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Crônica de minuto #14

Fazia tempo que eu não me via no meio de uma ligação cruzada. Pensei que a tecnologia havia deixado isso lá atrás, junto com os aparelhos telefônicos de disco. Não deixou. À minha conversa com a cunhada, hoje pela manhã, fragmentos de outra vieram se misturar. Uma tia adoentada, chuva e – acho – viagem para a praia. Os sujeitos, ocultos, nada suspeitaram da escuta involuntária. Ao desligar, a dúvida. O que será que a tia tinha?

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Crônica de minuto #2

Quando eu era pequena, sempre ganhava cortes de tecido de presente, geralmente das tias. Que viravam, pelas mãos da minha mãe, vestidos e blusas. Ninguém mais me dá cortes de tecido. Acho que é porque nem tenho mais tantas tias. Ou então, porque minha mãe não está mais aqui para fazer minhas roupas. As coisas todas têm suas razões.

Carta para minha tia

Tia

Meu avô sempre dizia, em meio às prosas e sem maldade alguma, que você era meia-irmã dele. Engraçado isso de dividir as pessoas pela metade, conforme o pai e a mãe. Ser meio-irmão é como ser meia-pessoa. Que teria sentido se fosse feito só de pai ou só de mãe. Mais ou menos como, dizem, aconteceu com Jesus. Não foi assim com você.

Nunca me disseram, no entanto, que você era minha meia-tia. Tampouco você me tinha como meia-sobrinha. Para mim, você era tia inteira. Que telefonava de vez em quando só para saber se a gente estava bem. Que usava vestido com calça comprida, onde quer que fosse. A estranha combinação ficou sendo a sua marca registrada. Mal sabia você que isso viraria moda. Eu deveria ter prestado mais atenção em você, tia.

Eu também deveria ter sido uma pessoa menos atarefada. Menos atrasada. E daquela vez, com razão, mais apressada. Daquela vez, recebi um recado seu, pedindo que eu fosse à sua casa. Você queria conhecer minha filha, que acabara de nascer, para dar a ela um presente: uma roupinha nova. E eu não fui, tia. Não fui. Poucos meses depois, você que se foi. O verbo ir é mesmo cheio de sutilezas.

Vocês duas acabaram não se conhecendo. Nina não recebeu seu presente, certamente embrulhado com papel celofane cor-de-rosa e fitinha enrolada em espiral. Roupinha de bebê, quando é para presente, deixa de ser só roupinha para o bebê. Vira abraço. Presente, quando não é dado, vira nuvem. E o vento leva.

Obrigada pelo presente, tia. Ainda que tarde. Um dia, eu aprendo a fazer as coisas direito. Ou por inteiro.

Saudades,