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Qual é a música?

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Minha cidade tem mais de um milhão de habitantes. É dona de respeitável PIB e do principal polo de tecnologia da América Latina. Está bem na foto quando o assunto é IDH, e algumas das nossas melhores universidades estão aqui. É metrópole pra ninguém botar defeito, meu chapa.

E sabe da maior? A emissora de rádio da prefeitura (que toca cada musicão, de vez em quando) é dessas onde as pessoas ligam para pedir música. Os locutores vivem distribuindo beijos e abraços aos ouvintes, carinhosamente chamados de amigos. O João da loja de pneus, a Maria da lanchonete, o Zeca do supermercado – ninguém fica sem sua música.

Em tempos de You Tube e Spotify, onde qualquer um pode ouvir o que quiser e na hora que quiser, pedir música na rádio é um ato de bravura, a desafiar o império do streaming. Os ouvintes da rádio da prefeitura de Campinas são os heróis da resistência.

Nunca pedi música para rádio nenhuma. Nem dediquei, pelas ondas do rádio, canção a alguém. Tampouco tive uma dedicada a mim, fosse por AM ou FM. Nada feito pela internet, nesse sentido, entra no levantamento. Há um vácuo em minha biografia afetivo-musical.

Nasci e vivi por mais de três décadas em São Paulo. Lembro de, lá pelos anos 80, chegar da escola às seis da tarde e ir correndo ligar o rádio. Queria ouvir As Quinze Mais Pedidas. Houve uma época em que Swingue Menina, do A Cor do Som, ficou em primeiro lugar. Eu ia à loucura na pequena sala da casa da vila da rua Natal. Mas não ajudava a decidir o ranking. A gente não tinha telefone.

Hoje tenho. Aliás, em casa há mais telefones que pessoas, num contrassenso digno de nota (musical?). Bem que eu podia acertar as contas com o passado. Não saberia, no entanto, que música pedir.

Swingue Menina, talvez.

Eu não quero saber o que é “Le Crabe”

Eu não sei o que diz a letra da música Le Crabe. Aquela, da Françoise Hardy. Aquela, que foi sucesso na década de 70 e até tema de novela da Globo. Eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Só sei que eu a ouvia numa fita K7 gravada pelo meu irmão. E ela passou a fazer parte do meu imaginário musical.

Dos Beatles, traduzi tudo que caiu nas minhas mãos. Sentadinha no sofá, encarte e dicionário ao lado, Lô-lôv-mi-du. O mesmo fiz com tantos outros. Le Crabe, no entanto, não. Recuso o spoiller até hoje. Nem quando entrei num curso de francês na PUC eu desejei traduzi-la. Nem quando minha irmã virou francesa; nunca lhe telefonei pedindo “Traduz pra mim?”. Fugi, fujo e fugirei sempre dos dicionários e dos tradutores instantâneos e também das pessoas que, embora bem intencionadas, já tentaram revelar o irrevelável. O amigo generoso mandou-me a tradução pelo Messenger. Excluí a mensagem. Sem dó, sem ler. Não é ingratidão. Só não quero destruir minha memória afetivo-musical.

Porque, no fundo, eu sei o significado da letra.

Os primeiros versos de Le Crabe, por exemplo, falam do risoto de ervilhas com palmito que tinha em casa, aos domingos. Um panelão enorme, pra durar até terça-feira, feito a quatro mãos pela minha mãe e minha avó.

Aliás, Le Crabe, que tem uma parte meio tristonha, fala da minha avó também. Que afogava gatinhos recém-nascidos no tanque quando a nossa gata dava cria, naquele tempo ninguém falava em castração. E a gata ia parindo. E a minha avó afogando. Se há alguma justiça nesse mundo de vivos e mortos, e se existe mesmo carma, dona Josephina há de estar no além trabalhando muito para compensar as maldades terrenas. Rodeada de gatos.

Já o refrão fala de quando meu pai recebia o salário no banco e passava na farmácia, para abastecer a casa com remédios, esparadrapo, Merthiolate, algodão. Ele chegava com uma caixa grande e sempre tinha Cebion. Que a gente comia como se fosse bala. Até hoje faço do mesmo jeito: não ponho na água, que isso é para os fracos. Descasco a pastilha e a encosto na língua, para senti-la efervescendo. Entre uma careta e outra, vou roendo devagarinho e adquirindo minha dose diária de vitamina C. C, talvez, de crabe – o que quer que isso seja.

Noutro pedaço, os versos falam das nossas viagens para Santos no Fusca, nos finais de semana. Sem cinto de segurança, sem protetor solar, sem dinheiro, sem garantias. Legítimos farofeiros. A tradução disso? Saudade.

É disso que fala a letra e pronto. E de mais uma porção de coisas. Le Crabe é, por sinal, uma das músicas mais compridas do mundo. Ela tem a duração da minha infância.

Por isso prefiro, em vez de escolher a obviedade do dicionário, atribuir significados particulares às palavras que não entendo e continuar sendo feliz com minhas memórias, ativadas ao primeiro acorde. Já pensou se descubro que Le Crabe fala de meleca de nariz, esquistossomose, loteria esportiva?

A ignorância pode ser uma bênção. Ou a senha para a liberdade.

Acho até que isso dá música.

 

“Le Crabe”, Françoise Hardy

O (falso) poder da tranqueira, do cacareco e da bugiganga

Ilustração: Matti Mattila/Flickr.com

Desfiz-me de todos meus terninhos. Mentira, guardei um. Considerando a hipótese, cada vez mais remota, de eu vir a precisar ou ter vontade de usá-lo. O pretinho para lá de básico é o único remanescente da dúzia que jazia aposentada no armário, representantes de uma época em que o traje era meu uniforme diário. Tão sérios. Tão caretas. Eu não era (tão) séria. Eu não era (tão) careta. Vesti-los, porém, era meu dever. E não se falava mais nisso.

Os tais fazem parte de uma nova onda minha: botar reparo no que está arquivado em casa – no armário, gaveta, caixa, vão, fresta –, sem que alguma explicação consistente justifique sua permanência. Como os supracitados terninhos e o livro sobre como cuidar de um bebê, recentemente flagrado na estante (sendo que não há mais nenhum na família). Ou a nota fiscal do chuveiro elétrico que já pifou e foi substituído. Um ticket de embarque, tão antigo quanto a história da aviação. O aparelho de DVD quebrado, cujo conserto não compensa. Faturas de cartão de crédito de quando eu era solteira. Um exame de sangue de 2008 e antibióticos vencidos. Uma dezena de hashis que vieram junto aos últimos pedidos do fast-food, sem contar os sachês de mostarda e catchup envelhecendo na despensa. Uma Barbie em versão Saci-Pererê, quatro bolas furadas. A lista, longuíssima, é fruto não só de uma certa desorganização doméstica, mas da ancestral necessidade de registrar e comprovar tudo (que parimos, que compramos, que pagamos, que fomos, que voltamos, que temos, que somos), respaldada pela síndrome do acúmulo, cujo lema é “Um dia eu posso precisar”. Depois, reclamamos que a casa ficou pequena.

Quisera ganhar no Dia das Mães um aspirador especial, que sugasse não apenas o pó da velharia inútil, mas a própria velharia e suas teias invisíveis – sobretudo as que se instalam nas ideias. Uma vassoura mágica, para varrer do meu lar o apego, que é meio-primo do medo. Procura-se faxineira de alma, para dormir no emprego. Paga-se bem.

Dia desses, vi na TV uma norte-americana, casada e mãe de sete. A moça mantinha no guarda-roupa, ao lado das peças do dia-a-dia, seu uniforme de animadora de torcida. Ela ainda cabia nele, não se tratava da clássica questão de desejar a antiga forma. O que ela queria de volta, e não sabia, era o passado. Que, claro, ficara lá atrás. Seus gritos de guerra agora eram outros. Não mais tão animados.

E meus terninhos? Personagens de um passado bom que, em irresistível trocadilho, não me serve mais. Foram-se, portanto, todos. Foram tarde. Menos o pretinho. Se bem que. Ele que se cuide.

A mulher das cocadas (ou: Sobre a confiança)


Ilustração: Larry Wentzel/Flickr.com

Responda rápido: a campainha toca, você atende, uma mulher que você nunca viu lhe oferece cocadas. Você compra?

Em dois mil e nove: nunca.

Em mil novecentos e setenta e pouco: se a iguaria parecesse boa, sim.

Foi assim que na Mooca dos imigrantes italianos, numa pequena vila com quatro casas, a mulher das cocadas ganhou sua freguesa-mirim. Que se lembraria dela até hoje, embora não soubesse seu nome, muito menos de onde vinha.

Mas sabia que vinha. Geralmente uma vez por mês, a mulher aparecia com seus doces. Uma senhora negra, arredondada, de bochechas sorridentes. Gentil. Quarenta e poucos anos, no máximo. Fazedora da cocada mais gostosa que já comi em toda minha vida. Cremosa, açúcar na medida certa – nem a mais, nem a menos. Flocos de coco num mar de leite condensado. Firmes e bem modeladas. Vá lá, há certa dose de nostalgia nisso tudo. Talvez fosse uma cocada comum. Mas o sabor dela e a imagem da mulher ficaram guardados na memória da menina de seis anos, naquele compartimento que costuma dar zoom em tudo: os sentimentos e as sensações das coisas boas e das ruins. E quando tem açúcar na parada, a lembrança fica cristalizada, doce, eterna.

Na primeira vez minha mãe comprou só algumas. “Para experimentar”, explicou. A mulher prometeu voltar para saber se havíamos gostado. Ela voltou, e os pedidos aumentaram. Até que um dia não houve mais pedido. Porque a mulher desaparecera. Ficamos órfãos da cocada.

A cocada branca da mulher negra ficou para trás. E o tempo trouxe outra dúvida: o que foi feito da confiança, esse sentimento que, ao lado da generosidade e da gentileza, movem a humanidade? Minha mãe olhou nos olhos da mulher, e a opinião saiu na hora. Ela não prestou muita atenção na maldade e no perigo que poderiam estar escondidos, disfarçados na forma de uma senhora bondosa e risonha. E deu certo.

Hoje só compramos alimentos que tenham nome, sobrenome, endereço, informação nutricional e prazo de validade. Sabe-se lá como é que a mulher fazia suas cocadas? Não importava, essa era a verdade. A cara dela era boa. A da cocada, melhor ainda. Pronto.

As relações pareciam mais simples, antigamente. Binárias: sim ou não. Longe do meio-termo medroso e cheio de dúvidas traduzido no “talvez”, “depende”, “mas e se” de agora. Sim, a nostalgia é uma forma de homenagem ao passado.

Mas confiança não deveria ser coisa do passado. Me diz: como é que a gente resolve essa parada?