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Mundo de papel

Foto/montagem: Massimo Nota
Foto/montagem: Massimo Nota

Se seres extraterrestres resolvessem (se é que já não o fizeram) fazer uma varredura em nosso pequeno planeta, a fim de analisar este mundo e seus moradores, um item certamente não ficaria de fora dos relatórios: os papeizinhos. Os nossos papeizinhos.

“Humanos gostam de fazer anotações em pequenas superfícies produzidas a partir de fibras de celulose, cujo produto é chamado papel, que por sua vez vêm das árvores observadas na região”, registrariam. Talvez acrescentassem: “E, com frequência, eles os perdem”.

Não estariam os ETs referindo-se aos papéis em geral, os que documentam a nossa trajetória, nem aos livros, e sim, àqueles, soltos, que se lança mão na hora de registrar as coisas “para não esquecer depois”: de promessas de ano novo à listinha de compras da semana; dos projetos dos desejos ao telefone da fundamental nutricionista; dos desenhos concretos às ideias esparsas; das senhas diversas ao nome da canção que acabou de tocar no rádio; do resumo de ontem ao texto para amanhã; as prioridades para hoje. Seja na folha arrancada do bloquinho, na ponta de uma página de revista, em versões autocolantes ou no imprescindível naco de guardanapo, vale tudo para assegurar a lembrança posterior, não perder o prazo, não deixar de fazer.

A despeito da tecnologia, as coisas continuam sendo anotadas em papeizinhos. Parceiro fiel da caneta que não escreve, o papelzinho ainda é a peça mais importante na vida do executivo, da dona-de-casa, do estudante e até daquele vizinho geek. Carrega em si, em letra caprichada ou garrancho, na escrita lenta ou apressada, a estratégia decisiva, a receita testada e aprovada, uma cola providencial, o nome do aplicativo para baixar depois.

Haverá o dia em que o papel do papelzinho na história da humanidade será tão importante quanto as guerras e as revoluções. No pedacinho escrito à mão reside o amor, o ódio, a saudade, a criatividade; o medo da desmemória, a garantia, a salvação.

Quanto aos papeizinhos perdidos… Ah, esses vão parar num universo paralelo, rodeados de frondosas árvores, a celulose-mãe. Escapam pelas gavetas em misteriosos processos, são abduzidos de bolsas e agendas, levados pelos ventos urbanos e não-urbanos. Carregam seus conteúdos para outra dimensão e lá adormecem. Em sonhos, visitam seus donos que, ao acordar, não hesitam: correm anotar.

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Mistério na esquina

Foto: Silmara (que não sabe quem é o Marcelo)

A tal esquina, eu dobro todo santo dia. A paisagem é automática, decorada, não faz surpresa. Um tio vende suas bugigangas de um lado e uma moça – gravidíssima – serve água de côco do outro. Num santo dia desses, estranhei: a paisagem fora adulterada. Alguém mexera no meu quadro urbano. Um recado público, de bom tamanho, gravado à tinta no muro da escola, jazia ali. A mensagem, “Marcelo, vire aqui” (a vírgula é por minha conta), era ilustrada, com seta indicando a direção. Quem precisa de Google Maps?

Aos mistérios da cidade, naquele dia, somou-se um: quem é o Marcelo? Aonde ele vai, ou foi?

Apesar de eu não ser o destinatário da mensagem, virei na mesma rua. Pareci obedecer à instrução alheia, mas era o meu caminho também. Certa de encontrar mais sinais pela frente, diminuí a marcha, caçando pistas. A curiosidade matou o gato, então redobrei a atenção. Mas, que pena, aquela era a primeira e última coordenada. O furo da minha reportagem pessoal havia ido para o espaço. Perdi a festa.

E se fosse uma mensagem em código? Forjando, no caso, informações sobre uma reunião de uma seita secreta? Marcelo, nome comum, seria apenas um codinome. Para despistar. Nunca se sabe.

E se o Marcelo seguisse a ordem e caísse num buraco mágico no meio da rua, indo parar num túnel, infinito e psicodélico, que o levaria a um mundo estranho? Marcelo no país das Maravilhas. Em pleno subsolo campineiro.

Intervenção de um anjo, talvez? Obedecesse e, no final daquela rua, Marcelo haveria de encontrar a resposta para todas as suas perguntas. Daria de cara com o grande sentido da sua existência. Quem sabe, se livraria de um acidente, já que era pela outra que ele costumava seguir, e não aquela que a seta ordenava. Ou, enfim, seria a chance de conhecer o amor da sua vida, quando parasse naquele sinal lá embaixo, que é meio demorado. Não há um anjo sequer que não tenha um lado cupido.

Há semanas o recado permanece ali, como os scraps esquecidos no Orkut. Virou um outdoor permanente. Vai durar, pelo menos, até a próxima pintura da escola.

Ê, Marcelo.

Casamento

Ilustração: Silvia Falqueto/Flickr.com

Marido deixa microrrecados românticos ao lado do chuveiro, de vez em quando. Ele toma banho antes de mim. Compõe suas pequenas missivas usando aquelas letrinhas coloridas de EVA que grudam nos azulejos, deixadas ali pelas crianças em dia de ducha coletiva. Ele envia, eu recebo depois. O banheiro é a nossa caixa postal.

São recados curtos, de carinho imediato, mais breves que um tweet. Já não há tantas letrinhas disponíveis – o alfabeto de brinquedo, de tão antigo, foi se perdendo com o tempo. Quando eu os leio, ele já está longe, enfiado em reuniões e outras chatices corporativas. Gosto de imaginar que ele me imagina sorrindo nessa hora. Outro dia, um minimalista ‘super woman’ me aguardava no box ainda embaçado pelo vapor de seu banho, anunciando o bom dia. Percebi que o W era, na verdade, um M de ponta-cabeça. Aquele foi fácil de responder: tirei duas letras, W e O. Ficamos quites. Em outra ocasião, faltava um U à minha microfrase. Virei-me como pude, deixando coladinhos um L e um I. Criatividade e improviso, mais que tudo, deveriam constar como obrigações na certidão de casamento.

Nem sempre, porém, dá para ser lacônica. Eu, que estou mais para palavrosa, se pudesse, ocuparia o banheiro inteiro com meus bilhetes. Escreveria cartas com frente, verso e avesso. Que continuariam nas paredes do quarto, alcançariam o corredor, escorreriam pelas escadas e ganhariam o quintal. A super woman aqui é aprendiz na arte da concisão. E inveja no super man tal poder.

Há também os recadinhos escritos com lápis de olho no espelho, sobre a pia. Devidamente codificados, para que fiquem entre nós. Às vezes, apenas um ‘boa viagem’, ou uma força para aquele dia que, sabe-se, vai ser longo. Às vezes, em inglês, para ninguém em casa decifrar. A empregada não pode ser bilíngue.

Nenhum dos dois, no entanto, manda recado ao outro pelas letrinhas nos dias em que a casa cai. Nem mandando lamber sabão, tampouco pedindo desculpas. Não se lava roupa suja no chuveiro. Nossa caixa postal é protegida contra insultos, tem Blindex. Ali, só o lado A do casamento. Ali, só correio elegante.

Nota: quer ver o que veio depois deste? Aqui.