de mel, destampado sobre a mesa. Aprendi a comer abacaxi com canela e mel há pouco tempo, na casa de um amigo. O mel corta a acidez do abacaxi, a canela dá o aroma especial ao prato. A abelha rodeou, rodeou e parou, feito um helicóptero, próxima à boca do pote. Por certo pensou: Conheço isto aqui.

Ouvi dizer que, pelas leis da aerodinâmica, as abelhas jamais poderiam voar. Porque seu corpo é muito grande e pesado para asinhas tão miúdas. Mas elas voam assim mesmo. Sabe por que? Porque elas não sabem disso.

Gostei do abacaxi daquele jeito do amigo e no dia seguinte fui comprar mel. Na porta da loja um homem me pediu dinheiro. Contou que não podia trabalhar. Haviam lhe dito que o pé torto – seu parto, nos cafundós da Bahia, fôra complicado – o tornara incapaz.

Salpico a canela no abacaxi, de olho na pequena Apis mellifera. Brinco com ela: Adivinha o que falam sobre você.

Às vezes a gente é meio abelha: ninguém põe fé, mas voamos. Por outras, somos como o homem da loja de mel: falam que nosso pé é torto, e a gente acredita.

Lembrei de uma amiga dos tempos de colégio. Queria ser atriz de teatro. A família achava que era piada. Nem as capitais dos estados ela conseguira decorar. A última vez que nos falamos ela estava exausta e tristonha. Naquele dia tinha entrevistado uma dezena de candidatos na empresa onde trabalha. Em vez do teatro, minha amiga escolheu Psicologia. Acreditara, enfim, que tinha o pé torto. E seu personagem agora era outro. Menos doce para ela.

A abelhinha parece ter desistido do mel. Fez alguns salamaleques aéreos e partiu. E não é que a danada voa bem?

J.Kolo/Flickr.com

O sinal fica amarelo. Preguiça de acelerar, já vinha mesmo numa marcha mais lenta do que de costume – pensamento e motor. Melhor ficar por ali, aguardando o verde. Noto um outdoor à esquerda. Outro à direita. Que tristeza, agora tudo se compra em combos. Combo aqui, combo ali. A simplificação máxima da arte da venda. Sinal vermelho.

Se por um lado a combomania parece destinada a facilitar tudo, por outro ela também é condenada a padronizar e empobrecer tudo: gostos, atitudes, intenções, sentimentos, sensações. Desejos numerados. Culpa da revolução industrial. Ou de uma involução pessoal?

Pois eu queria mesmo era ver estes combos aqui.

Na loja de roupas. Em vez da dobradinha calça + camiseta, um combo com os seguintes itens: direito de experimentar tudo + direito de não levar nada. Elegância não entra na promoção. É artigo que não se vende, nem se compra. Se lhe oferecerem um combo com ela, fuja.

No consultório médico. Imagine só poder escolher o combo com consulta de duração suficiente para você dizer tudo o que precisa + olho no olho + aperto de mão na saída. Tão básico que poderia ser o combo número 1 da medicina.

No supermercado. Ah, como iria bem um combo com fila tolerável nos caixas (sem fila seria querer demais) + bloqueio aos espertinhos que tentam furá-la.

Na hora de escolher uma TV por assinatura. Pense na oportunidade de fugir dos combos que incluem aqueles canais inassistíveis no seu pacote, e poder pedir um com liberdade de comprar só os que você escolher. Nem precisaria de outro item para acompanhar.

No cinema. Que maravilha poder trocar, na bomboniére, a dupla pipoca + refrigerante pelo combo com biscoitinhos amanteigados + cappuccino. Ou por este: direito ao silêncio + certeza de celulares desligados.

No Dia dos Namorados. Seria fácil e gostoso pedir seu combo pelo número: número 1, número 10, número 100, número 1.000.000. De beijos.

Comprando um apartamento novo. No lugar do combo padrão, com opções de dormitórios e vagas de garagem, não seria bacana considerar um com varanda para a vida + parque com algumas das árvores que estavam ali antes?

Na pet shop. Sair da mesmice do combo filhote + pedigree e pedir aquele que vem com bichinho abandonado + coraçãozinho feliz. Esse tem bônus: gratidão eterna.

Nas igrejas. Ao invés de implorar o tradicional combo realização de pedidos + números da loteria de amanhã, que tal você oferecer um combo aos santos? Assim: obrigado + obrigado. Porque a gente pede coisas demais a eles, e também está na hora de mudar isso.

ForUrEyeZOnly/Flickr.com

Esqueça a Docinho, a Florzinha e a Lindinha. Tem menina de carne e osso que é superpoderosa e não sabe. Há muitas delas, e por toda parte. Elas não moram em Townsville, como no desenho da TV, mas em cidades de verdade. Na sua, por exemplo.

Essas meninas costumam ter seus superpoderes desenvolvidos ainda no ventre de suas mães. O poder original, iniciático, que lhes garante a super-resistência à rejeição, ao desamor, às tentativas de se livrar delas.

Meninas superpoderosas podem nascer em lares despedaçados, e mesmo assim se encantar com histórias de amor, príncipes e princesas, e sonhar serenamente com a sua vez. É o superpoder da esperança.

Pensem nas meninas que vendem seus cacarecos e seus chicletes nos semáforos, sob os olhos vigilantes de alguém bem mais velho na outra esquina. Além do evidente superpoder da invisibilidade, elas têm o da invulnerabilidade, que as protege dos acidentes. Elas também contam com o poder da não-indignação diante do constante, aceitável e familiar fechar dos vidros elétricos à sua frente.

Meninas superpoderosas têm o poder de sobreviver sem o mínimo de alimento, como se nutridas por alguma espécie de energia ou prece. E, mesmo assim, ainda conservam no olhar um brilho que não sabemos de onde vem.

Na outra ponta, longe do superpoder da imortalidade, estão as meninas que morrem de segunda a segunda e não ganham uma linha sequer no noticiário. O superpoder, neste caso, é justamente o de não nos causar comoção alguma.

Agora me diz: quem é que gostaria de ter superpoderes assim?

Meninas superpoderosas de verdade costumam viver a falta de amor-próprio e o excesso de amor aos outros, numa conta que não fecha nunca. Terminam por apresentar ao mundo seus bebês indesejados, repetindo e eternizando o ciclo de suas próprias origens. Essas meninas têm o superpoder de criá-los sozinhas, encerrando de vez e prematuramente suas infâncias já mal vividas. Precisam dar conta de um filho, quando ainda são tão filhas. São meninas que abrem mão de sua juventude em nome do pai e do filho. E talvez do espírito santo.

Meninas superpoderosas desafiam, além da gravidade, o descaso e a incredulidade, e promovem verdadeiros espetáculos em solos olímpicos. Há ainda as meninas com o raro superpoder de conquistar lugares nas universidades públicas, porque ultrapassam, em inteligência e raciocínio, os superpoderes financiados das outras meninas.

Pensando bem, ao menos numa coisa as meninas superpoderosas de carne e osso se parecem com as personagens do desenho animado. Ou a gente as assiste. Ou muda de canal.

Foto: Michael Flick/Flickr.com

Talvez tudo tenha começado no pré-primário. Eu não queria participar da peça de teatro que a turma encenaria, mas a professora de bochechas rosadas e ar maternal insistiu no convite. Não adiantou dizer que eu não tinha talento para ser planta. Minha fala começava assim: “Eu era uma sementinha…”. A única frase que guardei no labirinto da memória. O resto, por conta da péssima experiência com apenas seis anos, eu apaguei permanentemente. E daí em diante eu teria declinado toda espécie de convite semelhante.

Depois vieram as sardas. E os óculos. Para as sardas, cremes mágicos. Para os óculos, propositais esquecimentos na sala de aula. Mas logo surgiam mais sardas. E óculos novos.

Alguns anos mais tarde, foi a vez do espelho me mostrar diferente das amigas. Não sei se construí a lembrança a partir de fragmentos, já que minha memória torta costuma me pregar peças, mas arrisco: foi numa noite de Natal que ganhei o primeiro sutiã. Verde-água. Após a ceia a família toda foi dormir. Exceto eu, extasiada com o presente emblemático. E inútil.

Adolescentes pertencem àquela idade esquisita onde a criança esbarra no jovem sem, contudo, ser uma coisa nem outra. Quase tudo é motivo para um complexo. No meu caso, as pernas. Eram tão fininhas, tão branquinhas. Como o resto de mim. Enquanto todos na escola faziam as aulas de educação física sem grandes problemas, além de uma eventual inabilidade com a bola ou certa falta de coordenação motora, eu fugia delas. Não por conta da professora que usava peruca e ensinava os esportes através de um livro velho, onde os alunos liam em voz alta, em vez de praticar, as regras do vôlei ou do basquete. Era a minissaia branca e plissada, com um inexplicável shortinho vermelho, a razão da minha fuga. Foi a época em que mais estive doente, acometida de todo tipo de mal súbito. Tudo devidamente informado na caderneta escolar. Com a minha letra, claro.

O modelo da minha família também não me ajudava a ser parecida com as demais garotas. Todas tinham suas mães disponíveis em tempo integral em casa, preparando lanchinhos no meio da tarde ou tricotando casacos coloridos para o inverno. Eu tinha que me contentar com a doçura do meu avô, sempre superada pelo mau-humor e rabugice da minha avó, responsáveis por mim e meus irmãos enquanto meus pais trabalhavam. Justamente numa época onde tudo o que eu desejava era ser igual. Fazer parte do bando.

Nunca me achei bonita. Nunca fui popular. Nem aluna brilhante. Fazia parte da turma dos invisíveis. Talvez por isso tenha me acostumado a enxergar a vida do canto. Comecei a escrever. Para traduzir a minha perspectiva.

Tempos depois, o curso superior. Nunca vi ponto de ônibus tão vazio quanto aquele em frente à minha faculdade. Sempre esperei, com apenas um ou dois amigos, o meu passar. Não compreendia aquelas garotas lindas e ricas. E não era visível para os rapazes, igualmente lindos e ricos. Tive um único namorado ali. Que começou poucos meses antes da formatura. No ônibus, por sinal.

Talvez tudo tenha, de fato, começado lá atrás. Na escola, eterno palco onde as diferenças são todas representadas. Hoje estou perto de compreender a utilidade da diferença. Eu não sabia, mas o valor de ser diferente ficaria tatuado em minha alma para sempre, tal qual as tatuagens reais que hoje me estampam. E já não há dúvida: eu era mesmo apenas uma sementinha.

Foto: Patrícia Lobo/Flickr.com

Faz de conta: você acordou, ligou para o salão e marcou um horário. Na hora do almoço, foi lá e pediu: Corta bem curto. O cabeleireiro não acreditou no que ouvia. Afinal, seus quase cinquenta centímetros de cabelo sempre foram, na sua cabeça (literalmente), uma espécie de atestado da sua feminilidade. Mas agora eles teriam de ser curtos. Para que suas ideias ficassem longas. Ele colocou a mão um pouco abaixo do seu ombro: Mais ou menos aqui? Você segurou a mão dele, levou-a na altura da sua orelha, e disse: Tosa.

Depois você passou naquela loja onde tem uns vestidos moderninhos e coloridos. Você entrou e pediu aquele cor de laranja com borboletas, muito mais curto do que os que você costuma usar. Aproveitou e pediu a sapatilha da vitrine. Arrancou o seu terninho bege, sua camisa branca e seu escarpim marrom. Deixou tudo por lá mesmo, no provador. E quando a vendedora perguntou o que fazer com aquilo, você disse: Queima.

Quando você retornou ao trabalho, uma hora depois do horário de costume, com aquele vestidinho e com os cabelos daquele jeito, a roda em torno de você foi se formando. Uns, animadíssimos. Outros, nem tanto. Alguns reprovaram. Como as coisas já não andavam muito bem por ali, sua chefe lhe chamou no final do dia para conversar, e avisou que as coisas não poderiam continuar daquele jeito, ou ela teria que substituir você. E você disse: Substitui.

Saindo de lá deu vontade de jantar naquele bistrô aonde você acha que só deveria ir no dia do seu aniversário ou outra data importante. Você mal encostou seu carro e já veio o dono da rua, dizendo que eram dez pratas para parar ali. E, como você não deu bola, o homem começou aquela conversinha surrada dizendo, na entrelinha da entrelinha, que um eventual não-pagamento antecipado incorreria em riscos indesejáveis na pintura do seu bólido. Você pegou o celular, digitou três números, mostrou o visor para o homem e, já com o dedo na tecla “ligar”, disse: Risca.

Faz de conta que você chegou em casa e sua filha de dezessete anos estava na sala com o namorado. Você teve que contar de novo a história daquele vestido e daquele cabelo e, como chovia, sua filha sondou se o rapaz poderia dormir ali. E, enquanto jogava no lixo aquela agendinha que você só usava no trabalho, você disse: Pode.

Quando se deitou para dormir, aquele anjo que costuma vir conversar com você antes do sono se empoleirou na cabeceira da sua cama. Elogiou o cabelo, o vestido, a decisão no trabalho, o presente de não-aniversário, o chega-pra-lá no dono da rua, a atitude com a filha. Só por curiosidade, perguntou que bicho havia mordido você. E você, se ajeitando no travesseiro e já desligando o abajur, disse: Nenhum.

No dia seguinte, vendo que eram dez da manhã e você ainda não havia se levantado, sua filha entrou no quarto, vocês conversaram e no final ela perguntou como é que vocês viveriam dali para frente. Com certa ironia, ela arriscou dizer que com as bolsas e os badulaques que você produzia e vendia nos finais de semana é que não seria. E você disse: Sim.

À tarde, você procurou o dono daquele galpão que você havia visto para alugar, perfeito para uma oficina, e fez uma oferta. O homem coçou a cabeça, pediu um pouquinho mais, e você disse: Fechado.

À noitinha, você foi até a casa dos seus avós, assim, de surpresa. E, de surpresa, você os beijou. E quando eles perguntaram o que era aquilo, você disse: Amor.

Faz de conta que foi assim. Faz de conta que foi desse jeito que você virou a mesa e as quatro cadeiras e viveu, serenamente, seu dia de fúria. Que resolveu não perder mais tempo, fazer o que gosta e ser do jeito que você, só você, acha que fica mais bonita.

Faz de conta que você morreu. E que alguém lhe deu a oportunidade de voltar para um terceiro tempo.

Então. Agora vai lá e faz tudo de verdade.

[Nota mais que importante: este texto é meu. Fico feliz que ele esteja viajando pela web, sinal que as pessoas gostaram. Texto é igual filho: a gente cria para o mundo. Mas é uma pena que algumas pessoas não lembrem que ele tem mãe.]

Anderson Augusto/Flickr.com

Ontem falei com o vizinho da casa ao lado, não sabia que ele era vesgo. Ficou irritado quando fixei meu olhar no dele, para entender melhor aquela vesguice toda. Fui avisá-lo que uma moça havia procurado por ele à tarde, e como ele não estava, ela bateu aqui em casa, É ali que mora o Artur? Fiquei sem graça de responder para a moça das botas vermelhas. Eu não tinha a menor ideia do nome do vizinho. Embora há anos ele morasse ali.

Mudou-se para a nossa rua no dia em que tia Tetê morreu. Era um domingo frio de agosto, um entra-e-sai em casa o dia inteiro, gente que vinha saber como foi. E as únicas palavras do novo vizinho naquele dia foram para o papai: Animada, a sua casa. Eu tinha oito anos e já podia participar das conversas dos adultos. Pelo menos, da maioria. Tia Tetê morava conosco desde que tio Jaime enlouquecera. Ele cismara que ela queria envenená-lo, e então decidiu que agiria antes. Vamos ver quem morre primeiro? – ele passou a dizer todos os dias. Meu pai não se conformava em ter que internar o único irmão. Naquele final de semana, a tia fora com uns amigos para a praia. Tia Tetê não era acostumada com o mar. Distraiu-se. Acharam seu corpo, inchado e azul, dias depois. Lembro-me de ter perguntado se ela engolira muitos peixes, para ter ficado daquele jeito.

Você é o Artur?, perguntei assim que ele abriu a porta. Já fui explicando, a moça das botas. Ele encostou a porta atrás de si, como se não quisesse que eu visse lá dentro. Como não a fechara direito, espichei o olhar. Apenas um piano encostado à parede. E mais nada na longa sala com piso de tacos. Aqueles tacos antigos. A moça ficou de voltar, avisei. Ele agradeceu, entrou. Não perguntou meu nome. E eu não entendi como nunca ouvira som de piano algum vindo de sua casa naqueles seis anos.

Um ano depois de tia Tetê, foi a vez do tio Jaime. Ligaram de madrugada em casa. Meu pai sentou-se de pijama na poltrona e chorou. E no dia em que foi buscar as coisas do tio no asilo, chorou de novo. Dois ternos, sete pijamas, um par de chinelos, muitas meias e uma bíblia com metade das páginas arrancadas. Um funcionário contou que antes de morrer o tio cantava sem parar, numa voz miúda:

A canoa virou

Por deixar ela virar

Foi por causa da Tereza que não soube nadar

Se eu fosse um peixinho e soubesse nadar

Eu tirava a Tereza lá do fundo do mar

Hoje acordei bem cedo. Artur era seu nome, então. Artur era vesgo, agora eu sabia. E tinha um piano. Pela manhã, estudei na sala, em frente à janela. Ficaria de plantão, caso a moça voltasse. Depois do almoço, apanhei meus livros e saí. A casa de Artur estava silenciosa e fechada, como sempre. Assim que fechei o portão, um carro estacionou em frente à sua casa. Era a moça. Desta vez, com brilhantes botas pretas. Carregava com dificuldade um pequeno aquário embaixo do braço. Na outra mão, pude ver um saquinho plástico com dois peixinhos dentro. Ela me viu, sorriu e tocou a campainha com o cotovelo. Acenei e apertei o passo. O professor da primeira aula não deixa ninguém entrar na sala depois dele.

David Yerga, acrílico s/tela, Flickr.com

Hoje vi uma foto do Bento XVI. Não tenho intimidade com o papa. Mas olhei seus cabelos brancos tão penteados e notei seu olhar, estranhamente não-angelical. Fiquei matutando, enquanto apanhava uma maçã na fruteira da cozinha. Maçã gorda, suculenta.

Como será a vida do papa, além da eterna rezação? Será que ele gostaria de sair do Vaticano sozinho, ir a uma padaria e tomar um café, sem ter que abençoar meio mundo pelo caminho? Será que o papa torce para algum time? E se o time dele vai para a final, no grande dia ele põe a camiseta por baixo da túnica, troca a mitra pelo boné e grita gol? Será que o papa xinga quando bate o dedinho do pé na quina da parede? Porque isso acontece com todo mundo. Não vai me dizer que com pontífices é diferente.

Será que o papa morre de vontade de sentar em frente ao mar, só de calção? Papas parecem ser feitos apenas de cabeça e mãos – as mãos que acenam para todos e para ninguém –, com longas e amplas vestes a encobrir o nada que as une. Como serão seus pés?

O que tenta o papa no pecado da gula? Um bom espaguete, eu arriscaria. Daqueles com bastante molho, com direito a passar o pãozinho no que sobrou dele depois. Iguais aos que minha mãe fazia. Será que o papa lambe os dedos?

Saberá o papa todos os segredos que a igreja católica guarda a sete chaves? Os mistérios de Fátima, as verdades sobre outros planetas, as revelações sobre o final dos tempos. E, se sabe, será que se assombra?

E amigos, será que o papa tem? Desses que a gente telefona quando a tristeza vem. Desses de conversar por horas. E quando a conversa termina, já se sente bem melhor. Quem é que dá colo ao papa, quando ele precisa? E ele deve precisar, vez por outra, como todo mundo. Para quem o papa liga quando quer prosear? Quem ele chama para um chá, não por protocolo, mas por saudade?

Para quem o papa dá seu primeiro bom dia, todos os dias? Para o amigo mudo na cruz que não pode sequer lhe dar um abraço?

Será que o papa já teve um grande amor? Já terá sonhado com uma casa grande (menor que o Vaticano, claro), filhos, cachorro, férias de verão nas montanhas?

Será que o papa deseja, de vez em quando, ser apenas um anônimo na multidão, para poder ir ao cinema sossegado?

Quais músicas será que o papa gosta, além da Ave-Maria? Será que ouve, secretamente, Rolling Stones? Já terá ouvido Tom Jobim? O que, cá entre nós, talvez tenha sobre os fiéis o mesmo efeito da Ave-Maria.

É a última mordida na maçã. Seu bagaço, já amarelado, é a prova da missão já cumprida do fruto. Sou apanhada pela dúvida entre pensar se a figura mítica do nosso imaginário é aquilo mesmo que enxergo na fotografia, ou se é tão-somente um personagem construído, assim como o Homem-Aranha. Ou a Branca de Neve. E estes, noves fora a fábula que os envolve, ao que tudo indica tiveram seus amigos.

Betsy Jean/Flickr.com

Dobrou o papel e o colocou dentro do caderno azul, já cheio de papéis. Apanhou o telefone na bolsa, fez que ligaria. Parou no meio. Repousou o telefone sobre a mesa. Olhou para ele como quem pedisse sua opinião: Ligo ou não? Mas o telefone móvel, agora imóvel, nem prestara atenção à pergunta.

Conferiu o lanche que acabara de chegar. Sim, todas as fatias de tomate estavam lá. O queijo, derretido à perfeição. Tudo certo. Mas para ela ainda faltava uma coisa. Olhou novamente para o telefone. Passou os dedos sobre ele: Ligamos? Desta vez o telefone deve ter sugerido: Melhor não. O que a fez suspirar longamente. O melhor a fazer, então, era devorar o lanche.

Que falta ela sentia de um bem, que falta lhe fazia um xodó. Mas não seria bom ligar, o telefone já a aconselhara. Chamou o garçom. Precisava beber alguma coisa.

O rapaz, elegante em seu uniforme novo, já a observava desde sua entrada. E viu ali sua primeira – talvez única – oportunidade de conversar com a sua bela da tarde. Vestiu seu melhor sorriso, voou em sua direção e pousou ao seu lado:

– Pois não?

– Uma água, por favor.

– Com ou sem gás?

– Com.

– Gelo e limão?

– Pode ser.

Ele, que não tinha ninguém e levava a vida assim, tão só. Se ao menos ela lhe notasse. Ela também não tinha ninguém, e tudo o que queria era um amor que acabasse o seu sofrer. Mas ela tinha o telefone. Que não a deixava ligar, talvez sabendo da desilusão por vir. Era um smartphone.

Trêmulo, ele lhe serviu a água. Buscou seu olhar. Ela ajeitava novamente os papéis no caderno azul. Para ela, ele era invisível. Ela só queria um xodó para si. Que fosse assim, do seu jeito.

Ela bebeu a água com o olhar perdido e tristonho. Pagou a conta, apanhou a bolsa e saiu. Mas esquecera algo sobre a mesa.

Enquanto ele recolhia sua louça, quase feliz só por tocar no copo em que ela tocara sua boca, não acreditou no que vira. A felicidade existia, então. Guardou o telefone junto ao seu peito, e esperou a tarde inteira que ele tocasse. Afinal, ele também andava querendo alguém que alegrasse o seu viver.

Foto: Rakka/Flickr.com

Nome é como tatuagem. Parte indissociável de nós, não sai mais. Tenho nome, logo, existo. Dizem que escolhemos nosso nome antes mesmo de nascer, aqueles papos transcendentais. Mas isso é outra história.

O meu é Silmara. Conta a lenda que Seu Antonio e Dona Angelina planejaram os nomes dos filhos que pretendiam ter: se menino, Marcos. Se menina: Marcia e Mônica. Tudo com ême para ficar bem bonito. Eu seria a Mônica. (Não sei se fiquei sugestionada com a história ouvida na infância, mas até hoje esse nome é muito familiar. Combinaria comigo, com meu sobrenome. Questões transcendentais, quem sabe.)

Mas uma tia próxima teve seu filho um pouco antes e o plano foi por água abaixo: o primo foi batizado Marcos. Frustrados, meus pais resolveram mudar tudo. E adeus, Mônica.

Para ser sincera (meu sobrenome não deixa outra alternativa), não vejo muita graça no meu nome. Às vezes me pego pensando na possibilidade do passado, não fosse a tia. Nunca vejo meu nome naquelas listas imensas de nomes para bebês. Já li tantos significados diferentes, que concluí: ele não significa nada. Foi inventado. E ele também já foi motivo para uma, digamos, saia justa.

Quando criança, eu gostava de brincar, secretamente, que tinha outro nome. Havia uma personagem de novela chamada Noeli. Esse nome sim, para mim era transcendental: No-e-li. Fiquei tempos desejando me chamar Noeli. Em vez de um nome próprio, eu queria um emprestado. Pois não havia, no mundo inteiro, nome mais lindo. Mas a gente cresce.

Nomes nos acompanham a vida inteira, feito alma. São a marca indelével de nossa passagem por este planeta. Podem indicar de onde viemos. E também podem enganar meio mundo. O nome de um dos maiores gênios da música popular brasileira, o violonista Baden Powell, já me pôs encafifada. Não tem muito tempo que descobri: brasileiríssimo, e carioca. Resultado da obsessão de seu pai pelo general Robert Baden-Powell, fundador do escotismo. Ficou Baden-Powell de Aquino. Não preciso ir muito longe. Cresci chamando um tio de Paulo. Já adulta, descobri que seu nome é Francisco. Coisas dos Franco.

O assunto é vastíssimo. Dar nome aos bois não é nada fácil. Tem os nomes esquisitos por definição, bizarrices perpetuadas pelos cartórios. Tem os nomes curiosos. Tem os apelidos, tema que dá pano não só para manga, mas para um traje completo. Tem gente que muda de nome, papel passado e tudo. Tem os sobrenomes, espécie de pai e mãe do nome. Tem os pseudônimos. É assunto que não acaba mais. E sobre ele todo mundo tem uma boa história para contar.

Despeço-me em nome de Morfeu, deus grego dos sonhos. É uma da manhã e ele me aguarda – espero – de braços abertos.

Foto: The Funky Man/Flickr.com

A esperança e sua prima, a confiança, tentam, todos os dias e de várias formas, nos mostrar coisas que precisamos ver. Elas são boas nisso. Nós é que fingimos não ver. Estamos ocupados demais.

Quando eu era criança, a mulher das cocadas apareceu na minha vida. Só mais tarde – algumas décadas depois – eu entenderia a lição. Agora é a vez da mulher dos travesseiros me mostrar coisas sobre a confiança, mesmo tema da mulher do passado. Embora na lição do presente a protagonista tenha sido justamente a falta dela.

Ontem fui ao shopping center. Visitar a gata de minha irmã, internada na clínica veterinária que existe lá. Gatos gostam de visitas. De volta ao estacionamento, uma mulher em um carro parou ao lado do meu e me chamou. Condicionada no medo urbano das ameaças visíveis e invisíveis, tive certeza: assalto. Ou, na melhor das hipóteses, estaria prestes a cair em um golpe. Tentei me lembrar dos avisos recebidos por email sobre as novas táticas dos bandidos, quem sabe eu não descobriria tudo de imediato e me livraria? (Shoppings são microuniversos. Tudo que acontece nas cidades se reproduz ali dentro. O que, às vezes, não é uma boa notícia.)

A mulher desculpou-se pela abordagem e começou uma história lamuriante. Estava sem um centavo e sem combustível para voltar para casa. Paralisada, eu não sabia se entrava correndo no carro, se lhe dava ouvidos, ou se gritava pelo rapaz da segurança que passava ali perto. Inconscientemente, escolhi ouvi-la. Como quem aguardasse a “ação”, olhei em volta para saber de onde viriam os meus algozes. Ou a que horas seria anunciado o golpe.

Fico sabendo que a mulher mora em Americana, cidade vizinha de Campinas. Embora eu tenha achado sua história meio estranha – como se todos no planeta tivessem talão de cheques e cartão de crédito –, continuei a ouvi-la. Ela contou ainda, claramente envergonhada e constrangida, que vendia travesseiros e me ofereceu um em troca de ajuda.

Foi quando o medo, num súbito, se instalou. Cortei a conversa: não poderia ajudá-la. Entrei em meu carro, travei as portas e saí. Quando avistei a mulher indo em direção à saída do shopping, percebi: não havia assalto nem golpe algum. Pus-me em seu lugar. A que ponto chegamos, meu Deus.

Tive pressa: será que haveria tempo de consertar a injusta desconfiança? Abri a bolsa, apanhei a carteira, conferi quanto havia ali. Segui a mulher. Buzinei, ela não me ouviu. Ela saiu do shopping, continuei a segui-la. Consegui alcançá-la, abri o vidro, fiz sinal e pedi que ela parasse. Ela me reconheceu. Perguntei: “Quinze reais ajudam?”. Ela abriu um sorriso, como quem estivesse na iminência de ganhar mil vezes aquilo. (O valor dado ao dinheiro depende do que vamos fazer com ele. E é proporcional ao quanto precisamos dele.)

Acabei ganhando um bonito travesseiro. Estampado com borboletas, num claro sinal de que a vida se renova e as primas – esperança e confiança – jamais desistirão de nós. Dormirei com ele hoje. Quem sabe não é um travesseiro mágico, que transforma em realidade os sonhos sonhados sobre ele? Além dele, e mais importante, levei para casa um dos agradecimentos mais sinceros de toda minha vida. E, assim como a mulher das cocadas, provavelmente não verei mais a mulher dos travesseiros. (Por que será que essas pessoas aparecem e desaparecem?)

Poderia ter sido um assalto, um golpe? Sim, poderia. Afinal, quantas pessoas não caem, todo santo dia, nas armadilhas?

Ainda não sei responder à minha própria pergunta lá no finalzinho da história das cocadas. Mas é preciso acreditar que é possível, sim, resolver a parada sobre a pós-moderna falta de confiança entre as pessoas. Ouvir mais o coração ajuda. Ele sabe o que diz. Nós é que não entendemos mais sua língua. Hora de reaprender a conversar com ele.


Bérenger Zyla - Flickr.comBérenger Zyla/Flickr.com

Responda rápido: a campainha toca, você atende, uma mulher que você nunca viu lhe oferece cocadas. Você compra?

Em dois mil e nove: nunca.

Em mil novecentos e setenta e pouco: se a iguaria parecesse boa, sim.

Foi assim que na Mooca dos imigrantes italianos, numa pequena vila com quatro casas, a mulher das cocadas ganhou sua freguesa-mirim. Que se lembraria dela até hoje, embora não soubesse seu nome, muito menos de onde vinha.

Mas sabia que vinha. Geralmente uma vez por mês, a mulher aparecia com seus doces. Uma senhora negra, arredondada, de bochechas sorridentes. Gentil. Quarenta e poucos anos, no máximo. Fazedora da cocada mais gostosa que já comi em toda minha vida. Cremosa, açúcar na medida certa – nem a mais, nem a menos. Flocos de coco num mar de leite condensado. Firmes e bem modeladas. Vá lá, há certa dose de nostalgia nisso tudo. Talvez fosse uma cocada comum. Mas o sabor dela e a imagem da mulher ficaram guardados na memória da menina de seis anos, naquele compartimento que costuma aumentar tudo: os sentimentos e as sensações das coisas boas e das ruins. E quando tem açúcar na parada, a lembrança fica cristalizada, eterna.

Na primeira vez minha mãe comprou só algumas. Para experimentar, explicou. A mulher prometeu voltar para saber se havíamos gostado. Nas próximas vezes, os pedidos aumentaram. Até que um dia não houve mais pedido. A mulher desaparecera. Ficamos órfãos da cocada.

A cocada branca da mulher negra ficou para trás. E o tempo trouxe outra dúvida: o que foi feito da confiança, esse sentimento que, ao lado da generosidade e da gentileza, movem a humanidade? Minha mãe olhou nos olhos da mulher, e a opinião saiu na hora. Ela não prestou muita atenção na maldade e no perigo que poderiam estar escondidos, disfarçados na forma de uma senhora bondosa e risonha. E deu certo.

Hoje só compramos alimentos que tenham nome, sobrenome, endereço, informação nutricional e prazo de validade. Sabe-se lá como é que a mulher fazia suas cocadas? Não importava, essa era a verdade. A cara dela era boa. A da cocada, melhor ainda. Pronto.

As relações pareciam mais simples, antigamente. Binárias: sim ou não. Longe do meio-termo medroso e cheio de dúvidas traduzido no “talvez”, “depende”, “mas e se” de agora. Sim, a nostalgia é uma forma de homenagem ao passado.

Mas confiança não deveria ser coisa do passado. Me diz: como é que a gente resolve essa parada?

Neuro74/Flickr.com

Caros

Vamos ser sinceros: bonitos vocês não são.

Pés são como irmãos gêmeos. Brotaram juntos, nasceram no mesmo dia e hora. Carregam o estigma da alma idêntica, como aqueles bebês espelhados nos carrinhos duplos: mesmas meias, mesmos sapatos. Como é que vocês poderiam ter desenvolvido suas próprias identidades desse jeito? Logo vocês, que dão nome a tanta coisa. Pé de vento. Pé de moleque. Pé de chinelo. Pé direito. Pé de galinha. Pé de pato. Pé de meia. Toda fruta tem seu pé. Toda serra também. Tem o pé na estrada. E tem o pé na cova.

Por muito tempo eu tive vergonha de vocês. Hoje me envergonho da vergonha. Aprendi a gostar de vocês. Isso não acontece entre as pessoas? Pois então. Às vezes cismamos com fulano, o ignoramos durante anos, décadas, uma vida inteira. Para, num belo dia, constatar que não era bem assim.

Vocês são iguais aos pés de minha mãe. Pés gordos, de dedos pequenos. Exceto o fato de que os dedos dos pés de Dona Angelina, vistos de baixo, pareciam balas de coco. Os seus dedos não se parecem com bala nenhuma.

Seus dedões sempre foram esquisitos: as unhas deles são voltadas para fora, como plantas buscando o sol. Uma vislumbra eternamente a minha esquerda. A outra, minha direita. Dedões paralelos, que jamais se encontrarão no infinito.

A primeira vez que tirei os sapatos na frente de um namorado foi devastador. Descalcei-me na velocidade da luz, e enfiei vocês dois embaixo da maior almofada que havia no sofá. E lá vocês ficaram, exilados, o filme inteiro.

Um dia, uma colega de trabalho, que tinha os pés mais feios do mundo, apareceu com uma sandália. Aquilo não eram pés, eram mãos. Os dedos, longuíssimos e finos, pareciam tentáculos. Fui correndo para o banheiro, tirei as botas, arranquei as meias e fiquei olhando para vocês. Tão branquinhos. Ali decidi: se ela podia, eu também.

Comecei a procurar algo para representar a grande virada em minha vida. Mas que não fosse tão radical. Afinal, meus queridos, eram anos e anos de reclusão. Foi difícil encontrar um modelo que atendesse às exigências. O namorado não compreendia como eu poderia pedir nas lojas um sapato aberto que fosse o mais fechado possível. Resultado: acabava saindo com um abotinado na sacola. Mais um. Para desespero de vocês.

Mas quem diria. Hoje eu gosto, e muito, de vocês. Continuam branquinhos. Capricho no filtro solar, para que continuem assim. Soubesse antes que uma pele branca é incrivelmente mais chique e saudável que uma esturricada, e eu não os teria submetido a tanto sofrimento na distante adolescência. Coca-cola, óleos… tudo pelo bronzeado. Que jamais aconteceu: a genética deixou claro quem manda no pedaço.

É hora de pedir perdão aos dois. Pela monotonia das botinhas, uma espécie de cativeiro para vocês. Por vocês não saberem, por quase três décadas, o que era um podólogo. Pela falta de carinho e atenção. Pelos bicos finos, anos a fio. E, mesmo depois da nossa reconciliação, pelos saltos imensos em pleno nono mês de gravidez.

Hoje, metidos nas rasteirinhas abertíssimas que surpreenderiam o ex-namorado, ou mesmo nas botas de bico arredondado e quase sem salto que lhes dou de presente, vocês parecem muito mais felizes. Metade dos meus cremes são para vocês. Vocês passeiam descalços, até mais do que deveriam. Aos trinta e nove anos, pintei suas unhas de vermelho – fato inédito e histórico – e vocês vibraram. Vocês padecem, ainda, da maldição dos gêmeos, mas o que se há de fazer.

Nada como nossos olhos (aliás, com esses eu também preciso ter uma conversa) para nos fazer enxergar a beleza de outra forma, dar novo sentido às coisas.

Recentemente, fiz em um de vocês uma tatuagem. Um sol, para que meu caminho seja sempre iluminado. Mas o que deveria representar o senhor dos astros ficou parecido com uma aranha. Os raios viraram as perninhas. O desenho é bonito, mas se visto, no máximo, a trinta centímetros. Como as pessoas geralmente são mais altas que isso, preciso, com frequência, dizer do que se trata. E vocês concordarão comigo: explicar tatuagem é o fim da picada.

É bom ter feito as pazes com vocês, ainda que tardiamente. E notar o quão nobres vocês são, relevando a rejeição e o esquecimento do passado, compreendendo a que ponto chegam as esquisitices femininas.

Nem os pés da Cinderela, com seus sapatinhos de cristal, seriam tão charmosos.

Um beijo em cada um.

-

-

(Gosto mesmo de cartas. Só aqui escrevi, além desta, esta, esta, esta e mais esta)

Pink Sherbet/Flickr.comFoto: Pink Sherbet/Flickr.com

Está no dicionário:

Tristeza: [Do lat. tristitia.] S.f. 1. Qualidade ou estado de triste. 2. Falta de alegria. 3. Pena, desalento, consternação. 4. Aspecto revelador de mágoa ou aflição.

Mas a tristeza, isso a gente sabe, também é quando o olhar desbota, a voz perde a força, o andar fica pesado e impossível. É quando a cabeça não tem fome de nada, saciada no silêncio. Ou ainda: é quando o rio que corre lá dentro da alma transborda e é preciso escoar de algum jeito. E o jeito são as lágrimas.

A tristeza é, na verdade, uma moça. Não muito bonita. Um pouco feia. Ela tem cabelos longuíssimos e sem vida, que cresceram sem que ela percebesse. Há anos estão penteados do mesmo jeito. Sua roupa é bem feita, mas não tem cor. As mãos são mornas, melífluas, de poucos movimentos e sempre vagarosos. Finos e magros, seus pés cabem em qualquer sapato de qualquer tamanho. Sua boca é lilás, como a boca dos mortos. Fala pouco, e quando o faz as palavras já saem vaporizadas, flutuando no ar antes de cairem ao chão, dissolvidas em seus significados.

Apesar disso, a Tristeza mora em uma casa acolhedora, com perfume de baunilha e cortinas rendadas da cor do âmbar. Há sempre música no ar, e ela sempre sabe que música colocar. Na entrada existe um daqueles tapetinhos escrito “bem-vindo”, próximo à porta com uma guirlanda em formato de coração. Ela sabe que receber bem é importante, assim as pessoas ficam.

A Tristeza tem muitos amigos. Mas a Tristeza vive triste, porque eles só a visitam quando as coisas não vão bem, e partem assim que se sentem melhor. O que não faz da Tristeza uma moça solitária. A Tristeza tem sempre uma companhia.

A Tristeza, moça meio sem graça, tem um desejo. A Tristeza quer casar. Quer encontrar um amor. A Tristeza quer ter muitos filhos e, no fundo, não deseja que eles sejam parecidos com ela. Porque a Tristeza precisa da alegria à sua volta, assim o mundo lhe parece melhor.

Talvez seja como diz aquela canção: “A tristeza tem sempre uma esperança, de um dia não ser mais triste não”.

Tristeza e eu nos encontramos de vez em quando. A última foi quando Léo se foi, ela me pegou no colo enquanto eu chorava. Léo, em toda sua doçura, por certo já tinha se encontrado com ela naqueles dias, sabendo que não descansaria mais sob a sua jabuticabeira. Os gatos sabem.

Mas a Tristeza. Ela quer casar. Quer encontrar alguém que desalinhe seus cabelos e a faça falar pelos cotovelos. Que a leve para morar numa casa nova. Tristeza se mudará, e não deixará o novo endereço para ninguém. Apenas um recado na porta da velha casa, no lugar da sua guirlanda de coração: ”Tristeza não mora mais aqui“.

Dona Balbina/Arquivo pessoal

Minas Gerais é terra de gente rara, já me disseram. Que, além de rara, costuma ser preciosa como tudo o que dela já se tirou. Terra de gente colorida. Musical. Charmosa. Efervescente. Original. Generosa. Refinadamente simples.

Dona Balbina é da turma dos generosos. Vó Bina nasceu em 1891, e não teve vida nem um pouco fácil. Viúva aos vinte e sete anos, costurava para a vizinhança sob a parca luz de uma lamparina. Com o que ganhava, alimentava os filhos. Que eram muitos. Mas ela sempre tinha em casa algo para receber as visitas. Geralmente um doce, feito por ela no maior capricho.

Vó Bina conhecia todas as plantas, ervas e segredos da natureza. Dizem que ela fazia um chá para bronquite feito com uns ingredientes esquisitos, que era tiro e queda. Conta-se que um tio, que sofria com a doença, mas jamais aceitara o remédio por achá-lo difícil demais de engolir, nunca se curou. Ao contrário dos demais, que enfrentaram a panacéia numa (quase) boa.

Pena que ninguém se lembrou de anotar seus conhecimentos. Agora é esperar que Vó Bina volte a este planeta um dia (se é que já não está por aqui), e que tenha guardado essa sabedoria naqueles arquivos mentais que a gente carrega de uma vida para outra.

Pelo menos uma vez por mês, Vó Bina gostava de preparar suas ‘quitandas’, como se dizia, para levar a uns moços muito especiais. Eram os presos da cadeia de Pouso Alegre, que nesse dia podiam saborear os pães, os sequilhos e o café fresquinho daquela mulher que, de verdade, se importava com eles. Gentileza improvável nos dias de hoje. Vale repetir: a vida da Vó Bina não tinha regalias. Questionada sobre porque repartia suas coisas quando mal as tinha, ela respondia com uma sabedoria singular: “Assim Deus manda mais”. E para entender mesmo o que a movia, o que ela ganhava com esse gesto, a gente precisa compreender dois fundamentos: um é a compaixão. O outro é a generosidade.

Naquela cadeia, os presos não passavam de uns vinte homens, postos ali por conta de delitos quase prosaicos, como roubar galinhas ou dar uns tapas nos desafetos. Uma categoria de detento que habita nosso imaginário e a gente gosta de pensar que existe: os bonzinhos.

Os presos da Vó Bina não ficavam à toa. Como deveria de ser, eles trabalhavam. Fabricavam brinquedos em madeira – carrinhos, vassourinhas, bonecas – que depois eram vendidos na cidade. No dia da tal visita, uma das netas ia junto. Era a menina quem fazia questão de ir, e nisso havia um interesse: ela sempre faturava um brinquedo.

Eu não a conheci. Dona Balbina é trisavó dos meus filhos. Enquanto escrevo, olho para seu retrato, tão antigo quanto belo. Penso no dia em que ela tirou essa foto, onde seria esse cenário, em que estaria pensando? Faço uma reverência à sua compaixão, ao seu interesse pelos que tinham menos ainda que ela, sequer a dignidade. E outra reverência à sua generosidade: mesmo sem ter, Vó Bina dividia o que tinha. E justamente por viver dividindo, recebia da vida sempre o que lhe bastava.

Seria bom sentar-me ao seu lado no velho fogão à lenha que não existe mais, e tomar um café com ela.

Pink Sherbet/Flickr.comPink Sherbet/Flickr.com

Neste inverno, quando as cores mais sóbrias e tristes parecem querer dar o tom, nas roupas e nos pensamentos, surpreenda. E faça como manda aquela música: be sure to wear some flowers in your hair.

Mesmo que você não esteja indo a São Francisco, mas indo trabalhar. Mesmo que você vá ficar em casa. Mesmo que custe uns minutinhos a mais na frente do espelho: coloque algumas flores em você. Pode ser um brinco. Um lenço. Um anel. Uma blusa. Uma bolsa. Qualquer coisa com flor.

Mesmo que as semanas de moda tentem lhe convencer do contrário, e a despeito da temperatura lá fora despencar para os quinze graus, estampe-se de flores. E, se não estiver geando, deixe à mostra aquela flor tatuada no ombro, para espanto dos seus colegas de escritório que nem sabiam que você tinha uma.

Mesmo que chova. Mesmo que o carro tenha deixado você na mão e você vá trabalhar de ônibus. Melhor assim: mais gente verá sua flor. Mesmo que os ônibus entrem em greve e você tenha de ir a pé. Aí você vai colhendo flores pelo caminho para enfeitar a sua mesa.

Mesmo que as coisas, no geral, não estejam do seu agrado. Mesmo que seja a centésima vez que você diz para si mesma que vai procurar outro trabalho, mudar de profissão, terminar com o namorado, falar sério com o marido, ter mais paciência com os filhos. Que vai começar a caminhar. Que vai se alimentar melhor. Que vai colocar mais vestidos no seu guarda-roupa. Aproveite e comece por um florido.

Mesmo quando os cinzentos tentarem estragar seu dia, faça como o doce touro Ferdinando: prefira sentir o perfume das flores a entrar na briga. (Só tome cuidado com as abelhas.)

Mesmo que você use todos os seus trocados, compre todas as flores daquele senhor no sinal. Depois, dê de presente para seus vizinhos. Pois gentileza gera gentileza, alguns sabidos já notaram.

Empunhe sua flor e mostre que você está, sim, entendendo muito bem o que acontece no Irã, no Sudão e, principalmente, na sua cidade. E mesmo que para alguns soe como cafonice nostálgica e piegas, mostre que sua Flower Power está mais viva do que nunca.

Mesmo que você não tenha vivido os anos sessenta, mas seja filha daquela geração, jogue o meio tom e a sisudez para escanteio, e assuma a cor por inteiro. (Até porque, o mundo, hoje, está a cara de quem nasceu naqueles anos que prometiam tanto.)

Não tenha medo: vá de flor.

Existem pessoas que estão entre nós, mas que ninguém vê. Pessoas que movimentam a economia do país, pagam impostos, prestam serviços. Tomam remédios, fazem compras, comem, dormem. Perdoam, ouvem música, consomem. Amam, enlouquecem, matam, arrependem-se. Assistem TV, usam telefone celular e navegam na internet. E mesmo com tanto movimento, ninguém as vê.

Trata-se do Homem Invisível.

É o jardineiro, o faxineiro, o segurança, o porteiro, o ambulante, o repositor do supermercado, o manobrista, o pedinte – campeão da invisibilidade; a diferença é que este não paga imposto –, o controlador de tráfego aéreo, o fiscal, o tratador de animais. A lista dos invisíveis é imensa. Eles não vivem escondidos, tampouco são subterrâneos. Mas é possível passar o dia inteiro sem notá-los. Ninguém os percebe. Ninguém quer saber deles. Mesmo assim, num paradoxo difícil de engolir, eles são indispensáveis.

Ao contrário de seus colegas das histórias em quadrinhos, o Homem Invisível não tem superpoderes. Na grande maioria das vezes, ele tem poderes de menos. Vivem em outro enquadramento, pulverizados por aí. Mas prestem atenção: a invisibilidade deles é um estado. Não é uma condição permanente. Depende dos olhos de quem os vê.

***

Naquela manhã, o Homem Invisível, farto de sua invisibilidade, rebelara-se. Passara os últimos dias planejando o que poderia significar a grande virada na sua vida: um assalto. Determinado e crente de sua condição favorável – afinal, quem o veria?, lá foi ele.

Porém, algo dera errado. Sua identidade, longe de ser secreta, fora descoberta. E, comprovando que conforme a ordem do dia a invisibilidade pode ser meramente um estado, agora ele era o Homem Visível. Identificado, fotografado, entrevistado, questionado, indesejado, excomungado, odiado.

Hoje ele vive afastado e isolado em uma cela, junto a outros homens. Todos invisíveis, de acordo com os nossos olhos bem treinados.

Renato Subtil/Flickr.com

Caro Roberto

Você nem imagina o que eu vou lhe contar. Mas foi com você que aprendi: de vez em quando, somos é muito idiotas. Digo ‘aprendi’ mas, na verdade, o processo foi outro. Mais próximo de sacar, de dar-se conta, do que de aprender propriamente dito. Você entenderá, eu sei.

Primeiro, é preciso lembrá-lo: nós nos conhecemos. Mesmo que você, assim de prontidão, não se recorde.

Foi assim: há alguns anos, um trio, o Hot Jazz Club, lhe chamou a atenção. Os rapazes eram tão bons que você não resistiu ao som deles. A história deles começara em um restaurante de uma rede de hotéis aqui em Campinas. Em 2004 eles gravaram seu primeiro, único e ótimo CD, que trazia uma faixa assinada por você – “Pruzé”. Foi durante o lançamento do CD, no resort da rede, onde eu trabalhava, que nos conhecemos. E digo: foi um prazer. Não é todo dia que a gente conhece um dos inventores do mais importante movimento da música brasileira.

Cinco anos se passaram, e até hoje sinto uma pena danada de não ter tido a coragem de quebrar um pouco os protocolos e abusado de você naquele dia. Mesmo sem idade para ter tanta saudade, mas fã confessa da época mais cheia de bossa que este país já teve, eu seria capaz de ouvi-lo por horas contando as histórias da Copacabana dos anos 50, dos lendários encontros no apartamento da Nara Leão, do barquinho que deslizava no macio azul do mar carioca. Mas a etiqueta corporativa não permitiria o que poderia parecer tietagem pura, e eu tive de me contentar com o básico. Fazer o quê.

Mas olhe só: foi em meio ao básico que me dei conta da coisa de ser idiota. Paradoxalmente, sem absolutamente nada a ver com música. Enquanto você, eu e mais algumas pessoas almoçávamos, você comentara que, em alguns dias, embarcaria para a Europa, onde se apresentaria num festival. Curiosa, eu lhe perguntei que festival era, e você respondeu assim: “Não sei. Me chamaram para tocar, e eu vou”.

Sempre lanço mão dessa história, emblemática e repleta de significados, para ilustrar o que acabei extraindo dela. A ideia de você não saber direito aonde iria tocar, mas iria porque seu negócio é tocar, soou fantástica, para dizer o mínimo. Sua resposta, suave e sofisticada assim como a bossa-nova, deu a dica (embora certamente não tenha sido sua intenção): preocupar-se demais em saber e conhecer tudo o que nos rodeia, o tempo todo, pode ser paralisante. Tanto quanto querer o roteiro das coisas do início ao fim, saber muito da vida, compreender tudo que existe… Não pode haver tanto benefício na informação total. Quem vive assim, no final das contas, passa a vida com medo, se poupando, sem ousar, sem arriscar, sem tentar. Sem pagar para ver.

Posso estar exagerando o episódio. É claro que em algum momento que antecedeu aquela sua viagem as informações sobre o tal festival lhe interessaram. Porém, talvez mais pela logística que por outra coisa. E este seria o segredo.

Tanto fazia o nome do festival, ou quem estaria lá. Isso não era o mais relevante. O relevante, de fato, era que você iria tocar, e isso já era motivação suficiente para um músico. Assim como para um bailarino o que conta é dançar. Para um cantor, cantar. Para um escritor, escrever. Para um costureiro, costurar. Para um cozinheiro, cozinhar. Para um desenhista, desenhar. Para um pedreiro, construir. Às vezes, as perguntinhas ‘como’, ‘porque’, ‘onde’, ‘a que horas’, ‘com quem’ viram coadjuvantes na compreensão de algo que é mais simples do que se pinta.

Não falei? Você nem imaginava que eu lhe diria isso.

Um abraço, Menescal.

(Parece que isso vive acontecendo com ele. Ele respondeu, contando que no ano passado foi à Austrália e, como em 2004, só lá ficou sabendo onde tocaria. Nada menos que na Opera House.)

P. tem cuidado muito dos santos, ultimamente. Os santos da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, que há tempos precisavam de um carinho. A pequena igreja, feita de taipa de pilão e tombada pelo patrimônio histórico, fica escondidinha no centro de São Paulo e agora está sendo restaurada. Era ali que, antigamente, os escravos condenados davam uma passadinha para rezar, antes de serem enforcados em praça pública, ali perto, onde hoje fica o Largo da Liberdade. Daí o nome da igreja. Pois tudo o que aquelas pessoas poderiam pedir, àquela altura do campeonato, era uma boa morte.

Eu a conheci no final dos anos oitenta. P. é uma mulher bonita, alta, magra, esguia, criativa e inteligente. Naquela época, sem noção de sua beleza (ou talvez ciente demais), se escondia nos jeans, camisetas, sapatos sem salto e na ausência do batom. Mesmo assim, chamava a atenção por onde passasse. P. cozinhava, costurava, tricotava, gargalhava, dançava. Dona de um fino senso estético sobre todas as coisas, conversava coisas incomuns e amava intensamente seus amores. Ficou viúva. No velório de T. eu a abracei forte. Seu olhar pedia que eu lhe dissesse o que seria dela daquele dia em diante. Não pude atender minha grande amiga naquela hora: eu não sabia.

O ofício de P. é restaurar objetos que já viveram demais, e que precisam continuar vivendo. Para que, de certa forma, eles expliquem nossa vida, de onde viemos e como chegamos até aqui. Sem falar nas histórias que os santos dessa igreja devem ter para contar! Quanto desespero devem ter visto, quanto apelos devem ter ouvido. No entanto, imóveis em sua santice de barro, louça ou madeira, pouco podiam fazer pelos condenados.

P. chegando pela manhãzinha em seu ateliê. Ela diz “bom dia” aos seus santos e se prepara para o trabalho. Um nariz quebrado, um manto puído. Enquanto mexe aqui e ali, vai ouvindo os pequenos e gelados amigos contando coisas do passado. E quando volta para sua casa, à noitinha, certamente chora por tudo que ficou sabendo.

Há nove anos P. e eu não nos vemos. Uns três anos atrás encontrei, por acaso, um endereço seu, perdido na agenda. Escrevi. Ela respondeu, atualizamos a amizade, o carinho, as saudades e as novidades. E mais uma vez nos distanciamos. Agora, vez por outra nos damos um alô.

P. também costuma recolher bichos abandonados. Os mais recentes – uma cadelinha doente e um gatinho – foram resgatados do Centro de Controle de Zoonoses. Um nobre ato de misericórdia, posto que os animais que vão parar lá e não chegam a ser adotados sequer têm uma igreja aonde possam fazer uma última reza antes do sacrifício. Cujo método, tirante a semelhança da crueldade, chega a ser mais moderno que os enforcamentos dos nossos ancestrais.

Semana passada, após um bom período de silêncio e às voltas com a santaiada da igreja, ela me escreveu:

“Imagine você, que eu estava aqui retocando (vamos ser mais técnicas: reintegrando a policromia) e, olhando as mãos da santa, lembrei das tuas: tão branquinhas! Tem até umas manchinhas como se fossem sardas…”

A lembrança, espécie de elogio, comoveu. Eu não tinha noção – embora fosse de se esperar, pois a praia de P. é o detalhe – de que minhas mãos merecessem tal notoriedade. Muito menos tanto tempo e ausência depois.

Acabou que naquele dia fiquei olhando para as minhas mãos mais do que de costume. Tentei me lembrar como elas eram, para entender como elas estão. Ainda são branquelas. Mas nem tanto, o sol campineiro parece mais implacável que o paulistano. O que, nesse ponto, confere à terra da garoa um fator a mais de proteção, ainda que solar. Continuam sardentas. Há nove anos uma aliança vive na mão esquerda, sem ter passado pela direita. Não são mais mãos jovens, com fome de mundo, como aquelas que P. conheceu. Tampouco são as mãos da última vez que nos vimos. Longe de ser santas, elas envelhecem com o resto do meu corpo, no mesmo compasso, nem adiantadas, nem atrasadas. Elas escrevem, desesperadamente escrevem. E hoje já fazem menos sinais feios no trânsito. Sim, as mãos também criam juízo.

Jimmy Joe/Flickr.com

Como sempre, chego atrasada a mais uma invenção tecnológica.

Assim foi com o celular. Antigamente havia lista de espera para comprar um, e isso não é uma piada. Quando chegou minha vez, todo mundo já tinha o seu. Ou porque todos se inscreveram na lista antes, ou porque pagaram uma fortuna para tê-lo de outra forma. O que para mim era o fim da picada.

O primeiro aparelho de DVD foi há menos de dez anos. E através de uma promoção daquela revista famosa: você comprava uma assinatura e o aparelho era o ‘brinde’.

A máquina fotográfica digital só veio quando ninguém em casa aguentava mais carregar o trambolho manual – um excelente trambolho, é preciso registrar -, que precisava estar sempre na bolsa própria, térmica, imensa, pesada, infernal.

Não tenho Wii. Nem BluRay. Nem iPhone. Nem iPod. Nem ‘iSto’. Nem aquilo. Ainda. Mas já tenho um GPS.

Sua chegada em casa me fez concluir que talvez eu esteja ficando velha e chata. Não que não tenha gostado do brinquedo, pelo contrário: adorei. Inexplicável um aparelhinho ser tão sabido. E também tão, digamos, maternal: ao começar o passeio, ele recomenda: Dirija com cuidado! Um dengo.

Minha conclusão parte de uma pergunta: precisamos mesmo desse ajudante no dia-a-dia? Não tenho ideia de quantos GPSs circulam por aí nas mãos de gente comum. A ver pelo preço não é, ainda, item popular. O que não faz tanta diferença; o que me põe a pensar é o conceito que a engenhoca carrega em si. De utilidade e conveniência indiscutíveis, o GPS é ferramenta das mais bacanas para a aviação, exércitos, agricultura, geologia, enfim, em quase tudo um GPS vai bem.

Mas diga lá: o que foi feito do jeito antigo de se chegar aos lugares? Ver o endereço, anotá-lo na agenda, pegar um guia ou mapa, estudar a localização, o trajeto, memorizá-lo ou colocar o guia ou o mapa aberto no banco do passageiro, página marcada, e vamos lá. (OK, o Google Maps é uma mão na roda. Mas usá-lo não nos dispensa de pensar.)

O que foi feito da paradinha no posto de gasolina para pedir uma ajuda ao frentista? A segunda principal função dos postos, depois do abastecimento de combustível, é dar informações sobre endereços. A terceira é trocar o óleo.

O que foi feito dos caminhos novos, eventualmente mais longos ou distantes de qualquer lógica, porém repletos de surpresas, descobertos por acaso?

O que foi feito do erro percebido lá na frente? Ih, era ali que eu tinha que virar.

O que foi feito da eterna guerra dos sexos dentro de um carro? Você não sabe o cami-nhô… lalarilalá…

Com GPS, todo mundo sabe o caminho, sempre. Qualquer desconhecimento fica camuflado, imperceptível. A sabedoria, emprestada, torna-se nossa. A preguiça premiada: Leve-me ali. Assim é fácil.

Eu avisei. Estou ficando velha e chata.

Estação da Estrada de Ferro de Campinas/SP, 1872

Bons ventos me trouxeram a Campinas, no início desta década. Mudança até que simples, posto que São Paulo é logo ali. Mas a proximidade e as semelhanças não me dispensaram de uma fase de adaptação. É que quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi.

No começo eu me embananava com alguns nomes. Quirino, por exemplo. Nunca vi cidade com tanto Quirino. Tem santo, coronel, doutor, escola. Tirando o santo, os demais pertencem à mesma família, e tive que decorá-los para não ir parar no lugar errado.

Em Campinas, as vias são carinhosamente chamadas pelos seus apelidos. Como só os mais íntimos chamam pelo apelido, concluí que o campineiro tem uma bonita relação familiar com a cidade. Mas para se chegar aonde quer, além de decorar os logradouros, é preciso também decorar os apelidos. Nessa hora, um mapa pode não ter serventia alguma. Quer ver?

Você conhece a Rodovia Miguel Noel Nascentes Burnier? Provavelmente não. Mas Avenida da CPFL você sabe qual é. Estrada dos Amarais: todo mundo sabe onde fica. Mas tente perguntar como chegar à Rua Silvia da Silva Braga, seu nome oficial. As pessoas vão coçar a cabeça e olhar para o horizonte com aquele ponto de interrogação estampado no rosto. Tapetão? Nada a ver com decoração. É só o nome da Rodovia General Milton Tavares de Souza, que liga Campinas a Barão Geraldo, Paulínia e Cosmópolis.

Um dia, logo que cheguei, precisei ir ao Balão do Castelo. Mapa em punho, estudei o trajeto e lá fui eu. Crente que iria ver um… castelo. Cheguei ao local, e necas de avistar nenhuma construção majestosa. Dei mais uma volta. Na segunda, concluí que já estava nele. Um pouco decepcionada, confesso. O Castelo não se parecia com nenhum castelo dos contos de fadas. Mas é de lá que se tem uma das mais belas vistas da cidade.

Quando vi pela primeira vez aquela construção imponente, cor-de-rosa, próxima ao Castelo que não é castelo, quis saber do que se tratava. Já informada, achei que fosse brincadeira. Afinal, não fazia muito sentido uma Escola de Cadetes daquela cor. O motivo do questionável tom nenhum campineiro conseguiu me explicar ainda. Mas é assim e pronto. E sabe que, com o tempo, passei a achar a coisa até meio charmosa? Diferente.

Avenida Heitor Penteado. Simples, não? Não. Como ela contorna toda a Lagoa do Taquaral – leia-se Parque Portugal –, para chegar a um endereço nela é preciso ter também uma referência. Caso contrário, será necessário dar a volta completa para achar o que se precisa. É de deixar doido qualquer migrante. Ou com peso na consciência: todas aquelas pessoas fazendo suas caminhadas e você, prometendo a si mesmo há anos começar a se exercitar.

Outra. A Avenida José de Souza Campos, mais conhecida pelos pontos cardeais que indica – Avenida Norte-Sul –, frequentemente é confundida com outra avenida, continuação dela (ou será o contrário?), também relacionada a outro ponto cardeal: a Princesa D’Oeste. Que de princesa não tem nada, pois não existe um reino chamado Oeste. Acontece que Campinas é ternamente considerada pelos seus habitantes uma ‘princesa’ do estado de São Paulo, espécie de menina dos olhos, que fica no sentido de onde o sol se põe. Poético.

Tem mais: para ir às tais avenidas dos pontos cardeais é preciso passar pelo Laurão. Opa. Laurão? Seria uma espécie de guardião do cruzamento? Que nada. É o apelido do Viaduto São Paulo, inaugurado em 1977 durante a gestão do prefeito Lauro Péricles Gonçalves.

Conta a lenda que apenas 30% da população da cidade é de campineiros legítimos, ou seja, nascidos neste solo. O restante teria vindo parar aqui por conta das universidades, das oportunidades de trabalho, da qualidade de vida. Aliás, qual seria o correto, campineiro ou campinense? A questão dá pano para manga. No século passado, achou-se que ‘campineiro’ seria um termo mais adequado para representar o trabalhador do campo. E que ‘campinense’ ficaria mais bonito. No entanto, esse último gentílico já teria dono, ou melhor, donos: os habitantes de Campina Grande, na Paraíba. Como o povo daqui já se acostumara à primeira opção, ficou campineiro mesmo. O que, no final das contas, não faz a menor diferença.

Os campineiros têm motivo de sobra para se orgulhar da cidade. Ela é maior (em todos os sentidos) do que muitas capitais de estados e uma das principais cidades do interior paulista. Ops, não pode dizer que é interior. Explico: para boa parte da população Campinas não é interior. Já ouvi muita gente daqui contar o que fez no feriado: Fui para o interior. Nesse caso, valeria a pena relembrar um pouquinho as aulas de geografia. Dentro de um estado, um município pode estar em uma dessas localizações: capital/região metropolitana, interior ou litoral. Visto que Campinas não tem praia, nem é a vizinha capital, a boa notícia é que estamos… no interior. Quando me mudei para cá, inclusive, fui orientada a jamais contrariar os campineiros nesse assunto. Para não ter briga. Mas não entendo que briga poderia haver, já que não enfrentar horas no trânsito, nem fila para tudo, é coisa das mais bacanas.

O Caminho dos Goiases, como a terra foi primeiramente chamada pelos Bandeirantes no século XVIII, nem imaginava aonde chegaria. E é preciso registrar: esta cidade me acolheu com tanto carinho, que hoje me sinto uma campineira. Ou campinense. Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Pelo menos por enquanto.

Afinal de contas: a ‘mina’ que o Seu Jorge fala mora no condomínio do moço apaixonado, ou num condomínio do bairro onde ele mora? Oh dúvida.

Mina do Condomínio
(Seu Jorge – Gabriel Moura – Pretinho da Serrinha – Pierre Aderne)

“… Mina maneira do condomínio
Lá do bairro onde eu moro
… Minha gata, minha sina
Do meu condomínio”
cici joey cauboi - daniel duendeDaniel Duende/Flickr.com

Justiça seja feita. Assim como este mundo de meu Deus tem coisas que me tiram do sério, há aquelas que me põem na alegria e que também merecem uma lista. Confesso: deu trabalho. Mas ela tem 29 itens (para combinar com o dia), contra as 24 do outro dia. Está decidido: sempre haverá mais coisas alegrantes do que irritantes.

1. Motoristas que freiam para o cachorro atravessar. Ou para o gato. Ou para as galinhas que moram aqui na rua de cima.

2. Na padaria, quando peço aquele pão de queijo do balcão e o atendente diz: Esse não. Eu vou lá dentro buscar um fresquinho para você.

3. Experimentar uma roupa numa loja e ver, ainda que com certa indignação inicial, a sinceridade da vendedora: Não ficou muito bom, não.

4. Rever uns bons trocados com o Nota Fiscal Paulista.

5. Saber que a história do cãozinho Bob teve um final feliz.

6. Ver que, finalmente, pais e mães estão tendo direitos e deveres iguais quando se separam e há filhos na jogada.

7. Saber que tem um desenho animado infantil produzido no Brasil fazendo o maior sucesso num canal de TV paga, onde reinam os importados.

8. Quando ligo num SAC qualquer, o atendente promete ligar de volta para resolver meu problema, e liga.

9. Ver que a cachorrinha que nós recolhemos da rua, doente e faminta, hoje é gorda e feliz.

10. Quando vou pagar algo e percebo que estou sem dinheiro algum na carteira e o caixa, que às vezes nem me conhece direito, diz: Não se preocupe, você acerta depois. (Que fique registrado: eu sempre volto para pagar.)

11. Descobrir que tenho saldo para receber do FGTS, daquela conta que eu havia dado por encerrada há séculos.

12. Poder ficar tranquila em casa. O bloqueio ao telemarketing do PROCON funciona.

13. Ver, todos os anos, que minha mamografia está normal.

14. Quando escrevo para alguém famoso e ocupado sem esperar por uma resposta, e ela vem.

15. Saber que, apesar da AIDS ainda não ter cura, as pessoas que carregam em si o HIV não estão mais condenadas à morte.

16. Entrar em roupas que eu tenho há dez anos. (OK, ficam um pouquinho apertadas)

17. Pedir para a costureira consertar um vestido que estava rasgado, e ele ficar mais bonito do que quando era novo.

18. Lembrar de quando meu filho tinha três anos e pedia para ouvir Villa-Lobos (“Aquela música do trenzinho, mãe”).

19. Ele pedir até hoje.

20. Ver que uma história triste contada num blog ganhou fãs pelo país, virou livro e já não é mais tão triste.

21. Saber que as pessoas me dão dez anos a menos. (OK, sete)

22. Ver um comercial de pomada com novos modelos de famílias.

23. Tentar assistir a um espetáculo teatral infantil, e os ingressos estarem esgotados.

24. Uma das minhas melhores amigas na adolescência tentou e conseguiu me encontrar, depois de trinta anos. Conversamos como se tivéssemos nos visto ontem.

25. Saber que desconhecidos já deram carona para meu pai até em casa, porque ele havia se perdido pela cidade.

26. Ouvir com meus filhos as músicas da Palavra Cantada. E gostar. Muito.

27. Descobrir um monte de tecidos perdidos há anos no armário, que estão virando roupas novas e bonitas.

28. Quando escrevi sobre a Lygia Fagundes Telles aqui, um monte de gente bacana quis me ajudar a chegar perto dela. E cheguei.

29. Assistir CQC toda segunda-feira.

Ninio Romantico/Flickr

I

Um dia o Carlos, meu cunhado, chegou em casa com um presente para minha filha. Era uma enorme tartaruga de pelúcia cor-de-rosa. A tartaruga tinha um zíper na barriga, e nela quatro ‘ovinhos’ feitos de pano. Dentro, os filhotinhos. A tartaruga poderia ficar grávida e não-grávida, e as tartaruguinhas nasciam quantas vezes a gente quisesse. Era só colocar os bichinhos de volta na barriga e começar a brincadeira de novo. Enquanto minha filha se divertia com a novidade, meu cunhado revelou: Eram cinco ovinhos. E cadê o outro?

Foi assim. O voo estava lotado. Uma mulher estava com sua filhinha pequena no colo, que chorava sem parar. A mãe tentava distraí-la, cantava, contava histórias e nada. Os passageiros – meu cunhado, inclusive – já se incomodando com a situação, mas fazer o quê? Criança não quer nem saber, quando quer chorar, chora mesmo.

Foi quando o Carlos teve uma ideia. Pegou a tartaruga que estava embrulhadinha no bagageiro, e não teve dúvidas. Ou melhor, teve, mas era um quase caso de vida ou morte. Ele abriu-lhe a barriga, retirou um dos ovinhos e o deu à menininha. Como num passe de mágica, ela abriu um sorriso e parou de chorar. E todos viveram felizes para sempre.

Está certo, meu cunhado teve outra motivação, além da compaixão: o desejo de viajar em paz. Mas tirante isso, o gesto foi, no mínimo, uma gentileza das boas. Capaz de fazer a diferença na vida daquela garotinha, naquele momento. E da sua pobre e desesperada mãe. Eu, que não sou pessoa das mais gentis, tenho aprendido nos últimos tempos: todo mundo pode fazer alguma coisa por alguém, sempre. Algo simples, que não nos tira do caminho, não nos atrasa e não nos onera. Juro: a vida fica melhor assim.

Minha filha adorou o presente com o bichinho a menos. Até porque ela nem sabia da quinta tartaruguinha – que deve estar até hoje na casa da menininha.

II

Existe um lugar na blogosfera chamado Crônicas de uma menina feliz (não faço o link aqui de propósito, só mais adiante). A dona dele, uma brasileira que vive na Alemanha, dedica-se a uma atividade singular. Ela faz desenhos para os outros. Mas não são simples desenhos. Quero dizer, são desenhos simples, que ela própria chama de ‘bobinhos’, mas que não são nem um pouco simples na sua natureza. Ela desenha a vida das pessoas. Gente que ela nunca viu na vida lhe manda histórias de suas infâncias, contando suas doces memórias, e ela põe tudo no papel. Depois, todo mundo pode ver na tela. Às vezes, ela fica sabendo de uma história (triste ou feliz), se comove, e lá vai ela desenhar. Com um capricho de dar gosto.

Quando encontrei esse site, absolutamente por acaso, resolvi lhe mandar algumas das minhas histórias, assuntando se ela não gostaria de desenhá-las. E não é que ela gostou da ideia? Antes, fez uma espécie de entrevista comigo: quis saber como eram meus pais, meus irmãos, que roupas eu usava quando criança, como era a casa onde cresci.

Quando vi o post de hoje no seu site foi impossível não ficar com os olhos rasos d’água. Fiquei impressionada, e comovida, com sua habilidade para captar os detalhes do que lhe contei, das fotos que lhe enviei, traduzindo tudo em desenhos transbordantes de carinho e delicadeza. Como se as pessoas da minha família (até o gato) fossem seus velhos e queridos amigos. Ganhei mais um presente diferente e bom este ano, além dos que eu já contei aqui dias atrás.

Essa moça é uma verdadeira retratista de boas lembranças. Ela doa seu tempo e sua energia, simplesmente para fazer um agrado. Pensei com os botões: por que uma pessoa faz isso? O que move um desconhecido a nos endereçar tamanha gentileza? Sim, porque podemos ser gentis com quem está à nossa volta. Mas quando o somos com quem não conhecemos, propriamente dito, o sentido muda. É outro papo.

O que a move é simplesmente a alegria de imaginar a alegria das pessoas vendo seus desenhos, que são dela mas que pertencem, de um jeito muito especial, às pessoas retratadas neles. Aquele sentimento que, de um jeito ou de outro, é o que  funda o trem das nossas vidas.

É preciso registrar uma coisa: ela havia me avisado que publicaria minha historinha hoje. Então, este post aqui já estava meio pronto desde ontem, eu só estava esperando ver no que a coisa tinha dado para completá-lo. Prestem atenção: lá no finalzinho de seu post ela resolveu colocar uma música. Que também já estava aqui desde ontem e é, inclusive, o nome deste post. Ninguém combinou nada. Para quem acredita em coincidências…

III

Ave Beatles.

Daniel Duende/Flickr.com

Não tem aquele programa Irritando Fernanda Young? Pois então. Eu não tenho programa de TV, mas listo aqui 24 coisas que me irritam neste mundo de meu Deus. É para combinar com o dia de hoje, 24.

1. Quando digo que não como carne vermelha nem frango e as pessoas perguntam com aquela cara de espanto: Mas o quê você come, então? Às vezes, só para variar, respondo: arroz, feijão, abobrinha, brócolis, tomate, batata, aveia, pão, requeijão, peixe, biscoito salgado, biscoito doce, ovo, brigadeiro… e só paro quando a pessoa diz: OK, já entendi.

2. O termo “sanduíche natural”. Esse eu nunca consegui compreender a definição. Tem frango, maionese…

3. Quando há alguma campanha em prol dos animais e as pessoas dizem: Com tanta gente passando fome… Então está bem. A gente pára tudo no mundo e não faz mais nada para ninguém. Porque tem gente passando fome, né?

4. Porta-toalhas de papel que diz: Bastam duas folhas para secar as mãos. Você usa duas e termina de secar as mãos na roupa.

5. Anúncios de Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal. Poderiam usar os mesmos todos os anos, porque os motes, surradíssimos e pra lá de caricatos, são sempre os mesmos. Sem falar nos que circulam na época do Carnaval, cheios de confete e serpentina. Ou em junho, onde tudo vira arraiá, num idioma que nem caipira de verdade sabe o que é. É de lascar.

6. Anúncios de telefonia celular. Dos institucionais eu até gosto, mas os promocionais… Um tem pacote de duzentos minutos, outro de quinhentos (como se o ligador controlasse isso, ou tivesse noção desse tempo), no outro fala-se por um ano de graça com não sei quem. Finjo que não vejo.

7. Lojas de sapatos. Você pede aquele modelo, naquele número. Não tem, e o vendedor traz um modelo absolutamente diferente, dois números maior e diz: Trouxe esse…

8. Março, 36 graus, sol de rachar côco. As lojas colocam suas coleções de inverno nas vitrines, e você vai encontrar uma camisetinha de manga curta lá no fundo, na última arara. Sem contar o ar-condicionado, que desce para 15 graus. É para sugestionar, como me disse uma vez uma vendedora.

9. Aquelas etiquetas enormes e pinicantes nas roupas, com instruções de lavagem, composição dos tecidos. Algumas vêm até com o a indicação do lugar para você recortá-las. E depois ninguém se lembra se a peça pode ir à secadora ou não.

10. Troco menor que R$ 0,05. Ninguém dá. Deve haver, portanto, algum critério misterioso ou supersticioso que faça existir preços terminados em 96, 97, 98 ou 99 centavos.

11. Quando você vai comprar um carro o vendedor afirma: Vermelho é um charme. Você fica na dúvida e ele garante: Não tem mais essa de cor mais ou menos valorizada. Quando você vai vender: Xi, vermelho não tem muita saída…

12. Na praia. Por que 99% dos donos das barracas acham que as pessoas que vão à praia só querem comer tranqueira? Gordura não combina com praia. Nem com biquíni.

13. Na praia II. Por que 99% dos donos das barracas acham que as pessoas que vão à praia só querem ouvir pagode?

14. Na praia III. Você resolve sair com uma calça comprida e alguém diz: Você não vai por um shortinho?

15. Combustível. De onde vem o hábito de colocar o preço com três casas decimais? E a terceira é beeem pequenininha. Aquela vendedora da loja de roupas diria que “é para sugestionar”.

16. Quando eu digo que minha filha se chama Nina e a pessoa pergunta: Mas é o nome ou apelido?

17. Quando eu digo que meu filho se chama Luca e a pessoa vem conversar com ele: Então, Lucas…

(Quem mandou colocar esses nomes.)

18. Estrangeirismos. Em geral, são todos ruins e fora de contexto. Mas os que batizam prédios e condomínios são os piores. Você pede uma pizza pelo telefone, e na hora de dizer onde mora é aquele martírio.

19. Embalagens. Lenço umedecido: quem é consegue abrir o pacote e tirar o primeiro, sem antes estragar uns dez?

20. Embalagens II. Caixa de leite longa vida: primeiro você precisa de um instrumento para abri-la. E depois, de uma habilidade enorme para servir o primeiro copo sem espalhar leite pela pia.

21. Embalagens III. Iogurte de potinho: impossível tirar o papel de uma vez só. Vai rasgando, rasgando…

22. Aquelas caixinhas de morango, com os maiores e mais bonitos por cima, e os menores e nem tão bonitos por baixo. Enganação descarada. Aquela vendedora da loja de roupas diria que “é para sugestionar”.

23. Aqueles papeizinhos pequenininhos, os comprovantes das compras com cartão. Vão se amontoando na carteira. Quem é que confere aquilo tudo depois, ó Senhor?

24. Esse não irrita mais, mas já irritou muito quando eu era criança. Sempre que fazia um desenho alguém dizia: Que bonito… o que é? Se fosse uma pessoa: Que bonito… Quem é?

Diz se não é para sair do sério.

Todo mundo já comeu aquele bolo chamado “Nêga-maluca”. E todo mundo sabe o que vai nele: farinha de trigo, açúcar, ovos e chocolate. De uns tempos pra cá, uma pergunta não sai da minha cabeça: por que diabos esse nome?

Tudo bem: um chocolate marrom, uma mulher negra, um bolo marrom como uma mulher negra. Até aí eu entendo a brincadeira. E ‘maluca’, vem de onde? O que deixa a nêga maluca, afinal de contas? Encafifei e concluí que a nêga pode ficar maluca por vários motivos.

Voltemos a 1955. Uma negra chamada Rosa Parks vivia no Alabama. Nos Estados Unidos, naqueles tempos que não são tão distantes assim de hoje, os negros tinham que ceder seus lugares aos brancos nos transportes coletivos. O que hoje soa como sandice era lei naquele país. Pois um dia a Rosa ficou maluca. Disse ‘não’ ao branquelo que exigia seu lugar no ônibus. A costureira de quarenta e dois anos não tinha idéia do que tinha acabado de fazer. Foi multada e presa. E seu desafio deu origem a um longo boicote ao sistema público de transportes da cidade, encabeçado por um pastor até então quase anônimo chamado Martin Luther King. O resto é história. Foi a Rosa que, sem saber, preparou a massa do bolo. King adicionou fermento e o pôs no forno.

Mais perto, aqui no Brasil, outra negra, nascida nos anos em que a arte da dona Parks ainda ecoava, também teve dias de se amalucar. Marina Silva, a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, que nasceu no Acre e foi semi-analfabeta até os dezesseis anos, sonhava com a faculdade. “Está maluca”, talvez alguns tivessem dito. Mas ela foi lá. Bacharel em história, a Marina chegou ao ministério e disse ao que veio. Um dia ela ficou maluca: mas quanta pressão, meu Deus. E pediu as contas. Para que a batata não assasse demais. No caso, o bolo.

Mais perto ainda de mim, lembro da vizinha que morava no quarteirão de cima, num casebre de dar dó. Uma senhora negra dos seus cinquenta anos, que andava para cima e para baixo recolhendo papelão para vender, sempre acompanhada de uma cachorra bonita e um tanto medrosa. Por vezes, caso a colheita do dia não tivesse lhe rendido muita coisa, talvez nem o suficiente para o jantar, a vizinha ficava maluca, e sobrava para a cachorra. De minha varanda, inconformada, peguei várias vezes o telefone para denunciá-la por maus tratos. Mas desistia. Uma pessoa esquecida pelos colegas da Marina, uma pessoa a quem do grande bolo não coubera fatia alguma, não teria condições de compreender o direito dos bichos.

Pronto. Está explicado.

Andei chorando as pitangas por não conseguir lembrar direito dos meus aniversários. Mas daqui para frente, tudo vai ser diferente.

Desde que tornei públicos os meus (des)encontros com Lygia Fagundes Telles, vira e mexe alguém me revela que também viveu – ou sabe de – um causo com essa senhora. LFT é uma comum mulher incomum. Afetuosa, simples, direta – como contam os amigos em histórias daqui e dali. Um encontro por acaso, um esbarrão na livraria. Um chá em sua companhia. Uma entrevista que vira conversa. Uma fotografia tirada para uma revista. E foi justamente através dessa última categoria que eu acabei ganhando um presente de aniversário diferente e muito bom. O menos esperado, o mais emblemático. Para garantir que meu 42º aniversário navegue incólume no mar da minha própria deslembrança que, por vezes, engole esse assunto.

Conto como foi. Os tais (des)encontros foram lidos por dois amigos, um casal de fotógrafos. Ele, Penna Prearo. Ela, Adriana Vichi. Ele, com um olhar genial para as coisas. Ela, que conheci através dele e com quem até hoje só falei por e-mail e telefone sobre bichos abandonados e, claro, LFT. Dela, que eu imagino loura, com cabelos anelados presos num rabo-de-cavalo, ele já contou: é dada a fazer surpresas. Como ambos já haviam fotografado LFT, bolaram um plano: Adriana enviaria meu texto para LFT, quem sabe ela não gostaria de lê-lo? E assim fez ela, exata e propositadamente no dia de meu aniversário, tratando também de lhe contar esse detalhe. O resto é história.

Dia seguinte, manhãzinha, checo meus e-mails. Eu, que não tenho o hábito de olhar aquela pastinha “junk”, aonde geralmente vai parar o lado tosco da humanidade, tive a curiosidade de ver o que havia ali. Sopro de anjo, só pode ter sido. Pois o que havia nela jamais poderia estar lá: uma mensagem de LFT. E não era spam.

Eu sei, ela caiu ali porque aquele endereço não estava na minha lista de contatos (quem dera), fui eu mesma quem configurei assim. Mas será o Benedito que o provedor não sabia de quem se tratava? Soubesse, teria concluído: Ops, esta aqui não pode ser junk. E a moveria para a caixa de entrada, com toda pompa e circunstância:

From: Lygia Fagundes Telles

To: Silmara Franco

Subject: feliz aniversário

Date: Thu, 7 May 2009 19:22:12 -0300

Cara Silmara,

segue o abraço de aniversário dessa escritora às voltas com conferências e lançamentos. Me diga seu endereço que mando um dos livros novos com dedicatória.

Obrigada pelo texto entregue pela Adriana.

Abraço afetuoso,

Lygia Fagundes Telles

Confesso que, a princípio, hesitei em acreditar, tamanha improbabilidade disso acontecer. Caí da cadeira. Mas juntei o que dizia a mensagem com as histórias contadas pelos amigos, e respirei aliviada. Um pouco envergonhada, é verdade, pela dúvida que tivera.

Contrassensos modernos: quanto mais simples e gentil a coisa, maior a desconfiança. Apontando o modo enviesado com que nos relacionamos com os outros, quase sempre baseados na descrença e no medo das intenções. LFT mandara-me a delicada mensagem por gentileza, já que ela certamente tinha outros afazeres naquele dia (e não importa se eventualmente não tenha sido ela própria quem a digitara; se assim foi, a instrução partira dela).

Também confesso: o “plano” dos dois amigos havia me surpreendido. O empenho de uma pessoa (Adriana, que eu nunca vira de verdade), movida pela simples vontade de fazer alguém feliz, sem interesse algum, é raro e comovente. Um gesto que, de tão amável, também chega a soar improvável.

É. Somos, definitivamente, uma raça repleta de esquisitices.

Voltando à mensagem. Engraçado como algo virtual pode trazer tanta felicidade real. Passei o dia inteiro meio abobalhada, contemplando-a na tela como quem admira um quadro. Ser fã é quase dolorido.

Exatamente uma semana depois, vou apanhar minhas correspondências na portaria. Uma conta de água, um folheto da pizzaria nova que abriu no bairro e um envelope grande, pesado. É da Academia Brasileira de Letras – tem coisa mais chique? Sorrio, pois já sei o que é. Outra gentileza de LFT. Para me deixar abobalhada o mês inteiro.

Para os próximos dias, tenho um encontro com Ana Clara, Lia e Lorena. Há tempos não via essas meninas, será bom revê-las.

Aquela moça do Exercício de paciência, partes 1 e 2, agora vê seu rebento vir ao mundo, para alegria de todos. A nova mamãe, que já passou pela provação de ter que responder a um monte de perguntas para um monte de pessoas durante nove meses, agora está diante de um novo desafio: contar como tudo tem sido desde que o pimpolho nasceu. O folheto com a FAQ (Perguntas Frequentes, do inglês Frequently Asked Questions), aquele para as perguntas durante a gravidez, continua sendo instrumento dos mais úteis para mães com qualquer milhagem, e agora precisa ser atualizado. Acompanhe. 

Ainda na maternidade, naquelas ‘visitinhas’ de duas horas:

Foi normal ou cesárea? (no caso do visitante não ter acompanhado a gravidez através do folheto anterior)

Está doendo muito?

Quantos quilos? Quantos centímetros? (aliás, de onde virá essa fixação em saber peso e altura dos recém-nascidos?)

Com quem se parece?

Na primeira semana, já em casa:

Você está amamentando?

Se sim: Você tem bastante leite? Ele (o bebê) mama muito?

Se não, não há perguntas, mas um triste “Aaaahh”, ou um monte de “soluções”.

O irmão está com ciúmes? (se você já tiver um filho)

Ele (o bebê) acorda muito?

O Fulano (pai) já trocou fralda?

Com quem se parece?

Na terceira semana:

Você está muito cansada?

Você tem conseguido dormir?

O Fulano (pai) está ajudando você?

Com quem se parece?

Quando o bebê está com dois meses:

Ele (o bebê) está tendo cólicas?

Com quem se parece?

Quantos quilos você já perdeu?

Com três meses:

Ele ou ela? (quando você sai para passear e a roupinha é amarela)

Como se chama? (no mesmo passeio)

Hãn? (no mesmo passeio, se for um nome meio diferente)

Com quem se parece?

Quantos quilos você já perdeu?

Quatro meses:

Quando você volta a trabalhar?

Babá ou escolinha?

Com quem se parece?

Quantos quilos você já perdeu?

Com cinco ou seis meses:

E aí, como foi voltar ao trabalho?

Já tem dentinho?

Já está engatinhando?

Quantos quilos você já perdeu?

Sete meses:

Ele (o bebê) está comendo de tudo?

Já quer ficar em pé?

Quantos quilos você já perdeu?

Oito meses:

Você já está planejando o aniversário?

Quantos quilos você já perdeu?

Nove meses:

Já quer andar?

Já quer falar?

Quantos quilos você já perdeu?

E vamos ficando por aqui, para combinar com os nove meses do questionário da gravidez. Ainda virão muitas perguntas, por muitos anos. Todas, como já disse, são absolutamente do bem. Mas aí a mamãe estará tão escolada na arte de responder, que dispensará qualquer instrumento de apoio. No caso, o querido folheto. E isso é bacana.

Comstock Images.com

Querida Rosa

Devo esta carta a você. Mais precisamente, desde o dia 7 de fevereiro de 2007. Todo esse tempo, ela esteve escrita em minha mente, mas nunca tive coragem de colocá-la no papel, muito menos de mandá-la. Nunca me cobrei muito por isso, é verdade. Porque você, de fato, nunca esperou por ela. Assim, a dívida se ameniza.

Talvez a dívida seja comigo mesma. Porque levaram seu filho daquele jeito, e eu não fiz nada. Não esperneei, não fui às ruas, nem aos gabinetes, não cobrei nenhuma atitude ou providência de nada e de ninguém. Fiquei quieta, estarrecida e amedrontada como ficaram milhões de mães, no país inteiro, naqueles dias que se seguiram. Colei-me ao noticiário, para saber como a história ia ficar – sim, porque acabada ela já estava.

Fora isso, eu apenas chorei, Rosa. Durante todos os dias, sem exceção, na hora de dormir, eu chorei a morte do seu filho. Em meu dia-a-dia, não havia pensamento que não me levasse de volta a ele. Orei bastante por ele e por vocês, também. Mas devo confessar: nunca consegui orar até o fim; a lembrança das cenas e os meus sentimentos tortos tiravam meus pensamentos dos trilhos, e eu voltava a chorar, até adormecer. Parei de chorar no dia em que a morte do seu pequeno completou um ano. E você, Rosa, de certo ainda chora.

Naquele depoimento no final do capítulo da novela “Páginas da Vida”, você disse que quisera ter superpoderes naquela hora, para salvar seu filho. Eu também, Rosa. Naquele dia, quisera eu ter acordado, aberto a porta de minha casa e ter encontrado o jornal do dia 8 de fevereiro. Como naquele seriado Early Edition, que passava na TV há alguns anos. Nele um homem recebe na porta de sua casa, todos os dias, o jornal do dia seguinte, trazido sempre por um misterioso gato. Como sempre há uma tragédia no jornal, e com detalhes – onde, a que horas, com quem – sua missão é mudar o destino das coisas. Quando ele consegue, a notícia ruim vai sumindo da página do jornal, e em seu lugar aparece outra, sobre algum fato normal ou corriqueiro.

Rosa, eu queria ter recebido um jornal desses. Sairia de minha casa logo cedo, e viajaria, aflita, por quinhentos quilômetros. Com o jornal em punho, saberia seu trajeto naquela quarta-feira. Saberia qual era seu carro. Meia hora antes, ficaria esperando você a três quarteirões daquele sinal. Assim que eu a avistasse, eu daria um jeito de fazer você parar. Talvez pulasse na frente do seu carro, e lhe dissesse muitas bobeiras, só para lhe distrair. Porque talvez não adiantasse eu lhe contar o que aconteceria se você continuasse por ali, você não acreditaria. Eu também não acreditaria. (O que, hoje, me faz ficar mais alerta para certas coisas que acontecem e a gente não entende direito.) Ou então eu bateria meu carro no seu, de propósito, só para fazê-la se parar. E, enquanto você descesse do carro para conferir o estrago, eu ficaria de olho no jornal, e veria, feliz da vida, a notícia se desmanchando, e em seu lugar surgindo outra, sobre qualquer coisa sem tanta importância.

Eu olharia para dentro do seu carro, daria uma piscadela para seu filho. Logo mais, à tardezinha, tudo estaria em paz na cidade maravilhosa.

Eu queria que isso fosse verdade, Rosa. Mas o gato não veio.

Um abraço,

Gravidez é genial. Mas quando uma mulher fica grávida, ela deve se preparar para satisfazer a curiosidade da população em geral, respondendo a uma série de perguntas ao longo dos nove meses. Todas as pessoas, em especial as mulheres, querem saber da grávida, e ela vira uma celebridade. As pessoas se tornam automaticamente íntimas dela – colegas de trabalho, o caixa do supermercado, desconhecidos que cruzam com você no shopping. De repente, todo mundo sorri para a grávida. No começo a grávida pode estranhar um pouco toda essa simpatia. Mas depois se acostuma e passa a sorrir também. Sem contar que a barriga fica pública, todo mundo põe a mão.

E como as perguntas são praticamente as mesmas para todas as grávidas, a gestante esperta pode até fazer um folheto com uma espécie de FAQ (Perguntas Frequentes, do inglês Frequently Asked Questions), incluindo suas respostas, e distribuir aos curiosos de plantão. É só fazer um por mês. Confira.

Assim que sabem da gravidez:

Foi planejado?

É o primeiro? 

Você não tem medo…? (se você está perto dos quarenta, ou se passou)

No segundo mês:

De quanto tempo você está?

E o pai, está feliz?

Ou: Quem é o pai? 

Quantos quilos você já engordou?

No terceiro mês:

Você está tendo muito enjoo?

Você está tendo desejos? 

Você vai fazer aquele exame do líquido amniótico?

Quantos quilos você já engordou?

No quarto mês:

Já sabe o que é? (referindo-se ao sexo do bebê)

Já comprou bastante coisa? 

Quantos quilos você já engordou?

No quinto mês:

Você já escolheu o nome? 

Quantos quilos você já engordou?

No sexto mês:

Vai tentar parto normal ou vai fazer cesárea? 

Quantos quilos você já engordou?

No sétimo mês, quando o barrigão fica imponente:

Para quando é?

Tem certeza de que não são dois? (se sua barriga for grande)

Mas tem alguma coisa aí dentro? (se sua barriga for pequena)

O quarto já está pronto? 

Quantos quilos você já engordou?

No oitavo:

Você ainda está trabalhando?

Você está conseguindo dormir?

Muito pontuda! É menina, não é?

Muito redonda! É menino, não é? 

Quantos quilos você já engordou?

Nono mês:

Mas você tem certeza mesmo de que não são dois? (se a sua barriga, que já era grande, ficou enorme)

Onde você vai ter?

A malinha da maternidade já está pronta?

E o(a) irmão(ã), está com ciúme? (se você já tiver um(a) filho(a))

Quantos quilos você engordou?

Um verdadeiro checklist mensal. O que torna o folheto uma ferramenta bastante útil. O curioso fez a primeira pergunta, a grávida entrega gentilmente o folheto. Tudo muito prático. E depois que o bebê nasce, pode-se produzir outro folheto, porque as perguntas continuarão.

E como é tudo curiosidade do bem, bobeira ficar brava. As pessoas querem é compartilhar a fase. Já me peguei aplicando o questionário nas grávidas por aí. No fundo, as pessoas ficam encantadas com esse, digamos, milagre da vida. Ou então, encantadas com o milagre daquela mulher ter engravidado, logo ela, que nem namorado tinha. O que já é aquela outra história.

Hoje é meu 42º aniversário. Tentei me lembrar dos quarenta e um aniversários que já fiz e, surpresa: não me recordo de quase nenhum. Dos primeiros anos é compreensível, quem é que se lembra de alguma coisa com um ano de idade. Mas fui buscando na memória os que vieram em seguida, e nada.

Com dois anos lembro-me de um episódio, digamos, impactante.  E recordo dele com precisão. Estávamos em Santos. Eu, na beira do mar, brincando. Virei-me de costas para o imenso oceano, talvez para acenar ou mostrar alguma coisa para meus pais, que estavam na areia, um pouco afastados de mim. Foi quando uma pequena onda, um verdadeiro tsunami para alguém com pouco mais de meio metro de altura, derrubou-me. Fui saber que isso acontecera quando eu tinha essa idade porque mais tarde descrevi a cena a alguém, que se lembrou. Mas do meu aniversário, nenhuma recordação.

E como terá sido meu terceiro aniversário? Lembro-me de uma cena de quando eu tinha três anos, durante a Copa do Mundo de 70. Porquê ela me marcou, eu não sei. Pelo futebol é que não foi. Lembro de minha mãe fazendo pipoca numa panela, e eu ao lado dela. Quando ela terminou, passou a pipoca para uma vasilha, fechou a porta que ficava ao lado do fogão e que dava para o quintal, e ternamente me chamou, Vamos? Era para irmos para a sala, onde meu pai e meus irmãos (acho) já estavam em frente à TV para assistir ao jogo, que eu não lembro se era a final ou não. E do dia do meu aniversário, mais ou menos um mês antes dos jogos, não há meio de eu me lembrar.

Dos meus cinco anos, trago viva na memória a lembrança de andar em meu triciclo (batizado de “Crondiana”, não sei de onde tirei esse nome) no pequeno quintal de nossa casa. Incrível como um corredor de menos de vinte metros de comprimento e menos de dois de largura pode nos dar tanta alegria. Eu me lembro de ir pedalando até o final dele, fazer a meia-volta, ir até a outra ponta, fazer nova meia-volta e repetir o trajeto dezenas de vezes. Sozinha. Feliz da vida. Ganhei o triciclo com essa idade, mas não me lembro se foi presente de Natal ou de aniversário. Lembro-me até de uma calça vermelha que eu não tirava, de tergal, com botões, que era dessa época. Mas do dia em que fiz cinco anos, nada sei.

Ainda os cinco anos. Foi nesse ano, 1972, que Vila Sésamo estreou no Brasil. Recordo de irmos todos para o quarto de minha mãe, onde ficava nossa TV, para assistir ao primeiro programa. Sentei-me no chão, ao lado da cama de meus pais, e encantei-me com aqueles personagens em preto-e-branco. Lembro-me de ter imitado o Garibaldo por muito tempo, usando as duas mãos para fazer de conta que eu tinha um bico igual ao dele. Cismei de falar através do tal bico, o que deixava minha mãe bastante irritada. Agora, do dia em que fiz aniversário, não há lembrança alguma.

Do primeiro dia de aula no pré-primário eu me lembro como se fosse hoje. O aceno de minha mãe ao se despedir de mim na porta da sala, a bolsa vermelha de pano com meus materiais, bordada com meu nome, o sorriso gorducho e carinhoso de Tia Neide, acolhendo todas aquelas crianças que pisavam em uma escola pela primeira vez. (A maioria das crianças ia à escola com seis anos, e não seis meses, o que me faz ficar nostálgica à beça – para usar uma expressão bem setentinha.)

Dessa mesma época, tenho na ponta da língua a placa do velho Fusca cor de pérola que meu pai tinha: BG-7542. Mas nenhuma recordação de nenhum aniversário. Mesmo que não houvesse festas, porque as vacas sempre foram magras lá em casa, teimo em achar que eu deveria me recordar de alguma coisa, um presente, um bolo feito com carinho pela minha mãe. Sinto uma falta danada de não ter essas memórias.

A primeira lembrança de um aniversário aparece quando fiz quinze anos. Meus amigos do colégio fizeram uma ‘vaquinha’ e me deram um ursinho da Lionella, branco e rosa. Ele existe até hoje, é um jovem urso de vinte e sete anos. Está na casa de meu pai, e cada vez que vejo meus filhos brincando com ele, tenho a certeza de que este mundo é mesmo muito interessante.

Dos aniversários mais recentes, as lembranças existem, claro. Mas eu sempre as confundo, e acabo precisando das pessoas para me situar. A paellada que fizemos aqui em casa com todo mundo foi em 2006 ou 2007? Passo por desmemoriada, mas a verdade é que a minha memória funciona muito bem para algumas coisas, e para outras não. E nunca consegui compreender seus critérios. As lembranças gostam de brincar comigo, numa espécie de esconde-esconde. Tampo os olhos, conto até dez, e lá vou eu atrás delas. Mas elas vão mudando de esconderijo, e por vezes, para minha tristeza, desistem da brincadeira e vão-se embora para sempre.

Tudo começa com um inocente “E aí, você está namorando?”, num desses encontros casuais com uma pessoa conhecida. Em geral, mulher. Mulher adora saber se a outra está saindo com alguém. Normalmente mais velha. Pode ser uma vizinha, uma tia. Se você responde ‘não’, a dona faz aquela cara de espanto, “Ah, mas precisa arrumar um namorado!”. Na próxima vez que vocês se encontram, lá vem: “E aí, arrumou um namorado?”. Difícil saber se ela só quer que você seja feliz (como se para ser feliz o namorado fosse coisa imprescindível) ou se adora saber que sim, você continua sozinha, encalhada. 

Um dia, você encontra alguém bacana. E você topa com ela de novo. Agora ela nem faz a pergunta completa, apenas um “E aí?”. Você empina o peito e pensa, é agora!, e responde que sim, está namorando. Ela fica com aquela expressão oscilando entre a surpresa e a descrença, e lasca: “Aahn… e já estão pensando em casamento?”. Você suspira, e responde que ainda estão se conhecendo, aquelas coisas. Aliás, o gerúndio do verbo conhecer é o mais bobo que existe. Ou se conhece ou não se conhece. E, dentro do ‘conhecer’, há espaço para enganos. Mas ‘conhecendo’, isso não existe.

No próximo encontro, ela insiste em ter uma atualização do relacionamento. Para piorar as coisas, ela ou segura suas mãos, ou dá tapinha no ombro, ou pergunta baixinho ao pé do ouvido: “Para quando é o casório?”. E chega um dia em que, de fato, você se casa. Com aquele bacana do começo da história ou com qualquer outro – ela não quer saber desse detalhe, quer é saber se você vai desencalhar ou não. Como uma ativista do Greenpeace, preocupada com as baleias encalhadas nas praias.

Já casada, você cruza com ela na rua. Você acha que agora ela está satisfeita, que não fará mais perguntas, mas ela se supera e quer saber: “Já encomendaram o bebê?”. ‘Encomendar’ é o fim da picada. Você é educada, e responde que primeiro vocês querem viajar bastante, e coisa e tal. 

Passa algum tempo, e não é que você fica grávida? Você passa nove meses curtindo a barriga, e tendo que responder a um monte de perguntas o tempo todo: se você está tendo muito enjoo, quantos quilos você engordou, se já sabe se é menino ou menina, e vai por aí. Aí o rebento nasce, é um menino lindo. Vocês se encontram na farmácia, você comprando fraldas, e ela se limita a desejar que ele seja bastante abençoado. Você nem crê. Pensa que ela, enfim, tem salvação. Você está tão feliz com a maternidade que até se esquece do que teve de aturar, desde antes de conhecer o pai do moleque. 

Mas sua alegria dura pouco. O filhote está perto de completar um ano e vocês se encontram  novamente. Desta vez, ela quer saber quando vem o irmãozinho. E decreta que agora vocês precisam ‘tentar’ uma menininha. Você mantém a educação do passado, diz que quer esperar um pouquinho, mas que está nos planos, sim, aquela coisarada.

Passam-se uns anos, você e o bacana decidem que está na hora do pequeno ter um irmão. Nasce uma menina. Você topa com ela de novo, e ao ver você, o bacana e o casalzinho, ela põe a mão na sua barriga e lasca: “E aí, vão desempatar?”. Aí é o fim.

Seu Carlos vende biju no Balão da Bela Vista, um cruzamento importante de Campinas. Mas seu Carlos não é um vendedor de biju qualquer: ele trabalha de terno e gravata. Ele é um homem de negócios, e o negócio dele é o biju. Sua loja é a imensidão do cruzamento. Por ali passa tudo: gente rica, gente pobre, homem, mulher, criança. Se contarmos quantas pessoas passam por ali, por minuto, não tem para ninguém: não há ponto-de-venda no mundo mais bem localizado. Nem vitrine melhor: não tem começo, nem fim, ela é onde seu Carlos passar. Nem todo mundo que passa por ali está disposto a comprar alguma coisa, é verdade. Mas quem é que não repara no seu Carlos? Quem é que não é atraído pela surpresa do seu terno bem cortado?

O terno do seu Carlos desconcerta o mundo à sua volta, porque inventa um novo significado para o dress-code pobre e triste das corporações: ele não está na rua a caminho do escritório. Ali já é seu escritório. Nas ruas, o terno – inventado para padronizar, endurecer e esconder tudo, reunindo nos escritórios os que são da mesma tribo, de preferência falando e pensando igual – acaba sendo o grande elemento da distinção. Escancarando o quanto precisamos de padrões para poder viver, e aí a vida fica um tanto pobre. Ficamos surpresos com o terno do seu Carlos ali, no sinal. Porque, no fundo, temos a ideia de que quem trabalha na informalidade das ruas não precisa se apresentar bem para seus clientes.

Mas o biju. Feito de água, farinha de trigo e açúcar. Gosto nostálgico da boa infância na velha vila da Mooca. São Paulo, anos setenta. De repente, ouvia-se ao longe, na rua, o homem do biju chegando. Achava linda aquela mistura de matraca com pandeiro, o som era inconfundível. Nunca reparei direito no instrumento, mas devia ser coisa das mais simples e improvisadas. O homem (era sempre um homem, nunca vi mulher vendendo biju) começava devagarzinho, ritmado, teleque… teleque… teleque… e de repente o som crescia, tectectectectectec! Eu pedia dinheiro para minha mãe e saía correndo para alcançá-lo. Nunca mais vi um desses.

Diziam que era um cabo de vassoura que dava a forma ao biju. Eu achava a coisa meio nojenta, mas comia assim mesmo. Eu pensava que, de certo, eles lavavam o cabo da vassoura antes. E pronto. Fiquei sabendo que existe uma máquina que faz o biju ficar com aquele formato de canudo. O que, evidentemente, não tem a menor graça, já que o charme do biju é o seu artesanato, sua impureza, sua venda informal, sem nome de fabricante, nem prazo de validade, nem informação nutricional. Sem nos deixar saber se contém glúten ou gordura trans.

Sinto falta quando seu Carlos não está lá. O Balão da Bela Vista fica menos interessante.

coracao3

Está lá na plaquinha. Uma plaquinha tosca, escrita à mão com uma letra bem feia. Pendurada de qualquer jeito, num poste de um cruzamento qualquer, um arame aqui, outro ali. Contrariando todas as regras da boa propaganda.

Amarração para o amor
Trago a pessoa amada em até 21 dias
Pagamento após resultado

Mas não é que a plaquinha ordinária dá conta do recado?  Porque o sinal abre, alcanço o celular e ligo.

- Quer dizer que eu só pago depois que ‘tudo’ der certo?

A resposta, animada, vem rápido: É isso mesmo.

Penso. Então isso é melhor que satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. Porque nem precisa pagar agora, e talvez nem precise pagar depois.

- E os vinte e um dias?

Na ponta da língua: É o tempo médio que leva para acontecer, entendeu?

- Ah, entendi.

Encosto o carro. Pergunto como funciona. Varia de acordo com o caso, entendeu?

- Não, não entendi.

Do lado de lá, o homem tosse, Esse tempo seco mata a gente. Posso imaginá-lo, estava distraído e não esperava uma ligação comercial agora, apanha o caderno na gaveta e procura uma caneta. Continua, ligeiramente solícito: Eu primeiro avalio a situação com o tarô. Aí eu vejo se a pessoa que você quer está na sua. Se estiver, fica mais fácil, é só dar um empurrãozinho.

- Empurrãozinho?

O homem explica: É, um trabalho de ‘energias’, uns banhos especiais, ervas, orações, sabe como é? Agora, se a pessoa não estiver na sua, dá um pouquinho mais de trabalho. Se tiver outra mulher na parada, fica bem mais complicado, pode demorar mais. É para você mesmo?

Sou pega surpresa. Não é, mas se eu disser que não, ele pensará que é do mesmo jeito.

- Mas e os vinte e um dias…?

Ele tranquiliza: Geralmente, não passa disso. E explica a coisa das três semanas, as luas.

- Ahn, entendi. E se não der certo, não pago nada?

Aí o homem fica sério. Mas aí você há de concordar que foi feito ‘todo um trabalho’… Então vai ficar a seu critério, você vai fazer o que a sua consciência mandar. A gente é responsável pelos nossos atos, sabe? O que a gente pode aproximar, também pode afastar. Para sempre. Essa pessoa que você quer, ou outra…

- Claro, claro. Um minutinho só – peço – é que estacionei em frente a uma garagem.

Libero a passagem. E compreendo. O bote vem depois. Se a pessoa não pagar, vai se ver com Deus. Ou com o Diabo. Ponho-me a pensar em quem procura, de verdade, algo assim para sua vida. Não seria mais simples e charmoso ir pelas vias normais? Mesmo que elas não deem garantia de nada, somente da nobreza da tentativa. O bom e velho jogo da conquista, da sedução, a espera infinita. Ir lá, resolver a parada com a pessoa amada. E saber perder, se for o caso. Afinal de contas, um amor ‘amarrado’ à força servirá para quê? Num belo dia, a pessoa faz as malas e vai embora. Até explica que não é culpa do outro, mas que simplesmente o amor acabou. Expirou. Porque talvez a ‘amarração’ tivesse prazo de validade. Hora de renovar.

Pensando bem, quantas amarrações não devem ser feitas por aí, e a gente nem se dá conta? Pensando mais ainda, de onde virá o desejo de querer as coisas do jeito que se julga ser o melhor? Melhor para quem, afinal? De onde virá a necessidade do controle absoluto sobre todas as coisas? A batalha diária contra o cabelo enrolado. A frustração porque faz calor. A raiva porque faz frio, ou porque o vizinho fica na dele e não quer papo com você, logo você, tão legal. O emprego que não deu certo, Mas eu tinha que ser escolhido. Não, não tinha. O emprego não era seu, era de outra pessoa. Simples assim.

O homem quer saber: E então? Já que estou na chuva, vou me molhar mais um pouquinho. Afinal, estou adiantada. Pergunto o que é preciso. Fico sabendo que tenho que dar os nomes completos e as datas de nascimento. Você tem e-mail? Se você tiver fotos, pode mandar, que facilita.

- Facilita?

Ele explica: É que eu gosto de ver para quem eu trabalho. Eu vejo se vocês dois combinam, se eu achar que vai ser difícil, falo na hora. Eu digo que vou pensar, agradeço, aquelas coisas.

- Agora preciso ir, senão me atraso, sabe?

Ele tenta mais um pouco: Você quer deixar seu telefone?

- Não, obrigada, preciso pensar um pouquinho.

Sinto-me engraçada por ter levado esse telefonema até o fim. Então está bem, se precisar, é só ligar de novo. Fique com Deus.

- Amém.

Chego pontualmente para minha reunião. Na pauta, a aprovação de um anúncio, com previsão de uma longa discussão: forma versus conteúdo. Ou simplesmente: layout e mensagem. E sobre isso, agora tenho história para contar. Peço para fechar um pouco as persianas, esse sol está de rachar.

Dali Inspired ClockDois mil e cinco teve um segundo a mais. Naquele 31 de dezembro, um segundo – isso mesmo, um segundinho de nada – foi adicionado à véspera do Ano Novo, no caso, 2006. Dizem que isso foi feito para ajustar a hora com a rotação da Terra. E eu pergunto: o que você fez com esse segundo a mais? O que dá para fazer em um segundo, afinal? Bom. Em um segundo não dá para fazer muita coisa, propriamente dita. Você boceja e ele puf, já era. Mas um segundo pode significar a diferença – temporal, física, absoluta – entre tudo. A diferença implacável, determinante. É tempo suficiente para consolidar uma decisão – certa ou errada, talvez só se saiba tempos depois. Dá para perder alguém de vista na multidão. Ou para achar alguém, na mesma multidão. Dá para afagar um gato que se espreguiça no tapete. Mas aí o segundo vira minuto, que vira hora, ô delícia que é gato.

Mas o segundo. Dá para sorrir num segundo. Dá para soltar um pum. Um segundo basta para você acordar e esquecer completamente o que sonhou, Ah, como era mesmo? E o centésimo. Me diz quem é que descobriu isso, calculou, contou pela primeira vez. E quem é que se importa com essas coisas, além dos atletas? Um centésimo na frente e recorde mundial.

Um segundo pode ser a diferença entre cruzar com sua alma gêmea, ou, por outro segundo igualzinho, não cruzar. E aí continuar a viver procurando por ela, eternamente. Morre-se em um segundo. De tiro, de infarto, de porrada. Mas não se nasce em um segundo. As contrações, de cinco em cinco minutos, olha quanto segundo. Intermináveis. Em um segundo é sorteado aquele numerozinho que está faltando para você virar milionário. Ou para ficar na miséria, os cassinos. Um segundo basta para alguém escapar daquele vaso caindo de cima do prédio, como nos desenhos animados, bem na sua cabecinha. Um segundo para virar celebridade, o clique fatal. Agora me diz: se o nome é segundo, haveria um primeiro? E quanto tempo ele duraria?

A cada segundo, três pessoas nascem no mundo todo. Em 2005, então, fechamos o ano com três a mais no planeta. Em compensação, vinte e três morreram de fome durante o mesmo segundo a mais. A ONU diz que mais de dois milhões de pessoas morrem de fome a cada dia. É só fazer as contas. Naquele segundinho bobo, vinte e três fulanos, pobres e anônimos, morreram porque não comeram. E não comeram, não porque assim o quiseram. Vai entender o mundo, o segundo, o terceiro mundo.

Em um segundo dá para fugir de um assalto. Ou cair nele. Um segundo é o que a mãe de João Hélio precisava para ter mudado seu caminho naquele dia, Hoje vou por ali. E pronto. Ele seria apenas mais um Menino do Rio, tranquilo e feliz. Um segundo e você perde para sempre o trem da vida. Num segundo você diz sim. Ou não. Ou não diz. E transforma tudo. Ou nada. Ou em nada.

Ivan Lins escreveu em A Cartomante: “Cai o rei de Espadas, cai o rei de Ouros, cai o rei de Paus, cai, não fica nada”. Mas vem cá, e o rei de Copas?

 

Faz tempo, foi nos anos noventa. Eu trabalhava no jornal, e há muito já gostava de escrever. Vivia escrevendo coisas e juntando tudo numa pasta velha, Um dia passo tudo a limpo – hoje expressão démodé. Apesar da vontade, eu não tinha muita determinação em ser escritora. Mas um desejo eu tinha: escrever contos como a Lygia Fagundes Telles. Com aquela densidade. Aquela pontuação única e deliciosa, descrevendo os cenários, as pessoas e as almas das pessoas. Eu era, e sou, apaixonada por ela. Percebi melhor essa paixão quando amigos me ligavam para avisar que ela estaria em tal programa na tevê, ou traziam uma revista com ela, ou então quando me davam de presente algum livro dela, Você já tem esse? E eu tinha. Cheguei a anotar seu endereço. E ele ficou lá na agenda, sozinho, calado, platônico. Porque jamais intencionei uma carta, uma visita. Mas tê-lo significava certa intimidade, ainda que apenas para mim. Imaginava-a em seu apartamento, escrevendo e reescrevendo seus contos e romances. E linda.

Pois foi no jornal meu primeiro encontro e meu primeiro desencontro com LFT. Seis e pouco da tarde. Na portaria, eu aguardava minha irmã me buscar, como todos os dias. Enquanto ela não chegava, distraía-me com a Alameda Barão de Limeira e suas feiúras, a estética desconcertante da Boca do Lixo. A portaria de um jornal não dorme nunca, gente entrando e saindo, numa espécie de formigueiro. Mas com formigas especiais, as chamadas formadoras de opinião, o que era bastante diferente. Gente famosa, gente anônima. Importante e desimportante. Os esquisitos e os normais. Mais esquisitos do que normais. Notei um carro que estacionara bem à frente da entrada. Apesar dos vidros fechados e escurecidos pelo entardecer, era possível ver um casal. Conversavam uma conversa final, o passageiro desceria logo. Despediram-se com um beijo no rosto. A porta se abre, e quem? Ela.

Ainda que eu falasse das incômodas sensações que vivi naqueles instantes, nada descreveria meu quase sofrimento. LFT entraria no prédio em poucos segundos, e eu não sabia se me dirigia a ela ou não, afinal, falaria o quê? Oi, Lygia. Ela retribuiria com um sorriso, educada que só ela, os olhos ligeiramente apertados na tentativa da lembrança, Nós nos conhecemos? Mas como não haveria lembrança, e nada mais vindo de minha parte, ela seguiria seu caminho. Eu teria de ser rápida e engatar alguma conversa, teria de ser algo inteligente, algo que a fizesse parar e ter vontade de conversar.

Mas LFT já estava a dois metros, o quê exatamente eu desejaria dizer? Tanta coisa e coisa nenhuma, essa era a verdade. Diria que era sua fã? Coisa mais boba. Perguntar o que ela estava fazendo ali? Um atrevimento. Dizer que já havia lido todos seus livros? Ela, elegantemente, agradeceria. E seguiria. E continuaria com seus pensamentos. Pensei em estender a mão, mas ela poderia se assustar. Falaria de Virgínia, então. Lygia, Virgínia é você? Mas falar assim, no meio de nada, sem introdução, não faria sentido algum, mesmo se a resposta fosse sim (e eu sabia que era). Contaria da pena que senti de Kobold, o anão de jardim, a ponto de ficar com os olhos cheios d’água? Mas se ela estivesse atrasada… Ou se simplesmente não estivesse a fim de ser abordada naquele dia, me olhasse feio e apertasse o passo? Tudo acabaria ali.

E LFT a menos de um metro. Não me recordo se cruzamos os olhares em algum momento daquela sua caminhada, para mim interminável, e ao mesmo tempo de uma brevidade cruel. Respirei – acredito que pela primeira vez desde que a vira descer do carro –, e ensaiei dizer isto: Eu também gosto de gatos. Mas era tarde. LFT já estava lá dentro, aguardando o elevador, e eu jamais fiquei sabendo o motivo daquela sua visita.

Bienal do Livro no Ibirapuera, que ano mesmo? Peguei minha Ciranda de Pedra da velha estante e lá fomos, meu melhor amigo e eu. LFT estaria lá. Eu não queria ver nada além dela. Estava ali por um único motivo. A cegueira da paixão. Avistei-a em uma mesa, ela conversava com seu editor. Ambos de cachecol, ah como eu desejei ter ido de cachecol também. Só para fazer mimetismo.

Desta vez, ao contrário do primeiro (des)encontro, era eu quem me aproximava. Eu dominava a situação. Deixei o assunto dos gatos para lá, também não era hora para Virgínia, nem Kobold. Aguardei uma pausa na conversa dos dois, aproximei-me. Eu teria algo a dizer, enfim. Lygia, você pode autografar para mim? Ou: Lygia, este é o seu romance mais lindo. Mas veio dela o olá primeiro, arruinando tudo, e agora? LFT resolvera tudo por mim e sem que eu dissesse nada, perguntou meu nome e num gesto melífluo – e eu sei que ela gosta dessa palavra, melífluo – pegou o livro e o abriu sobre a mesa. Eu disse meu nome. Ela não entendeu. Repeti, já sentindo minha pele mudar a temperatura, a voz querendo embargar, o coração esquisito, minhas velhas e conhecidas sensações. Talvez por conta disso, ela novamente não entendeu. Foi como se todos aqueles livros ao redor desabassem sobre mim, todas as pessoas daquele imenso pavilhão assistindo à constrangedora cena, quase pude ouvir um Oohh coletivo e consternado. Não é um nome tão popular como Maria, mas também não é dos mais incomuns. Dona Angelina e Seu Antonio, naquele outono de 1967, pensavam no nome para a caçula, e escolheram um que combinava com os dos outros dois rebentos. Capricharam tanto que a primeira sílaba ficou igual para os três. Conheci poucas com meu nome, e até hoje soa estranho ouvi-lo chamando outra pessoa.

Foi quando me inclinei sobre seu ombro e repeti meu nome em seu ouvido, como quem conta um segredo. Ela murmurou, Ah… E pôs-se a escrever. Justamente na página onde ainda havia o preço do livro, escrito a lápis, que eu nunca apagara. As livrarias faziam assim antigamente.

Ela devolveu-me o livro com um beijo, que não pude sequer sentir, o rosto em brasa, o pensamento congelado. Não me recordo de mais nada daquela bienal, apenas tratei de seguir meu amigo. Apertei a Ciranda com força contra o peito, o medo que o autógrafo escapasse, as letras fugissem para o chão e desaparecessem no labirinto de livros. Até hoje não sei se por sinceridade ou compaixão, ela deixou-me o seguinte recado: Para a Silmara, lindo nome! Lembrança, Lygia Fagundes Telles.

Cara Cristiana, Pequena, mãe do Francisco, viúva do Guilherme e que tem tanta história para contar

Estou até agora tentando lembrar como achei você, e eu nem estava te procurando. Nunca tinha ouvido falar nada de você. Nadica.

Vou tentar reconstituir a última hora. Eu estava tentando achar o site do Café com Letras no Google. E Google é assim: sempre supera as nossas expectativas, e manda mais coisa do que a gente pede. Sei que fui clicando em “abrir link em uma nova guia” a cada coisa interessante que achava, que nem tinha a ver com o que eu queria. E acabei esquecendo o que eu realmente estava tentando encontrar. Mais ou menos como aquele quadro da Vila Sésamo – não sei se você chegou a assistir, eu sou de 67 e você deve ser de 70. Era uma garotinha (acho que o nome era Rosinha) que a mãe mandava comprar alguma coisa. Ela saía de casa e ia cantando, tiptitip-tiptitip, se distraindo com tudo, ora seguia uma borboleta, ora parava para conversar com um gatinho. E esquecia-se do que sua mãe havia pedido para ela comprar, e acabava comprando tudo errado. Chegava na padaria e pedia “pão de borboleta”. E por aí ia.

Mas o Café com Letras. Explico: o filho do meu marido mora em Beagá. (Costumo dizer que tenho três filhos: dois que saíram da barriga e um que entrou no coração). E de vez em quando vamos todos – nós e a cria – para lá, vê-lo. E sempre que vamos, fico na lombriga de ir nesse Café. Porque nunca consigo ir. Ou porque a caçula, que tem a idade do seu Francisco, acaba dormindo. Ou o do meio, um pouquinho mais velho, pede para ir brincar numa praça com a cara mais linda deste mundo, e quem resiste. Ou bate moleza em todo mundo e a gente fica ronronando no hotel. E como fomos para lá neste feriadão de 21 de abril, continuei na lombriga, ninguém quis ir comigo. Mas deixa estar. Da próxima vez eu vou, with or without them.

Achei o site do Café. Mas antes de ir lá dei uma paradinha no UOL Estilo, porque gosto da moda da moda (não digitei duas vezes, não). Depois, caí numa certa “Ameixa Japonesa”, que tinha um link para um certo “hoje vou assim”, mas que nome bacaninha! Lá fui eu, “abrir link em uma nova guia”, o browser já começando a surtar. E vi você. Cristiana Guerra. Confesso, de cara pensei: que mulher chata e feia, parece essas modelos que não comem. Puro arroubo de presunção, pré-conceito, essas coisas nada bonitas de se sentir. Fiquei encafifada com a palavra “Lápis” no topo das fotos, e continuei vendo os seus modelitos. E não é que a coisa era legal? Foi quando botei os olhos na capa do seu livro.

Não fui ver primeiro o blog que você fez pro seu filho Francisco (o menino lindo), que virou o livro. Resolvi dar uma olhada antes no que já tinham falado dele. Passei pelo site da Criativa. Da Ilustrada. Da Gazeta Mercantil. E de todos os outros. Li tudo com uma quase voracidade, fui ficando emocionada com a história. E não é que comecei a achar você bonita? Aí não teve jeito: abri o “link em uma nova guia”, para desespero do browser, que deixou todas as guias abertas tão pequeninas lá em cima. E cheguei ao blog. Lindo, lindo, lindo. Interessante como a gente é capaz de tirar o melhor de nós mesmos. E parece que até caprichamos mais quando pinta uma situação tão fora do script. Francisco tem sorte. E você está a milhões de quilômetros de ser chata. Além disso, tem a felicidade de ter pessoas boas ao seu redor. Estou falando daquelas que a gente vê e daquelas que a gente não vê, ficam flutuando por aí.

Resolvi ir dormir. Mas continuei intrigada com a palavra ‘lápis’ das fotos, então… só mais um pouquinho. A resposta estava ali, era só “abrir link em uma nova guia”, oras! Aí o browser ficou bravo e ameaçou acabar com tudo. Tive que fechar algumas guias, fazer o quê. Pois então Lápis Raro é uma agência de comunicação, vejam só. E de Beagá! Até então eu não tinha percebido que você era daí. Continuei a visita, vi os clientes, vi foto do pai do Francisco. Você ficou bonita de vez, e senti que era hora de escrever para você.

Como falei, passei o feriado de 21 de abril na sua cidade. Vi tantos anúncios da Unimed (cliente Lápis), em particular no telão do Mineirão, onde assisti no domingo o Cruzeiro vencer o Ituiutaba por dois a um – para delírio do marido, filho e enteado. Lembrei-me que a Unimed já foi cliente da ex do marido, que é jornalista. Talvez vocês até se conheçam. E comecei a repensar em toda a trajetória desta noite. Eu, que só queria dar uma olhadinha no site do Café Com Letras, acabei indo parar em coisas novas, mas que soaram tão familiares. Que estiveram pertinho de mim no dia de Tiradentes, que deu nome à cidade vizinha de Belo Horizonte, onde quero morar um dia, para juntar a família. Hoje vou assim. Francisco. Lápis Raro. Avenida do Contorno (casa da Lápis), por onde passei inúmeras vezes nesse feriado. Publicidade, comunicação – minha profissão há mais de vinte anos. Blogs fora do lugar comum. E fazer um, aliás, é minha meta, já que também estou nessa onda. Embora esteja trabalhando nisso bem aos poucos. Como já disse um ex: sou Touro com ascendente em Mula.

Ainda não sei bem direito porque, Cristiana, mas eu tinha que escrever tudo isso para você.

Um grande beijo,

(Cristiana recebeu esta missiva por e-mail. Respondeu três dias depois. Ficou de me levar ao Café com Letras.)

Eu estava em São Paulo. Mais uma daquelas reuniões de trabalho, onde a ida e a volta são mais interessantes do que a própria. Rodo pelo Itaim Bibi, tenho que estacionar em um hotel, nenhuma vaguinha na rua. Logo vem o manobrista, bato os olhos em seu crachá. Leio de novo, é isso mesmo? José do Ano.

Penso: se o dono do crachá demonstrar alguma simpatia, é praticamente impossível não puxar conversa:

- Seu José do Ano?

Ele abre um sorriso, não sei se de orgulho do nome, ou por conhecer a conversa que se seguirá.

- Eu mesmo, às suas ordens!

E a minha pergunta infame, previsível, instintiva, automática e boba: De que ano? Percebo na hora e tento consertar.

- Todo mundo pergunta isso para o senhor, não é?

- É… (o sorriso fica maior ainda, ele vai respondendo enquanto termina de preencher o canhoto)… e o pior é que faz anos!

A gargalhada explode espontânea, minha e dele. Aí José do Ano começa a contar. Nasceu em Palmeira dos Índios, sertão de Alagoas. Na virada de 1962 para 1963. Os Moura Lima comemoram, e o pai anuncia, Esse vai ser José do Ano! E avisa: Se o padre não quiser batizar, que não batize. Trago o menino de volta sem batizar, porque esse aqui tem que ser do Ano! E o padre batizou. E José do Ano veio parar em São Paulo.

Catedral de Palmeira dos Índios, AL

Catedral de Palmeira dos Índios, AL / Foto: Divulgação

Apesar de sertaneja, sua cidade natal não é das que mais sofrem com a seca. A seca de Graciliano Ramos que, embora tenha nascido noutra cidade, foi prefeito de Palmeira dos Índios em 1927. Talvez nem José do Ano saiba disso. Ele saiu de lá de ônibus para vir estacionar os carros dos outros. Como tantos Josés. Mas só o do Ano tem esse sorriso no olhar. Vontade danada de perguntar se ele é feliz aqui, se a família ficou por lá, se tem filhos, mas isso não são perguntas que se faça a alguém que se acaba de conhecer. E o momento não ajuda, pego o papelzinho escrito à mão e com pressa e vou para minha reunião. Ele continua manobrando, não para um minuto, um canhoto atrás do outro.

Passo a reunião pensando no José de 1963. Como será que teve a ideia de vir para São Paulo, terá sido o folclore da cidade grande? Qual terá sido sua primeira visão da cidade sem fim, sem índio e sem palmeira? Desejei que ele estivesse ali na minha volta, para continuar a prosa. Será que voltou alguma vez à cidade natal? Reunião encerrada, corro para o estacionamento. E José do Ano não está lá. Nas semanas seguintes, busco um motivo para retornar ao Itaim Bibi, mas não encontro. Descubro que o primeiro brasileiro a ganhar a Maratona de Chicago é seu conterrâneo. O motivo não é dos melhores, eu sei. Mas quando estiver novamente em São Paulo, passo lá para contar.

gato-fluorescenteFoto: Efe

Gatos que brilham no escuro. Não, não estamos falando daquelas figurinhas que vinham nos acotes de salgadinhos. A gente grudava na parede do quarto, apagava a luz e lá ficava a  figurinha. Brilhando.

Falo dos gatos que os cientistas sul-coreanos clonaram há uns anos. Dizem que os bichanos fluorescentes vão ajudar nos tratamentos para doenças genéticas humanas. Eles brilham somente quando ficam sob luz ultra-violeta, mas não resisto e fico imaginando a vida a partir da insólita experiência.

Você está lá, pronto para dormir, o gato vem chegando de mansinho e se aninha no edredon, você apaga a luz e… pimba. O gato acende. E fica lá, lambendo a pata e iluminando o quarto inteiro. Será o fim da indescritível experiência de dormir com gatos ao pé da cama. Quem tem medo de dormir no escuro, por outro lado, terá uma boa opção para lidar com a fobia, e de quebra esquentar os pés. Também estará encerrada a sorrateirice felina, uma vez que os gatos se valem do escuro e da visão privilegiada para caminhar por onde não devem e fazer coisas que seus donos não aprovariam, estivessem de dia. A cena: noite alta, céu risonho, o gato aproveita para zanzar pela pia à procura de algo interessante. O dono, insone, levanta-se de madrugada e vai andar um pouquinho, para ver se o sono vem. Lá do corredor vem a bronca: Sai já daí!

E agora, como fica a vida dos peludos, pilhados em suas atividades noturnas? Nos telhados, pontos de luz para lá e para cá. Um espetáculo. O que facilita a mira do balde d’água e do sapato, porém. No pet-shop, o anúncio: vende-se filhotes de gato, acesos e apagados. Qual será mais caro?

Definitivamente, os cientistas esqueceram de perguntar aos gatos se eles desejam brilhar no escuro. Se o tivessem feito, seriam persuadidos por eles (e gato é bom nisso) a fazer a tal experiência com ratos. Os gatos iriam adorar: menos trabalho para caçá-los. Ou então, os cientistas poderiam inspirar-se no belíssimo Um dia, um gato, filme tcheco da década de 60, e criar gatos que revelassem o caráter das pessoas. No filme, um gato mágico usa óculos e, se lhe tiram o acessório, as pessoas ficam coloridas, de acordo com seu caráter. O mentiroso fica roxo; o falso, amarelo, e assim vai. Isso sim, ajudaria no tratamento de muitos males desta nossa espécie.

Responder às perguntas do Oswaldo pode ser um surpreendente exercício.

Foto: Sara Hall / www.gettyimages.com

Kim

Me conta como é ser gato.

Porque gato não precisa fazer nada

Só precisa ir vivendo.

Não tem que apagar a luz ao sair

Nem acender ao entrar

Nem pagar conta

Nem ouvir gente chata.

Não tem que usar roupa

Nem sapato

Nem cobertor

Nem desodorante.

Muito menos sair correndo

Para tirar a roupa do varal

Quando começa a chover.

 

Kim

Me conta como é que reage um gato

A um assalto.

Olha tranquilo para o bandido?

Não altera um pelo

E lava a pata

E espera o tiro.

Ou nem sabe do tiro.

E quando ele vem

Morre-se, sem maiores delongas.

Mas vem cá: quem é que assalta gato?

 

Kim

Me diz como é ser gato.

Se é bom ou é ruim

Se tanto faz ou se tanto fez.

Ou isso é um engano danado

Das pessoas que pensam

Que não há nenhuma razão

Nas coisas que são e nas coisas que não são?

 

Kim

Penso, enfim, que ser gato deva ser um bom negócio.

Mas, me fala, gato é capaz de assistir a um bom filme?


poodle

Vira e mexe, aparecem aquelas faixas pela rua. Gente que perdeu seus bichinhos de estimação. Alguém viu o Totó por aí? Sempre presto atenção nelas, procuro decorar a descrição e ficar atenta. Mais gente deve fazer assim, pelo menos por alguns quarteirões. Mas depois a gente esquece e vai cuidar da vida. Como se tentar ajudar um bichinho que se perdeu a voltar para o carinho dos seus donos também não fosse cuidar da vida.

Gosto de ver como os donos descrevem os detalhes de seus amigos de quatro patas. Um é tímido, outro manca de uma pata. Tem os que precisam de remédios diários, o que me coloca numa aflição danada. Tem também a “criança doente”. Pode até não existir criança nenhuma na história, mas a mentirinha é do bem. Até topam pagar para ter o bichinho de volta. Maluco, visto que devolver um animal encontrado é obrigação, assim como devolver qualquer coisa que não lhe pertence. Alguns donos tentam ajudar na identificação, explicam que o cachorrinho é da raça daquele amortecedor, quem se lembra? Outros castigam a gramática: “Procura-se cão bigou“. Gosto de fantasiar que achei, assim por acaso, o Fox Paulistinha perdido, descrito na faixa perto da padaria. Tinha nome de filósofo, fugiu do petshop na véspera do Natal. Ligo e aviso: está comigo! Dou asas à imaginação e imagino um reencontro emocionante, lágrimas, latidos de felicidade e rabinho abanando.

Esses bichinhos se perdem tanto… Por vezes, são roubados. Difícil é entender alguém que rouba um animal que tem casa, donos, uma história. Achou aquele bonitinho? Então por que não adotar um parecido? Tanto bicho abandonado. Vai me dizer que aquele tinha alguma coisa de especial, como adivinhar o futuro?

Mas voltando às faixas: fico pensando se eles se perdem mesmo, ou simplesmente vão-se embora, querem é se pirulitar. Um tempo atrás, me chamou a atenção as faixas de poodles perdidos na cidade. Foram uns três, no mesmo mês, em bairros diferentes. O que me fez desconfiar de um movimento silencioso. Estariam os poodles se organizando e planejando uma fuga em massa? Basta das tosas ridículas, que os deixam com cara de algodão-doce. As patas peladas, compridas e finas, a bola de pelos crespos na ponta, num esquisito layout. A cabeça pequena, focinho fino e uma cabeleira enorme, toda enroladinha, igual às horrorosas permanentes que se faziam nos anos oitenta. Chega de roupinhas, enfeites na cabeça, luvinhas, sapatinhos. Fraldas! Esmalte para as unhas. Bizarrices mal inventadas e bem vendidas para pessoas que ainda não decidiram se querem animal de estimação, brinquedo ou filho. Bicho é bicho. E bicho precisa de amor, alimento, abrigo, vacina e respeito. Só.

Seria o início de uma revolução dos bichos, deflagrada justamente por eles, os poodles, símbolo maior do madamismo cafona de outrora, reivindicando uma maneira mais nobre de nos relacionarmos com os bichos? Seria a fuga um protesto para uma profunda revisão no entendimento dos animais? Não somente acerca de frufrus dos ditos domésticos, posto que isso é mero detalhe diante da coisa toda, mas da compreensão de seus papéis, ao lado de todas as outras espécies do reino animal, subjugadas século após século? Quem dera fosse o momento. Ficaria feliz em presenciar um movimento desse quilate. Acabo retornando aos meus afazeres. E continuo de olho nas faixas.

Dia desses, deixei as crianças na escola e parei para tomar um café na padaria. Ao meu lado, sentaram-se duas mulheres. Falavam alto, daí que foi impossível não prestar atenção. Uma delas, ruivíssima, suspirou: “Eu já procurei, não tem nada”. E a outra: “Se você não achou na internet, é porque não existe”. Adocei meu capuccino. Da janela, via o dia novo anunciando mais uma terça-feira ensolarada. E via também um senhor com dificuldades para estacionar seu carro na minúscula vaga entre um caminhão e uma caçamba, visivelmente irritado.

A frase grudou no meu pensamento. Quer dizer que agora é assim? Se não tem na internet, não existe. Concluo, entre aterrorizada e encantada, que o que não está na rede não pode ser dito nem pensado, porque não é. Como se só merecesse crédito o que pode ser varrido pelo Google. A internet, que virou veículo, ganhou poder e credibilidade, pode ainda ser uma coisa desconhecida para um bocado de gente, conhecida para mais um bocado e inacessível para outras tantas. Mas é inegável o papel dela na vida de outro bom bocado que passeia por ela procurando informação, trabalho, diversão, distração, dinheiro, amor, amizade, sexo, drogas, rock’n roll, ingresso para o cinema e receita de bolinho de arroz. Agora, a vida e o além da vida cabem numa tela. Simples assim.

Não digo que foi num clique, mas em vários, que minha irmã encontrou descendentes de nossa família, espalhados pelo mundo. Encontrei amigos do pré-primário. Amizades de mais de trinta anos atrás, tão preciosas, perdidas no tempo, porque cada um foi para um lado. Posso comprar tudo o que preciso, e o que não preciso também. Não vejo a cara do vendedor, não sei se é educado ou tosco, mas mesmo assim confio-lhe o número do meu cartão de crédito. Descubro nomes de músicas que sempre amei e nunca soubera o nome. Isso para ficar em apenas alguns exemplos. Na rede, quem não vê cara, vê coração e muito mais. Pois há médicos usando a internet para ajudar nos diagnósticos. Dentro da lei e da ética.

Vou terminando meu café e pensando no quanto o mundo está diferente. Imagino que se fosse composta hoje, a A.E.I.O.U. de Noel Rosa e Lamartine Babo hoje teria um terceiro dabliú na cartilha da Juju. Se aquele senhor lá do comecinho da história quisesse, poderia pedir ajuda nos buscadores: “como estacionar”. A resposta viria em 0,09 segundos. Tomé, o apóstolo que duvidou da ressurreição de Cristo, talvez hoje precisasse apenas ver no You Tube a cena, captada por alguém com um celular, para crer. E, no final das contas, John Lennon teria total razão em afirmar que os Beatles eram mais famosos que Jesus: bastaria comparar os resultados nos buscadores.

Hora de ir trabalhar. Pago meu capuccino, Tem troco para cinquenta? Fui embora pensando em São Tomé, na nova ordem mundial, e fiquei sem saber o que a ruiva queria encontrar.

OS TEXTOS PUBLICADOS SÃO DE AUTORIA DE SILMARA FRANCO. PARA REPRODUZI-LOS É PRECISO DAR O CRÉDITO (LEI FEDERAL Nº 9610, 19/02/1998). COMBINADO?

OS TEXTOS, MÊS A MÊS

TODOS OS COMENTÁRIOS SÃO RESPONDIDOS POR E-MAIL. ASSIM É MAIS BACANA.

Obrigada pela visita.

  • 59,025 acessos desde abril/2009