Arquivo da tag: pêssego

Com açúcar, com afeto, sem chantilly

Arte: Dabs
Arte: Dabs

O doce mais doce que o doce de batata-doce é o doce do doce de batata-doce. Certo? Errado. É o pêssego em calda. Ao menos, no quesito doçura-afetiva particular, é. Seu quase formato de coração há de justificar.

Só tinha pêssego em calda muito de vez em quando. Aniversário, data especial, comemoração, dia de pagamento. Era coisa de rico. Se acontecia de ter chantilly para acompanhar, virava banquete. Aliás, chantilly também era uma extravagância. Reis e rainhas, eu tinha certeza, comiam as duas coisas todos os dias, no almoço, no jantar e no lanche da tarde.

Primeiro, o furo inaugural. Em seguida, o roque-roque do abridor ao redor da lata mágica, revelando que a alegria vem do açúcar – ou vice-versa. A lata, só uma por ocasião, tinha que dar para todos. As metades eram minuciosamente aferidas e divididas. Não me lembro se tinha briga quando a partilha era inexata. De exata, apenas minha felicidade. A gente alça uma coisa à qualidade de transcendental quase que por nada. Um pêssego em calda é um pêssego comum, só que com roupa de festa.

Não sabia como o deixavam daquele jeito, tão amarelo, nem por que tinham que ficar partidos ao meio. Até hoje não sei, não quero saber e, admito, tenho raiva de quem sabe. Um pouco de ignorância dá o tom à fantasia. (Quando descobri que os maravilhosos pontos de luz cor de âmbar que sinalizavam as estradas em obras, à noite, não passavam de baldes de plástico cor de laranja com uma lâmpada dentro, foi uma decepção. Nem todo mistério precisa ser desvendado.) Eu nunca vou ler uma receita de pêssego em calda. Não me conte – tapo os ouvidos, lalalalá – , porque não pretendo reproduzi-los. Não se faz remake de um clássico.

Ontem fui ao supermercado. Passei reto pelo corredor dos doces. Já ia dobrando a esquina quando parei. Voltei, alcancei uma, não mais que uma lata. Não comprei chantilly, que nem precisa. A felicidade, que já custou mais, hoje sai por cinco reais e oitenta e nove centavos.

E, curiosamente, ainda me é tão cara.

Anúncios

Frente, verso e prosa

Ilustração: Johanesj/Flickr.com

De costas, ninguém é fresco. De costas, não se vê bom nem mau humor. De costas, não existe pessoa triste. Nem feliz. De costas e à noite, todos são pardos como os gatos. De costas, tudo é ausente. Não há documento com foto da pessoa de costas. A identidade está na frente. O sexo está na frente. A bondade, tal a maldade, está nos olhos. Que estão onde? Três dos cinco sentidos estão na frente. Caminhar de frente é fácil. De costas é que são elas. Em alguns casos, literalmente.

O moço deixou o troco de três reais para o sorveteiro e, apressado, atravessou a rua. Cruzou na frente do táxi que freou para não atropelá-lo, trombou com um casal que esbravejou em alemão, desculpou-se em francês. Desviou do homem que varria a calçada e alcançou a moça de longos cabelos vermelhos, presos num rabo-de-cavalo frouxo, escolhendo pêssegos numa banca. Tocou-lhe as costas, ofegante e confuso:

– Lara???

Assustada, a ruiva virou-se e apertou a bolsa na frente do corpo. Pensou ser assalto. Mas não era nem assalto, nem era Lara.

– Meu nome é Laura – a moça respondeu, desconfiada.

Por trás, Laura e Lara eram iguais até no jeito de arrumar os cabelos. De frente, nem tanto. Ele ficou, por um segundo, envergonhado pelo equívoco. Outro segundo, constrangido por continuar encarando a moça, sem lhe pedir desculpas pela trapalhada. E mais um segundo, embasbacado: Laura era mais bonita que Lara. Laura tinha um quê a mais. Um “quê” não, um “u”. Às vezes, uma única letra altera uma palavra, que modifica um sentido e transforma uma história inteira. Às vezes, três segundos e a vida toma outro rumo.

– Acho que você se enganou… – ela resmungou, retomando a seleção de seus pêssegos.

Engano: substantivo masculino. Significados: ilusão, erro, logro. Laura não se parecia com nenhum deles. Laura era linda. Mais que Lara – esta sim, bem traduzida pelas três acepções. Fora embora há um ano, sem deixar rastro ou bilhete. Levou a cafeteira, o Genius que ele guardava desde criança, as violetas da varanda e o gato. Ele encarou, não sem certa dor, todas essas perdas. De costas não se enfrenta nada. Agora aquela moça, metade parecida com Lara, a moça desaparecida com o vento, surgia para perturbar. Ou para resolver. Quem é que sabe o que está por trás, ou à frente, das coincidências?

– É… Eu me enganei um dia – ele explicou, ainda ofegante e já um pouco feliz, mãos apoiadas na cintura – Não vou me enganar de novo.

Laura não compreendeu. Nem poderia. Ela não era Lara.

– Engraçado – ela foi dizendo, enquanto buscava o perfume de um pêssego – você também me lembra alguém…

Ele ficou mais ofegante, e mais feliz ainda pela trela que a moça lhe dava. Teria algum tempo para decorá-la. Assim, se não a visse de novo, bastaria fechar os olhos e ela brotaria à sua frente.

– Vira um pouquinho seu rosto de lado? – ela pediu.

Ele exibiu seu perfil, hesitante.

– Minha nossa! Você é igualzinho… – ela sorriu, desconversou e quis saber quanto eram os pêssegos.

Nem só frente, nem apenas verso. Outra dimensão se apresentava aos dois. Ela já buscava uma nota de dez na bolsa quando o dono da banca, que até então não havia entrado na história, anunciou:

– É um presente do cavalheiro, senhorita.

Piscou para o rapaz, que entendeu e topou o negócio. Depois voltaria ali para acertar. Nada como pensar lá na frente.