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Beijo de cinema

Foto: Marjolein

Há mais coisas na fila do cinema do que julga nossa nem sempre vã filosofia.

As duas moças encostam no balcão. Uma delas pergunta ao bilheteiro:

– Hoje tem a promoção do beijo?

Aquela, onde casais que se beijam na bilheteria pagam meia. Tem que ser beijo pra valer, de cinema. Selinho não vale, que ali não é Correio. É a hora do amor premiado: bom para beijoqueiros, bom para quem quer economizar. Bom para o dono do lugar, que fica lotado.

Sim, hoje tem promoção. A outra moça pergunta, baixinho e exatamente com os intervalos das reticências a seguir:

– E… precisa ser… homem e mulher…?

Receiam que a promoção não seja válida para elas. Talvez, uma condição prevista no regulamento, escrita em letras microscópicas, derivada de algum asterisco preconceituoso. Carecia confirmar.

O bilheteiro, pela primeira vez e por dois segundos, as encara e sorri:

– Não. Não precisa.

Quando eu era criança, na sala de aula, morria de vergonha de perguntar as coisas que eu não sabia ou não entendia. Invejava os colegas que levantavam a mão e expunham suas dúvidas – cabidas e descabidas – sem ficar com o coração palpitando, bochechas em fogo. Minha mãe ensinava que não se devia trazer dúvida para casa. Como se dúvida fosse algo que se levasse para passear. Então, havia a que ia de casa para a escola. E tinha a dúvida que vivia nas ruas, como a das moças na bilheteria.

Regra esclarecida. As duas, num riso particular, só delas, se beijam. Beijo de dois segundos. Para combinar com o tempo do bilheteiro ou a pressa da vida – que não é tão moderna. Poupam, assim, metade do valor do ingresso. É justo; investiram o dobro da coragem que tantos, ao longo da fila, não ousariam. Economia, quem diria, não é só número.

Em meio à gigantesca e nem sempre afável sala de aula urbana, elas resolveram erguer a mão e sanar a dúvida. Arriscaram publicar sua cabida questão. Que não é pequena, tal a alma de quem ama.

O filme há de valer a pena.

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