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Insulfilm

foto: Rudi Gude
foto: Rudi Gude

Entrou na concessionária e pediu para colocar Insulfilm nos vidros. “O mais escuro que tiver”. O vendedor mostrou os tons e apontou, “Este aqui a polícia pega”.

“É esse que eu quero”.

“Tem certeza?”, estranhou o vendedor. “Se fizerem você tirar, perde a garantia”.

Ela fez sinal de positivo, pediu que tocasse o serviço. Garantias ela já não tinha há tempos.

Em duas horas, saía da concessionária numa espécie de bat-móvel. Testou a invisibilidade ao parar no sinal. Encarou o motorista ao lado e mandou-lhe um beijo. Nada. Para que não restasse dúvida, mostrou-lhe o dedo do meio. Nada. Sorriu e engatou a primeira. Estava protegida.

Entrou no consultório, segunda sessão. Enrodilhava pequenas mechas de cabelos nos dedos, um por um, enquanto o terapeuta anotava coisas num caderno marrom e, de tempos em tempos, a fitava. Fitava mais do que anotava. No décimo dedo, ela anunciou, “Queria por Insulfilm no meu coração. O mais escuro que tivesse”. O terapeuta repousou o caderno no braço da poltrona, também marrom. (“Bom mesmo seria blindá-lo”, ela pensou baixinho.)

Assim como nos vidros do carro, ela queria uma fina e escura película ao redor de seu músculo involuntário. Mais que evitar calor, ela não queria que soubessem o que acontecia ali dentro; as tristezas públicas dão trabalho. Também tinha medo de que lhe roubassem os motivos, as razões, os direitos ao recolhimento. Queria ficar a salvo de assaltos e sobressaltos.

Entrou no consultório, sétima sessão. Cortara os cabelos pela manhã, seus dedos agora ficavam à toa no regaço. O terapeuta quis saber se ainda pensava no Insulfilm cardíaco. Ela sorriu. Ele anotou.

Dois meses depois, foi parada em uma blitz. O policial, cumprindo a previsão do vendedor, encasquetou com os vidros de seu carro. Pediu para ver os documentos. Deu a volta no veículo. Inspecionou o porta-malas. Falou pelo rádio com algum colega, conversaram por consoantes codificadas. Devolveu-lhe os documentos, ela roía as unhas. “Vai ter que tirar”, disse, apontando para as janelas.

Décima nona sessão. Já conseguia enrolar uma nova mecha no dedo indicador, enquanto o terapeuta contava da proltrona nova, vermelho-escuro, adquirida em um brechó. “Só duzentos e cinquenta reais, acredita?”. Em seguida, abriu o caderno, agora vermelho-claro, e quis saber como andavam as coisas. A certa altura, tornou a lhe perguntar se ainda sentia vontade de ter o Insulfilm dentro dela. Ela disse que não, pois sempre haveria alguém lhe pedindo para tirar. Desenrolou a mecha e aproveitou para contar: “Fizeram-me arrancar o Insulfilm do carro duas vezes”.

“Desistiu, então?”.

“Não”.

Vendera o carro.

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Do direito à tristeza

Ilustração: Gui Machiavelli/Flickr.com

O moço publicou em sua página na internet: estava triste. Não forneceu detalhes. Tristeza de amor ou de saudade? Traçara uma feijoada inteira e ainda não digerira a culpa, ou vira um cão ser atropelado? Não conseguira pagar a fatura do cartão de crédito ou perdera o derradeiro suspiro da avó? Ninguém ficou sabendo. Em minutos, pipocaram manifestações consternadas. Preocupadas com a lacônica desolação do remetente.

Salvo parcas exceções, ninguém gosta de ver o próximo triste. (E quem gosta, não conta aos outros.) Para os que detectam o pesar alheio, livrar o tristonho daquilo que o consome torna-se, então, uma missão. Quase coletiva. Parentes e amigos – e foi aqui que entrei na história – se unem, literalmente ou não, para extirpar-lhe o objeto da apoquentação, protegê-lo da (suposta) perniciosa falta de sorriso, alimentá-lo de alegria. Todo mundo tem em si uma mãe. Pronta para colocar um bandaid na tristeza, que é um machucado da alma. Disposta a atacar a melancolia, dar conselhos, prescrever remédios, recomendar patuás, ensinar simpatias, inventar, azucrinar!, tudo para ver o triste alegre de novo. Enfim: ninguém dá sossego a um cabisbaixo. Caímos todos na armadilha da alegria eterna. Que tristeza!

A tristeza, o tal direito inalienável, tem seu revés: se o amigo a tornou pública é porque, de certo modo, pedia algum socorro. E não seria meu dever acudi-lo? Tentar animá-lo, contar piada, fazer gracinhas? O que fazer, afinal, com alguém entristecido? Toda boa ação corre riscos. E nada mais triste que uma alegria com dúvidas.

Ofereci-lhe um café forte. O que, ao menos, aquece tudo. Diz ele que aceita, mas não sei ainda para quando vai querê-lo. Não importa. A tristeza, no fundo, sabe a hora de ser feliz.

Crônica de minuto #21

Criança de colo ainda, conheceu três orfanatos. Sempre o mesmo enredo, não havia lugar para ele. Nunca houvera, enfim. Sequer no útero original foi bem-vindo; ele é que não obedecera às ordens de despejo. Da infância, cerzida a caridade, só recordava dos confetes de papel colorido que ganhava na quarta-feira de cinzas. Os que haviam sobrado. Aprendeu a fazer festa depois da festa. Fez alegoria da solidão. Inventou sua história com os pedaços de vida que os outros não queriam mais. Vida de retalhos que não combinavam entre si. Teimou tanto em ser feliz, que um dia costurou e vestiu sua própria fantasia de alegria. Nunca mais tirou.

Tristeza de anjo

Ilustração: Talas/Flickr.com

 

Ele andava tristonho havia dias. Notei numa manhã em que não quis muita conversa. Apareceu na cozinha, como de costume, encarapitado na geladeira. Nem Sucrilhos quis. Apanhei sua tigela preferida – a do carrinho azul – e ele resmungou, “Estou sem fome”. Coloquei-a de volta no armário. “Um café, então?”. Nem. Ficou lá. Os olhos tristes a me filmar, enquanto eu descongelava o peixe. Brincou com os ímãs da geladeira, trocou uns de lugar, pôs o do disque-farmácia de ponta-cabeça. Disse que precisava ir e, quando me virei, já tinha ido.

Dia seguinte, mesma coisa. Com muito custo, aceitou o biscoitinho de maisena que eu fizera no final de semana. Beijou-me a testa e se foi. Eu não quis perguntar o que havia acontecido, anjos nem sempre podem nos contar tudo. Eles têm seus segredos. Mas se tem uma coisa que parte o coração é ver anjo triste. Não combina.

Ele gosta de acordar tarde, como eu. Já ouviu tudo da Tiê, como eu. Nos conhecemos num dia em que ele surgiu no jardim, todo sem graça, perguntando se eu tinha linha e agulha. “A bainha da minha blusa…”, foi explicando. Peguei minha caixinha de costura e, enquanto lidava no remendo, perguntei se aquela roupa não estava muito grande. Logo ele, tão miúdo. Ele disse que gostava daquele jeito, assim o vento lhe fazia cócegas. Fosse justa, não daria certo. Entendi. Fazia tempo que meu corpo não sentia o vento, exceto braços e rosto. O resto também carece de vento. Ajuda a levar embora o que ficou velho.

“Veja se ficou bom”, pedi, cortando a linha com o dente. Vi seu sorriso. Viramos compadre e comadre, e desde então ele sempre dá uma passadinha em casa, pela manhã. Vem conversar e comer Sucrilhos com leite. Pouco leite, “senão vira sopa”, ele ensina. Seu sorriso é uma janela de onde se vê o céu da boca, cheio de passarinhos. Às vezes, termino meu café e vou cuidar da vida. Ele já é tão de casa que nem preciso fazer sala para ele. No caso, fazer cozinha. Quando ele se despede, espicho o olho na tentativa de flagrar como é que ele vai embora. Nunca consigo.

Terça não o vi. Deixei a caixa de Sucrilhos bem à vista na bancada. Saí, pus recado na geladeira: “Fique à vontade. Volto logo”. Quando retornei, a tigela estava limpa (e sei que ele não gosta de lavar louça). Os ímãs, intactos. A cozinha, que fica com cheiro de sabonete de criança quando ele vem, só tinha cheiro de azulejos e panelas e temperos.

Quarta-feira, e ele não veio também. O que será que deixa um anjo triste? A gente tem sempre uma vaga ideia, por conta do cinema e dos livros e das histórias. Existe a tristeza própria e a tristeza alheia. Ambas fazem o mesmo estrago em nós. Não sei se anjo já foi gente e, nesse caso, se ainda vai tornar a ser. Ou se nem uma coisa nem outra, ou se tudo junto e mais um pouco. Só sei que passei mais tempo na cozinha nesse dia. Esperando.

Quinta e nada. Seria ele quem precisaria de mim, agora? Acostumei-me a apenas contar com ele sem, contudo, oferecer-lhe nada além de Sucrilhos. Mas eu só sei fazer a guarda dos meus filhos, e olhe lá. Como se cuida de um arcanjo? Quem é sua mãe? Senti saudades, chamei. Veio o abelhudo do gato, em vez. Notei: passei a usar roupas mais largas depois que o conheci. Para aguardar as cócegas do vento, soprando as novidades.

Sexta-feira chegou, e com ela a frente fria e os livros que encomendei. Desembrulhei-os, achei que ele poderia gostar de um deles. Deixei-o ao lado do Sucrilhos e fui trabalhar. Quando voltei, corri até a cozinha. Dentro da pia, a tigela. Os ímãs desalinhados na geladeira. Não achei o livro. Em seu lugar, um girassol recém-colhido. Tudo em paz, então. Anjos também têm seu tempo de resolver as coisas. Foi quando ele surgiu por detrás de mim e, feito criança, “Buuuuu!”.

Já ia ralhar com ele, não gosto desses sustos. Mas ele abriu seu sorriso de céu e apontou para o bolso da calça. Dei água para o girassol e fui buscar a caixinha de costura.

O funeral

Ilustração: Serendigity/Flickr.com

Em enterros é proibido ser feliz. Sorrisos são mal vistos. Se você foi promovido na empresa no dia anterior, deixe a alegria em casa. Se sua sobrinha nasceu na semana passada e você já teve oportunidade de pegá-la nos braços, finja que não se recorda da sensação. Se amanhã você embarca com seu namorado para vinte dias num charmoso vilarejo italiano, faça de conta que deu tudo errado e vocês não vão mais. Cemitério não é lugar de gente alegre. Nele só são permitidos pensamentos tristes. Não cumprimente efusivamente um amigo que não vê há tempos, mesmo que você esteja sinceramente contente em vê-lo – ainda que não ali. Nesse caso, esboce um sorriso, sem muito entusiasmo, e dê-lhe um abraço mudo. Só. Para a etiqueta dos funerais, basta.

Ontem fui a um. Convém registrar, e já: claro que ninguém fica feliz com a morte de um familiar, um amigo (ou amiga, no meu caso), salvo casos previstos na psiquiatria. Nos funerais, as pessoas mais chegadas – parentes ou não – ficam, de fato e visivelmente, tristes de dar dó. Quase dá para ver (ou ouvir) seus corações chorando. A morte desarranja, abala, desconcerta, despruma, desconstrói, faz bagunça. Verdade verdadeira. No entanto, sejamos honestos, sem medo do bofetão: parte dos presentes não tem o coração tão dilacerado assim. É preciso estabelecer uma fronteira entre os pesares. Acompanhar enterro de pai não é a mesma coisa que acompanhar enterro de cliente. De tio que nunca lhe deu um abraço. De mãe do amigo do filho, aquela que você não viu mais que duas vezes no último ano. Por que, então, lançar mão de um semblante tão forçadamente triste, se não é isso que vai na alma? Não é, claro, o caso de contar a última do papagaio ou relembrar o episódio d’Os Normais da semana passada. A menos que o falecido seja da área do humor, coisas assim nem vêm à lembrança. Naturalmente. O silêncio é uma forma universal de respeito. Mas repare: assim como se vestem de preto, algumas pessoas se vestem de tristes. Nos dois casos, o efeito é apenas superficial. Protocolar.

Serei uma pessoa fria por não ter chorado? Talvez eu tenha sido mais tocada com a perda da minha amiga do que outra pessoa que tenha exibido um copioso pranto durante seu sepultamento. O manual ainda estabelece que, quanto maior o choro, maior a dor. Assim como quanto mais e maiores coroas de flores, mais querida ou importante a pessoa era. Parâmetros sociais da vida. E da morte. Enquanto as últimas pás de terra selavam o túmulo da minha amiga sob um alaranjado entardecer de outono como testemunha, pensei na impermanência das coisas todas. No sentimento do seu marido, também meu amigo, ao ver o frasco de xampu dela ontem à noite, na hora do banho, e o que ele fez com a saudade naquela hora. Pensei nos seus sapatos solitários no armário, órfãos de pés até que alguém dê a eles novos donos. No que ela mudaria em sua vida se fosse avisada, há um ano, que hoje não estaria mais aqui. Em quem deve tê-la recebido do lado de lá e como se ajeitarão as coisas do lado de cá, sem ela. Pensei em tudo e desejei, profundamente, seu bem. Sem, contudo, perder de vista minha alegria diária, apenas por estar viva.

Funerais me deixam assim. Esquisita.

Carta para J., que está triste

Ilustração: João Grando/Flickr.com

Querida

Deus deveria ter instalado em nós um botão chamado ‘colo’. Na hora T, de tristeza, era só apertar e um monte de amigos apareceriam na nossa frente. Um para fazer aquele café bem forte, outro para ajeitar o cabelo da gente, outro para contar piada. Como não sei fazer café, nem contar piada, botaria uma flor no seu cabelo.

Já que você não quer me contar de jeito nenhum o que aconteceu, a ponto de nem querer saber daquele sapato cintilando para você na vitrine, ontem à tarde, eu vou por tentativas. Se eu acertar, você sorri.

Para o caso de ter sido aquele seu namorado enjoativo, eu tenho a solução: água tônica com limão espremido e gelo. Enquanto ele desfia o rosário, você vai tomando, para não embrulhar o seu estômago. É tiro e queda. Vai lhe dar mais disposição, inclusive, para mandá-lo passear. Definitivamente.

Na hipótese do Horácio ter fugido de novo, o jeito é esperar. Gato é assim mesmo. Gente geralmente avisa quando vai viajar, gato não. Ele se pirulita e pronto. Depois volta. Se não voltar em dez dias, a gente faz um cartaz bem bonito e põe em tudo quanto é lugar. Quem sabe ele mesmo não acaba vendo e lembra que tem dono? É bom não esquecer, porém, que cada um tem o seu caminho neste planeta. A gente não pode, nem deve, ter o controle de tudo.

Vamos supor que aquela sua sobrinha que foi fazer intercâmbio na Austrália tenha se metido em outra encrenca. Esse é o padrão dela, o que se há de fazer? Fique sossegada, ela costuma escapar ilesa. No mais, nada de ruim acontece na Austrália. Até o Nemo, aquele peixinho do filme, conseguiu voltar para casa.

Imaginando que possa ser seu novo corte de cabelo, e essa cor, é preciso ser honesta: bonito, bonito mesmo, não ficou. Mas cabelo é como a grama do jardim; você se esquece dela uns quinze dias, e ela já está grande, é hora de aparar de novo. E ele nem ficou verde. No Natal de 2005 ficou, lembra? E nem por isso você perdeu a alegria de viver.

Não vi o sorriso, J. Por que você está tão triste? Mas o que foi que aconteceu? Já sei. Às vezes, na vida, está tudo bem, tudo certo. Não falta nada em casa, o filho passou de ano, o cliente aprovou a campanha. Tudo caminha nos conformes. Mas a tristeza insiste em virar sombra. Aí é que mora o perigo: um dia, a camélia cai do galho, dá dois suspiros, e morre.

Melhor Deus incluir esse botão na próxima revisão de projeto.

Beijos,

Sobre cartas de amor

Foto: Sonson/Flickr.com

Aonde vão parar as cartas de amor que não chegam aos destinos? Os bilhetes e emails românticos, nunca lidos, perdidos e esquecidos pelos caminhos, ares e fios?

A missão de toda carta de amor, em papel ou pixel, é chegar até alguém. Se a carta, depois de escrita, não chega a ninguém, suas palavras se desfazem, e as letras retornam aos seus lugares no alfabeto. Palavras são reuniões de letras que se gostam. E, assim como as vírgulas e os pontos, todos voltam para suas casas. Ficam esperando nova oportunidade de dar um passeio. (Amor, às vezes, tem mais pontos de interrogação que de exclamação.)

O que é feito do amor da carta que não chega ao seu destino? Quem sabe ele se dissolva em átomos e fique espalhado sobre o planeta, para quem quiser colher: é de graça, mesmo. Ou então, quem sabe o amor vire a dúvida do sim, do não, e daquele bobo do talvez.

E o que é feito da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Sabe-se lá. Mas uma coisa é certa: dá uma tristeza danada não saber o que aconteceu com o amor postado em vão.

E o que é feito da tristeza da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Vira solidão. Principalmente de manhã, ao acordar, quando não tem ninguém ao lado para dar bom dia ou perguntar se está sol, exceto o criado. Que é mudo. Não vai responder.

E o que é feito da solidão da tristeza da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Vira vazio. Aquele, que se instala no sofá nas noites de sábado e fica cantando músicas grudentas só para chatear. Mas repare bem no cantinho do olhar dele: aquilo ali é esperança. E das boas.

E o que é feito da esperança da solidão da tristeza da dúvida do amor da carta que não chega ao seu destino? Essa vira sonho, e é dele que nasce todo o resto que vem antes e depois de uma simples carta.

Então, na próxima vez que você escrever uma carta de amor, esteja ciente: mesmo que não seja entregue, de fato, ela é capaz de criar quase tudo que há no universo. Sendo assim, melhor caprichar.