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Gol!

futebol 1

Vivo perdendo gol do meu filho.

Em vez de prestar atenção ao jogo, distraio-me com a formiga aparentemente desnorteada que escala meu sapato, a nuvem em forma de cachorro, o pacote vazio de Ruffles que o vento leva pra cá e pra lá.

Quando vejo, já foi. Tenho déficit de atenção esportiva. E não há tratamento – graças a Deus.

É domingo, estou em pé desde as seis e dirigi cinquenta quilômetros. Aboleto-me na arquibancada; sou apenas um holograma de mim, que fiquei na cama. Não entendo nada do que fazem em campo. Demoro a descobrir de que lado o time dele faz gol. Aliás, mal o identifico, ao longe. Tento pela chuteira. Ele veio com a verde-limão ou a laranja?

Flagro um pedaço de conversa ao lado, o marido de não-sei-quem não pagou pensão e passou a noite no xilindró. Não pagar pensão é falta grave. O pacote de Ruffles agora foi parar na torcida rival, alguém se anima e o chuta de volta. Se tem uma coisa que une todo mundo é batata frita.

Perco novo lance, sei porque a torcida solta “Uuuh”.

Futebol não é minha praia. Praia também não é minha praia. Tem areia, água salgada, que aflição.

Vinte minutos de bola rolando, finjo compreender as jogadas. Resolvo ir à lanchonete. Sou a única a pedir café. Em pé desde as seis, lembram?

Volto ao meu posto e descubro que, enquanto eu tomava café e borboletava no Facebook, meu lateral-esquerdo favorito fez gol. Não dou uma dentro.

Posso não ser a mãe-torcedora ideal. Mas divirto-me vendo pais e mães com síndrome de técnico. Que ficam, da arquibancada, berrando instruções aos seus minineymars, com a mesma naturalidade com que os mandam arrumar a cama, escovar os dentes ou fazer a lição. O caso das mães, geralmente, é mais grave. “Tem que descer mais, Pedro Henrique!”, “Vai na bola, Lourenço Augusto!”. Chamam pelo nome inteiro. Nem o técnico sabe de quem se trata. Eu não faço isso. Primeiro, porque não daria uma orientação que prestasse. Segundo, atrapalha o time, é mico dos grandes. Se as torcidas organizadas têm regras a seguir, torcidas de genitores precisam de um capítulo extra.

Não fui alfabetizada nos esportes. Tinha ojeriza às aulas de educação física, no ginásio. Em parte, pela ideia do exercício em si; em parte pelo uniforme pavoroso a que éramos submetidas (shortinho bufante vermelho, minissaia branca plissada por cima) e em parte pela professora, que dava aulas maquiada e ensinava vôlei fazendo a turma ler em voz alta as regras, a partir de um livro. Sentávamos em roda e nos revezávamos. Deve ser por isso que peguei gosto pelos livros e não pelos esportes.

Na TV, pulo, sem dó, todos os canais que cobrem o assunto. Pudesse, os eliminaria. Tenho apenas um par de tênis – todo mundo precisa ter, na vida, um par de tênis e uma caderneta de poupança, para eventual necessidade. Peguei da caçula, ficou pequeno para ela. É um número maior do que eu calço, fato irrelevante. Eu que não gasto com essas coisas.

Na volta do jogo, no carro, torço para que ele não pergunte “Você viu aquele gol que eu fiz?”. Na qualidade de mãe, não poderei mentir. A inquisição fatal vem e eu respondo. Ele fica chateado por dois segundos, balança a cabeça e ri. Sei que está tudo bem quando ele emenda, “O que a gente vai almoçar?”.

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Xilindró

cadeia

1980, temporada dos jogos inter-colégios. O nosso jogaria com o São Paulo, no centro da cidade. Da Mooca até lá, só de ônibus. Fomos, então, prestigiar o time. Tudo seguia nos conformes, quando uns garotos começaram a bagunça no coletivo. De repente, o estrondo. Haviam quebrado o vidro da janela.

O motorista para. Desliga o motor. Puxa o freio. Sai de seu posto e ruma ao fundão. Quem foi? Silêncio. Então vamos para a delegacia resolver isso. E não é que ele foi mesmo?

No caminho, gelei. Eu, treze anos, na delegacia. Teria direito a um telefonema? Sem advogado, restariam meus pais. Pai e mãe são nossos advogados eternos. Mas a gente não tinha telefone. Ligaria na casa 4 e pediria para a Dona Antonia dar o recado. Vexame. Já me via no xilindró, cabelos raspados, vendo o sol nascer quadrado, batendo caneca nas grades, tomando banho de sol com a galera. Não estaria sozinha, no entanto: meia dúzia de colegas da 7ª A dividiriam a cela comigo. Compadecidos, os professores nos visitariam no Dia das Crianças. Ninguém passaria de ano.

Enquanto lamentava meu destino, a turma de – no conceito do condutor enfurecido – menores infratores chegou à Delegacia. Colocaram-nos em uma sala. A maioria de nós não tinha culpa de nada, nadica. Mas como não houve delação, estávamos todos no mesmo barco. E agora, Dotô? Como é que volto pra garagem assim? – quis saber o motorista.

O delegado de plantão, sem nada mais grave para resolver naquele dia, nos mediu de cima a baixo. Iniciou seu sermão. Onde já se viu isso, a gente não tinha educação, nem respeito pelo patrimônio, que não acontecesse novamente, senão já viu. Ouvíamos calados, uns tremiam feito vara verde. Tudo piorou quando a Rô, usando uma saia que trouxera da Bahia, toda de rendas e franjas no melhor estilo boho-afoxé, numa atitude sem noção, resolveu apoiar o pé num cercadinho ao lado da mesa da autoridade. Tomou pito adicional, pobrezinha. Ninguém riu. O medo vencera. Vinte anos depois, perdemos a Rô. Meu coração ficou em cacos, feito a janela do ônibus.

Embora não tenha testemunhado o fato, tenho cá, até hoje, meu palpite sobre o autor do vandalismo. Fiquei de bico calado, no entanto. Vi-me no leito de morte, daqui a algumas décadas, chamando de canto o representante de Deus antes da extrema unção: Acho que foi Fulano, padre.

Sermão dado, lição aprendida, jogo perdido. Hora de voltar para casa. De ônibus. No trajeto, discutimos, apreensivos, se o episódio caracterizaria passagem policial, prejudicando nossas vidas dali para frente. Por via das dúvidas, ficou todo mundo comportado. Fichada, mesmo, é esta minha saudade de tudo e de todos.

À noite, quando meus pais chegaram, contei. Perguntaram se alguém havia se machucado. Não, pai. Quiseram saber se havia sido eu. Não, mãe. Sondaram o que haviam feito com a gente na delegacia. Só bronca, pai. Questionaram as minhas companhias. São gente boa, mãe. Disseram para eu escolher bem com quem andava. Sigo o conselho até hoje.

Contei da Rô, minha mãe não escondeu o riso. E fomos dormir. Certeza que o delegado, depois de despachar os baderneiros-mirins, riu também.

Não vou de bike

Bicicletas de Parati/RJ, arquivo pessoal
Bicicletas de Parati/RJ, arquivo pessoal

Não tenho relação de amor com as bicicletas.

Elas não povoam minhas memórias com recordações do tipo “a primeira vez que andei sem rodinhas”. Nunca escrevi bilhetinho “Cadê minha Caloi?” para meus pais. Reajo com indiferença às campanhas que pedem ao cidadão para deixar o carro em casa e ir de bicicleta; não estão falando comigo.

Sei que, por conta disso, falta à minha formação humana um componente essencial. Não pedalo, logo, não existo.

Se até ETs andam de bicicleta e emocionam gerações, deve mesmo ser uma coisa muito legal. Pena que não descobrirei isso nesta vida. (Embora tenha chorado – e chore sempre – naquela cena do filme.)

Quando criança, tive um triciclo. Apesar de substantivo masculino, cismei que era menina e batizei-a de Crondiana, por razões que minha própria razão desconhece. Brinquei bastante com ela pela vila onde morávamos, grande o bastante (aos meus olhos infantis) para minhas supostas manobras radicais. Eu gostava, mas não amava. Não sei que fim levou Crondiana.

A paixão humana (quase uma obsessão) pelo icônico meio de transporte rende. É música (repare o tanto de letra falando de bicicleta), museu próprio, plataforma de governo em metrópoles mundo afora, estilo de gol. Estampa de camiseta nem se fala. Tem doido que viaja por uma dúzia de países só em cima da magrela. Tem doido que mata (ou morre) por causa de uma.

Depois da Crondiana, tive poucas bicicletas. Duas ou três. Nem nome ganharam, pereceram encostadas nos quintais. E, contrariando o dito popular, eu esqueci, sim, como se anda.

A verdade é: nunca aprendi a andar direito. Se Deus escreve certo por linhas tortas, quando o assunto é bicicleta eu ando torto até por linhas certas. Intermináveis aclives, aterrorizantes declives, trechos acidentados? Oh suplício. Nem vinte e uma marchas ajudam um corpo preguiçoso e, por natureza, sem talento para equilíbrio.

Saber andar de bicicleta – e fazê-lo regularmente – é o passe para a socialização em algumas tribos urbanas, que sequer aceitam analfabetos ciclísticos. Apenas ser a favor das ciclovias não basta. O não-adepto acaba excluído das conversas, dos passeios, sofre bullying.

É confessar que não pedalo, que não tenho “bike”, e logo se forma uma rodinha em torno de mim, a estranha. Determinados a investigar desde como foi minha infância até minha orientação política os algozes podem, em casos extremos, obrigar-me a demonstrar minhas inabilidades ali mesmo. Fugir – a pé, de carro ou ônibus – é a única solução.

Não vou de bike e zéfini.