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Que cor?

esmalte

Nunca antes na história deste país houve tanta cor de esmalte.

Na manicure moderninha os vidrinhos ficam expostos em prateleiras embutidas na parede. Organizados por cor, formam uma hipnotizante escala Pantone e causam-me palpitações. A felicidade tem secagem ultra-rápida, meu bem.

Mamãe quase não fazia as unhas. Além da grana curta para ir ao salão e da absoluta falta de tempo, o trabalho na venda não colaborava. Moer meio quilo de café, fatiar cem gramas de mortadela, pesar um quarto de feijão, lavar dúzias de copos do bar. Mãos que não paravam nem por um minuto. Pra quê enfeitá-las, se não durariam até os fregueses do dia seguinte?

Quando dava, dona Angelina gostava de usar um tal Zazá, espécie de lilás. Às vezes, ia de Misturinha, de tom vago, indefinido. Tudo clarinho, sempre. Nunca a vi com Rebu, o sanguinolento. Lembro da pequena vitrine sobre o balcão na farmácia do Archimedes, achava lindo aqueles vidrinhos todos enfileirados. Mas criança não pintava as unhas, tirante as brincadeiras.

Faço as minhas toda semana, no salão. Um exagero, de acordo com o marido. Incompetência para a automanicure, na minha avaliação. De vez em quando, levo meus próprios esmaltes, compulsivamente colecionados a cada ida à farmácia ou ao supermercado. Assim compenso, eu sei, os flertes proibidos da infância. Guardo-os em uma caixa, e me divirto escolhendo o tom da vez.

A gente deveria poder guardar as mães em vidrinhos, também.

Enquanto lixa minhas unhas, a manicure quer saber: “Que cor você vai passar?”. Como desta vez não trouxe nenhum do meu acervo particular, avalio o círculo cromático disponível e ensaio pedir um que se chama Café, de marrom fechado e profundo. Para relembrar as vezes em que minha mãe chegava em casa à noite, depois do trabalho. Ela me abraçava e eu sentia o cheiro das suas mãos, impregnadas de pó. E cansaço.

Mudo de ideia e, ajeitando minha mão direita sobre a toalhinha branca, anuncio: “Cor de saudade”.

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Crônica de viagem #1 ou Família, a sagrada

sagrada familia tio tomas
Arquivo pessoal

Saio do hotel, estou a pé. Bastam uns quarteirões e eu surjo diante dela – e não ela diante de mim, sejamos humildes. A igreja da Sagrada Família é obra em eterno e santificado progresso. As gruas, incorporadas à paisagem de Barcelona, viraram extensões do projeto original. Ninguém se incomoda com elas, nem os pombos que ali fazem suas titicas. Tampouco Gaudí, dono dos traços, se amofinava com a demora na entrega. Dizem que, a quem lhe questionava sobre os prazos, ele respondia: “Meu cliente não tem pressa”.

Tio Tomás era espanhol, de qual cidade não sei. Casado com a tia Cida, que era irmã de meu pai. Os dois morreram há tempos e, como não tiveram filhos, a história do casal cessou ali, numa espécie de pretérito imperfeito. Não tinha mais ninguém para conjugar a família.

Próximo demais dos barulhos da segunda guerra mundial, ele ficara surdo. Escolhera o Brasil como pátria e era barbeiro da parentada toda. Mesmo quem não o visitasse com essa intenção, saía de sua casa com barba, cabelo e bigode feitos. Ele fazia questão. Hipocondríaco inconfesso, apresentava, orgulhoso, sua extensa farmácia a qualquer um que desse mole. Tocava sanfona, herança que tentou transmitir à afilhada, minha irmã. Mas ela não se interessou. Mais tarde, na faculdade, já órfã de padrinhos, ela aprendeu, dentre tantos, sobre o arquiteto catalão. O da igreja. De um modo ou de outro, a vida dá sempre um jeito de nos entrelaçar.

Apesar de querido, depois que minha tia morreu ninguém na família adotou o tio Tomás. Ele foi ficando de lado. Foram todos cortar cabelo noutro lugar. Ele continuava esperando pelas visitas. Também não tinha pressa. Um dia, não sei de quem partiu a ideia, alguém apareceu e o levou de volta à sua terra natal. Nunca mais o vimos. Foi aqui que ele morreu, nem sei direito quando, nem onde, junto aos seus. Como se os ‘seus’ não fôssemos também nós.

Em Barcelona, vejo meu tio Tomás em todo canto. Nos vovôs que passeiam pelo Parque Güell e nos comerciantes das Ramblas. Nos ruidosos senhores reunidos em charmosos restaurantes, afundando seus churros em espessos chocolates quentes. No exausto homem-estátua da avenida Diagonal. Tenho devaneios em catalão e saudades em português. E desconfio que nossa família, também em eterna construção, nunca foi tão sagrada assim.

Carta para minha tia

Tia

Meu avô sempre dizia, em meio às prosas e sem maldade alguma, que você era meia-irmã dele. Engraçado isso de dividir as pessoas pela metade, conforme o pai e a mãe. Ser meio-irmão é como ser meia-pessoa. Que teria sentido se fosse feito só de pai ou só de mãe. Mais ou menos como, dizem, aconteceu com Jesus. Não foi assim com você.

Nunca me disseram, no entanto, que você era minha meia-tia. Tampouco você me tinha como meia-sobrinha. Para mim, você era tia inteira. Que telefonava de vez em quando só para saber se a gente estava bem. Que usava vestido com calça comprida, onde quer que fosse. A estranha combinação ficou sendo a sua marca registrada. Mal sabia você que isso viraria moda. Eu deveria ter prestado mais atenção em você, tia.

Eu também deveria ter sido uma pessoa menos atarefada. Menos atrasada. E daquela vez, com razão, mais apressada. Daquela vez, recebi um recado seu, pedindo que eu fosse à sua casa. Você queria conhecer minha filha, que acabara de nascer, para dar a ela um presente: uma roupinha nova. E eu não fui, tia. Não fui. Poucos meses depois, você que se foi. O verbo ir é mesmo cheio de sutilezas.

Vocês duas acabaram não se conhecendo. Nina não recebeu seu presente, certamente embrulhado com papel celofane cor-de-rosa e fitinha enrolada em espiral. Roupinha de bebê, quando é para presente, deixa de ser só roupinha para o bebê. Vira abraço. Presente, quando não é dado, vira nuvem. E o vento leva.

Obrigada pelo presente, tia. Ainda que tarde. Um dia, eu aprendo a fazer as coisas direito. Ou por inteiro.

Saudades,

A blusa da minha mãe

Arquivo pessoal

De vez em quando é bom passar um tempo com quem já partiu. No Dia dos Pais eu vesti o colete que fora do meu avô. Na semana seguinte, enquanto eu procurava no meu armário o que usar, bati os olhos em uma roupa. E senti saudades da minha mãe. Meu avô sempre dizia que não era certo filho ir primeiro que pai. Um dia ele viveu aquilo que não concordava.

Dona Angelina fazia umas panquecas que eu nunca vi igual. A coisa mais simples do planeta: uma em cima da outra, muito molho de tomate. Só. Sem recheios nem firulas. Uma torre de panquecas. Construída aos poucos, no calor da velha frigideira cheia de furinhos em relevo que eu jamais soube onde foi parar.

Sempre tive dificuldade para pensar na minha mãe como uma jovem dos anos sessenta, onde quase tudo parecia estar em ebulição – música, comportamento, política. Dona Angelina era dona de casa exemplar. Dois filhos, mais eu chegando no finalzinho da década. Mamãe não fervia. (Ou fervia. E eu preferi acreditar no contrário.)

Por aqueles anos, ela foi madrinha de um casamento. Eu nem era nascida. Ela, que nunca teve dinheiro sobrando, foi esperta: investiu em algo que usaria depois. Comprou um conjunto, espécie de tailleur, na Prelude (chique, na época). Vermelho, num suave xadrez com preto e azul marinho. Ela só não imaginava que a aquisição fosse render tanto.

Quarenta e cinco anos (estimados) depois daquele casamento, apanho do cabide o que guardei daquele conjunto: a blusa com o casaqueto. A etiqueta ainda está lá, amarelada e puída. Mas o poodle, marca da confecção, continua empertigado em seus pompons. Digo bom dia ao totó, visto a blusa e vamos, mamãe e eu.

Ela me dá o braço e vai contando, com certa pena, que a saia do conjunto, de tão usada, não sobreviveu. Disse estar espantada como a peça combina comigo, ela pensava que éramos mulheres bem diferentes. Mamãe, às vezes, acha que eu deveria ferver menos.

Pergunto como vai a vida do lado de lá. Ela olha para o céu, em seguida para o chão. Desvia da fila indiana de formigas e me conta (de novo) a história de um tio que desdenhou dela ao vê-la, muito criança, em frente a um formigueiro, caprichando no plural: “Quantas formiguinhas!”. Só para se divertir, ele mandou que ela colocasse a mão ali. Ela obedeceu. E as formigas não tiveram dó.

Rimos mais uma vez e nos despedimos com um beijo, como sempre. Antes de ir ela me lembrou: aquela blusa não deve secar ao sol.

Álbum de família, ainda sem mim. As crianças: meus irmãos. Exceto o garoto da esquerda, que eu não sei quem é.