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Fantasia de gato

gato-carnaval
ilustração: Jeff Haynie

Eu tinha doze anos. Costumava ir com meu pai buscar minha irmã na casa da amiga dela, à noite, depois do colégio.

É verdade que não íamos só meu pai e eu. Led, um frajolão digno de desenho animado, ia junto. Até que ele gostava de passear de carro. Se não gostava, disfarçava bem. Gato é bom na arte do disfarce.

Então íamos eu, meu pai e o gato fantasiado. É, fantasiado. Com tempo livre de sobra, eu inventava adereços para o bichano, especialmente para recepcionar minha irmã. Um dia, ele surgia com enormes óculos recortados em papelão. No outro, em um colete colorido feito com tecido, fitas e o que mais estivesse dando sopa na caixinha de costura da minha mãe. Se as pessoas se fantasiam de gato, eu tinha um gato fantasiado de gente.

Às vezes, confesso que notava alguma resistência dele em topar a brincadeira. Noutras, parecia até gostar. Talvez apenas se resignasse. Gato também é bom nisso. Mas só quando não tem outro jeito. Sabedoria felina.

Minha irmã jura que houve um dia em que ele foi de bailarino. Não me lembro. Só sei que para o Led era carnaval o ano inteiro – ao menos durante o período letivo. Logo ele, que ganhara esse nome em homenagem a uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Led Zeppelin. (Originalmente, por impulso, escrevi a ‘maior banda’. Mas assim que digitei ‘tempos’, já havia achado uma injustiça com as outras. Corrigido está.)

À tarde, quando voltava das minhas aulas, eu me dedicava a criar as fantasias. Era raro repeti-las. Os amigos da minha irmã, que também ficavam por ali, na casa da amiga, aguardavam ansiosos a chegada do carnavalesco peludo. “Como será que seu gato vem hoje?”.

Minha irmã terminou o colégio, a carona noturna acabou. Acabou também a brincadeira. E o pequeno folião nunca mais vestiu fantasia. Alguns anos depois, ele se foi. Uma pena não termos registrado nem uma das produções. Tirar fotografia, naquela época, era só de vez em quando, nos casamentos, aniversários, viagens. Comprar o filme, bater as fotos, mandar o filme revelar na Fotobom (ficava a dois quarteirões de casa e o dono era um japonês simpático), buscar na outra semana. Como sobrevivemos à espera, quase uma eternidade, para ver como havia ficado uma foto?

O Led fantasiado seria, fácil, fácil, um gato-celebridade do Instagram. Antigamente, rede social era só a família, a parentada, os amigos da rua e da escola. E ele tinha mais de dez seguidores! Nós de casa (menos minha avó, que não gostava de gato) e os amigos da minha irmã. Hoje? Um milhão, estimo. A admiração ficou hiperbólica. Seu avesso também.

Temos, agora, um imenso inventário imagético virtual de tudo. Teremos, no futuro, mais e melhores lembranças do que hoje? Será a nostalgia mais rica quando, daqui vinte anos, nos depararmos com imagens do aqui e agora, das besteirinhas do dia-a-dia que a gente vai clicando a esmo?

Como será a saudade no futuro, com um presente hiper-registrado?

Tenho saudade dos gatos que viveram comigo desde que cheguei a este mundo. Foram tantos, tantos.

Vou construindo mentalmente meu vasto inventário gatístico, e boto na vitrola a melhor trilha para um carnaval: Black Dog, do Zeppelin. Só para provocar o cat que dorme na cadeira ao meu lado. Que não é o Led, mas bem pode ser, por conta das idas e vindas das almas ronronantes neste planeta. Não dizem que os gatos sempre sabem voltar para casa?

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Se a minha mãe tivesse Facebook

facebook

Se a minha mãe tivesse Facebook quando eu era criança, não sei se ela seria do tipo que tudo publica acerca de seus rebentos. As fofices, as traquinagens, as frases engraçadinhas, as caretas, as dores, as delícias. Minha mãe era do tipo reservada. Mas quem resiste?

Considerando que a internet estivesse a todo vapor nos anos 70, imaginei a timeline da dona Angelina.

Em uma tarde de 1971, entre uma receita de cuscuz e uma mensagem do Chico Xavier, ela postaria que, para conseguir me fazer almoçar naquele dia, fora me seguindo da cozinha até o portão da vila onde morávamos. Eu, quatro anos, não queria comer. E, com a estratégia, eu ia passeando, ela ia me distraindo e eu papava tudo. Minutos depois choveriam os comentários das amigas, marcando a polaridade das opiniões: “Que absurdo!”, “Que gracinha!”. Ela me proibiria de zanzar durante as refeições ou não, conforme o que lesse?

Noutro dia, faria um post-desabafo contando que, em um momento de descuido seu, eu, aos cinco, assumira o controle da velha Lanofix e simplesmente arruinara a encomenda de tricô que ela preparava, e lhe garantiria alguns trocados no final do mês. Nos comentários, a torcida para que ela conseguisse recuperar o tempo perdido, tudo ia dar certo, calma. O apoio lhe daria ânimo para recomeçar do zero?

Ela também postaria, a título de diversão, que eu, aos sete e na intenção de imitá-la, coloquei um absorvente – o velho Modess, que nem de longe lembra os ultrafinos de hoje – e saí na rua, feliz da vida, desfilando o duvidoso volume na calça. Finalizaria o post com kkkkk. Emojis boquiabertos ilustrariam o feedback?

Só não sei se publicaria, num dezembro de vacas magras, que meu presente de Papai Noel fora um xampu Johnson’s (bem mais caro e raro que o Colorama – lanolina ou ovo – de todo dia). Mas era do grandão. Afinal, era Natal.

Ademais, ela rechearia sua página com fotografias de flores e das suas bordações, vídeos de valsas, truques para limpar manchas de molho de tomate, indignações a respeito do Led Zeppelin (“Mas isso é música?”).

Só sei que se a minha mãe tivesse Facebook, eu a seguiria por toda vida.

Saudade é a linha do tempo que não volta mais.

Te amo, Caetano

Arte: Lu Arembepe

São dezoito minutos do dia novo. Eu ainda estou no dia velho, conectada às manchetes de ontem. Como um marinheiro atraído pelo canto da sereia, sigo hipnotizada pelo noticiário on-line dos quatro cantos, de todos os santos. Estou diante da minha infinita banca de infindáveis revistas. Sabe quem lê tanta notícia, Caetano? Eu.

Aprendo sete dicas de linguagem corporal para quem faz apresentações. Mas eu não tenho nenhuma apresentação em vista.

Confiro cinquenta e três famosos sem Photoshop. Concedo meu palpite mental a cada um. Gisele é Gisele.

Tenho insights a respeito da vida, da Dilma e do aspartame nos refrigerantes. Todos os assuntos se amalgamam na rede.

Respondo doze mensagens e mantenho uma no rascunho, preciso pensar. Olho de soslaio o spam, avisto: “Como enlouquecer um homem”. Já faço isso, meu bem. Basta eu levar o tablet para cama e ficar navegando pela tudosfera.

Deixo comentário em cinco postagens. Em outra, penso, mas não escrevo. Me encho de preguiça.

Curto outras doze. Na décima segunda, já não me lembro mais o que curti na primeira.

Volto a um dos comentários que fiz, edito. Assim fica melhor.

Assisto pela quinta vez o vídeo de duas ex-elefantas de circo, amicíssimas, que não se viam há vinte e dois anos. Não tenho lenço à mão; meu documento diz que eu choro à toa.

E o avião da Malásia, hein?

Ouço duas músicas antigas (não caetanas) e sinto saudade. O Google facilita a nostalgia.

A semana teve dentes, pernas, bandeiras e uma ameaça de bomba que fechou a sede do Facebook, na California. A Brigitte Bardot está no Twitter, Caetano.

Bocejo, mas não me rendo.

Há um artigo recomendado para mim. Para mim! O título diz que nós, pessoas, não precisamos escovar os dentes. Não lerei o resto e a informação residual que acompanhará meus sonhos é: não preciso mais escovar os dentes. Alegria, alegria.

Vejo imagem de uma macarronada, clico no modo de fazer. Estou sem fome, mas com telefone, no coração do Brasil.

Fico triste, Paulo Goulart morreu. Fico alegre, a cachorrinha de três patas foi adotada por uma família de Nova Iguaçu. Fiquei bipolar depois da internet.

Confiro vinte e duas notificações. Esqueci de notificar as crianças sobre as toalhas molhadas no chão. Lembro de três coisas que não posso deixar de fazer assim que amanhecer. Na falta de caneta e papel, escrevo para mim mesma no Messenger. Logo aparece: “visualizada”. Posso ficar tranquila; eu vi meu recado.

Bocejo, desta vez me rendo. Caetano, eu vou dormir.

Por que não? Por que não?

Crônica de minuto para quem não joga Candy Crush

Eu não jogo Dragon City, Subway Surfers, FarmVille, Angry Birds Friends, Criminal Case, Fruit Ninja Frenzy, nem Papa Pear. Pet Rescue? Já jogo na vida real. A única coisa que o Candy Crush me faz pensar é em Fanta. Não faço coro à imensa maioria das Causes. Também não compareci a nenhum dos 94 eventos para os quais fui convidada, virtualmente, no último semestre. Sou praticamente uma marginal online, a chata digital que não quer brincar de nada.

O velho vício em jogos agora vem acompanhado de uma nova adicção: enviar solicitações para Deus e o mundo nas redes sociais. O viciado, em breve, contará com uma inédita modalidade de grupo de ajuda: a dos dependentes públicos, já que de anônimos não têm nada.

Declino todos os convites que recebo no Facebook e nem fico constrangida por não dar satisfação. Talvez seja esse meu jogo favorito. Mas sei: não foi assim que mamãe ensinou. Quando alguém chamava, “Quer brincar de esconde-esconde?”, e eu não queria, tinha que, ao menos, dizer o porquê. Agora não tenho mais.

De carona

Arte: Dave Whittaker

– Como eu chego no Balão da Caixa D’Água?

O rapaz aparentava dezesseis anos. O cansaço em seu rosto entregava a longa caminhada. Skate e capacete sob o braço, camiseta de time. Não me pergunte qual, os únicos que sou capaz de distinguir, satisfatoriamente, são Palmeiras e Cruzeiro. E olhe lá.

Em Campinas há dez anos, costumo achar que tudo é perto. Primeiro, porque vim de São Paulo. Segundo: nunca ando a pé. Diante da pergunta, no entanto, calculei: meia hora de caminhada. Terminei de colocar o cinto de segurança na minha filha e, ainda em pé ao lado do meu carro, respondi:

– É longe, viu? Faz assim…

E dei as coordenadas básicas. Adiante, ele se informaria novamente. Com o skate, ficaria fácil. Aos domingos, uma das pistas da avenida que contorna a Lagoa do Taquaral, para onde ele deveria seguir, fica fechada ao trânsito. Bom para os que gostam de caminhar, correr, andar de bicicleta, essas coisas de gente saudável.

Tomamos, minha filha e eu, o rumo de casa. Logo avistei o rapaz, no caminho que eu indicara. Pensei no destino dele, parte do meu trajeto; na minha filha, sentadinha no banco de trás; nos ensinamentos recebidos ao longo da vida sobre caronas e seus perigos (os quais ignorei durante a juventude, época em que eu ia de São Paulo a Ubatuba na base do dedão. Mas essa é outra história.). Cogitei: por que não levá-lo? Havia muitos “porque não” listados em meu juízo. Mesmo assim, escolhi o “porque sim”.

Encostei o carro. Abri o vidro:

– Ei!

E o Rafael topou a carona. Contou que estava em férias na cidade, na casa da tia. Saíra para dar uma volta e se perdera. Testando sua independência, presumi, não quis telefonar pedindo socorro.

Continuou: mora em São Paulo, num bairro vizinho ao que eu vivia. Já era uma afinidade. Falamos amenidades típicas de quem se vê pela primeira vez. Minha filha, atrás, imóvel e muda. Provavelmente, tentando compreender o que era isso de parar no meio da rua e convidar um desconhecido para entrar no nosso carro. A prosa evoluía e eu só pensava como explicaria a ela, depois, minha atitude. Diria que intuí ser o rapaz uma boa pessoa? Argumentaria que eu oferecera carona a ele, e não o contrário, o que mudava, significativamente, o cenário de perigo potencial? Aliás, eu fiz o papel de bandido; Rafael nada pedira. Fosse um meliante, teria agido no momento em que me parou na calçada. Qual pedagogia eu usaria para que minha filha, de tenros cinco anos, não concluísse que se pode fazer isso com qualquer pessoa na rua? Mas Rafael era uma pessoa qualquer na rua. E agora? Por outro lado, ele também deve ter tido seus medos ao aceitar a carona. Mas assumira que uma mãe, acompanhada de criança pequena, não seria capaz de cometer maldades.

Próximo ao tal do balão, perguntei onde sua tia morava. “Em um condomínio, naquela rua”, ele apontou. Ora, ora. “Tenho uma amiga que mora ali. Deixo você lá”.

O Rafael abriu um sorriso, agradeceu. Menino educado. Minha filha continuava em silêncio sepulcral. Que raio de mãe sou eu? No mínimo, curiosa: “Como se chama sua tia?”, perguntei. Gravei o nome. Para contar à minha amiga, claro. Mais agradecimentos, não há de quê, se cuida, boas férias, coisa e tal.

Rafael estava entregue. Era hora da prosa séria entre mãe e filha. No fim, ela só questionou o porquê de não termos aproveitado a parada para visitar minha amiga, que é mãe de uma das melhores amiguinhas dela. A educação dos filhos, descobri, não é um bicho-de-sete-cabeças. De duas ou três, no máximo.

Ao chegar em casa, a tarefa urgente e inadiável: telefonar para minha amiga. Ela não só conhecia a tia do rapaz, como informou: a tal tia é mãe da minha vizinha. Minha vizinha é, portanto, prima do Rafael. No final, o que valeu para nós dois foi um pouco de fé. E a fé, todo mundo sabe, não costuma falhar.

Quem precisa de rede social virtual, se a real está bem na frente do nosso nariz?

Síndrome do pânico

O grito, Edvard Munch (1895)

Clico num link, à procura de diversão. É um desses aplicativos que fazem a festa dos habitantes da Vila Facebook. Também quero entrar na festa. Mal boto o pé na porta e dou de cara com o aviso: “Este aplicativo receberá suas informações básicas”. Localizado numa espécie de ante-sala do salão principal, a advertência parece dizer: “daqui para frente, não nos responsabilizamos”. Um maquiavélico “eu avisei”.

“Ele”, o aplicativo – uma entidade virtual, etérea, desconhecida e potencialmente malévola – não define, porém, o que considera “básica”.

Informação básica sobre a minha pessoa pode ser apenas o número do meu RG. A nacionalidade, sexo, idade. Pode ir além, no entanto. E o tal acesso às informações básicas pode percorrer minha vida particular e trazer à baila dados, aspectos e acontecimentos até então ocultos acerca da minha existência, eventualmente indiscretos, quiçá politicamente incorretos.

“Ele” pode revelar, por exemplo, que, apesar de meu atual ativismo pela causa animal, quando era criança, tinha um estranho passatempo: jogar a tartaruga de estimação escada abaixo, só para vê-la se esborrachar lá embaixo. Não contente, também atirava uma cadeira por cima. Talvez, no intuito de testar a resistência de seu casco, da cadeira, ou das duas coisas associadas. Felizmente, a tartaruga sobreviveu a todos os impactos, e viveu conosco muito tempo. Não sei que fim ela levou. Em dias de militância ecológica, algum vizinho já teria flagrado e registrado a cena num celular e postado no You Tube. Com milhões de visualizações, eu seria escorraçada pela sociedade, caçada pelo Ibama, enquadrada na lei de proteção ambiental e cumpriria pena num xilindró-mirim com mais vinte crianças da pá-virada. Minha infância foi salva pela falta de tecnologia.

E se “ele”, o aplicativo, descobrir que já joguei óleo de cozinha no ralo da pia depois de fritar batatas, quando era mais nova (beeem mais nova) e não tinha noção do estrago que isso fazia? Não sabia o que fazer com aquilo, afinal de contas. Era a mesma época em que colocávamos nossos sacos de lixo na porta de casa e eles simplesmente desapareciam, como que por mágica.

Pior: e se “ele” espalhar pelo ciberespaço um dos meus segredos pessoais mais nojentos? Foi no dia em que, gripadíssima, espirrei enquanto dirigia e aquela substância orgânica expelida foi parar no painel do carro, e eu tive que continuar dirigindo porque não dava para estacionar e a caixa de lenços não estava à mão, e a meleca lá, estatelada sobre o velocímetro.

Seria terrível ver minhas mazelas expostas assim. Só de pensar, me dá tremedeira.

E as ameaças “dele” não pararam ali: “Este aplicativo pode publicar em seu nome”. Para boa entendedora, meia palavra basta: estou a um clique de arrumar um procurador virtual. Um ser tecnológico com plenos poderes, que fará o que lhe der na veneta. Evidentemente, para o mal.

O danado do aplicativo pode inventar de postar besteiras e assiná-las sob meu nome. Publicar nas redes sociais que gosto do que não gosto, que vi o que não vi, sei o que não sei e faço o que não faço. (E se esta crônica, na verdade, não for de minha própria lavra, e sim “dele”, que tomou posse também do meu humilde blog e a digitou enquanto eu dormia? Encrenca dos diabos, essa.)

E se, valendo-se de tal poder, a procuração se estender à minha vida real, e “ele”, o aplicativo, resolver me descasar do meu marido e me casar com outro, que nem conheço, mas adicionei porque pareceu gente boa? E se “ele” permitir que meus filhos comam salsicha e Nutella de segunda a segunda? Se cismar de doar todos os meus sapatos, achando que tenho demais?

Com súbitos, claros e evidentes sintomas da síndrome do pânico cibernético, tais como taquicardia em banda larga, sudorese em alta resolução e alucinações em megapixels, só me resta puxar a tomada do computador e acabar logo com isso. Antes que o derradeiro clique transforme minha vida num inferno.

*****

Por outro lado, ter um procurador, virtual ou real, talvez se mostre uma boa ideia. Posso instruí-lo e autorizá-lo a fazer por mim coisas que não tenho dado conta – responder e-mails importantes e pendentes, curtir tudo que de bom postam os amigos – ou tarefas que considero por demais aborrecidas: limpar o banheirinho dos gatos duas vezes ao dia, tirar o feijão do fogo, procurar uma nova faxineira, ensinar aos filhos que Legos precisam ser recolhidos (todos).

Cadê a tomada para eu ligar o bichinho de volta?

Escreveu, não leu…

Ilustração: Gustav Söderström/Flickr.com

Desde o momento que ganhei um smartphone, desses que fazem interface com Deus e o Diabo (às vezes, mais um que outro), tenho convivido com um professor de português pró-ativo mas, não raro, equivocado. É o corretor ortográfico, mestre em linguística embutido na engenhoca e que tem me dado um trabalhão. Tenho a opção de ativá-lo ou não. Porém, de razoável utilidade em casos de pressa aguda, ainda não me senti forte e determinada o bastante para dispensá-lo.

As aulas iniciam assim: entabulo a prosa com a comadre pelo SMS, sem notar que algumas palavras digitadas vão sendo substituídas por outras, que ele julga, de acordo com sua experiência e sabedoria, mais convenientes. Oh oh. Nem sempre ele está certo. Às vezes, é tarde demais. Há que se enviar nova mensagem: “Estou lesada”, explico, e não “Estou ‘mesada’”. Esclareço que preciso traçar um açaí duplo, e não um ‘Havaí’.

Ainda pelo smartphone visito, na rede social, a página da amiga na intenção de saber como foi a cirurgia do seu ciso. Ela responde que, felizmente, não precisou operar seu ‘riso’. (Só rindo.)

Comento a postagem bem-humorada de um fulano e risada vira ‘rodada’.

Compartilho que o cantor foi mal no show e ninguém entende, porque vaia virou ‘caia’. Um tombo, então? Eu, no passado, já vangloriei minha capacidade de datilografar rápido e certo.

Acesso o email para informar, em tempo real, que o amigo passou mal e foi levado de maca para o hospital. Concluo a mensagem e clico em “enviar”. A notícia espanta os destinatários, que devolvem: levado de ‘maçã’?

É a era das retificações ortográficas virtuais.

Donos da verdade, os corretores desses aparelhos pensam saber o que é melhor para nossas conversas e manifestações no ciberespaço. Sugerem vasto dicionário de possibilidades, mas sempre batem o pé que a primeira grafia é a melhor. E, num instante de descuido, zás!, assumem decifrar nosso pensamento. Nessa toada, não está longe o dia em que os smartphones terão ideias por nós. Pior: num belo dia eles resolverão ligar, por conta própria, para todos os contatos da nossa agenda. Sabe-se lá o que dirão a eles.

Smartphones levam a sério seu nome, estão ficando demasiado inteligentes. Alto lá: quem manda na minha vida sou eu e o lema é extensivo à minha escrita. O corretor ortográfico pode estar cheio de boas intenções. Porém, vide a antológica frase a respeito delas e o inferno. Seu slogan deveria ser o velho “Escreveu, não leu…” – e eu nem quero ver como é que ele completaria a frase.