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A aula

telefone 3

Gostava de ouvi-lo ensinar como funcionava o telefone. Eu sentadinha à mesa da cozinha, maravilhada com meu pai explicando coisas sobre voz, eletricidade e cabos. Suas mãos iam simulando, sobre a toalha estendida (a xadrezinha?), o caminho que a chamada percorria para ir de uma ponta à outra. Eu ficava maravilhada com a tecnologia e com meu pai, que sabia tanta coisa (ainda que não soubesse tanto assim). Cheguei a pedir-lhe várias vezes para repetir a “aula”.

Ontem liguei para ele. Seu Tonico não é, mas estava especialmente surdo. Pediu notícias das crianças, dei, não sei se ele ouviu; só soltou um Aaah. Contou-me que havia varrido todas as folhas secas pela manhã. Perguntei-lhe se havia almoçado direitinho. Ele continuou falando da varrição. Lembrei-me da velhinha surda d’A Praça é Nossa, aquele programa de TV. E ri. O script agora é outro.

Enquanto ele discorria sobre a trabalheira que as folhas lhe deram, lembrei-me da aula do passado. Meu pai ensinou-me sobre algo que, hoje, tem dificuldade para usar. Na nossa breve conversa, o meio era a mensagem.

E agora, quando o visito, sou eu que ensino a ele como funciona uma ligação pela internet. Apanho o celular na bolsa e ligamos para minha irmã, sua filha do meio, que mora em outro país. Ele tem telefone, mas não acerta ligar para ela, muitos números. E não adianta colocar o numerão na memória do aparelho. A memória que não funciona bem é a dele. Vou demonstrando a mágica da chamada. Mas não tem mais a mesa da cozinha, nem a cozinha. Nem as toalhas. Mas tem ele, feito criança, maravilhado com a tecnologia e comigo, que sei tanta coisa (ainda que não saiba tanto assim). E, assim que minha irmã atende, ele passa a falar muito alto no aparelho, como se fazia antigamente. Eu que não vou ensiná-lo que não precisa mais.

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Os Crocs novos do meu pai

Meu pai só anda de Crocs.

Depois que descobriu o calçado que não o deixa escorregar nem em chão de ladrilho ensaboado, Seu Tonico nunca mais quis saber de outra coisa. Dia e noite, noite e dia. Primavera, verão, outono e inverno. Casamento, batizado, passeio no shopping, consulta no cardiologista, férias na praia, almoço na casa dos filhos? Crocs. E, apesar de ter outros exemplares, há o eleito.

Teoricamente indestrutíveis, os Crocs do velho Tonico contrariaram as previsões e ficaram mais gastos que pneu careca. Andou levando uns tombos, nada bom para quem tem oitenta e três anos. “Vamos comprar outro, pai?”. Declinou o convite o quanto pode; não era necessário, os deles estavam “tão novos”.

Foi difícil convencê-lo. Aliás, anda difícil convencê-lo de muitas coisas, ultimamente. De atualizar a dentadura, de afrouxar o cinto (um medo inexplicável de que as calças desabem). Na velhice, ou se convence de tudo, ou se convence de nada. Nada importa, tudo importa ou importa de um jeito diferente do senso comum.

Meu pai foi sapateiro na juventude. Primeiro emprego quando chegou a São Paulo, anos cinquenta. Alguém lhe arrumara trabalho em uma fábrica – Calçados São José, ele nunca esqueceu. Assim como ainda se lembra dos termos que envolvem seu feitio: cabedal, balancim, cambrê. Ganhasse hoje um pedaço de couro e solados de borracha, talvez confeccionasse os próprios chinelos. (Que seriam inúteis, ele não usa chinelos. Só Crocs.)

Por conta da antiga profissão, meu pai não é freguês comum e costuma dar uma aula de sapataria aos vendedores. No dia de ganhar os Crocs novos, ele pôs a vendedora doida. Não deixou a mocinha ajudá-lo a calçar, pois ela não estava fazendo aquilo direito.  Explicou a engenharia da peça, discorreu sobre como se escolhe um calçado novo, a distância correta entre o fim do dedão e o limite do sapato. Experimentou vários modelos, deu voltinha na loja, analisou e deu o veredito: “Gostei deste”. A equipe da loja, compadecida, respirou aliviada.

“Já vai com ele, pai!”. E, para não correr o risco de ele voltar a usar os Crocs gastos, eu e meu irmão inventamos que a loja dava cinquenta por cento de desconto se ele deixasse o par velho para reciclagem. A vendedora entrou na onda e também tentou persuadi-lo. Não funcionou: ou ele levava seus amados Crocs para casa, ou nada feito.

Como pais rendidos diante da birra de seu rebento (porque toda história se inverte, um dia), cedemos: “Tá bom, pai. Leva.” E lá foi ele, feliz da vida, carregando seus velhos e fiéis companheiros nos braços, os novos companheiros nos pés. Que ninguém chegasse perto da sua sacola; Seu Tonico rosnava.

Desde aquele dia, os Crocs novos estão no armário, ao lado dos velhos. Não saem de lá nem para buscar o jornal. Acabou pegando emprestado de alguém outros Crocs, usados, feiosos. E é com esses que ele agora vai pra cima e pra baixo: casamento, batizado, passeio no shopping, consulta no cardiologista, férias na praia, almoço na casa dos filhos. Se lhe perguntam onde os arrumou, ele diz que ganhou. E mostra, orgulhoso, o solado antiderrapante.

Quem derrapa sou eu, na paciência.

Mas meu pai está feliz. Então eu também vou ficar.

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Nota: para quem quiser saber mais de Seu Tonico: https://fiodameada.wordpress.com/2014/04/25/meu-pai/

Devaneios pós-férias escolares: como tudo começou

Descobri tudo.

Escolas, na verdade, foram inventadas para proporcionar a pais e mães – mais mães que pais – algum período livre durante o dia. Uma espécie de folga da cria, descanso fundamental nas tarefas inerentes à paternidade e maternidade.

Depois é que foram aperfeiçoando a ideia. Vislumbraram na instituição outras utilidades, como ensinar a ler e escrever.

E o que seria apenas um jardim da infância virou o jardim da pré-adolescência, evoluiu para um jardim da adolescência, culminando num jardim da juventude inteira. Depois que os jovens estivessem crescidos, donos dos seus narizes, morando sozinhos, trabalhando e pagando suas próprias contas, a escola estenderia sua função primária, e passaria a atender os filhos destes, depois os netos e assim por diante, num ciclo infinito.

O problema é que aqueles jovens já estavam, irremediavelmente, acostumados ao ambiente escolar, ao convívio com amigos e professores, ao recreio e seus salgadinhos, às vans, à biblioteca, às gincanas, ao centro acadêmico, às festas de formatura. Resolveram, então, continuar na escola. Surgiram, assim, as universidades.

Com o tempo, crianças cada vez mais novas – bebês de colo, inclusive – foram apresentadas ao maravilhoso mundo da escola, sob o pretexto de que tanto pai quanto mãe desejavam, ou precisavam, trabalhar fora. Balela.

Desconfio que, por trás da engenhosa criação, havia uma mãe à beira de um ataque de nervos, ávida por paz. Disposta a tudo para ter sossego em seu lar, e inteligente o bastante para conferir à invenção um sentido nobre e politicamente correto. Claro: para que não a chamassem de bruxa, livrando-a da fogueira.

Descobri, então. Não foi fácil.

O tapa

Foto: Mathew Wilson
Foto: Mathew Wilson

O primeiro – e único – tapa que levei da minha mãe é tão antigo e vivo quanto a falta que ela me faz.

Ela fazia tricô para fora, como se dizia. Ou era o contrário. Porque vinha de fora para dentro de casa o dinheiro que ela recebia em troca dos casaquinhos de bebê, sapatinhos e mantas tricotados à máquina. E para dentro dela, também, os elogios que recebia, ficava tudo bonito. Nenhum trabalho é para fora, acabo de descobrir.

Um dia, eu quis ajudá-la. Adiantaria aquela encomenda. Um macacãozinho, talvez? Aproveitei uma saída sua do quarto, que fazia as vezes de ateliê. Sentei-me de joelhos em sua cadeira, alta para mim, e arregacei as mangas. Parecia não haver segredo. No entanto, antigamente as máquinas de tricô não eram como as de hoje. Na Lanofix verde da minha mãe, uma única carreira exigia várias manobras, num processo lento e delicado (mais rápido, porém, que o tricô feito à mão). Passa o carro para a direita, ajeita aqui e ali, tira o pente com os pontos, encaixa o pente de volta, passa o carro para a esquerda. (‘Carro’, para quem nunca tricotou numa máquina, é aquela peça que vai de um lado para o outro, tecendo a malha.) Determinada em minha intenção, me pus a trabalhar. Não dei bola para nenhuma das etapas. Tudo que fiz foi levar o carro para lá e para cá. Não estava ficando muito bonito. Mas minha mãe sempre dizia que, no começo, não dá para ver direito como a peça vai ficar. Continuei. Carro para cá, carro para lá, que coisa mais fácil tricotar! Eu também poderia começar a ganhar meu próprio dinheiro, por que não? O carro para lá e para cá. Poderíamos compartilhar a máquina, mamãe e eu, enquanto eu não comprasse a minha própria. Será que vendem para meninas de cinco anos? O carro para cá e para lá. A malha continuava meio esquisita, mas ela tinha falado, no começo é assim. E o carro para lá e para cá. Ela voltou ao quarto, um grito. Eu não entendi nada, mas ela sim: a encomenda tinha ido para o brejo.

Foi um só, e bem dado. Não lembro onde pegou. Corri para o banheiro, me tranquei. Ela veio atrás. Pediu para eu abrir a porta, não abri. Ficamos assim: eu chorando do lado de dentro, ela chorando do lado de fora. Fosse ópera, seria acompanhada de uma tristonha sinfonia. Fosse cinema, usariam aquelas câmeras suspensas e, como se houvessem arrancado o telhado da casa, mostrariam a cena lá de cima: uma fina porta a separar mãe e filha. O meu choro, dos olhos para fora, não era de dor, e sim de incompreensão. Tapas doem mais pelo que representam que pelo que são. O dela, banhado em remorso, vinha de fora para dentro de seus olhos. Tal o verdadeiro sentido do tricô fabricado para as vizinhas e a parentela. Aquele, que eu falei no começo.

A mão viu no tapa a solução para o que ela, a mãe, não soube resolver na hora. A mão viu a noite passada em claro, consertando o estrago. A mão viu a freguesa cobrando a encomenda. A mão viu (previu) o que os olhos não viram. A mãe, cega, obedeceu à mão. E elas, mãe e mão, eram tão doces.

Não tenho a quem perguntar como a história terminou, então rio sozinha. Não sei onde está a velha Lanofix, perdeu-se nas mudanças. Encontrei-a por acaso no meio das lembranças, encaixotadas em meu porão particular.

Sobre fazer gente

As Renatas, uma que é de Salvi e outra que é Rossi, são donas do blog “Olhos para o mundo. Elas me convidaram para escrever um post sobre a minha experiência com a maternidade. Escrevi. E elas postaram . Agora eu posto aqui.

Ilustração: Ahlam Baha/Flickr.com

Quando eu estiver diante de Deus para prestar contas, e ele perguntar o que fiz durante a vida, para ver se mereço tomar chá com rosquinhas em sua companhia na varanda do céu, aos sábados, direi: um bocado de coisa. Fiz amigos, irmãos, faculdade, festa. Tricô (crochê não), planos, piada e poesia. Fiz amor, não fiz guerra. Fiz de conta e fiz por merecer. Fiz que não vi, fiz por fazer, fiz sem fazer. Fiz chorar. Fiz tempestade em copo d’água. Fiz bolo para vender no colégio e vestido na máquina de costura da minha mãe. Fiz aniversário quase uma centena de vezes. Fiz de tudo para ser feliz. Mas se ele quiser saber do que mais me orgulhei de ter feito, responderei: gente.

Tenho um filho que não fui eu que fiz, já veio pronto: meu enteado. Meu primeiro filho foi, portanto, o segundo. Feito quando quase acreditei que não daria mais tempo. Deu. Hoje sei que havia tempo de sobra. A gente nunca entende direito o tempo do tempo. Depois, fiz minha filha. Não há nada mais poderoso que uma mulher com outra dentro. Costumo dizer que tenho, então, três filhos. Dois que saíram da barriga e um que entrou no coração. O que, no final, dá no mesmo. Tatuei seus nomes no verso do meu corpo. Publiquei o amor.

Brinco que quando se tem filhos a vida vira de ponta-cabeça. De cabeça para baixo a gente enxerga as coisas de outro jeito, é só fazer um teste na sala de casa. Com filhos, nos despedimos do sono tranquilo, do umbigo próprio, da vida no singular. Dizemos ‘até logo’ para a carreira. Por outro lado, damos boas-vindas aos novos personagens dos sonhos, às diferentes formas de trabalho, à vida no plural.

Fazer filhos é um processo artesanal. Sai um diferente do outro. Uma falhinha aqui, um defeitinho ali. É justamente esse o charme. Quando se decide fazê-los, não se sabe como eles virão. A vida não tira pedido. É tudo surpresa. Não há acasos, porém. Filhos são exatamente como precisamos que eles sejam, e vice-versa. Disso não se deve duvidar, muito menos reclamar. É bom repassar essa lição de vez em quando.

Gosto de ver meus filhos dormindo com o pai. Assim posso decorá-los com calma. Gosto de vê-los tomando banho. Gosto, sobretudo, de vê-los desenhar. Nessa hora eles recriam o que já esqueci. Gosto quando contam histórias sem sentido e fazem associações malucas. Gosto quando aprendem coisas novas; no fundo, estão é me lembrando que não tenho feito isso. Gosto quando cantam fora do tom, inventam notas e vão montando a trilha sonora das suas vidas. Gosto de reconhecê-los pelo cheiro e pelo gosto. Gostaria de carregá-los pelo cangote, como fazem as gatas. E gosto de ver o que não via antes deles.

Ao final da prestação de contas, caso Deus pergunte se os filhos me abriram novos olhos para o mundo, vou dizer que não. Meus olhos são os mesmos de antes. Tudo que fiz foi mudar a direção do olhar.

Bizarre Love Triangle

Ilustração: Fave/Flickr.com

Ele vai perguntar o que vou querer hoje, como se já não soubesse. Nesta porcaria de restaurante que ele insiste em vir todo domingo só o risoto de shitake presta. Queria ter ficado em casa. Tão cansada. Na verdade, preferia ter saído sozinha. Está difícil até olhar para ele. Aonde é que foi parar a nossa alegria dos primeiros jantares, hein? Virou alergia. Alegria e alergia têm as mesmas letras. A mesma base. Mas nesse caso a ordem dos fatores altera o produto. Uma representa o que atrai; a outra, o que repele. O Henrique precisa cortar esse cabelo, olha só como está comprido. Fica com ares de menina, não gosto disso. Eu não falo nada, não dá para conversar com ele, nessa idade é impossível dialogar. Mas que fica estranho, fica. Que horas devem ser? Tão tarde para jantar. Como eu odeio domingo. Só de pensar no que vou ter que enfrentar amanhã, outra urticária. Queria poder jogar tudo para o alto. Para o alto não, senão cai tudo em cima de mim. Para trás, bem longe, seria melhor. Mas se eu pensar em parar de trabalhar, a casa cai. Quero ver como vou fazer no ano que vem. Marquei as férias, ele insistiu tanto. Mas não estou com a menor vontade de viajar. Nem de jantar. Nem de falar. Nem de nada.

Ela e esse mau humor. Anda uma pilha de nervos. Deve ser a auditoria. Eles pegam pesado mesmo, sei como é esse pessoal. Já disse a ela para sair do banco, entra por um ouvido e sai pelo outro. Ela reclama mas, no fundo, não vive sem aquilo. Tantos anos, já criou raízes. Falta pouco para ela se aposentar, se acomodou. Ano que vem as coisas melhoram. Vamos viajar, só nós dois. Ela pede isso há um tempão. Henrique fica na casa dos meus pais, são só duas semanas. Quem sabe eles não o convencem a cortar o cabelo. Ainda não vi o Luís por aí. Deve ser a sua folga hoje. Vida dura, a de garçom. A minha também, não anda nada fácil. Por mim, teria ficado em casa, estou um caco. Mas sei que para ela é importante dar uma saidinha no fim de semana. Ela gosta daqui, é doida pelo risoto de cogumelo.

Que saco, impossível passar dessa fase. A dica do site está furada, não dá para passar pelo labirinto, nem matando os avatares. Terça tem prova, tinha esquecido. Depois eu pego a matéria com a Ana Banana. Se ela deixar, pego mais alguma coisa também. Ah, não tinha visto essa saída aqui. Agora vai. Não sei por que a gente tem que sair pra jantar todo domingo. Já almocei com eles. Conversei, contei da escola, respondi tudo o que eles queriam saber. Não está bom? Nunca consigo assistir Drake & Josh inteiro. Eu queria ter ido pra casa do Darth Vader, ia todo mundo lá ver o Wii novo. O que eu vou comer hoje? Já conheço esse cardápio inteiro. Eles, eu sei: ela vai pedir aquele arroz esquisito, ele vai de estrogonofe. Gente velha pede sempre a mesma coisa.