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Estrogonofe

fogão

Sempre tinha estrogonofe de frango no bandejão do jornal. Eu gostava só do creme. E do champignon.

Quando chegava minha vez, eu deitava a concha no réchaud bem devagar, aguardando o caldo enchê-la e cuidando para que não viessem junto os pedaços de carne. Em seguida, pinçava cirurgicamente alguns cogumelos. Na mais santa paz, sem pressa, para eventual desespero dos colegas atrás de mim.

As moças do restaurante ficavam por ali, ajeitando a comida remexida pelas pessoas, repondo o que acabava, explicando o recheio do capelete. Garantindo, enfim, o bom andamento da sagrada refeição, antes do retorno de todos à labuta.

Bastaram, no entanto, algumas vezes para a moça branquinha de touca idem me flagrar na estranha operação. Veio perguntar. Respondi.

Dali para frente, quando era dia de estrogonofe e ela me avistava na fila, já acenava. E corria para dentro da cozinha. Logo reaparecia no salão, trazendo no rosto um sorriso e nas mãos um prato só com o creme. Muitos champignons extras, certamente colocados na hora. Tudo salpicado de cheiro verde, de modo a ficar bonito. Aquilo era para mim. Eu só completava com arroz, batata palha e ia me esbaldar com meu almoço exclusivo.

É claro que sempre lhe disse “obrigada!” pela gentileza. Não sei, porém, se cheguei a agradecê-la a contento. Porque esse é o tipo da coisa que se deve agradecer grandemente. Registrar, enfatizar. Era o caso de chamá-la num canto e dizer o quanto eu me sentia especial com sua atitude (por mais simples que soasse), ou de elogiá-la para sua chefe. Perdi a chance. E jamais saberei por onde anda a moça alva. Só queria agradecer direito, vinte anos depois. Gratidão retroativa nem sempre é possível, tampouco surte o mesmo efeito. Gratidão deveria ser disciplina obrigatória já na pré-escola.

Era pequena, a moça. Delicada, falava baixo, os gestos humildes. Olhos claros, talvez? Nunca soube a cor de seus cabelos. A touca asséptica escondia sua identidade. Questões da vigilância sanitária. Talvez ela não fizesse ideia de que realizava, em meio a arrozes e feijões e talheres e azulejos brancos feito sua touca, o que muita empresa, com seus múltiplos recursos e ferramentas e aparatos tecnológicos, não é capaz de fazer. Naquele refeitório, eu era uma “cliente” absolutamente feliz e satisfeita. Inclusive nos dias em que não tinha estrogonofe.

Ontem lembrei-me dela mais uma vez, enquanto fatiava champignons e abria a caixinha de creme de leite.

Certos alimentos, dizem, são bons para a memória. Estrogonofe faz bem para a minha.

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Boneca de papel

No restaurante, brinco de colocar a saia azul da mulher de blusa xadrez, sentada na mesa em frente, na moça de sapatilha de florzinha, em pé ao lado da porta. Penso também que ficaria melhor a bolsa da que acaba de entrar, com longas alças e fivela de borboleta, na que está sentada aguardando a conta. E o vestido rodado da ruiva que traça um pratão de yakisoba bem que ficaria bonito na garçonete, limitada ao triste uniforme que lhe aperta as ancas.

Não devo ter brincado o suficiente com as minhas bonecas de papel, quando era criança.

Em cinco minutos, altero a configuração do público feminino do restaurante. Corrijo, melhoro, salvo. Pena que nenhuma delas ficará sabendo.

As bonecas de papel não eram como as de hoje, superproduzidas, compradas em loja. Nós mesmas as fazíamos. Minha mãe desenhou as primeiras para nós. Recortava a cartolina, criava os modelitos. Depois minha irmã e eu aprendemos a técnica e passamos a criar nossas próprias bonecas. Não podíamos esquecer de fazer a abinha para dobrar sobre os ombros, na cintura. Caso contrário, a roupa não parava. Eu não fazia somente roupas, mas os acessórios também: chapéus, bolsas, botas. Para um guarda-roupa completo, bastavam papel e lápis de cor.

Hoje, a brincadeira dispensa a cartolina e o lápis de cor e pode ser brincada em qualquer lugar: supermercado, fila de banco, escritório. Até na aula de meditação. Só não dá para chamar a irmã para brincar junto, agora ela mora longe. Também não posso impedir que as bonecas, no meio da brincadeira, vão embora.

As bonecas de papel só tinham frente. Não tinham perfil, nem costas. Mesmo assim, rendiam uma tarde inteira de diversão. Não havia vitrine impossível para elas. Os casacos mais sofisticados, daqueles longos, elas podiam ter. Vestidos de baile, botas até o joelho, chapéus maravilhosos. Minissaias, vestidos “de ficar em casa”. Não havia roupa que a minha imaginação não pudesse lhes dar.

As mulheres do restaurante têm frente, costas, perfil. São bonecas em 3D. Apressadas, trazem para o almoço, pendurados no pescoço, os crachás das empresas onde trabalham. Não querem brincar. Alheias a mim, servem-se das batatas e dos tomates, pedem refrigerante zero, riem alto, engolem a refeição, levantam-se, vão embora. O papel delas é outro.

Ser mãe é padecer na praça de alimentação

Foto: R. Maruo
Foto: R. Maruo

Em praça de alimentação pai, mãe, filhos e espírito santo não comungam da mesma hóstia. Um quer isto, o outro, aquilo. Senta para esperar, levanta para buscar o pedido, ao toque de mil buzinas descompassadas. Trezentos e sete. Oitenta e um. Cento e quinze. É a democracia gastronômica na base da senha.

Não raro, o lugar vira praça da alimentação interrompida. Geralmente, por causa de outra senha: a necessidade urgente da cria pequena de fazer número um ou número dois, bem no meio da comida. Semana passada, inaugurei mais um jeito de ficar com fome.

Era sábado e eu estava só com as crianças. Fomos almoçar no shopping, templo das conveniências gerais. Eles escolheram o self-service. Eu fui de risoto. Apaixonei-me pelo do cartaz e quis um igualzinho: arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. Meu apetite não era meramente ilustrativo.

Os pratos deles ficaram prontos em segundos. O meu demorou mais. Enquanto eu continuava famélica, eles se viram saciados. Natural que quisessem partir para a sobremesa. Como sou mãe de dois, razoavelmente crescidos e iniciados no mundo das finanças, nomeei o mais velho fiel depositário de vinte contos a fim de bancar sorvete para ambos. Um pilar e dez metros, não mais, separavam nossa mesa do balcão, atrás de mim. Lá foram. Eu dava uma olhadela, de vez em quando.

Dei a primeira garfada no meu, só meu, risoto de arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. A felicidade vem do mar, meu bem.

Segunda e terceira garfadas. A caçula veio chorando. Contou, aos prantos e em prejudicada narrativa, que o mais velho, dotado do espírito sacana comum aos primogênitos, havia feito não-sei-o-quê, que a fizera cair ao chão e todos à volta haviam visto sua calcinha.

Pousei o garfo. “Querida, acontece. Fica assim, não”. Fiz-lhe um carinho nos longos cabelos castanhos, dei beijinho para sarar (ainda que nada houvesse a ser curado, exceto seu orgulho). “Agora volte lá e compre o sorvete com seu irmão”. Ela foi.

Quarta e quinta garfadas no meu risoto de arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. Segui apreciando cada fruto daquele mar que me concedera tal prazer. Quase pude sentir o aroma da uva que deu origem ao vinho que tudo aquilo envolveu. Minhas narinas – e meu estômago – faziam festa em alto-mar.

Ensaiei a sexta garfada. Problema à vista, Capitã. A caçula voltou. Contou, no mesmo padrão choroso-narrativo, que enquanto ela se queixava comigo da primeira vez, o irmão concluíra que ela não voltaria e resolvera comprar sorvete só para ele.

Mais fácil cuidar de um polvo que de dois bípedes. Ser mãe é padecer praticamente em qualquer lugar.

Recorri à paciência tatuada em meu braço esquerdo. Nem ela, nem o pai, nem o espírito santo para me salvar. Quis fazer como Cronos, que tinha o hábito de engolir seus filhos, assim que nasciam. O deus do tempo fazia isso por medo de que sua cria lhe superasse em poder. Meu motivo seria mais humilde: almoçar em paz.

Pousei o garfo pela segunda vez. “Isso não está certo, meu amor. Eu vou lá com você”. Levantei-me, percorri bufando os dez metros até o balcão, ralhei com o mais velho, certifiquei-me que o sorvete da caçula estava encaminhado e, quarenta segundos depois, eu voltava à mesa.

Tarde demais. A moça da limpeza passou e retirou meu prato, levando dois terços intactos do meu risoto feito com arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco.

Fim.

Porque hoje é sábado

Foto: David W

Não é a vingança, o prato que se come frio. Isso é uma mãe almoçando.

É sábado e ela está feliz. Dormiu vinte e quatro minutos a mais do que normalmente faz de segunda a sexta. O pai está em casa, o que lhe permitirá um banho matinal sem intercorrências, como chamados para acudir filhote de pardal caído do ninho, intermediar uma discussão salomônica acerca da divisão do único biscoito recheado restante no pacote ou apartar um arranca-rabo digno de campeonato UFC, versão kids.

É sábado e ela pede penne com frutos do mar em seu restaurante favorito. Ela saliva e quase baba quando o garçom pousa o prato cor de marfim sobre o sousplat laranja. Sua visão fica ligeiramente turva e ela, numa alucinação, vê a pasta de grano duro fazendo sexo com o vôngole e o camarão, bem ali na sua frente, numa orgia gratinada de fazer inveja.

Ela aguardou aquele momento feito criança que espera pelo presente de Natal, pelo primeiro acampamento, pelo dia de poder andar no banco da frente.

É sábado e o penne, o vôngole, o camarão e até a lula lhe sussurram, “Vem”. E ela, completamente seduzida, diz, “Vou”.

Mas é sábado e o caçula, que mandou bem no café da manhã, anuncia: precisa ir ao banheiro. Ela lança ao pai um olhar de gloriosa superioridade, e em seu sorriso de Mona Lisa esfomeada se lê a legenda: “Sua vez”. O pequeno, chacoalhando na cadeira, detalha: é número dois.

E o pai tem nojo. Um asco ancestral, inexplicável e inegociável. Ela relembra o dia em que ele lhe pediu seu telefone. Um sábado.

A missa é no domingo, mas ela antecipa suas orações e roga que o penne, o vôngole, o camarão, a lula e o raio que o parta permaneçam minimamente aquecidos até sua volta.

A pressa pode ser inimiga da perfeição, mas é amiga da mãe. “Anda logo, Pedro Henrique”.

Mãe e filho retornam à mesa. Ela confere a aparência, textura e, sobretudo, a temperatura do que, há nove minutos, era a mais perfeita tradução do prazer. Não é só pelo leite derramado que se chora, mas pelo macarrão emborrachado e gelado.

É sábado, é tarde, é uma pena e era uma vez um penne. Não há o que fazer. Foi ela quem insistiu para que o menino comesse aveia.

Sobre aparências e enganos

Não sei você. Mas eu descubro se uma lanchonete ou restaurante são limpos pelo tratamento dispensado aos seus galheteiros. Os suportes com pequenos vidros para azeite, vinagre, sal, pimenta. Depois do avental do garçom e da situação da toalete, esse é o termômetro mais confiável da higiene de um lugar.

O local pode ter boa aparência e estar arrumado. “Um brinco”, como diziam as tias (expressão, aliás, que nunca compreendi). Porém, se sobre as mesas avistam-se tais utensílios com vestígios de conteúdo interno do lado de fora, fundidos com toda sorte de substância presente na atmosfera, coisa boa não há de ser. Hei de não me impressionar com as modernas aquarelas decorando as paredes, nem com as antiguidades, harmoniosamente dispostas ao longo de arcais em madeira de lei, tampouco com o elegante jazz a preencher o ambiente. As aparências, nesse caso, não enganam. Melhor não correr risco, nem aceitar o convite impresso para visitar a cozinha. O jeito é sair à francesa e fazer a refeição noutro lugar.

No mesmo banco dos réus estão os remanescentes frascos de maionese, catchup e mostarda. Se sua abertura oferecer resistência, por conta do produto ter se alojado no orifício, ou caso se observe, nas saliências da tampa, fragmentos orgânicos que não têm a ver com os condimentos ali presentes, nada feito. É caso de abandonar a coxinha no meio, abreviar o papo com o x-salada, despedir-se do enroladinho de presunto e queijo. Adiós, muchacho.

Ver por outra, encarno uma obcecada vigilante sanitária e inspeciono os compartimentos daquilo que se candidata a temperar meu almoço. Se for o caso, autuo o galheteiro, sem maiores delongas: “Teje preso!”. E aos estabelecimentos que aposentaram suas galhetas e frascos, potencialmente encardíveis, trocando-os pelos sachês individuais, um aviso: estou de olho nas suspeitíssimas cestinhas que os abrigam.