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O nome da minha mãe

Ilustração: Juliana Cassab

De criança, eu não achava o nome da minha mãe bonito. Angelina. Achava-o levemente feio, sonoramente estranho. O problema, acredito, era o ina, que lembrava aspirina, vaselina, gelatina.

Certo dia, na escola, um menino perguntou o nome dela. Com vergonha, inventei, “É Angela”. Senti-me mal com aquilo, então emendei: “Mas todo mundo chama de Angelina”. Como se, sendo apelido e espécie de diminutivo, a coisa amenizasse.

Angela era bem mais lindo. Uma proparoxítona forte e, ao mesmo tempo, doce. O lance direto com o universo angelical. Além disso, tinha a Angela Maria, baita cantora. A Angela Ro Ro. Não havia naquela época, que eu soubesse, nenhuma Angelina importante ou famosa. Personagem da História, atriz de novela, nada. A Angelina Jolie era apenas uma bebê beiçuda.

Jamais contei o episódio da escola para minha mãe. Talvez ela achasse graça, talvez não. Para que correr o risco? Esta é a primeira vez que escrevo sobre. Se existe a internet dos mundos e a conexão for boa, ela vai ler. Talvez ache graça, talvez não. Agora eu corro, confiante, o risco.

Levou tempo para eu simpatizar com o nome. No colégio, já não lhe inventava nomes. O som, An-ge-li-na, começou, inclusive, a me agradar. Gosto é gosto, e ele muda. Passei a apreciá-lo. Tanto que o incluí na lista de nomes para minha filha. “Que tal Angelina, pra homenagear a avó?”, propus, no quinto mês de gravidez. Não houve adesão. Não que achassem feio. Acabei – coisas da vida – sugerindo Nina. Que ganhou. Então, “ina” não consistia mais em problema? Eu, definitivamente, estava em paz com o nome dela. De algum modo, sei que ela sabe. Na vila dos anjos também se comemora o Dia das Mães?

Pudesse, reencontraria o garoto da escola e explicaria tudo.

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Uma letra

letra-c

Precisei trocar meu e-mail.

E silmarafranco@ já tinha dona. A homônima chegara antes de mim. Tentei inverter, francosilmara. Também já tinha. Só as iniciais? Também não deu. Como é gratuito, e cavalo dado não se olha os dentes, não houve muito o que fazer. Não teve ponto, underline ou hífen que resolvesse. A sugestão do programa foi acrescentar números ao nome. Não tenho simpatia por endereço eletrônico alfanumérico, fica parecendo senha. Silmara Franco 49, para combinar com a idade? Silmara Franco 2017, inaugurando o ano novo? Não faria bonito no cartão de visitas. No desespero, dobrei uma letra do meu sobrenome, que passou a ter dois cês.

Ficou ridículo.

Meus antepassados devem estar fazendo panelaço em seus túmulos. Alterei a dinastia, rompi a herança. A Franco diferentona. A metida a besta.

E ainda compliquei a vida: cada vez que vou dar o endereço, preciso avisar, “Com dois cês”. Os que já me conhecem ficam surpresos, “Não sabia que era assim!”. Conto a história. Explicar e-mail, tatuagem e piada é o fim. E tem sempre alguém que pergunta se foi por causa da numerologia.

Por que não? Quem sabe, concluo que um C a mais fará toda diferença. Que era isso que faltava para eu vencer na vida, ser uma pessoa melhor, atrair coisas boas, nunca mais pegar nem gripe. Por outro lado, posso descobrir o motivo para andar distraída, esquecendo as coisas, perdendo compromissos. Será melhor trocar o i por y? Sylmara.

Sei que é bobagem. Endereço de e-mail é como número de telefone hoje: ninguém mais presta atenção ou decora o telefone das pessoas. É só tocar no nome na agenda eletrônica, ou dizê-lo em voz alta que o aparelho faz a chamada sozinho. Ou seja, ninguém, efetivamente, vai reparar nos dois cês; meu nome de remetente/destinatário permanecerá o original de batismo. Sei disso.

Cogitei enviar e-mails para minha(s) xará(s) e barganhar. Pagar para ter um domínio exclusivo. Inventar pseudônimo.

O que uma letrinha não faz com a gente.

De onde?

arte: René Nijman
arte: René Nijman

– Bom dia. Posso falar com o Fernando?

– Quem gostaria?

– Silmara.

– Silmara de onde?

– De São Paulo. Da Mooca, para ser mais exata. Da barriga da Angelina, casada com o Tonico, meu pai. Nasci na Beneficência Portuguesa, ali no Paraíso. Foi um Deus-nos-acuda naquele hospital, eu não queria saber de nascer, dá-lhe fórceps, vim toda roxinha, não chorava, minha mãe achou que eu tinha morrido e quem chorou foi ela. Mas não morri, e outro dia mesmo estava pensando: sou muito durável. Veja só, tenho quarenta e sete anos. São quarenta e sete anos respirando, sem parar. Inspiro, expiro, inspiro, expiro. Ando pra lá e pra cá, faço isso, faço aquilo, subo, desço, durmo, acordo. Já me machuquei muito quando era criança, rasguei tornozelo andando de skate, cortei o dedo na máquina de frios, tenho a cicatriz até hoje. Bati o carro feio uma vez, engavetei no Minhocão, tive de fazer B.O. de pijama, quem manda dirigir de pijama? Tive sarampo, um febrão que me dava alucinações, via gente pelo quarto, números gigantes flutuando. E tive catapora, estomatite, dez injeções de Benzetacil na bunda, tem noção?, cólica renal em pleno shopping, perdi o jeans da promoção. Pneumonia, gastrite, insolação, devo ter cruzado com muito bandido por aí e nem fiquei sabendo, graças a Deus, quer dizer, fiquei sabendo em duas vezes. E continuo aqui, não é uma coisa incrível? Nunca que um raio caiu na minha cabeça, nunca fui atropelada, nunca quebrei nada. Acredita que meu sonho, quando pequena, era quebrar o braço? Achava lindo quem ficava de gesso, os colegas da escola assinando naquele gesso encardido. Uma vez, fui sozinha na casa de material de construção, comprei gesso e engessei meu braço, improvisei tipoia, fingi o sofrimento. Quando minha mãe chegou em casa levou aquele susto, mas logo sacou, eu fingia mal. Quarenta e sete anos e nenhuma fratura, nenhum osso trincado, nem luxação. Devo ser inquebrável. A inquebrável de São Paulo, da Beneficência Portuguesa. Eu não sou portuguesa, nem descendente. Quarta geração de italianos, precisava tanto ir atrás da cidadania. Sou, de certa forma, da Itália. E da Mooca, da Angelina e do Tonico. Isso para ficar só nesta vida; se você me perguntar de onde, mas de onde mesmo eu sou, espiritualmente falando, só fazendo regressão. Será que sempre estive flanando neste planeta, ou será que já passei por outro? Silmara, de Júpiter. Silmara, de Saturno. Sabia que não é só Saturno que tem anéis? Aprendi com meu filho, ele foi ao planetário. Estou brincando, não sou de Júpiter, nem Saturno. Sou da Terra, mesmo, e de São Paulo, estou em Campinas há uma década, sou praticamente campineira. Morei em outro país, também. Um frio do cão. Aliás, por que se diz “frio do cão”? Ficaria melhor “frio do urso polar”. Então, na verdade, sou de um monte de lugares, dependendo da época, de qual época você quer saber? Sem contar, como falei, dos outros planetas por onde posso ter passado. Está certo, ‘posso ter passado’? Três verbos na mesma oração fica bem esquisito. Sabe, eu escrevo, mas tem horas que dá um branco. Pois bem, sou meio que da Itália e de outro país onde faz um frio do urso polar, de São Paulo, da Mooca, da Beneficência Portuguesa, da Angelina e do Tonico, de Campinas, esquece isso de Júpiter, senão o Fernando não me atende. Aliás, ele está?

– Um instantinho. Vou transferir.

– Obrigada, bom dia. – Fernando?

O nome da gente, parte 2

Arte: Marie
Arte: Marie

Nina vira e diz: “Mãe, sabe como eu gostaria de me chamar?”. E desfila uma longa lista de nomes que ela julga bonitos. Renata, Gabriela, Lorena, Rafaela, Manuela, Flavia. Não por acaso, os nomes das amigas. Não tem Nina na lista encantada. Ela não gosta de seu nome, deixou claro. Penso, mas não falo: “Um dia, você vai gostar”. A gente não desiste de querer mudar as pessoas.

Escolher nome de filho é uma responsabilidade cruel. Decidir a palavra-própria que o acompanhará pelo resto da vida, a que vai representá-lo perante o mundo, a que timbrará seus documentos, da certidão de nascimento à de óbito, é tarefa séria. E nem sempre pai e mãe acertam o gosto do filho. Fazer o quê.

Nina foi ideia minha. Era uma das opções de uma imensa lista desenvolvida em família. Infelizmente, não tivemos acesso à lista da Nina a tempo.

Até os quinze anos, todo mundo deveria se chamar ‘Pessoa’. Só então, a ‘Pessoa’ escolheria seu nome definitivo. Quinze é uma boa idade; o risco de uma escolha por impulso (nome de jogador do São Paulo, atriz da Chiquititas) é, em tese, reduzido. Deveria ser processo simples, inclusive, a mudança de nome. Que é possível perante a lei, mas o interessado tem de percorrer um caminho tão longo, tão deserto, que desiste. Não fosse isso, seria comum o diálogo:

– Oi, Maria!

– Oi, Raquel! Mas ó, não sou mais Maria. Sou Beatriz desde 2009.

– Bacana! Eu também mudei, agora sou Abigail.

– Ficou lindo! Me conta, você tem notícias do Henrique?

– Qual Henrique? O ex-Marcos?

– Ih.

O gosto – ou desgosto – por um nome é construído. Não basta a beleza do som ou da grafia; é uma afeição moldável e depende do contexto sócio-econômico-cultural-folclórico-planetário. Osama, por exemplo, há de ser rejeitado pelos povos ocidentais ainda por algumas eras. Por aqui, ninguém mais deve ter sido batizado Bráulio, depois de 1995. (Para quem não lembra ou não sabe, o Google pode ajudar. Palavras-chave: órgão – genital – masculino.)

Não me recordo de ter confessado algo parecido à minha mãe, a respeito do meu nome, quando criança. Nunca fui apaixonada por ele, é fato. Apenas resignei-me. E também tive minhas fantasias infantis. Já quis ser Noeli – personagem da novela Bandeira 2, que passou na Globo em 1971. Considerei melhor guardar o desejo para mim, ela poderia ficar magoada. Até porque, o desejo passou (eu ainda não tinha quinze anos).

Se há algum significado do nome Nina, a sinceridade deve estar na relação de características. Não deixa de ser uma coisa bacana.

[Nota: a parte 1 está aqui.]

E agora, José?

Arte: Filipe Saraiva
Arte: Filipe Saraiva

Ando preocupada com José. José sumiu. Foi embora. Ninguém mais batiza em sua lembrança. É nome em extinção. João até que tem se virado bem. Que será que houve com a humanidade brasileira? Não será mais ele – o carpinteiro, companheiro de Maria – assim tão bonito para o RG?

Na praça de alimentação do shopping há uma mãe tentando convencer o Artur a comer a escarola. Na sala de espera do pediatra tem sempre um Gabriel mais danadinho, dando cambalhota na poltrona. E a lista de chamada do maternal lança mão dos sobrenomes para identificar tantos Enzos. O Zezinho, quedê? Faltou.

De eras em eras a moda ressuscita velhos nomes para novos bebês. É um tal de Joaquim, Valentina e Tomás em porta de quarto nas maternidades. Só o José não dá mais o ar da graça nas certidões. Até o Luís ressurge, sempre ao lado do Eduardo ou do Felipe ou do Henrique. O José, coitado. Nem só, nem acompanhado. Acabou.

José é dos poucos que não causam confusão na hora de escrever, posto que a ele não cabe variação. Facilita a vida em seu minimalismo sonoro, combina com os outros, é da paz. E acordo ortográfico nenhum, nem em mil anos, há de derrubar seu acento. A razão do seu declínio é uma incógnita contemporânea, uma charada nominal.

Volta, Zé! As Marias, ainda que Eduardas ou Fernandas, precisam de você.

O mundo também.

O nome do meio

Foto: Jeff Belmonte/Flickr.com

A mulher com tatuagem de beija-flor preenchia o cupom para concorrer a uma viagem a Nova York. Espichei o olhar, gosto de ver a letra das pessoas. Ela escreveu seu nome completo, mas abreviou o do meio. E lá ficou o “M”, grudado num ponto bobo. Espremido entre o primeiro e o último nome. Maiúsculo, porém menor que tudo. Mudo. Morto.

Poderia ser de Maria, para homenagear a mãe de todos e conferir certa santidade à dona do nome. Mas tinha era jeitão de sobrenome. Martins, Miragaia, Medeiros, Mota, Miller, Mascarenhas, Macedo, Machado, Maciel, Miranda, Menezes. Brinquei de adivinhar qual seria a dinastia escondida ali.

Herdado da mãe, o sobrenome do meio, quase sempre, é como zero à esquerda. Quando muito, é publicado por extenso na certidão de nascimento. Nos primeiros anos de vida ele ainda tem alguma força. Álbum do bebê, ficha do pediatra, carteira de vacinação. Aos poucos, porém, ele começará a desaparecer. E na etiqueta do material escolar ele já estará abreviado, mutilado. Ou simplesmente omitido. Economizando tempo, espaço e tinta de caneta ou cartucho. Apagando, lentamente, as pegadas dos antepassados maternos. Calando, para sempre, a voz de seus ancestrais.

Sempre vi, em quem comemora mais efusivamente o nascimento de filho homem, um traço de machismo encardido. Um dia entendi que não é apenas isso. Para muitos, ele é a garantia de perpetuação do sobrenome. Ele nomeará os descendentes, que carregarão a marca da família adiante através dos tempos. Até que uma filha mulher interrompa esse ciclo.

Sobrenome do meio é que nem bicho em extinção. Com uma feroz desvantagem: ao contrário do tamanduá-bandeira, da arara-azul, do tatu-canastra, e até do beija-flor no ombro da mulher que queria voar para NY, nada pode ser feito. A cada ninhada de gente, a cada geração, ele se enfraquecerá. Por causa das fêmeas que, na maioria dos povos, não conseguem levá-lo adiante.

E quem liga?

O nome da gente

Foto: Rakka/Flickr.com

Nome é como tatuagem. Parte indissociável de nós, não sai mais. Tenho nome, logo, existo. Dizem que escolhemos nosso nome antes mesmo de nascer, aqueles papos transcendentais. Mas isso é outra história.

O meu é Silmara. Conta a lenda que Seu Antonio e Dona Angelina planejaram os nomes dos filhos que pretendiam ter: se menino, Marcos. Se menina: Marcia e Mônica. Tudo com ême para ficar bem bonito. Eu seria a Mônica. (Não sei se fiquei sugestionada com a história ouvida na infância, mas até hoje esse nome é muito familiar. Combinaria comigo, com meu sobrenome. Questões transcendentais, quem sabe.)

Mas uma tia próxima teve seu filho um pouco antes e o plano foi por água abaixo: o primo foi batizado Marcos. Frustrados, meus pais resolveram mudar tudo. Adeus, Mônica.

Para ser sincera (meu sobrenome não deixa outra alternativa), não vejo muita graça no meu nome. Às vezes me pego pensando na possibilidade do passado, não fosse a tia. Nunca vejo meu nome naquelas listas imensas de nomes para bebês. Já li tantos significados diferentes, que concluí: ele não significa nada. Foi inventado. E ele também já foi motivo para uma, digamos, saia justa.

Quando criança, eu gostava de brincar, secretamente, que tinha outro nome. Havia uma personagem de novela chamada Noeli. Esse nome sim, para mim era transcendental: No-e-li. Fiquei tempos desejando me chamar Noeli. Em vez de um nome próprio, eu queria um emprestado. Pois não havia, no mundo inteiro, nome mais lindo. Mas a gente cresce.

Nomes nos acompanham a vida inteira, feito alma. São a marca indelével de nossa passagem por este planeta. Podem indicar de onde viemos. E também podem enganar meio mundo. O nome de um dos maiores gênios da música popular brasileira, o violonista Baden Powell, já me pôs encafifada. Não tem muito tempo que descobri: brasileiríssimo, e carioca. Resultado da obsessão de seu pai pelo general Robert Baden-Powell, fundador do escotismo. Ficou Baden-Powell de Aquino. Não preciso ir muito longe. Cresci chamando um tio de Paulo. Já adulta, descobri que seu nome é Francisco. Coisas dos Franco.

O assunto é vastíssimo. Dar nome aos bois não é nada fácil. Tem os nomes esquisitos por definição, bizarrices perpetuadas pelos cartórios. Tem os nomes curiosos. Tem os apelidos, tema que dá pano não só para manga, mas para um traje completo. Tem gente que muda de nome, papel passado e tudo. Tem os sobrenomes, espécie de pai e mãe do nome. Tem os pseudônimos. É assunto que não acaba mais. E sobre ele todo mundo tem uma boa história para contar.

É uma da manhã, despeço-me em nome de Morfeu, deus grego dos sonhos. Duvido que ele goste de seu nome.