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Aperte aqui

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No salão de beleza tem. No cartório também. Na loja de roupas e na sala de espera do consultório médico: máquina de café com os botões de controle improvisadamente cobertos, exceto um; o único autorizado, caso se deseje um cafezinho.

Fazem isso porque o pessoal – fregueses, pacientes – é fogo. Vão se servir, veem uma porção de botões, não sabem para quê é qual, e acabam mexendo onde não devem. Promovem a lambança geral. Para desespero de quem trabalha no lugar, que precisa acudir a velhinha desavisada que mandou ver na água pelando ou o garoto traquina que achou bonito tirar um café longo no copinho pequeno.

Contra a mexeção inadvertida, só papel sulfite e durex salvam.

Os que zelam pelo bom uso da máquina de café, cortesia da casa, desenvolvem esquemas anticaos de ocultação aos controles proibidos. Recortam papéis, deixando à mostra somente os permitidos. Grudam etiquetas de “aperte aqui” e, para reforçar, acrescentam setas indicativas. Redundância é segurança de informação, reza o módulo I da teoria da comunicação.

Tudo pelo bem do cafezinho e da paz local.

A culpa, no entanto, não é das pessoas.

A culpa é das coisas.

As coisas que têm botões demais. Opções e possibilidades demais.

Só na maquininha do espresso, são três níveis de café. Botão de autolimpeza. Regulagem de moagem. Um convite ao furdunço.

Eu sou cheia dos botões.

Tenho botõezinhos de me fazer dar risada, querer beijar, abraçar, botãozinho para me compadecer, ter vontade de ajudar o próximo. E tenho também o que, se apertado, ativa na hora a tristeza. Outro, que altera o nível da irritação. Um, que me desperta a raiva. O que bota a impaciência para ferver. O que me faz chorar feito bebê. Todos importantes na completude da minha máquina de ser. O problema é quando as pessoas acabam mexendo nos botões que não deveriam, e promovem a lambança (interna) geral.

A culpa, no entanto, não é das pessoas.

A culpa é minha.

Eu que tenho botões demais. Opções e possibilidades demais.

Quem me arruma papel sulfite e durex?

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Os botões do mundo

Foto: Fernando Oliveira
Foto: Fernando Oliveira

Preguei botão na camisa do marido, pedido feito há uma semana. O menorzinho, sob a gola, eternamente incumbido de mantê-la no lugar, caíra. Sabe-se lá onde.

Desenrolei o carretel, cortei a linha, lambi a ponta. Passei-a pelo furo da agulha, dobrei em duas, dei um nozinho no final, para não escapar. Apanhei o botão-estepe na bainha da camisa, ajeitei-me na cadeira e repassei, num lampejo, a trajetória feminina – minha e de todas as mulheres que me antecederam neste planeta, tão semelhante a um botão.

As tias velhas, quando queriam espezinhar uma semelhante, diziam “Essa aí não sabe nem pregar um botão”, referindo-se à falta de habilidades domésticas e, portanto, serventia, da companheira de espécie. Saber pregar botões, ao lado de saber cozinhar, lavar, passar, cuidar de casa e filhos e não reclamar era, conjugado em pretérito imperfeito e defeituoso, garantia de casamento feliz e duradouro.

A agulha entrou pelo primeiro dos quatro furos do botão e saiu do outro lado do tecido. Então é isso. De acordo com as tias, trago em mim a fagulha ancestral e invisível, mantenedora de um casamento. Dela lanço mão, sem saber, para perpetuar a minha família. Afinal, a caixinha de costura pertence a mim; não ao marido. É isso, então?

O mundo é feito de botões. A começar pelos da roupa que veste o corpo; é com eles que se filosofa o essencial e, às vezes, inconfessável. Eles estão por toda parte: na televisão, no rádio, no telefone, no elevador, na campainha, no banco, no fogão, na calculadora, no carro, no jogo de futebol que se joga com os dedos. Conta a lenda que é apenas um botão o que resguarda o destino da Terra e impede que ela vá pelos ares.

A agulha emergiu pelo segundo furo, trazendo à tona a linha. São eles, os botões, que controlam, regulam, ligam e desligam o mundo. Cuidar dos botões, portanto, é estar no comando.

Repeti a operação três vezes na primeira dupla de furos, para reforçar. Redundância é segurança de informação; é a teoria da comunicação aplicada à alfaiataria.

Passei para a última dupla de furos. O marido poderia pregar o botão sozinho. E o faria, se sozinho vivesse. Preferiu pedir a mim. Ele também teve suas tias velhas.

(Preciso contar às minhas que o mundo mudou e o botão mais famoso, hoje, não é o das camisas e chama-se “curtir”.)

Arrematei o último ponto, o pequeno botão agora está firme como uma rocha. Pendurei a camisa na porta do guarda-roupa dele e olhei pela janela. É primavera.

Quem será que prega os botões da roseira?