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Cama de gato

gato 2

O gato resolveu querer colo bem na hora em que eu ia levar o prato e o copo para a cozinha. Foi como se ele houvesse pressentido minha preguiça – eu almoçara no sofá, vendo TV – e pensou, “Vou ajudá-la a resolver isso”. Gatos, no geral, são bom resolvedores de coisas. Seja no instinto, na destreza ou na inteligência. É de admirar que ainda não tenham dominado o mundo. Ou: já dominaram, e estão de boas.

Logo agora…

Ele afofa minha barriga, se enrodilha no moletom, me transforma em cama. Os olhos apertadinhos me fitam como quem diz “eu te amo muito mesmo de verdade”. Melhor: “amo teu colo muito mesmo de verdade”. Seria inaceitável, de minha parte, prosseguir na intenção. Não se nega colo a um gato.

Fico imóvel, para não atrapalhar sua soneca. Seguro a louça com uma mão, com a outra lhe faço um afago. Só pauso para zapear a TV, à espera de mais motivos que me façam permanecer no sofá com o gato, o prato, o copo, a preguiça.

Mas justo agora…

Penso em alguma estratégia para que ele, por livre e espontânea vontade, deixe meu colo. Assim, eu me safo de carregar essa responsabilidade. As crianças poderiam chamá-lo, sacudindo a vasilha de ração; não falha. Então lembro: estamos sós em casa, o gato, Deus e eu. Quantos gatos cabem no colo de Deus?

Tento esticar o braço até a mesinha. Ele detecta o movimento, abre levemente os olhos, eu recuo. Interromper o sono de um gato há de configurar maus tratos. É nos sonhos dos gatos que o mundo ronrona.

E bem agora…

Eu invejo o gato que dorme quando quer e onde quer e pelo tempo que quer. Gato não tem dono. Gato é o dono. Não há animal mais cônscio de si do que o gato. Gatos não fazem psicanálise, simplesmente porque não precisam. Não há paradas existenciais peludas a resolver. Em um gato, as vidas passadas estão todas presentes. Gato é o futuro.

Quanto mais nutro esperança de que ele, por si, resolva partir de meu colo, mais ele se aninha. Estou refém de um gato. E estou de acordo. Cogito levantar-me e, numa cuidadosa acrobacia, levá-lo comigo no colo até a cozinha, sem acordá-lo. Quem dera ser capaz de andar flutuando, como os mortos, para que ele não sentisse a trepidação dos meus passos. Que bobagem, gatos sentem até os mortos.

Tinha que ser agora?

Num súbito, ele se põe nas quatro patas e chispa rápido, como se lembrasse de algo urgente que havia se esquecido. Ou como se nunca quisesse ter estado em meu colo um dia. Ou, ainda, como se eu fosse apenas um amontoado de átomos de oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, convenientemente fofo e macio. Simplesmente se mandou. Foi verificar qualquer coisa invisível e inaudível aos meus limitados órgãos humanos, na área de serviço, ao lado da cozinha.

Poderia, ao menos, ter levado o prato e o copo.

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Mas eu me mordo de ciúme

arte: Mr. Onz

E o gato estabeleceu que eu sou só dele. Até que a morte nos separe, sou dele e ponto final. Ciumento, na falta de palavras para fazer valer seu unilateral juramento de fidelidade, ele se vira como pode: faz xixi no meu lado da cama, na porta do meu armário e, eventualmente, em mim.

Especialistas em comportamento animal limitam-se, nesses casos, à reza aprendida nas enciclopédias de medicina veterinária: é marcação de território.

Eles não conhecem o Beto.

Beto é o mais velho da casa. Embora já tivéssemos gatos quando ele veio, trazido pela vizinha que não sabia o que fazer com aquele filhote de siamês que perambulava pelo condomínio. Dá-se bem com todos, humanos ou não, é o amigão geral da nação. Não à toa, seu sobrenome ficou sendo Boa-Pessoa. Beto Boa-Pessoa. Divide a casa com outros três felinos, dois machos e uma fêmea. Todos zanzam pela casa sem restrições, tudo é deles também. Dormem em nossas camas, descansam nas cadeiras sob a mesa de jantar e outros locais menos convencionais, tiram longas sonecas no sofá, instalam-se sobre a máquina de lavar roupa independente se é dia de lavanderia, não pagam aluguel, têm aposentadoria garantida, sombra e água fresca. São amados, felizes e nos fazem felizes.

Com regalias, Beto é o único autorizado a passear comigo na rua. Diferente dos outros, ele não se escafede assim que abro a porta. Ao contrário, fica serenamente rolando na grama, cheirando as flores, observando os passarinhos; não sai do meu campo de visão e atende meu chamado para voltar. Os outros, se encontram brecha, se pirulitam e só retornam horas depois. Aqui somos adeptos da meritocracia.

Ele é meu gato-celebridade no Instagram, inspiração e personagem de crônicas. Recito-lhe poesias, tiro-o para dançar. Será que a fama lhe subiu à cabeça? Sou sua dona, sua luz, raio, estrela e luar, seu iaiá, seu ioiô. Natural que ele confundisse as coisas. Sim, eu o amo. Mas, como diriam, para evitar confusão, “como amigo”.

Que mais, ó Bastet, deusa protetora dos gatos e das mulheres, devo fazer? Se até já lhe dei florais e, que não me ouçam, ofereci passar a escritura da casa para seu nome (a fim de sensibilizá-lo no lance do território), desde que ele parasse de regar os móveis. Não adiantou.

Como a separação está fora de questão, o jeito é caprichar no desinfetante e orar para que Beto se convença que não sou dele. Porque não sou de ninguém. Nem de mim.

Crônica de minuto #7

Todo dia, o gato vem zanzar na frente do computador enquanto eu escrevo no blog. Se roça em tudo, como quem diz “Estou aqui”. Até a hora que – não falha – ele derruba a webcam com o rabo. Todo dia, eu reclamo. Todo dia, ele se faz de desentendido. Todo dia me levanto, recoloco a câmera no lugar e ele ganha um afago. Todo dia, ele salta da mesa e vai embora, feliz. É o nosso jeito de discutir a relação.

O rabo do gato

Ilustração: aminúscula/Flickr.com

Ele descansa aos pés da minha cama, seu lugar favorito da casa. Quer dizer, um dos. Gatos têm sempre vários lugares prediletos. Alguns são permanentes, outros vão sendo incluídos à lista no ritmo das estações do ano. E há os que vão saindo da lista. Naturalmente. Como tudo que um gato faz. Eles não receiam romper um relacionamento – ainda que o parceiro seja apenas um sofá.

Os critérios para um gato eleger seus cantos preferidos são insondáveis. Uma aconchegante, fofa e macia almofada pode não fazer seus olhos brilharem. E ela viverá desprezada na poltrona. Na melhor das hipóteses, uma criança a usará em alguma guerra doméstica. No entanto, uma caixa velha de papelão, bastante menor que o próprio gato, é capaz de transformar-se em um pedaço do paraíso, disputada até com os amigos. No caso, os outros gatos da casa. Um antigo gato nosso elegeu, por tempos a fio, o centro da mesa de mármore da sala para sua soneca vespertina. Outro, o topo do armário da cozinha. Era sua torre de controle e sossego. E um – com evidente transtorno de personalidade – foi flagrado dentro da pia da cozinha. Dormindo com os anjos.

O rabo de um gato é a extensão do seu cérebro. Porta-voz de quem não fala nenhuma língua humana. Acessório do rosto, ainda que tão distante. Complemento definitivo do olhar – se há bicho que fala com os olhos, é o gato. Repousado ao lado do corpo, esteja o bichano sentado ou deitado, é sinal de serenidade: tudo está bem. Espalhado, como na minha cama, significa: estou completamente à vontade. Ereto, ao andar, vira antena no auxílio a uma exploração interessante. Ao se entrelaçar na perna do dono: quero atenção. Arrepiado: viu o diabo. Ou coisa parecida. E é sempre prudente ensinar aos desavisados: rabo de gato não funciona como o do cachorro. Portanto, nem sempre é bom ficar perto de um gato que se põe a balançá-lo (o que é muito diferente do abano canino). Aquilo pode ser um aviso, uma bronca. Não é alegria.

“Aos olhos dos gatos, todas as coisas lhe pertencem” – alguém já disse. Lá em casa um gato parecia concordar com isso, quando entrou na sala lambendo os beiços, repletos de Maria-Mole. Aquela que minha mãe havia deixado sobre a mesa para esfriar. Na verdade, ele viera nos avisar que estava pronta. E gostosa.

Gente deveria ter rabo, também. Como nossos ancestrais, os macacos – se é que essa história procede. Seria a evolução da evolução, num claro caminho de volta para casa. Bom para se fazer entender na hora do silêncio, quando os olhos não são suficientes. Especialmente útil para lidar com crianças levadas. Nada de broncas que entram por um ouvido e saem por outro; em seu lugar, um rabo firme e decidido tocando o chão, tap, tap, tap. Os pirralhos recolheriam os seus por entre as pernas, e a paz reinaria.

O único problema seria estético. Um rabo grudado nos fundilhos teria um layout duvidoso. Mas a natureza é sábia. E amiga dos estilistas. Seria a redenção da saruel.

(Prometo não falar mais das sarueis.)