Arquivo da tag: pele

Questão de pele

Image from page 166 of “The skin, its care and treatment” (1904)

Se acaso a senhora estiver precisando de um dermatologista, de modo a sanar aquela coceira infernal, dar um jeito na queda das melenas ou exterminar uma verruga inconveniente, convém preparar-se para uma longa e ingrata jornada pelo site ou livrinho do convênio. Doses extras de paciência e compreensão serão requeridas. Nem todos – na feliz hipótese de se encontrar algum com horário livre nos próximos dois meses – irão querer saber de você.

Caspa, micose, espinha? Esqueça. É cada vez mais raro encontrar um médico que faça o arroz com feijão dermatológico.

Mês passado, recorri ao uni-duni-tê e à mentalização indiana e liguei para uma. Mal completei a frase “Gostaria de marcar…” e a recepcionista tratou de investigar qual era o meu caso. Expliquei. Ela: “A doutora não atende mais essas coisas”.

“Essas coisas”, incluindo o herpes que resolve me visitar de tempos em tempos, foram rebaixadas às frugalidades orgânicas, às patologias desprezadas, aos casos desinteressantes. É a tal medicina estética – sequer reconhecida, juridicamente, como especialidade médica – , transformando consultórios médicos em empresas de beleza. Um filão.

Sete ligações e… aleluia! Encontrei uma dermatologista que também fazia a gentileza de atender “essas coisas”. Agendei a consulta e três semanas depois (um recorde) eu, que só queria um comprimidinho bacana para me livrar da pereba semestral no nariz, deixei o consultório levando na bolsa uma folha A4, frente e verso, com uma lista de procedimentos estéticos que eu nem sabia que precisava: tratamentos por radiofrequência, peeling, laser CO2 fracionado, criolipólise e hidratantes de três dígitos (sempre importados, porque os nacionais “não prestam”), num pacote rejuvenescedor que me levaria de volta à década de 80. E uma receita de Zovirax, desanimadamente redigida.

Deprimida com a descoberta de que há mais manchas em meu rosto do que o espelho, espelho meu, mostra diariamente, tive receio de uma súbita crise herpética ali mesmo, no estacionamento, enquanto aguardava o manobrista de terno (terno!) preto e sapatos reluzentes trazer meu carro.

Eu bem que desconfiei quando me ofereceram um Nespresso assim que cheguei. Nada nesta vida é de graça. Nem injeção de Botox na testa.

Anúncios

Sarda is beautiful

Fui uma criança sardenta. E, tal vítima indefesa, acometida da praga das pragas, todos queriam me salvar das sardas. Inclusive eu.

De tudo ouvi, infância afora: sugestões de cremes mágicos, receitas de poções duvidosas, simpatias. Fabulosas panaceias, prescritas a torto e a direito por tias, vizinhas e mães de amigas, inconformadas com a manifestação singular da minha cútis. De acordo com as especialistas de plantão, os remédios eram imbatíveis no extermínio das “pintinhas”. As ideias para a salvação incluíam desde o icônico creme Sardalina até, pasme o pessoal da Vigilância Sanitária, meu próprio xixi. Se não estou enganada, fora ideia da madrinha; era só passá-lo diariamente no rosto. Econômico e autossustentável, ao menos, o método era.

Rendi-me a praticamente todos os conselhos. Menos o do xixi, que aí já era demais. Nada, porém, produziu o efeito desejado. Ao contrário; quis o destino que, a cada ano, mais sardenta eu ficasse. Culpa do atraso na invenção do Sundown.

Sofria. “Banana” não é exatamente o apelido que garotinhas de oito anos, obcecadas pelo mimetismo do bando, querem ter. Principalmente se as vistas não colaboram e, somado à pigmentação peculiar, vêm os óculos para ferrar tudo. “Banana-quatro-olhos”, afinal, era de lascar. Minha sorte é que não existia a Galinha Pintadinha. E sorte dos colegas era que naquela época ninguém falava em bullying.

Enquanto as amigas pediam ao Papai Noel a boneca que tomava mamadeira e fazia xixi depois, eu implorava ao bom velhinho que fizesse as sardas desaparecerem. OK, também pedi a boneca. Mas tinha direito a um presente só. Veio a boneca. E o xixi dela era de mentirinha; nem funcionaria.

Por anos, as sardas foram injustamente culpadas por tudo de chato que me acontecia. Achava que não tinha namorado, que ia mal em matemática, perdia os cadernos, não conseguia acordar cedo, era magra demais,  por causa delas. Quanto mais eu as rejeitava, mais elas se mostravam impávidas, alheias à minha repulsa, indiferentes ao meu ódio. Elas mandavam no pedaço, para meu desespero.

Mal sabia, mas aquela era minha constelação particular.

Cresci, as sardas também. Instalaram-se nos ombros, colo, braços. Chegaram a povoar as pernas, aproveitando-se dos raios ultravioletas por entre as brechas dos vestidos. Não são mais as sardas jovens de outrora; envelheceram comigo. Os apelidos também mudaram. O marido, testemunha da brabeza costumeira, diz que sou onça pintada. Para sua sorte – ou azar – , não estou em extinção.

Passei metade da vida tentando escondê-las. E metade da vida fazendo força para exibi-las, cheia de orgulho. Nunca é tarde para a paz.

Noel fez bem em não ter me atendido. Mantenho com carinho, até hoje, a boneca que faz xixi. As sardas também.

Estou salva.

Vai ou racha

Ilustração: Adreson Vita Sá

Nada deve ser mais ocultado num casamento que calcanhar rachado.

É preferível revelar o que aconteceu naquela viagem a Porto Seguro quando vocês ainda namoravam, fornecer detalhes da república onde você morou no tempo de faculdade, falar das suas vadiagens adolescentes e até confessar que já beijou uma mulher, a expor na relação um par de calcanhares prejudicados. Será o fim. Restará, apenas, decidir quem fica com a Nespresso.

Antes seu marido descobrir que não foi você a autora do salmão ao molho de gengibre que o conquistou no primeiro jantar na sua casa, que você espia o Facebook do sócio dele todo dia e que aquele vestido não custou cento e cinquenta reais, do que vocês terem uma noite de amor interrompida por um carinho, digamos, mais cortante sob os lençóis. Pior: ter que explicar por que namora sempre de meia soquete.

E a culpa é toda sua. Passa o verão metida em rasteirinhas, anda descalça pelo quintal curtindo sua fase natureba de “conexão com a terra”, capricha no hidratante da região superior e negligencia a inferior. Pensa que só as formigas e seres rastejantes notam seus pés e que semiárido é somente uma região do nordeste. Não, querida. Passível de justa causa, sola de pé desertificada tem peso dois em relação à celulite. Depois não reclame. Nem chore de saudade dos tamancos e dos sapatos Chanel.

Se o problema lhe assolar, mantenha o segredo a sete chaves (e jogue todas fora). Veja o que aconteceu a Aquiles. Em períodos de seca, para poupar o relacionamento e a palmilha dos seus calçados, lance mão de tudo que disserem para você fazer. De simpatias a receitinhas caseiras – sempre escondida, na calada da noite. Invista uma grana preta naquela dermatologista que não atende nenhum convênio. Faça promessa para Santa Rita, a das causas impossíveis. Se nem ela topar, peça emprestado ao marceneiro de sua confiança a lixadeira e a politriz. Recorra ao SUS.

Ou vai, ou racha.