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Eu não quero saber o que é “Le Crabe”

Eu não sei o que diz a letra da música Le Crabe. Aquela, da Françoise Hardy. Aquela, que foi sucesso na década de 70 e até tema de novela da Globo. Eu não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Só sei que eu a ouvia numa fita K7 gravada pelo meu irmão. E ela passou a fazer parte do meu imaginário musical.

Dos Beatles, traduzi tudo que caiu nas minhas mãos. Sentadinha no sofá, encarte e dicionário ao lado, Lô-lôv-mi-du. O mesmo fiz com tantos outros. Le Crabe, no entanto, não. Recuso o spoiller até hoje. Nem quando entrei num curso de francês na PUC eu desejei traduzi-la. Nem quando minha irmã virou francesa; nunca lhe telefonei pedindo “Traduz pra mim?”. Fugi, fujo e fugirei sempre dos dicionários e dos tradutores instantâneos e também das pessoas que, embora bem intencionadas, já tentaram revelar o irrevelável. O amigo generoso mandou-me a tradução pelo Messenger. Excluí a mensagem. Sem dó, sem ler. Não é ingratidão. Só não quero destruir minha memória afetivo-musical.

Porque, no fundo, eu sei o significado da letra.

Os primeiros versos de Le Crabe, por exemplo, falam do risoto de ervilhas com palmito que tinha em casa, aos domingos. Um panelão enorme, pra durar até terça-feira, feito a quatro mãos pela minha mãe e minha avó.

Aliás, Le Crabe, que tem uma parte meio tristonha, fala da minha avó também. Que afogava gatinhos recém-nascidos no tanque quando a nossa gata dava cria, naquele tempo ninguém falava em castração. E a gata ia parindo. E a minha avó afogando. Se há alguma justiça nesse mundo de vivos e mortos, e se existe mesmo carma, dona Josephina há de estar no além trabalhando muito para compensar as maldades terrenas. Rodeada de gatos.

Já o refrão fala de quando meu pai recebia o salário no banco e passava na farmácia, para abastecer a casa com remédios, esparadrapo, Merthiolate, algodão. Ele chegava com uma caixa grande e sempre tinha Cebion. Que a gente comia como se fosse bala. Até hoje faço do mesmo jeito: não ponho na água, que isso é para os fracos. Descasco a pastilha e a encosto na língua, para senti-la efervescendo. Entre uma careta e outra, vou roendo devagarinho e adquirindo minha dose diária de vitamina C. C, talvez, de crabe – o que quer que isso seja.

Noutro pedaço, os versos falam das nossas viagens para Santos no Fusca, nos finais de semana. Sem cinto de segurança, sem protetor solar, sem dinheiro, sem garantias. Legítimos farofeiros. A tradução disso? Saudade.

É disso que fala a letra e pronto. E de mais uma porção de coisas. Le Crabe é, por sinal, uma das músicas mais compridas do mundo. Ela tem a duração da minha infância.

Por isso prefiro, em vez de escolher a obviedade do dicionário, atribuir significados particulares às palavras que não entendo e continuar sendo feliz com minhas memórias, ativadas ao primeiro acorde. Já pensou se descubro que Le Crabe fala de meleca de nariz, esquistossomose, loteria esportiva?

A ignorância pode ser uma bênção. Ou a senha para a liberdade.

Acho até que isso dá música.

 

“Le Crabe”, Françoise Hardy

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Crônica de viagem #3 ou O cortejo

Arte: Craig Walkowicz

Deve ser, ao menos, romântico morrer nos alpes franceses. Passar desta para melhor só há de valer a pena se na outra vida existir uma cadeia de montanhas tão estonteante quanto a que sou condenada a ver por dez dias seguidos; meus olhos quase recusam o piscar.

Elas são três e é preciso decorar seus nomes, dizem que faz parte da iniciação local: Chartreuse, Vercors, Belledonne. Quem vive em Grenoble, cidade abraçada por elas, compulsoriamente vê, ao final de cada rua ou canto, uma delas. É como morar na folhinha. Aquelas, penduradas na porta da cozinha ou no paneleiro de antigamente, a marcar os dias e os meses com paisagens tão paradisíacas quanto impossíveis. Tínhamos em casa. Era brinde da quitanda, do mercadinho, da loja de material de construção. Eu, criança, era desesperançosamente fascinada pelas paisagens. Não as supunha reais; era tudo ficção. As fotografias nem legendas tinham; pertenciam a alguma longínqua terra de faz-de-conta. Há alguns anos, minha irmã , cunhado e sobrinhos atravessaram alguma porta ou paneleiro perdido e foram parar no mundo da folhinha. Agora eles têm um pays des merveilles só deles. Ao visitá-los, mergulho também num calendário onde o passo do tempo é mais breve que o da infância. Não se usa mais pendurar folhinha. O mimo do mercadinho é uma empobrecida versão magnetizada da folhinha, de tamanho e encanto reduzidos, onde ninguém quer morar.

Do outro lado da rua, vejo um cortejo. É a morte pedindo passagem. A cidade, nessa época, é fria como as mãos do morto, falsamente entrelaçadas sobre o peito mudo. Lilás-sujo como sua retorcida boca que, em vida, talvez não tivesse palavras para puxar uma procissão assim. A cidade está vestida de inverno para acompanhá-lo no derradeiro passeio. O que separa vida e morte é apenas um punhado de neve – derretível neve. E, no caminho entre uma coisa e outra, as montanhas, danadas de bonitas.

Quem seria ele, ela? Não importa, é belo morrer no inverno. A não-vida orna com o coração gelado de quem arde em tristeza e saudade.

Tento contar os carros que vão atrás. A morte também tem seus seguidores. É a grande e pesada rede social da ausência, se expressando em cento e quarenta carros, lutuosos e sombrios.

Ninguém desconfia: é no inverno que a vida, secreta e organizadamente, pulsa e se prepara.

Há flores, muitas e coloridas flores a fecundar o féretro.

Ninguém desconfia: é primavera.