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O tapa

Foto: Mathew Wilson
Foto: Mathew Wilson

O primeiro – e único – tapa que levei da minha mãe é tão antigo e vivo quanto a falta que ela me faz.

Ela fazia tricô para fora, como se dizia. Ou era o contrário. Porque vinha de fora para dentro de casa o dinheiro que ela recebia em troca dos casaquinhos de bebê, sapatinhos e mantas tricotados à máquina. E para dentro dela, também, os elogios que recebia, ficava tudo bonito. Nenhum trabalho é para fora, acabo de descobrir.

Um dia, eu quis ajudá-la. Adiantaria aquela encomenda. Um macacãozinho, talvez? Aproveitei uma saída sua do quarto, que fazia as vezes de ateliê. Sentei-me de joelhos em sua cadeira, alta para mim, e arregacei as mangas. Parecia não haver segredo. No entanto, antigamente as máquinas de tricô não eram como as de hoje. Na Lanofix verde da minha mãe, uma única carreira exigia várias manobras, num processo lento e delicado (mais rápido, porém, que o tricô feito à mão). Passa o carro para a direita, ajeita aqui e ali, tira o pente com os pontos, encaixa o pente de volta, passa o carro para a esquerda. (‘Carro’, para quem nunca tricotou numa máquina, é aquela peça que vai de um lado para o outro, tecendo a malha.) Determinada em minha intenção, me pus a trabalhar. Não dei bola para nenhuma das etapas. Tudo que fiz foi levar o carro para lá e para cá. Não estava ficando muito bonito. Mas minha mãe sempre dizia que, no começo, não dá para ver direito como a peça vai ficar. Continuei. Carro para cá, carro para lá, que coisa mais fácil tricotar! Eu também poderia começar a ganhar meu próprio dinheiro, por que não? O carro para lá e para cá. Poderíamos compartilhar a máquina, mamãe e eu, enquanto eu não comprasse a minha própria. Será que vendem para meninas de cinco anos? O carro para cá e para lá. A malha continuava meio esquisita, mas ela tinha falado, no começo é assim. E o carro para lá e para cá. Ela voltou ao quarto, um grito. Eu não entendi nada, mas ela sim: a encomenda tinha ido para o brejo.

Foi um só, e bem dado. Não lembro onde pegou. Corri para o banheiro, me tranquei. Ela veio atrás. Pediu para eu abrir a porta, não abri. Ficamos assim: eu chorando do lado de dentro, ela chorando do lado de fora. Fosse ópera, seria acompanhada de uma tristonha sinfonia. Fosse cinema, usariam aquelas câmeras suspensas e, como se houvessem arrancado o telhado da casa, mostrariam a cena lá de cima: uma fina porta a separar mãe e filha. O meu choro, dos olhos para fora, não era de dor, e sim de incompreensão. Tapas doem mais pelo que representam que pelo que são. O dela, banhado em remorso, vinha de fora para dentro de seus olhos. Tal o verdadeiro sentido do tricô fabricado para as vizinhas e a parentela. Aquele, que eu falei no começo.

A mão viu no tapa a solução para o que ela, a mãe, não soube resolver na hora. A mão viu a noite passada em claro, consertando o estrago. A mão viu a freguesa cobrando a encomenda. A mão viu (previu) o que os olhos não viram. A mãe, cega, obedeceu à mão. E elas, mãe e mão, eram tão doces.

Não tenho a quem perguntar como a história terminou, então rio sozinha. Não sei onde está a velha Lanofix, perdeu-se nas mudanças. Encontrei-a por acaso no meio das lembranças, encaixotadas em meu porão particular.

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Roupa de bolinha ou com bolinha?

Foto: Dhyane Mendes
Foto: Dhyane Mendes
 

Bolinha é comigo mesmo. Meia de bolinhas, blusa, bolsa, lenço, sapato, caixa, anel, xícara, caderno, papel de presente. Poás me fascinam. Embora, talvez, não desde sempre. Conta a lenda que, certa vez, ao ser presenteada com uma cacharrel azul marinho de bolinhas brancas, eu teria sido enfática: Não vou usar. E o presente foi habitar outro guarda-roupa. Como não me recordo do episódio, a ponto de considerá-lo improvável, costumo negá-lo com veemência.

Já outra ‘bolinha’, aquela que, sem qualquer alvará, se instala nas roupas na terceira vez que são usadas, deixando-as com jeitão de pijama velho, definitivamente, não é comigo. Não deveria ser assim.

Antigamente, os objetos eram passados de geração em geração. Quanto mais sinais de uso, melhor. Era motivo de orgulho e respeito exibir na sala de estar o baú de jacarandá que fora do avô, que por sua vez havia pertencido à bisavó. O valor estava justamente nas marcas do tempo, impressas nele como tatuagem: a pátina.

Guardamos, quando muito, uma coisa ou outra dos antepassados. Nosso jeito de viver ficou breve, imediato, urgente. E sem muito espaço em casa. Sem falar que, hoje, se “cria” pátina da noite pro dia. Dá para jurar que aquela cadeira fabricada há um mês tem cento e cinquenta anos.

Pátina de gente também é bonita. Ela atesta que a vida foi vivida. E que cada linha do rosto, das mãos e do corpo viu tudo. Rugas são as ‘bolinhas’ do corpo.

Mas se para as roupas as ‘bolinhas’ são uma espécie de pátina, por que é então que elas não têm o menor charme? É de lascar quando elas surgem numa malha de lã, de um inverno para o outro. Mesmo que seja lavada à mão e centrifugada um tiquinho só. Um dia você nota algumas perto dos cotovelos. Mas não dá muita bola (ops). Basta algum tempinho e elas já se reproduziram. Quando você percebe, tomaram conta de tudo. E a malha vira roupa de dormir com os gatos no sofá, num sábado à tarde. Usá-la para jantar com aquele moço novo da pós-graduação, nem pensar. Aliás, as malhas dele, você já reparou, não têm bolinha. Assim como a grama do vizinho é sempre mais verde, as malhas dos outros são sempre mais lisinhas.

A saída para acabar com as danadas é armar-se com uma lâmina de barbear ou um papa-bolinhas, aquele aparelhinho exterminador que não deixa uma sequer para contar história. Ouvi dizer que alguns fabricantes de roupas já colocam na etiqueta a informação de que, com o uso, num processo natural, elas aparecerão.

Quem avisa, amigo é.