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Cupidagem de supermercado

É desses supermercados que colocam um formulário no caixa, para que as pessoas indiquem produtos que, na opinião delas, estejam faltando. De geleia de pimenta à coleira, os fregueses vão anotando o que gostariam de ver nas prateleiras.

Na hora à toa, quando já coloquei toda minha compra sobre a esteira e aguardo a mocinha passar coisa por coisa, aproveito para me atualizar do que querem as pessoas. O leitor de preços vai cantando, pip, e eu, leitora, vou conferindo a listinha dos clientes. Às vezes o processo é demorado; ela lança a goiaba branca em vez da vermelha. Chama o supervisor (que está ocupado e vem irritadiço), ele passa seu cartão de funcionário, digita a senha, cancela o item e a goiaba branca desaparece da tela.

Na listinha de hoje, dois pedidos especiais. O freguês reclama que não encontrou a catuaba selvagem – prestem atenção: não basta ser o lendário afrodisíaco, tem que ser selvagem (oh furor!) – e a freguesa sinaliza que homem acabou.

Enquanto a mocinha do caixa digita manualmente o código da linhaça dourada, porque o leitor eletrônico resolveu encrencar, penso em sugerir ao supermercado que invista nas novas tecnologias. A listinha de produtos faltantes poderia virar um aplicativo, disponível para Android e iOS. Numa espécie de rede social com algoritmos especialmente programados, seria permitido que, fosse o caso, os fregueses pudessem contatar uns aos outros.

O freguês animadinho que pediu a catuaba poderia conhecer a freguesa solitária que relatou a falta de homem. E todos seriam felizes para sempre. Fim.

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No carrinho dos outros

“Chá preto, duas latas de leite em pó, escovinha para pia, Limpol”. É uma lista de compras de supermercado. Mas não é a minha lista de compras de supermercado. Essa eu achei, abandonada num canto da banca de maçãs, quinta-feira passada. Anotada a lápis no pequeno, alvo e amarrotado pedaço de papel, recortado de uma folha onde se vê no verso o logotipo “Instituto de Biologia”. Catei na hora, guardei na bolsa. Eu gosto de ver lista de compras dos outros. É meu fetiche varejista. Ou uma variação da cleptomania, ainda não catalogada pelo DSM – o manual das desordens mentais.

Antes de tomar posse do objeto, verifico ao redor se não há ninguém olhando. Medo de ser pilhada pela dona, que apenas a deixou ali um instantinho, enquanto pesava algumas batatas para o purê do jantar.

É uma dona, eu sei. Elementar, meu caro leitor. A primeira pista é a delicada caligrafia. A segunda e definitiva evidência: o último item da lista é uma tomada. E, para não se confundir e levar para casa o material certo, ela desenhou ao lado o esquema da bendita: dois riscos verticais e paralelos com um ponto sobre eles. Que homem faz isso?

Mulheres, em geral, carecem dos detalhamentos técnicos. Homens, dos subjetivos. Se, ao marido da dona é dada a missão de comprar absorventes, ele não os desenha, mas se mune de todas as especificações para não levar bronca da patroa depois: marca, cor da embalagem, com ou sem perfume, se é com abas ou não. Fosse a encomenda feita à amiga ou irmã, bastariam duas palavras, “Traz Carefree?”.

Cada sexo com sua telepatia. (Ou biologia? Disso a dona deve saber.) Nesse quesito, o casamento homossexual sempre levará vantagem.

Continua: ela precisa de farinha de trigo também. E de stevia, aquele adoçante natural. “Em pó” vem grifado, para reforçar. Líquido, nem pensar. Alguém em casa controla a ingestão de açúcares. Doença ou prevenção? O leite em pó revela a presença de crianças, ou é para aquela receita de pão? Na lista do supermercado há mais mistérios…

Quando não encontro nenhuma lista perdida, gosto de analisar as compras que passam pelo caixa imediatamente antes das minhas, enquanto finjo prestar atenção nas revistas da gôndola, ou depois, enquanto guardo o cartão de crédito de volta na carteira. Posso traçar o perfil da cliente, só de ver a meia dúzia de garrafinhas de iogurte light e pão de forma sem adição de açúcar que habitarão sua despensa, revelando um irritante IMC abaixo de 20. Já o outro organiza na esteira sua galeria de junk food e Tetrapak. Em meio a miojos e refrescos artificiais, um pacote de quinoa. O cereal andino é a redenção da semana.

“Diga-me o que pões em teu carrinho e te direi quem és”.

Exceto a dona da listinha abandonada, cuja personalidade até agora se faz indecifrável. Terá ela levado a tomada certa, afinal?