Arquivo da tag: moda

Paralelas

listras 1.jpg

Não uma, nem duas; o negócio era agasalho de três listras. E tinha que ser da Adidas. Se tivesse o ziperzinho na barra da calça, então, era a glória nas aulas de educação física. As três retas, paralelas e mágicas, se encontravam no infinito do meu desejo adolescente. Habitavam o imaginário da escola inteira, do bairro, quiçá do planeta.

A matemática, exata e implacável, teoriza: três é mais que dois, que é mais que um. Três listras na roupa, portanto, era mais legal, mais bonito, mais tudo. Como as estrelas dos hotéis; quanto maior a constelação, melhor. Se algum colega aparecia tri-listrado, presente de aniversário ou coisa do tipo, logo se formava discreto burburinho, com breves notas de invejinha. A felicidade é ímpar.

O problema é que agasalho da Adidas era caro pra chuchu. Tive que me contentar com um genérico. Duas listras e só. Paciência.

Certa vez, uma colega apareceu na aula com um agasalho simplório, apenas uma listra nas mangas do blusão e na calça. A situação daquela família, concluí imediatamente, não deveria ser lá muito boa. Cheguei a ficar levemente compadecida, quis dividir meu lanche com ela.

Minha mãe não entendia o que tornava a terceira listra tão valiosa. Como se fosse espécie de terceiro olho, terceira margem do rio, terceiro segredo de Fátima. Eu não sabia explicar. Tal paixão cega, a minha pelo logotríplice também não se explicava.

Ontem saí com meu filho, ele está precisando de chuteiras. Quer uma da Adidas. Enquanto o vendedor mostrava os modelos e enaltecia a tecnologia do sistema de amortecimento, era para as três listras o meu olhar. As paralelas do meu passado, me reencontrando no infinito do presente.

Descobri que reparo nas listras dos outros. Se for agasalho esportivo, como os da Adidas, não tem jeito: conto quantas tem. Inconscientemente. Estabeleço, na hora, fugaz avaliação das pessoas com base na quantidade de listras que exibem – tal fiz com a colega da listra solitária. Com quem divido meu lanche, agora?

Meu filho não está nem aí com as listras da Adidas. Outros elementos na chuteira nova o encantam. Por exemplo, o craque que usa uma igual. Seus desejos são outros, diferentes dos meus, quando tinha sua idade. E, embora sigamos lado a lado, pode ser que eles se encontrem no finito das nossas vidas.

Esquadrão da Mente

arte: Rodvaz

No Esquadrão da Moda, programa que passa na TV, mulheres que se vestem mal são chamadas na chincha para reverem seu jeito de vestir. A vítima se vê numa espécie de Roda Viva – outro programa – tendo que explicar e defender por que usa isto ou aquilo. Peças pavorosas de seu guarda-roupa vão para uma simbólica lata de lixo. E, na base do susto, porrada ou risada, o desafio sempre tem final feliz. A mulher sai repaginada, com maquiagem de atriz, cabelo de revista e armário turbinado. (Se se trata de mais uma tentativa de padronizar tudo e todos, são outros quinhentos.)

Eu queria que existisse um programa para chamar na chincha pessoas que pensam mal, convidando-as a rever seu jeito de ser. O nome: Esquadrão da Mente. Quem inauguraria o programa? Eu.

Porque tem dias que saio de casa vestida de mau humor da cabeça aos pés, crente que ninguém vai reparar. Santa ingenuidade, Batman. A roupa do nosso pensamento nunca passa batida.

De utilidade pública, no Esquadrão da Mente os participantes teriam chance de, diante do Grande Espelho (que não mente jamais) e com uma mãozinha de quem entende do riscado, avaliar as próprias ideias, algumas de coleções passadas (amarrotadas?) que, de tão usadas, já esgarçaram.

Um programa assim faria bem, por exemplo, à pessoa que estaciona em fila dupla só um segundinho para deixar o filho na escola e, quando chega ao trabalho, antes da reunião, compartilha na rede social um post cobrando o fim da corrupção e outras nobrezas, sempre do próximo. Não combina, meu bem.

Seria de grande valia também para a mulher que a vida inteira romantizou a maternidade, eternizando seus mitos e autodecretando a perfeição compulsória. E hoje chora, reclamando que sua culpa agora é tamanho 54.

E para aquela outra que, sendo manequim 40, insiste na estreiteza do relacionamento 36. Claro que vai ficar apertado. Não serve. Nunca serviu, aliás.

Uma boa consultoria mental faria tremenda revolução na cabeça de quem desfila diariamente a ideia cafona de que os outros, só os outros, são responsáveis pela sua infelicidade e empacamento na vida. Um delito tão ou mais grave que sutiã com alça de silicone, meia cor da pele, legging de oncinha.

No Esquadrão da Mente as pessoas aprenderiam, inclusive, a escolher melhor suas amizades. As da baciada, em liquidação, geralmente não têm qualidade, não duram muito. Rasgam-se com facilidade, desbotam na primeira conversa mais séria.

E quem participasse do programa também teria final (ou recomeço) feliz, se assim desejasse. Porque quando o assunto é mente, assim como na moda, autoconhecimento é fundamental. É o pretinho básico da personalidade, peça curinga na vida. Vai bem com tudo.

Tachados e perdidos

Moda é religião: cada um tem a sua, e todas costumam levar ao mesmo lugar. Com frequência, é divisor de opiniões e águas. Quase sempre, é bobagem discuti-la. Ou não.

Para o ano que corre, tudo indica, bíblias fashionistas providenciaram um adendo, ensaiado há algum tempo. Há no ar um novo mandamento sendo cumprido à risca pelos fabricantes de roupas, calçados e acessórios em geral, que juram ter ouvido Deus proferir, n’alguma fashion week: “Usarás tachas”.

Até a próxima estação, fiéis incautos obedecerão e irão ter com blusas, calças, saias, camisas, coletes, carteiras, cintos, tênis, botas, chinelos – os mesmos modelos do ano passado – , agora todos encrustados com alguma variação do adereço, a lhes conferir o ar afinado com a tendência. Ninguém quer ficar de fora.

Experimento um vestido e lá estão elas, as tachas. Flerto com um par de sapatilhas e lá estão eles, os spikes. É assim que as tachinhas pontiagudas se chamam, aprendo. Enquanto amplio meu dicionário de moda, sigo tentando adquirir uma peça livre deles. “A estrada é longa, o caminho é deserto”.

Inútil fugir. A invasão é maciça. A indumentária rebitada, claramente inspirada no universo rocker e punk, está presente no short da mocinha que vai ao pagode segurar o tchan. Na anabela da carola presente na missa das sete. No biquíni da professora de ciências. Na “gente humilde, que vontade de chorar”.

Onde foi possível, botaram tachas. Onde não foi, também. São os estilistas-papagaios comungando da mesma hóstia, perdidos em sua missão de criar.

Eu, que não quero ser tachada de chata, rezo quietinha uma Ave Maria e um Pai Nosso, na esperança de que o jeans da vitrine não tenha aplicado, nos bolsos de trás, o mesmo enfeite da coleira do cão Boxer da vizinha.

Tacha, só se for com xis, dos juros e juras de amor.

Spike, só o Lee.

E agora, José?

Arte: Filipe Saraiva
Arte: Filipe Saraiva

Ando preocupada com José. José sumiu. Foi embora. Ninguém mais batiza em sua lembrança. É nome em extinção. João até que tem se virado bem. Que será que houve com a humanidade brasileira? Não será mais ele – o carpinteiro, companheiro de Maria – assim tão bonito para o RG?

Na praça de alimentação do shopping há uma mãe tentando convencer o Artur a comer a escarola. Na sala de espera do pediatra tem sempre um Gabriel mais danadinho, dando cambalhota na poltrona. E a lista de chamada do maternal lança mão dos sobrenomes para identificar tantos Enzos. O Zezinho, quedê? Faltou.

De eras em eras a moda ressuscita velhos nomes para novos bebês. É um tal de Joaquim, Valentina e Tomás em porta de quarto nas maternidades. Só o José não dá mais o ar da graça nas certidões. Até o Luís ressurge, sempre ao lado do Eduardo ou do Felipe ou do Henrique. O José, coitado. Nem só, nem acompanhado. Acabou.

José é dos poucos que não causam confusão na hora de escrever, posto que a ele não cabe variação. Facilita a vida em seu minimalismo sonoro, combina com os outros, é da paz. E acordo ortográfico nenhum, nem em mil anos, há de derrubar seu acento. A razão do seu declínio é uma incógnita contemporânea, uma charada nominal.

Volta, Zé! As Marias, ainda que Eduardas ou Fernandas, precisam de você.

O mundo também.

O Havaí é aqui. Ou não

Arte: Ana Maria Dacol

Eu que nunca fico elegante de sandálias Havaianas, igual às moças que desfilam pela Oscar Freire de terça-feira à tarde. (Para elas, é sempre terça-feira à tarde). Botam camiseta, jeans, chinelo de dedo e lá vão, irremediavelmente chiques. Quase não-terrenas.

Eu não. De Havaianas, não pareço descolada, não fico moderna. Metidos nelas, meus pés denunciam a deselegância nata, ou discreta – em livre caetaneação. E, não importa o quão produzida eu esteja, incorporo, invariavelmente, o arquétipo da jeca.

Inveja das moças da Oscar Freire.

As Havaianas, que já foram ícone de pobreza, foram alçadas a uma incompreensível categoria superior, através dessas mágicas ocidentais cuja poção leva quilos de propaganda, generosas doses de bom humor e uma pitada de sorte.

Com as legítimas, fajuta sou eu. Eu, que não solto pela vida minhas tiras particulares – aquelas que julgo me sustentar – , percebo que o buraco é, literalmente, mais embaixo. Toca o chão.

No primário, as crianças remediadas da minha escola assistiam às aulas de Havaianas. Destoavam do resto da classe, com seus assexuados sapatos pretos, tão fechados quanto a blusa branca de logotipo bordado no bolso que fazia parte do uniforme. Minha mãe dizia para eu não reparar nos pés delas. Eu reparava.

Não dei conta, em apenas algumas décadas, de assimilar tamanha mudança de status daquele simples chinelo. Meu subconsciente ainda o vê como calçado ordinário. E, como tal, instrumento de vagar à toa pela casa, lavar quintal, podar as roseiras, organizar as gavetas – qualquer atividade solitária e, obrigatoriamente, indoor.

Mas a mágica ocidental é poderosa. Então, eu bem que tento: flerto nas lojas com as Havaianas temáticas, fascinantemente multicoloridas. Afinal, nos pés das moças da Oscar Freire elas caem lindamente. Ensaio a compra, prometo superar o bloqueio emocional e me integrar à nova era, pertencer ao bando, ser cool. Que nada. Vêm à mente os colegas da escola e seus pézinhos encharcados pelo enfrentamento das poças em dia de chuva. Mudo de loja e escolho um par de sapatilhas. Espero que meus filhos não carreguem a ruidosa herança determinista e se esbaldem nas Havaianas, com liberdade e altivez, por onde quer que andem.

Centenas de milhões de pessoas em oitenta países do globo usam as Havaianas. Eu não. Não pertenço a este mundo.

Meu reino por uma fotografia da Jackie Onassis de Havaianas.

Tenho meu par, pasmem. Ganhado, não adquirido. Ele vive em meu armário, raras vezes circula. Nunca foi ao shopping. Nem até a portaria do condomínio, buscar a pizza. Vou descalça, se for o caso. Posso sair de casa sem batom; de Havaianas, jamais.

Sou doente do pé. Provavelmente, ruim da cabeça também.

A moda em quatro atos

Arte: Gustavo Peres

I

Chamo a vendedora e aponto na vitrine:

– Aquela ali, roxa.

Ela entorta a cabeça, espreme os olhos, mira o objeto do pedido:

– Ah, a berinjela.

– Não, a roxa – repito.

Tal a mulher-elástica, ela alcança com a mão a peça por trás do vidro:

– Esta aqui?

– Isso! A roxa.

– Ah – diz, voltando ao seu tamanho normal – A gente chama de berinjela.

II

– Bonita, sua écharpe. Nude vai com tudo, não?

– É. Bege é muito fácil de combinar.

– Nude, querida. Nu-de.

– Bege.

– Nude.

– Bege.

III

Leio na revista: “A noiva usava uma headband sessentinha”. Penso, logo, falo: “Isso é uma tiara”. A manicure passa o palitinho na acetona e, enquanto capricha na limpeza dos restos de esmalte, ensina: “Ninguém mais fala assim. É headband”.

IV

– Experimente este – sugere a vendedora (outra), trazendo um escarpim. É um off-white tranquilo, não aquele brancão.

Cogito pedir a ela que repita, preciso checar se entendi direito. Então o branco não só fôra rebatizado, como ganhara sentimentos. Oh oh.

Berinjela não é exatamente roxa e nude não é propriamente bege. Há, de fato, uma sutil diferença (identificada com a ajuda do cromossomo X). A casca do legume, por exemplo, é mais que roxo; esbarra no marrom-café, flerta com o vinho. Nude (nu em inglês), dizem, puxa para a cor de pele. Pele de quem, minha ou sua? É “núdi” ou “núde”que se fala? Fato: é um bege clarinho com uma pitada de rosa. O off-white nasceu branco, mas ganhou pinceladas de algum tom que ninguém sabe dizer qual é. A tiara? Bem… melhor deixá-la em paz. Tirando o vegetal – repare –, todos os termos são importados.

Ouvi, certa vez, uma vendedora (eu adoro vendedoras) classificar um casaqueto na cor “maçã verde”. Não podia ser só verde, tinha que ser associada a alguma coisa de comer, igual verde limão. Aliás, com ou sem hífen?

O século XXI trouxe – pleonasmo proposital – novidades verdadeiramente novas. O mercado de trabalho que o diga: há quinze anos não tinha isso de ser designer de games ou analista de redes sociais. Simplesmente porque essas ocupações não existiam. O processo vivido pelas cores não é bem assim. É neologismo fashion. Modas da moda. Sujeitas, portanto, às mudanças dos ventos.

A rainha, assim como o rei, está nude.

O sapato bastardo

Ilustração: Don Stewart/Flickr.com

É um desses sites com fotografias de gente na rua. Nele, todas as outras gentes podem ver, de qualquer lugar e a qualquer hora, o que os clicados vestem no seu dia-a-dia. Muito se tenta, mas ninguém consegue explicar, com alguma convicção, de onde vem (nem para onde vai) o prazer de bisbilhotar o guarda-roupa alheio. Só para ver que jeito a pessoa usou o lenço, como combinou a calça xadrez com a blusa florida, ou que solução deu para uma peça que, aparentemente, não vai bem com nada. Somos uma legião de espiões urbanos, verdadeiros fashion voyeurs obcecados pelo visual dos outros.

Num dos retratos, uma moça sorridente. Ela dá a ficha e o repórter do site faz a legenda: o vestido é da marca tal; a bolsa, daquela outra. Na hora dos sapatos, a moça diz que não se lembra onde os comprou. Epa. Que mentira, que lorota boa.

Ora, ora. É impossível uma mulher – com as faculdades mentais razoavelmente em ordem, claro – se esquecer onde comprou seus sapatos. Nem mesmo se o fez há anos. Toda mulher se recorda de onde eles vieram. Com certo esforço, ela se lembra também do preço e como os pagou. Se era inverno ou verão. Se, na época, estava namorando, e quem. Se a compra foi depois do trabalho ou num sábado à tarde. Se foi consciente ou por impulso, só para tentar dar jeito no coração, então estraçalhado. Mulher é capaz de associar um sapato a um evento. A ponto de, nos dias de hoje, se lembrar que estava com um modelito vermelho no batizado do sobrinho. Aquele, que já sabe ler e escrever.

A moça da foto havia contado uma mentira deslavada. Não se lembra, uma ova. Acionei o zoom para conferir os enjeitados. Bonitos, classudos. Mas seus colegas de indumentária tinham certidão de nascimento, eles não. Eram sapatos bastardos, ilegítimos, sem direito a história. Como se tivessem brotado, espontaneamente, na sapateira. Talvez tenham sido adquiridos numa liquidação qualquer de uma loja cafona, daí ela não querer tocar no assunto. Pode ser que os pobrezinhos façam parte de alguma memória afetiva triste, responsável pela amnésia acidental. Vai ver, os sapatos não eram dela. Eram emprestados. Ou qualquer outro motivo mais extenso que não coubesse na legenda. Abreviou-se o dilema, portanto. E, como uma ré no tribunal, ela fez valer seu direito de permanecer em silêncio, esquivando-se da revelação, eventualmente incômoda, ao argumentar que nada sabia sobre o caso. Pois sim.

De frente para meu próprio armário, e sem esforço, tiro a prova. Que não é dos nove, mas de bem mais que isso. Par por par, conheço a origem de todos. Até dos que foram parar ali como um presente de alguém. Faço o teste com duas vizinhas e… bingo. Conclusão: recordar-se de onde vêm nossos sapatos é uma característica do DNA feminino.

Não há dúvidas. A moça da foto guarda, em meio aos seus saltos, um segredo e tanto.

Panis et circenses

Ilustração: Thiago Carrapatoso/Flickr.com

Chama-se Praça de Alimentação. Mas poderia ser Festa das Nações, como aquelas quermesses de igreja, cheias de barraquinhas com comida típica de quase todos os cantos do planeta. Shoppings centers alteraram um bocado de coisas na vida das pessoas nas últimas décadas, e foram além: redesenharam o mapa-múndi – pelo menos no aspecto gastronômico – sob uma nova, interessante e apetitosa geografia. Nela, a Itália pode ficar ao lado do Japão, os Estados Unidos em frente à Arábia, a Alemanha vira vizinha do México. É a volta ao mundo em apenas algumas garfadas.

O mais interessante são os povos que circulam nessa pequena amostra de mundo. Todos falam a mesma língua, numa espécie de Babel ao contrário. Os comportamentos são parecidos, as afetações são gerais, a diversão é garantida. Embora eu faça parte desse microcosmo, por alguns instantes – meia hora, para ser exata – viro satélite. E vou capturando tudo.

Tem a turma do faz de conta. Faz de conta que não estão esperando aquela mesa vagar para saltar sobre ela com uma lança em punho, fincando nela sua bandeira. Faz de conta que não estão incomodados com a demora do casal que não termina nunca aquele cafezinho. Faz de conta que o refrigerante light vai salvar o estrago da lasanha. Faz de conta que eu acredito.

Tem a mulher que passa escolhendo o cardápio através dos luminosos, empertigada em seu traje de marinheiro. Terninho azul escuro, camiseta branca, sapatos bicolores azuis e brancos. Sisuda e séria. Barriga para dentro, peito para fora. Nenhum fio de cabelo fora do lugar. Seus passos são uniformes, como numa marcha. Instantes depois ela carrega com altivez sua bandeja. Mapeia o local e decide, estrategicamente, por uma mesa próxima à parede. Assim ficará de frente para o movimento, eliminando as chances de um ataque inimigo por trás. Senta-se e devora o filé à parmegiana com disciplina, condizente com as Forças Armadas. Mas em vez da Marinha ela poderia ter escolhido a Aeronáutica. Só para tirar um pouco os pés da terra, deixar as coisas voarem mais soltas, ao sabor dos ventos e, rumo às estrelas, descobrir que a Terra é azul.

Tem as Barbies. Moças que, se não nasceram iguais à boneca, foram dando um jeito pelo caminho. Embora algumas roupas só fiquem bem mesmo na original. Que não respira, não se mexe, não anda. Outras conseguem o impossível: ficar com a barriga incólume depois de um Número 1 com batata frita extra e meio litro de Coca-Cola. Só pode ser uma nova versão de Photoshop, que saiu dos computadores para a vida real. Como um spray, que pode ser levado na bolsa. Quem vai querer?

Tem o grupo de moças que reúne duas mesas para almoçarem juntas. Uma usa calça com cintura alta, quando não deveria. Outra veste blusa de um ombro só. O deslize: sutiã de alça de silicone. A bolsa de uma delas é Louis Vuitton, mas o sapato perdeu a validade há tempos. Enfim, entre as vítimas da moda, infelizmente algumas são fatais. Há poucas sobreviventes.

E tem a calça saruel. Oh, a saruel. A incógnita do início deste século. Se por um lado ela é uma celebração ao conforto e à liberdade de movimentos – a qual eu me rendo, sempre um pouco hesitante – por outro é uma quase afronta estética, um acidente. A saruel talvez seja o fundamento sobre o terceiro segredo de Fátima. Revelado antes da hora e, por isso, ainda incompreendido.

Tem a mãe que estaciona o carrinho do bebê, praticamente ocupando o espaço de outra mesa. Uma verdadeira extensão do quarto do pimpolho e da cozinha da família. Confiro os itens: uma mamadeira para água, outra para suco. Mais a de leite. O vidro com a papinha. O pratinho para a papinha. Um arsenal de babadores descartáveis. Dois travesseiros. Quatro brinquedos. Uma bolsa azul-clara de onde se tira tudo. E a mantinha, vai que o tempo vira. Ainda bem que tem rodas.

Tem outra de bebê. Sentada em seu cadeirão, a menininha tem um séquito de ajudantes para a mais simples das tarefas: comer. O avô segura-lhe o copo; o pai, o prato; a mãe faz o aviãozinho com a colher. Mas não há ninguém disponível para a única coisa que ela necessita, de verdade, naquela hora: pegar sua bonequinha que caiu no chão. É acudida pelo irmão mais velho. De três anos.

Tem o adolescente que pede dinheiro para o pai, quer um milk shake.  Ele se levanta e em dez segundos identifico, com extrema facilidade, cinco logomarcas na sua indumentária. Se ele fosse uma revista, seria remunerado para tê-las nas suas páginas. Mas ele ainda nem é um gibi.

Tem o casal que em meio a tudo – ou nada – promove um beijo longo e apaixonado, desses de cinema. Dá vontade de sentar na frente deles com um saco de pipocas, só para assistir. Eles não ouvem a sinfonia das latas de refrigerante se abrindo. Nem assistem a dança das cadeiras. A trilha sonora deles é outra.

Devo ser alvo de algum ‘satélite’, também. Talvez perguntem o que foi que comi, para rir sozinha e escrever tanto no verso do papel que veio na minha bandeja. Simples: sopa de letrinhas.

Carta para a Editora

R.Chappo/Flickr.com

Querida Editora

Houve um tempo em que eu, jovem, ficava até triste quando via a sua revista. Como naquelas vezes onde eu, criança, não podia ganhar a boneca que falava. Minha mãe dizia que eu era uma boa menina e a merecia. Mas que ela não era para mim. De um jeito parecido, eu folheava as páginas da sua revista e percebia que nada, ou quase nada, ou muito pouco, era para mim.

E eu ia ficando triste, editora querida.

Um dia entendi porque a boneca falante não poderia ser minha. Adulta, também notei que havia alguma coisa errada na sua revista. Porque você dizia que ela era para mim. Mas não era.

Hoje eu passeio pelas páginas onde você sugere coisas para que eu tenha um guarda-roupa bonitão e para que eu seja feliz. E me dá uma vontade doida de perguntar, querida editora.

Quantas leitoras da sua revista podem, de verdade, pagar pelos jeans, pelas blusas, pelas bolsas e pelos sapatos de três dígitos, tão próximos dos quatro, da sua vitrine de papel? Porque eu sei que mais da metade das suas leitoras são mulheres como eu. E eu não posso. Você acredita, de coração, que ser sexy e sedutora seja coisa que se ensine num passo-a-passo? Nem tudo na vida é pedagógico.

Certa vez, uma amiga se apiedou da minha primeira dúvida enquanto tomávamos um chá – eu lembro, era de capim-santo – e revelou: “É para pegar as ideias. Depois a gente vai atrás dos similares”. A dúvida só cresceu. Para quê mesmo a gente precisa pegar essas ideias? Não dá para termos as nossas? E se o original não dá, para que desejar o parecido, o quase igual? “A gente é imitador por natureza”, devolveu a amiga. E eu fechei o bico.

Então é assim, querida editora. A gente pega emprestada a sua ideia. Que não é sua, pois você emprestou de alguém. Que, por sua vez, não é o dono da ideia, e também emprestou de outro. E a gente vai pegando ideias emprestadas e se ajeitando cada vez mais nos balaios, um dentro do outro, formando o grande balaio-mãe das ideias comuns.

Querida editora, que graça isso tem?

Não é que eu desgoste totalmente da sua revista. Até gosto. Sou consumidora, afinal das contas. Mas a compra quase imaginária e a estética equalizada das suas páginas não deixam a vida meio sem sal?

Como eu lhe disse, houve um tempo em que eu até ficava triste quando via a sua revista. Mas hoje eu já sei de algumas coisas. Por exemplo, que aquela boneca não falava de verdade coisa nenhuma, querida editora.

Um abraço,

Chega de cinza (be sure to wear some flowers in your hair)

Foto: D Sharon Pruitt

Neste inverno, quando as cores mais sóbrias e tristes parecem querer dar o tom, nas roupas e nas paisagens, surpreenda. E faça como manda aquela música: “be sure to wear some flowers in your hair”.

Mesmo que você não esteja indo a São Francisco, mas ao trabalho. Mesmo que você vá ficar em casa. Mesmo que custe uns minutinhos a mais na frente do espelho: coloque algumas flores em você. Pode ser um brinco. Um lenço. Um anel. Uma blusa. Uma bolsa. Qualquer coisa com flor.

Mesmo que as semanas de moda tentem lhe convencer do contrário, e a despeito da temperatura lá fora despencar para os quinze graus, estampe-se de flores. E, se não estiver geando, deixe à mostra aquela flor tatuada no ombro, para espanto dos seus colegas de escritório que nem sabiam que você tinha uma.

Mesmo que chova. Mesmo que o carro tenha deixado você na mão e você vá trabalhar de ônibus. Melhor assim: mais gente verá sua flor. Mesmo que os ônibus entrem em greve e você tenha de ir a pé. Aí você vai colhendo flores pelo caminho para enfeitar a sua mesa.

Mesmo que as coisas, no geral, não estejam do seu agrado. Mesmo que seja a centésima vez que você diz para si mesma que vai procurar outro emprego, mudar de profissão, terminar com o namorado, falar sério com o marido, ter mais paciência com os filhos. Que vai começar a caminhar. Que vai se alimentar melhor. Que vai colocar mais vestidos no seu guarda-roupa. Aproveite e comece por um florido.

Mesmo quando os cinzentos tentarem estragar seu dia, faça como o doce touro Ferdinando: prefira sentir o perfume das flores a entrar na briga. (Só tome cuidado com as abelhas.)

Mesmo que você use todos os seus trocados, compre todas as flores daquele senhor no sinal. Depois, dê-as de presente para seus vizinhos. Pois gentileza gera gentileza, alguns sabidos já notaram.

Empunhe sua flor e mostre que você está, sim, entendendo muito bem o que acontece no Irã, no Sudão e, principalmente, na sua cidade. E mesmo que para alguns soe como cafonice nostálgica e piegas, mostre que sua Flower Power está mais viva do que nunca.

Mesmo que você não tenha vivido os anos sessenta e setenta, jogue o meio tom e a sisudez para escanteio, e assuma a cor por inteiro. (Aliás, o mundo, hoje, está a cara de quem nasceu naqueles anos que prometiam tanto.)

Não tenha medo: vá de flor.