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Ah, Priscila

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Toca o telefone, atendo. A voz metálica diz que é uma mensagem automática para a Priscila T.

A voz continua: se eu fosse a própria Priscila, deveria teclar 1. Se eu pudesse deixar um recado para a Priscila, 2. Se eu desconhecesse a Priscila, bastava apertar 3.

Varro, em fração de segundo, minha agenda mental à procura de alguma Priscila T. O resultado é “Not found”, então escolho a opção 3 e a ligação se encerra.

É a única coisa correta, possível e digna a fazer. Mas arrependo-me na hora (tem dias que não sou correta, nem digna; apenas possível). Quem é Priscila (além de rainha do deserto)? Que será que queriam com a Priscila? De onde ligaram? A Priscila – ideia fácil – deve estar devendo na praça. Mas e se ela acabara de ganhar um prêmio, fora sorteada com barras de ouro, estava rica? Mesmo assim, eu nada teria a ver com a vida dela. Mas tente explicar ao gato que ele não deve ser curioso.

A opção 1 seria falsidade ideológica descarada. Eu, ruborizada, confirmaria todos os dados, a fim de saber o que a Priscila andou aprontando. Uma vez saciada, a ligação cairia misteriosamente. E eu teria material de sobra para uma boa crônica.

A opção 2, menos grave, daria a chance de, ao menos, eu saber quem estava falando e deduzir, com alguma precisão, o caso. Se fosse pilhada em flagrante no meio da ligação, era só desligar. E nunca mais atender aquele número, devidamente registrado no aparelho.

Nada disso ficarei sabendo, e é tudo culpa da opção 3. Bem que ensaiei a 1, quase fui de 2. Mas o grilo da consciência, tal como no desenho de Disney, apareceu e me convenceu a não bisbilhotar a vida alheia. Agora eu teria que adivinhar a história a partir de zero pista.

Ah, Priscila.

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Os mitos do amor

Foto: Paul Moody
Foto: Paul Moody

Dos mitos que os amantes inventam para o amor, três são dignos de nota.

O primeiro e mais falacioso: dois em um.

A medicina tem um baita trabalho para tentar corrigir o engano da natureza, que faz duas pessoas nascerem grudadas – os gêmeos xifópagos. E alguns malucos apaixonados, veja só, insistem em querer “se tornar um”, ainda que simbolicamente. Nem na plena adolescência, contaminada de certa crença em príncipes encantados, a ideia da fundição amorosa me agradava. “Dois em um” só fica bem em alguns produtos, como xampu & condicionador, impressora & scanner. Num relacionamento, é bom que cada um continue com seu corpo, sua alma, seus segredos, seus amigos, seus carros e seus RGs. Sem essa de um completar o outro. A única pessoa que me completa é o frentista do posto. Peço sempre para ele completar com gasolina comum (ou etanol, quando está em conta).

O segundo, tipicamente pueril: dormir de conchinha.

Conchinhas do mar são fofas. Quem nunca colecionou, quando criança? Era ir à praia e voltar para casa trazendo aquele montão, que logo ia para o lixo. Um dia, alguém cismou de compará-las ao modo dos casais enamorados dormirem, assim, encaixados, grudados. A concha, no entanto, é uma carapaça. Rígida, ela guarda em si um molusco. Eu que não quero ser carapaça, nem dormir ao lado de uma carapaça. Muito menos com molusco. Gostoso mesmo é dormir feito estrela do mar, como diz minha amiga. Espalhadona, solta, à volonté. O que não significa, evidentemente, falta de amor ou romantismo. As estrelas do mar são livres, se movimentam. As do céu brilham, para quem tiver olhos de vê-las e ouvidos de ouvi-las. Ora direis… Amar e mar têm as mesmas letras, e é só isso. Façamos assim, para não haver briga, nem cara feia, na hora de nanar: cinco minutos de conchinha e sete horas e cinquenta e cinco minutos de estrela. Pronto.

O terceiro e mais ardido: a pimenta.

Dez entre dez revistas femininas lançam mão, três vezes ao ano, da expressão “apimentar a relação” e seus similares, buscando reanimar relacionamentos combalidos. Dá-lhe cinta-liga, elixires, malabarismos, pirotecnias, apoteoses. Pimenta, todo mundo sabe, queima o gogó, arde nos olhos. Um amor que faz chorar, quem há de querer? Fosse assim, vatapá seria afrodisíaco. Pimenta na relação é para os masoquistas de plantão, candidatos a uma úlcera afetiva. Melhor seria “manjericar” o namoro. Ou “coentrar”, “tomilhar”, “papricar” o casamento. Mais saudável, mais gostoso.

Há mais mitos no amor. Muito mais. Cada um que descubra e desmistifique – ou não – o seu.

Run, Forrest, run!

Ilustração: r8r

Se o bonitão com quem você está saindo perguntar se você curte o som do “Simple” Red, corra. Simplesmente. E, se o mesmo bonitão lhe convidar para um “jantar harmonizado” no “espaço gourmet” do apartamento dele, corra também. OK; tome uma taça de vinho antes. Depois, se mande.

Se o pediatra do seu filho afirmar que você deve levar o pequeno de volta à cama dele, a cada vez que ele vier para a sua, de madrugada, corra.

Se na hora de contratar alguma coisa, qualquer coisa, alguém lhe disser que tem um “serviço diferenciado” e você contará com uma equipe “altamente qualificada”, corra.

Se ao negociar uma proposta de trabalho você não vá ser remunerado, mas terá “muita visibilidade”, corra.

É como diz a Jenny ao Forrest Gump, no filme: quando o perigo desponta, o melhor é dar no pé, cair fora, se pirulitar. Também vale para a chatice. A fuga salva.

Se o mote da campanha do candidato a deputado prometer “pulso firme” ou “um novo jeito de fazer política”, corra. E, se o nome dele for algo como “Paulo da Farmácia” ou “José do Açougue”, nem adiantará correr. Anule.

Se seu cabeleireiro tentar lhe convencer a fazer um corte igual à não-sei-quem da novela não-sei-qual, corra. Se tentar lhe empurrar uma progressiva “sem química”, idem. Aliás, o que você está fazendo nesse lugar?

Se a clínica de estética oferecer lipoaspiração sem cirurgia, nem dor, corra. Corra muito. Quem sabe, assim, você acabe não precisando fazê-la.

Se a vendedora lhe disser que aquela calça está “super na moda”, ou se lhe contar que vendeu duas, só pela manhã, corra.

Se a liquidação anunciar estupendos descontos de até 70%, corra. Para bem longe. Principalmente, se for verdade. Visando o bem, no caso, do seu bolso.

Se um pesquisador de campo ou uma demonstradora lhe abordar no shopping, jurando por Deus que são só cinco minutinhos, corra.

Da menor à maior necessidade, da micro à macromotivação, todos sabem: correr faz bem à saúde.

Piloto-automático

Ilustração: Chrstphre Campbell/Flickr.com

Deixar cérebro e língua no piloto-automático não é, definitivamente, bom negócio. Embora a gente dependa dele. Não fosse assim, não se diria a todo instante tanta coisa sem pensar. Frases de caixinha, feito suco pronto.

“Prazer em conhecer”. Quando duas pessoas que nunca se viram, tampouco sabem uma da outra, são apresentadas, difícil haver, de imediato, algum prazer ali. Deve ser por isso, mais certa preguiça humana, que sua forma completa resumiu-se com o tempo, dando vez a um econômico e sintético “Prazer”, por vezes pronunciado num tom próximo do inaudível, meio grunhido, enquanto mãos se chacoalham sem vontade. É possível que a minifrase seja verdadeira em alguns casos. Um pai feliz em conhecer o melhor amigo do filho, aquele que ele ouve falar há tempos e só agora calhou de dar certo o almoço. Um fã que vai ao camarim do seu artista predileto. E mais meia dúzia de exemplos. O que aconteceria se alguém dissesse a uma pessoa, assim que a conhece, “Olá! Desculpe-me, mas não estou sentindo nada em conhecê-lo”? Finge-se que conhecer Fulano é um prazer, Fulano finge que acredita e declara o mesmo. Ao menos, é mentira mútua. Ninguém sai ferido.

“Tudo bem”, em afirmativa resposta à trivial “Como vai a vida?”. Quantas vezes se responde isso com sinceridade? Tem horas em que tudo o que se quer é puxar uma cadeira, de preferência com uma xícara de café nas mãos, e destrinchar a tristeza, a chateação, a preocupação, a raiva, a recente semgracisse das coisas. E quantas vezes a pergunta tem mesmo intenção de saber a verdade? Há quem capriche e devolva: “Está tudo ótimo”. Quando lá dentro, no entanto, só se pensa no saldo vermelho, no irmão mais novo que vai fazer transplante, na crise existencial própria, conjugal e de terceiros. Ou tudo isso junto. O que, admita-se, seria chatíssimo de se ouvir num breve encontro de elevador. Há quem sinta prazer em esticar a falácia: “Tudo bem. E você?”. Sejamos otimistas: a vida pode estar, de fato, bem. Só que poucos saberão quando é uma coisa, quando é outra. Na verdade, tanto faz.

“Não precisava se incomodar”. É como parte integrante de embalagens para presente: entregou, ouviu. Queria ver alguém ter a coragem: “E incomodou, sabe? Tive de sair na hora do almoço para procurar alguma coisa para você, um trânsito! Acabei chegando atrasada para a reunião”. O que incomoda mesmo é não saber, com exatidão, qual sentimento está por trás da frase, dita quase sempre com reticências no final.

Ser sincero em tempo integral é inviável. Não funciona no mundo das pessoas. Só dos bichos. E olhe lá.

Segredos, mentiras e biscoitos recheados

Foto: Jonathan Greene

Daqui uma hora sai o almoço. No cenário dominical da sala, tenho sessenta tranquilos minutos para responder alguns emails. Uma inquietude me invade, porém. Eu a conheço bem. Danada, ela tem fome de sacarose – na forma de chocolate, de preferência. Costuma exigir de mim atitudes imediatas. Desta vez, a reivindicação era um biscoito recheado. Em troca, ela me daria paz.

No entanto, em uma hora: almoço. Não posso traçar um doce assim, na frente dos pequenos. Atrapalhará a refeição deles. Mas a minha não. E agora? A tarde de outono acena com duas alternativas: por tudo a perder, desfilando com a iguaria e ser impelida a compartilhar o pacote, ou explicar a inquietude e as exceções que se abre na vida, deixando claro que eu posso, mas eles não. A primeira não é nada exemplar. E eles não cairão na conversa mole da segunda. Seria um tal de, a partir de agora, alegar ‘inquietudes’ para tudo.

Pediatras, pedagogos e nutricionistas, principalmente os que não têm filhos, ensinam que devemos ser firmes, consistentes e coerentes na educação alimentar da prole. O tempo todo, sem direito a recaídas. Nada de metamorfoses ambulantes. Não é simples. Dizem que, depois que têm filhos, os pais aprendem a comer direito, porque precisam dar o exemplo. A eles cabe a missão de garantir nutrição adequada, pelo menos, até o final da adolescência. Depois disso, a cria estará livre para administrar seus pratos como quiser. Trocando em miúdos: para fazer exatamente o que os pais faziam, antes de tê-los. Até que estes tenham filhos. É o ciclo da vida.

Mas há uma saída. Talvez não tão ética. Ironicamente infantil: dou início a um secreto plano de ação. Preciso chegar incógnita à cozinha e abrir o armário, sem despertar a curiosidade das crianças. Em seguida, localizar o alvo, apanhá-lo e abri-lo no mais absoluto silêncio. Nessa hora, todo cuidado é pouco; a embalagem plástica do biscoito recheado é ruidosa, traiçoeira. Pode delatar a infração em segundos. E o almoço sai em menos de uma hora.

Meu filho de seis anos adentra a cozinha, sem aviso prévio. Está procurando o gato. Sinto seu olhar inquiridor, quase sou pega com a boca na botija. Trato de disfarçar, “Este armário está uma bagunça, vou arrumar um pouco”. Ele pega o gato no colo, que lança um miado de protesto. Pudera, fôra interrompido em sua sesta. Protesto ignorado, e lá se vai a única testemunha do meu delito. Ainda bem que gato não fala. Recobro o ar. Agarro cinco biscoitos, escondo-os num guardanapo e volto para a sala. “Eu pre-ci-so, entende?”. Me vi numa sessão de terapia com outros dependentes do hidrato de carbono, confessando meus crimes gastronômicos. Placidamente, retomo a leitura dos emails, não sem antes alojar os biscoitos atrás dos livros, como um segredo. Minha filha, três anos, pergunta que horas vamos almoçar. “Já, já, querida!”. É meu pecado de hoje. Nada que cinco pais-nossos antes de dormir, um para cada biscoito, não resolvam.

Aproveito os breves instantes de ausência dos pequenos na sala e os devoro, um a um. O recheio de chocolate branco se dissolve na minha boca, junto com a minha consciência. Saciedade e vergonha viram uma massa agridoce, difícil de engolir. A paz prometida não veio. Mas terá valido a pena, o almoço é daqui a pouco. E eu quero que eles comam a abobrinha.