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Cupidagem de supermercado

É desses supermercados que colocam um formulário no caixa, para que as pessoas indiquem produtos que, na opinião delas, estejam faltando. De geleia de pimenta à coleira, os fregueses vão anotando o que gostariam de ver nas prateleiras.

Na hora à toa, quando já coloquei toda minha compra sobre a esteira e aguardo a mocinha passar coisa por coisa, aproveito para me atualizar do que querem as pessoas. O leitor de preços vai cantando, pip, e eu, leitora, vou conferindo a listinha dos clientes. Às vezes o processo é demorado; ela lança a goiaba branca em vez da vermelha. Chama o supervisor (que está ocupado e vem irritadiço), ele passa seu cartão de funcionário, digita a senha, cancela o item e a goiaba branca desaparece da tela.

Na listinha de hoje, dois pedidos especiais. O freguês reclama que não encontrou a catuaba selvagem – prestem atenção: não basta ser o lendário afrodisíaco, tem que ser selvagem (oh furor!) – e a freguesa sinaliza que homem acabou.

Enquanto a mocinha do caixa digita manualmente o código da linhaça dourada, porque o leitor eletrônico resolveu encrencar, penso em sugerir ao supermercado que invista nas novas tecnologias. A listinha de produtos faltantes poderia virar um aplicativo, disponível para Android e iOS. Numa espécie de rede social com algoritmos especialmente programados, seria permitido que, fosse o caso, os fregueses pudessem contatar uns aos outros.

O freguês animadinho que pediu a catuaba poderia conhecer a freguesa solitária que relatou a falta de homem. E todos seriam felizes para sempre. Fim.

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Corrida

arte: Joachim Robert
arte: Joachim Robert

Quando vou às compras, gosto de apostar corrida com a pessoa do caixa – qualquer caixa – para ver se consigo retirar o cartão antes que ela diga “Pode retirar o cartão”. Tenho me saído bem. Deixo o lugar sorrindo, cantarolando “We are the champions”. É minha desordem mental recorrente, my friends.

E essa é a apoteose.

O tiro de largada é quando saco o cartão para pagar. Nesse momento já estou preparada, alongada, aquecida. A pessoa pergunta “Crédito ou débito?”, eu respondo e calculo mentalmente o tempo que ela leva para digitar os comandos (se é Visa etc.). Então, saio em disparada para inserir o cartão antes que ela termine de dizer “Pode inserir o cartão”.

Na sequência, já dona do ritmo, verifico o visor da maquininha, ganho fôlego e corro para digitar a senha antes que ela pronuncie “Pode digitar a senha”.

Enter.

Foco o olhar na tela da máquina registradora que inicia contagem regressiva, geralmente começando em 35 e, quando o tráfego de dados está bom, no 32 (em média) vislumbro “Transação aprovada”. Apanho o cartão antes que ela anuncie “Pode retirar o cartão”.

Alcanço a linha de chegada com um dedo indicador de vantagem. Não tem pra ninguém. Quase esqueço de pedir o CPF na nota.

Não pago mais nada em dinheiro vivo. E desconfio que tenha comprado mais coisas do que preciso.

Estou só olhando

Foto: Cameron Russell

Entro.

Meus pés, treinados, me levam à seção dos vestidos. Os longos ficam a oeste. A leste, os curtos. Um espelho superlativo, ao norte. O caixa cruel, ao sul. São os pontos cardeais do consumo, orientando minha fome de roupa nova.

A vendedora surge, sorridente. Quer curar a minha deliciosa solidão.

– Estou só olhando.

Ela não sabe, mas eu minto. Não estou só olhando.

Uma a uma, puxo de leve as peças nos cabides, a fim de sabê-las melhor. Meus sentidos estão irremediavelmente despertos. Além dos olhos, curiosos, os ouvidos detectam conversas paralelas; calculo começos de histórias, invento finais. Farejo mangas e golas e entretelas. Arrepio na aspereza da fazenda. Quero comer o vestido de morangos.

Vê, moça? Não posso apenas estar olhando. Mente quem diz.

Penso, nauseada, na possibilidade de mãos infantis, indevidas e não-autorizadas, terem pregado aqueles botões, ao mesmo tempo em que matuto, aflita, no que farei para o jantar. Que horas são?

Dedico dez segundos de compaixão aos que derretem no verão externo, agradecendo a dádiva do ar condicionado interno, a reproduzir o outono com notável perfeição.

Vê, moça? A frase-padrão, que serve para se poder zanzar sossegada por entre as araras, é uma farsa.

Ela, vendedora, ronda. Insiste:

– Procurando alguma coisa especial?

Todos os dias, meu bem. Incansavelmente. Sigo procurando especiarias e especialidades em tudo: uma água quente sob a ducha, para terminar de me acordar. Uma manga doce para meu café da manhã. A volta de todos, em segurança, para casa – todo retorno ao ninho é especial. A esperança de que o dia tenha início, meio e sim. Mas hoje, confesso, procuro mesmo é algo que não me deixe barriguda. Devo respondê-la, será? Vendedora não tem tempo de ouvir. Vendedora só tem tempo de vender. Se eu levo todos os sentidos quando vou às compras, ela só traz um quando vem trabalhar.

O espelho do norte me encara. Ordena que eu confira meu layout original, do Oiapoque da minha écharpe ao Chuí das minhas sapatilhas. Que tipo de animal geográfico paramentado eu sou, afinal?

Saibam, moças vendedoras do mundo todo: nunca estaremos só olhando.

Finjo conferir o preço na etiqueta mas, em verdade, estou pensando na última vez que fui ao cinema, tentando lembrar qual é a capital do Camboja, me dando conta de que não tenho dinheiro. Todos as angústias cabem no bolso de uma camisa verde-limão.

Apanho uma pantalona, coloco-a na frente do meu corpo, tem que fazer barra, sempre tem. Conto as lampadinhas piscantes da vitrine e lembro do dia em que ganhei minha primeira bicicleta – não sei se foi de Natal ou aniversário. O banco veio muito alto, eu era (sou) pequena. A loja não faz ajuste.

Provo, reprovo, hesito, aprovo. Minhas roupas são cheias de verbos. Uma década e dois filhos me afastaram do 38, me puseram no 42 e me trouxeram de volta ao 40. Às vezes, não sei costurar passado e presente.

Ela, moça, quer saber até quando só olharei. Disfarça a impaciência e diz para eu ficar à vontade. Todo vendedor mente. Todo freguês, também.

No carrinho dos outros

“Chá preto, duas latas de leite em pó, escovinha para pia, Limpol”. É uma lista de compras de supermercado. Mas não é a minha lista de compras de supermercado. Essa eu achei, abandonada num canto da banca de maçãs, quinta-feira passada. Anotada a lápis no pequeno, alvo e amarrotado pedaço de papel, recortado de uma folha onde se vê no verso o logotipo “Instituto de Biologia”. Catei na hora, guardei na bolsa. Eu gosto de ver lista de compras dos outros. É meu fetiche varejista. Ou uma variação da cleptomania, ainda não catalogada pelo DSM – o manual das desordens mentais.

Antes de tomar posse do objeto, verifico ao redor se não há ninguém olhando. Medo de ser pilhada pela dona, que apenas a deixou ali um instantinho, enquanto pesava algumas batatas para o purê do jantar.

É uma dona, eu sei. Elementar, meu caro leitor. A primeira pista é a delicada caligrafia. A segunda e definitiva evidência: o último item da lista é uma tomada. E, para não se confundir e levar para casa o material certo, ela desenhou ao lado o esquema da bendita: dois riscos verticais e paralelos com um ponto sobre eles. Que homem faz isso?

Mulheres, em geral, carecem dos detalhamentos técnicos. Homens, dos subjetivos. Se, ao marido da dona é dada a missão de comprar absorventes, ele não os desenha, mas se mune de todas as especificações para não levar bronca da patroa depois: marca, cor da embalagem, com ou sem perfume, se é com abas ou não. Fosse a encomenda feita à amiga ou irmã, bastariam duas palavras, “Traz Carefree?”.

Cada sexo com sua telepatia. (Ou biologia? Disso a dona deve saber.) Nesse quesito, o casamento homossexual sempre levará vantagem.

Continua: ela precisa de farinha de trigo também. E de stevia, aquele adoçante natural. “Em pó” vem grifado, para reforçar. Líquido, nem pensar. Alguém em casa controla a ingestão de açúcares. Doença ou prevenção? O leite em pó revela a presença de crianças, ou é para aquela receita de pão? Na lista do supermercado há mais mistérios…

Quando não encontro nenhuma lista perdida, gosto de analisar as compras que passam pelo caixa imediatamente antes das minhas, enquanto finjo prestar atenção nas revistas da gôndola, ou depois, enquanto guardo o cartão de crédito de volta na carteira. Posso traçar o perfil da cliente, só de ver a meia dúzia de garrafinhas de iogurte light e pão de forma sem adição de açúcar que habitarão sua despensa, revelando um irritante IMC abaixo de 20. Já o outro organiza na esteira sua galeria de junk food e Tetrapak. Em meio a miojos e refrescos artificiais, um pacote de quinoa. O cereal andino é a redenção da semana.

“Diga-me o que pões em teu carrinho e te direi quem és”.

Exceto a dona da listinha abandonada, cuja personalidade até agora se faz indecifrável. Terá ela levado a tomada certa, afinal?

De bolsa nova

Ilustração: r8r

Foi Dia dos Pais e também ganhei presente. Eu, que sou mãe. Não que misturemos os papéis em casa; esses já são suficientemente bagunçados no arquivo da estante (levei horas para localizar uma conta de luz recente, pediram na renovação da carteira de habilitação). É que me ocorreu de também merecer um mimo no segundo domingo de agosto: sem mãe não há pai. Na véspera, o diabinho que se empoleira no meu ombro esquerdo e vive às turras com o pequeno anjo sobre o direito me cutucou, soprando um recado. Uma ordem. Disse ele: “Vá e compre aquela bolsa que você gostou”. Eu fui. E o anjinho chorou.

Tudo posso na bolsa que me fortalece. Com ela a tiracolo (e dividida no cartão), fico pronta para o mundo.

Pronta para aturar o deselegante motorista da outra pista que vê minha seta e acelera. Relevar a indelicadeza do médico do convênio, que se despede enquanto eu faço uma pergunta. Tem nada, não. Eu estou de bolsa nova.

Preparada para correr com o almoço, levar as crianças à escola, voar para a reunião em outra cidade e voltar a tempo de buscá-las. Tudo bem; eu vou de bolsa nova.

Forte para lidar com o intolerável, assistir na TV guerras civis não-declaradas, declarar guerra às empregadas domésticas, suportar a má-vontade da moça da padaria que se aborrece por ter de explicar do que são os salgados. Que que tem? Minha bolsa é linda e nova.

Uma bolsa-dos-desejos transmuta qualquer humor feminino. É munição para a batalha, proteção em meio à selva urbana, patuá da espécie. No icônico depositário de pertences e utilitários vai a alma d’uma mulher. Já uma bolsa novinha em folha – com todo respeito pelas anciãs guardadas no armário – é capaz de tudo isso com o frescor de uma manhã recém-nascida. Bolsa nova é pura bossa-nova mental.

Sim, eu agito bandeiras verdes e anticonsumistas. Reservo-me, porém, o direito a recaídas samsáricas. Posso ser mundana, só um pouquinho? Estou em dia com Deus. E ele me disse, em segredo, que dá para conciliar aspirações espirituais e desejos materiais. Gosto de pensar assim. Além de que, não contei. Antes da ordem final do diabinho, eu já havia adquirido pela manhã, na mesma loja, um par de sapatilhas que estava dando sopa.

Mundanice pouca é bobagem.