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Crônica de minuto para quem tem gato

Arte: Peter Neish
Arte: Peter Neish

Entro no banheiro, ele vem junto. Gato gosta de acompanhar o dono nesse destino. É seu favor diário. Fica ali, roçando a quina do armário e investigando um fiapo de qualquer coisa, caído ao lado do cesto de roupas. Amante de espaços mais amplos, é na limitação azulejada do dois por dois que um gato mantém a relação com seu dono em dia.

Ele pede colo, eu dou. Ele não quer saber o que estou fazendo ali sentada. Um colo é um colo.

É noite. Aviso-lhe: “Amanhã é mais um dia”. Antevejo a rotina de afazeres, deduzo acontecimentos; ele não. A repetição dos dias não o incomoda. Também não o seduz. Gato é atemporal. Melhor: proprietário de seu tempo. Todos os eventos mundiais cabem em uma lambida na pata.

Ele salta à pia. Encara o espelho e conclui: não há outro mundo dentro dele, Alice estava enganada. Ensaia uma espécie de capoeira com a bolinha de papel amassada que larguei ali. Não preciso da bula do hidratante, mesmo. Esse horóscopo testado dermatologicamente, a informar que o tempo correrá macio a partir de agora. Fiz aniversário, o presente já começou. Gatos vêm do futuro?

Ele desce. Ouve algo lá fora, que meu ouvido humano não capta, e se prepara para uma eventual defesa. Ele enxerga, escuta e se move melhor que eu; é de admirar que seus ancestrais não tenham dominado o mundo.

Inicio o banho, ele se enrodilha  sobre o tapetinho. O som da água é sua canção de ninar. O vapor morno faz seus pelos negros brilharem. Desligo o chuveiro, saio do box e pulo o tapete para não incomodá-lo em sua soneca.

Ele finge que dorme. Observa, olhos semicerrados, meu ritual pós-banho. Todo gato é um voyeur declarado e preguiçoso.

Ele fica comigo até o fim. Saio, ele sai também. E não sei mais quem acompanhou quem.

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Pelo universo

Arte: Víctor BS

Catei o gato e o enlacei. Ele miou curto, concedendo-me o prazer da contradança. Saímos rodopiando pela cozinha, o feijão no fogo. Faltava a música, então cantei “Across the universe”, baixinho, na sua orelha.

Está certo que troquei uns versos de lugar e esqueci outros. Eu cantava ao vivo, não havia playback. Ele percebeu, mas não disse nada.

Felinos entendem bem do refrão: nada muda o mundo de um gato. Acordar, comer, lamber a pata, alongar-se, quentar ao sol ou abrigar-se da chuva, dormir, caçar passarinho, dormir, caçar lagartixa, dormir. Mesmo que não tenha dono, sua agenda é a mesma (talvez com alguma privação), somada à fuga perante o inimigo.

Eu, que vivo cantando “Nothing’s gonna change my world”, sei que minto. O meu, na verdade, já mudou um bocado. A ponto de eu não reconhecê-lo. Não conto com tanta invencibilidade. É que tudo fica mais bonito numa canção.

John Lennon adorava gatos.

A história da humanidade é feita de guerras, revoluções e modas. A dos gatos, não. Eles permanecem praticamente os mesmos em suas gatices desde que foram domesticados, coisa de dez mil anos atrás. Os gatos não mudam de ideia. Sua revolução está na ponta da língua áspera. A moda deles segue a única tendência possível: liberdade. E um barbante será sempre um bom entretenimento.

Encontrá-los pelo mundo é uma espécie de déjà vu. Sejam os bichanos franceses, norte-americanos, libaneses, japoneses, angolanos ou apenas os que zanzam pelos telhados da rua de cima, é o mesmo teatro, o mesmo balé, o mesmo filme. Se querem carinho, vêm, vão, fingem não estar nem aí com você. Cavilosos, se escondem e voltam; hasteiam o rabo-antena, tombam no chão, esfregam-se em tudo. É a senha: “Vem”. Em dois minutos estão trançando em suas pernas. Se não querem papo, também nisso são todos iguais: ignoram. Entocam-se n’algum buraco, adentram alguma cerca, escalam o muro mais próximo, seguem pelo universo. Gato é um ser manifesto.

Todo mundo deveria saber imitar gato.

Repeti para ele, à exaustão, o mantra “Jai guru deva”, caprichando no “om”. Conectado com seu deus, o Grande Gato, ele o compreende melhor que eu. Fizemos mais uns passos, o feijão ficou pronto. Então ele, com o rabo, me disse: “Agora chega”. E pulou do meu colo.

Para Benta.