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Mande lembranças

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arte: Rodvaz

Quando Fulano pediu a Beltrano que mandasse lembranças a Cicrano, Beltrano não sabia a quais, exatamente, Fulano se referia. Ninguém sabe essas coisas.

Seria a do último Natal que passaram em família, antes de o patriarca endoidar e resolver botar as pedras no bolso do casaco, e cujo resto da história só se soube no dia seguinte, quando Joca, o cachorro, latiu feito besta na beira do rio?

Ou, quem sabe, a lembrança dos tempos em que eram, os dois, irmãos inseparáveis, feito unha e carne, feijão e arroz? Um na pele do Homem Aranha e outro na do Batman, roubando os doces da mesa antes dos parabéns na festinha da prima.

Ou, então, aquela de quando, morando no velho casarão, brigaram feiamente por causa da gata de um que papou, feliz da vida, os canários do outro?

“Mande lembranças a Cicrano, quando o encontrar”. Pode ser que Fulano quisesse apenas lembrá-lo de que ele jamais o perdoara pelas botas – legítimas Stetson de bico quadrado e salto carrapeta que ele comprara com o salário de dois meses como empacotador no mercadinho – surrupiadas para ir ao baile do caubói da cidade, e nunca devolvidas, e que na ocasião Cicrano acabou beijando Mariana, o grande amor de Fulano. Por beijá-la ele até poderia perdoá-lo; pelas botas, jamais.

Beltrano ainda fala com os dois. É a ponte familiar, carcomida pelo tempo e que ninguém se atreve a atravessá-la. Beltrano, o portador de boas e más novas. O verbo de ligação. O irmão do meio, literalmente. Nunca mais se reuniram, os três. E não foi por causa de gatos, nem botas, nem gatos de botas.

Muitos mandam lembranças a alguém apenas para lembrar que ainda existem. Espécie de lembrete, “Ei, estou aqui”. Outros vivem mandando lembranças a esmo. Como frase vazia, a completar uma despedida banal. Por falta do que dizer. Para preencher de algum som o ar, vazio de assunto. Que pecado. Lembranças não deveriam ser enviadas em vão, eis um bom mandamento. O décimo-primeiro, quem sabe.

Fiado

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Na minha rua tinha uma lojinha. Lojinha de bugigangas, bijuterias, tranqueiras em geral. Ficava entre minha casa e a escola, que era na esquina. A vendedora se chamava Jane. Moça de cabelos castanhos, lisos e compridos. Uma simpatia.

Quase sempre, na volta da escola, eu parava na lojinha da Jane para flertar com os anéis, as pulseiras, os colares, as presilhas. Universo colorido e cheio de charme para uma garota de seus oito ou nove anos. Ficamos amiguinhas. Trocávamos meia dúzia de palavras, eu me despedia e ia para casa com meus cadernos e livros e lancheira.

Um dia, Jane sugeriu que eu levasse o anel de pedrinha vermelha. Afinal, eu havia gostado tanto, não? Respondi que não podia, não levara dinheiro. A Jane, que além de simpática era esperta, ali, naquele dia e naquela hora, apresentou-me ao maravilhoso mundo do cartão de crédito. “Pode levar, depois você paga”.

Desci a rua feliz da vida, o acessório novo reluzindo no dedo. Praticamente um rubi raro.

A alegria não durou nada. Ao me ver radiante, dedo enfeitado, Sílvio, meu irmão mais velho, fazendo as vezes de pai, quis saber a origem. Contei.

Se a Jane me introduzira ao universo do fiado, agora o Sílvio pregava o sermão da educação financeira. Eu não podia sair por aí comprando as coisas, quem havia deixado? No “pendura”, ainda por cima.

Menos de cinco minutos depois eu estava na lojinha da Jane. “Vim devolver.”

“O Sílvio bem podia namorar a Jane, que é gatinha. Tudo ficaria bem e o anel, garantido” – pensei, enquanto assistia a Jane devolver o anel à vitrine. Voltei tristonha. Os cem metros que separavam a lojinha de casa foram os mais longos da minha infância. Acho que, quando abri o portão, eu já era dois anos mais velha.

Se você pensa que conto esta história para mostrar a importância de ensinar às crianças como lidar com o dinheiro, eu lamento. Errou de texto. Nem todo ensinamento dado a uma criança será, necessariamente, carregado pela vida. Uns sim, outros não; a linha que os separa é fina e frágil como as correntinhas ordinárias que a Jane vendia.

Conto porque comprei um anel, dia desses, e paguei no cartão de crédito. Afinal, eu havia gostado tanto, não? Compra por impulso, sem necessidade, facilitada pelo fiado moderno. Enquanto lia “processando” na maquininha, o espectro da Jane, com seus cabelos castanhos, lisos e compridos, surgiu do outro lado do balcão. Vi minha rua, a lojinha que deu lugar, depois, à tinturaria dos japoneses. Vi os meus cadernos e a velha escola. Saudade é uma fatura eternamente a ser paga.

Só não vi o anel de pedrinha vermelha, meu por breves minutos; perdeu-se no sumidouro da memória. Era bonito, ao menos? Talvez. Bonito mesmo era o cabelo da Jane.

Crônica de minuto #38

Quando Luca, sete anos, recebe sua mesada, pede para ir à papelaria, banca de jornal ou loja de brinquedos. E compra uma caneta, um caderno, gibis, figurinhas ou carrinho do Hot Wheels.

Ele sempre diz à Nina, quatro anos, para escolher alguma coisa “baratinha”. E ela sai de lá com um presentinho do irmão.

Nessa hora, esqueço as campanhas anticonsumismo. Nessa hora, finjo que ensinar a poupar não é tão importante assim. Nessa hora, presto atenção ao melhor da história. E penso que ela daria um belo comercial para aquele cartão de crédito.

O nome da gente

Foto: Rakka/Flickr.com

Nome é como tatuagem. Parte indissociável de nós, não sai mais. Tenho nome, logo, existo. Dizem que escolhemos nosso nome antes mesmo de nascer, aqueles papos transcendentais. Mas isso é outra história.

O meu é Silmara. Conta a lenda que Seu Antonio e Dona Angelina planejaram os nomes dos filhos que pretendiam ter: se menino, Marcos. Se menina: Marcia e Mônica. Tudo com ême para ficar bem bonito. Eu seria a Mônica. (Não sei se fiquei sugestionada com a história ouvida na infância, mas até hoje esse nome é muito familiar. Combinaria comigo, com meu sobrenome. Questões transcendentais, quem sabe.)

Mas uma tia próxima teve seu filho um pouco antes e o plano foi por água abaixo: o primo foi batizado Marcos. Frustrados, meus pais resolveram mudar tudo. Adeus, Mônica.

Para ser sincera (meu sobrenome não deixa outra alternativa), não vejo muita graça no meu nome. Às vezes me pego pensando na possibilidade do passado, não fosse a tia. Nunca vejo meu nome naquelas listas imensas de nomes para bebês. Já li tantos significados diferentes, que concluí: ele não significa nada. Foi inventado. E ele também já foi motivo para uma, digamos, saia justa.

Quando criança, eu gostava de brincar, secretamente, que tinha outro nome. Havia uma personagem de novela chamada Noeli. Esse nome sim, para mim era transcendental: No-e-li. Fiquei tempos desejando me chamar Noeli. Em vez de um nome próprio, eu queria um emprestado. Pois não havia, no mundo inteiro, nome mais lindo. Mas a gente cresce.

Nomes nos acompanham a vida inteira, feito alma. São a marca indelével de nossa passagem por este planeta. Podem indicar de onde viemos. E também podem enganar meio mundo. O nome de um dos maiores gênios da música popular brasileira, o violonista Baden Powell, já me pôs encafifada. Não tem muito tempo que descobri: brasileiríssimo, e carioca. Resultado da obsessão de seu pai pelo general Robert Baden-Powell, fundador do escotismo. Ficou Baden-Powell de Aquino. Não preciso ir muito longe. Cresci chamando um tio de Paulo. Já adulta, descobri que seu nome é Francisco. Coisas dos Franco.

O assunto é vastíssimo. Dar nome aos bois não é nada fácil. Tem os nomes esquisitos por definição, bizarrices perpetuadas pelos cartórios. Tem os nomes curiosos. Tem os apelidos, tema que dá pano não só para manga, mas para um traje completo. Tem gente que muda de nome, papel passado e tudo. Tem os sobrenomes, espécie de pai e mãe do nome. Tem os pseudônimos. É assunto que não acaba mais. E sobre ele todo mundo tem uma boa história para contar.

É uma da manhã, despeço-me em nome de Morfeu, deus grego dos sonhos. Duvido que ele goste de seu nome.