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Tachados e perdidos

Moda é religião: cada um tem a sua, e todas costumam levar ao mesmo lugar. Com frequência, é divisor de opiniões e águas. Quase sempre, é bobagem discuti-la. Ou não.

Para o ano que corre, tudo indica, bíblias fashionistas providenciaram um adendo, ensaiado há algum tempo. Há no ar um novo mandamento sendo cumprido à risca pelos fabricantes de roupas, calçados e acessórios em geral, que juram ter ouvido Deus proferir, n’alguma fashion week: “Usarás tachas”.

Até a próxima estação, fiéis incautos obedecerão e irão ter com blusas, calças, saias, camisas, coletes, carteiras, cintos, tênis, botas, chinelos – os mesmos modelos do ano passado – , agora todos encrustados com alguma variação do adereço, a lhes conferir o ar afinado com a tendência. Ninguém quer ficar de fora.

Experimento um vestido e lá estão elas, as tachas. Flerto com um par de sapatilhas e lá estão eles, os spikes. É assim que as tachinhas pontiagudas se chamam, aprendo. Enquanto amplio meu dicionário de moda, sigo tentando adquirir uma peça livre deles. “A estrada é longa, o caminho é deserto”.

Inútil fugir. A invasão é maciça. A indumentária rebitada, claramente inspirada no universo rocker e punk, está presente no short da mocinha que vai ao pagode segurar o tchan. Na anabela da carola presente na missa das sete. No biquíni da professora de ciências. Na “gente humilde, que vontade de chorar”.

Onde foi possível, botaram tachas. Onde não foi, também. São os estilistas-papagaios comungando da mesma hóstia, perdidos em sua missão de criar.

Eu, que não quero ser tachada de chata, rezo quietinha uma Ave Maria e um Pai Nosso, na esperança de que o jeans da vitrine não tenha aplicado, nos bolsos de trás, o mesmo enfeite da coleira do cão Boxer da vizinha.

Tacha, só se for com xis, dos juros e juras de amor.

Spike, só o Lee.

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Crônica de minuto para quem calça 28

Arte: Frank Douwes

Na loja de calçados para renovar os pisantes dos filhos – pé de criança cresce mais rápido que bambu. Por um instante, quis que não fosse verdade: a caçula tirou as meias e os sapatos para experimentar o modelito cor de laranja e uma generosa porção de areia, clandestinamente vinda do parquinho da escola, se espalhou pelo chão. A aula deve ter sido animada naquela tarde.

Vendedoras ocupadas, fregueses entrando e saindo, não cabia pedir uma vassoura. Tomei rápida decisão e fiz a primeira coisa (muito) feia do dia: discretamente, apanhei uma das meias e “varri” com ela a areia para debaixo de um pufe. É dessas lojas com vários, coloridinhos, para a criançada sentar e se esbaldar em meio ao mar de opções. Aproveitei e descarreguei ali os grãos que restavam nos sapatinhos dela.

Lá ficou a areia criminosa, sob a proteção de courino lilás. Uma das vendedoras, de repente, inventou de arrumar o lugar. Ajeitou sapatos nas prateleiras, recolheu pares separados e… decidiu alinhar os pufes. Rezei, vibrei, torci para que ela não mexesse no pufe “x”. Como explicar aquela areia ali, combinando perfeitamente com o estado do uniforme da minha filha? Mentalização bem sucedida, passei a fazer a guarda do pufe.

Ter filhos pequenos é autorizar a vida a nos meter em saias-justas, outorgar à humanidade o direito de falar mal de nós.

Crianças revelam as mentiras dos adultos com verdades inconvenientes (“Fulano, não fomos ao seu aniversário porque fomos viajar”, ao que elas prontamente rebatem, na frente do Fulano, “Não fomos, não! Ficamos em casa!”). Flagram o nosso mau comportamento gastronômico, se atacamos o Doritos antes do jantar. Lascam comentários desconcertantemente sinceros se ganham um presente e detestam. Criam na sociedade a convicção de que nada ensinamos a elas, quando saímos de um restaurante e percebemos que nossa mesa ficou interditada para faxina. Ou quando agarram dez coxinhas ao final da festinha do amigo, “Para levar pra casa”.

Abreviei a compra dos sapatos novos, torcendo para não ser delatada pelo mais velho. Certifiquei-me que o pufe continuava no lugar e fomos embora. Ninguém viu nada.

Eu boto, tu botas, ela bota

Ilustração: Sai Pennell/Flickr.com

Pudesse, eu andaria de botas o ano inteiro. De cano longo. Na primavera, para inaugurar a amizade com a frente-única em flor. No verão, para inventar composições inusitadas. No outono, para combinar com a roupa nova das árvores, folhas amareladas e avermelhadas. No inverno, para me confundir com todas as mulheres.

Na década de 70 a rua onde eu morava, em São Paulo, era famosa por seus calçados. Quase todas as casas se transformaram em fabriquetas. Garagens viraram lojas. Toda portinha fervia nas manhãs de sábado. Pegar um táxi do outro lado da cidade para voltar para casa era simples: qualquer taxista conhecia a Rua Natal, no bairro da Mooca. Meu primeiro par de botas foi comprado ali – eu tinha quantos, uns seis anos? Em couro azul-marinho, um zíper que ia do tornozelo até quase o joelho. Cobiçadas por muito tempo na vitrine da Blue Star, antes de serem minhas. Naquele tempo, as coisas demoravam mais para acontecer. O dinheiro era curto. O desejo e a espera, longos. Hoje não há tempo de desejar; vai-se logo aos finalmentes. Estamos na era do querer abreviado.

Vinte e nove graus. Na rua, vejo a moça de saia curta e botas. Ao seu lado, a moça de calça comprida, meia de náilon, scarpin. Tenho dúvidas sobre quem passa mais calor. Ninguém se espanta com o homem de terno aguardando o sinal de pedestres, derretendo sob o sol da avenida. Todos têm, no entanto, um comentário e um olhar surpreso para a bota, em tese, fora de hora.

No dia em que ganhei as botas da Blue Star, na hora de dormir, pedi à minha mãe para calçá-las. Dona Angelina não deixou. O jeito foi adormecer abraçada a elas. Meus sonhos, por certo, contaram com uma estrela-guia diferente naquela noite. De um outro azul.

As botas duraram enquanto meus pés couberam nela. Casamentos, aniversários e lá íamos, as botas e eu. Talvez por isso ainda signifiquem tanto, tantas décadas e botas depois. O coração aperta: minha filha não se lembrará de seu primeiro par de botas. Porque o segundo, o terceiro e o quarto par vieram em seguida, senão ao mesmo tempo. Na fartura, é difícil ser nostálgico.

Botas conferem poder a quem as usa. Os gatos que o digam. Elas emprestam personalidade adicional às pernas, reforçam formas, sugerem conteúdos. Turbinam qualquer teco-teco. Longe de esconder, elas revelam o intangível sobre suas donas. O andar, mais firme, é capaz de desbravar caminhos, como fizeram os Bandeirantes. Que, aliás, usavam botas.

Uma pena as botas de cano longo só aparecerem quando faz frio. Como os morangos, antigamente. Mas hoje eles podem ser encontrados em qualquer mês do ano. Quem sabe, as botas.

Os sapatos novos da Cinderela

Ilustração: Silene/Flickr.com

Sábado em sol, a Cinderela saiu de casa bem cedo. Precisava de sapatos novos. Achava que os seus, de cristal, estavam meio fora de moda.

Na loja, surpreendeu-se: sapatos de todas as cores, modelos, materiais. Xadrezes, listados, de bolinhas, floridos. Altos, baixos, médios, anabelas, escarpins, plataformas, rasteiras. Sofisticados, despojados, clássicos, modernos. Todos, muito mais confortáveis que os seus. Cristal pode ser bonito, mas não é nada macio. Fica melhor em taças.

Pediu para experimentar um. O vendedor perguntou seu número, o que ela achou estranho. Olhou para os próprios pés e respondeu, confiante: “Dois.” O moço coçou a cabeça e arriscou: “Trinta e cinco.” Corrigiu o palpite, depois de um cálculo mental: “Não. Trinta e seis. Já volto.”

Enquanto aguardava, sentou-se na poltrona em frente a um enorme espelho. Olhava para seus sapatinhos refletidos. A ideia de trocá-los soou estranha. Estava a um passo, literalmente, de uma grande mudança na sua vida. Mais uma. A primeira havia sido na noite daquele baile. Com a ajuda das suas amigas fadas, ela ganhara aqueles sapatos mágicos, feitos sob medida para seus delicados pés. Agora, eles é que estavam prestes a se encaixar no que já estava pronto, existente, disponível. Como antes, enfim. (Embora essa espécie de retorno a deixasse feliz; agora a decisão era sua. ) Notou que os sapatos de cristal estavam duramente incorporados a si, como uma extensão de seus vestidos, pernas e pés. Não entendia como conseguira dançar tanto com eles, um dia. E, apesar de desejar intensamente um sapato novo, mais alegre e mais confortável, temeu não se sentir preparada para divorciar-se deles.

O vendedor desceu as escadas da loja equilibrando uma dúzia de caixas coloridas. Desabou-as na sua frente e, experiente, foi abrindo uma por uma, retirando o pé direito de cada par e os colocando diante dela. Havia ali tudo para qualquer personagem que desejasse ser. Ao contrário dos seus, que lhe conferiam eterna nobreza e perfeição, onde quer que fosse. Falante, ele comentou qual dos modelos estava vendendo mais, citou alguns desfiles da semana de moda, fez elogios, “Mas são pés de princesa!”. A cada modelo, ela se levantava e conferia tudo no grande espelho, levemente desanimada. “Não parecem ter sido feitos por uma fada”, murmurou. “Príncipe algum seria capaz de reencontrar sua amada, assim”.

Mas Cinderela estava determinada. Fez força e simpatizou com uma sapatilha azul-céu, feita em camurça. Sem salto. Uma borboleta verde-água enfeitava-lhe o dorso, ensaiando um voo. Mandou embrulhar. Aliás, melhor: já iria com elas. Seria um bom começo para abandonar aquela aparência sofisticada, porém frágil. Não precisaria mais temer trincar tudo por conta de um passo mais firme. Só não sabia como explicaria tudo ao príncipe. Ao sair da loja, teve uma ideia. Chamou o vendedor de lado: “Posso dar uma olhadinha na seção masculina?”