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Aperte aqui

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No salão de beleza tem. No cartório também. Na loja de roupas e na sala de espera do consultório médico: máquina de café com os botões de controle improvisadamente cobertos, exceto um; o único autorizado, caso se deseje um cafezinho.

Fazem isso porque o pessoal – fregueses, pacientes – é fogo. Vão se servir, veem uma porção de botões, não sabem para quê é qual, e acabam mexendo onde não devem. Promovem a lambança geral. Para desespero de quem trabalha no lugar, que precisa acudir a velhinha desavisada que mandou ver na água pelando ou o garoto traquina que achou bonito tirar um café longo no copinho pequeno.

Contra a mexeção inadvertida, só papel sulfite e durex salvam.

Os que zelam pelo bom uso da máquina de café, cortesia da casa, desenvolvem esquemas anticaos de ocultação aos controles proibidos. Recortam papéis, deixando à mostra somente os permitidos. Grudam etiquetas de “aperte aqui” e, para reforçar, acrescentam setas indicativas. Redundância é segurança de informação, reza o módulo I da teoria da comunicação.

Tudo pelo bem do cafezinho e da paz local.

A culpa, no entanto, não é das pessoas.

A culpa é das coisas.

As coisas que têm botões demais. Opções e possibilidades demais.

Só na maquininha do espresso, são três níveis de café. Botão de autolimpeza. Regulagem de moagem. Um convite ao furdunço.

Eu sou cheia dos botões.

Tenho botõezinhos de me fazer dar risada, querer beijar, abraçar, botãozinho para me compadecer, ter vontade de ajudar o próximo. E tenho também o que, se apertado, ativa na hora a tristeza. Outro, que altera o nível da irritação. Um, que me desperta a raiva. O que bota a impaciência para ferver. O que me faz chorar feito bebê. Todos importantes na completude da minha máquina de ser. O problema é quando as pessoas acabam mexendo nos botões que não deveriam, e promovem a lambança (interna) geral.

A culpa, no entanto, não é das pessoas.

A culpa é minha.

Eu que tenho botões demais. Opções e possibilidades demais.

Quem me arruma papel sulfite e durex?

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Tipo exportação

Cresci ouvindo falar em café tipo exportação. Laranja tipo exportação. Castanha de caju. Gasolina. Mulata.

Depois entendi.

Tipo exportação é quando a gente faz uma coisa que é bacana, mas precisa torná-la mais bacana, praticamente excelente, para poder vendê-la para outros países. (Entendi também que a mulata não deveria estar na lista.)

Ou seja: para fora, segue sempre o melhor.

Para dentro, não precisa ser o melhor. O bom já serve. O possível, o que dá.

Tem horas que concluo: eu sou uma pessoa tipo exportação.

Sou bacana, mas sou mais bacana ainda, praticamente excelente, para os outros. Sei dedicar carinho e atenção e gentileza às pessoas da minha família, as “de dentro”, mas acabo fazendo isso melhor para as de fora. As dos outros lares que fazem fronteira com o meu. Um lar é um país.

Tem dias que solto os cachorros em casa. Vocifero, esbravejo, surto por tudo e por nada.

Porém, se no instante de fúria doméstica o interfone toca e eu atendo, a voz recupera a maciez, “Tenho, sim, um ovo para emprestar. Levo aí!”. É a minha gentileza tipo exportação.

Quem nunca cuspiu fogo quando o namorado ou namorada faz um comentariozinho qualquer, questionando, por exemplo, seu empenho para arrumar emprego? Se, no entanto, é o professor da faculdade que lhe cutuca, além de aceitar a observação, agradece pelo toque… É a maturidade tipo exportação.

Nessas horas evoco Cazuza em livre e desesperada adaptação: por que que a gente é assim?

Se para a família e pessoas íntimas deveríamos, em tese, oferecer sempre o nosso melhor, o nosso excelente. Mas não. Estamos muito à vontade para escancarar nosso lado B. Mesmo que o preço seja uma carinha com superávit de tristeza no fim do dia.

Bom mesmo é ser do tipo importação. Do tipo “eu me importo com você”. Faz bem às relações. Até as internacionais.

Esquadrão da Mente

arte: Rodvaz

No Esquadrão da Moda, programa que passa na TV, mulheres que se vestem mal são chamadas na chincha para reverem seu jeito de vestir. A vítima se vê numa espécie de Roda Viva – outro programa – tendo que explicar e defender por que usa isto ou aquilo. Peças pavorosas de seu guarda-roupa vão para uma simbólica lata de lixo. E, na base do susto, porrada ou risada, o desafio sempre tem final feliz. A mulher sai repaginada, com maquiagem de atriz, cabelo de revista e armário turbinado. (Se se trata de mais uma tentativa de padronizar tudo e todos, são outros quinhentos.)

Eu queria que existisse um programa para chamar na chincha pessoas que pensam mal, convidando-as a rever seu jeito de ser. O nome: Esquadrão da Mente. Quem inauguraria o programa? Eu.

Porque tem dias que saio de casa vestida de mau humor da cabeça aos pés, crente que ninguém vai reparar. Santa ingenuidade, Batman. A roupa do nosso pensamento nunca passa batida.

De utilidade pública, no Esquadrão da Mente os participantes teriam chance de, diante do Grande Espelho (que não mente jamais) e com uma mãozinha de quem entende do riscado, avaliar as próprias ideias, algumas de coleções passadas (amarrotadas?) que, de tão usadas, já esgarçaram.

Um programa assim faria bem, por exemplo, à pessoa que estaciona em fila dupla só um segundinho para deixar o filho na escola e, quando chega ao trabalho, antes da reunião, compartilha na rede social um post cobrando o fim da corrupção e outras nobrezas, sempre do próximo. Não combina, meu bem.

Seria de grande valia também para a mulher que a vida inteira romantizou a maternidade, eternizando seus mitos e autodecretando a perfeição compulsória. E hoje chora, reclamando que sua culpa agora é tamanho 54.

E para aquela outra que, sendo manequim 40, insiste na estreiteza do relacionamento 36. Claro que vai ficar apertado. Não serve. Nunca serviu, aliás.

Uma boa consultoria mental faria tremenda revolução na cabeça de quem desfila diariamente a ideia cafona de que os outros, só os outros, são responsáveis pela sua infelicidade e empacamento na vida. Um delito tão ou mais grave que sutiã com alça de silicone, meia cor da pele, legging de oncinha.

No Esquadrão da Mente as pessoas aprenderiam, inclusive, a escolher melhor suas amizades. As da baciada, em liquidação, geralmente não têm qualidade, não duram muito. Rasgam-se com facilidade, desbotam na primeira conversa mais séria.

E quem participasse do programa também teria final (ou recomeço) feliz, se assim desejasse. Porque quando o assunto é mente, assim como na moda, autoconhecimento é fundamental. É o pretinho básico da personalidade, peça curinga na vida. Vai bem com tudo.

Não quer aproveitar?

Ilustração em “The Ladies’ home journal” (1889)

Entro na loja espaçosa, cheirosa, colorida e iluminada – bem do jeito que o Diabo ensinou aos marqueteiros – e peço:

– Quero ver os batons.

Dizem que ruivas ficam bem de batom vermelho. Testa aqui, testa ali, decido.

A vendedora apanha o batom vencedor e inquire, com a cara nem um pouco lavada (sua chefe jamais permitiria a infração, é uma loja de cosméticos):

– Não quer aproveitar e levar um xampu também?

Por instantes, busco mentalmente a relação direta entre cabelo e boca, a fim de justificar a oferta, e só encontro estas: ambos ficam na cabeça, são paroxítonas e têm quatro letras comuns.

Entrei ali movida pelo desejo de um batom, e não xampu. Fosse assim, teria feito diferente desde o início:

– Quero ver os xampus.

Ou ainda:

– Quero ver xampus e batons.

Uma vez que não foi essa a minha abordagem, declino o convite para “aproveitar”. Estou ficando boa nisso de recusar, nas lojas e na vida, coisas que não quero ou preciso.

– Só o batom mesmo, por favor.

Ela é brasileira, não desiste nunca e é comissionada:

– Os hidratantes estão com 20%, não vai aproveitar?

Moça, vamos nos sentar ali fora e conversar. Qual o objeto do aproveitamento proposto, afinal de contas?

Seria aproveitar o fato de que pagarei com cartão de crédito, e com cartão, já sabe: a gente não vê o dinheiro saindo da carteira, se empolga, e depois de quarenta dias, chora? Nesse caso, quem aproveita é o banco e a administradora do cartão.

Ou aproveitar que a loja foi projetada para ativar todos os meus sentidos e me fazer comprar o que preciso e , principalmente, o que não preciso? Nesse caso, quem aproveita é o dono.

Ou ainda: aproveitar que a vendedora é simpática e faz cara de cãozinho pidão, só faltando entortar a cabeça para o lado, e eu me sentirei feliz em fazê-la feliz, assim como quem afaga um cãozinho pidão? Nesse caso, quem aproveita é a vendedora, que engordará suas comissões no final do mês.

Parece-me que todo mundo aproveitará bastante o fato de eu sair da loja com batom, xampu e hidratante. Menos eu, que terei cem reais menos na conta e coisas demais no armário.

Eu, que só queria um batonzinho vermelho para confirmar se as ruivas ficam mesmo imbatíveis com ele, costumo aproveitar quando passo ao lado da sorveteria para tomar um picolé de limão.

Aproveito que o gato está dormindo na minha cama e tasco-lhe um cafuné demorado.

Aproveito quando não está chovendo e vou caminhar na Lagoa do Taquaral antes de buscar as crianças na escola. De vez em quando, aproveito e como um pastel também.

Sempre aproveito se a Nutella está barata, e levo dez potes de uma vez.

Mas, por ora, penso em inverter a situação e propor que a vendedora, não eu, aproveite. Diria-lhe assim:

– Você não quer aproveitar que tem pouca gente na loja e ligar para sua mãe que fez quimioterapia ontem e está toda tristinha e nauseada?

– Por que você não aproveita que é sexta e responde aquela mensagem dele, parada no seu WhatsApp desde a semana passada? Ele viu os dois risquinhos azuis e está desolado. Bobagem competir com o futebol da quarta, meu bem. Como diria Djavan, você insiste em zero a zero e ele quer um a um.

E o uso indiscriminado do verbo transitivo direto e indireto parece acometer todos ali. A moça do caixa entrega minha compra (composta de um item – salve!), e pergunta se quero aproveitar e fazer o cadastro. Balanço a cabeça, que tem cabelos, abro minha boca e digo:

– Não, obrigada. E aproveita, que hoje eu estou de bom humor.

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?

Arte: Jim Devlin

Se você anda irritadiça, raivosa ou está pelas tampas, não convém assistir TV, muito menos ligar o rádio. Poderá topar, a qualquer instante, com um anúncio de feirão de carros. E, esteja você interessada ou não em adquirir ou trocar seu bólido, fique certa: o apoteótico clima do comercial a levará a um quadro de confusão mental, e você terá ímpetos de jogar a mãe do trem, matar a família e ir ao cinema depois.

A locução, sempre apressada, e a trilha sonora, infalivelmente nervosa, somam-se, no caso da TV, ao abuso do zoom in e zoom out e toda sorte de efeito gráfico. De estética acintosa, os típicos anúncios de feirões deveriam ser vetados pelo Conar e entrar na categoria dos alucinógenos, sendo, inclusive, proibidos pelo Ministério da Saúde.

Em algum lugar do passado, o lado sombrio da publicidade convencionou que, para fazer sucesso e aumentar as vendas no varejo, anúncio de carro deveria ser ruidoso e frenético (ao mesmo tempo), para despertar no potencial, porém desavisado, consumidor o súbito e irreversível desejo de comprá-lo. Ora, pessoas compram carros porque precisam deles, e não porque nãopodeperderessaoportunidadevaisernessedomingocorra!

Mas o cidadão de bem, zonzo, acaba indo ao evento. Sai de lá com um veículo financiado em 72 meses, com taxa de juros de 20% ao ano, crente que fez um ótimo negócio. Ao seu redor, carros suspensos por guindastes, música estridente, pipoca, malabaristas. O feirão virou circo; adivinha quem é o palhaço.

E tudo começou com uma inocente mensagem, tão curtinha – trinta segundos, só.

Elogio à diferença

Foto: Michael Flick/Flickr.com

Talvez tudo tenha começado no pré-primário. Eu não queria participar da peça de teatro que a turma encenaria, mas a professora de bochechas rosadas e ar maternal insistiu no convite. Não adiantou dizer que eu não tinha talento para ser planta. Minha fala começava assim: “Eu era uma sementinha…”. A única frase que guardei no labirinto da memória. O resto, por conta da péssima experiência com apenas seis anos, eu apaguei permanentemente. E daí em diante eu teria declinado toda espécie de convite semelhante.

Depois vieram as sardas. E os óculos. Para as sardas, cremes mágicos. Para os óculos, propositais esquecimentos na sala de aula. Mas logo surgiam mais sardas. E óculos novos.

Alguns anos mais tarde, foi a vez do espelho me mostrar diferente das amigas. Não sei se construí a lembrança a partir de fragmentos, já que minha memória torta costuma me pregar peças, mas arrisco: foi numa noite de Natal que ganhei o primeiro sutiã. Verde-água. Após a ceia a família toda foi dormir. Exceto eu, extasiada com o presente emblemático. E inútil.

Adolescentes pertencem àquela idade esquisita onde a criança esbarra no jovem sem, contudo, ser uma coisa nem outra. Quase tudo é motivo para um complexo. No meu caso, as pernas. Eram tão fininhas, tão branquinhas. Como o resto de mim. Enquanto todos na escola faziam as aulas de educação física sem grandes problemas, além de uma eventual inabilidade com a bola ou certa falta de coordenação motora, eu fugia delas. Não por conta da professora que usava peruca e ensinava os esportes através de um livro velho, onde os alunos liam em voz alta, em vez de praticar, as regras do vôlei ou do basquete. Era a minissaia branca e plissada, com um inexplicável shortinho vermelho, a razão da minha fuga. Foi a época em que mais estive doente, acometida de todo tipo de mal súbito. Tudo devidamente informado na caderneta escolar. Com a minha letra, claro.

O modelo da minha família também não me ajudava a ser parecida com as demais garotas. Todas tinham suas mães disponíveis em tempo integral em casa, preparando lanchinhos no meio da tarde ou tricotando casacos coloridos para o inverno. Eu tinha que me contentar com a doçura do meu avô, sempre superada pelo mau-humor e rabugice da minha avó, responsáveis por mim e meus irmãos enquanto meus pais trabalhavam. Justamente numa época onde tudo o que eu desejava era ser igual. Fazer parte do bando.

Nunca me achei bonita. Nunca fui popular. Nem aluna brilhante. Fazia parte da turma dos invisíveis. Talvez por isso tenha me acostumado a enxergar a vida do canto. Comecei a escrever. Para traduzir a minha perspectiva.

Tempos depois, o curso superior. Nunca vi ponto de ônibus tão vazio quanto aquele em frente à minha faculdade. Sempre esperei, com apenas um ou dois amigos, o meu passar. Não compreendia aquelas garotas lindas e ricas. E não era visível para os rapazes, igualmente lindos e ricos. Tive um único namoro ali. Que começou poucos meses antes da formatura. No ônibus, por sinal.

Talvez tudo tenha, de fato, começado lá atrás. Na escola, eterno palco onde as diferenças são todas representadas. Hoje estou perto de compreender a utilidade da diferença. Eu não sabia, mas o valor de ser diferente ficaria tatuado em minha alma para sempre, tal qual as tatuagens reais que hoje me estampam. E já não há dúvida: eu era mesmo apenas uma sementinha.