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Ordem e progresso

Se aconteceu de berrar com a cria ou discutir com marido, se a raiva fez festa de arromba nas minhas ideias, se fiquei uma arara com o noticiário, o vizinho ou a Vivo, lanço mão de um recurso que, se não é infalível, está quase lá: vou arrumar minha bolsa.

Metáforas à parte, arrumar a bolsa é o remédio geral, a terapia instantânea, o alívio imediato das dores invisíveis. Simbólica e efetivamente, a arrumação retorna ao prumo o que havia virado furdunço. É a ordem física conduzindo à reordem mental, fornecendo a valentia necessária para seguir em frente.

Começo retirando todo, todinho, seu conteúdo. Espalho item por item sobre a mesa de jantar, parece-me um bom local para esse tipo de exorcismo. Carteira, telefone, caderninho, chaves. A carteira, por sua natureza complexa, tem sessão própria: organizo documentos, alinho as cédulas, rearranjo os cartões. Papéis soltos, notas fiscais e comunicados da escola vão para triagem, num canto da mesa. Noutro, devidamente agrupada, a coisarada que precisa de destino.

Três batons é muito, dois voltam para o armário, andar superior. O ímã da farmácia segue para seu habitat natural, porta da geladeira, térreo. Pra quê cinco canetas, Silmara? Comprovantes do cartão de crédito viram bolinhas para os gatos brincarem. Fones de ouvido são enrolados à perfeição e vão fazer par romântico com o iPod. Canhoto de talão de cheques, comprovante da lavanderia, folheto da pizzaria nova, brinquedos que as crianças não tinham onde enfiar na hora: cada um no seu quadrado. Chiclete, absorvente, pinça, Neosaldina, carregador: levo minibolsas para cada categoria de objeto. Lembretes esquecidos ganham registro eternizado na agenda; os já lembrados aportam no lixo reciclável.

Aos poucos, o movimento de faxina toma impulso e a paz acena ao longe: chego às divisões internas. Don’t stop me now!

Minha bolsa, minha vida. Nela, fragmentos da personalidade e da alma. Arrumar a bolsa é ver-se no espelho.

Para um homem, o processo equivale à arrumação da pasta, mochila ou (por que não, minha gente?) pochete. Saibam, porém: a mágica do binômio ordem & progresso se dá mesmo é com uma bolsa. Portanto: se almejarem a plenitude da vida, homens, usem bolsas. De mulher.

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Como dantes

Arte: Tom Fogg
Arte: Tom Fogg

Mulher só volta de uma viagem de férias, efetivamente, quando reorganiza a bolsa. Sai de cena tudo que garantiu o passeio – passaporte, dinheiro diferente, mapinha do metrô, máquina fotográfica – e entra tudo que salvaguarda o cotidiano na pátria amada: RG, dinheiro brasileiro, carteirinha do plano de saúde, cartão do convênio-farmácia, crachá, chave de casa, documento do carro. Batom e lencinho umedecido ficam, posto que dela nunca saíram.

Só então ela pode afirmar: “Voltei”.

Se a bolsa refeita é o atestado do regresso, a constatação de que viajamos não é somente a bolsa, digamos, alterada. No caso do destino ser outro país, continente, hemisfério, o que ajuda a nos convencer de que estamos longe é quando sentimos uma estranha alegria ao topar com conterrâneos no saguão do hotel, na fila do supermercado, no balcão de informações ao turista. A língua materna é como filho; reconhece-se de longe, de olhos fechados. Brasileiros que passariam incógnitos na terra natal não escondem o contentamento ao se ver. Apertam as mãos, puxam conversa, perguntam de que cidade são e, se acaso forem da mesma, ah. Que felicidade! Vão querer saber o bairro, a rua, comentam que têm um amigo por ali. Viram amigos instantâneos. É capaz de marcarem um churrasco assim que voltarem ao Brasil. Despedem-se – um segue para o museu, outro vai às compras – , desejam felicidades, tudo de bom. No exterior, compartilhar a mesma bandeira torna todos irmãos.

Viagem encerrada, férias idem. Por ordem na bolsa do dia-a-dia é a conclusão definitiva do ritual de retorno, com poder semelhante ao do banho em casa, onde a toalha conhece cada pedaço do corpo. De efeito igual ao de dormir na boa e velha cama, depois de dias afofando um obscuro travesseiro a serviço de sonhos alheios. Quase mais significativo que traçar um prato de arroz e feijão, após uma temporada almoçando e jantando em outro idioma. Nem desfazer as malas traz tamanha certeza de ter voltado ao lar.

De bolsa nova

Ilustração: r8r

Foi Dia dos Pais e também ganhei presente. Eu, que sou mãe. Não que misturemos os papéis em casa; esses já são suficientemente bagunçados no arquivo da estante (levei horas para localizar uma conta de luz recente, pediram na renovação da carteira de habilitação). É que me ocorreu de também merecer um mimo no segundo domingo de agosto: sem mãe não há pai. Na véspera, o diabinho que se empoleira no meu ombro esquerdo e vive às turras com o pequeno anjo sobre o direito me cutucou, soprando um recado. Uma ordem. Disse ele: “Vá e compre aquela bolsa que você gostou”. Eu fui. E o anjinho chorou.

Tudo posso na bolsa que me fortalece. Com ela a tiracolo (e dividida no cartão), fico pronta para o mundo.

Pronta para aturar o deselegante motorista da outra pista que vê minha seta e acelera. Relevar a indelicadeza do médico do convênio, que se despede enquanto eu faço uma pergunta. Tem nada, não. Eu estou de bolsa nova.

Preparada para correr com o almoço, levar as crianças à escola, voar para a reunião em outra cidade e voltar a tempo de buscá-las. Tudo bem; eu vou de bolsa nova.

Forte para lidar com o intolerável, assistir na TV guerras civis não-declaradas, declarar guerra às empregadas domésticas, suportar a má-vontade da moça da padaria que se aborrece por ter de explicar do que são os salgados. Que que tem? Minha bolsa é linda e nova.

Uma bolsa-dos-desejos transmuta qualquer humor feminino. É munição para a batalha, proteção em meio à selva urbana, patuá da espécie. No icônico depositário de pertences e utilitários vai a alma d’uma mulher. Já uma bolsa novinha em folha – com todo respeito pelas anciãs guardadas no armário – é capaz de tudo isso com o frescor de uma manhã recém-nascida. Bolsa nova é pura bossa-nova mental.

Sim, eu agito bandeiras verdes e anticonsumistas. Reservo-me, porém, o direito a recaídas samsáricas. Posso ser mundana, só um pouquinho? Estou em dia com Deus. E ele me disse, em segredo, que dá para conciliar aspirações espirituais e desejos materiais. Gosto de pensar assim. Além de que, não contei. Antes da ordem final do diabinho, eu já havia adquirido pela manhã, na mesma loja, um par de sapatilhas que estava dando sopa.

Mundanice pouca é bobagem.

Das combinações

Arte: India Amos

Só a mesinha do canto disponível na padaria, para lá que vou. Ao lado, três moças. Repousadas na cadeira próxima a elas, três bolsas.

Como nos passatempos dos tempos de criança – aqueles de levar o coelhinho à cenoura, o macaquinho à banana e outras trivialidades da natureza – , brinco de ligar as moças às respectivas bolsas. Sem, contudo, pista prévia. Nenhum conhecimento, como os treinados na infância.

Analiso.

Moça 1: alta, loira, cabelos longos. Meio gorda.

Moça 2: morena. Nem tão alta, tampouco baixa. Cabelos curtos e enrolados. Bem magrinha.

Moça 3: nem gorda, nem magra; típica M. Baixa. Cabelos lisos e curtos. Ruiva.

Bolsa 1: enorme, clássica, preta.

Bolsa 2: moderna e amarela e pequena.

Bolsa 3: a média das outras, artesanato bonito que só.

Eu que não caio na tentação do óbvio, reunindo as aparentes evidências. Prefiro exercício demorado, inspirador de sinapses sofisticadas. Cruzo os dados preliminares, faço média ponderada, tiro a prova dos nove. Invento sinastrias, observo os gestuais, sondo os pedidos. Nem assim arrisco a combinação correta; a intuição se dissolveu na cafeína e a razão foi ver se estou na esquina.

A moça 3 bebe chá, as outras, café. Mas o da 2 tem espuma de leite. A 1 fala alto, a 2 só ri. Todas estão com calor, apenas a 1 cantarola a música que toca no rádio.

As aparências não enganam, quem se engana são os observadores. Está tudo escancarado, resta decodificar.

Torço, mas nenhuma delas precisa apanhar caneta na bolsa, ir ao banheiro. Não há sinal de SMS chegando.

É quando a bolsa 1 ameaça escorregar pelo vão da cadeira, tão grande é. O momento, tenso, pede concentração no olhar. Congelo meu gole. A dona a apanhará, por certo. É agora! Mas a bolsa é interceptada pelo solícito garçom, bem na hora H. Moças 1, 2 e 3 agradecem, uníssonas. Volto à estaca zero.

A bolsa 1 é da mesma cor do cinto da moça 3. A moça 2 tem o antebraço tatuado de flores, não seriam do mesmo tipo das bordadas na bolsa 3? A moça 1 sofre com a escoliose, uma bolsa do tipo 2 é altamente recomendável.

De que servem as coincidências quando a dúvida estraga tudo?

Exagero na duração do lanche, no afã de conhecer proprietária e propriedade. Meu prazo, porém, termina; a carruagem de abóboras me aguarda do lado de fora. Sondo a hipótese desesperada de abrir meu coração às três, “Poderiam me esclarecer uma coisa?”.

Nem dá tempo: outra mesa parece precisar de uma cadeira extra. E não há nenhuma vaga em toda a padaria, exceto a sob minha mira, objeto da angústia. A mãe com o bebê no colo, tímida, pergunta, “Posso?”. Moça 2 (a que ri de tudo) diz “Claro!”, apanha de uma vez as bolsas 1, 2 e 3 e as realoja sobre o móvel onde o garçom, aquele sem graça, guarda os talheres.

A vida não é bela.

A bolsa da Dona Jacy

Ilustração: Andrea Joseph/Flickr.com

Em (quase) qualquer lar do planeta é assim: a gente procura uma lembrança e se depara com outra. Quem nunca foi atrás do álbum de casamento e encontrou uma fotografia do pré-primário? Ou tentou localizar o telefone da madrinha numa agenda antiga e deu de cara com o do ex-namorado? Somos todos colecionadores de saudades.

Dia desses, uma das minhas cunhadas buscava nos armários uma mala para usar no final de semana. Achou. E acabou fazendo uma viagem inteira dentro dela. Só que ao passado. Entre quinquilharias, como uma régua com o logotipo do Banco do Brasil, medalhas e um missal, as preciosidades: quatro bolsas da Dona Jacy que, em rima triste, não conheci. Dona Jacy, mãe da cunhada, é também mãe do meu marido, mulher do meu sogro, avó dos meus filhos. Minha sogra. Uma das bolsas é vermelha, está com o fecho quebrado. Outra é branca. A preta ainda guarda um band-aid e o delicado par de luvas de cetim negro, registrando o último dia que ela a usou. E mais uma, de madeira. Um perfeito bauzinho, não fosse a alça lhe denunciando a função. Todas dentro do objeto inicial da busca – a mala – , enterradas no velho quartinho do quintal, endereço certo para o que ninguém quer mais. Naquele instante, desenterrava-se o que não merecia estar sepultado. Ainda havia vida pulsando naquelas bolsas.

É raro uma mulher emprestar sua bolsa à outra. É objeto pessoal, igual escova de dente. Nunca se sabe se a outra vai cuidar bem dela, se vai colocá-la no assoalho do carro porque as compras ocuparam o banco inteiro, ou se vai esbarrá-la, acidentalmente, numa parede com tinta fresca. E se a bolsa vai e não volta no prazo combinado, véspera da festa onde se pretende usá-la? Melhor evitar a saia-justa, o fim da amizade, o holocausto. Bolsa não se compartilha, e ponto. Mas não dizem que toda regra tem sua exceção?

Há dezenove anos as pobrezinhas das bolsas de Dona Jacy não davam um passeio. Esta semana, porém, encerraram o jejum. Ganharam novas donas. Vão todas morar em outros armários de mulher. Estão (bem) emprestadas, conforme reza a exceção. Repartidas entre as cunhadas e eu, a nora. Fiquei com a de madeira. Para combinar com meu elemento terra. Marido disse que se lembra da mãe com ela. Na hora, juro que vi uma lágrima ali.

Devo prestar atenção quando for usá-la. Não é bolsa de se levar o universo. Apenas batom, espelho e RG, para provar que sou digna de portá-la. Nela, não cabe a saudade do meu sogro e seus cinco filhos. Mas cabe a certeza de que tudo vive e revive, o tempo todo.

O melhor de tudo é que não tenho que devolvê-la. Dona Jacy não a usa mais. E nas festas aonde ela vai agora ninguém precisa de bolsa. A única condição, que eu mesma inventei, é eu passá-la a outra mulher da família, no tempo certo, perpetuando a tradição que acaba de ser criada. A pequena bolsa de madeira será, pela ordem natural, da minha filha, sua neta caçula. Que saberá a hora de emprestá-la novamente. Um dia, nas voltas que o mundo dá, ela acabará voltando para as mãos da dona.

Troca-troca

Ilustração: Nilson Sato/Flickr.com

Não bastassem as tarefas que tenho de dar conta ao longo do dia, arrumo mais uma: trocar de bolsa. Mais do que mera combinação estética, a troca é um ajuste de forma e função, repleto de subjetividades. A bolsa da vez é escolhida de acordo com critérios solares, químicos, sócio-econômicos e geográficos. Variam conforme a estação do ano, o humor, a necessidade – sair com crianças, por exemplo, requer espaço e compartimentos a mais. Em todos os casos, velocidade e atenção são o que contam. Ontem fiz, em doze segundos, a transferência integral do conteúdo da bolsa vermelha, encorpada e séria, para a verde, risonha e molenga. Não foi tão rápida quanto uma troca de pneus na Fórmula 1. Mais ligeira, porém, que substituição de jogador de futebol no segundo tempo, para ver se sai gol. Quando o assunto é passar tudo de uma bolsa para outra, meu sonho é o teletransporte acionado pelo pensamento.

A agilidade induz a um efeito colateral. Demoro a levar as vazias de volta ao armário. Vão se espalhando sobre a mesa de jantar, no escritório, ao pé da escada. Uma vez, contei: quatro, tirando a do dia. Qualquer hora o marido chegará e perguntará se estou recebendo as amigas. Já confundi a empregada; ela jurou que eu estava em casa só porque viu minha bolsa pendurada na cadeira. Sempre ouço “Ficou na outra bolsa” em restaurante, padaria, farmácia. O acessório – que de complemento não tem nada – passa a ser réu pelo esquecimento.

Trocar de bolsa é vício. Dependência. Disfunção a ser tratada nas clínicas de reabilitação. Durante a recuperação, só se pode usar uma bolsinha preta, lisa, sem uma única divisão. Para desintoxicar. Difícil deve ser lidar com as crises de abstinência das pacientes, controlar o mercado paralelo, impedir a entrada ilegal de modelos escondidos em bolos de aniversário. Quem vai visitar deixa a sua logo na entrada. Por precaução.

Uma amiga, na pressa, colocou a bolsa inteira dentro de outra e saiu. Problemas com a cor da calça. Não lhe ocorreu trocar a calça, nem experimentar o inédito descombinado. Trocar a bolsa já estava na ordem do dia, como escovar os dentes. Para não enfrentar a desarmonia, optou pela sobreposição literal. Certo está meu pai: sempre usa uma sacolinha de supermercado para levar o guarda-chuva, o jornal, um agasalho para o caso de esfriar. Sem apegos, qualquer uma serve. Só tem troca quando rasga ou fura. Ele não sabe, mas assim está poupando os recursos do planeta. Ponto para a velha guarda.

A bolsa substituída funciona como um penteado novo a cada dia. Uma lente de contato colorida para os olhos. Uma tatuagem temporária. Uma terceira pele, já que a roupa é a segunda. Uma amante, enfim. Ou várias. É a infidelidade a tiracolo, tornada pública. Incentivada, perdoada e admirada. Sem mágoas, nem ciúmes.

A mulher que não usava bolsa

Tiago Gualberto, óleo sobre cartão/Flickr.com

Existe, e eu vi. Com estes olhos que, um dia, estando tudo nos conformes, serão de outra pessoa. Quem sabe, eles também presenciarão coisas raras, improváveis. Como esta que vou contar: uma mulher que não usa bolsa.

Quando a conheci, perdi de fazer a vistoria no momento de sua chegada – mulheres sempre se vistoriam quando se encontram. Tratei, portanto, de conferir o canto do sofá durante o almoço. Era um desses restaurantes com sofazinhos. Nada que lembrasse uma bolsa repousava ali. Procurei nas cadeiras ao lado, e nada. Nem grande, nem pequena, nem de mão, nem tiracolo, nem mochila, nenhuma espécie jazia pendurada. Logo pensei no pior, mas a conversa era tranquila demais para um pós-assalto. Continuei escaneando o local, na tentativa de detectar o acessório. Em vão. Faltava algo naquela silhueta. Bingo – ficara no carro! Descobri em seguida: nada disso.

Para ela, a mulher sem bolsa, nada faltava. Não havia vácuo, nenhum vazio existencial. Tudo estava em ordem, em paz. O que ela precisava levar consigo estava ali, numa minúscula carteirinha, mais parecida com um porta-níqueis. Cinco por dez centímetros, não mais que isso. Nela, celular, cartão do banco e algum dinheiro. Só. E a mulher sem bolsa, para minha angústia e confusão mental, estava plena.

Inquirida, a mulher sem bolsa falou-me sobre suas razões. Não gostava, não precisava, não se ajeitava com elas. Tinha apenas três. Todas inúteis, condenadas à escuridão do armário. Imaginei as pobrezinhas numa prateleira lá em cima. Empoeiradas e solitárias. A cada vez que as portas se abriam, suas esperanças se renovavam. Saíam para passear os vestidos, as blusas, os sapatos. Menos elas. Eram bolsas deprimidas. Eu ouvia tudo, incrédula. Para a mulher, bolsa é órgão. Como boca, olho, nariz. Matei a charada: além dos cromossomos X e Y, há o cromossomo B. Que deve ser bê de bolsa. Lá pelos dois ou três anos de vida, a genética se manifesta. A menina começa a usar as bolsas da mãe, da madrinha, até que ganha as suas, depois compra as próprias, num processo garantido pela biologia.

Mas a genética da mulher sem bolsa era diferente. Onde teria ido parar seu cromossomo B? A supressão, contudo, aparentemente não lhe deixara sequelas. Ela jura: se vira muito bem assim. Mas, cá entre nós: onde fica o batom? O lenço de papel, no caso de uma emergência? A caneta, o bloquinho de papel para as anotações de última hora? A carteira gorda, recheada de documentos, os originais e as cópias autenticadas, os cartões de débito, crédito, dos programas de fidelidade, do plano de saúde? Pendrive? Os comprovantes de compras, aqueles papeizinhos azuis e amarelos que parecem se reproduzir espontaneamente, formando verdadeiras colônias dentro e fora da carteira? As fotos dos filhos, do namorado, do marido, de Jesus Cristo, onde? O espelhinho, o pente, a agenda, o celular, o remédio para asma, a sombrinha, o analgésico, o perfume, a pinça, o absorvente – que vai passear até nos dias que não são dias, vai que uma amiga precisa. Onde diabos ela põe tudo? Não põe, ora.

Bolsa é o porta-mundo particular. O que vive dentro nela, está sob controle. O que fica de fora, não. Uma mulher prevenida vale por quantas, mesmo? Não importa. A mulher sem bolsa, serenamente, dispensa tudo. Cromossomo a menos dá nisso.