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Os botões do mundo

Foto: Fernando Oliveira
Foto: Fernando Oliveira

Preguei botão na camisa do marido, pedido feito há uma semana. O menorzinho, sob a gola, eternamente incumbido de mantê-la no lugar, caíra. Sabe-se lá onde.

Desenrolei o carretel, cortei a linha, lambi a ponta. Passei-a pelo furo da agulha, dobrei em duas, dei um nozinho no final, para não escapar. Apanhei o botão-estepe na bainha da camisa, ajeitei-me na cadeira e repassei, num lampejo, a trajetória feminina – minha e de todas as mulheres que me antecederam neste planeta, tão semelhante a um botão.

As tias velhas, quando queriam espezinhar uma semelhante, diziam “Essa aí não sabe nem pregar um botão”, referindo-se à falta de habilidades domésticas e, portanto, serventia, da companheira de espécie. Saber pregar botões, ao lado de saber cozinhar, lavar, passar, cuidar de casa e filhos e não reclamar era, conjugado em pretérito imperfeito e defeituoso, garantia de casamento feliz e duradouro.

A agulha entrou pelo primeiro dos quatro furos do botão e saiu do outro lado do tecido. Então é isso. De acordo com as tias, trago em mim a fagulha ancestral e invisível, mantenedora de um casamento. Dela lanço mão, sem saber, para perpetuar a minha família. Afinal, a caixinha de costura pertence a mim; não ao marido. É isso, então?

O mundo é feito de botões. A começar pelos da roupa que veste o corpo; é com eles que se filosofa o essencial e, às vezes, inconfessável. Eles estão por toda parte: na televisão, no rádio, no telefone, no elevador, na campainha, no banco, no fogão, na calculadora, no carro, no jogo de futebol que se joga com os dedos. Conta a lenda que é apenas um botão o que resguarda o destino da Terra e impede que ela vá pelos ares.

A agulha emergiu pelo segundo furo, trazendo à tona a linha. São eles, os botões, que controlam, regulam, ligam e desligam o mundo. Cuidar dos botões, portanto, é estar no comando.

Repeti a operação três vezes na primeira dupla de furos, para reforçar. Redundância é segurança de informação; é a teoria da comunicação aplicada à alfaiataria.

Passei para a última dupla de furos. O marido poderia pregar o botão sozinho. E o faria, se sozinho vivesse. Preferiu pedir a mim. Ele também teve suas tias velhas.

(Preciso contar às minhas que o mundo mudou e o botão mais famoso, hoje, não é o das camisas e chama-se “curtir”.)

Arrematei o último ponto, o pequeno botão agora está firme como uma rocha. Pendurei a camisa na porta do guarda-roupa dele e olhei pela janela. É primavera.

Quem será que prega os botões da roseira?

Bege is beautiful

Esquire Calendar,Ren Wicks (1948)
Esquire Calendar, Ren Wicks (1948)

Ela é assunto em blog cabra-macho, pauta de tweet-testosterona, motivo de ojeriza nas mesas regadas à cerveja. Até reportagem na TV já se fez. É quase um levante popular velado. E contra quem? A coitada da calcinha bege. Essa injustiçada da indústria têxtil, condenada sem pecado.

Da cueca bege ninguém diz nada.

São protestos aqui e ali, pró-impeachment da peça. Justo ela, que nos salva sob o vestidinho branco. Ela, que nos livra do trabalho de decidir,  às seis da manhã e ainda escuro, entre a paleta de cores da gaveta. Ela, que habita a delicada fronteira imaginária de Marte com Vênus.

É com ela que as mulheres vão, meu bem. A calcinha bege é delas assim como o futebol é deles. (E tem esporte mais bege?) Usa-se e assiste-se, a despeito do outro. O bege pode não ser o tom mais divertido do mundo. Mas o verso de Alberto Caeiro já ensinava:

“A cor é que tem cor nas asas da borboleta”

Portanto, o protestador incauto que se conforme: a patroa ama. Ela pode até ter a lingerie transadona para de vez em quando – calcinhas que cumprem a escala Pantone inteirinha, fio dental alucinante, espartilho high-tech – , mas é na amiga cor de pele que ela confia e deposita a garantia de seu conforto diário. A etnia parda, quer queira ou não, predomina sua população de roupa íntima. Não desbota fácil. Tem raça.

Desconjurar e militar pelo seu banimento é nhém-nhém-nhém hormonal. O mesmo que achar que a mulher tem o dever de ser sexy em tempo integral; uma máquina de sedução ligada no 220, em stand by até o próximo encontro. Ter obrigação de estar gostosa a qualquer momento cheira a coisa velha. Nada é mais charmoso que o sossego.

Não confundir com lingerie esbeiçada, registre-se. A beginha também precisa estar decente. Nada de correr riscos durante, por exemplo, uma emergência médica.

Quero ver ser gata e segurar a onda numa noite (ou tarde, ou manhã) de amor com uma calcinha cor da pele e sem costura.

Bege is beautiful.