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Vermelho

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A primeira vez que pintei de vermelho as unhas dos pés foi aos trinta e nove anos. Tirante as brincadeiras de criança com os esmaltes da Dona Angelina, por três décadas condenei meus artelhos à mesmice do branquinho transparente – que tem lá seu valor. Os dedos superiores, no entanto, desde quase sempre gozam do privilégio das cores. Uma injustiça feita com as minhas próprias mãos.

A um passo da idade da loba, era hora de mudar isso. E, para combinar, não chapeuzinho, mas esmalte vermelho. Foi o dia do meu ‘empoderamento’ particular, numa época em que essa (odiável) palavra nem havia sido inventada.

Ensaiei. Meditei, consultei os oráculos, runas, I Ching. Quando cheguei ao salão, apontei, determinada, para o vidrinho cor de carmim. Até a manicure estranhou, “Pras mãos, né?”. “Não, meu bem”, respondi. Enquanto ela trabalhava, fui observando as rubras pinceladas, uma a uma. Primeira camada. Apenas um esboço sanguinolento, “Isso não vai ficar bom”. Segunda camada. Vermelho lúcido. Poderoso. Porreta. E um tsunami de emoções me devastava. Metade de mim só pensava nas sandálias maravilhosas que eu compraria assim que saísse do salão. A outra metade queria que o mundo acabasse em acetona.

Dividida, naqueles vinte minutos questionei o sentido da vida, a minha existência, de onde eu vinha e para onde ia, a razão de termos unhas. E não é que estava ficando bonito? Perguntei-me por que diabos – tinha que ser o diabo que, dizem, é chegado na cor – eu renegara aos meus pés, por tanto tempo, o direito à vermelhice. Aos poucos, para onde eu ia já nem era o mais importante, contanto que eu fosse de unhas pintadas.

E, antes mesmo que a manicure terminasse de passar o óleo secante, eu havia entendido.

Não estava pintando as unhas dos pés por conta do significado fácil contido no imaginário coletivo: sedução, fetiche. Mais que uma questão podal, compreendi que meu corpo poderia ser palco do que eu quisesse (e pé é corpo, gente!). Eu nunca fora proibida de pintar as unhas dos pés. Mas eu mesma me desautorizara, através de um autodecreto embotado e sem sentido. Quantos autodecretos assim guardo nas gavetas? Cadê minhas minissaias?

E assim eu, que já era adepta do vermelho sazonal nos cabelos, estava apenas estendendo a vermelhitude à extremidade sul. E amando.

Encerrado o serviço, a manicure começou a guardar seus apetrechos. Colocou os algodõezinhos cor de escarlate usados na limpeza no cestinho de lixo. “Quer que eu ajude a calçar os chinelos?”. Na verdade, eu queria ir para casa de ponta-cabeça, andando sobre as mãos. Primeiro, para não correr o risco de estragar tudo. Segundo, porque eu queria que todo mundo visse meus velhos novos pés.

Depois da experiência, foi natural liberar o arco -íris aos amados pés, que há exatos dez anos daquele dia D desfilam praticamente a escala Pantone inteira. Hoje, o estranho é eles não estarem esmaltados.

Toda mulher deveria, ao menos uma vez na vida, pintar as unhas dos pés de vermelho. Vale por uma sessão de terapia. E seca mais rápido que uma.

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Crônica de minuto para quem calça 28

Arte: Frank Douwes

Na loja de calçados para renovar os pisantes dos filhos – pé de criança cresce mais rápido que bambu. Por um instante, quis que não fosse verdade: a caçula tirou as meias e os sapatos para experimentar o modelito cor de laranja e uma generosa porção de areia, clandestinamente vinda do parquinho da escola, se espalhou pelo chão. A aula deve ter sido animada naquela tarde.

Vendedoras ocupadas, fregueses entrando e saindo, não cabia pedir uma vassoura. Tomei rápida decisão e fiz a primeira coisa (muito) feia do dia: discretamente, apanhei uma das meias e “varri” com ela a areia para debaixo de um pufe. É dessas lojas com vários, coloridinhos, para a criançada sentar e se esbaldar em meio ao mar de opções. Aproveitei e descarreguei ali os grãos que restavam nos sapatinhos dela.

Lá ficou a areia criminosa, sob a proteção de courino lilás. Uma das vendedoras, de repente, inventou de arrumar o lugar. Ajeitou sapatos nas prateleiras, recolheu pares separados e… decidiu alinhar os pufes. Rezei, vibrei, torci para que ela não mexesse no pufe “x”. Como explicar aquela areia ali, combinando perfeitamente com o estado do uniforme da minha filha? Mentalização bem sucedida, passei a fazer a guarda do pufe.

Ter filhos pequenos é autorizar a vida a nos meter em saias-justas, outorgar à humanidade o direito de falar mal de nós.

Crianças revelam as mentiras dos adultos com verdades inconvenientes (“Fulano, não fomos ao seu aniversário porque fomos viajar”, ao que elas prontamente rebatem, na frente do Fulano, “Não fomos, não! Ficamos em casa!”). Flagram o nosso mau comportamento gastronômico, se atacamos o Doritos antes do jantar. Lascam comentários desconcertantemente sinceros se ganham um presente e detestam. Criam na sociedade a convicção de que nada ensinamos a elas, quando saímos de um restaurante e percebemos que nossa mesa ficou interditada para faxina. Ou quando agarram dez coxinhas ao final da festinha do amigo, “Para levar pra casa”.

Abreviei a compra dos sapatos novos, torcendo para não ser delatada pelo mais velho. Certifiquei-me que o pufe continuava no lugar e fomos embora. Ninguém viu nada.

Vai ou racha

Ilustração: Adreson Vita Sá

Nada deve ser mais ocultado num casamento que calcanhar rachado.

É preferível revelar o que aconteceu naquela viagem a Porto Seguro quando vocês ainda namoravam, fornecer detalhes da república onde você morou no tempo de faculdade, falar das suas vadiagens adolescentes e até confessar que já beijou uma mulher, a expor na relação um par de calcanhares prejudicados. Será o fim. Restará, apenas, decidir quem fica com a Nespresso.

Antes seu marido descobrir que não foi você a autora do salmão ao molho de gengibre que o conquistou no primeiro jantar na sua casa, que você espia o Facebook do sócio dele todo dia e que aquele vestido não custou cento e cinquenta reais, do que vocês terem uma noite de amor interrompida por um carinho, digamos, mais cortante sob os lençóis. Pior: ter que explicar por que namora sempre de meia soquete.

E a culpa é toda sua. Passa o verão metida em rasteirinhas, anda descalça pelo quintal curtindo sua fase natureba de “conexão com a terra”, capricha no hidratante da região superior e negligencia a inferior. Pensa que só as formigas e seres rastejantes notam seus pés e que semiárido é somente uma região do nordeste. Não, querida. Passível de justa causa, sola de pé desertificada tem peso dois em relação à celulite. Depois não reclame. Nem chore de saudade dos tamancos e dos sapatos Chanel.

Se o problema lhe assolar, mantenha o segredo a sete chaves (e jogue todas fora). Veja o que aconteceu a Aquiles. Em períodos de seca, para poupar o relacionamento e a palmilha dos seus calçados, lance mão de tudo que disserem para você fazer. De simpatias a receitinhas caseiras – sempre escondida, na calada da noite. Invista uma grana preta naquela dermatologista que não atende nenhum convênio. Faça promessa para Santa Rita, a das causas impossíveis. Se nem ela topar, peça emprestado ao marceneiro de sua confiança a lixadeira e a politriz. Recorra ao SUS.

Ou vai, ou racha.

Pés sujos

Ilustração: Hagar E/Flickr.com

Dormi com os pés sujos, ontem.

Precisei dum tomate para preparar o jantar, interfonei para a vizinha. Vizinhos sempre têm tomates. Não tinha chinelo perto. Então fui buscar descalça.

Vizinhos são generosos ao emprestar comida. Você pede açúcar, leva a sua xícara para não dar trabalho, e eles surgem com uma quantidade muito maior, devidamente acondicionada numa vasilha grande. Às vezes, dão um pacote fechado. Mesma coisa com batata, ovo, leite condensado. Ontem, eu trouxe dois tomates estalando de vermelhos.

Não só. Voltei para casa com toda sorte de coisas grudadas nas solas dos pés. A maioria, invisível ao meu olho nu, tão nu quanto meu pé. Seres vivos do tamanho de um nada, habitantes das rugas do asfalto. Ciscos, pó.  Rastros de bichos que passaram por ali, pelo de cachorro, raspas das solas de sapatos que vão ficando pelo caminho, pensa que isso não acontece? Uma solitária gota d’água da chuva que veio e foi. Escamações do dia e da noite, pegadas do orvalho, fuligem de gente – a minha própria. Vieram todos dormir no meu lençol porque, findos jantar e dia, me deitei com os pés sujos. Uma preguiça invencível de lavá-los antes, e a certeza de que mal não haveria. Não tive nojo, nem medo de ficar doente. Sujeira boba assim não adoenta ninguém. Falta de comida e de música, sim.

A hora do nascimento é a única onde pé é genuinamente limpo. Os minúsculos dedos, cegos, à procura de algo onde possam se agarrar. O parto é um voo. A partir do pouso, sabão nenhum dará conta de deixar os pés tão limpos quanto eram no útero preservado.

Jesus sabe disso. Morreu com os pés sujos.

Quando meus filhos nasceram, não conferi o número de dedos em cada um de seus pés (e mãos), como já tinha ouvido algumas mães confessarem. Não conferi se faltava alguma coisa. Não conferi nada, essa é a verdade. Só lhes sorri e disse ‘olá’, como convém quando se reencontra um velho amigo.

À noite, na hora do banho, tudo que minha cria fez ao longo do dia está registrado em seus pés. Meus olhos, nariz e mãos de mãe descobrem tudo. Se pisaram a terra, se jogaram bola descalços. Se estiveram o dia todo de meia e sapato. Sola de pé é uma espécie de diário.

Luz apagada e sonhos em fila aguardando a vez, esfreguei meus pés, um no outro. Ih, espalhei tudo – pensei. Vestígios do dia, memórias de outra volta da Terra – redonda como o tomate que participou da minha refeição – em torno de si. Ou de mim? Que venha a boa noite.