Ilustração: Josi Stanger, fiel leitora deste blog

Moça

Vamos encarar a verdade: chegamos, como a maioria dos casais (embora não sejamos exatamente um) àquele ponto onde é preciso discutir a relação. No nosso caso, microrrelação. Se na vida de um casal a crise leva algum tempo para se instalar, para nós bastaram o quê? Uns três encontros. A loja onde você trabalha é uma das minhas preferidas, e nas últimas vezes calhou de só você estar disponível. A sorte é que nós duas somos mulheres, temos a moda a nos unir, há de ser mais fácil o entendimento. Nosso planeta de origem, Vênus, é o mesmo e isso ajuda um bocado. Proponho, então, uma espécie de terapia – como a de casais –, onde cada uma expõe seus sentimentos. Eu começo, pode ser?

Primeiro: apesar de fundamental num relacionamento, eu não vejo necessidade de nos chamarmos pelo nome. Não há meio de eu decorar o seu. E assim você não troca mais o meu. Que não é Soraia.

Segundo: não há nada mais bonito numa relação do que um querer ver o outro para cima, feliz. Porém, devo tranquilizá-la: nem tudo fica bem em mim. Nem todas as cores me favorecem. Nem tudo ‘me valoriza’. Quatro décadas sob a ação da gravidade, dois filhos, carboidratos a mais e exercícios a menos têm seu preço. Conheço meus limites.

Terceiro: sinto que precisamos ter mais momentos em que não estamos juntas. Quando estou no provador, por exemplo. Aquela hora é só minha. Ali, desnudada, encaro detalhes que o velho espelho do quarto não dá mais conta de mostrar. Experimento um ângulo diferente, brinco com meu reflexo, me dou broncas, faço auto-elogios, traço metas, confiro a evolução da celulite, percebo que preciso limpar minha bolsa. Seria importante não ser interrompida com “Está dando certo?” ou “Posso ver como ficou?”. Eu não peço para ver tudo o que você está fazendo, peço? Então.

Mais alguns segredinhos. Quando termino minha compra, terminei mesmo. Entendo que talvez a mensalidade da sua faculdade dependa disso, mas não fica bem insistir com “Não vai levar mais nada?” e “Hoje é só isso mesmo?”. E eu juro: não faz diferença saber que vermelho está mais na moda que azul. Eu sempre vou preferir a cor que, no dia, combinar mais com a minha alma.

Por fim, não custa lembrá-la: eu não sou o seu bem.

Agora é a sua vez. Serei toda ouvidos.

Um abraço,

O Pequeno Príncipe que apareceu aqui outro dia, lá em seu planeta que não é mais tão miúdo, recebe emails. E, em meio aos seus baobás, rosas, raposas e corcéis, os responde.

“Silmara

Demorei a escrever pela necessidade de encontrar as palavras certas. Ainda não sei se as encontrei. Quando abri a sua crônica e comecei a ler, fiquei emocionado. Emocionado porque sei que o Corcel continuou conduzindo o pequeno príncipe até depois de sua mocidade. Emocionado porque sei que foi montado naquele Corcel que o pequeno príncipe viveu sua juventude, percorreu o mundo e desfilou com sua princesa até tornarem-se rei e rainha. Emocionado porque sei que, apesar de necessária, foi dolorosa a dor da separação entre o Corcel que já carregava as marcas do tempo e o pequeno príncipe, não mais “pequeno”, nem mais “príncipe”, que escondia as lágrimas. Por fim, fiquei um longo tempo pensando como, sem ter a menor ideia ou intenção, pessoas influenciam umas às outras para o resto de suas vidas. Não tinha a menor ideia de que tinha uma ex-colega de escola que escrevia tão bem. Sou muito grato a você por conduzir-me por alguns instantes ao terno mundo mágico do passado e da fantasia.

Bjs”

Foto: Jeff Belmonte/Flickr.com

A mulher com tatuagem de beija-flor preenchia o cupom para concorrer a uma viagem a Nova York. Espichei o olhar, gosto de ver a letra das pessoas. Ela escreveu seu nome completo, mas abreviou o do meio. E lá ficou o “M”, grudado num ponto bobo. Espremido entre o primeiro e o último nome. Maiúsculo, porém menor que tudo. Mudo. Morto.

Poderia ser de Maria, para homenagear a mãe de todos e conferir certa santidade à dona do nome. Mas tinha era jeitão de sobrenome. Martins, Miragaia, Medeiros, Mota, Miller, Mascarenhas, Macedo, Machado, Maciel Miranda, Menezes. Brinquei de adivinhar qual seria a dinastia escondida ali.

Herdado da mãe, o sobrenome do meio, quase sempre, é como zero à esquerda. Quando muito, é publicado por extenso na certidão de nascimento. Nos primeiros anos de vida ele ainda tem alguma força. Álbum do bebê, ficha do pediatra, carteira de vacinação. Aos poucos, porém, ele começará a desaparecer. E na etiqueta do material escolar ele já estará abreviado, mutilado. Ou simplesmente omitido. Economizando tempo, espaço e tinta de caneta ou cartucho. Apagando, lentamente, as pegadas dos antepassados. Calando, para sempre, a voz de seus ancestrais.

Sempre vi, em quem comemora mais efusivamente o nascimento de filho homem, um traço de machismo encardido. Um dia entendi que não é apenas isso. Para muitos, ele é a garantia de perpetuação do sobrenome. Ele nomeará os descendentes, que carregarão a marca da família adiante através dos tempos. Até que uma filha mulher interrompa esse ciclo.

Sobrenome do meio é que nem bicho em extinção. Com uma feroz desvantagem: ao contrário do tamanduá-bandeira, da arara-azul, do tatu-canastra, e até do beija-flor no ombro da mulher que queria voar para NY, nada pode ser feito. A cada ninhada de gente, a cada geração, ele se enfraquecerá. Por causa das fêmeas que, na maioria dos povos, não conseguem levá-lo adiante.

E quem liga?

Foto: Guenno/Flickr.com

Ontem vi um Corcel II, aquele carro antigo da Ford, estacionado em frente à padaria. Meu pensamento, como o ágil cavalo, deu um galope. Segurei suas rédeas com força e lá fui eu, de volta aos anos setenta.

No primário, havia um menino na minha classe. Loiro, olhos claros, ares de Pequeno Príncipe. Só tirava notas boas, sentava-se na primeira fileira, nunca esquecia o material, jamais faltava, sabia todas as respostas, era amigo de todos, sempre entregava os trabalhos no prazo, seu uniforme permanecia imaculado durante a aula inteira. Reinava absoluto no pequeno planeta do quadro-negro. E levava mesmo jeito para a nobreza: encarnou Dom Pedro I num desfile de Sete de Setembro na principal avenida do bairro. As professoras o idolatravam. Cansei de ouvir: por que nós, o resto da turma, não éramos como ele? Seus pais mantinham uma pródiga loja de calçados no pedaço. Hoje, não resta dúvida: foi sua família a grande inspiradora dos comerciais de margarina.

Um dia, na aula, vieram me contar. Ele havia dado um carro para sua mãe. Coisa fina: um Corcel II. Dourado, se não me engano. E, de acordo com as informações que circularam, ele o havia comprado com o dinheiro da sua própria poupança. As professoras, fãs confessas do menino-príncipe, foram ao delírio. Até hoje ecoa na minha mente a estupefação de uma delas: “Que homenagem mais linda! Vocês [nós] deveriam fazer o mesmo”. Imaginem só, um menino comprar um carro zero-quilômetro. Hoje isso ainda seria um feito. Calcule-se o que pode ter representado – para ele, sua mãe, seus vizinhos, o corpo docente da velha escola estadual – mais de trinta anos atrás. (Tenho cá para mim que a história talvez não tenha sido exatamente assim. Pode ser que ela tenha sido um pouco abrilhantada, com a ajuda de algumas ferramentas do marketing pessoal.)

Eu nunca dei um carro para minha mãe. Meus presentes e agrados para ela sempre foram mais singelos. Certa vez, eu era bem pequena e era seu aniversário. Abri sua gaveta, escolhi uma de suas blusas preferidas, que ela mesma havia comprado, fiz um embrulho bem bonito e a dei para ela. Ela achou graça, adorou. E eu nem corri o risco de errar o número. De outra feita, ela estava adoentada. Resolvi preparar-lhe um café com leite bem saboroso. Afinal, eu me sentia eternamente responsável por aquilo que, todos os dias, cativava. Aproximei-me de sua cama com a bandeja, orgulhosa. Ela o bebeu com gosto, elogiou e quis saber onde eu havia encontrado leite, se o da geladeira havia acabado. Respondi, com a maior naturalidade: na tigela do gato. Não me recordo do que aconteceu depois, só sei que não levei bronca alguma. Mães são outra categoria de ser humano. (A qual eu, em tese, pertenço, embora tenha perdido alguma coisa pelo caminho.)

Mas o Corcel II do Pequeno Príncipe. Não sei se desenvolvi um bloqueio psicológico a partir dessa experiência, mas o fato é que nunca consegui manter uma poupança. Já iniciei várias, todas prontamente encerradas diante da primeira oportunidade ou necessidade. Poupar não é comigo. Sinto uma tremenda inveja de quem tem algumas economias guardadas. Se, desde o dia em que nasci, o equivalente a um real fosse depositado numa conta, qual seria meu saldo quarenta e dois anos depois, com os devidos juros e correções? E todos os sapatos que comprei na vida, além do necessário, equivaleriam a quanto? Será que daria para comprar um carro para minha mãe? O que, no entanto, seria absolutamente inútil. Primeiro, porque ela nunca aprendeu a dirigir. Segundo, porque onde ela vive agora ninguém anda de carro. Estrela não tem rua.

Ilustração: Dots and Spaces/Flickr.com

Ela levava consigo tantas chaves.

Uma para fechar o tempo em casa.

Outra para fechar a conta no restaurante.

Uma para fechar aquele contrato.

Outra para fechar o boteco.

Uma para fechar o corpo em dia de terreiro.

Outra para fechar a boca e voltar a usar aquele vestido.

E mais uma, para fechar o coração para balanço

Só para descobrir

Com qual delas abriria os olhos.

Foto: Ponto e Vírgula/Flickr.com

Ela ficava no caminho dele. Ou ele no dela. Disputavam a calçada todos os dias, pontualmente às sete e vinte da manhã. Ela, enfermeira, apressada, indo trabalhar. Ele, aposentado, vagaroso, lavando a frente da sua casa. Ela, de vestido decotado e salto alto. Na bolsa, a roupa branca. Ele, de pijama e galochas. Na mão, a mangueira cor de laranja. Completando o cenário, a raiva muda dela por ele. E dele por ela, talvez.

Ela achava que ele não tinha nada que lavar a calçada todo santo dia. Um desperdício. E ele bem que podia recolher a mangueira quando ela estivesse passando, não? Quase sempre um esguicho lhe atingia os pés, as canelas. Uma vez, quase escorregara.

Ele morava só. E acordava cedo. Sem ter o que fazer, lavava a calçada. Durante horas. Aproveitava e regava o pé de hibisco amarelo no canteiro. Que era sempre o mais florido de todo o quarteirão. Houvesse algum carro estacionado por ali, ganhava um banho também. Os mais acostumados desviavam, caso não quisessem chegar ao trabalho ou à aula ensopados. Menos ela, que o enfrentava diariamente. O chato de galochas.

Numa manhã de segunda-feira estranhou. Notou a calçada: seca. Conferiu o relógio, mas que horas eram? Sete e vinte. Então não estava adiantada. Parou em frente ao portão, espichou o olhar lá dentro. Nada. Olhou em volta. Pediu com o olhar uma resposta ao dono da banca de jornal. Que, enquanto organizava as revistas recém-chegadas, limitou-se a menear a cabeça.

A ordem do dia fora quebrada. Sentiu-se perdida, como se à rotina matutina faltasse um pedaço. Não sabia se seguia seu caminho, se retornava, se aguardava, se tocava a campainha. Soube, então, a falta que o chato e suas galochas faziam. Ali, imóvel em sua árida solidão, como um cacto sedento em pleno deserto, conheceu a saudade do que não gostava, do que tanto lhe incomodava. Reconheceu e assumiu o prazer que sentia no tolo enfrentamento diário, no desafio infantil em escapar incólume da água, que lhe dava a força para encarar seus doentes.

Olhou para os hibiscos. Deu meia volta e foi até em casa. Três minutos depois, voltou com um balde. Esvaziou-o no arbusto, e deixou-o ali mesmo. No final do dia o recolheria. Apertou o passo. Vinte para as oito, já.

Ilustração: Silene/Flickr.com

Sábado em sol, a Cinderela saiu de casa bem cedo. Precisava de sapatos novos. Achava que os seus, de cristal, estavam meio fora de moda.

Na loja, surpreendeu-se: sapatos de todas as cores, modelos, materiais. Xadrezes, listados, de bolinhas, floridos. Altos, baixos, médios, anabelas, escarpins, plataformas, rasteiras. Sofisticados, despojados, clássicos, modernos. Todos, muito mais confortáveis que os seus. Cristal pode ser bonito, mas não é nada macio. Fica melhor em taças.

Pediu para experimentar um. O vendedor perguntou seu número, o que ela achou estranho. Olhou para os próprios pés e respondeu, confiante: “Dois.” O moço coçou a cabeça e arriscou: “Trinta e cinco.” Corrigiu o palpite, depois de um cálculo mental: “Não. Trinta e seis. Já volto.”

Enquanto aguardava, sentou-se na poltrona em frente a um enorme espelho. Olhava para seus sapatinhos refletidos. A ideia de trocá-los soou estranha. Estava a um passo, literalmente, de uma grande mudança na sua vida. Mais uma. A primeira havia sido na noite daquele baile. Com a ajuda das suas amigas fadas, ela ganhara aqueles sapatos mágicos, feitos sob medida para seus delicados pés. Agora, eles é que estavam prestes a se encaixar no que já estava pronto, existente, disponível. Como antes, enfim. (Embora essa espécie de retorno a deixasse feliz; agora a decisão era sua. ) Notou que os sapatos de cristal estavam duramente incorporados a si, como uma extensão de seus vestidos, pernas e pés. Não entendia como conseguira dançar tanto com eles, um dia. E, apesar de desejar intensamente um sapato novo, mais alegre e mais confortável, temeu não se sentir preparada para divorciar-se deles.

O vendedor desceu as escadas da loja equilibrando uma dúzia de caixas coloridas. Desabou-as na sua frente e, experiente, foi abrindo uma por uma, retirando o pé direito de cada par e os colocando diante dela. Havia ali tudo para qualquer personagem que desejasse ser. Ao contrário dos seus, que lhe conferiam eterna nobreza e perfeição, onde quer que fosse. Falante, ele comentou qual dos modelos estava vendendo mais, citou alguns desfiles da semana de moda, fez elogios, “Mas são pés de princesa!”. A cada modelo, ela se levantava e conferia tudo no grande espelho, levemente desanimada. “Não parecem ter sido feitos por uma fada”, murmurou. “Príncipe algum seria capaz de reencontrar sua amada, assim”.

Mas Cinderela estava determinada. Fez força e simpatizou com uma sapatilha azul-céu, feita em camurça. Sem salto. Uma borboleta verde-água enfeitava-lhe o dorso, ensaiando um voo. Mandou embrulhar. Aliás, melhor: já iria com elas. Seria um bom começo para abandonar aquela aparência sofisticada, porém frágil. Não precisaria mais temer trincar tudo por conta de um passo mais firme. Só não sabia como explicaria tudo ao príncipe. Ao sair da loja, teve uma ideia. Chamou o vendedor de lado: “Posso dar uma olhadinha na seção masculina?”

Ilustração: Thiago Carrapatoso/Flickr.com

Chama-se Praça de Alimentação. Mas poderia ser Festa das Nações, como aquelas quermesses de igreja, cheias de barraquinhas com comida típica de quase todos os cantos do planeta. Shoppings centers alteraram um bocado de coisas na vida das pessoas nas últimas décadas, e foram além: redesenharam o mapa-múndi – pelo menos no aspecto gastronômico – sob uma nova, interessante e apetitosa geografia. Nela, a Itália pode ficar ao lado do Japão, os Estados Unidos em frente à Arábia, a Alemanha vira vizinha do México. É a volta ao mundo em apenas algumas garfadas.

O mais interessante são os povos que circulam nessa pequena amostra de mundo. Todos falam a mesma língua, numa espécie de Babel ao contrário. Os comportamentos são parecidos, as afetações são gerais, a diversão é garantida. Embora eu faça parte desse microcosmo, por alguns instantes – meia hora, para ser exata – viro satélite. E vou capturando tudo.

Tem a turma do faz de conta. Faz de conta que não estão esperando aquela mesa vagar para saltar sobre ela com uma lança em punho, fincando nela sua bandeira. Faz de conta que não estão incomodados com a demora do casal que não termina nunca aquele cafezinho. Faz de conta que o refrigerante light vai salvar o estrago da lasanha. Faz de conta que eu acredito.

Tem a mulher que passa escolhendo o cardápio através dos luminosos, empertigada em seu traje de marinheiro. Terninho azul escuro, camiseta branca, sapatos bicolores azuis e brancos. Sisuda e séria. Barriga para dentro, peito para fora. Nenhum fio de cabelo fora do lugar. Seus passos são uniformes, como numa marcha. Instantes depois ela carrega com altivez sua bandeja. Mapeia o local e decide, estrategicamente, por uma mesa próxima à parede. Assim ficará de frente para o movimento, eliminando as chances de um ataque inimigo por trás. Senta-se e devora o filé à parmegiana com disciplina, condizente com as Forças Armadas. Mas em vez da Marinha ela poderia ter escolhido a Aeronáutica. Só para tirar um pouco os pés da terra, deixar as coisas voarem mais soltas, ao sabor dos ventos e, rumo às estrelas, descobrir que a Terra é azul.

Tem as Barbies. Moças que, se não nasceram iguais à boneca, foram dando um jeito pelo caminho. Embora algumas roupas só fiquem bem mesmo na original. Que não respira, não se mexe, não anda. Outras conseguem o impossível: ficar com a barriga incólume depois de um Número 1 com batata frita extra e meio litro de Coca-Cola. Só pode ser uma nova versão de Photoshop, que saiu dos computadores para a vida real. Como um spray, que pode ser levado na bolsa. Quem vai querer?

Tem o grupo de moças que reúne duas mesas para almoçarem juntas. Uma usa calça com cintura alta, quando não deveria. Outra veste blusa de um ombro só. O deslize: sutiã de alça de silicone. A bolsa de uma delas é Louis Vuitton, mas o sapato perdeu a validade há tempos. Enfim, entre as vítimas da moda, infelizmente algumas são fatais. Há poucas sobreviventes.

E tem a calça saruel. Oh, a saruel. A incógnita do início deste século. Se por um lado ela é uma celebração ao conforto e à liberdade de movimentos – a qual eu me rendo, sempre um pouco hesitante – por outro é uma quase afronta estética, um acidente. A saruel talvez seja o fundamento sobre o terceiro segredo de Fátima. Revelado antes da hora e, por isso, ainda incompreendido.

Tem a mãe que estaciona o carrinho do bebê, praticamente ocupando o espaço de outra mesa. Uma verdadeira extensão do quarto do pimpolho e da cozinha da família. Confiro os itens: uma mamadeira para água, outra para suco. Mais a de leite. O vidro com a papinha. O pratinho para a papinha. Um arsenal de babadores descartáveis. Dois travesseiros. Quatro brinquedos. Uma bolsa azul-clara de onde se tira tudo. E a mantinha, vai que o tempo vira. Ainda bem que tem rodas.

Tem outra de bebê. Sentada em seu cadeirão, a menininha tem um séquito de ajudantes para a mais simples das tarefas: comer. O avô segura-lhe o copo; o pai, o prato; a mãe faz o aviãozinho com a colher. Mas não há ninguém disponível para a única coisa que ela necessita, de verdade, naquela hora: pegar sua bonequinha que caiu no chão. É acudida pelo irmão mais velho. De três anos.

Tem o adolescente que pede dinheiro para o pai, quer um milk shake.  Ele se levanta e em dez segundos identifico, com extrema facilidade, cinco logomarcas na sua indumentária. Se ele fosse uma revista, seria remunerado para tê-las nas suas páginas. Mas ele ainda nem é um gibi.

Tem o casal que em meio a tudo – ou nada – promove um beijo longo e apaixonado, desses de cinema. Dá vontade de sentar na frente deles com um saco de pipocas, só para assistir. Eles não ouvem a sinfonia das latas de refrigerante se abrindo. Nem assistem a dança das cadeiras. A trilha sonora deles é outra.

Devo ser alvo de algum ‘satélite’, também. Talvez perguntem o que foi que comi, para rir sozinha e escrever tanto no verso do papel que veio na minha bandeja. Simples: sopa de letrinhas.

Ilustração: Karro Lean/Flickr.com

Dei para ter lembranças, verdadeiros flashes de memória. Assim, aleatórias. Do nada. Elas vêm e vão em fração de segundos, e eu preciso laçá-las – como se laça um cavalo manso, velho conhecido no pasto, porém ágil demais – se quiser revivê-las. Elas parecem desconectadas dos sentidos tradicionais, já que não têm nenhuma relação com o que estou fazendo, vendo, ouvindo, provando. Embora devam estar especialmente ligadas a algum outro, ainda incompreendido. É como se vivessem pairando pelo infinito e de repente um delas pousa. Ou re-pousa. Um amigo costuma dizer: tudo o que já aconteceu continua a acontecer, só que noutra dimensão; assim como o que ainda não aconteceu está acontecendo nesse exato momento, também em outra dimensão – daí as premonições, as vidências.

Tarde de domingo, lavo uns copos. E esta aqui surge num galope.

São Paulo, Pátio do Colégio, seis e meia da manhã de algum dia entre 1986 e 1988. O sol despontava amarelando as antigas construções, preservadas aqui e ali como foi possível. A cidade acordava aos poucos e alguns madrugadores, como eu, também já haviam começado seus dias. Era nesse cenário que eu esperava o 408, trólebus marrom, silencioso e confortável, que me deixaria na faculdade vinte minutos depois. A linha existe até hoje: Machado de Assis/Cardoso de Almeida. Apesar de eu detestar, com todo afinco, estar em pé àquela hora, não houve como não me encantar com a cena. Duvido que algum daqueles madrugadores se lembre. Talvez nem o sujeito da história, caso seja vivo. Se bem que verdade seja dita: eu não o vi. Eu o ouvi. O silêncio da manhã fora quebrado por uma voz de homem, voz ainda moça, aguda e afinada, forte, porém suave, inaugurando o dia numa velha canção que ecoou pelas ruas estreitas onde, séculos antes, a cidade nasceria:

Toda manhã, pela manhã

Abra a janela, faça sua lei

Dê viva ao sol

Que ele é nosso rei

Ele cantava só esta parte, ou foi então somente o que guardei. Gosto de pensar que era um travesti retornando ao lar após uma noite de trabalho e diversão, homenageando o sol que surgia. E não vê-lo conferiu ao que construí posteriormente como lembrança um mistério extra. Feito mágica, sua voz, favorecida pela acústica das ruas ainda semidesertas, acordou os pombos, os paralelepípedos, os prédios velhos e sonolentos. E se viesse do céu? Ou de dentro do colégio? Quem sabe era a alma perdida de algum jesuíta nostálgico. Ou de um índio resistindo ao catecismo, lembrando que seu Deus, seu rei, era outro. Que, no fundo, era o mesmo. Só que nenhum dos dois sabia disso.

O homem parecia caminhar em direção à Praça da Sé, que fica ali ao lado. Sua voz foi ficando distante. Vez por outra o vento a trazia… Dê viva… de volta ao pátio… Sol… Até que … Nosso rei… silenciou por completo e o 408 chegou.

Está bem, está bem. Uma cena dessas com trilha sonora de Benito di Paula talvez não tenha tanto charme. Fazer o quê. Mas se um dia eu fizer cinema, ela estará lá, na íntegra, tal qual eu a registrei no pensamento. Juro que vai ficar linda.

Ilustração: Douglas Baulos/Flickr.com

Lugar de pulga não é atrás da orelha. Quando ela surge, parece sempre deslocada, incômoda, indesejada, estranha. O sujeito fica doido para se livrar dela, mesmo sem compreender como é que ela apareceu ali.

Ela pode ter vindo do gatinho na rua, aquele que você parou tudo só para fazer um cafuné. Coisa que um inseticida qualquer resolveria. Há pulgas, porém, que nada dão jeito. São aquelas que vêm por outras vias, menos concretas, como telefonemas, emails ou conversas pela metade. As que são trazidas por outro tipo de parasita, como a Dúvida. Que é da mesma espécie da Incerteza, família da Insegurança.

Sinais de pulga por perto: a empregada dizer que não veio trabalhar o dia inteiro porque foi ao médico. O técnico falar que o conserto vai deixar a máquina de lavar roupa (que tem quinze anos) “novinha em folha”. O shopping anunciar uma liquidação com descontos de até 70%. O chefe sondar se você já comprou passagem para as férias. O namorado adoecer gravemente horas antes do aniversário daquela sua tia que fala pelos cotovelos. (Receber zero comentário para “Os órfãos”.)

Daí para a orelha é, literalmente, um pulo. Instalada, a pulga é capaz de fazer pequenos estragos, como abalar a confiança, acabar com a paz, minar um relacionamento. Além da coceira infernal, que sucede o que chamamos de fim da picada.

Para acabar com as pulgas atrás da orelha, vale tudo. Dedetizar as ideias, de modo que bicho nenhum – inclusive minhoca – chegue perto. Conversar abertamente, olhar no olho, dar tempo ao tempo. Ou nada disso: um bom banho e pronto.

Ilustração: Eurritimia/Flickr.com

Faltavam dois minutos. Acelerei, passei o sinal vermelho, ultrapassei um ônibus, virei à direita e entrei no estacionamento. Apertei o botão, retirei o cartão, a cancela se abriu, engatei a primeira. Voei até a locadora e… fechada. Como, se ainda faltava um minuto?

No meu relógio ainda não eram onze horas. Mas na locadora já devia ser. Lojas têm um fuso diferente – estão sempre adiantadas. Já perdi a conta de quantas vezes uma porta se fechou diante do meu nariz, enquanto do outro lado alguém com um sorrisinho misturando pena e ironia apontou didaticamente para uma placa com os horários de funcionamento, ou então fez um gesto com as mãos mostrando que já encerraram por aquele dia – numa mímica cruel – e em seguida desviaram o olhar.

De volta ao carro, olhei para os DVDs no banco do passageiro e calculei a multa. Uma ninharia, perto do desaforo de retornar com eles embaixo do braço. Por conta de um minuto. Ou nem isso. Já na saída do estacionamento, lembrei-me que a locadora poderia ter Quick Drop. A gente nem precisa entrar, devolve tudo lá de fora mesmo, através de uma espécie de portinhola. O DVD escorrega por uma canaleta e pronto. Está devolvido. Antigamente o método era um pouco constrangedor, dependendo das instalações: todos na locadora – funcionários e clientes – eram ‘avisados’ de que alguém devolvera seus filmes. Uma barulheira.

Esperançosa, dei a volta no quarteirão e entrei novamente no estacionamento. Apertei o botão, retirei o cartão, a cancela se abriu, engatei a primeira. Tudo precisamente idêntico à cena de, quanto?, uns dois minutos atrás. Mesmos movimentos dos meus braços, mãos, cabeça, olhos. Mesmo carro, mesmo som do mesmo motor, mesmo abre-fecha da cancela. Era uma cena nova, de fato. Incrivelmente velha, conhecida e usada, porém. Um rapaz, recostado a um pilar ao lado da cancela, certamente desde antes da minha primeira entrada e, tendo percebido a repetição, assistiu à segunda com certo assombro inicial. A baforada de seu cigarro foi interrompida, sua boca permaneceu no movimento de quem pronuncia a letra “o” e seu olhar, incrédulo, me seguiu. Deve, por um instante, ter pensado com sua bituca se estava a ver coisas. Ri.

Quem assistiu “O feitiço do tempo” – filme antigo e instigante – já deve ter posto a imaginação para trabalhar e deu continuidade à história. Verdade seja dita: é sempre um divertido exercício, tremendamente inspirador, esse de pensar na repetição constante de um dia e de todos os fatos que se desenrolam nele. Sempre do mesmo jeito. À mesma hora. Nos mesmos lugares. Com as mesmas pessoas. Sob os mesmos propósitos, conscientes ou não. O que se tira disso é impressionante, ainda que somente sob um aspecto: misture-se o azul e o amarelo e sempre se terá o verde. Não adianta querer que dê roxo. Adicione-se água à terra e sempre se terá o barro. Assim é com as nossas ideias. Relacionamentos. Planos. Roupas. Comidas. Casas. Gostos. Passeios. Atitudes. Sonhos. Opiniões. Trabalho. Dinheiro. Saúde. Fé. Para tê-los diferentes dos nossos velhos conhecidos, não tem jeito: as fontes, as referências, precisam ser outras.

Meu dia (ou meu filme) escapou do feitiço do tempo e mudei o final da história. Afinal, a locadora não tinha Quick Drop.

Ilustração: NDroae/Flickr.com

Não tenho dúvida: deve haver algum sentido em você. Quando você surgiu na minha frente ontem à noite, sem aviso – é sempre à noite, e sempre sem aviso – um frio percorreu-me de cima a baixo. E nada era mais urgente do que meu instinto ancestral de autoproteção e o desejo absoluto de ficar longe, muito longe.

Ineditamente, contemplei você. E você deve ter feito o mesmo comigo. O que não pude assegurar, seus olhos sem órbita parecem olhar para tudo e para nada. Na verdade, foram suas antenas que detectaram a minha presença na varanda, antes mesmo que eu detectasse a sua. Nisso você sempre leva vantagem.

Deus costuma falar com a gente através das parábolas. Elas são práticas, lúdicas e eficazes para transmitir ensinamentos. Você é uma parábola em si, Barata. O problema é que ninguém entende a sua palavra. A palavra muda de um inseto, com o perdão dos termos, barato e ordinário que representa os mistérios insondáveis da criação do universo. Um raro exemplo de obstinação e coragem, com essa sua mania de seguir vivendo a despeito do que pensam de você.

Deus também escreve certo por linhas tortas. Sua existência é uma linha torta – como aquela que você fez do banco até o jardim – e nela deve existir alguma certeza, ou sabedoria. Estar no planeta há quatrocentos milhões de anos, antes mesmo dos extintos dinossauros, é fato nada prosaico. Nojento, contudo.

Costumo dizer à minha filha, nos seus medos dos insetos em geral: “Eles têm mais medo de você do que você deles”. O que, evidentemente, não vale quando é você na história. Embora você não tenha me enfrentado, tampouco me ignorado, você não fugiu com muita convicção. Como se já me conhecesse. Ideia que garantiu nova náusea, pondo de novo aquele frio a me percorrer. Se acaso eu lhe perguntasse, Barata, “Nós já nos vimos antes?”, qualquer que fosse sua resposta, eu não acreditaria. Todo mundo sabe que você é mentirosa. Aquela história das saias de filó, anel de formatura, sapato de veludo, cabelo enrolado. Você mente para ser aceita. Até você sofre com os padrões sociais e de beleza. Existe barata gorda?

A verdade é que ontem, por instantes, eu não desejei aniquilá-la com minha supremacia. Pensei no Deus das parábolas e das linhas tortas e em qual seria a mensagem dele através de você, do seu layout, a sua missão. Porque vamos ser sinceras: ninguém gosta de vocês. Existem algumas histórias que lhe conferem alguma utilidade. Outras, de tão bizarras, eu prefiro acreditar que não passam de ficção. Como será ser um bichinho tão detestável? Terão as baratas auto-estima? Como você reage a tanta rejeição? Talvez sua resposta seja a mais contundente e audaciosa, dada sob aquele seu repugnante movimento de antenas, para que a humanidade inteira a ouça: “Eu sobrevivo a uma hecatombe nuclear”. No que eu replico imediatamente: “Mas não a um chinelo”. Pá.

Boneca reborn | Foto: Tea Drinker/Flickr.com

– Ficaram apertadas, tem trinta e oito?

Estava na vigésima segunda semana e seus pés não entravam em quase mais nenhum sapato. A tia, autora do presente e mãe de cinco filhos, deveria saber disso. Mas não sabia. Ou não se lembrou. Certas recordações da gravidez parecem ir embora com a placenta.

Aproveitou e calçou as sandálias novas ali mesmo, na loja. Pediu para embrulhar suas sapatilhas, naquela manhã notou que também já não lhe serviam mais. Antes que o vendedor as levasse, despediu-se delas: Quem sabe nos veremos no outono. Estranhou ver suas sapatilhas floridas, tão envelhecidas, naquela caixa nova. Elas, que ao longo dos meses, quando os primeiros inchaços surgiram, aprenderam os novos contornos dos seus pés. Elas, cujas rosas também já haviam mudado de tom, tal qual numa roseira. Era como se duas irmãs solteiras que viveram a vida inteira juntas na mesma casa fossem, de repente, morar em um apartamento novinho em folha. Os cheiros – de gente velha e de casa nova – não combinariam. Haveria certo estranhamento no início. Mas, pelo menos, teriam uma a outra. Por via das dúvidas, saindo da loja, abriu a sacola e as tranquilizou: Em casa coloco vocês de volta no armário.

Os corredores do shopping estavam lotados. Mais trocas que vendas, depois do Natal é sempre assim. Parou para comprar uma garrafa de água. Precisava descansar um pouco. Enquanto aguardava o troco, viu a loja. Aproximou-se. Na vitrine, pequenos bonecos imitavam, à perfeição, bebês recém-nascidos. Dispostos em graciosos e enfeitados bercinhos, as miniaturas humanas a assombraram: as bochechas meio amassadas como convém a quem, há pouco, deixara o útero constrito; os olhinhos ainda se acostumando à luz; os cabelos desgrenhados devidamente ajeitados sob toucas de lã; a pele arroxeada, as veias, as rugas, a lanugem. Pequeninos corpos de plástico, ainda encolhidos sob as amplas vestes de algodão. Lembrou de seus pés nas antigas sapatilhas, renascidos agora nas novas e espaçosas sandálias.

Ela nunca havia reparado naquela loja. Devem ter nascido no Natal, como Jesus Cristo – pensou. A vitrine era como um berçário de maternidade, daqueles que exibem os neonatais para parentes orgulhosos e curiosos de plantão. Com a diferença de que os recém-nascidos da loja não tinham mãe. Nem pai. Nem parente. Nem ninguém. Eram órfãos. Gerados pelo vinil e pelo silicone – não pela pomba, nem pelo espírito santo –, paridos na manjedoura de algum artista plástico, sem direito às vacas para lhes aquecer, como no presépio. A loja, na verdade, era um imenso, triste e gelado orfanato.

Apertou as mãos contra a barriga e, movida por uma dolorida piedade, entrou na loja e pediu para ver a menininha na ponta da vitrine, embrulhada no xale lilás. Aquela, que sugava o polegar. Ajeitou-a com cuidado no colo e, sabendo que deveria estar com fome, afastou-lhe carinhosamente o dedinho da boca, abriu a blusa e ofereceu-lhe o seio.

Ilustração: Lisa Rupp/Flickr.com

Imagine que o último dia do ano virou o primeiro. E, um dia após o outro – ou um antes de outro –, você chegou ao último, que é o primeiro. Diz: daria ou não daria para fazer diferente? Vamos lá. Eu ajudo.

No dia primeiro de janeiro você achou que teria um ano comprido pela frente, sem mesmo conseguir vislumbrar o último dia dele, de tão distante que ele parecia. Você não caiu na arapuca de escrever uma lista imensa e inútil com grandes – e complicados – objetivos para o ano novo, mas mesmo assim se deu o direito de pensar como seria bom dar conta de realizar uma coisinha ou outra.

No dia trinta e um de dezembro você sabe, de cor, tudo o que viveu e principalmente do que não viveu durante o ano. Você não ganhou na Megasena, não atualizou o seu currículo, não foi ao teatro uma única vez, não usou aquela calça nova que ainda está no armário, com etiqueta e tudo, porque acha que não combina com nada. Não abriu uma poupança para seu filho, nem fez o seu plano de previdência, não renovou suas lingeries, que só não estão mais esgarçadas que as suas toalhas de banho, não estreou o forno de pizza que custou uma fortuna e desalojou as azaleias do jardim, não foi ao dentista e não visitou seu padrinho que, pelo andar da carruagem, não estará aqui no ano que vem. Resumo: tirando a Megasena, que não depende da sua vontade, você descobre que só pode ter passado o ano dormindo, para não ter feito nem um décimo das coisas simples – de novo: simples – que foram surgindo na sua agenda mental, dia após dia.

É aí que entra o exercício. Diferente de uma simples retrospectiva, que só relata os fatos, o negócio é repassar o ano, tentando descobrir onde foi que as coisas empacaram. Vistas assim, da perspectiva do depois para o antes, o resultado é assombroso: praticamente nenhuma justificativa pára em pé. Isso se existir alguma.

Você está com sorte: ainda tem um dia. É como se fosse dois de janeiro. Dá tempo de você se pegar no pulo o ano inteiro.

Ilustração: Juan & Diego/Flickr.com

Pior que fazer aniversário em 24 ou 25 de dezembro, é fazer no dia 26. Se no primeiro caso já se corre certo risco de ser esquecido, no segundo é batata. Quem nasce no Natal pode ter a sorte de ouvir “Parabéns a você” junto à “Noite feliz” – com coro puxado só pelos parentes de primeiro grau. E olhe lá. Quem nasce no dia 26 está fadado a não ter festa, nem presente. Porque a festança foi há algumas horas. Sobram pouca energia, disposição e champanhe para o dia 26. O que sobra é comida. Requentado ou ‘transformado’, o resto do peru vira o prato principal do almoço do aniversariante. Para complicar, 26 de dezembro está a apenas cinco dias de outra festa, o réveillon. Nesse intervalo insípido, o nascido nesse dia tem duas opções: acostumar-se a passar seu aniversário em branco ou conformar-se em antecipá-lo e dividi-lo com outro aniversariante. Muito mais famoso.

Em 2009, 26 de dezembro caiu num sábado. E sábado logo após o Natal não é dia de fazer ou se preocupar com muita coisa. Exceto se a roupa branca para o ano novo está em ordem. Já eu, nesse dia, saí de casa com uma missão: encontrar um chapéu florido para minha filha. Pedido feito junto ao primeiro abraço do dia, ela ainda de pijama, olhinhos semiabertos de sono e preguiça. Como é que eu poderia lhe negar? Na busca, parei em frente a uma vitrine. Recostada junto a ela, uma moça de cabelos longos. Muito brava. Braços cruzados, telefone encaixado entre cabeça e ombro. Alternando entre a tristeza e a cólera, ela colocava seu interlocutor – namorado, suspeitei – na parede: por que não poderiam se encontrar naquela hora? Então não almoçariam juntos? Ela estava morrendo de fome. Bufou, fez muxoxo, olhou desesperançosa para o céu, afastou por um instante o telefone do ouvido para não ouvir a ladainha do lado de lá. Encerrou a conversa, irritada: Mas hoje é meu aniversário! Mais que fome de comida, a moça tinha fome de comemorar seu nascimento como fazem as pessoas de seis de abril, dezenove de agosto, trinta de outubro.

Eu imagino como você se sente, moça. Tanto dia para nascer. Talvez venha daí essa sua simpatia inconsciente pelo parto cesáreo. E sua antipatia gratuita pelo Papai Noel. Confesse aqui para mim: seu namorado estava lavando o carro, não estava? Sábado é dia de lavar carro.

Encontrei um chapeuzinho bem bonito, com delicadas florzinhas cor de rosa e lilás. Não serviu, ficou pequeno. E não deu vontade de ir trocá-lo. Deu foi pena de você, moça dos cabelos compridos. Sei não. Mas acho que, no fim, você levou um chapéu do seu namorado. Sem direito a flores.

Cresci numa rua chamada Natal. Feliz.

Ilustração: A.K.M.Adam/Flickr.com

Essa é para deixar Cronos, deus do tempo, meio lelé. No mínimo, confuso.

Tanque quase vazio, parei para abastecer o carro. Aproveitei para espiar a lojinha que há no posto. É um pequeno atelier de artesanato. Na porta de vidro, a placa informa:

A Jussara, ou simplesmente Juca, é quem comanda o lugar e faz tudo o que está à venda nele. São objetos de decoração simples e caprichados, como uma luminária de parede em forma de pipa – ou papagaio, quadrado, raia, pandorga – com direito a uma rabiola comprida, feita de retalhos coloridos. Dá vontade de sair empinando. Mas interessante mesmo é a placa. O expediente ali tanto pode ser das oito às cinco, como das dez ao meio dia. E, entre os dois, muitas possibilidades. Tudo depende.

Metáforas à parte (pois se todos resolvessem trabalhar dessa forma o mundo colapsaria), o bom humor da placa revela: ali trabalha uma pessoa dona do seu nariz. Alguém que recusa o sutil convite para se encaixar na fôrma e, mesmo assim, é capaz de uma produção com valor cultural e comercial. Vamos confessar: por mais que você ame sua profissão, tem dias que a última coisa que você gostaria é de ir para o trabalho. Ou, pelo menos, não na hora que inventaram para ele.

Vá lá: horário é importante. Para registrar nascimento e morte, almoçar, jantar, ir à missa, à escola, ao médico, pegar ônibus, avião, ver novela. Sem horários, é caos na certa. A Juca deve perder freguês e negócio de vez em quando. Talvez não viva somente do seu artesanato. Mas, ao que tudo indica, ela sabe seu ritmo, dirige a sua vida e não deixa ninguém lhe tomar a direção. Quem sabe o ideal fosse o meio-termo. Nem tanto o céu, nem tanto a terra, mas na altura das pipas. Um pouco mais ao sabor do vento.

A foto da placa foi feita com o celular. Infelizmente, não ficou com muita definição. Mas tudo bem: faz de conta que é para combinar com os horários do atelier.

Foto: Luc De Leeuw/Flickr.com

A moça passou sorrindo. Sua camiseta avisava: I am good at being bad. Também sorri. Mas não para ela. Vai que era uma t-shirt autobiográfica. (Se bem que. No fundo, todas são.)

Há quem tenha, de verdade, vocação para a maldade. Minha avó era ótima em ser má. Quando eu era criança, cansei de vê-la afogando gatinhos, sem dó, assim que a gata dava cria. Movida pela determinação de conter a população felina em casa, e – ninguém me convence do contrário – também por prazer, ela conduzia o ritual de sacrifício no mesmo tanque em que nossas roupas eram lavadas. Poucos escapavam. De tempos em tempos, ali se tornava o cenário de outra espécie de purificação. E, apesar de sentir uma pena imensa dos indesejados recém-nascidos, eu não tinha poder para impedi-la. Consternada, assistia à morte deles com (dolorida) naturalidade, embora soubesse que havia algo muito ruim naquilo.

To be bad, porém, não é qualidade exclusiva de gente grande. Crianças, especialmente quando no bando, também podem ser cruéis e muito boas em escolher o objeto-mirim da sua maldade. Inclusive, em cenários acima de qualquer suspeita, como a escola. Elegem para afogar no mar da intolerância quem está acima do peso ou abaixo da média na altura, o pobre, o tímido, o feio, o sensível e até o que não é nada disso, mas tem o azar de não contar com a autoestima blindada.

E quem disse que to be good at being bad só vale para terceiros? A auto-sabotagem, embora um pouco menos famosa, é igualmente danosa. Talvez, a mais difícil de identificar – e combater. É quando a gente sempre arruma uma desculpa para deixar de ser feliz. Vai repetindo padrões tão velhos quanto o mundo, que levam sempre aos mesmos lugares e frustrações. Até o dia em que se descobre mergulhado no oceano profundo da auto-sacanagem. Morrendo lentamente pela falta do ar. Como os gatinhos no tanque. Com a diferença que esses, de fato, não tinham escolha.

Foto: detalhe da estátua de Borba Gato, Augusto Gomes/Flickr.com

A Dona Antonia morava na casa quatro. Nós, na um. Ela costumava receber visita de uns parentes que moravam em Santo Amaro. Eu tinha a maior admiração por eles. Quando o carro entrava na vila, eu ia espiar pela janela do quarto dos meus pais. Era um carro lindo – eu achava que eram ricos – e podia vê-los desembarcando. Os parentes. Tinha sempre uma ou duas crianças, talvez sobrinhos, que de vez em quando brincavam conosco. Mas eram forasteiros, crianças muito diferentes de nós. Lembro de acreditar que eles deveriam ser melhores que nós em tudo. O carro do pai deles era melhor. Assim como as roupas que usavam. A casa. A escola, então, nem se fala. Só não me lembro deles. A lembrança que tenho é coletiva, como uma entidade – eram só “os parentes de Santo Amaro”. Bom mesmo deveria ser morar lá. E não na Mooca. Pensava: criança de Santo Amaro certamente podia comer Flan Dany todo dia.

Para mim se tratava de um lugar muito, mas muito distante. E não a apenas dezessete quilômetros de casa. Tudo é longe quando se é criança. (Preciso lembrar-me disso quando, na viagem, meu filho pergunta Mãe, já está chegando?) A gente vai crescendo e o mundo, encolhendo. O meu tem ficado cada vez menor. Tudo me parece logo ali. O pior é que nele também não está cabendo mais uma porção de coisas que cabiam antes.

Quando descobri que Santo Amaro, além de não ser tão longe assim, não era um reduto de gente rica, nem um lugar fantástico, senti uma tristeza e alívio imensos. Então era ali que eles moravam? Só faltava ser perto da estátua do Borba Gato. Que, além de horrorosa, foi erguida em homenagem a um bandeirante paulista não tão nobre quanto se fez acreditar.

Tantos anos e quilômetros depois – cento e dezessete, para ser mais exata –, até hoje quando passo ou leio alguma notícia de lá, é dos parentes da Dona Antonia que me lembro. A força do mito.

Ilustração: Rami Efal/Flickr.com

Só comia frutas que tivessem jota. Maracujá, jabuticaba, caju, jaca. Recusava, sem constrangimento, qualquer outra que não cumprisse o requisito. Acreditava que a letra representava a juventude que queria perpetuar. A família tentou sugerir as frutas com gê, que, às vezes, têm som parecido. Assim o genipapo entraria para o cardápio. Quem sabe não se animaria, e aceitaria a goiaba e a manga também. Sem sucesso. No prato pronto, separava jota de não-jota, e por vezes a salada de frutas se resumia ao suco da laranja. A mãe brigava, tirava a mesada, proibia o futebol. O médico tratava de sossegar a família: doente, o moleque não ficaria. A esperança era que a mania passasse. Não passou.

Começou a namorar. Mas a moça teria que ter ême no nome. E já na primeira letra. Igual Maria, a mãe de todos. Era a mania se sofisticando. Aos onze anos, a primeira namorada: Marta. Três anos mais velha, mudou-se com a família para estudar em outra cidade. Logo apareceu Melissa. Com Melissa ia se casar. Mas Melissa tinha doença ruim. Certa noite de janeiro, enquanto dormia, um anjo a levou. Conheceu Marina. Por Marina se encantou. Mas desencantou-se quando descobriu que Marina tinha Ana na frente. Não valia. Pediu o anel de noivado de volta. No dia seguinte, foi ao baile conhecer a amiga da prima. A Mercedes.

Pôs-se a pintar. Encheu a varanda de quadros coloridos. Mudou as plantas de lugar, para que sua galeria pudesse crescer. Virou o artista mais famoso da cidade. Organizou concorrida exposição na calçada em frente à casa. Todas as cores e temas eram convidados, os matizes todos permitidos. A diversidade, enfim. A mãe agradeceu à santa. Pelo menos isso.

Cedo demais para o agradecimento: entre os visitantes, um deles, cruelmente perspicaz, notou: não havia uma única tela sem um galo. Ele, que era galo no horóscopo chinês. Sempre minúsculo, num cantinho, camuflado entre ipês, telhados, hortênsias, frutas, borboletas, lá estava ele. O galo, em suaves e coloridas pinceladas. A mãe suspirou. Pelo menos é bonito – conformou-se.

Foi ao psiquiatra. Seis meses depois, era outro homem. Nos dias da sessão, ia feliz para a terapia. Nem os setenta e dois degraus até o consultório o desanimavam. Mas os subia de dois em dois. Por via das dúvidas.

[Me conta sua mania. Ela pode virar crônica aqui.]

Ilustração: Fave/Flickr.com

Ele vai perguntar o que vou querer hoje, como se já não soubesse. Nesta porcaria de restaurante que ele insiste em vir todo domingo só o risoto de shitake presta. Queria ter ficado em casa. Tão cansada. Na verdade, preferia ter saído sozinha. Está difícil até olhar para ele. Aonde é que foi parar a nossa alegria dos primeiros jantares, hein? Virou alergia. Alegria e alergia têm as mesmas letras. A mesma base. Mas nesse caso a ordem dos fatores altera o produto. Uma representa o que atrai; a outra, o que repele. O Henrique precisa cortar esse cabelo, olha só como está comprido. Fica com ares de menina, não gosto disso. Eu não falo nada, não dá para conversar com ele, nessa idade é impossível dialogar. Mas que fica estranho, fica. Que horas devem ser? Tão tarde para jantar. Como eu odeio domingo. Só de pensar no que vou ter que enfrentar amanhã, outra urticária. Queria poder jogar tudo para o alto. Para o alto não, senão cai tudo em cima de mim. Para trás, bem longe, seria melhor. Mas se eu pensar em parar de trabalhar, a casa cai. Quero ver como vou fazer no ano que vem. Marquei as férias, ele insistiu tanto. Mas não estou com a menor vontade de viajar. Nem de jantar. Nem de falar. Nem de nada.

Ela e esse mau humor. Anda uma pilha de nervos. Deve ser a auditoria. Eles pegam pesado mesmo, sei como é esse pessoal. Já disse a ela para sair do banco, entra por um ouvido e sai pelo outro. Ela reclama mas, no fundo, não vive sem aquilo. Tantos anos, já criou raízes. Falta pouco para ela se aposentar, se acomodou. Ano que vem as coisas melhoram. Vamos viajar, só nós dois. Ela pede isso há um tempão. Henrique fica na casa dos meus pais, são só duas semanas. Quem sabe eles não o convencem a cortar o cabelo. Ainda não vi o Luís por aí. Deve ser a sua folga hoje. Vida dura, a de garçom. A minha também, não anda nada fácil. Por mim, teria ficado em casa, estou um caco. Mas sei que para ela é importante dar uma saidinha no fim de semana. Ela gosta daqui, é doida pelo risoto de cogumelo.

Que saco, impossível passar dessa fase. A dica do site está furada, não dá para passar pelo labirinto, nem matando os avatares. Terça tem prova, tinha esquecido. Depois eu pego a matéria com a Ana Banana. Se ela deixar, pego mais alguma coisa também. Ah, não tinha visto essa saída aqui. Agora vai. Não sei por que a gente tem que sair pra jantar todo domingo. Já almocei com eles. Conversei, contei da escola, respondi tudo o que eles queriam saber. Não está bom? Nunca consigo assistir Drake & Josh inteiro. Eu queria ter ido pra casa do Darth Vader, ia todo mundo lá ver o Wii novo. O que eu vou comer hoje? Já conheço esse cardápio inteiro. Eles, eu sei: ela vai pedir aquele arroz esquisito, ele vai de estrogonofe. Gente velha pede sempre a mesma coisa.

Ilustração: Paul Kohler/Flickr.com

Hotel-fazenda tem sempre cavalinho, patinho e vaquinha para fazer a alegria dos hóspedes, em especial da criançada. Na função de atração, esses bichinhos deveriam receber salário.

Domingo, dez para sete da manhã. A família já estava em pé. Tomaram café com pão quentinho, feito ali mesmo no forno à lenha. O leite, grosso e de aroma forte, em nada se parecia com aquele que eles tinham em casa. O filho de três anos ficou curioso e, inconformado ao saber de onde ele vinha, quis ver a vaca. Precisava conferir aquela informação. Foram todos ao curral. O rapaz da fazenda pegou o banquinho, um balde velho, e escolheu uma para a ordenha. O leite jorrava, e o menino ia ficando assombrado. No balãozinho do seu pensamento podia-se ver uma embalagem longa vida, um ponto de interrogação e um de exclamação. Pausa para a troca do balde. Foi quando a vaca fez um movimento com o pescoço, fazendo todos se afastarem assustados – menos o rapaz. Ela abriu a boca e ouviu-se um ruído seco. O rapaz traduziu: ela acabara de tossir.

Agora quem estava assombrada era a mãe. Lembrou: no sábado o marido, entusiasmado no primeiro dia de férias, levantara-se da cama com ânimo inédito e, de braços abertos para o sol que nascia em frente à varanda do chalé, sugeriu deles irem morar num lugar como aquele. E ela, sonada e ainda sob o edredom, porém de olho num filhote de lagartixa que zanzava pelo varão da cortina de algodão, respondera: nem se a vaca tossisse.

Pois a danada havia tossido. E, embora para a mulher nem esse fato fosse suficiente para fazê-la cogitar a ideia, a verdade é que aquela tosse passou a representar uma alteração no curso do seu planeta particular. O símbolo da nova ordem do seu mundo. Todas as coisas que soavam impossíveis, impensáveis e infactíveis, agora se tornavam reais possibilidades. A primeira delas: deixar para trás a metrópole vinte quatro horas no ar – que ela acreditava ser necessário, embora nunca tivesse ido ao cabeleireiro à meia-noite, nem provado o nhoque às quatro da manhã – e ir viver num lugar com dia e noite bem desenhados, onde as flores e as galinhas (até as vacas) podiam dormir. A segunda: tudo o que derivaria da primeira, entre elas abrir mão da efervescência cultural da sua cidade, da qual ela tinha orgulho, mas nunca tempo para usufruir (e quando tinha, faltava-lhe a disposição para encarar a fila). Sem contar tudo o mais que ela rejeitara a vida inteira – pensamento, oportunidade, crença – amparando-se na improvável condição da vaca um dia tossir. Agora, ela teria que estar disposta a mudar suas raízes de lugar, como uma árvore transplantada. Teria de se rever. Tudo culpa da vaca, que havia tossido.

O rapaz encerrou a ordenha e entregou o balde ao pai. O filho estava animado. Queria um Toddy com aquele leite.

É. Agora a porca tinha torcido o rabo.

Luis Ricardo Falero (1851-1896), óleo sobre tela

Despediu-se dos filhos na porta da escola e, enquanto a empregada avisava pelo celular que a máquina de lavar roupa tinha pifado, conferiu as orelhas dos dois: tudo em ordem. No caminho para o trabalho, aplicou a maquiagem aproveitando os semáforos vermelhos, como sempre fazia. Na hora da sombra, o telefone de novo: desta vez era sua assistente, completamente perdida na reunião que acabara de começar, onde ela deveria estar. Conseguiu chegar a tempo de salvar a pobrezinha e, de volta à sua sala com mais sete tarefas novas para aquele dia, o marido mandou um email. Tinham o aniversário da sobrinha naquela noite, e ele simplesmente não tinha ideia do que comprar. Na hora do almoço, já no estacionamento do shopping, ouviu no rádio algo sobre uma certa “semana da conciliação”. Não deu tempo de saber do que se tratava. Mas guardou o nome para pesquisar depois. De volta ao trabalho, digitou no Google. E antes que visse os resultados, uma colega quis saber por que ela havia pintado um olho só.

Então era isso. A tal semana não era novidade nenhuma. Ela acontece de tempos em tempos, e todo mundo com alguma pendenga judicial pode tentar resolvê-la de vez. Na paz. Como o próprio nome diz, na base da conciliação. Um mutirão da justiça. Vale tudo: acordo com ex-marido, ex-patrão, ex-sócio, ex-empregada. Limpar o nome, pedir indenização e por aí afora. Ela foi se interessando pela coisa. E enquanto tentava deixar os olhos iguais, pensou no quanto seria bom providenciar umas conciliações na sua vida também.

Começaria por um acordo consigo mesma: assumiria, definitivamente e em todos os detalhes, o seu layout. E determinaria: seria uma obra em progresso.

Depois, seria a vez da balança. Não discutiria mais a relação: a melhor conciliação seria, de fato, a separação. Um peso a menos.

Em seguida, ajustaria os ponteiros com Cronos. O deus do tempo andava ligeiro demais. Ele prometeria diminuir o passo. Em contrapartida, ela teria de inventar menos coisas para fazer.

A família não ficaria de fora: antes de perguntar onde estão as coisas em casa, o marido se comprometeria a tentar encontrá-las sozinho. O que teriam para o jantar deixaria de ser uma decisão dela, para se tornar um processo participativo. E cada um dos filhos só poderia chamá-la vinte e cinco vezes por dia.

Encontraria um tempo para ligar para aquele amigo, há anos não se falavam. Por que mesmo haviam discutido?

Por fim, a conciliação mais delicada: nada de sutiãs queimados, nada de Amélias. Nesses assuntos, onde parece não haver nem juiz, nem justiça, ela teria que se reinventar. Nem tanto o céu, nem tanto a terra. E, como Hamlet, ela acreditaria: deve haver mais coisas entre os dois.

Uma semana seria pouco.

Foto: Maria G./Flickr.com

Saiu do escritório duas horas mais cedo. Tinha, portanto, três horas até a aula. Aquele MBA não acabava nunca. Não era uma pós, mas permaneceu após tudo: casamento, gravidez, separação, lipoaspiração. Passou no boteco ao lado da faculdade e resolveu tomar uma. Uma, não: um. Pediu vinho. O garçom, desacostumado, nem sabia se havia algum vinho para servir. Voltou quatro minutos depois:

– Tem este aqui…

– Vai esse mesmo.

Vinho, para ela, tinha sabor de festa, aniversário, reunião com amigos. Sozinha, nunca. Pois agora o vinho estava ali na sua frente. Seria também uma reunião. Só que desta vez, dela com ela mesma. Hora de colocar os pingos nos is, os acentos nas sílabas certas e os pontos finais nos devidos lugares. Pra que mesmo aquele MBA? Ela, que sonhava ser atriz. Zonza da silva, foi para a aula. Entrou na sala errada, sentou-se na última cadeira e prestou a maior atenção. Fez anotações no caderno. Na hora de ir para casa, a zonzeira não havia passado. Melhor não dirigir e voltar de táxi. Aproveitou um que acabara de deixar o passageiro.

– Para onde vamos?

– E por acaso o senhor sabe de onde todos nós viemos?

Da faculdade até sua casa, falaram sobre política, a chuva da semana passada, receita de queijadinha com doce de leite – uma exclusividade da mulher do motorista –, a bíblia e até novela. Ele estacionou, acendeu a lâmpada sobre o espelho retrovisor, a Nossa Senhora pendurada nele ficou iluminada. Enquanto procurava cinco reais para o troco, anunciou:

– Vou dizer uma coisa: criei meus seis filhos sem esse tal de MBA. Perca seu tempo não, dona. Quem faz o que gosta ganha dinheiro se divertindo.

No dia seguinte, de manhãzinha, foi até a faculdade buscar seu carro. No pára-brisa, o recado: “Desculpe-me pelo amassado. Me procure e acertamos tudo. Obrigado, Henrique”. Achou engraçado tanta paroxítona. No verso do cartão, pôde ler: o ‘barbeiro’ era o dono da escola de teatro, a sete quadras dali. Foi lá, encontrar a sua sílaba tônica.

Ilustração: Maria G./Flickr.com

Quando a rua tem muito buraco, não há alternativa: é preciso reduzir a marcha. O que dá outra dimensão ao trajeto, ao nosso olhar e à própria rua. A gente, que se acostumou a fazer do carro uma extensão dos pés, passa rápido demais pelas coisas. Não dá tempo de notar nada.

Naquele dia fui pela rua de baixo, para variar. Feita de terra, ela não é um convite à habitual pressa que, como dizem, não vai muito com a cara da perfeição. Muito menos depois de um chuvão como aquele da semana passada. Mas quem é que queria perfeição naquela hora? Fui devagar, como pedia a circunstância. A cachorrada zanzando tranquila. As vizinhas que nunca vi, trocando cachos de banana verde. A primavera púrpura explodindo em flor, formando um arco impressionista na entrada de uma casa. E uma menina escalando o muro com tanta agilidade que parei para assistir. Ela já estava com uma perna do lado de lá, quando me viu. Não teve dúvida: mostrou a língua. Escondeu um sorrisinho maroto e desapareceu do outro lado.

De marca registrada de cientista com cara de maluco a logotipo de banda de rock, botar a língua para fora sempre foi atitude de irreverência, deboche, provocação, brincadeira. Toda criança faz, mesmo sem saber das teorias: faz porque é gostoso. Mas engana-se quem pensa que isso é coisa de criança. Mostrar a língua é, acima de tudo, coisa de gente. Só que a gente vai parando de mostrá-la enquanto cresce. Quando foi a última vez que você mostrou a sua, sem ser para o dentista? Pensando bem, quem fala a sua língua? De que jeito você traduz suas coisas? Como é que você conta para os outros a sua felicidade? Que palavras você usa para amar? Quais são os advérbios da sua tristeza? Que tipo de gramática rege seu discurso? Como é a ortografia da sua história? Qual é, afinal de contas, a sua língua?

Tem língua que vive solta. Sem papas, comprida, vai se enfiando aqui e ali, sem medo de nada. Tem língua que, coitada, está presa. Seu delito: ter falado demais. Acabou detida na boca. Tem a língua da sogra, mas não tem a da nora. Tem a língua de gato. Tem o gato, que toma banho de língua. Tem a língua que separa os mundos. E sempre haverá alguém pagando a língua.

Será que a menina do muro estava me dando algum recado? Ah, se eu falasse a língua dos anjos.

Ilustração: Jo/Flickr.com

Já que você perguntou, eu conto. Este gorro aqui tem mais de vinte e três anos. É do tempo em que eu morava no casarão. A Dona Jandira tinha entrado na sala e desabado os três sacos de lixo sobre o tapete. Mas não eram sacos com lixo. Quer dizer, o que tinha dentro era o lixo de alguém. Mas não para nós. Aquilo era o nosso guarda-roupa. Ninguém ali ganhava roupa nova. Nunca. Sempre usada. Quando Dona Jandira chegava com os sacos, as crianças desciam pela velha escada de madeira curiosas, ressabiadas. Os degraus rangiam, como se também estivessem curiosos. Uns sentavam-se e ficavam espiando pelo corrimão. O Francisco era um que nunca descia. Ficava encarapitado lá em cima, com o livro de eletricidade no colo. O livro veio num dos sacos uma vez, ele o pegou e não largou mais. Dona Jandira já estava acostumada. Depois ela separava o que servia nele. Nesses dias sempre tinha um alvoroço no ar. Eu ficava alegre de ver os sacos, mas não entendia porque quase nunca tinha alguma coisa para mim.

Dona Jandira usava os cabelos presos atrás, de um jeito que os olhos dela ficavam até meio puxados. Ela era a presidente do nosso casarão. Cuidava de nós, criava as regras e as mudava, quando ninguém obedecia. Fazia nossa comida, lavava nossa roupa, apartava briga. Dava bom dia e boa noite com beijo. Ela ria o tempo todo, achava tudo engraçado. Acho que era o jeito que encontrava para não ficar doida. Éramos nove, cada um com um motivo para estar ali. Com ela, dez. Mais a Candinha que vinha ajudar, onze. Padre Tomás não contava, ele não vinha muito. No começo eu achava que ele e a Dona Jandira eram namorados. Nunca tinha visto padre que não usava batina. Um dia perguntei e ela riu, como sempre. Disse que ele era casado com Deus. Achei estranho, Deus não era mulher. Eu gostava de sentar atrás das suas pernas quando ela se deitava no sofá para assistir a novela. As pernas eram a rua, uma rua comprida que fazia esquina nos joelhos. Eu colocava minhas bonecas em cima delas e fazia de conta que estavam indo para a minha festa. A bunda era o casarão. Dona Jandira tinha um bundão.

As crianças foram abrindo os sacos e tirando tudo de dentro. Dona Jandira tentando organizar, mas a gente não deixava. Foi vestido pra um lado, blusa pro outro, aquele monte de meias espalhadas. A Sandrinha vestiu uma calça ao contrário, ficou entalada, perdeu o equilíbrio e bateu a cabeça na parede. Eu achei que ela tinha morrido. Mas não tinha, e eu fiquei decepcionada. Seria a primeira vez que eu veria alguém morrer de verdade. Até então os meus mortos tinham apenas ido embora.

Dona Jandira sabia que naquele dia era meu aniversário, ia até ter bolo no sábado. Eu percebi que ela tentava encontrar no saco alguma coisa bem bonita para mim. Eu era a mais velha por lá. Tinha doze anos e usava número dez. Mas nada serviu. Tinha uma camiseta azul-céu linda, com um brasão e a letra F bordada no peito. Imaginei que havia sido de uma menina chamada Fernanda, muito rica, e por certo tinha etiqueta quando ela a ganhou. Experimentei, mas ficou curta. Puxei na frente, para baixo. Mas Dona Jandira balançou a cabeça. Foi pro Francisco. E ele nem gostou dela depois.

No terceiro saco eu já tinha perdido as esperanças quando ela tirou dele, toda animada, um gorro de lã vermelho. Quer coisa mais simples que gorro? Serve em qualquer pessoa que tenha cabeça. Ficou para mim. Naquela noite a Dona Jandira ficou sentada ao meu lado na cama. Ela ia fazendo cafuné nos meus cabelos enquanto cantava baixinho, bem devagar e quase sussurrando para não acordar as outras crianças… Parabéns a você… nesta data querida… E eu fingi que dormia, para ela poder chorar sossegada.

Entrei no restaurante e avistei, em uma das mesas, uma amiga. Ela não me viu. Adivinha o que eu fiz? Fingi que não a vi. Na esteira rolante do fingimento, servi-me, sentei-me, almocei, paguei a conta, vim embora. E passei o resto do dia arrependida e tentando compreender porque diabos eu fiz aquilo.

Gente é o único bicho que finge, e não são só os poetas. Alguns animais até juramos que são capazes de fingir. Você dá uma bronca no gato e ele olha para o lado, ou começa a se lamber, “Não é comigo”. Mas, em tese, somos os detentores da qualidade. Quem não finge na vida? Que não sabe de nada, ou sabe tudo. Que está dormindo, triste ou com dor. Que está passando mal (para se livrar daquela reunião chata, ou de visitar a tia idem). Que está entendendo tudo. Que está tudo bem. Tem aquele que finge não estar prestando atenção na conversa dos outros. Não ter visto que havia mais pessoas na fila. Que finge que é cego. Ou surdo. Gente que finge amor. Simpatia. Compaixão. Prazer. Gente que finge que esqueceu. Que se finge de bobo. Ou que é inteligente. Que não viu o garoto pedindo um trocado. Que não recebeu o email. Há quem finja interesse em história boba. E, veja só, tem até quem finge não ver a amiga no restaurante. Mas ninguém finge raiva, nem ódio. Fingimento deve, portanto, servir só para coisa relativamente positiva. Alguém finge ser invejoso ou cruel?

E por que se finge, afinal? Qual o mecanismo por trás do fingimento? Fingimento é camuflagem. Falsidade. Espécie de mentira – porém, amparado numa verdade. Fingir para agradar alguém é submissão. Para se sobressair em algum aspecto, vaidade. Para não admitir falhas: perfeccionismo. Para não errar, medo. Fingimentos podem até ser sinceros, por que não? Nem todo fingimento é baseado numa intenção má. Aliás, poucos devem sê-lo, de fato. (Finja que acredita nisso, por favor.) Fingir é humano, ancestral. Crianças fingem que estão cozinhando para as bonecas, pilotando um foguete. E se divertem até.

No caso da minha amiga, nada me convenceu. Então não gosto dela? Sim, gosto. E muito. Eu estava com pressa? Nem um pouco. Eu lhe devia alguma coisa – dinheiro, informação, satisfação? Nada. Ela estava acompanhada e eu não queria incomodá-la? Não. Eu estava acompanhada? Também não. Então é simples: sou uma besta. Só não sei disso. Ou sei – e finjo que não sei. E se minha amiga também tivesse me visto, e resolveu fingir que não? Rá.

Pensando bem, tem a preguiça. Preguiça de ir lá, cumprimentar, contar como vai a vida, o trabalho, as crianças, o livro que um dia sai. Tem horas em que é bom sossegar a fala, fingir-se de muda. Poupar a língua da alma.

Passei a tarde angustiada. De verdade, sem fingimento. Das duas uma: conto tudo para minha amiga, ou finjo que nada aconteceu.

Foto: Anniferrr/Flickr.com

Passou um rímel no olho do furacão. Um batom na boca do povo. Um pente nas ideias. E saiu. Marchava como um soldado. Sua cabeça não era de papel, nem de vento. Naquele dia, era de chumbo.

Então sua filha não poderia estudar na mesma escola que as outras crianças da rua? Aquilo não estava certo, não. Sete e sete são quatorze. Com mais sete, vinte e um: de fato, ela tinha muitos namorados. Mas não gostava de nenhum. E, acima de tudo, não gostava de ver sua garotinha sendo tratada diferente. Pois agora o diretor da escola veria o que era bom para tosse. Justo ele, que era um xarope.

Desceu a rua pela sombra enquanto ensaiava o discurso. Senhor Diretor, a mensalidade da minha filha está atrasada? Não, senhora. (Sim, ele teria de chamá-la de senhora, igual fazia com as outras mães.) Senhor Diretor, minha filha, por acaso, desrespeita alguém aqui? Não, senhora. Senhor Diretor, minha filha sabe quanto é dois mais dois? Sabe, sim senhora. Então pronto, senhor Diretor. Minha filha fica. Estamos acertados? Estamos, minha senhora – ele diria e lhe ofereceria um chá de jasmim.

Na esquina, abriu a bolsa e buscou a medalhinha de Santa Maria Madalena. Ela, que também era Maria, mas não ia e nem vinha com as outras, apertou-a firme nas mãos, guardou-a e retomou a marcha. Então estamos acertados, senhor Diretor?

Chegou à escola rodeada de pinheiros, subiu a escadaria. Era aguardada. Assim que entrou na sala do diretor, recebeu um envelope. Uma página com assinaturas pedindo a saída de sua filha. Na verdade, era ela que queriam ver longe. Sua filha era apenas o meio, o animal sacrificado em noite de lua cheia. Não houve senhora, nem acerto, nem chá de jasmim.

Ela tentou retrucar. Falou sua parte do discurso ensaiado, mas o diretor não disse a dele. Ela improvisou, sem conseguir, contudo, estabelecer o roteiro imaginado. Disse, por fim e aos berros, que aquela escola era como uma canoa sem direção, prestes a virar. Porque ninguém ali sabia remar direito. O diretor riu, escancaradamente. E ela pôde ver: no céu de sua boca não havia estrela alguma. Era um céu estéril. Como tudo ali.

Foto: Anthony Kelly/Flickr.com

Cena 1. Terceira vez que eu via a moça naquele café. Na primeira, só pensei em falar. Na segunda, deu vontade de falar. Mas ela se levantou antes da mesa e foi embora. Na terceira, pensei, deu vontade e ela olhou em minha direção. Soltei:

– Seu cabelo é muito bonito.

A moça fingiu que não entendeu e murmurou o Ãn? mais blasé deste mundo. Elogiar desconhecido é quase sempre arriscado, a gente nunca sabe o que vai encontrar. E quando o elogiado faz que não escutou, repetir o elogio pode tornar tudo sem graça. Desejei ter ficado de bico calado, mas tive que dizer de novo. Aquilo de ajoelhar e ter que rezar. Ela então passou as mãos nos cabelos e lançou-me um olhar de incompreensão:

– Ele está tão sujo…

Cena 2. Festa na casa de amigos, reparo na roupa de uma convidada. Como a dona do traje era minha amiga, espécie de comadre, me senti à vontade:

– Gostei do seu vestido!

A amiga não posou de blasé e entendeu de primeira. Mas retrucou, com a mesma incompreensão da moça do café:

– É tão velho…

Cena 3. Reunião de trabalho. Meu radar, treinadíssimo, capta um par de sapatos maravilhosos. Nem tanto o céu, nem tanto a terra: quem os calçava não era uma desconhecida, tampouco alguém muito íntimo. Aproveitei uma brecha:

– Amei seu sapato.

A mulher, diferentemente das outras duas, sorriu e aparentemente gostou do elogio. Porém, precisou revelar:

– Paguei tão baratinho…

Que diacho. Mulher quando recebe elogio tem sempre que dar uma explicação. Como se não o merecesse, e precisasse de uma justificativa para estar ou ser bonita. Como se procurasse algum detalhe que lhe diminuísse o valor. Ou então, é o contrário. Uma tentativa – inconsciente, talvez – de se valorizar. Como se dissesse: “Meus cabelos são bonitos mesmo imundos”. “Meu vestido é antiquíssimo e eu fico linda nele.” “Eu uso sapatos baratos, mas veja como estou elegante.” Não sei o que é pior.

As pessoas elogiam por vários motivos. Para lisonjear. Por interesse. Porque têm a expectativa do agradecimento – querem atenção, então dão atenção. Ou para registrar uma opinião ou impressão. Eu elogio porque acho a coisa ou a atitude bonita, e penso que a pessoa gostará de saber disso. Simples assim. Para mim, não importava se o cabelo havia sido lavado naquele dia ou três dias atrás; se o vestido era novo ou se já andava sozinho; se os sapatos haviam custado os olhos da cara ou uma mixaria. Achei bonito, e ponto final. Coisa mais feia recusar elogio.

Repare: acontece quando o elogio é para mulher, onde ela própria é a elogiada. Se você elogiar o filho dela, ela concordará (e até complementará). Elogie um homem – sua gravata, por exemplo – e ele simplesmente responderá: Obrigado. Já viu homem explicando que a gravata era do camelô, ou que estava no fundo da gaveta, ou então que comprou em Nova York? Tem certas horas em que a objetividade masculina é invejável.

Cena 4. Tirei o cartão da bolsa, ia pagar minhas compras. A moça do caixa usava um anel que era luxo só. Grudei os olhos nele, suspirei… e pedi:

– Débito, por favor.

Foto: Sonson/Flickr.com

Aonde vão parar as cartas de amor que não chegam aos destinos? Os bilhetes e emails românticos, nunca lidos, perdidos e esquecidos pelos caminhos, ares e fios?

A missão de toda carta de amor, em papel ou pixel, é chegar até alguém. Se a carta, depois de escrita, não chega a ninguém, suas palavras se desfazem, e as letras retornam aos seus lugares no alfabeto. Palavras são reuniões de letras que se gostam. E, assim como as vírgulas e os pontos, todos voltam para suas casas. Ficam esperando nova oportunidade de dar um passeio. (Amor, às vezes, tem mais pontos de interrogação que de exclamação.)

O que é feito do amor da carta que não chega ao seu destino? Quem sabe ele se dissolva em átomos e fique espalhado sobre o planeta, para quem quiser colher: é de graça, mesmo. Ou então, quem sabe o amor vire a dúvida do sim, do não, e daquele bobo do talvez.

E o que é feito da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Sabe-se lá. Mas uma coisa é certa: dá uma tristeza danada não saber o que aconteceu com o amor postado em vão.

E o que é feito da tristeza da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Vira solidão. Principalmente de manhã, ao acordar, quando não tem ninguém ao lado para dar bom dia ou perguntar se está sol, exceto o criado. Que é mudo. Não vai responder.

E o que é feito da solidão da tristeza da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Vira vazio. Aquele, que se instala no sofá nas noites de sábado e fica cantando músicas grudentas só para chatear. Mas repare bem no cantinho do olhar dele: aquilo ali é esperança. E das boas.

E o que é feito da esperança da solidão da tristeza da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Essa vira sonho, e é dele que nasce todo o resto que vem antes e depois de uma simples carta.

Então, na próxima vez que você escrever uma carta de amor, esteja ciente: mesmo que não seja entregue, de fato, ela é capaz de criar quase tudo que há no universo. Sendo assim, melhor caprichar.

Ilustração: Eli Brody/Flickr.com

Encontrei com o Seu Tonico dia desses. Estava chateado, o telefone tinha pifado outra vez. Com voz grave e decidida, anunciou:

– Amanhã vou na Telefônica resolver isso.

Seu Tonico, nascido na Revolução de 32, é do tempo em que quando alguém tinha um problema com um produto ou serviço que não estava bom, ia resolver tudo direto com o dono da coisa. Está certo, podia não ser exatamente com o dono, mas com algum funcionário dele, num lugar onde o dono provavelmente estaria. Ele é da época em que as relações – comerciais ou não – tinham mais olho-no-olho, mais tête-à-tête. No caso das comerciais, muita coisa mudou desde que seu Tonico despediu-se do lugar onde nasceu e cresceu para ir parar na cidade grande, deixando lá trás a vida sossegada da fazenda onde seu pai trabalhava, o banho de rio e a vaca Beleza que um dia, enfezada, correra atrás dele até a porteira, para poder pastar sossegada.

Hoje, quando o assunto é prestação de serviços, ninguém mais vê cara. Nem coração. É tudo virtual, seco, pobre. Enquanto Seu Tonico ia contando os problemas com a linha, eu tentava explicar que o telefone dele nem da Telefônica é. Seu Tonico é do tempo em que só existia uma companhia nesse setor. Era pior, porém, mais simples. Expliquei que era outra empresa, a mesma da TV a cabo, a coisa dos combos.

– Então eu vou lá.

Se Seu Tonico batesse na porta da companhia, talvez nem conseguisse ser recebido. Talvez tivesse trabalho para se fazer entender e talvez tomasse um chá de cadeira até que alguém resolvesse ver o que ele queria. Talvez tentassem, como a vaca Beleza, enxotá-lo dali, para garantir a paz do lugar. Talvez em pouco tempo se instalasse o burburinho, e a recepcionista, perdida, não saberia o que fazer com ele. Ligaria de ramal em ramal:

– Tem um senhor aqui querendo falar com alguém.

– O que ele quer?

– Ele quer falar com alguém.

– Sobre o quê?

– Um problema no telefone dele.

– A gente não resolve problema de telefone aqui.

– Aqui não é uma companhia telefônica?

– É. Mas ele tem que ligar no Atendimento.

– Ele disse que não vai embora enquanto alguém não falar com ele.

– Ai meu Deus.

E Seu Tonico, sentadinho no sofá bonito da recepção, seria observado de longe pelo Segurança. Vai que. Não haveria ninguém disponível para resolver aquele pepino, lidar com aquele intruso, aquele corpo estranho. Mesmo que o corpo estranho fosse a razão de viver da companhia: o cliente.

Pensando bem, seria interessante Seu Tonico ir fazer uma visitinha lá. Só para abalar a rotina paquidérmica da empresa, alvoroçar os ânimos, botar os neurônios da turma para funcionar. Mas eu o convenci de que agora é diferente, sem contudo, estar certa de que isso é bom. O instinto de proteção falou mais alto. Afinal de contas, não é certo deixar o pai da gente arrumar confusão.

Ilustração:Amy-Wong.com/Flickr.com

Pessoa-livro. Cada dia com ela é uma página: a gente vai descobrindo a história aos poucos. E no capítulo final, das três, uma: ou a gente entendeu tudo, ou não entendeu nada, ou pensa que entendeu. Aí, só mesmo lendo tudo de novo. É quando o casamento se faz necessário, que é para ler um pouco por dia. Tem as pessoas que, de tanto que já escreveram, viraram livros de fato: Você já leu Drummond? Tem a pessoa-prosa: ela vai contando as coisas e você fica lá até o fim, deliciado. E tem a pessoa-verso: vive rimando os acontecimentos da vida, dando a tudo um sentido especial.

Pessoa-música. Umas, a gente ouve uma única vez e já está bom. Outras, a gente quer ouvir sempre, decorar a letra, traduzir, fazer versão. Tem aquela que a gente descobre por acaso, se apaixona, e passa o resto da vida tentando por no iPod. Tem as que desafinam, e as que são capazes das notas mais impossíveis. No céu de todas elas, repare, há sempre uma clave de sol brilhando.

Pessoa-quadro. Estas aqui são como as pinturas dos grandes mestres: você não se cansa de admirar. Cada vez que as vê, repara num detalhe que não tinha visto da última vez. Algumas dão até vontade de roubar. Só para pendurar na sala. Outras – gostem ou não do traço, da técnica, do tema – não morrem jamais. Ficam eternizadas na memória. Pena que, para algumas, a gente só dê valor quando elas desaparecem.

Pessoa-arte abstrata. Quanto mais você a observa, menos a entende. Mesmo assim, ela atrai o seu olhar. Você não sabe qual é a dela, nem para quê ela serve, muito menos o que ela quer com você. Uma incógnita.

Pessoa-escultura. Não adianta: você tem que tocá-la. Descobrir do quê é feita, conferir as formas, saber se é macia, áspera, fria ou quente. Se pulsa ou se é inerte. Às vezes, é preciso olhá-la de todos os ângulos para compreender-lhe as  dimensões. É o tipo de pessoa que a gente deseja carregar nos braços de vez em quando.

Pessoa-filme. A pré-estreia dela são os minutos anteriores ao seu nascimento: só gente especial pode assistir. Depois, quando ela entra em cartaz, todo mundo pode acompanhar o desenrolar da história. Que pode ser de amor ou não. Pode ser triste, pode ser alegre. Pode ter aventura ou ser um drama. Às vezes, comédia. Mas que fique claro: ninguém faz cinema por acaso. Tem, por fim, as pessoas que são como os filmes antigos, clássicos. Essas nunca saem de moda. E todo mundo deveria assisti-las de vez em quando. Elas têm um bocado a ensinar.

Foto: Leandro Mise/Flickr.com

Domingo passado fui comprar comida para os gatos, estava no fim. Com fila no caixa, meu passatempo predileto entrou em ação: olhar gente. Mais precisamente, as mulheres. Mulher adora prestar atenção em mulher, e isso é coisa que nem mulher entende o porquê.

A primavera, prestes a se despedir, disse ao que veio. Sol de fazer brotar o que fingiu estar seco, brisa quente. Dia branco, preguiça no ar. E todas as mulheres na loja vestiam vestidos. Todas. Como se uma ordem cósmica tivesse sido dada a elas ao amanhecer daquele sétimo dia, véspera do Dia dos Mortos: Vão viver! Obedientes, as mulheres trataram de tirar os seus do armário. Floridos, xadrezes, listrados, verdes, azuis, rosas, amarelos, com alças, sem alças. E numa coisa todas combinaram: o comprimento, mais curto neste pré-verão. Eu, claro, reparei nas pernas todas.

Conferi se eram bonitas ou nem tanto. Se eram gordas ou magras. Longas ou curtas. Branquelas ou bronzeadas. Se o cirurgião vascular teria trabalho por ali ou não. Se tinham ou não manchinhas roxas, dessas que aparecem quando a gente bate na quina da cadeira. Se o formato denunciava a caminhada diária ou a perna para o ar. Brinquei de trocar mentalmente as pernas de um corpo para outro, para ver como elas ficariam – o que não é nada fácil. Brinquei de tentar adivinhar como era o rosto, olhando primeiro para as pernas. Errei feio: as pernas mais gordinhas não estavam nos rostos mais redondos. Nos pés, dá-lhe rasteirinhas e chinelos cheios de bossa. A fila andou e eu pensei: o conforto há de vencer. A redenção dos pés, finalmente.

Quando eu tinha vinte anos, não usava vestido. Suspirava ao lembrar das minhas pernas aos quinze. Queria ter a cabeça dos vinte, no corpo dos quinze: tudo tão no lugar.

Fiz trinta anos, e já voltara a usar vestidos. Mas suspirava ao recordar das pernas dos vinte. Queria ter a cabeça dos trinta, no corpo dos vinte: eu era feliz e não sabia.

Aos quarenta, continuei metida nos vestidos. E ainda suspiro ao pensar nas pernas dos trinta. Queria ter a cabeça dos quarenta, no corpo dos trinta: como é que pode a gente mudar tanto em uma década?

Já que existe certa inteligência nisso tudo, resolvi não esperar meus cinquenta anos. Desta vez, a nostalgia será ao contrário, e vale para todas as partes do corpo. Dou um pulo lá na frente e, sabendo que sentirei saudades de agora, declaro-me, hoje, pronta e perfeita para o que minha imaginação me autorizar a vestir. Tirando o que for tão curto quanto a vida, eu vou é botar o meu bloco na rua.

Foto: Mat Gartside/Flickr.com

Richard Bach nem sonhava. Mas em tempos de internet, telefone celular, conexão sem fio e GPS, longe é mesmo um lugar que não existe. Ninguém mais fica, involuntariamente, longe de ninguém. Toda conexão é possível. Mais que isso: desejada.

Essa história de ver e falar com todo mundo na hora em que bem se entende, do lugar em que se esteja, empolga. É bom. Diz que não? Ver, em tempo real, como é o quarto do seu filho de dezesseis anos em intercâmbio de um ano na Nova Zelândia. Falar com sua irmã que trabalha numa estação da Antártida como se ela estivesse ali, na rua ao lado. Assistir ao vivo o show do U2 na Califórnia, do melhor camarote que há: o seu computador. Achar e ser achável.

Está certo: reduziram-se as distâncias e produziu-se uma espécie de onipresença. Isso é bom e não tem volta, o que é fascinante. Pois bem. Quero é saber o que foi feito da distância. E agora, que ninguém consegue mais desaparecer, sumir, escafeder-se? Conseguir, consegue. Mas dá trabalho. Arlindo Orlando, aquele caminhoneiro fictício da pacata Miracema do Norte, não conseguiria ter fugido assim tão fácil da sua noiva, fosse hoje. Como fica o mundo, então?

Com tanta presença, qual o futuro da saudade? Assim como os mistérios insondáveis do não estar, a necessidade do cadê, a curiosidade sobre como deve ser – tudo parece estar com os dias contados. A lembrança, que é feita de ausência, pode ser extinta. Tudo é perto e pertencente demais. Mas não é. Nem pode ser.

Gente precisa de desconexão para existir. [Quem diria. Logo eu, pensar isso.] Precisa saber da distância fundamental que marca sua posição no planeta. Precisa do despertencimento e do tempo que constroi as relações todas. Precisa da demora – e não da volta ao mundo em oitenta cliques.

Longe precisa ser um lugar real. O universo, imenso, deve continuar assim. Sua grandeza é que dá dimensão às coisas. Sem ela, nós nos perdemos – em tamanho, função e sentido.

Ilustração: Julio Minervino/Flickr.com

O menino pulava para lá e para cá no grande sofá da sala de espera. Entre uma cambalhota e outra, esbarrava no vaso amarelo da planta de mentira e a mãe ia ficando furiosa. Na terceira vez em que o pé do moleque quase levou pelos ares os óculos do homem carrancudo que esperava ao seu lado, ela lascou: Se você não parar, o Homem do Saco vai levar você embora. E o garoto ficou quietinho até a hora em que anunciaram o nome da sua mãe e os dois entraram no consultório do médico. O terror havia vencido.

Eis o estrago que o medo – sentimento dos mais originais que, se valioso na essência, pode se tornar maléfico – pode causar na vida de uma pessoa. No caso, uma pessoinha. Será que a imagem construída pelo menino do ‘homem’ e seu ‘saco’ poderia ser comparada ao fantasma da violência urbana ou da perspectiva da falta de dinheiro para um adulto? Uma criança acredita sempre nos seus pais, referência máxima – ou única – na infância. Mesmo que eles lhe digam uma bobagem, digamos, romântica como essa. Convenhamos, quem usaria um saco para raptar crianças?

Eu também conheci o Homem do Saco. Mas para mim ele tinha outro nome. No bairro onde cresci existia um andarilho dos seus quarenta anos, com barba e cabelos longos. Não era feio. Era, sim, muito sujo e mal-ajambrado. Levava nas costas uma trouxa encardida como ele, espécie de saco, onde acomodava suas catações. Daí a fantasia de que ele poderia carregar ali uma criança arteira ou desobediente. Além de significar uma ameaça terrível para as crianças do pedaço, em casa ele ainda tinha o estigma de não ser um cara legal. Quando tocava a campainha para pedir comida ou dinheiro, minha mãe dizia: Ih, é aquele chato. E ele virou o Homem Chato. Lembro direitinho do pavor que eu sentia quando o via no portão. Levei anos para descobrir que não cabia uma criança naquele saco.

Essa estratégia do medo, transmitida oralmente por gerações, tem lá seus méritos e dá resultados até hoje – o garoto da sala de espera tornou-se um anjinho em segundos. Talvez esse medo seja importante e faça parte do amadurecimento. Mas será que o preço não é alto? É mesmo na base do medo que se controla alguém? Por quanto tempo? E com quais consequências?

Medo é como vento: dependendo da intensidade, velocidade e direção, pode ser devastador. Ou paralisante. Medo de errar no trabalho, de não acertar na roupa. De falar em público, de pagar mico, do que os outros vão pensar. De atrasar, de esquecer, de lembrar, de rir, de chorar. De engordar, de cair, de tentar. De ouvir não, de dizer sim, de dançar, de telefonar no dia seguinte. De casar, de separar. De dar o braço a torcer, de não dar conta, de perdoar, de mudar, de voltar. De quebrar, de machucar, de perder o emprego. De ficar doente, de morrer, de partir. E de amar, como diz a canção: O medo de amar é o medo de ter / De a todo momento escolher / Com acerto e precisão a melhor direção / O medo de amar é não arriscar / Esperando que façam por nós / O que é nosso dever: recusar o poder…

A mãe do garoto nem imaginava o que estava fazendo com seu filho. Pudera: ela própria deve ter tido, na infância, seus pesadelos com o Homem do Saco, fosse ele chato ou não. Mas, cá entre nós: cambalhota na sala de espera também já era demais.

Nota: não encontrei nenhum link de “O medo de amar” (Beto Guedes/Fernando Brant) para colocar aqui. O Homem do Saco deve ter levado todos.

Foto: Gilberto Filho/Flickr.com

Outro dia minha neta fez um passeio com a escola. Foram ao museu. Ela voltou encantada com as coisas que viu. E particularmente impressionada com um objeto, muito popular antigamente: a chapinha. Quem diria. Uma engenhoca com traços de duas eras tão distintas – a Moderna e a Medieval – ser capaz de tanto sucesso no passado.

Minha neta não sabe da missa a metade. Quem se recorda do Curvex, do contraditório Invisible Bra (absolutamente perceptível), da ombreira e do Botox? Dos velhos desfiles de moda com moças de olhares sombrios e roupas que precisavam de legendas? E das meias-calças que não duravam uma temporada? O que me fez lembrar de outro nonsense de outrora: a depilação com cera.

E fazer supermercado? Nada mais insólito: os produtos iam das prateleiras para o carrinho, do carrinho para a esteira, da esteira para as sacolas, retornavam ao carrinho, passavam para o porta-malas, e somente depois de todas as etapas é que chegavam à despensa. Nem dá para explicar como é que esse processo perdurou por tanto tempo.

Quem se lembra de quando não se reciclava lixo, o esgoto ia para o mar e a gente quase cozinhou o planeta?

Lembro-me de existir dono que não recolhia a caca do cachorro na rua, de gente que abandonava cachorro, comia cachorro, atropelava cachorro e ia embora, como se nada tivesse acontecido. Tempos bicudos, aqueles.

E como era triste a época em que as mulheres ganhavam menos que os homens, tinham que se vestir como eles no trabalho e, dependendo da profissão, nem tatuagem podia aparecer. Parece que as coisas já melhoraram: o trabalho voltou a ter sua função original e praticamente não se vê mais por aí quem endoideça – ou morra – por causa dele. E pensar que naqueles tempos também se morria de tanta coisa sem sentido: bala perdida, fome, gripe, raiva.

Minha neta quis saber se eu já usei chapinha. Sem graça, como quem confessa já ter usado algum tipo de droga, revelei que sim. Mas só uma vez, quando conheci seu avô – tratei de explicar.

Nota: não tenho neta, viu? Digamos que eu tenha inventado essa história mais ou menos em 2045.

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

Quem é que admite? Passar um dia inteiro sem tomar banho, só porque não deu vontade de entrar no chuveiro. Enfiar o dedo no nariz quando o lenço de papel não dá conta. Ver quem é no telefone e não atender, de propósito. Espiar o armário do banheiro na casa dos outros. Ter vontade de mandar a vizinha hipocondríaca caçar sapo com bodoque.

Quem confessa? Mandar, por trinta minutos, o meio-ambiente se danar: você precisa daquele banho comprido. Pensar imediatamente numa piadinha quando alguém conta uma tragédia. Ver o preço na etiqueta maior do que o lançado no caixa, e ficar bem quietinha. Arrotar livremente quando está sozinha. Encolher a barriga quando está acompanhada. Abaixar o som da TV para ouvir melhor a briga dos vizinhos. Não saber onde fica o óleo do carro. Torcer para o funcionário pedir as contas e sumir da sua vida. Já ter pensado os piores pensamentos, justamente com as pessoas que você mais ama.

Quem assume? Escrever o próprio nome no Google para ver o que vem. Abrir a geladeira e beber o refrigerante no gargalo quando não tem ninguém olhando. Ter dificuldade para localizar o Quênia no mapa-múndi, assim, de primeira. Fazer a barra da calça com Durex. Nunca ter assistido Casablanca e achar aqueles dois uns chatos de galochas. Fingir que está dormindo. Fingir que entendeu a piada. Comer todos os Danoninhos de uma vez só. Procrastinar até o último instante possível. Sentir inveja dos casais que saem sozinhos à noite. E, apesar de amar incondicionalmente seus filhos e não saber mais viver sem eles, ter uma certa saudade de quando você ainda não os tinha.

Juntos, os segredos – os bobinhos e os significativos – pesam. Exigem portas, gavetas e chaves extras na alma. Mas vários podem se tornar públicos, sem tantos receios e complicações. Já outros, é certo: nem que a vaca tussa.

Foto: Nicholas Petrone/Flickr.com

– Eu vim cuidar do jardim.

O homem franzino pousou na calçada a sacola vermelha muito velha, encardida e cheia de ferramentas: pazinha, tesoura, luvas e regador. Desconfiada, a mulher de uniforme azul o olhou através das longas grades dos portões de ferro que, quando fechados, formavam uma clave de sol. Ele repetiu, havia vindo cuidar do jardim. A mulher se afastou.

– Espere aí que eu vou chamar a patroa, disse. E correu para dentro da casa.

Lá, deu a notícia. Disse que o homem não era nenhum daqueles que, de quinze em quinze dias, apareciam para mexer nas plantas. Descreveu-o com nojo, apertando as mãos contra o peito. Estava com medo. A dona da casa foi chamar o marido. O maestro, debruçado sobre o piano, tentava escrever o último compasso de sua valsa quando ela deu o aviso: um estranho estava tentando entrar em casa. Em instantes, a paz do lar fora ameaçada: quem era aquele homem?

– Melhor chamar a polícia, sugeriu a mulher de uniforme azul.

A dona da casa ordenou que as portas e cortinas fossem fechadas, Sem dar bandeira, ouviu?, enquanto ensaiava uma coreografia de pânico da sala de jantar para o estúdio, do estúdio para a sala de jantar. Agora ela espiava através das cortinas. Quem é que se atrevia a tentar invadir sua fortaleza? Avistou o pequeno homem que aguardava na calçada, recostado à sombra do flamboyant.

– Ele ainda não foi embora!

Reunidos, os três discutiram hipóteses, traçaram rotas de fuga, até um eventual enfrentamento. Não, ninguém havia trocado o serviço de jardinagem. Tampouco era dia, aqueles moços só vinham às quartas, lembrou a mulher de uniforme azul. Não, ninguém havia sido seguido naqueles dias. Nenhum telefonema estranho, também.

– Ele ameaçou você?, o maestro perguntou.

– Ameaçar, ele não ameaçou. Mas o senhor tinha que ver as roupas dele, disse. Era o nojo de novo.

– Então eu vou lá.

A dona da casa disse que ele estava doido, a mulher de uniforme azul fez o sinal da cruz. Mas quando o maestro encasquetava, ninguém podia fazer nada. As duas o acompanharam até o hall de entrada, preferiam assistir escondidas. Ele chegou ao portão e perguntou-lhe o nome. O homem disse que se chamava Theodoro e morava só, longe dali, mas aquele era seu caminho desde que conhecera uma moça na rua de cima, Uma médica muito importante. Ela lhe dava, toda semana, comida e remédios. Contou também que era jardineiro, e toda vez que passava em frente à casa do maestro via um jardim fino e bem cuidado. Mas triste.

– Está vendo a dracena? O sol castiga aquele canto o dia inteiro. Ela não gosta. Diferente da pata-de-elefante, que gosta de sol, mas está na sombra. Tem que trocar as duas de lugar, entende? Hoje eu vim mais cedo, só para cuidar disso. Trouxe sementes de girassol para aquele canteiro, quando crescerem os beijinhos vão parecer crianças dançando em volta deles!

E continuou. Disse, sem saber com quem falava, que jardim é que nem orquestra, uma planta depende da outra. O maestro, esquecendo-se da suspeita, ouvia tudo com atenção. Fez sinal para a esposa abrir os portões. Ela abriu foi um olho deste tamanho. Ele repetiu o sinal, para desespero da mulher de uniforme azul, que já estava roxa.

A clave de sol se abriu, Theodoro carregou suas coisas para dentro. O maestro mostrou o restante do jardim e pediu licença, precisava trabalhar. Beijou a esposa, pediu um vinho e voltou ao estúdio. Encontrara o compasso que faltava para sua valsa. Que agora já tinha nome: O Baile do Girassol.

Foto: Eduardo Amorim/Flickr.com

Ter varinha de condão. Descobrir uma passagem secreta na parede e ir parar em outro mundo. Ter dez centímetros a mais, e que os preços tivessem uma casa decimal a menos. Fazer cinema. Ter jeito com os números. Gravar meus sonhos em DVD, para assisti-los depois.

Ter tido vinte anos na década de sessenta e vivido a bossa nova in loco. Ter escrito O Guardador de Rebanhos e conseguido ler A Divina Comédia até o fim. Fazer tai chi chuan na praia ao amanhecer. Semear vento, colher brisa, correr para o abraço, deixar para lá, fazer de conta.

Ver uma foca ficar feliz, pondo uma bola no seu nariz. Ouvir Deus e ter certeza que não é apenas a minha imaginação. Ser a Jeannie. A Feiticeira. E a Mary Tyler Moore, vez por outra. Poder ficar invisível. Guardar os amigos numa caixinha para nunca perdê-los. Encontrar o médico – ou médica – que me ajudou a nascer. Visitar o passado, num dia de Natal, na velha casa da Rua Natal. Mas só como observadora.

Saber, sem engano, quem fui nas outras vidas. Ver o mundo pelos olhos de um gato. Ter assistido um show dos Beatles. Ser entrevistada pelo Jô Soares. Saber fazer café. Entrar em uma fotografia. Ter conhecido o Maestro Antonio Carlos Jobim. Ter a voz da Karen Carpenter. E saber a quê Gilberto Gil estava se referindo, naquele papo maluco de abacateiros e refazendas.

Ter inventado o Google. Topar com um fantasma e perguntar umas coisas para ele. Fazer um afago num leão. Ver a Terra lá de cima. Botar meu bloco na rua. Saber o que teria acontecido na minha vida se eu tivesse virado à direita e não à esquerda. Só por curiosidade.

Falar francês. Ter um Beetle. Inventar uma pílula que tinja os cabelos. Poder desatarraxar a cabeça de vez em quando. Saber como se dança o baião, quem pintou a mula preta e o que é que a baiana tem. Hibernar como os ursos e só acordar na primavera, com o café-da-manhã na mesa.

Em tempos de querença sem fim, bom mesmo é acreditar que tudo vai dar certo e que todas as coisas têm sentido. Até a calça saruel e a bolsa de valores.

Ilustração: Mike Sagmeister/Flickr.com

O moço do caixa passava suas compras e quis saber se ela já adiantara o relógio. Ela colocou os mirtilos na esteira – era a primeira vez que via aquela frutinha azul –, abriu a bolsa e procurou o celular. Há anos o relógio ficara órfão do seu pulso, agora só conferia as horas pelo visor do telefone. O tempo definitivamente saíra da frente dos seus olhos, perdendo-se para sempre na barafunda na bolsa.

Não, ela ainda não havia ajustado a hora. Seu dia, portanto, acabava de ficar mais curto. Uma hora a menos, suspirou. E, como aquele coelho branco de Alice do País das Maravilhas, lembrou: estava atrasada.

Apressou-se em embalar suas coisas: o sorvete com o sabão em pó, a goiabada longe do queijo, o peixe para o domingo junto com a lasanha da segunda. Despediu-se do moço e voou para casa.

No carro, a caminho de casa, uma música fez questão de acompanhá-la pelo rádio:

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo

Descarregou as compras e foi acertar os relógios. E não adiantou apenas uma hora, mas sim várias. Teve uma ideia: avançou um dia inteiro. Uma semana toda. Chegou ao mês seguinte. E quando se deu conta, havia ido parar a dois verões depois daquele dia no supermercado.

Desanimada, ela constatou que naqueles anos a única novidade havia sido os mirtilos. A pós-graduação não saíra do papel. A reforma do apartamento não passara da cozinha. Não conhecia a cara do filho. Que nem nascera, pois não tivera coragem de dizer sim ao homem da sua vida. A caixa com os livros da última mudança ainda estava num canto da sala. E seus pais aguardavam sua promessa de levá-los para um passeio de navio. Achou que era hora de acertar os ponteiros com o tempo.

Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo…

Não seria fácil, ela sabia. Mas combinou que voltaria ao dia do supermercado e, sem pressa, saborearia os mirtilos. Faria a matrícula na universidade, assim que chamasse o namorado para uma conversa séria. Teria uma semana para libertar seus livros do cativeiro de papelão. Marcaria as férias e ligaria para os pais. E decidiria, enfim, que os azulejos da cozinha seriam azuis. Em homenagem aos blueberries.

Ficariam amigos, ela e o tempo. Não só em todas as estações do ano, mas nas de trem, nas de rádio. E, como uma promessa, lhe diria:

… acredito ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo

Ilustração: Fernando Weno/Flickr.com

O Brasil já teve sete moedas desde que nasci. E, depois de grande, eu me adaptei bem a pelo menos cinco delas. Foi fácil me familiarizar com a TV a cabo e seu jeito novo de assistir televisão. A transição do bip para o telefone celular foi tranquila (embora eu andasse com os dois, o sinal não era lá essas coisas). Aprendi a usar o email de um dia para o outro. Aderi sem problemas à ideia de separar o lixo na minha casa. E não vejo nada demais quando um amigo me conta como conheceu o namorado. Mas tem uma coisa que eu ainda não consegui me acostumar: lista de casamento.

Lista de casamento foi inventada para fazer a gente se esquecer do significado de presente. Todo mundo sabe como funciona: os noivos vão a uma, duas, três lojas, escolhem uma porção de presentes que gostariam de ganhar, o vendedor põe tudo numa lista enorme, os convidados vão até essas lojas, escolhem um item, pagam e mandam entregar. Ou fazem tudo isso de casa mesmo. E pronto. Tarefa cumprida. No máximo, vai um bilhetinho junto, com uma frase óbvia sobre amor, casamento, votos de felicidade e outras patacoadas, escolhida dentre meia dúzia de opções que a loja já preparou para clientes sem muita criatividade ou paciência.

Agora a gente já não precisa mais quebrar a cabeça pensando num presente especial para os noivos. Ninguém quer saber se eles são clássicos ou modernos; se vão morar num apartamento ou numa casa espaçosa; se gostam de azul ou se preferem verde. Alguém resolveu facilitar tudo. As palavras de ordem: simplificar, não ter trabalho, ganhar tempo. As lojas estão preparadas para trocar os presentes repetidos, ou aqueles que não agradaram muito. O jogo de panelas, mais o de copos e a dúzia de bandejas viram um único presente. Quem deu esse home theater para vocês? Na verdade, o tio, a tia, o amigo, a prima, o irmão, a cunhada, o avô. A saia justa na primeira visita: Gostaram do vaso de murano? Aquele que virou forninho elétrico.

Vá lá. Ninguém anda com tempo sobrando para longas peregrinações em busca do presente perfeito. Mas a facilitação exagerada arranca o charme dos rituais. Amputa o sentido de presentear. Manda para as cucuias o carinho, o afeto e o desejo original de ver o outro feliz.

Hora de reinventar o presente de casamento. E, por que não, o próprio casamento. O que já é outra história. Bem mais comprida.

Ilustração: Frank Bonilla/Flickr.com

Entrei feliz no provador, encontrara o jeans que eu procurava. Era um desses provadores com dois espelhos. Fechei a cortina e levei um susto. Vi minha imagem projetada no espelho da frente, que se projetou no de trás, que refletiu na frente e novamente no de trás, e assim sucessivamente. Entrei sozinha e agora éramos muitas. Incontáveis e idênticas.

Brinquei de ser várias, como sempre desejei ser quando criança. Naquele metro quadrado comandei um exército de mim mesma, num balé perfeito. Como as moças do nado sincronizado. Mas o país da água era diferente do país do espelho, onde nem era preciso ensaio. Bastava levantar a mão, e todas acompanhavam. Que Esther Williams, que nada. Sou mais a Alice.

Minhas cópias bem que poderiam sair do espelho e vir dar uma mãozinha. Uma não, várias. Se duas cabeças pensam melhor que uma, o que dirá de infinitas? Enquanto uma trabalharia sem trégua, outra viveria eternamente em férias, trazendo presentes do mundo inteiro para todos. Uma seria mãe em tempo integral, outra não perderia uma festa. Uma cuidaria da casa, outra só dos bichos e das plantas. Uma cozinharia coisas gostosas, outra se dedicaria aos amigos.

Uma leria todos os livros e revistas que existem, outra escreveria livros e mais livros. Uma aprenderia a tocar piano, outra faria um mestrado. Uma tomaria café com os amigos todas as tardes. Outra seria cantora de bossa nova, que nem a Astrud Gilberto. Uma se engajaria na política, outra passaria o dia comprando sapatos novos.

Uma acordaria e dormiria tarde, outra dormiria e acordaria cedo. Só para viver o dia na íntegra. Uma compreenderia todas as coisas do universo, outra não estaria nem aí. Uma saberia com quantos paus se faz uma canoa, outra só saberia remar. Uma seria doce, gentil, educada, talentosa e resiliente, e agradaria aos outros o tempo todo. Outra seria livre para mandar todo mundo lamber sabão quando desse na telha.

Múltipla assim, eu daria conta de ser e fazer tudo o que eu quisesse, precisasse e inventasse. Vinte e quatro horas seriam mais que suficientes. Mas nem tudo seriam flores: eu e minhas cópias continuaríamos a ter o mesmo DNA, os mesmos pontos de vista e as mesmas opiniões, tudo sincronizado como as moças nas piscinas. Mais que clones, elas seriam a réplica de tudo o que há em mim. De bom e de ruim. Defeitos duplicados, manias triplicadas. Pensando bem, um bando de mim não teria assim tanta serventia.

Ficou bom?, a vendedora perguntou lá fora. Fiz um sinal com o dedo em frente à boca, Shhhh. E ficamos todas nós bem quietinhas. Apanhei minhas coisas e despedi-me delas com um aceno, prontamente retribuído.

Saí da loja sozinha e feliz com a compra. A calça jeans estava em promoção, e a barra ainda saiu de graça.

Foto: George Thomson/Flickr.com

Parece que toda escolha vem com um bônus: a culpa.

A culpa é filha do bem e do mal. Criada, desde pequena, pela moral. Mimada, ela se instala na nossa casa e lá fica, dando pitaco em tudo. A gente não percebe, mas presta uma atenção danada ao que ela diz. Porém, a culpa, tirando crime e acidente de trânsito, não está a serviço de ninguém. Ela é um desserviço contra todos nós.

A culpa por trabalhar muito. Por trabalhar pouco. Por não trabalhar. Por ter casado cedo, por ter casado tarde. Por amar demais. De menos. Por ter ido. Por ter ficado.

Culpa pela traição imaginada, pela efetiva e pela que sequer se deixou virar ideia. Culpa por acordar tarde. Por ter dito não. Por ter dito sim. Por não ter dito nada e ficado na mesma. Por ter dito muito e estragado tudo.

Culpa por ter cuidado da carreira em vez dos filhos. Culpa pelo vice-versa. Ou por não ter escolhido nem uma coisa nem outra, já que as duas pareceram desinteressantes. Culpa pelo cansaço do corpo, que não encara mais nenhuma vontade da cabeça. E pela fadiga da cabeça, que não acompanha o resto do corpo.

Culpa por não rezar. Por não fazer ginástica. Por ler menos do que gostaria. Por não gostar de ler. Pelo trigésimo par de sapatos no armário em vez da consulta no dentista. Pela indisciplina, pela bagunça. Pelo prazer de um vinho fora de hora. E por não saber que horas são.

Tem mais. Culpa por não telefonar para os amigos. Por esquecer o aniversário do pai. Culpa pelo ócio fundamental. Por topar um trabalho pelo dinheiro, sem prazer. Ou por aceitá-lo por prazer, sem pensar na grana. Culpa por tolerar a insatisfação, por denunciá-la ou até por senti-la. Culpa pela sobremesa, pela mesa inteira. Pelo sono diurno e pela insônia noturna. A culpa, simplesmente por se sentir culpada.

Desculpas à parte, o negócio é o seguinte: hora de parar com a síndrome da crucificação. Já basta aquele moço. Que, aliás, não tinha culpa no cartório.

Foto: Khawkins/Flickr.com

Tem coisas que marcam a gente, se não para sempre, por muito tempo. Uma fotografia, um livro, uma canção. E outras, que não vêm traduzidas sob forma alguma. São as experiências. As que a gente vive quando cresce e vai trabalhar, por exemplo. Coisas como pagar a conta do restaurante com o próprio salário, desafiar a hierarquia, cumprir uma meta insana, dominar a preguiça. No meu caso, um dos grandes marcos foi algo simples, mas não menos emblemático. A verdade é que nunca mais fui a mesma depois que flagrei um diretor com a meia furada.

Naquele dia, durante a reunião onde eu deveria prestar atenção a uma pauta insossa, meu olhar se ausentou, como sempre fazia, e foi passear. Para ver se encontrava algo interessante. E encontrou. Sob a mesa. Aquele homem simpático, porém inatingível, hermético e sério em tempo integral, tinha um insuspeitável rombo na meia. Revelado assim, por acaso. Tempos depois, considerei aquela uma das minhas principais iniciações corporativas, espécie de revelação. Nem minha primeira demissão causara tanto rebuliço em mim.

Meias furadas nunca foram objeto de estudo nos ambientes empresariais. Não há literatura a respeito no mundo dos negócios. Jamais se abordou o tema em uma dinâmica. Porém, existe algo de revelador em um superior de meias esburacadas. Meia de chefe – sempre acreditei – deveria ser neutra, clássica, impecável e imaculada. Invisível. Mas ali, diante de mim, estava o contraponto. Quem era aquele homem, então?

Lembro direitinho: era um furo iniciante, que nascia no calcanhar e se estendia, discretamente, em direção ao tornozelo. Meia antiga, só poderia ser. Meia nova não fura por qualquer coisa. Constatações à parte, eu estava diante da segunda revelação: chefes também usam meias velhas.

Eu estava desconcertada. Como era possível alguém tocar um negócio daquele porte, conduzir uma orquestra com tantas pessoas, liderar e decidir, com uma meia avariada? A cena nunca mais se repetiu, mas aquele furo deixara um enorme buraco nas minhas convicções, com o raiar da terceira revelação: a meia não faz o chefe.

Foto: Rich/Flickr.com

Na camiseta cor de céu

Mora a borboleta bordada

Em fios de verde oliva e laranja lima.

A borboleta de verdade ficou curiosa e pousou

Para conversar com a amiga

Que estava tão quietinha.

Perguntou seu nome

E a borboleta bordada não respondeu.

Quis saber qual flor ela gostava mais

E a borboleta bordada não respondeu.

A borboleta de verdade desistiu e voou.

A borboleta bordada chamou baixinho

Mas não deu tempo de contar

Que não tinha nome

E gostava das margaridas

Mas preferia os girassóis.

Foto: Pink Sherbet/Flickr.com

Outro dia o Benedito apareceu aqui em casa. Já era noitinha. Eu fechava as cortinas quando bati o olho nele, sentado na poltrona que dá para o jardim. Queria saber o que eu queria com ele.

– Como assim?, perguntei. Sentei-me no sofá, aproveitei e fiz um cafuné no gato. Que se esticou e ficou imenso. Um Gato-Elástico.

– É que você vive falando meu nome. Vim ver o que é.

Ele tinha razão. Não tem pessoa no mundo que evoque mais São Benedito do que eu. Ora é São, ora é Santo. Mas é sempre ele, como se não existisse mais santo nenhum, que eu chamo para acudir. Na hora da pressa, da raiva, do desespero, da paciência esgotada. Quando levo uma fechada no trânsito. Se percebo que não vai dar tempo de entregar o trabalho. Quando a filha chama, pela vigésima terceira vez em cinco minutos, ou a cancela do estacionamento do shopping resolve emperrar bem na minha vez. Ou, no telefone, quando a moça da pizzaria não entende o nome de onde eu moro (se minha profissão fosse batizar prédios e condomínios, seria tudo “Parque das Flores”, “Residencial Maria”).

Ensaiei as desculpas ao santo mouro quando ele, amavelmente, me interrompeu. Todo santo é amável.

– Não é que eu não queira ajudá-la. E entrelaçou as mãos sobre a túnica, como quem se prepara para fazer uma importante explanação. – É que cada santo tem o seu departamento, compreende? A Edwiges, por exemplo, cuida do Financeiro. Se é para ontem, o Expedito dá conta do recado. Aliás, ele é bom de marketing, tem até outdoor com o nome dele. Para Achados & Perdidos, Longino é o cara. E nem precisa dos pulinhos, isso é invenção.

– Longino? Mas não é Longuinho?

– Pois é. Tanto tempo se passou, minha filha. Ficou Longuinho. Mais fácil de dizer. Ele não se importa, leva a coisa como um apelido carinhoso.

O gato acordou, se espreguiçou mais uma vez e lembrou que era hora do banho. Ali mesmo no sofá. Eu não sabia se servia um café, não faço ideia do que gente canonizada gosta de beber. O gato acordou, se espreguiçou mais uma vez e lembrou que era hora do banho. Ali mesmo no sofá. Eu não sabia se servia um café, não faço ideia do que gente canonizada gosta de beber. Ainda mais ele, que é bom nos assuntos gastronômicos. Mas ele é santo, deve relevar uma porção de coisas.

O Benedito descobriu, sem querer, que a poltrona reclinava. Deitou-se, ficou sentado, deitou-se de novo, pés balançando sob as vestes (aquilo era um All Star?), rindo uma risada gostosa de quem acabara de inventar uma diversão.

– E vou lhe falar mais uma coisa, disse, ajeitando-se e encerrando a santa risada, enquanto buscava ao lado da poltrona o entendimento da engenhoca. – Acho que você não precisa de tanta ajuda assim.

E não preciso mesmo, o santo estava certo. Difícil é mudar o padrão. E agora, o que é que eu vou dizer naquelas horas? Será que tem algum santo das manias bobas?

Mas eu vou dar um jeito de agradecer ao Benedito pela visita. Amanhã mesmo passo naquela loja que tem umas poltronas bonitas, escolho uma reclinável, branca, bem macia. E pergunto se entregam no céu.

Ilustração: Daybeezho/Flickr.com

A vida é feita basicamente das primeiras coisas, um pouco das últimas, e o resto das que vão ficando pelo meio. A gente vai pondo número nos fatos, brincando de reger a história e sempre prestando mais atenção nas pontas – opostas e, por vezes, complementares –, que são o início e o fim. Parece que assim fica mais fácil entender o mundo.

Quem não se lembra do primeiro fantasma embaixo da cama? Do primeiro choro no escuro. A primeira peça de teatro na escola e a última chance de você ser um artista. O primeiro bichinho de estimação que você viu morrer e pediu para enterrar numa caixa de sapatos no jardim da sua casa. A primeira vez que você ouviu Papai Noel chamar baixinho sua mãe de ‘querida’, e a última vez que você acreditou nele. A primeira bronca feia. O primeiro gol. A primeira bota de cano longo. A primeira bicicleta. E a última vez que você andou nela com as rodinhas de apoio.

O primeiro salto alto. A dor estranhamente boa da primeira depilação. O primeiro email enviado e o primeiro recebido. A primeira canção do Led Zeppelin que você ouviu. A primeira fotografia três por quatro. O primeiro esmalte vermelho. A primeira poesia feita assim, de uma vez só. O primeiro show que você foi sem seus pais. O primeiro porre e a primeira amnésia. O primeiro prêmio na escola e a primeira vez que você se achou o máximo. O primeiro computador só seu. O primeiro amor. O primeiro rio de lágrimas, que você achou que seria o último. A primeira saudade. O primeiro xeque-mate. A última chamada no vestibular. A entrevista para o primeiro emprego.

O primeiro salário e a primeira certeza: você ganhava mal. O primeiro cartão de crédito, a primeira fatura e o juramento de que seria a última vez que você gastaria tanto. O primeiro carro. A primeira demissão. A primeira vez que você falou com Deus, e ele respondeu. A primeira dívida. O primeiro negócio próprio e a última vez que você tirou férias. O primeiro cliente e o primeiro mês sem grana.

A primeira estria. O primeiro carro com ar-condicionado. A primeira dor de cotovelo. O último dia de solteira. A última nota na carteira. O primeiro assalto. O primeiro cabelo branco. O primeiro infeliz que chamou você de senhora. O primeiro filho aos quarenta e nove. A última chamada para o embarque. O primeiro casamento aos sessenta e sete. A última esperança. O primeiro tempo. O último dia do ano. O primeiro dia da semana, que ninguém entra num acordo se é domingo ou segunda. A última vez que você se olhou no espelho e desejou que a barriga fosse transparente, só para ver sua filha lá dentro, pronta para o mundo. E a primeira noite com ela nos braços.

O primeiro ovo da primeira galinha. A primeira vez frente a frente com a Morte e a última que ela foi embora sem você. O primeiro negro a ser isto, a primeira negra a fazer aquilo. O primeiro homem na lua. A primeira carta de amor do seu filho. O último dos moicanos.

O primeiro segredo guardado e o último revelado. O primeiro pensamento ao acordar. O último antes de dormir. O último voo. O último dia do resto da sua vida. O último beijo. O último sopro de ar. E a primeira vez que você viu uma estrela tão de perto.

Foto: Philippa Willitts/Flickr.com

O pente que me penteia anda estranho. Agora fica meio desajeitado nas mãos, e deu de querer botar coisas na minha cabeça. Quer saber por que é que tenho essa mania de só me ver de frente, sem dar conta que tenho um lado atrás. Mandou-me colocar outro espelho na porta do armário, em frente ao que já está lá. Para que eles conversem?, perguntei. Não, boba. Para que você veja como é de costas, o pente respondeu. Em nove das dez vezes que me olho no espelho, é para prestar atenção na frente. No perfil também. Mas lá, onde não há olhos, nem boca, nem peito, mas há nuca, ombros, tatuagem, bunda, batata de perna, não.

O pente que me penteia também tem uma conversa esquisita. Diz que veio da China e que bom mesmo é ser careca. Quem tem pelo é bicho, filosofa. Digo que já está combinado: quando eu fizer sessenta e sete, cabeça toda branquinha, passo máquina um. O pente quer saber porque 67. Ano em que nasci. Vim ao mundo com máquina um, só que meio desregulada. Então, é para voltar às origens. ‘Ashes to ashes’.

No contraponto do papo capilar, o pente que me penteia conta um segredo: gostaria é de desembaraçar as ideias das pessoas. Que vivem com nós e caraminholas demais. Sonha fazer num cabelo cheio de ondas um tsunami de coisas novas, levando os pensamentos a mares nunca dantes navegados. Nos lisos, um penteado para se achar o fio da meada. Ele sabe que é na cabeça que as coisas nascem, vivem e morrem, então é ali que elas podem ser reinventadas. E eu, que não sou boba, fico só prestando atenção.

E teu pente, o que te fala?

Ilustração: Abhi/Flickr.com

Qual foi a última vez que você disse não? Mas não em uma frase qualquer, do tipo “Não vi a novela ontem” ou “Você não pode ir brincar lá fora”, nem “Hoje não posso sair com você”. Fáceis demais, essas.

Quero saber é daquele não proclamado em respeito à sua opinião, à sua vontade, aos seus limites. O inesperado não, tomando meio mundo de assombro, quando todos juravam que seria (mais) um sim seu. Um não firme, sem vacilo e, contudo, cheio de carinho (ou nem tanto). O não repleto de coragem e vazio de medo. Nana-ni-na-não, dito com propriedade a alguém que se acostumou demais ao sim. Um não cinematográfico, com direito a um ou mais queixos caídos lhe assistindo. Vale até aquele não de muitos decibéis em plena madrugada, marcando de vez a aurora da sua vida.

Confesse: faz tempo.

O sim é irmão mais velho do não. Irmão de olho azul: a gente insiste em achá-lo mais bonito e mais simpático que o caçula. E o não, que não é o primogênito, nem tem olho claro, nem é tão legal, fica lá, negado num canto da vida. Tímido, demora a entrar em campo, e geralmente só o faz quando a coisa está feia mesmo. E às vezes pode ser tarde. É do tipo que desconhece seu poder, até mostrar que sabe fazer gol, virando o jogo nos quarenta e quatro do segundo tempo. É aquele sujeito que tem umas idéias diferentes, mas que, com jeitinho, aprende a se impor e passa a ser respeitado na roda.

Todo não, assim como todo sim, tem seu preço. A diferença é que o não costuma ser pago à vista, enquanto o sim acaba sendo quitado em prestações, geralmente em mais vezes do que se pretendia. Um costuma ser mais em conta que o outro, embora isso dependa da lógica do mercado, que às vezes não tem lógica alguma.

É o sim quem torna oficial – e presunçosamente eterno – um amor. Mas é o não quem decreta seu fim. O sim é quase uma promessa de vida no coração. O não são as águas de março que fecham o verão. Juntos, os dois movem o mundo.

Na semana ainda na metade, pense na pergunta que a primavera faz. Vale tudo para descobrir com quantos nãos se faz um sim, e quantos sins estão por trás de um bom não. Só para saber qual dos dois irmãos tem tomado mais conta de você. Pelo sim, pelo não.

Ilustração: Torley/Flickr.com

Qual foi a última vez que você se deu um presente? Presente mesmo, na melhor – e talvez única – acepção da palavra. Que tenha contado com o ritual da busca por algo especial, a escolha final entre duas ou três opções, ou então o martelo batido logo na primeira, É esse! Pensar na melhor cor e não no melhor preço. A felicidade ao mandar embrulhar para presente. Tudo isso para a pessoa mais batuta que há: você.

Diz aí. Quando foi?

A gente costuma chamar de presente próprio o que, no fundo, não passa de suprimento de necessidade. Algo que se empurrou com a barriga um tempão, para um belo dia resolver, Vou me dar um aparelho celular decente. Ou: Estou precisando de meias novas. Isso não é presente para si. Nem aqui nem na China.

Auto-presente bom mesmo é aquele que você ama, sonha e namora todos os dias. Uma coisa que você tem certeza que pode mudar sua vida (ou pelo menos uma parte dela). Algo que talvez só você saiba o quanto merece. Pode ser objeto. E pode não ser. Um intervalo de dez minutos no trabalho para enfiar os pés na fonte da praça, a dois quarteirões do escritório. Libertar os cabelos do eterno rabo-de-cavalo, onde eles vivem confinados só porque não são como você queria. O pedido de demissão por justa, mais que justa, causa própria. Vale tudo para descobrir com quantos sentimentos se faz um presente.

Há quem reconheça uma verdadeira dádiva em tudo. Passar na avenida um minuto antes do acidente. Não se lembrar, de bate-pronto, da última vez que precisou levar o filho ao pronto-socorro. Poder comer qualquer coisa que der na telha.

Bobo dizer, mas o fato é que a vida já é um presente e tanto. Para ser usado todo dia, bem à mostra. Para dizer ao primeiro que aparecer: Olha o que eu ganhei.

Está difícil lembrar? Então, por favor: tarefa número um para a semana que acabou de começar. Depois passe aqui para contar.

Foto: Filipe Oliveira/Flickr.com

É preciso prestar nova atenção ao que, na vida, ficou por fazer. Agora, junto às obras inacabadas espalhadas pela minha cidade, há mais uma imagem desconstruída, desta vez noutro lugar. Uma coisa é o edifício não-terminado sem ninguém dentro. Outra coisa é o que, não finalizado, tem gente dentro.

O primeiro só cutuca. Faz lembrar das obras e dos projetos de vida que ficaram pelo caminho, rascunhados e embargados lá dentro da cabeça. Já o segundo põe os olhos fazendo de conta que não estão vendo nada. Os mesmos olhos da mesma cabeça das ideias inconclusas.

No edifício por terminar com ferros retorcidos e aparentes, das paredes mal erguidas, de janelas eternamente abertas na veneziana de papelão e dos chãos crus, meu Deus, mora gente. Muita gente. Gente de vida pela metade, igualmente inacabada como os planos da cabeça.

Da rua se vê um varal estendido na não-varanda do segundo andar. Duas camisetas, três pares de meias, duas calças jeans, três sutiãs velhos, meia dúzia de calcinhas e roupas de criança. São as únicas cores do não-prédio. Os únicos sinais de vida na obra morta de dez andares. Cada peça de roupa estendida representa um direito subtraído do cidadão incompleto, numa exposição indesejada e quase maldita em plena metrópole dita desenvolvida e das boas oportunidades.

A nova atenção, prestada a contragosto, tira, por instantes, a graça do meu período sabático na capital mineira. À noite, entre um pensamento e outro, confiro o varal onde pendurei, uma a uma, as ideias do dia. E me dou conta: muitas ainda não secaram. Nem vão secar.

Algumas pessoas têm me pedido para reproduzir esta cartinha, mudando o destinatário, para dar à filha, ao sobrinho, ao filho da amiga. Claro que pode! Só que a carta original, para a Letícia, tem detalhes que são só para ela. Então, para facilitar, reescrevi algumas coisas e criei esta “Carta genérica para um bebê” (rs). Fiquem à vontade para copiá-la. Ficarei feliz. (E se puderem dar o crédito, melhor ainda.)

Bebê,

que bom que você está de volta.

Você nem nasceu ainda, mas eu vou lhe contar algumas coisas deste mundo. Só para refrescar a sua memória ancestral. Porque você já sabe tudo, mas vai esquecer.

Vou explicar. Aqui tem uma coisa chamada banco. Na entrada dele existe uma porta giratória com uma caixinha, e a gente precisa deixar algumas coisas nela antes de entrar. Depois que entramos, pegamos de volta.

Nascer é mais ou menos como entrar nesse lugar. A gente deixa todo o nosso conhecimento numa caixinha lá na porta do planeta, que também é giratório. A diferença é que levamos algum tempo, às vezes uma vida inteira, para pegar tudo de volta. Depois explico o que é banco.

É preciso dizer: aqui é bem legal, mas um pouco esquisito. Está tudo dividido em países. Mas se você observar o planeta de cima – da estrela de onde você vem, por exemplo – verá que é uma coisa só. Parece óbvio, mas muita gente ainda não percebeu isso.

Além dos quatro elementos – água, terra, fogo e ar – nosso mundo tem três coisas básicas: gente, bicho e planta.

As plantas estavam aqui antes de nós. Não fossem elas, a gente não teria flor para enfeitar a casa e o cabelo. Nem sombra para tirar uma soneca. Nem alimento. Assim que você puder, peça para sua mãe preparar morangos picadinhos com mel. É imperdível. O mel vem da abelha, que é um tipo de bicho.

Os bichos também já moravam no planeta. Não existe um que não seja bonito. Urso, gato, cavalo, gaivota, leão-marinho, joaninha. Se bem que a barata não é nada bonita. Mas não há um bicho que não seja importante. Quer dizer, tem a barata, que eu não sei para quê serve.

Por fim, viemos nós. É importante saber uma coisa: quem chega por último precisa respeitar os que chegaram antes. Muitas pessoas vão tentar lhe convencer do contrário. Não acredite.

Para contar tudo isso – gente, bicho, planta – existe a matemática. Matemática é uma coisa meio chata. Mas ajuda um bocado. É com ela que você vai aprender a contar quantos dias faltam para o Natal, quantos bombons de chocolate você já comeu e quantas pessoas estão ao seu lado para o que der e vier. Essa conta é a mais importante. Preste atenção quando a professora lhe ensinar sobre o infinito. Vai lhe ajudar a entender melhor o amor dos seus pais por você.

Tem mais coisas bacanas aqui. A música que sua mãe canta para você, desde o dia que soube que você viria. A cara de bobo do seu pai quando olha para você. O cinema, feito com as histórias que saem das cabeças das pessoas. Também tem a água. Que é parecida com a que você já conhece. Aqui fora tem mais. Muito mais. O oceano é feito de água. E quando a gente olha para ele, parece que ele não acaba mais. Mas sem fim, só mesmo o amor.

Faltou explicar o que é banco. Mas acho que você não entenderia. Aliás, ninguém entende direito. Esqueça.

Por fim, existe a família. Família é tudo de bom. Mas, às vezes, pode torrar um pouquinho a nossa paciência. Talvez torre a sua. Mas acredite: isso não terá a menor importância. Porque família é de onde a gente veio e para onde a gente sempre volta.

Vai por mim.

Um beijinho,

Ilustração: Reway/Flickr.com

Querida

Que bom que você está de volta.

Você nem nasceu ainda, mas eu vou lhe contar algumas coisas deste mundo. Só para refrescar a sua memória ancestral. Porque você já sabe tudo, mas vai esquecer.

Vou explicar. Aqui tem uma coisa chamada banco. Na entrada dele existe uma porta giratória com uma caixinha, e a gente precisa deixar algumas coisas nela antes de entrar. Depois que entramos, pegamos as coisas de volta.

Nascer é mais ou menos como entrar nesse lugar. A gente deixa todo o nosso conhecimento numa caixinha lá na porta do planeta, que também é giratório. A diferença é que levamos algum tempo, às vezes uma vida inteira, para pegar tudo de volta. Depois explico o que é banco.

É preciso dizer: aqui é bem legal, mas um pouco esquisito. Está tudo dividido em países. Mas se você observar o planeta de cima – da estrela de onde você vem, por exemplo – verá que é uma coisa só. Parece óbvio, mas muita gente ainda não percebeu isso.

Além dos quatro elementos – água, terra, fogo e ar – nosso mundo tem três coisas básicas: gente, bicho e planta.

As plantas estavam aqui antes de nós. Não fossem elas, a gente não teria flor para enfeitar a casa e o cabelo. Nem sombra para tirar uma soneca. Nem alimento. Assim que você puder, peça para sua mãe preparar morangos picadinhos com mel. É imperdível. O mel vem da abelha, que é um tipo de bicho.

Os bichos também já moravam no planeta. Não existe um que não seja bonito. Urso, gato, cavalo, gaivota, leão-marinho, joaninha. Se bem que a barata não é nada bonita. Mas não há um bicho que não seja importante. Quer dizer, tem a barata, que eu não sei para quê serve.

Por fim, viemos nós. É importante saber uma coisa: quem chega por último precisa respeitar os que chegaram antes. Muitas pessoas vão tentar lhe convencer do contrário. Não acredite.

Para contar tudo isso – gente, bicho, planta – existe a matemática. Matemática é uma coisa meio chata, Letícia. Mas ajuda um bocado. É com ela que você vai aprender a contar quantos dias faltam para o Natal, quantos bombons de chocolate você já comeu e quantas pessoas estão ao seu lado para o que der e vier. Essa conta é a mais importante. Preste atenção quando a professora lhe ensinar sobre o infinito. Vai lhe ajudar a entender melhor o amor da sua mãe por você.

Tem mais coisas bacanas aqui. A música que sua mãe canta para você, desde o dia que soube que você viria. O cinema, feito com as histórias que saem das cabeças das pessoas. As bolsas e os sapatos (quando você crescer, saberá). Também tem a água. Que é parecida com a que você já conhece. Aqui fora tem mais. Muito mais. O oceano é feito de água. E quando a gente olha para ele, parece que ele não acaba mais. Mas sem fim, Letícia, só mesmo o amor.

Faltou explicar o que é banco. Mas acho que você não entenderia. Aliás, ninguém entende direito. Esqueça.

Por fim, Letícia, existe a família. Família é tudo de bom. Mas, às vezes, pode torrar um pouquinho a nossa paciência. Talvez torre a sua. Mas acredite em mim: isso não terá a menor importância. Porque família é de onde a gente veio e para onde a gente sempre volta. A sua família, se for como sua mãe, é linda. E eu desejo que, quando você tiver idade para ler esta carta, ela esteja completa.

Um beijinho,

Ilustração: Rafael Assis/Flickr.com

O rapaz bem que tentou. Mas não conseguiu alcançar o ônibus. Correu o mais que pôde, segurando com uma das mãos o bolso da camisa e com a outra, a mochila. De nada adiantou. O motorista não o viu. Se o visse, talvez sua vida, em plena primavera, mudasse de itinerário.

Se alcançasse o ônibus, talvez visse a moça com camiseta de flor sentada no penúltimo banco. Ela é linda, e talvez eles se apaixonassem.

Se eles se apaixonassem, talvez fossem morar juntos no próximo verão.

Se eles fossem morar juntos, provavelmente já teriam montado um apartamento do jeitinho deles, com varanda para a montanha e tudo, até o outono.

Se eles montassem um apartamento do jeitinho deles, é certo que pensariam, no inverno, como seria bom ter um filho.

Que nasceria na primavera, junto com os primeiros botões de rosa da varanda.

Daria seus primeiros passos num verão.

Balbuciaria as primeiras palavras num outono.

E seria batizado num inverno.

Muitas primaveras depois, os dois voltariam ao ponto de partida: não se (re)conheceriam. E, num verão, estariam prontos para seguir novos itinerários. Cada um, o seu. Se renovariam a cada estação, sucessivamente. Assim como as plantas e os bichos.

Mas o rapaz não alcançou aquele ônibus. Que partiu levando uma das possibilidades da sua vida.

Não faz mal: dali vinte minutos chegou outra.

Foto: Jim Frazier/Flickr.com

Viagens no tempo são sempre fascinantes. A vontade de pousar noutra época vive no imaginário das pessoas desde que o mundo é mundo. Por curiosidade ou arrependimento, a gente vive querendo dar um pulinho na história, para trás ou para frente. E nessa hora qualquer coisa serve de transporte, nem precisa ser máquina do tempo.

Pois eu acabo de arrumar um bom transportador. Ganhei o livro de um amigo de infância. (Desses que a gente conhece depois de grande.) O título vai logo avisando que os sonhos não envelhecem. É sobre os rapazes que, nos anos sessenta, inventaram de compor, cantar e tocar de um jeito que só eles. Eles não sabiam disso na época. Mas cada canção daquela turma é, para mim, motivo para o desejo de viajar. Só para dar uma espiada em como tudo começou. Para ver, sobretudo, o Milton antes de ele ser o que é. E o bom de viajar no tempo é que a gente pode inventar umas coisas aqui e ali.

Minha viagem foi de trem. Porque viagem no tempo que se preza não é assim, pá-pum, como nos filmes. Não é só dormir e acordar em outro século. Nem é atravessar o fundo falso de um armário e dar de cara com castelos e távolas redondas. Muito menos entrar num carro maluco e encontrar seus pais quando eles nem sonhavam em se casar. Viagem para Minas Gerais, inclusive as que cruzam o tempo, precisa ser contemplada. Eu até que fui perto – quatro décadas atrás – mas sacolejei um bocado na velha estrada de ferro. O livro e eu.

Desço na estação de Belo Horizonte. Confiro nos jornais de uma banca o dia em que cheguei. Abro o livro: esse está bom. Não foi difícil achar a avenida Amazonas e o tal do Edifício Levy, onde parte da turma morava e se reunia no começo. (Para minha frustração, não tinha clube nenhum, muito menos na esquina.) Como os tempos eram outros, entro no prédio sem precisar dizer a ninguém aonde eu vou. Nem ser anunciada. Ponho o livro sob o blusão, pego o elevador e subo ao 17º.

Toco a campainha e uma senhora abre a porta. Apesar de estar ainda na página trinta e sete do livro, deduzo que é dona Maricota, mãe do Márcio, o Borges, contador da história. Ela me olha da cabeça aos pés. Eu deveria ter colocado um vestido, ninguém usava moletom ainda. Finjo que sou uma conhecida e arrisco: Os rapazes estão aí? Torço para que ela entenda; se eu tiver que explicar alguma coisa, estarei perdida. Ela sorri e me convida a entrar. Pergunta se eu não sou a irmã de uma vizinha lá de Santa Tereza. Aproveito a deixa. Ela aponta o “quarto dos homens” e lá vou eu. No corredor, ela me chama, e eu estremeço. Eu ia levar esses biscoitos para eles, mas você pode levar. Preciso tirar o feijão do fogo.

Bandeja na mão, livro escondido, descubro o quarto pelos acordes que vêm dele. Estremeço de novo: onde é que eu havia amarrado minha égua? Não tinha ideia do que veria. Mas sabia que um Milton de boina é que não seria. Respiro fundo e bato duas vezes na porta.

Quase certeza: é o próprio Márcio, novinho, quem abre. Comecei a achar péssima aquela história de viajar no tempo. Ele me olha da cabeça aos pés, que roupa era aquela? Perpetuando a confusão, digo que sou irmã da ex-vizinha e só estava entregando o lanchinho. Os quatro rapazes param de tocar. Um Milton – muitíssimo diferente, sentado em uma das camas – me salva, Já estava com fome. Não resisto. Então você é o Milton Nascimento… Ele corrige, enquanto abocanha um biscoito: Milton do Nascimento. Insisto: Para mim é Milton Nascimento. E quase solto: Ninguém fala o ‘do’.

A situação, já esquisita, fica insólita de vez. Meia dúzia de palavras trocadas, estico os olhos para os papéis sobre o criado-mudo, na ingênua esperança de ler alguma coisa familiar. Sinto o livro querendo aparecer sob o blusão. E, sem ter nada a dizer, despeço-me, tentando decorar cada centímetro do que vira. Digo que preciso voltar à estação. Os rapazes já devoraram os biscoitos e agora retornam ao ensaio.

Já estou de saída do quarto quando Milton pergunta, Qual trem você pega? Invento, já que para viajar no tempo qualquer um serve: O das dezoito. Ele, talvez percebendo algo, acena e pede: Depois, mande notícias do mundo de lá.

Foto: Silmara Franco/Arquivo pessoal

De vez em quando é bom passar um tempo com quem já partiu. No Dia dos Pais eu vesti o colete que fora do meu avô. Na semana seguinte, enquanto eu procurava no meu armário o que usar, bati os olhos em uma roupa. E senti saudades da minha mãe. Meu avô sempre dizia que não era certo filho ir primeiro que pai.

Mas ela foi. Dona Angelina fazia umas panquecas que eu nunca vi igual. A coisa mais simples do planeta: uma em cima da outra, e muito molho de tomate. Só. Sem recheios nem firulas. Uma torre de panquecas. Construída aos poucos, no calor da velha frigideira cheia de furinhos em relevo que eu jamais soube onde foi parar.

Sempre tive dificuldade para pensar na minha mãe como uma jovem dos anos sessenta, onde quase tudo parecia estar em ebulição – música, comportamento, política. Dona Angelina era dona de casa exemplar. Dois filhos, mais eu chegando no finalzinho da década. Mamãe não fervia. (Ou fervia. E eu preferi acreditar no contrário.)

Por aqueles anos, ela foi madrinha de um casamento. Ela, que nunca teve dinheiro sobrando, foi esperta: investiu em algo que usaria depois. Comprou um conjunto, espécie de tailleur, na Prelude (chique, na época). Vermelho, num suave xadrez com preto e azul marinho. Ela só não imaginava que a aquisição fosse render tanto.

Quarenta e cinco anos depois, apanho do cabide o que guardei daquele conjunto: a blusa com o casaqueto. A etiqueta ainda está lá, amarelada e puída. Mas o poodle, marca da confecção, continua empertigado em seus pompons. Digo bom dia ao totó, visto a blusa e vamos, mamãe e eu.

Ela me dá o braço e vai contando, com certa pena, que a saia do conjunto, de tão usada, não sobreviveu. Disse estar espantada como a peça combina comigo, ela pensava que éramos mulheres bem diferentes. Mamãe às vezes acha que eu deveria ferver menos.

Pergunto como vai a vida do lado de lá. Ela olha para o céu, em seguida para o chão. Desvia de um formigueiro e me conta de novo a história de um tio que desdenhou dela ao vê-la, muito criança, caprichando no plural, Olha quantas formiguinhas! Só para se divertir, mandou que ela colocasse a mão no formigueiro. Ela obedeceu. E as formigas não tiveram dó.

Rimos mais uma vez e nos despedimos com um beijo, como sempre. Antes de ir ela me lembrou: aquela blusa não deve secar ao sol.


Álbum de família, ainda sem mim.
E eu não sei quem é o garoto da esquerda.

Foto: Harshad Sharman/Flickr.com

Prestem atenção nas coisas que não foram terminadas. Aquelas que ficaram pela metade, ou nem isso. Prédios inacabados, por exemplo. Toda cidade tem os seus. Largados crus, eles parecem instalações de alguma exposição de arte esquisita. São interferências destoantes na cidade que pulsa noutro ritmo. Viram esqueletos urbanos, incompletos e sem razão. A gente se acostuma com eles, mas não deveria.

Todos os dias, esses prédios ficam à espera de alguém que os conclua. Enquanto isso não acontece, vivem um drama com jeitão de Shakespeare: são ou não são? Não compreendem porque acabaram assim. Ninguém lhes contou que, em determinado momento, alguma coisa deu errado. Que alguém mudou de idéia, ou o dinheiro acabou, ou uma lei tratou de impedir que fossem para frente. E, como nas obras nem sempre é possível apertar a tecla undo, alguém determinou que seria melhor deixá-los ali, semi-erguidos. Os quase-prédios, enfeando a cidade.

Agora prestem atenção nas obras que a gente vai embargando pela vida. Todo mundo tem as suas. As ideias, as vontades, os projetos de vida que são só sonhados. Os que não saem “da planta”, ou que faltam uma parte. Ficam inconclusos, ocupando espaço lá dentro da cabeça. Iguaizinhos aos prédios tristes com cor de abandono, espalhados pela cidade.

A gente se acostuma com eles. Mas não deveria.

Álbum de família

Fato: os filhos dos seus bisnetos não saberão nada sobre você. Na melhor das hipóteses, muito pouco. Ouvirão algumas histórias nas reuniões de família, verão uma fotografia num álbum amarelado ou num arquivo escondido de um computador. Um vídeo, talvez. Mas, acredite: eles não saberão de você do jeito que você se conhece.

Não saberão para que time você torce, nem se você gosta de rock ou se prefere jazz. Ninguém lhes contará que você já foi ao Egito, ou que sabe fazer mousse de maracujá. Nunca imaginarão que você já teve uma banda ou que escreve poesias. Nem que você consegue desenhar cavalo, que é a coisa mais difícil deste mundo. Ou que chegou a dirigir uma empresa, antes de se aposentar e ir viver lá no meio do mato com os sacis. Muito menos que sua paixão era a dança e que você já se apresentou no Municipal. Jamais saberão como é a sua voz. Se a sua risada é estrondosa ou discreta, ou como você gosta de pentear os cabelos. E que você sempre chora nos filmes de amor.

Dos nossos avós a gente costuma se lembrar bem. Com um pouquinho de sorte, dos bisavós também guardamos alguma recordação. Mas poder abraçar os trisavós é para poucos. Ter tomado um chá da tarde com os tataravós, definitivamente, é raridade. Pena. A gente deveria saber mais das pessoas de onde viemos. Para ter uma ideia de como chegamos aqui e para onde vamos. Mas para isso cada um precisa fazer sua parte: contar muitas histórias aos filhos, várias vezes, até enjoar. Para que eles as contem aos seus e assim por diante.

E, do mesmo jeito que se aprende História – do mundo, do Brasil – na escola, deveríamos ter também ter uma matéria chamada “A sua História”. Onde a gente aprendesse a escrever os livros de família de um jeito diferente, cheios dos detalhes essenciais que geralmente passam desapercebidos. E também a plantar em grandes cadernos de desenho a nossa árvore genealógica, não só com seus ramos. Com as flores também.

Foto: Karl Eschenbach/Flickr.com

Era trinta e um de maio, domingo. Chuva fina na cidade. E ele acabara de nascer. Pela segunda vez.

Na primeira, há trinta e nove anos, também era trinta e um de maio. Também era domingo. E também chovia no Rio de Janeiro. Seu pai estava ensopado, nenhum táxi queria parar. Sua mãe, menos ensopada, aguardava sob a marquise do velho prédio onde moravam. Contava os minutos. Os intervalos entre as contrações ficando menores. E os dos táxis, maiores. Foram salvos pelo dono do mercadinho, que passava pela rua e reconheceu seu pai.

Foram os três para a maternidade, na Kombi sem bancos atrás. O homem e o pai foram na frente. A mãe atrás, deitada. Por pouco, muito pouco, ele não nasceria ali, em meio às três caixas de mamão papaya e seis engradados de laranjas. Mas acabou nascendo pelas mãos do médico de plantão que não tinha nome. Suas únicas palavras, nos trinta e seis minutos em que estiveram juntos – mãe, pai e médico – foram: É um menino.

Vinte e quatro horas depois os três deixavam a maternidade. Na porta, uma mulher sentada no chão dividia um sanduíche com um cão. Acenou para eles e disse: Feliz Natal! O pai estranhou – não era dezembro –, mas a mãe não. Às vezes mães sabem mais coisas que os pais. Quando criança, gostava de vê-la montando o presépio, contando histórias de três magos que eram reis. Ele queria saber o que era o Natal. Ela explicava que é o nascimento de alguém. Ou renascimento.

Na segunda vez, uma viagem a trabalho. Primeira vez em Paris. Mala feita e terno novo. E um congestionamento interminável até o aeroporto. Perdeu o avião.

Frustrado, tomou o táxi de volta para casa com passagem, mala e terno. Pararam em um sinal e lá veio o moleque, sem ligar para a chuva. (Moleques e sinais parecem ter sido feitos um para o outro.  Mas atenção: não são.)

Com pena do garoto encharcado, comprou dele um Mentos. Ao devolver o troco de três reais, ele abriu um sorriso e disse: Feliz Natal, moço! O motorista achou graça, não era dezembro.

À noite, ele, que aprendera muitas coisas com sua mãe, entenderia o que o moleque dissera. O avião que perdera se perderia no mar poucas horas depois de decolar. Antes de dormir, em meio à prece, atinou. Ninguém precisa perder um voo que não houve para nascer de novo. Todos os dias.

Ilustração: Isaac Nazal/Flickr.com

Na revista colorida

Sem índice nem número de página

Há sempre alguém se casando

E um fulano que se separou.

Há a mulher que vai ter bebê

Perto da outra que acabou de ter um

Inexplicavelmente enxuta e sem olheiras.

Há uma família feliz em férias

Onde ninguém briga e nenhuma criança chora.

Há alguém querendo aparecer

E outro que faz de tudo para se esconder.

Há uma pessoa fazendo força para ser lembrada

Ao lado da que deveria ser esquecida.

Em meio aos anúncios de sorrisos em liquidação

Surge um beijo sem foco

Uma pose sem graça

E uma legenda sem ambição.

Há recém-apaixonados

Com grandes chances de se desapaixonarem

Até a próxima edição.

Uma traição aqui,

Outra reconciliação ali

E nada que altere a vida.

Sempre há um quarto feito para tudo, menos dormir

Em algum apartamento deslumbrantemente falso

Ou num castelo de mentira

Onde mulheres posam deitadas esticando seus pezinhos.

São bailarinas de um espetáculo impossível

Com roupas que não amassam nem criam bolinhas.

Há sempre as confraternizações esquisitas

De harmonia indecifrável

Reunindo alhos e bugalhos

Que brincam de ser amigos de infância.

No planeta-pose até as histórias tristes se dissolvem

Ficando fotogênicas e agradáveis.

Ninguém tem problemas.

Ninguém tem cárie.

Ninguém tem saldo negativo.

Ninguém tem chulé.

Revistas assim são estranhas companhias para a espera

Do médico atrasado

Da manicure desapressada

Ou do cabeleireiro ocupado.

E eu, entre um cafezinho e outro,

Deixo que elas sentem ao meu lado

E puxem conversa comigo.

A.K.M.Adam/Flickr.com

A gente deveria ter quatro olhos. Os dois já existentes, que olham para fora. E mais dois, que olhassem para dentro. Que fossem além do tal terceiro. Que pudessem ver a nascente do pensamento e descobrissem como é que surge esse nosso olhar para o mundo, para as pessoas, os bichos, as coisas todas.

Esses olhos extras veriam onde é que nasce o amor. Como ele se forma e de quê ele precisa para crescer. E também o que o faz morrer. Sabendo disso, talvez a gente se enganasse menos e se cuidasse mais.

Um par de olhos extras mostraria, com alguma exatidão, de onde vem o ódio e do quê ele se alimenta. Assim, bastaria negar-lhe o nutriente básico, essencial. Para vê-lo minguar, até sumir. Embora sempre vá existir quem goste dele bem gordo. Tem doido para tudo.

E a saudade? A gente costuma se enganar sobre ela. Olhos comuns, de olhar para fora, veem na falta – de alguém ou de alguma coisa – a sua verdadeira fonte. Às vezes, a tristeza. Mas só os olhos extras saberiam que é tudo culpa do apego, aquele sentimento que insiste em dizer que tudo é nosso.

Com olhos extras a gente poderia ver a raiz da dor. Dor de qualquer tipo: de coração, de cabeça, de cotovelo. A gente conseguiria vê-la como ela realmente é lá dentro, desnuda e chorosa. Sim, porque aqui fora todo mundo sabe os disfarces que ela usa.

(Pensando bem, deve existir quem já tenha esses olhos a mais. São as pessoas que a gente vive dizendo que não são deste mundo.)

Olhos extras também poderiam dizer onde, afinal das contas, se esconde a tal felicidade. Olhos comuns (os mais espertos, claro) já deram a dica: é dentro da gente. Mas a gente é muito grande por dentro. Dá preguiça procurar. Nessa hora, os extras, que também teriam boca e certo senso de humor, falariam bem baixinho ao pé do nosso ouvido:“Ela está em cada uma dos cem trilhões de células desse seu corpo. É só ligar os pontos, oras bolas.”

Eva Ekeblad/Flickr.com

Há algo de enfadonho e perigoso nas pessoas muito certinhas. Naquelas cuja fala não tem graves nem agudos, só médios. Nas que nunca desafinam, e ficam sem saber dos acordes interessantes que podem existir entre uma dissonância e outra.

Pessoas retas demais, dessas que parecem ter quatro lados idênticos, não encaram uma curva do meio do caminho. Mas também jamais derrapam. O que poderia, de vez em quando, levá-las a lugares inesperadamente bons.

É preciso cuidado com pessoas que nunca gritam. Que jamais arriscam um palavrão. Um bom palavrão na hora certa é bálsamo para o coração em ebulição.

Levante a mão quem já foi assim.

Pessoas exageradamente arrumadas são viciadas no ton sur ton. Estão sempre a salvo, protegidas do erro. Contam com a aprovação do bando, mas acabam por se mesclar com qualquer fundo, qualquer estampa. Ficam invisíveis. E como geralmente não lembram onde puseram suas cabeças, precisam de alguém que as ajude a encontrá-las depois.

Dá vontade de suspirar ver sapato combinando com cinto. De desanimar de vez, se bolsa ou gravata entram no arranjo. Quem faz isso destoa é do mundo, incerto e múltiplo por definição.

Não existe graça alguma em quem não quis, ao menos uma vez na vida, morrer de amor. E não pode haver verdade em alguém que nunca contou uma mentirinha sequer.

Deve-se desconfiar de quem tem sala de estar igualzinha à da revista de decoração. De quem não tem pelo menos um armário bagunçado. De quem tem criança e não tem brinquedo espalhado pela casa. De quem faz tudo certo no trabalho.

Quem é assim, levante a mão. Se for capaz.

Divertido mesmo é quem divide, provoca, bota pra quebrar. Quem não vibra no uníssono do bom senso comum. Quem ama alto e chora mais alto ainda. Quem faz, todos os dias, alguma coisa de um jeito diferente.

Para ficar mais interessante (desde que não comprometa saúde, segurança ou sentimento dos outros), gente precisa ter, vez por outra, um quê de desatino, uma pitada de desequilíbrio, um desejo de contravenção, uma certa dose de malandragem. Senão, lá na frente, não terá valido a pena.

Agora, vamos lá. Levante a mão quem um dia quer ser assim.

Era uma vez uma cidade. Na cidade havia uma avenida. Na avenida tinha um canteiro. No canteiro, duas árvores. Melhor dizendo: duas palmeiras. Que cresceram juntas. Não só juntas, mas quase entrelaçadas. E, não se sabe desde quando, as palmeiras da avenida vivem num eterno abraço. Na verdade, ninguém sabe se é abraço ou quase beijo.

Irmãs, talvez elas se abracem para se proteger da cidade, do barulho, da bagunça. Amantes, talvez se enlacem para ensaiar o beijo. Que jamais acontece. Pois enquanto a vida corre ao lado delas, alguém aperta o pause. Como num filme, quando a gente quer ver melhor uma cena. Ou quando vai beber água, atender o telefone ou ouvir o que o filho quer.

As palmeiras da avenida são estátuas talhadas em madeira, como aquelas pessoas pintadas de branco imitando estátuas no sinal. Com algumas diferenças. Uma é o tipo de seiva que corre dentro de cada uma. Outra é que as palmeiras, assim como as árvores, não nos pedem dinheiro.

Quando a cidade cochila, por certo as palmeiras da avenida se largam por alguns instantes. Dão uma volta, vão conversar com as amigas ao longo do canteiro. E logo retornam aos seus postos.

Para assistir ao abraço – ou quase beijo – das palmeiras é melhor apertar outro botãozinho no controle remoto que comanda a vida: o da câmera lenta. Assim se vê melhor as coisas.

(Campineiros em slow motion podem assisti-las na avenida Júlio Prestes. Pertinho do Balão da Bela Vista. Foto: Silmara)

Gonc.A/Flickr.com

Vivia mandando que o Diabo o carregasse. Um dia, o Diabo resolveu obedecer. Vou contar direitinho como foi. Porque o Diabo também precisa que alguém alivie as coisas para o seu lado.

A mulher, embora bonita, não era flor que se cheirasse. Mas fazia o melhor pão de queijo de todo o triângulo mineiro. E pão de queijo bom, mas bom mesmo, é difícil de fazer. Não pode ter queijo demais, nem de menos. O polvilho tem que ser ‘aquele’. E por aí vai. A fama garantia à mulher um bom punhado de amigos, que esticavam o caminho só para dar uma passadinha em sua casa. Entre os amigos, havia os admiradores. Públicos e secretos. Dos secretos ela gostava mais. Caprichava na massa do pão quando sabia que um deles iria vê-la.

Até o dia em que um da turma dos secretos, durante a visita, resolveu fincar o pé. E não quis mais sair. Prometeu aumentar a casa, fazer um bom puxado para a cozinha. Dizia que com o que ganhava na loja de material para construção os dois poderiam viver, assim ela não precisaria mais ficar consertando roupa dos outros. A proposta foi ficando interessante, e ela deu sua mão ao homem. Agora apenas os que eram só amigos poderiam passar lá.

Mas como eu ia dizendo, a mulher não era flor que se cheirasse. Era do tipo de flor que se planta por engano, e depois que se descobre o perfume ruim é preciso arrancar tudo. Até a raiz. E, dia depois de dia, a mulher tratou de infernizar a vida do homem com toda sorte de insulto e implicação. De manhã até à noite. Encerrava o palavreado sempre com a mesma ordem ao Diabo. Que, no começo, não dava muita bola.

Mas o Diabo, sempre muito educado, foi se aborrecendo. Não gostava que lhe dessem ordens. Se tem uma coisa que o Diabo preza é a sua independência. Deus sabe disso, e é por isso que fica cada um na sua.

Passaram-se alguns anos e a mulher, não se dando conta do mundinho esquisito que criava à sua volta com sua maledicência, adoeceu. Ficou magra de dar dó. O pão foi mudando o sabor, os amigos foram sumindo. Apenas o fiel e paciente marido continuou ao seu lado, comendo o pão que ela amassava todos os dias.

Certa tarde, ele foi ajudá-la a por a mesa para o café. Sem querer, esbarrou no cesto de pães recém-assados e foi tudo ao chão. Desta vez, a mulher não só repetiu a ordem ao Diabo com mais fúria, como também mandou que o Raio, irmão gêmeo do Relâmpago, partisse o homem em dois.

Aí o Diabo se enfezou. Disposto a resolver aquela história, vestiu seu terno, ajeitou o nó da gravata no espelho, conferiu os sapatos e foi até a casa da mulher. Tocou a campainha, o homem veio atender. Quando abriu a porta, pôde ouvir a mulher esbravejando lá dentro. Viu o ódio que lhe tomara conta. Pôde sentir, também, o aroma morto do pão espalhado pelo tapete da sala de jantar. Da porta mesmo, chamou o homem de canto e sussurrou-lhe algo no ouvido. Ele arregalou os olhos, virou-se para a mulher e sorriu. Despediu-se com um mudo aceno e pulou nos ombros do Diabo. Lá se foram os dois rua acima e, na praça, desapareceram na sombra de um jequitibá.

Percebendo que tinha alguma coisa a ver com aquilo, a mulher tratou de recolher os pães enquanto matutava que diabos havia acontecido. Tomou seu café, não sem uma pulga atrás da orelha. No finalzinho do dia, foi para a porta esperar o marido. Que nunca mais voltou.

E, por via das dúvidas, passou a tomar mais cuidado com o que dizia.

Foto: Tom Magliery/Flickr.com

Trabalhar em jornal garante boas histórias. Esta que vou contar é muito, muito antiga. Era meu segundo emprego, e eu a ouvi de um colega, que também a ouvira de alguém. Certamente, ela é contada até hoje. Força da tradição oral num lugar que nasceu por conta da escrita.

O local: Folha de S.Paulo. O cenário: um elevador. O protagonista: Octavio Frias de Oliveira, dono de tudo aquilo. Os coadjuvantes: um homem qualquer para dar graça na história e outro, que não é qualquer um, para registrar e perpetuar a cena.

Num dia de trabalho, lá pelas tantas nosso protagonista tomou o elevador no nono andar com o homem que não é qualquer um. Foi quando pararam no terceiro andar e o homem qualquer entrou. Vendo o seu Frias com seu jaquetão próximo à porta, e sem saber de quem se tratava, ele não teve dúvida e tascou: Térreo, por favor.

O homem que não é qualquer um contou que o seu Frias não se abalou. Disse “Pois não” e gentilmente apertou o botão do térreo. E continuou seu trabalho – coisa que fez até os noventa e três anos, pouco tempo antes de pegar outro elevador, desta vez para aquele andar lá de cima.

Certas histórias levam alguns minutos para acontecer. Alguns segundos para serem contadas. E contam com a eternidade para serem lembradas.

Todo mundo corre o risco de viver algo assim. Se você for o homem qualquer da história, não é preciso ter vergonha. Nem durante, nem depois. Se você assistir a uma cena dessas, espalhe. Agora, se você for o protagonista, relaxe. Aperte o térreo.

Historinha breve para uma quarta-feira de inverno que, tudo indica, deve chover.

Foto: Pink Sherbet/Flickr.com

Era dia dos mais sem graça. Dia bom, porém. Mas com jeito de dia usado, daqueles que parecem já ter acontecido. À noitinha dei um pulo no aeroporto, o avô das crianças vinha passar uns dias em casa. Enquanto o esperava, brinquei de prestar atenção no mosaico de gente e mala que se formava a cada embarque e desembarque. E acabei encontrando ali a graça do meu dia. Aeroportos são estações de trem com asas.

Um velho numa cadeira de rodas passou pela minha frente. Atrás dele, um bebê num carrinho. Cada qual com seu condutor. Eles não estavam juntos. Mas tinham algo em comum, além dos cabelos ralos: os dois dependiam de alguém para cuidar deles.

Infância e velhice passam à nossa frente o tempo todo. Para notá-las é preciso ter olhos de ver. O que não é nada fácil para quem está na metade do caminho, longe das duas pontas. A gente se esquece do que já foi e finge não saber do que será.

Saber os dois – bebê e velho – é exercício. De paciência, para o primeiro. De cuidado, para o segundo. Porque o velho é um espelho mágico que mostra o futuro. Então, meu amigo, é bom se cuidar. Começando pelo coração, que é a casa da cabeça. Ele manda no resto. Manda até nas pernas, nossas rodas de verdade.

O bebê do aeroporto era risonho, inquieto na sua fome de novidade. O velho era sério, imóvel. Olhava para o nada, já que tudo lhe parecia conhecido. Bebê e velho eram começo e fim. Oito e oitenta – meses e anos. Diferença e indiferença. Partida e chegada. Como as origens e os destinos lá no grande painel do mundo, que troca as informações a todo instante. O bebê ia para o velho. O velho vinha do bebê. O bebê me disse de onde eu vinha. O velho me mostrou para onde eu ia. E os dois me lembraram que o tempo passa é muito rápido. Voando, eu diria.

Foto: George/Flickr.com

A história que minha professora contou foi assim. Certa vez, a diretora da escola recebeu um telefonema. Como tantos outros que ela recebia todos os dias. Era uma escola de idiomas. Do outro lado da linha, uma mulher queria saber sobre as aulas de francês. Os horários, os métodos. A diretora respondia tudo sem a menor dificuldade, nenhum desafio. Seria mais um dia comum na sua vida. A mulher perguntou se poderia ter aulas em domicílio, não costumava sair muito de casa. Sim, poderia. Perguntou se seria possível um curso bem rápido, ela tinha pressa. Sim, poderia.

Na maioria das vezes, aquele tipo de conversa terminaria ali. O interessado ficaria de dar uma passadinha na escola, ou não, e tudo mais caminharia dentro da normalidade. Mas a diretora se interessou e quis saber mais sobre a mulher que tinha tanta pressa. Foi dando corda. E olhe que norte-americano, principalmente em Michigan, não é lá um povo de falar muito. Costuma dizer apenas o essencial, ou pouco mais que isso. Se você parar um deles na rua para perguntar onde fica tal rua e ele não souber, é exatamente isso que ele lhe dirá: Não sei. E continuará seu caminho. Mas se pedir a informação a um brasileiro, por exemplo, aí é bem diferente. Se ele não souber, tratará de saber. Chamará outra pessoa que passa pela rua, só para ver se ela sabe. Irá com a pessoa que perguntou até um posto de gasolina. Em pouco tempo se formará uma verdadeira equipe tentando encontrar aquela rua. E provavelmente descobrirão onde ela fica.

A mulher contou que era cantora. Havia sido convidada para se apresentar para pessoas muito importantes. Franceses. Cantaria na língua deles e não queria que aquele seu sotaque norte-americano ficasse muito saliente.

Embalada na prosa, a diretora disse que por certo ela deveria cantar muito bem. A mulher, sem modéstia, disse que sim. E lascou: Na verdade, milhões de pessoas acham isso, querida.

Nessa altura a diretora, que até então só a chamara pelo sobrenome, Franklin, quis saber de quem se tratava. A mulher respondeu: Aretha.

A professora contou que, depois do susto, a diretora engasgou e, ao contrário dos minutos anteriores, teve certa dificuldade para levar a conversa até o fim. Gente é esquisita à beça.

A dama do soul teve suas aulas e deve ter feito bonito no dia. E eu aprendi: até os deuses vão à escola.

Christo Bakalov/Flickr.com

Você, que sai para trabalhar todos os dias às oito e quinze em ponto e nem nota as florzinhas que caíram da velha árvore sobre seu carro durante a madrugada. Que desaprendeu a ouvir o vento e não reconhece mais o cheiro de chuva chegando. Que não tem nenhuma fotografia de nenhum amigo de infância.

Você, que cantou parabéns para seu avô calculando o quanto a festa tinha lhe custado. Que gostava de enrolar os dedos nos cabelos da sua mãe para dormir e hoje só dorme direito se estiver sozinho. Que já quis ter um dragão e não deixa seus filhos terem um cachorro.

Você, que puxou o tapete do seu colega de trabalho e depois foi chorar no banheiro, mais por raiva do que por remorso. Que não confessa para ninguém o que lhe dá medo de verdade, com medo da coisa acontecer. Que nem ficou sabendo que o bebê da vizinha já nasceu. Que não deixou sua filha ouvir o moço que tocava violino na rua, para não se atrasar na consulta com o médico. Que não se deu conta do quanto é parecido com seu pai.

Você, que nunca saiu de pijama na rua e não sabe o que é nadar pelado. Que entrava na casa da sua avó e sentia o aroma do pão assando e ia correndo beijá-la, louco de saudade e fome.

Você, que sabe o quanto seu funcionário caprichou no relatório, mas preferiu lembrá-lo dos itens que faltaram. Que veste um sorriso diferente conforme a roupa do freguês. Que não gosta que seus filhos brinquem descalços.

Você, que nunca levou um gatinho para casa e implorou aos seus pais para ficar com ele. Que nunca apertou a campainha e saiu correndo. Que não tira o relógio e nunca tem tempo. Que não percebeu que derrubaram o ipê amarelo da sua rua. Que sonhava em ver um show dos Beatles e hoje nem liga para a coleção deles bem ali, na sua estante.

Você, que nunca andou na contramão. Que não espera seu filho tentar amarrar o sapato sozinho e já vai amarrando por ele. Que não perdia um dia de Vila Sésamo e que hoje se irrita com tudo na TV que não seja noticiário.

Você, que vê o olhar do cão faminto e engole o último pedaço do salgadinho. Que vai de carro a dois quarteirões da sua casa e acha isso normal. Que cruzou com a empregada hoje cedo na cozinha, disse bom dia mas não até amanhã. Que se irrita sempre com o motorista da frente. E com o do lado. E com o de trás também.

Você, que tem barco, mas não tem amigo de verdade. Que quando criança queria viajar numa nave espacial, e hoje diz para seu sobrinho de quatro anos que essas coisas não existem.

Você, que não tem ninguém lhe esperando em casa.

É com você mesmo que eu estou falando. Eu tenho três notícias. A primeira é que seu pé não é doente. A segunda: sua cabeça é que é ruim. A terceira é que tudo nesta vida tem conserto.

Foto: Denis Collette/Flickr.com

Casa de gente morta não é para gente viva ficar entrando. Se a casa de alguém que morreu fica vazia por um tempo, certas almas pensam que ela está vaga e se mudam para lá. E não se deve incomodar os mortos.

Meu irmão dizia que via ‘pessoas’ na casa dos meus avós. Eram várias freiras enfileiradas cruzando o pequeno quarto, indo para não se sabia aonde. E o quarto ficava no caminho delas. Minha mãe não achou aquilo bom para uma criança e resolveu procurar ajuda. Depois disso ele nunca mais as viu. Por certo alguém pediu para que elas fizessem outro trajeto e não passassem mais por ali. E elas obedeceram.

Quando meu avô morreu, anos depois da minha avó, fomos até a casa dele buscar algumas coisas e separar o que seria doado. Eu não quis entrar sozinha. Não queria incomodar os mortos que haviam se mudado para lá. Nem as freiras, talvez liberadas para fazer o velho caminho.

Minha irmã abriu o armário. Vi o terno cinza do meu avô, o único que ele tinha. Quase nunca o usava. Foi meu pai quem me contou porque o terno se chama assim. Porque é composto de três peças: calça, colete e paletó. Mas os ternos de hoje em dia raramente têm colete. Deveriam mudar o nome, então.

Pedi para ficar com o colete. E ele acabou ficando guardado no meu armário por muito tempo. Semana passada, decidi usá-lo. Levei-o à costureira para ajustar. Éramos da mesma altura, mas o ombro do meu avô era mais largo que o meu. No dia em que morreu ele parecia tão miúdo. Parar de respirar deixa as pessoas menores.

Hoje é a primeira vez que eu o visto. Saí de casa bem cedo e a vizinha, estranhando me ver em pé àquela hora, perguntou aonde eu ia. Respondi: Vou passear com o meu avô. Ela sorriu e lembrou: Hoje a gente precisa dar um abraço neles também.

Concordei. Já estava fazendo isso.


A gente guarda na gaveta das lembranças que existe em nossa cabeça algumas imagens especiais que, de tão eloquentes, silenciam tudo à nossa volta. Imagens formadas a partir do que vimos de verdade ou do que apenas vimos retratado, ou ainda do que ouvimos dizer. Essas imagens – as reais e as imaginadas – ficam nessa gaveta, num compartimento secreto. De vez em quando elas escapam. E vão se projetar lá na tela da memória.

Uma das muitas imagens da minha grande gaveta é também uma das que sempre me chocam. Nunca compreendi muito bem como é que essa escapa. Mas a visão dos pequenos sapatos das crianças mortas nos campos de concentração nazistas é, sem a menor dúvida, uma das mais paralisantes, doloridas e assombrosas imagens que já vi. E apesar de ter visto boa parte das coisas que se mostrou ao mundo sobre esses lugares – todas terríveis em sua incompreensível natureza de brutalidade, intolerância e maldade – percebo que da missa não sei a metade.

Mas os sapatos. Poucos objetos dizem mais sobre o holocausto do que eles. O milhão e meio de pares de sapatos de meninos e meninas, mais os quatro milhões e meio de pares dos adultos, são uma espécie de síntese dura e intragável das alucinações de um homem.

Estive perto deles por duas vezes. A primeira, há vinte e dois anos, num ex-campo. A segunda, há nove, em um dos museus que se ergueram, não para que o horror fosse perpetuado, mas justamente para que seu oposto seja eternizado. Eu o visitei com uma amiga. Sem muita vontade de estar ali, eu tentava não ver os objetos, as fotografias, as legendas. Mas algumas coisas me atraíram. Não teve jeito.

Parei em frente a uma vitrine embutida na parede, com pouco mais de um metro e meio de largura. Nela, vários pares de sapatinhos organizados lado a lado. São tão diferentes dos sapatos de criança de hoje. Em couro trabalhado, com fivelas, cadarços e enfeites eles eram, na verdade, miniaturas dos sapatos dos adultos.

Pensei na história de cada um daqueles pares. Um presente de uma mãe amorosa ou de um tio querido num dia de aniversário, com festa, balões, bolo de chocolate e crianças felizes correndo pela casa. Comprado por um pai zeloso para o primeiro dia de aula do filho. Aqueles sapatos participaram das brincadeiras de seus donos. Pisaram as ruas de uma Europa ainda quase tranquila. Mas, sobretudo, foram usados por delicados, frágeis e inocentes pés.

Minha amiga acenou lá na frente, estava adiantada no roteiro da exposição. Fiz um sinal para que ela seguisse, nos encontraríamos na saída.

Cheguei mais perto da vitrine. E dei asas à imaginação: e se ali dentro estivessem, de verdade, os donos daqueles sapatos? Talvez uma menina loura de seus cinco anos, com um casaco marrom, tentando me dizer alguma coisa. E um garoto de imensos olhos castanhos vidrados de pânico, carregando nos braços o irmãozinho que dormia. E mais meia dúzia de crianças, igualmente belas e assustadas. Como num daqueles filmes batidos onde o presente se mescla ao passado, imaginei que se eu tocasse o vidro que nos separava poderia ouvir, então, seus gritos e lamentos num idioma incompreensível. Mas a linguagem do medo é universal, assim como o choro. E eu entenderia o que diziam.

Encerrei meus devaneios e fui encontrar minha amiga. Sei que sempre houve e haverá ainda tantas outras crianças sem seus sapatos como aquelas do museu, e também as que jamais ganharão esse tipo de honra, e ainda as que nem sapatos terão. Cada uma com sua história triste. Mas hoje, só por hoje, e não sei por que, eu queria poder falar aos donos daqueles pequenos sapatos que, embora desejasse, eu não poderia ajudá-los. Eu conhecia o filme. E sabia como ele terminava.

Wordle.net

A primeira vez que comprei uma agenda foi quando entrei na faculdade. Achei que teria coisas demais para fazer e tive medo de esquecer alguma. Também acreditava que com ela eu pareceria uma mulher ocupada. E gente ocupada não tem tempo, mas tem agenda.

Agendas, depois eu descobri, servem para nos lembrar que não damos conta do que temos, ou cismamos que temos, de fazer. Agendas são os coronéis do dia-a-dia, a todo instante nos mandando por a vida em ordem.

O que, no meu caso, é inatingível. Transfiro tarefas de hoje para amanhã, as de amanhã para depois de amanhã, e depois para a semana que vem, para o mês seguinte. De tempos em tempos preciso revisar tudo e buscar tarefas esquecidas lá no passado, como quem encontra uma roupa no fundo do armário da qual já não se lembrava mais.

E um dia me dou conta: muito do que precisava ter sido feito, não foi. Muito do que fôra agendado era simplesmente inútil. E o pouco que realizei parece ter sumido no vácuo do não-realizado. Terão os dias ficado mais curtos, ou a vida mais cheia de tarefas? Ou será o nosso cérebro que está batendo o pino? Ou nada disso e é Cronos que está nos sacaneando?

Com o tempo virei refém da agenda, escrava do Palm Top. Que resolveu agora alternar períodos de lucidez com períodos de sonolência. Aparelhos eletrônicos também ficam doentes.

Para me salvar, inventei de usar caderninhos. Que, além de fazer as vezes de agenda, têm outra função em tempos de esquecimento fácil – ou crônico. É nele que registro as ideias captadas do mundo ao meu redor, matéria-prima do que vai virar história. E elas – as ideias – surgem sem aviso prévio. Daí a importância de ter algo à mão, funcionando, para atender ao chamado da inspiração. (O que também não é garantia nenhuma que dela vá sair algo de bom.)

Perder a inspiração de vista, como quem perde alguém na multidão, pode ser como perder um trem. Que partirá sem mim caso eu não esteja na plataforma na hora certa. Sem dó, ele irá embora seguindo seu ofício de inspirar alguém mais atento ao tempo.

Vejo ao longe a fumaça da velha locomotiva, riscando de cinza um colorido céu invernal. Ouço seu apito, é a inspiração chegando. Ela pára por alguns segundos na plataforma do pensamento. Abrem-se as portas das ideias, embarco e aboleto-me ao lado da melhor janela. E fico lá, desenhando e combinando no caderno-agenda as letras que vou encontrando pelas paisagens.

Desembarco, enfim, em qualquer estação. Qualquer uma serve, qualquer uma vale. Durante a viagem formei tantas palavras que é preciso agora por ordem nelas. Vou penteando uma por uma. Para que no dia certo elas cheguem, quem sabe, ao coração de quem as lê.

R.Chappo/Flickr.com

Houve um tempo em que eu, jovem, ficava até triste quando via a sua revista. Como naquelas vezes onde eu, criança, não podia ganhar a boneca que falava. Meu pai dizia que eu era uma boa menina e a merecia. Mas que ela não era para mim. De um jeito parecido, eu folheava as páginas da revista e percebia que nada, ou quase nada, ou muito pouco, era para mim.

E eu ia ficando triste, querida editora.

Um dia entendi porque a boneca falante não poderia ser minha. Adulta, também notei que havia alguma coisa errada na sua revista. Porque você dizia que ela era para mim. Mas não era.

Hoje eu passeio pelas páginas onde você sugere coisas para que eu tenha um guarda-roupa bonitão e para que eu seja feliz. E me dá uma vontade doida de perguntar, querida editora.

Quantas leitoras da sua revista podem, de verdade, pagar pelos jeans, pelas blusas, pelas bolsas e pelos sapatos de três dígitos, tão próximos dos quatro, da sua vitrine de papel? Porque eu sei que metade das suas leitoras são mulheres como eu. E eu não posso. Você acredita, de coração, que ser sexy e sedutora seja coisa que se ensine num passo-a-passo?

Certa vez, uma amiga se apiedou da minha primeira dúvida enquanto tomávamos um chá –e eu lembro, era de capim-santo– e revelou: “É para pegar as ideias. Depois a gente vai atrás dos similares”. A dúvida só cresceu. Para quê mesmo a gente precisa pegar essas ideias? Não dá para termos as nossas? E se o original não dá, para que desejar o parecido, o quase igual? “A gente é imitador por natureza”, devolveu a amiga. E eu fechei o bico.

Então é assim, querida editora. A gente pega emprestada a sua ideia. Que não é sua, pois você emprestou de alguém. Que, por sua vez, não é o dono da ideia, e também emprestou de outro. E a gente vai pegando ideias emprestadas e se ajeitando cada vez mais nos balaios, um dentro do outro, formando o grande balaio-mãe das ideias comuns.

Querida editora, que graça isso tem?

Não é que eu desgoste totalmente da sua revista. Até gosto. Sou consumidora, afinal das contas. Mas a compra quase imaginária e a estética equalizada das suas páginas não deixam a vida meio sem sal?

Como eu lhe disse, houve um tempo em que eu até ficava triste quando via a sua revista. Mas hoje eu já sei de algumas coisas. Por exemplo, que aquela boneca não falava de verdade coisa nenhuma, querida editora.

Um abraço,

Foto: TW Collins/Flickr.com

Enquanto eu tomava meu café-da-manhã, uma abelha entrou pela janela. Logo seu radar detectou o pote de mel, destampado sobre a mesa. Aprendi a comer abacaxi com canela e mel há pouco tempo, na casa de um amigo. O mel corta a acidez do abacaxi, a canela dá o aroma especial ao prato. A abelha rodeou, rodeou e parou, feito um helicóptero, próxima à boca do pote. Por certo pensou: Conheço isto aqui.

Ouvi dizer que, pelas leis da aerodinâmica, as abelhas jamais poderiam voar. Porque seu corpo é muito grande e pesado para asinhas tão miúdas. Mas elas voam assim mesmo. Sabe por que? Porque elas não sabem disso.

Gostei do abacaxi daquele jeito do amigo e no dia seguinte fui comprar mel. Na porta da loja um homem me pediu dinheiro. Contou que não podia trabalhar. Haviam lhe dito que o pé torto – seu parto, nos cafundós da Bahia, fôra complicado – o tornara incapaz.

Salpico a canela no abacaxi, de olho na pequena Apis mellifera. Brinco com ela: Adivinha o que falam sobre você.

Às vezes a gente é meio abelha: ninguém põe fé, mas voamos. Por outras, somos como o homem da loja de mel: falam que nosso pé é torto, e a gente acredita.

Lembrei de uma amiga dos tempos de colégio. Queria ser atriz de teatro. A família achava que era piada. Nem as capitais dos estados ela conseguira decorar. A última vez que nos falamos ela estava exausta e tristonha. Naquele dia tinha entrevistado uma dezena de candidatos na empresa onde trabalha. Em vez do teatro, minha amiga escolheu Psicologia. Acreditara, enfim, que tinha o pé torto. E seu personagem agora era outro. Menos doce para ela.

A abelhinha parece ter desistido do mel. Fez alguns salamaleques aéreos e partiu. E não é que a danada voa bem?

J.Kolo/Flickr.com

O sinal fica amarelo. Preguiça de acelerar, já vinha mesmo numa marcha mais lenta do que de costume – pensamento e motor. Melhor ficar por ali, aguardando o verde. Noto um outdoor à esquerda. Outro à direita. Que tristeza, agora tudo se compra em combos. Combo aqui, combo ali. A simplificação máxima da arte da venda. Sinal vermelho.

Se por um lado a combomania parece destinada a facilitar tudo, por outro ela também é condenada a padronizar e empobrecer tudo: gostos, atitudes, intenções, sentimentos, sensações. Desejos numerados. Culpa da revolução industrial. Ou de uma involução pessoal?

Pois eu queria mesmo era ver estes combos aqui.

Na loja de roupas. Em vez da dobradinha calça + camiseta, um combo com os seguintes itens: direito de experimentar tudo + direito de não levar nada. Elegância não entra na promoção. É artigo que não se vende, nem se compra. Se lhe oferecerem um combo com ela, fuja.

No consultório médico. Imagine só poder escolher o combo com consulta de duração suficiente para você dizer tudo o que precisa + olho no olho + aperto de mão na saída. Tão básico que poderia ser o combo número 1 da medicina.

No supermercado. Ah, como iria bem um combo com fila tolerável nos caixas (sem fila seria querer demais) + bloqueio aos espertinhos que tentam furá-la.

Na hora de escolher uma TV por assinatura. Pense na oportunidade de fugir dos combos que incluem aqueles canais inassistíveis no seu pacote, e poder pedir um com liberdade de comprar só os que você escolher. Nem precisaria de outro item para acompanhar.

No cinema. Que maravilha poder trocar, na bomboniére, a dupla pipoca + refrigerante pelo combo com biscoitinhos amanteigados + cappuccino. Ou por este: direito ao silêncio + certeza de celulares desligados.

No Dia dos Namorados. Seria fácil e gostoso pedir seu combo pelo número: número 1, número 10, número 100, número 1.000.000. De beijos.

Comprando um apartamento novo. No lugar do combo padrão, com opções de dormitórios e vagas de garagem, não seria bacana considerar um com varanda para a vida + parque com algumas das árvores que estavam ali antes?

Na pet shop. Sair da mesmice do combo filhote + pedigree e pedir aquele que vem com bichinho abandonado + coraçãozinho feliz. Esse tem bônus: gratidão eterna.

Nas igrejas. Ao invés de implorar o tradicional combo realização de pedidos + números da loteria de amanhã, que tal você oferecer um combo aos santos? Assim: obrigado + obrigado. Porque a gente pede coisas demais a eles, e também está na hora de mudar isso.

ForUrEyeZOnly/Flickr.com

Esqueça a Docinho, a Florzinha e a Lindinha. Tem menina de carne e osso que é superpoderosa e não sabe. Há muitas delas, e por toda parte. Elas não moram em Townsville, como no desenho da TV, mas em cidades de verdade. Na sua, por exemplo.

Essas meninas costumam ter seus superpoderes desenvolvidos ainda no ventre de suas mães. O poder original, iniciático, que lhes garante a super-resistência à rejeição, ao desamor, às tentativas de se livrar delas.

Meninas superpoderosas podem nascer em lares despedaçados, e mesmo assim se encantar com histórias de amor, príncipes e princesas, e sonhar serenamente com a sua vez. É o superpoder da esperança.

Pensem nas meninas que vendem seus cacarecos e seus chicletes nos semáforos, sob os olhos vigilantes de alguém bem mais velho na outra esquina. Além do evidente superpoder da invisibilidade, elas têm o da invulnerabilidade, que as protege dos acidentes. Elas também contam com o poder da não-indignação diante do constante, aceitável e familiar fechar dos vidros elétricos à sua frente.

Meninas superpoderosas têm o poder de sobreviver sem o mínimo de alimento, como se nutridas por alguma espécie de energia ou prece. E, mesmo assim, ainda conservam no olhar um brilho que não sabemos de onde vem.

Na outra ponta, longe do superpoder da imortalidade, estão as meninas que morrem de segunda a segunda e não ganham uma linha sequer no noticiário. O superpoder, neste caso, é justamente o de não nos causar comoção alguma.

Agora me diz: quem é que gostaria de ter superpoderes assim?

Meninas superpoderosas de verdade costumam viver a falta de amor-próprio e o excesso de amor aos outros, numa conta que não fecha nunca. Terminam por apresentar ao mundo seus bebês indesejados, repetindo e eternizando o ciclo de suas próprias origens. Essas meninas têm o superpoder de criá-los sozinhas, encerrando de vez e prematuramente suas infâncias já mal vividas. Precisam dar conta de um filho, quando ainda são tão filhas. São meninas que abrem mão de sua juventude em nome do pai e do filho. E talvez do espírito santo.

Meninas superpoderosas desafiam, além da gravidade, o descaso e a incredulidade, e promovem verdadeiros espetáculos em solos olímpicos. Há ainda as meninas com o raro superpoder de conquistar lugares nas universidades públicas, porque ultrapassam, em inteligência e raciocínio, os superpoderes financiados das outras meninas.

Pensando bem, ao menos numa coisa as meninas superpoderosas de carne e osso se parecem com as personagens do desenho animado. Ou a gente as assiste. Ou muda de canal.

Foto: Michael Flick/Flickr.com

Talvez tudo tenha começado no pré-primário. Eu não queria participar da peça de teatro que a turma encenaria, mas a professora de bochechas rosadas e ar maternal insistiu no convite. Não adiantou dizer que eu não tinha talento para ser planta. Minha fala começava assim: “Eu era uma sementinha…”. A única frase que guardei no labirinto da memória. O resto, por conta da péssima experiência com apenas seis anos, eu apaguei permanentemente. E daí em diante eu teria declinado toda espécie de convite semelhante.

Depois vieram as sardas. E os óculos. Para as sardas, cremes mágicos. Para os óculos, propositais esquecimentos na sala de aula. Mas logo surgiam mais sardas. E óculos novos.

Alguns anos mais tarde, foi a vez do espelho me mostrar diferente das amigas. Não sei se construí a lembrança a partir de fragmentos, já que minha memória torta costuma me pregar peças, mas arrisco: foi numa noite de Natal que ganhei o primeiro sutiã. Verde-água. Após a ceia a família toda foi dormir. Exceto eu, extasiada com o presente emblemático. E inútil.

Adolescentes pertencem àquela idade esquisita onde a criança esbarra no jovem sem, contudo, ser uma coisa nem outra. Quase tudo é motivo para um complexo. No meu caso, as pernas. Eram tão fininhas, tão branquinhas. Como o resto de mim. Enquanto todos na escola faziam as aulas de educação física sem grandes problemas, além de uma eventual inabilidade com a bola ou certa falta de coordenação motora, eu fugia delas. Não por conta da professora que usava peruca e ensinava os esportes através de um livro velho, onde os alunos liam em voz alta, em vez de praticar, as regras do vôlei ou do basquete. Era a minissaia branca e plissada, com um inexplicável shortinho vermelho, a razão da minha fuga. Foi a época em que mais estive doente, acometida de todo tipo de mal súbito. Tudo devidamente informado na caderneta escolar. Com a minha letra, claro.

O modelo da minha família também não me ajudava a ser parecida com as demais garotas. Todas tinham suas mães disponíveis em tempo integral em casa, preparando lanchinhos no meio da tarde ou tricotando casacos coloridos para o inverno. Eu tinha que me contentar com a doçura do meu avô, sempre superada pelo mau-humor e rabugice da minha avó, responsáveis por mim e meus irmãos enquanto meus pais trabalhavam. Justamente numa época onde tudo o que eu desejava era ser igual. Fazer parte do bando.

Nunca me achei bonita. Nunca fui popular. Nem aluna brilhante. Fazia parte da turma dos invisíveis. Talvez por isso tenha me acostumado a enxergar a vida do canto. Comecei a escrever. Para traduzir a minha perspectiva.

Tempos depois, o curso superior. Nunca vi ponto de ônibus tão vazio quanto aquele em frente à minha faculdade. Sempre esperei, com apenas um ou dois amigos, o meu passar. Não compreendia aquelas garotas lindas e ricas. E não era visível para os rapazes, igualmente lindos e ricos. Tive um único namorado ali. Que começou poucos meses antes da formatura. No ônibus, por sinal.

Talvez tudo tenha, de fato, começado lá atrás. Na escola, eterno palco onde as diferenças são todas representadas. Hoje estou perto de compreender a utilidade da diferença. Eu não sabia, mas o valor de ser diferente ficaria tatuado em minha alma para sempre, tal qual as tatuagens reais que hoje me estampam. E já não há dúvida: eu era mesmo apenas uma sementinha.

Foto: Patrícia Lobo/Flickr.com

Faz de conta: você acordou, ligou para o salão e marcou um horário. Na hora do almoço, foi lá e pediu: Corta bem curto. O cabeleireiro não acreditou no que ouvia. Afinal, seus quase cinquenta centímetros de cabelo sempre foram, na sua cabeça (literalmente), uma espécie de atestado da sua feminilidade. Mas agora eles teriam de ser curtos. Para que suas ideias ficassem longas. Ele colocou a mão um pouco abaixo do seu ombro: Mais ou menos aqui? Você segurou a mão dele, levou-a na altura da sua orelha, e disse: Tosa.

Depois você passou naquela loja onde tem uns vestidos moderninhos e coloridos. Você entrou e pediu aquele cor de laranja com borboletas, muito mais curto do que os que você costuma usar. Aproveitou e pediu a sapatilha da vitrine. Arrancou o seu terninho bege, sua camisa branca e seu escarpim marrom. Deixou tudo por lá mesmo, no provador. E quando a vendedora perguntou o que fazer com aquilo, você disse: Queima.

Quando você retornou ao trabalho, uma hora depois do horário de costume, com aquele vestidinho e com os cabelos daquele jeito, a roda em torno de você foi se formando. Uns, animadíssimos. Outros, nem tanto. Alguns reprovaram. Como as coisas já não andavam muito bem por ali, sua chefe lhe chamou no final do dia para conversar, e avisou que as coisas não poderiam continuar daquele jeito, ou ela teria que substituir você. E você disse: Substitui.

Saindo de lá deu vontade de jantar naquele bistrô aonde você acha que só deveria ir no dia do seu aniversário ou outra data importante. Você mal encostou seu carro e já veio o dono da rua, dizendo que eram dez pratas para parar ali. E, como você não deu bola, o homem começou aquela conversinha surrada dizendo, na entrelinha da entrelinha, que um eventual não-pagamento antecipado incorreria em riscos indesejáveis na pintura do seu bólido. Você pegou o celular, digitou três números, mostrou o visor para o homem e, já com o dedo na tecla “ligar”, disse: Risca.

Faz de conta que você chegou em casa e sua filha de dezessete anos estava na sala com o namorado. Você teve que contar de novo a história daquele vestido e daquele cabelo e, como chovia, sua filha sondou se o rapaz poderia dormir ali. E, enquanto jogava no lixo aquela agendinha que você só usava no trabalho, você disse: Pode.

Quando se deitou para dormir, aquele anjo que costuma vir conversar com você antes do sono se empoleirou na cabeceira da sua cama. Elogiou o cabelo, o vestido, a decisão no trabalho, o presente de não-aniversário, o chega-pra-lá no dono da rua, a atitude com a filha. Só por curiosidade, perguntou que bicho havia mordido você. E você, se ajeitando no travesseiro e já desligando o abajur, disse: Nenhum.

No dia seguinte, vendo que eram dez da manhã e você ainda não havia se levantado, sua filha entrou no quarto, vocês conversaram e no final ela perguntou como é que vocês viveriam dali para frente. Com certa ironia, ela arriscou dizer que com as bolsas e os badulaques que você produzia e vendia nos finais de semana é que não seria. E você disse: Sim.

À tarde, você procurou o dono daquele galpão que você havia visto para alugar, perfeito para uma oficina, e fez uma oferta. O homem coçou a cabeça, pediu um pouquinho mais, e você disse: Fechado.

À noitinha, você foi até a casa dos seus avós, assim, de surpresa. E, de surpresa, você os beijou. E quando eles perguntaram o que era aquilo, você disse: Amor.

Faz de conta que foi assim. Faz de conta que foi desse jeito que você virou a mesa com as quatro cadeiras e viveu, serenamente, seu dia de fúria. Que resolveu não perder mais tempo, fazer o que gosta e ser do jeito que você, só você, acha que fica mais bonita.

Faz de conta que você morreu. E que alguém lhe deu a oportunidade de voltar para um terceiro tempo.

Então. Agora vai lá e faz tudo de verdade.

[Nota mais que importante: este texto é meu. Fico feliz que ele esteja viajando pela web, sinal que as pessoas gostaram. Texto é igual filho: a gente cria para o mundo. Mas é uma pena que algumas pessoas não lembrem que ele tem mãe.]

Anderson Augusto/Flickr.com

Ontem falei com o vizinho da casa ao lado, não sabia que ele era vesgo. Ficou irritado quando fixei meu olhar no dele para entender melhor aquela vesguice toda. Fui avisá-lo que uma moça havia procurado por ele à tarde, e como ele não estava, bateu aqui em casa, É ali que mora o Artur? Fiquei sem graça de responder para a moça das botas vermelhas. Eu não tinha a menor ideia do nome do vizinho. Embora ele morasse ali há anos. Mudou-se para a nossa rua no dia em que tia Tetê morreu. Era um domingo frio de agosto, um entra-e-sai na nossa casa o dia inteiro. Gente que vinha saber como havia sido, prestar condolências, comer os salgadinhos da Damiana. Foi o único dia em que o vizinho novo falou comigo: Animada, a sua casa!

Tia Tetê morava conosco desde que tio Jaime tinha ficado louco. Ele cismara que ela queria envenená-lo, e então decidiu que faria o mesmo com ela. Fazia suspense com ela: Vamos ver quem morre primeiro? E a tia não conseguiu mais tomar seu cafezinho em paz. Meu pai não se conformava em internar o único irmão. Naquele final de semana de agosto, tia Tetê fora com uns amigos para a praia. Não era acostumada com o mar. Distraiu-se. Acharam seu corpo, inchado e azul. No velório, lembro-me de ter perguntado ao meu pai se ela engolira muitos peixes, para ter ficado daquele jeito. Eu tinha oito anos.

Você é o Artur?, perguntei assim que ele abriu a porta. Já fui explicando, a moça das botas. Ele encostou a porta atrás de si, como se não quisesse que eu visse lá dentro. Como não a fechara direito, espichei o olhar. Apenas um piano encostado à parede. E mais nada na sala comprida com piso de tacos. Aqueles tacos antigos. A moça ficou de voltar, avisei. Ele agradeceu e fechou a porta. Não perguntou meu nome. E eu não entendi como nunca ouvira som de piano algum vindo de sua casa naqueles seis anos.

Um ano depois de tia Tetê, foi a vez do tio Jaime. Ligaram de madrugada em casa. Meu pai sentou-se na poltrona e chorou. No dia em que foi buscar as coisas do tio no asilo, chorou de novo. Dois ternos, sete pijamas, um par de chinelos, duas alianças guardadas num vidrinho de maionese vazio e a bíblia, com metade das páginas arrancadas. Um funcionário contou que antes de morrer o tio cantava sem parar, numa voz miúda:

A canoa virou

Por deixar ela virar

Foi por causa da Tereza que não soube nadar

Se eu fosse um peixinho e soubesse nadar

Eu tirava a Tereza lá do fundo do mar

Hoje acordei bem cedo. Artur era seu nome, então. Artur era vesgo. E tinha um piano. Pela manhã, estudei na sala, em frente à janela. De plantão, caso a moça voltasse. Depois do almoço, apanhei minha mochila e saí. A casa do Artur estava silenciosa e fechada, como sempre. Assim que cheguei à calçada, um carro estacionou em frente à casa dele. Era a moça. Desta vez, com brilhantes botas pretas. Carregava com dificuldade um pequeno aquário embaixo do braço. Na outra mão, pude ver um saquinho plástico com dois peixinhos dentro. Ela me viu, sorriu e tocou a campainha com o cotovelo. Acenei e apertei o passo. O professor da primeira aula não deixa ninguém entrar na sala depois dele.

David Yerga, acrílico s/tela, Flickr.com

Hoje vi uma foto do Bento XVI. Não tenho intimidade com o papa. Mas olhei seus cabelos brancos tão penteados e notei seu olhar, estranhamente não-angelical. Matutei, enquanto apanhava uma maçã na fruteira da cozinha. Maçã gorda, suculenta.

Como será a vida do papa, além da eterna rezação? Será que ele gostaria de sair do Vaticano sozinho, ir a uma padaria e tomar um café, sem ter que abençoar meio mundo pelo caminho? Será que o papa torce para algum time? E se o time dele vai para a final, no grande dia ele põe a camiseta por baixo da túnica, troca a mitra pelo boné e grita gol? Será que o papa xinga quando bate o dedinho do pé na quina da parede? Porque isso acontece com todo mundo. Não vai me dizer que com pontífices é diferente.

Será que o papa morre de vontade de sentar em frente ao mar, só de calção? Papas parecem ser feitos apenas de cabeça e mãos – as mãos que acenam para todos e para ninguém –, com longas e amplas vestes a encobrir o nada que as une. Como serão seus pés?

O que tenta o papa no pecado da gula? Um bom espaguete, eu arriscaria. Daqueles com bastante molho, com direito a passar o pãozinho no que sobrou dele depois. Iguais aos que minha mãe fazia. Será que o papa lambe os dedos?

Saberá o papa todos os segredos que a igreja católica guarda a sete chaves? Os mistérios de Fátima, as verdades sobre outros planetas, as revelações sobre o final dos tempos. E, se sabe, será que se assombra?

E amigos, será que o papa tem? Desses que a gente telefona quando a tristeza vem. Desses de conversar por horas. E quando a conversa termina, já se sente bem melhor. Quem é que dá colo ao papa, quando ele precisa? E ele deve precisar, vez por outra, como todo mundo. Para quem o papa liga quando quer prosear? Quem ele chama para um chá, não por protocolo, mas por saudade?

Para quem o papa dá seu primeiro bom dia, todos os dias? Para o amigo mudo na cruz, que não pode lhe dar um abraço?

Será que o papa já teve um grande amor? Já terá sonhado com uma casa grande (menor que o Vaticano, claro), filhos, cachorro, férias de verão nas montanhas?

Será que o papa deseja, de vez em quando, ser apenas um anônimo na multidão, para poder ir ao cinema sossegado?

Quais músicas será que o papa gosta, além da Ave-Maria? Será que ouve, secretamente, Rolling Stones? Já terá ouvido Tom Jobim? O que, cá entre nós, talvez tenha sobre os fiéis o mesmo efeito da Ave-Maria.

É a última mordida na maçã. Seu bagaço, já amarelado, é a prova da missão já cumprida do fruto. Sou apanhada pela dúvida entre pensar se a figura mítica do nosso imaginário é aquilo mesmo que enxergo na fotografia, ou se é tão-somente um personagem construído, assim como o Homem-Aranha. Ou a Branca de Neve. E estes, noves fora a fábula que os envolve, ao que tudo indica tiveram seus amigos.

Betsy Jean/Flickr.com

Dobrou o papel e o colocou dentro do caderno azul, já cheio de papéis. Apanhou o telefone na bolsa, fez que ligaria. Parou no meio. Repousou o telefone sobre a mesa. Olhou para ele como quem pedisse sua opinião: Ligo ou não? Mas o telefone móvel, agora imóvel, nem prestara atenção à pergunta.

Conferiu o lanche que acabara de chegar. Sim, todas as fatias de tomate estavam lá. O queijo, derretido à perfeição. Tudo certo. Mas para ela ainda faltava uma coisa. Olhou novamente para o telefone. Passou os dedos sobre ele: Ligamos? Desta vez o telefone deve ter sugerido: Melhor não. O que a fez suspirar longamente. O melhor a fazer, então, era devorar o lanche.

Que falta ela sentia de um bem, que falta lhe fazia um xodó. Mas não seria bom ligar, o telefone já a aconselhara. Chamou o garçom. Precisava beber alguma coisa.

O rapaz, elegante em seu uniforme novo, já a observava desde sua entrada. E viu ali sua primeira – talvez única – oportunidade de conversar com a sua bela da tarde. Vestiu seu melhor sorriso, voou em sua direção e pousou ao seu lado:

– Pois não?

– Uma água, por favor.

– Com ou sem gás?

– Com.

– Gelo e limão?

– Pode ser.

Ele, que não tinha ninguém e levava a vida assim, tão só. Se ao menos ela lhe notasse. Ela também não tinha ninguém, e tudo o que queria era um amor que acabasse o seu sofrer. Mas ela tinha o telefone. Que não a deixava ligar, talvez sabendo da desilusão por vir. Era um smartphone.

Trêmulo, ele lhe serviu a água. Buscou seu olhar. Ela ajeitava novamente os papéis no caderno azul. Para ela, ele era invisível. Ela só queria um xodó para si. Que fosse assim, do seu jeito.

Ela bebeu a água com o olhar perdido e tristonho. Pagou a conta, apanhou a bolsa e saiu. Mas esquecera algo sobre a mesa.

Enquanto ele recolhia sua louça, quase feliz só por tocar no copo em que ela tocara sua boca, não acreditou no que vira. A felicidade existia, então. Guardou o telefone junto ao seu peito, e esperou a tarde inteira que ele tocasse. Afinal, ele também andava querendo alguém que alegrasse o seu viver.

Foto: Rakka/Flickr.com

Nome é como tatuagem. Parte indissociável de nós, não sai mais. Tenho nome, logo, existo. Dizem que escolhemos nosso nome antes mesmo de nascer, aqueles papos transcendentais. Mas isso é outra história.

O meu é Silmara. Conta a lenda que Seu Antonio e Dona Angelina planejaram os nomes dos filhos que pretendiam ter: se menino, Marcos. Se menina: Marcia e Mônica. Tudo com ême para ficar bem bonito. Eu seria a Mônica. (Não sei se fiquei sugestionada com a história ouvida na infância, mas até hoje esse nome é muito familiar. Combinaria comigo, com meu sobrenome. Questões transcendentais, quem sabe.)

Mas uma tia próxima teve seu filho um pouco antes e o plano foi por água abaixo: o primo foi batizado Marcos. Frustrados, meus pais resolveram mudar tudo. E adeus, Mônica.

Para ser sincera (meu sobrenome não deixa outra alternativa), não vejo muita graça no meu nome. Às vezes me pego pensando na possibilidade do passado, não fosse a tia. Nunca vejo meu nome naquelas listas imensas de nomes para bebês. Já li tantos significados diferentes, que concluí: ele não significa nada. Foi inventado. E ele também já foi motivo para uma, digamos, saia justa.

Quando criança, eu gostava de brincar, secretamente, que tinha outro nome. Havia uma personagem de novela chamada Noeli. Esse nome sim, para mim era transcendental: No-e-li. Fiquei tempos desejando me chamar Noeli. Em vez de um nome próprio, eu queria um emprestado. Pois não havia, no mundo inteiro, nome mais lindo. Mas a gente cresce.

Nomes nos acompanham a vida inteira, feito alma. São a marca indelével de nossa passagem por este planeta. Podem indicar de onde viemos. E também podem enganar meio mundo. O nome de um dos maiores gênios da música popular brasileira, o violonista Baden Powell, já me pôs encafifada. Não tem muito tempo que descobri: brasileiríssimo, e carioca. Resultado da obsessão de seu pai pelo general Robert Baden-Powell, fundador do escotismo. Ficou Baden-Powell de Aquino. Não preciso ir muito longe. Cresci chamando um tio de Paulo. Já adulta, descobri que seu nome é Francisco. Coisas dos Franco.

O assunto é vastíssimo. Dar nome aos bois não é nada fácil. Tem os nomes esquisitos por definição, bizarrices perpetuadas pelos cartórios. Tem os nomes curiosos. Tem os apelidos, tema que dá pano não só para manga, mas para um traje completo. Tem gente que muda de nome, papel passado e tudo. Tem os sobrenomes, espécie de pai e mãe do nome. Tem os pseudônimos. É assunto que não acaba mais. E sobre ele todo mundo tem uma boa história para contar.

Despeço-me em nome de Morfeu, deus grego dos sonhos. É uma da manhã e ele me aguarda – espero – de braços abertos.

Foto: The Funky Man/Flickr.com

A esperança e sua prima, a confiança, tentam, todos os dias e de várias formas, nos mostrar coisas que precisamos ver. Elas são boas nisso. Nós é que fingimos não ver. Estamos ocupados demais.

Quando eu era criança, a mulher das cocadas apareceu na minha vida. Só mais tarde – algumas décadas depois – eu entenderia a lição. Agora é a vez da mulher dos travesseiros me mostrar coisas sobre a confiança, mesmo tema da mulher do passado. Embora na lição do presente a protagonista tenha sido justamente a falta dela.

Ontem fui ao shopping center. Visitar a gata de minha irmã, internada na clínica veterinária que existe lá. Gatos gostam de visitas. De volta ao estacionamento, uma mulher em um carro parou ao lado do meu e me chamou. Condicionada no medo urbano das ameaças visíveis e invisíveis, tive certeza: assalto. Ou, na melhor das hipóteses, estaria prestes a cair em um golpe. Tentei me lembrar dos avisos recebidos por email sobre as novas táticas dos bandidos, quem sabe eu não descobriria tudo de imediato e me livraria? (Shoppings são microuniversos. Tudo que acontece nas cidades se reproduz ali dentro. O que, às vezes, não é uma boa notícia.)

A mulher desculpou-se pela abordagem e começou uma história lamuriante. Estava sem um centavo e sem combustível para voltar para casa. Paralisada, eu não sabia se entrava correndo no carro, se lhe dava ouvidos, ou se gritava pelo rapaz da segurança que passava ali perto. Inconscientemente, escolhi ouvi-la. Como quem aguardasse a “ação”, olhei em volta para saber de onde viriam os meus algozes. Ou a que horas seria anunciado o golpe.

Fico sabendo que a mulher mora em Americana, cidade vizinha de Campinas. Embora eu tenha achado sua história meio estranha – como se todos no planeta tivessem talão de cheques e cartão de crédito –, continuei a ouvi-la. Ela contou ainda, claramente envergonhada e constrangida, que vendia travesseiros e me ofereceu um em troca de ajuda.

Foi quando o medo, num súbito, se instalou. Cortei a conversa: não poderia ajudá-la. Entrei em meu carro, travei as portas e saí. Quando avistei a mulher indo em direção à saída do shopping, percebi: não havia assalto nem golpe algum. Pus-me em seu lugar. A que ponto chegamos, meu Deus.

Tive pressa: será que haveria tempo de consertar a injusta desconfiança? Abri a bolsa, apanhei a carteira, conferi quanto havia ali. Segui a mulher. Buzinei, ela não me ouviu. Ela saiu do shopping, continuei a segui-la. Consegui alcançá-la, abri o vidro, fiz sinal e pedi que ela parasse. Ela me reconheceu. Perguntei: “Quinze reais ajudam?”. Ela abriu um sorriso, como quem estivesse na iminência de ganhar mil vezes aquilo. (O valor dado ao dinheiro depende do que vamos fazer com ele. E é proporcional ao quanto precisamos dele.)

Acabei ganhando um bonito travesseiro. Estampado com borboletas, num claro sinal de que a vida se renova e as primas – esperança e confiança – jamais desistirão de nós. Dormirei com ele hoje. Quem sabe não é um travesseiro mágico, que transforma em realidade os sonhos sonhados sobre ele? Além dele, e mais importante, levei para casa um dos agradecimentos mais sinceros de toda minha vida. E, assim como a mulher das cocadas, provavelmente não verei mais a mulher dos travesseiros. (Por que será que essas pessoas aparecem e desaparecem?)

Poderia ter sido um assalto, um golpe? Sim, poderia. Afinal, quantas pessoas não caem, todo santo dia, nas armadilhas?

Ainda não sei responder à minha própria pergunta lá no finalzinho da história das cocadas. Mas é preciso acreditar que é possível, sim, resolver a parada sobre a pós-moderna falta de confiança entre as pessoas. Ouvir mais o coração ajuda. Ele sabe o que diz. Nós é que não entendemos mais sua língua. Hora de reaprender a conversar com ele.


Bérenger Zyla - Flickr.comBérenger Zyla/Flickr.com

Responda rápido: a campainha toca, você atende, uma mulher que você nunca viu lhe oferece cocadas. Você compra?

Em dois mil e nove: nunca.

Em mil novecentos e setenta e pouco: se a iguaria parecesse boa, sim.

Foi assim que na Mooca dos imigrantes italianos, numa pequena vila com quatro casas, a mulher das cocadas ganhou sua freguesa-mirim. Que se lembraria dela até hoje, embora não soubesse seu nome, muito menos de onde vinha.

Mas sabia que vinha. Geralmente uma vez por mês, a mulher aparecia com seus doces. Uma senhora negra, arredondada, de bochechas sorridentes. Gentil. Quarenta e poucos anos, no máximo. Fazedora da cocada mais gostosa que já comi em toda minha vida. Cremosa, açúcar na medida certa – nem a mais, nem a menos. Flocos de coco num mar de leite condensado. Firmes e bem modeladas. Vá lá, há certa dose de nostalgia nisso tudo. Talvez fosse uma cocada comum. Mas o sabor dela e a imagem da mulher ficaram guardados na memória da menina de seis anos, naquele compartimento que costuma aumentar tudo: os sentimentos e as sensações das coisas boas e das ruins. E quando tem açúcar na parada, a lembrança fica cristalizada, eterna.

Na primeira vez minha mãe comprou só algumas. Para experimentar, explicou. A mulher prometeu voltar para saber se havíamos gostado. Nas próximas vezes, os pedidos aumentaram. Até que um dia não houve mais pedido. A mulher desaparecera. Ficamos órfãos da cocada.

A cocada branca da mulher negra ficou para trás. E o tempo trouxe outra dúvida: o que foi feito da confiança, esse sentimento que, ao lado da generosidade e da gentileza, movem a humanidade? Minha mãe olhou nos olhos da mulher, e a opinião saiu na hora. Ela não prestou muita atenção na maldade e no perigo que poderiam estar escondidos, disfarçados na forma de uma senhora bondosa e risonha. E deu certo.

Hoje só compramos alimentos que tenham nome, sobrenome, endereço, informação nutricional e prazo de validade. Sabe-se lá como é que a mulher fazia suas cocadas? Não importava, essa era a verdade. A cara dela era boa. A da cocada, melhor ainda. Pronto.

As relações pareciam mais simples, antigamente. Binárias: sim ou não. Longe do meio-termo medroso e cheio de dúvidas traduzido no “talvez”, “depende”, “mas e se” de agora. Sim, a nostalgia é uma forma de homenagem ao passado.

Mas confiança não deveria ser coisa do passado. Me diz: como é que a gente resolve essa parada?

Neuro74/Flickr.com

Caros

Vamos ser sinceros: bonitos vocês não são.

Pés são como irmãos gêmeos. Brotaram juntos, nasceram no mesmo dia e hora. Carregam o estigma da alma idêntica, como aqueles bebês espelhados nos carrinhos duplos: mesmas meias, mesmos sapatos. Como é que vocês poderiam ter desenvolvido suas próprias identidades desse jeito? Logo vocês, que dão nome a tanta coisa. Pé de vento. Pé de moleque. Pé de chinelo. Pé direito. Pé de galinha. Pé de pato. Pé de meia. Toda fruta tem seu pé. Toda serra também. Tem o pé na estrada. E tem o pé na cova.

Por muito tempo eu tive vergonha de vocês. Hoje me envergonho da vergonha. Aprendi a gostar de vocês. Isso não acontece entre as pessoas? Pois então. Às vezes cismamos com fulano, o ignoramos durante anos, décadas, uma vida inteira. Para, num belo dia, constatar que não era bem assim.

Vocês são iguais aos pés de minha mãe. Pés gordos, de dedos pequenos. Exceto o fato de que os dedos dos pés de Dona Angelina, vistos de baixo, pareciam balas de coco. Os seus dedos não se parecem com bala nenhuma.

Seus dedões sempre foram esquisitos: as unhas deles são voltadas para fora, como plantas buscando o sol. Uma vislumbra eternamente a minha esquerda. A outra, minha direita. Dedões paralelos, que jamais se encontrarão no infinito.

A primeira vez que tirei os sapatos na frente de um namorado foi devastador. Descalcei-me na velocidade da luz, e enfiei vocês dois embaixo da maior almofada que havia no sofá. E lá vocês ficaram, exilados, o filme inteiro.

Um dia, uma colega de trabalho, que tinha os pés mais feios do mundo, apareceu com uma sandália. Aquilo não eram pés, eram mãos. Os dedos, longuíssimos e finos, pareciam tentáculos. Fui correndo para o banheiro, tirei as botas, arranquei as meias e fiquei olhando para vocês. Tão branquinhos. Ali decidi: se ela podia, eu também.

Comecei a procurar algo para representar a grande virada em minha vida. Mas que não fosse tão radical. Afinal, meus queridos, eram anos e anos de reclusão. Foi difícil encontrar um modelo que atendesse às exigências. O namorado não compreendia como eu poderia pedir nas lojas um sapato aberto que fosse o mais fechado possível. Resultado: acabava saindo com um abotinado na sacola. Mais um. Para desespero de vocês.

Mas quem diria. Hoje eu gosto, e muito, de vocês. Continuam branquinhos. Capricho no filtro solar, para que continuem assim. Soubesse antes que uma pele branca é incrivelmente mais chique e saudável que uma esturricada, e eu não os teria submetido a tanto sofrimento na distante adolescência. Coca-cola, óleos… tudo pelo bronzeado. Que jamais aconteceu: a genética deixou claro quem manda no pedaço.

É hora de pedir perdão aos dois. Pela monotonia das botinhas, uma espécie de cativeiro para vocês. Por vocês não saberem, por quase três décadas, o que era um podólogo. Pela falta de carinho e atenção. Pelos bicos finos, anos a fio. E, mesmo depois da nossa reconciliação, pelos saltos imensos em pleno nono mês de gravidez.

Hoje, metidos nas rasteirinhas abertíssimas que surpreenderiam o ex-namorado, ou mesmo nas botas de bico arredondado e quase sem salto que lhes dou de presente, vocês parecem muito mais felizes. Metade dos meus cremes são para vocês. Vocês passeiam descalços, até mais do que deveriam. Aos trinta e nove anos, pintei suas unhas de vermelho – fato inédito e histórico – e vocês vibraram. Vocês padecem, ainda, da maldição dos gêmeos, mas o que se há de fazer.

Nada como nossos olhos (aliás, com esses eu também preciso ter uma conversa) para nos fazer enxergar a beleza de outra forma, dar novo sentido às coisas.

Recentemente, fiz em um de vocês uma tatuagem. Um sol, para que meu caminho seja sempre iluminado. Mas o que deveria representar o senhor dos astros ficou parecido com uma aranha. Os raios viraram as perninhas. O desenho é bonito, mas se visto, no máximo, a trinta centímetros. Como as pessoas geralmente são mais altas que isso, preciso, com frequência, dizer do que se trata. E vocês concordarão comigo: explicar tatuagem é o fim da picada.

É bom ter feito as pazes com vocês, ainda que tardiamente. E notar o quão nobres vocês são, relevando a rejeição e o esquecimento do passado, compreendendo a que ponto chegam as esquisitices femininas.

Nem os pés da Cinderela, com seus sapatinhos de cristal, seriam tão charmosos.

Um beijo em cada um.

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(Gosto mesmo de cartas. Só aqui escrevi, além desta, esta, esta, esta e mais esta)

Pink Sherbet/Flickr.comFoto: Pink Sherbet/Flickr.com

Está no dicionário:

Tristeza: [Do lat. tristitia.] S.f. 1. Qualidade ou estado de triste. 2. Falta de alegria. 3. Pena, desalento, consternação. 4. Aspecto revelador de mágoa ou aflição.

Mas a tristeza, isso a gente sabe, também é quando o olhar desbota, a voz perde a força, o andar fica pesado e impossível. É quando a cabeça não tem fome de nada, saciada no silêncio. Ou ainda: é quando o rio que corre lá dentro da alma transborda e é preciso escoar de algum jeito. E o jeito são as lágrimas.

A tristeza é, na verdade, uma moça. Não muito bonita. Um pouco feia. Ela tem cabelos longuíssimos e sem vida, que cresceram sem que ela percebesse. Há anos estão penteados do mesmo jeito. Sua roupa é bem feita, mas não tem cor. As mãos são mornas, melífluas, de poucos movimentos e sempre vagarosos. Finos e magros, seus pés cabem em qualquer sapato de qualquer tamanho. Sua boca é lilás, como a boca dos mortos. Fala pouco, e quando o faz as palavras já saem vaporizadas, flutuando no ar antes de cairem ao chão, dissolvidas em seus significados.

Apesar disso, a Tristeza mora em uma casa acolhedora, com perfume de baunilha e cortinas rendadas da cor do âmbar. Há sempre música no ar, e ela sempre sabe que música colocar. Na entrada existe um daqueles tapetinhos escrito “bem-vindo”, próximo à porta com uma guirlanda em formato de coração. Ela sabe que receber bem é importante, assim as pessoas ficam.

A Tristeza tem muitos amigos. Mas a Tristeza vive triste, porque eles só a visitam quando as coisas não vão bem, e partem assim que se sentem melhor. O que não faz da Tristeza uma moça solitária. A Tristeza tem sempre uma companhia.

A Tristeza, moça meio sem graça, tem um desejo. A Tristeza quer casar. Quer encontrar um amor. A Tristeza quer ter muitos filhos e, no fundo, não deseja que eles sejam parecidos com ela. Porque a Tristeza precisa da alegria à sua volta, assim o mundo lhe parece melhor.

Talvez seja como diz aquela canção: “A tristeza tem sempre uma esperança, de um dia não ser mais triste não”.

Tristeza e eu nos encontramos de vez em quando. A última foi quando Léo se foi, ela me pegou no colo enquanto eu chorava. Léo, em toda sua doçura, por certo já tinha se encontrado com ela naqueles dias, sabendo que não descansaria mais sob a sua jabuticabeira. Os gatos sabem.

Mas a Tristeza. Ela quer casar. Quer encontrar alguém que desalinhe seus cabelos e a faça falar pelos cotovelos. Que a leve para morar numa casa nova. Tristeza se mudará, e não deixará o novo endereço para ninguém. Apenas um recado na porta da velha casa, no lugar da sua guirlanda de coração: ”Tristeza não mora mais aqui“.

Dona Balbina/Arquivo pessoal

Minas Gerais é terra de gente rara, já me disseram. Que, além de rara, costuma ser preciosa como tudo o que dela já se tirou. Terra de gente colorida. Musical. Charmosa. Efervescente. Original. Generosa. Refinadamente simples.

Dona Balbina é da turma dos generosos. Vó Bina nasceu em 1891, e não teve vida nem um pouco fácil. Viúva aos vinte e sete anos, costurava para a vizinhança sob a parca luz de uma lamparina. Com o que ganhava, alimentava os filhos. Que eram muitos. Mas ela sempre tinha em casa algo para receber as visitas. Geralmente um doce, feito por ela no maior capricho.

Vó Bina conhecia todas as plantas, ervas e segredos da natureza. Dizem que ela fazia um chá para bronquite feito com uns ingredientes esquisitos, que era tiro e queda. Conta-se que um tio, que sofria com a doença, mas jamais aceitara o remédio por achá-lo difícil demais de engolir, nunca se curou. Ao contrário dos demais, que enfrentaram a panacéia numa (quase) boa.

Pena que ninguém se lembrou de anotar seus conhecimentos. Agora é esperar que Vó Bina volte a este planeta um dia (se é que já não está por aqui), e que tenha guardado essa sabedoria naqueles arquivos mentais que a gente carrega de uma vida para outra.

Pelo menos uma vez por mês, Vó Bina gostava de preparar suas ‘quitandas’, como se dizia, para levar a uns moços muito especiais. Eram os presos da cadeia de Pouso Alegre, que nesse dia podiam saborear os pães, os sequilhos e o café fresquinho daquela mulher que, de verdade, se importava com eles. Gentileza improvável nos dias de hoje. Vale repetir: a vida da Vó Bina não tinha regalias. Questionada sobre porque repartia suas coisas quando mal as tinha, ela respondia com uma sabedoria singular: “Assim Deus manda mais”. E para entender mesmo o que a movia, o que ela ganhava com esse gesto, a gente precisa compreender dois fundamentos: um é a compaixão. O outro é a generosidade.

Naquela cadeia, os presos não passavam de uns vinte homens, postos ali por conta de delitos quase prosaicos, como roubar galinhas ou dar uns tapas nos desafetos. Uma categoria de detento que habita nosso imaginário e a gente gosta de pensar que existe: os bonzinhos.

Os presos da Vó Bina não ficavam à toa. Como deveria de ser, eles trabalhavam. Fabricavam brinquedos em madeira – carrinhos, vassourinhas, bonecas – que depois eram vendidos na cidade. No dia da tal visita, uma das netas ia junto. Era a menina quem fazia questão de ir, e nisso havia um interesse: ela sempre faturava um brinquedo.

Eu não a conheci. Dona Balbina é trisavó dos meus filhos. Enquanto escrevo, olho para seu retrato, tão antigo quanto belo. Penso no dia em que ela tirou essa foto, onde seria esse cenário, em que estaria pensando? Faço uma reverência à sua compaixão, ao seu interesse pelos que tinham menos ainda que ela, sequer a dignidade. E outra reverência à sua generosidade: mesmo sem ter, Vó Bina dividia o que tinha. E justamente por viver dividindo, recebia da vida sempre o que lhe bastava.

Seria bom sentar-me ao seu lado no velho fogão à lenha que não existe mais, e tomar um café com ela.

Pink Sherbet/Flickr.comPink Sherbet/Flickr.com

Neste inverno, quando as cores mais sóbrias e tristes parecem querer dar o tom, nas roupas e nos pensamentos, surpreenda. E faça como manda aquela música: be sure to wear some flowers in your hair.

Mesmo que você não esteja indo a São Francisco, mas indo trabalhar. Mesmo que você vá ficar em casa. Mesmo que custe uns minutinhos a mais na frente do espelho: coloque algumas flores em você. Pode ser um brinco. Um lenço. Um anel. Uma blusa. Uma bolsa. Qualquer coisa com flor.

Mesmo que as semanas de moda tentem lhe convencer do contrário, e a despeito da temperatura lá fora despencar para os quinze graus, estampe-se de flores. E, se não estiver geando, deixe à mostra aquela flor tatuada no ombro, para espanto dos seus colegas de escritório que nem sabiam que você tinha uma.

Mesmo que chova. Mesmo que o carro tenha deixado você na mão e você vá trabalhar de ônibus. Melhor assim: mais gente verá sua flor. Mesmo que os ônibus entrem em greve e você tenha de ir a pé. Aí você vai colhendo flores pelo caminho para enfeitar a sua mesa.

Mesmo que as coisas, no geral, não estejam do seu agrado. Mesmo que seja a centésima vez que você diz para si mesma que vai procurar outro trabalho, mudar de profissão, terminar com o namorado, falar sério com o marido, ter mais paciência com os filhos. Que vai começar a caminhar. Que vai se alimentar melhor. Que vai colocar mais vestidos no seu guarda-roupa. Aproveite e comece por um florido.

Mesmo quando os cinzentos tentarem estragar seu dia, faça como o doce touro Ferdinando: prefira sentir o perfume das flores a entrar na briga. (Só tome cuidado com as abelhas.)

Mesmo que você use todos os seus trocados, compre todas as flores daquele senhor no sinal. Depois, dê de presente para seus vizinhos. Pois gentileza gera gentileza, alguns sabidos já notaram.

Empunhe sua flor e mostre que você está, sim, entendendo muito bem o que acontece no Irã, no Sudão e, principalmente, na sua cidade. E mesmo que para alguns soe como cafonice nostálgica e piegas, mostre que sua Flower Power está mais viva do que nunca.

Mesmo que você não tenha vivido os anos sessenta, mas seja filha daquela geração, jogue o meio tom e a sisudez para escanteio, e assuma a cor por inteiro. (Até porque, o mundo, hoje, está a cara de quem nasceu naqueles anos que prometiam tanto.)

Não tenha medo: vá de flor.

Existem pessoas que estão entre nós, mas que ninguém vê. Pessoas que movimentam a economia do país, pagam impostos, prestam serviços. Tomam remédios, fazem compras, comem, dormem. Perdoam, ouvem música, consomem. Amam, enlouquecem, matam, arrependem-se. Assistem TV, usam telefone celular e navegam na internet. E mesmo com tanto movimento, ninguém as vê.

Trata-se do Homem Invisível.

É o jardineiro, o faxineiro, o segurança, o porteiro, o ambulante, o repositor do supermercado, o manobrista, o pedinte – campeão da invisibilidade; a diferença é que este não paga imposto –, o controlador de tráfego aéreo, o fiscal, o tratador de animais. A lista dos invisíveis é imensa. Eles não vivem escondidos, tampouco são subterrâneos. Mas é possível passar o dia inteiro sem notá-los. Ninguém os percebe. Ninguém quer saber deles. Mesmo assim, num paradoxo difícil de engolir, eles são indispensáveis.

Ao contrário de seus colegas das histórias em quadrinhos, o Homem Invisível não tem superpoderes. Na grande maioria das vezes, ele tem poderes de menos. Vivem em outro enquadramento, pulverizados por aí. Mas prestem atenção: a invisibilidade deles é um estado. Não é uma condição permanente. Depende dos olhos de quem os vê.

***

Naquela manhã, o Homem Invisível, farto de sua invisibilidade, rebelara-se. Passara os últimos dias planejando o que poderia significar a grande virada na sua vida: um assalto. Determinado e crente de sua condição favorável – afinal, quem o veria?, lá foi ele.

Porém, algo dera errado. Sua identidade, longe de ser secreta, fora descoberta. E, comprovando que conforme a ordem do dia a invisibilidade pode ser meramente um estado, agora ele era o Homem Visível. Identificado, fotografado, entrevistado, questionado, indesejado, excomungado, odiado.

Hoje ele vive afastado e isolado em uma cela, junto a outros homens. Todos invisíveis, de acordo com os nossos olhos bem treinados.

Renato Subtil/Flickr.com

Caro Roberto

Você nem imagina o que eu vou lhe contar. Mas foi com você que aprendi: de vez em quando, somos é muito idiotas. Digo ‘aprendi’ mas, na verdade, o processo foi outro. Mais próximo de sacar, de dar-se conta, do que de aprender propriamente dito. Você entenderá, eu sei.

Primeiro, é preciso lembrá-lo: nós nos conhecemos. Mesmo que você, assim de prontidão, não se recorde.

Foi assim: há alguns anos, um trio, o Hot Jazz Club, lhe chamou a atenção. Os rapazes eram tão bons que você não resistiu ao som deles. A história deles começara em um restaurante de uma rede de hotéis aqui em Campinas. Em 2004 eles gravaram seu primeiro, único e ótimo CD, que trazia uma faixa assinada por você – “Pruzé”. Foi durante o lançamento do CD, no resort da rede, onde eu trabalhava, que nos conhecemos. E digo: foi um prazer. Não é todo dia que a gente conhece um dos inventores do mais importante movimento da música brasileira.

Cinco anos se passaram, e até hoje sinto uma pena danada de não ter tido a coragem de quebrar um pouco os protocolos e abusado de você naquele dia. Mesmo sem idade para ter tanta saudade, mas fã confessa da época mais cheia de bossa que este país já teve, eu seria capaz de ouvi-lo por horas contando as histórias da Copacabana dos anos 50, dos lendários encontros no apartamento da Nara Leão, do barquinho que deslizava no macio azul do mar carioca. Mas a etiqueta corporativa não permitiria o que poderia parecer tietagem pura, e eu tive de me contentar com o básico. Fazer o quê.

Mas olhe só: foi em meio ao básico que me dei conta da coisa de ser idiota. Paradoxalmente, sem absolutamente nada a ver com música. Enquanto você, eu e mais algumas pessoas almoçávamos, você comentara que, em alguns dias, embarcaria para a Europa, onde se apresentaria num festival. Curiosa, eu lhe perguntei que festival era, e você respondeu assim: “Não sei. Me chamaram para tocar, e eu vou”.

Sempre lanço mão dessa história, emblemática e repleta de significados, para ilustrar o que acabei extraindo dela. A ideia de você não saber direito aonde iria tocar, mas iria porque seu negócio é tocar, soou fantástica, para dizer o mínimo. Sua resposta, suave e sofisticada assim como a bossa-nova, deu a dica (embora certamente não tenha sido sua intenção): preocupar-se demais em saber e conhecer tudo o que nos rodeia, o tempo todo, pode ser paralisante. Tanto quanto querer o roteiro das coisas do início ao fim, saber muito da vida, compreender tudo que existe… Não pode haver tanto benefício na informação total. Quem vive assim, no final das contas, passa a vida com medo, se poupando, sem ousar, sem arriscar, sem tentar. Sem pagar para ver.

Posso estar exagerando o episódio. É claro que em algum momento que antecedeu aquela sua viagem as informações sobre o tal festival lhe interessaram. Porém, talvez mais pela logística que por outra coisa. E este seria o segredo.

Tanto fazia o nome do festival, ou quem estaria lá. Isso não era o mais relevante. O relevante, de fato, era que você iria tocar, e isso já era motivação suficiente para um músico. Assim como para um bailarino o que conta é dançar. Para um cantor, cantar. Para um escritor, escrever. Para um costureiro, costurar. Para um cozinheiro, cozinhar. Para um desenhista, desenhar. Para um pedreiro, construir. Às vezes, as perguntinhas ‘como’, ‘porque’, ‘onde’, ‘a que horas’, ‘com quem’ viram coadjuvantes na compreensão de algo que é mais simples do que se pinta.

Não falei? Você nem imaginava que eu lhe diria isso.

Um abraço, Menescal.

(Parece que isso vive acontecendo com ele. Ele respondeu, contando que no ano passado foi à Austrália e, como em 2004, só lá ficou sabendo onde tocaria. Nada menos que na Opera House.)

Foto: Maria Guimarães/Flickr.com

P. tem cuidado muito dos santos, ultimamente. Os santos da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, que há tempos precisavam de um carinho. A pequena igreja, feita de taipa de pilão e tombada pelo patrimônio histórico, fica escondidinha no centro de São Paulo e agora está sendo restaurada. Era ali que, antigamente, os escravos condenados davam uma passadinha para rezar, antes de serem enforcados em praça pública, ali perto, onde hoje fica o Largo da Liberdade. Daí o nome da igreja. Pois tudo o que aquelas pessoas poderiam pedir, àquela altura do campeonato, era uma boa morte.

Eu a conheci no final dos anos oitenta. P. é uma mulher bonita, alta, magra, esguia, criativa e inteligente. Naquela época, sem noção de sua beleza (ou talvez ciente demais), se escondia nos jeans, camisetas, sapatos sem salto e na ausência do batom. Mesmo assim, chamava a atenção por onde passasse. P. cozinhava, costurava, tricotava, gargalhava, dançava. Dona de um fino senso estético sobre todas as coisas, conversava coisas incomuns e amava intensamente seus amores. Ficou viúva. No velório de T. eu a abracei forte. Seu olhar pedia que eu lhe dissesse o que seria dela daquele dia em diante. Não pude atender minha grande amiga naquela hora: eu não sabia.

O ofício de P. é restaurar objetos que já viveram demais, e que precisam continuar vivendo. Para que, de certa forma, eles expliquem nossa vida, de onde viemos e como chegamos até aqui. Os santos dessa igreja, em especial, devem ter cada história pra contar. Quanto desespero devem ter visto, quanto apelos devem ter ouvido. No entanto, imóveis em sua santice de barro, louça ou madeira, pouco podiam fazer pelos condenados.

P. chegando pela manhãzinha em seu ateliê. Ela diz “bom dia” aos seus santos e se prepara para o trabalho. Um nariz quebrado, um manto puído. Enquanto mexe aqui e ali, vai ouvindo os pequenos e gelados amigos contando coisas do passado. E quando volta para sua casa, à noitinha, certamente chora por tudo que ficou sabendo.

Há nove anos P. e eu não nos vemos. Uns três anos atrás encontrei, por acaso, um endereço seu, perdido na agenda. Escrevi. Ela respondeu, atualizamos a amizade, o carinho, as saudades e as novidades. E mais uma vez nos distanciamos. Agora, vez por outra nos damos um alô.

P. também costuma recolher bichos abandonados. Os mais recentes – uma cadelinha doente e um gatinho – foram resgatados do Centro de Controle de Zoonoses. Um nobre ato de misericórdia, posto que os animais que vão parar lá e não chegam a ser adotados sequer têm uma igreja aonde possam fazer uma última reza antes do sacrifício. Cujo método, tirante a semelhança da crueldade, chega a ser mais moderno que os enforcamentos dos nossos ancestrais.

Semana passada, após um bom período de silêncio e às voltas com a santaiada da igreja, ela me escreveu:

“Imagine você, que eu estava aqui retocando (vamos ser mais técnicas: reintegrando a policromia) e, olhando as mãos da santa, lembrei das tuas: tão branquinhas! Tem até umas manchinhas como se fossem sardas…”

A lembrança, espécie de elogio, comoveu. Eu não tinha noção – embora fosse de se esperar, pois a praia de P. é o detalhe – de que minhas mãos a merecessem. Muito menos tanto tempo e ausência depois.

Acabou que naquele dia fiquei olhando para as minhas mãos mais do que de costume. Tentei me lembrar como elas eram, para entender como elas estão. Ainda são branquinhas. Mas nem tanto, o sol campineiro é mais implacável que o paulistano. O que, nesse ponto, confere à terra da garoa um fator a mais de proteção, ainda que solar. Continuam com sardas. Há nove anos uma aliança vive na mão esquerda, sem ter passado pela direita. Não são mais mãos jovens, com fome de mundo, como aquelas que P. conheceu. Tampouco são as mãos da última vez que nos vimos – já mudaram. Longe de ser santas, elas envelhecem com o resto do meu corpo, no mesmo compasso, nem adiantadas, nem atrasadas. Elas escrevem, desesperadamente escrevem. E hoje já fazem menos sinais feios no trânsito. Sim, as mãos também criam juízo.

Jimmy Joe/Flickr.com

Como sempre, chego atrasada a mais uma invenção tecnológica.

Assim foi com o celular. Antigamente havia lista de espera para comprar um, e isso não é uma piada. Quando chegou minha vez, todo mundo já tinha o seu. Ou porque todos se inscreveram na lista antes, ou porque pagaram uma fortuna para tê-lo de outra forma. O que para mim era o fim da picada.

O primeiro aparelho de DVD foi há menos de dez anos. E através de uma promoção daquela revista famosa: você comprava uma assinatura e o aparelho era o ‘brinde’.

A máquina fotográfica digital só veio quando ninguém em casa aguentava mais carregar o trambolho manual – um excelente trambolho, é preciso registrar -, que precisava estar sempre na bolsa própria, térmica, imensa, pesada, infernal.

Não tenho Wii. Nem BluRay. Nem iPhone. Nem iPod. Nem ‘iSto’. Nem aquilo. Ainda. Mas já tenho um GPS.

Sua chegada em casa me fez concluir que talvez eu esteja ficando velha e chata. Não que não tenha gostado do brinquedo, pelo contrário: adorei. Inexplicável um aparelhinho ser tão sabido. E também tão, digamos, maternal: ao começar o passeio, ele recomenda: Dirija com cuidado! Um dengo.

Minha conclusão parte de uma pergunta: precisamos mesmo desse ajudante no dia-a-dia? Não tenho ideia de quantos GPSs circulam por aí nas mãos de gente comum. A ver pelo preço não é, ainda, item popular. O que não faz tanta diferença; o que me põe a pensar é o conceito que a engenhoca carrega em si. De utilidade e conveniência indiscutíveis, o GPS é ferramenta das mais bacanas para a aviação, exércitos, agricultura, geologia, enfim, em quase tudo um GPS vai bem.

Mas diga lá: o que foi feito do jeito antigo de se chegar aos lugares? Ver o endereço, anotá-lo na agenda, pegar um guia ou mapa, estudar a localização, o trajeto, memorizá-lo ou colocar o guia ou o mapa aberto no banco do passageiro, página marcada, e vamos lá. (OK, o Google Maps é uma mão na roda. Mas usá-lo não nos dispensa de pensar.)

O que foi feito da paradinha no posto de gasolina para pedir uma ajuda ao frentista? A segunda principal função dos postos, depois do abastecimento de combustível, é dar informações sobre endereços. A terceira é trocar o óleo.

O que foi feito dos caminhos novos, eventualmente mais longos ou distantes de qualquer lógica, porém repletos de surpresas, descobertos por acaso?

O que foi feito do erro percebido lá na frente? Ih, era ali que eu tinha que virar.

O que foi feito da eterna guerra dos sexos dentro de um carro? Você não sabe o cami-nhô… lalarilalá…

Com GPS, todo mundo sabe o caminho, sempre. Qualquer desconhecimento fica camuflado, imperceptível. A sabedoria, emprestada, torna-se nossa. A preguiça premiada: Leve-me ali. Assim é fácil.

Eu avisei. Estou ficando velha e chata.

Estação da Estrada de Ferro de Campinas/SP, 1872

Bons ventos me trouxeram a Campinas, no início desta década. Mudança até que simples, posto que São Paulo é logo ali. Mas a proximidade e as semelhanças não me dispensaram de uma fase de adaptação. É que quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi.

No começo eu me embananava com alguns nomes. Quirino, por exemplo. Nunca vi cidade com tanto Quirino. Tem santo, coronel, doutor, escola. Tirando o santo, os demais pertencem à mesma família, e tive que decorá-los para não ir parar no lugar errado.

Em Campinas, as vias são carinhosamente chamadas pelos seus apelidos. Como só os mais íntimos chamam pelo apelido, concluí que o campineiro tem uma bonita relação familiar com a cidade. Mas para se chegar aonde quer, além de decorar os logradouros, é preciso também decorar os apelidos. Nessa hora, um mapa pode não ter serventia alguma. Quer ver?

Você conhece a Rodovia Miguel Noel Nascentes Burnier? Provavelmente não. Mas Avenida da CPFL você sabe qual é. Estrada dos Amarais: todo mundo sabe onde fica. Mas tente perguntar como chegar à Rua Silvia da Silva Braga, seu nome oficial. As pessoas vão coçar a cabeça e olhar para o horizonte com aquele ponto de interrogação estampado no rosto. Tapetão? Nada a ver com decoração. É só o nome da Rodovia General Milton Tavares de Souza, que liga Campinas a Barão Geraldo, Paulínia e Cosmópolis.

Um dia, logo que cheguei, precisei ir ao Balão do Castelo. Mapa em punho, estudei o trajeto e lá fui eu. Crente que iria ver um… castelo. Cheguei ao local, e necas de avistar nenhuma construção majestosa. Dei mais uma volta. Na segunda, concluí que já estava nele. Um pouco decepcionada, confesso. O Castelo não se parecia com nenhum castelo dos contos de fadas. Mas é de lá que se tem uma das mais belas vistas da cidade.

Quando vi pela primeira vez aquela construção imponente, cor-de-rosa, próxima ao Castelo que não é castelo, quis saber do que se tratava. Já informada, achei que fosse brincadeira. Afinal, não fazia muito sentido uma Escola de Cadetes daquela cor. O motivo do questionável tom nenhum campineiro conseguiu me explicar ainda. Mas é assim e pronto. E sabe que, com o tempo, passei a achar a coisa até meio charmosa? Diferente.

Avenida Heitor Penteado. Simples, não? Não. Como ela contorna toda a Lagoa do Taquaral – leia-se Parque Portugal –, para chegar a um endereço nela é preciso ter também uma referência. Caso contrário, será necessário dar a volta completa para achar o que se precisa. É de deixar doido qualquer migrante. Ou com peso na consciência: todas aquelas pessoas fazendo suas caminhadas e você, prometendo a si mesmo há anos começar a se exercitar.

Outra. A Avenida José de Souza Campos, mais conhecida pelos pontos cardeais que indica – Avenida Norte-Sul –, frequentemente é confundida com outra avenida, continuação dela (ou será o contrário?), também relacionada a outro ponto cardeal: a Princesa D’Oeste. Que de princesa não tem nada, pois não existe um reino chamado Oeste. Acontece que Campinas é ternamente considerada pelos seus habitantes uma ‘princesa’ do estado de São Paulo, espécie de menina dos olhos, que fica no sentido de onde o sol se põe. Poético.

Tem mais: para ir às tais avenidas dos pontos cardeais é preciso passar pelo Laurão. Opa. Laurão? Seria uma espécie de guardião do cruzamento? Que nada. É o apelido do Viaduto São Paulo, inaugurado em 1977 durante a gestão do prefeito Lauro Péricles Gonçalves.

Conta a lenda que apenas 30% da população da cidade é de campineiros legítimos, ou seja, nascidos neste solo. O restante teria vindo parar aqui por conta das universidades, das oportunidades de trabalho, da qualidade de vida. Aliás, qual seria o correto, campineiro ou campinense? A questão dá pano para manga. No século passado, achou-se que ‘campineiro’ seria um termo mais adequado para representar o trabalhador do campo. E que ‘campinense’ ficaria mais bonito. No entanto, esse último gentílico já teria dono, ou melhor, donos: os habitantes de Campina Grande, na Paraíba. Como o povo daqui já se acostumara à primeira opção, ficou campineiro mesmo. O que, no final das contas, não faz a menor diferença.

Os campineiros têm motivo de sobra para se orgulhar da cidade. Ela é maior (em todos os sentidos) do que muitas capitais de estados e uma das principais cidades do interior paulista. Ops, não pode dizer que é interior. Explico: para boa parte da população Campinas não é interior. Já ouvi muita gente daqui contar o que fez no feriado: Fui para o interior. Nesse caso, valeria a pena relembrar um pouquinho as aulas de geografia. Dentro de um estado, um município pode estar em uma dessas localizações: capital/região metropolitana, interior ou litoral. Visto que Campinas não tem praia, nem é a vizinha capital, a boa notícia é que estamos… no interior. Quando me mudei para cá, inclusive, fui orientada a jamais contrariar os campineiros nesse assunto. Para não ter briga. Mas não entendo que briga poderia haver, já que não enfrentar horas no trânsito, nem fila para tudo, é coisa das mais bacanas.

O Caminho dos Goiases, como a terra foi primeiramente chamada pelos Bandeirantes no século XVIII, nem imaginava aonde chegaria. E é preciso registrar: esta cidade me acolheu com tanto carinho, que hoje me sinto uma campineira. Ou campinense. Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Pelo menos por enquanto.

Afinal de contas: a ‘mina’ que o Seu Jorge fala mora no condomínio do moço apaixonado, ou num condomínio do bairro onde ele mora? Oh dúvida.

Mina do Condomínio
(Seu Jorge – Gabriel Moura – Pretinho da Serrinha – Pierre Aderne)

“… Mina maneira do condomínio
Lá do bairro onde eu moro
… Minha gata, minha sina
Do meu condomínio”
cici joey cauboi - daniel duendeDaniel Duende/Flickr.com

Justiça seja feita. Assim como este mundo de meu Deus tem coisas que me tiram do sério, há aquelas que me põem na alegria e que também merecem uma lista. Confesso: deu trabalho. Mas ela tem 29 itens (para combinar com o dia), contra as 24 do outro dia. Está decidido: sempre haverá mais coisas alegrantes do que irritantes.

1. Motoristas que freiam para o cachorro atravessar. Ou para o gato. Ou para as galinhas que moram aqui na rua de cima.

2. Na padaria, quando peço aquele pão de queijo do balcão e o atendente diz: Esse não. Eu vou lá dentro buscar um fresquinho para você.

3. Experimentar uma roupa numa loja e ver, ainda que com certa indignação inicial, a sinceridade da vendedora: Não ficou muito bom, não.

4. Rever uns bons trocados com o Nota Fiscal Paulista.

5. Saber que a história do cãozinho Bob teve um final feliz.

6. Ver que, finalmente, pais e mães estão tendo direitos e deveres iguais quando se separam e há filhos na jogada.

7. Saber que tem um desenho animado infantil produzido no Brasil fazendo o maior sucesso num canal de TV paga, onde reinam os importados.

8. Quando ligo num SAC qualquer, o atendente promete ligar de volta para resolver meu problema, e liga.

9. Ver que a cachorrinha que nós recolhemos da rua, doente e faminta, hoje é gorda e feliz.

10. Quando vou pagar algo e percebo que estou sem dinheiro algum na carteira e o caixa, que às vezes nem me conhece direito, diz: Não se preocupe, você acerta depois. (Que fique registrado: eu sempre volto para pagar.)

11. Descobrir que tenho saldo para receber do FGTS, daquela conta que eu havia dado por encerrada há séculos.

12. Poder ficar tranquila em casa. O bloqueio ao telemarketing do PROCON funciona.

13. Ver, todos os anos, que minha mamografia está normal.

14. Quando escrevo para alguém famoso e ocupado sem esperar por uma resposta, e ela vem.

15. Saber que, apesar da AIDS ainda não ter cura, as pessoas que carregam em si o HIV não estão mais condenadas à morte.

16. Entrar em roupas que eu tenho há dez anos. (OK, ficam um pouquinho apertadas)

17. Pedir para a costureira consertar um vestido que estava rasgado, e ele ficar mais bonito do que quando era novo.

18. Lembrar de quando meu filho tinha três anos e pedia para ouvir Villa-Lobos (“Aquela música do trenzinho, mãe”).

19. Ele pedir até hoje.

20. Ver que uma história triste contada num blog ganhou fãs pelo país, virou livro e já não é mais tão triste.

21. Saber que as pessoas me dão dez anos a menos. (OK, sete)

22. Ver um comercial de pomada com novos modelos de famílias.

23. Tentar assistir a um espetáculo teatral infantil, e os ingressos estarem esgotados.

24. Uma das minhas melhores amigas na adolescência tentou e conseguiu me encontrar, depois de trinta anos. Conversamos como se tivéssemos nos visto ontem.

25. Saber que desconhecidos já deram carona para meu pai até em casa, porque ele havia se perdido pela cidade.

26. Ouvir com meus filhos as músicas da Palavra Cantada. E gostar. Muito.

27. Descobrir um monte de tecidos perdidos há anos no armário, que estão virando roupas novas e bonitas.

28. Quando escrevi sobre a Lygia Fagundes Telles aqui, um monte de gente bacana quis me ajudar a chegar perto dela. E cheguei.

29. Assistir CQC toda segunda-feira.

Ninio Romantico/Flickr

I

Um dia o Carlos, meu cunhado, chegou em casa com um presente para minha filha. Era uma enorme tartaruga de pelúcia cor-de-rosa. A tartaruga tinha um zíper na barriga, e nela quatro ‘ovinhos’ feitos de pano. Dentro, os filhotinhos. A tartaruga poderia ficar grávida e não-grávida, e as tartaruguinhas nasciam quantas vezes a gente quisesse. Era só colocar os bichinhos de volta na barriga e começar a brincadeira de novo. Enquanto minha filha se divertia com a novidade, meu cunhado revelou: Eram cinco ovinhos. E cadê o outro?

Foi assim. O voo estava lotado. Uma mulher estava com sua filhinha pequena no colo, que chorava sem parar. A mãe tentava distraí-la, cantava, contava histórias e nada. Os passageiros – meu cunhado, inclusive – já se incomodando com a situação, mas fazer o quê? Criança não quer nem saber, quando quer chorar, chora mesmo.

Foi quando o Carlos teve uma ideia. Pegou a tartaruga que estava embrulhadinha no bagageiro, e não teve dúvidas. Ou melhor, teve, mas era um quase caso de vida ou morte. Ele abriu-lhe a barriga, retirou um dos ovinhos e o deu à menininha. Como num passe de mágica, ela abriu um sorriso e parou de chorar. E todos viveram felizes para sempre.

Está certo, meu cunhado teve outra motivação, além da compaixão: o desejo de viajar em paz. Mas tirante isso, o gesto foi, no mínimo, uma gentileza das boas. Capaz de fazer a diferença na vida daquela garotinha, naquele momento. E da sua pobre e desesperada mãe. Eu, que não sou pessoa das mais gentis, tenho aprendido nos últimos tempos: todo mundo pode fazer alguma coisa por alguém, sempre. Algo simples, que não nos tira do caminho, não nos atrasa e não nos onera. Juro: a vida fica melhor assim.

Minha filha adorou o presente com o bichinho a menos. Até porque ela nem sabia da quinta tartaruguinha – que deve estar até hoje na casa da menininha.

II

Existe um lugar na blogosfera chamado Crônicas de uma menina feliz (não faço o link aqui de propósito, só mais adiante). A dona dele, uma brasileira que vive na Alemanha, dedica-se a uma atividade singular. Ela faz desenhos para os outros. Mas não são simples desenhos. Quero dizer, são desenhos simples, que ela própria chama de ‘bobinhos’, mas que não são nem um pouco simples na sua natureza. Ela desenha a vida das pessoas. Gente que ela nunca viu na vida lhe manda histórias de suas infâncias, contando suas doces memórias, e ela põe tudo no papel. Depois, todo mundo pode ver na tela. Às vezes, ela fica sabendo de uma história (triste ou feliz), se comove, e lá vai ela desenhar. Com um capricho de dar gosto.

Quando encontrei esse site, absolutamente por acaso, resolvi lhe mandar algumas das minhas histórias, assuntando se ela não gostaria de desenhá-las. E não é que ela gostou da ideia? Antes, fez uma espécie de entrevista comigo: quis saber como eram meus pais, meus irmãos, que roupas eu usava quando criança, como era a casa onde cresci.

Quando vi o post de hoje no seu site foi impossível não ficar com os olhos rasos d’água. Fiquei impressionada, e comovida, com sua habilidade para captar os detalhes do que lhe contei, das fotos que lhe enviei, traduzindo tudo em desenhos transbordantes de carinho e delicadeza. Como se as pessoas da minha família (até o gato) fossem seus velhos e queridos amigos. Ganhei mais um presente diferente e bom este ano, além dos que eu já contei aqui dias atrás.

Essa moça é uma verdadeira retratista de boas lembranças. Ela doa seu tempo e sua energia, simplesmente para fazer um agrado. Pensei com os botões: por que uma pessoa faz isso? O que move um desconhecido a nos endereçar tamanha gentileza? Sim, porque podemos ser gentis com quem está à nossa volta. Mas quando o somos com quem não conhecemos, propriamente dito, o sentido muda. É outro papo.

O que a move é simplesmente a alegria de imaginar a alegria das pessoas vendo seus desenhos, que são dela mas que pertencem, de um jeito muito especial, às pessoas retratadas neles. Aquele sentimento que, de um jeito ou de outro, é o que  funda o trem das nossas vidas.

É preciso registrar uma coisa: ela havia me avisado que publicaria minha historinha hoje. Então, este post aqui já estava meio pronto desde ontem, eu só estava esperando ver no que a coisa tinha dado para completá-lo. Prestem atenção: lá no finalzinho de seu post ela resolveu colocar uma música. Que também já estava aqui desde ontem e é, inclusive, o nome deste post. Ninguém combinou nada. Para quem acredita em coincidências…

III

Ave Beatles.

Daniel Duende/Flickr.com

Não tem aquele programa Irritando Fernanda Young? Pois então. Eu não tenho programa de TV, mas listo aqui 24 coisas que me irritam neste mundo de meu Deus. É para combinar com o dia de hoje, 24.

1. Quando digo que não como carne vermelha nem frango e as pessoas perguntam com aquela cara de espanto: Mas o quê você come, então? Às vezes, só para variar, respondo: arroz, feijão, abobrinha, brócolis, tomate, batata, aveia, pão, requeijão, peixe, biscoito salgado, biscoito doce, ovo, brigadeiro… e só paro quando a pessoa diz: OK, já entendi.

2. O termo “sanduíche natural”. Esse eu nunca consegui compreender a definição. Tem frango, maionese…

3. Quando há alguma campanha em prol dos animais e as pessoas dizem: Com tanta gente passando fome… Então está bem. A gente pára tudo no mundo e não faz mais nada para ninguém. Porque tem gente passando fome, né?

4. Porta-toalhas de papel que diz: Bastam duas folhas para secar as mãos. Você usa duas e termina de secar as mãos na roupa.

5. Anúncios de Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal. Poderiam usar os mesmos todos os anos, porque os motes, surradíssimos e pra lá de caricatos, são sempre os mesmos. Sem falar nos que circulam na época do Carnaval, cheios de confete e serpentina. Ou em junho, onde tudo vira arraiá, num idioma que nem caipira de verdade sabe o que é. É de lascar.

6. Anúncios de telefonia celular. Dos institucionais eu até gosto, mas os promocionais… Um tem pacote de duzentos minutos, outro de quinhentos (como se o ligador controlasse isso, ou tivesse noção desse tempo), no outro fala-se por um ano de graça com não sei quem. Finjo que não vejo.

7. Lojas de sapatos. Você pede aquele modelo, naquele número. Não tem, e o vendedor traz um modelo absolutamente diferente, dois números maior e diz: Trouxe esse…

8. Março, 36 graus, sol de rachar côco. As lojas colocam suas coleções de inverno nas vitrines, e você vai encontrar uma camisetinha de manga curta lá no fundo, na última arara. Sem contar o ar-condicionado, que desce para 15 graus. É para sugestionar, como me disse uma vez uma vendedora.

9. Aquelas etiquetas enormes e pinicantes nas roupas, com instruções de lavagem, composição dos tecidos. Algumas vêm até com o a indicação do lugar para você recortá-las. E depois ninguém se lembra se a peça pode ir à secadora ou não.

10. Troco menor que R$ 0,05. Ninguém dá. Deve haver, portanto, algum critério misterioso ou supersticioso que faça existir preços terminados em 96, 97, 98 ou 99 centavos.

11. Quando você vai comprar um carro o vendedor afirma: Vermelho é um charme. Você fica na dúvida e ele garante: Não tem mais essa de cor mais ou menos valorizada. Quando você vai vender: Xi, vermelho não tem muita saída…

12. Na praia. Por que 99% dos donos das barracas acham que as pessoas que vão à praia só querem comer tranqueira? Gordura não combina com praia. Nem com biquíni.

13. Na praia II. Por que 99% dos donos das barracas acham que as pessoas que vão à praia só querem ouvir pagode?

14. Na praia III. Você resolve sair com uma calça comprida e alguém diz: Você não vai por um shortinho?

15. Combustível. De onde vem o hábito de colocar o preço com três casas decimais? E a terceira é beeem pequenininha. Aquela vendedora da loja de roupas diria que “é para sugestionar”.

16. Quando eu digo que minha filha se chama Nina e a pessoa pergunta: Mas é o nome ou apelido?

17. Quando eu digo que meu filho se chama Luca e a pessoa vem conversar com ele: Então, Lucas…

(Quem mandou colocar esses nomes.)

18. Estrangeirismos. Em geral, são todos ruins e fora de contexto. Mas os que batizam prédios e condomínios são os piores. Você pede uma pizza pelo telefone, e na hora de dizer onde mora é aquele martírio.

19. Embalagens. Lenço umedecido: quem é consegue abrir o pacote e tirar o primeiro, sem antes estragar uns dez?

20. Embalagens II. Caixa de leite longa vida: primeiro você precisa de um instrumento para abri-la. E depois, de uma habilidade enorme para servir o primeiro copo sem espalhar leite pela pia.

21. Embalagens III. Iogurte de potinho: impossível tirar o papel de uma vez só. Vai rasgando, rasgando…

22. Aquelas caixinhas de morango, com os maiores e mais bonitos por cima, e os menores e nem tão bonitos por baixo. Enganação descarada. Aquela vendedora da loja de roupas diria que “é para sugestionar”.

23. Aqueles papeizinhos pequenininhos, os comprovantes das compras com cartão. Vão se amontoando na carteira. Quem é que confere aquilo tudo depois, ó Senhor?

24. Esse não irrita mais, mas já irritou muito quando eu era criança. Sempre que fazia um desenho alguém dizia: Que bonito… o que é? Se fosse uma pessoa: Que bonito… Quem é?

Diz se não é para sair do sério.

Todo mundo já comeu aquele bolo chamado “Nêga-maluca”. E todo mundo sabe o que vai nele: farinha de trigo, açúcar, ovos e chocolate. De uns tempos pra cá, uma pergunta não sai da minha cabeça: por que diabos esse nome?

Tudo bem: um chocolate marrom, uma mulher negra, um bolo marrom como uma mulher negra. Até aí eu entendo a brincadeira. E ‘maluca’, vem de onde? O que deixa a nêga maluca, afinal de contas? Encafifei e concluí que a nêga pode ficar maluca por vários motivos.

Voltemos a 1955. Uma negra chamada Rosa Parks vivia no Alabama. Nos Estados Unidos, naqueles tempos que não são tão distantes assim de hoje, os negros tinham que ceder seus lugares aos brancos nos transportes coletivos. O que hoje soa como sandice era lei naquele país. Pois um dia a Rosa ficou maluca. Disse ‘não’ ao branquelo que exigia seu lugar no ônibus. A costureira de quarenta e dois anos não tinha idéia do que tinha acabado de fazer. Foi multada e presa. E seu desafio deu origem a um longo boicote ao sistema público de transportes da cidade, encabeçado por um pastor até então quase anônimo chamado Martin Luther King. O resto é história. Foi a Rosa que, sem saber, preparou a massa do bolo. King adicionou fermento e o pôs no forno.

Mais perto, aqui no Brasil, outra negra, nascida nos anos em que a arte da dona Parks ainda ecoava, também teve dias de se amalucar. Marina Silva, a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, que nasceu no Acre e foi semi-analfabeta até os dezesseis anos, sonhava com a faculdade. “Está maluca”, talvez alguns tivessem dito. Mas ela foi lá. Bacharel em história, a Marina chegou ao ministério e disse ao que veio. Um dia ela ficou maluca: mas quanta pressão, meu Deus. E pediu as contas. Para que a batata não assasse demais. No caso, o bolo.

Mais perto ainda de mim, lembro da vizinha que morava no quarteirão de cima, num casebre de dar dó. Uma senhora negra dos seus cinquenta anos, que andava para cima e para baixo recolhendo papelão para vender, sempre acompanhada de uma cachorra bonita e um tanto medrosa. Por vezes, caso a colheita do dia não tivesse lhe rendido muita coisa, talvez nem o suficiente para o jantar, a vizinha ficava maluca, e sobrava para a cachorra. De minha varanda, inconformada, peguei várias vezes o telefone para denunciá-la por maus tratos. Mas desistia. Uma pessoa esquecida pelos colegas da Marina, uma pessoa a quem do grande bolo não coubera fatia alguma, não teria condições de compreender o direito dos bichos.

Pronto. Está explicado.

Andei chorando as pitangas por não conseguir lembrar direito dos meus aniversários. Mas daqui para frente, tudo vai ser diferente.

Desde que tornei públicos os meus (des)encontros com Lygia Fagundes Telles, vira e mexe alguém me revela que também viveu – ou sabe de – um causo com essa senhora. LFT é uma comum mulher incomum. Afetuosa, simples, direta – como contam os amigos em histórias daqui e dali. Um encontro por acaso, um esbarrão na livraria. Um chá em sua companhia. Uma entrevista que vira conversa. Uma fotografia tirada para uma revista. E foi justamente através dessa última categoria que eu acabei ganhando um presente de aniversário diferente e muito bom. O menos esperado, o mais emblemático. Para garantir que meu 42º aniversário navegue incólume no mar da minha própria deslembrança que, por vezes, engole esse assunto.

Conto como foi. Os tais (des)encontros foram lidos por dois amigos, um casal de fotógrafos. Ele, Penna Prearo. Ela, Adriana Vichi. Ele, com um olhar genial para as coisas. Ela, que conheci através dele e com quem até hoje só falei por e-mail e telefone sobre bichos abandonados e, claro, LFT. Dela, que eu imagino loura, com cabelos anelados presos num rabo-de-cavalo, ele já contou: é dada a fazer surpresas. Como ambos já haviam fotografado LFT, bolaram um plano: Adriana enviaria meu texto para LFT, quem sabe ela não gostaria de lê-lo? E assim fez ela, exata e propositadamente no dia de meu aniversário, tratando também de lhe contar esse detalhe. O resto é história.

Dia seguinte, manhãzinha, checo meus e-mails. Eu, que não tenho o hábito de olhar aquela pastinha “junk”, aonde geralmente vai parar o lado tosco da humanidade, tive a curiosidade de ver o que havia ali. Sopro de anjo, só pode ter sido. Pois o que havia nela jamais poderia estar lá: uma mensagem de LFT. E não era spam.

Eu sei, ela caiu ali porque aquele endereço não estava na minha lista de contatos (quem dera), fui eu mesma quem configurei assim. Mas será o Benedito que o provedor não sabia de quem se tratava? Soubesse, teria concluído: Ops, esta aqui não pode ser junk. E a moveria para a caixa de entrada, com toda pompa e circunstância:

From: Lygia Fagundes Telles

To: Silmara Franco

Subject: feliz aniversário

Date: Thu, 7 May 2009 19:22:12 -0300

Cara Silmara,

segue o abraço de aniversário dessa escritora às voltas com conferências e lançamentos. Me diga seu endereço que mando um dos livros novos com dedicatória.

Obrigada pelo texto entregue pela Adriana.

Abraço afetuoso,

Lygia Fagundes Telles

Confesso que, a princípio, hesitei em acreditar, tamanha improbabilidade disso acontecer. Caí da cadeira. Mas juntei o que dizia a mensagem com as histórias contadas pelos amigos, e respirei aliviada. Um pouco envergonhada, é verdade, pela dúvida que tivera.

Contrassensos modernos: quanto mais simples e gentil a coisa, maior a desconfiança. Apontando o modo enviesado com que nos relacionamos com os outros, quase sempre baseados na descrença e no medo das intenções. LFT mandara-me a delicada mensagem por gentileza, já que ela certamente tinha outros afazeres naquele dia (e não importa se eventualmente não tenha sido ela própria quem a digitara; se assim foi, a instrução partira dela).

Também confesso: o “plano” dos dois amigos havia me surpreendido. O empenho de uma pessoa (Adriana, que eu nunca vira de verdade), movida pela simples vontade de fazer alguém feliz, sem interesse algum, é raro e comovente. Um gesto que, de tão amável, também chega a soar improvável.

É. Somos, definitivamente, uma raça repleta de esquisitices.

Voltando à mensagem. Engraçado como algo virtual pode trazer tanta felicidade real. Passei o dia inteiro meio abobalhada, contemplando-a na tela como quem admira um quadro. Ser fã é quase dolorido.

Exatamente uma semana depois, vou apanhar minhas correspondências na portaria. Uma conta de água, um folheto da pizzaria nova que abriu no bairro e um envelope grande, pesado. É da Academia Brasileira de Letras – tem coisa mais chique? Sorrio, pois já sei o que é. Outra gentileza de LFT. Para me deixar abobalhada o mês inteiro.

Para os próximos dias, tenho um encontro com Ana Clara, Lia e Lorena. Há tempos não via essas meninas, será bom revê-las.

Aquela moça do Exercício de paciência, partes 1 e 2, agora vê seu rebento vir ao mundo, para alegria de todos. A nova mamãe, que já passou pela provação de ter que responder a um monte de perguntas para um monte de pessoas durante nove meses, agora está diante de um novo desafio: contar como tudo tem sido desde que o pimpolho nasceu. O folheto com a FAQ (Perguntas Frequentes, do inglês Frequently Asked Questions), aquele para as perguntas durante a gravidez, continua sendo instrumento dos mais úteis para mães com qualquer milhagem, e agora precisa ser atualizado. Acompanhe. 

Ainda na maternidade, naquelas ‘visitinhas’ de duas horas:

Foi normal ou cesárea? (no caso do visitante não ter acompanhado a gravidez através do folheto anterior)

Está doendo muito?

Quantos quilos? Quantos centímetros? (aliás, de onde virá essa fixação em saber peso e altura dos recém-nascidos?)

Com quem se parece?

Na primeira semana, já em casa:

Você está amamentando?

Se sim: Você tem bastante leite? Ele (o bebê) mama muito?

Se não, não há perguntas, mas um triste “Aaaahh”, ou um monte de “soluções”.

O irmão está com ciúmes? (se você já tiver um filho)

Ele (o bebê) acorda muito?

O Fulano (pai) já trocou fralda?

Com quem se parece?

Na terceira semana:

Você está muito cansada?

Você tem conseguido dormir?

O Fulano (pai) está ajudando você?

Com quem se parece?

Quando o bebê está com dois meses:

Ele (o bebê) está tendo cólicas?

Com quem se parece?

Quantos quilos você já perdeu?

Com três meses:

Ele ou ela? (quando você sai para passear e a roupinha é amarela)

Como se chama? (no mesmo passeio)

Hãn? (no mesmo passeio, se for um nome meio diferente)

Com quem se parece?

Quantos quilos você já perdeu?

Quatro meses:

Quando você volta a trabalhar?

Babá ou escolinha?

Com quem se parece?

Quantos quilos você já perdeu?

Com cinco ou seis meses:

E aí, como foi voltar ao trabalho?

Já tem dentinho?

Já está engatinhando?

Quantos quilos você já perdeu?

Sete meses:

Ele (o bebê) está comendo de tudo?

Já quer ficar em pé?

Quantos quilos você já perdeu?

Oito meses:

Você já está planejando o aniversário?

Quantos quilos você já perdeu?

Nove meses:

Já quer andar?

Já quer falar?

Quantos quilos você já perdeu?

E vamos ficando por aqui, para combinar com os nove meses do questionário da gravidez. Ainda virão muitas perguntas, por muitos anos. Todas, como já disse, são absolutamente do bem. Mas aí a mamãe estará tão escolada na arte de responder, que dispensará qualquer instrumento de apoio. No caso, o querido folheto. E isso é bacana.

OS TEXTOS PUBLICADOS SÃO DE AUTORIA DE SILMARA FRANCO. PARA REPRODUZI-LOS É PRECISO DAR O CRÉDITO (LEI FEDERAL Nº 9610, 19/02/1998). COMBINADO?

TODOS OS EMAILS SÃO RESPONDIDOS. TODOS OS COMENTÁRIOS SÃO LIDOS (INCLUSIVE EM POSTS ANTIGOS) E RESPONDIDOS POR EMAIL, QUANDO É O CASO.

TODOS OS TEXTOS, EM ORDEM CRONOLÓGICA

Obrigada pela visita.

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