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Error

Arte: Id-Iom
Arte: Id-Iom

A mãe de um amigo do marido morreu. “Quantos anos?”, perguntei. A gente quer sempre saber a idade de quem morreu, assim como o peso de quem nasceu. Para, em seguida, inquirir de quê que foi e com quantos centímetros, respectivamente. São as perguntas-padrão, ponteando a curiosidade matemática nos extremos da vida.

“Era bem velhinha”, ele respondeu. Soltei um “Ah” vestido de ligeira tristeza, porém conformado. E segui com meus afazeres, sem choque, sem pena, sem filosofias. Tudo bem morrer velhinho, então.

Há algum tempo, a filha do amigo de uma amiga morreu. Perguntas feitas, respostas dadas, fiz coro na unânime inconformação: uma criança! Ninguém acreditou.

A velhice autoriza a morte. A juventude, não. O velho que morre está em conformidade com a vida. O jovem que o faz comete infração grave contra a (inventada) legislação da natureza. E quanto mais novo, parece, maior o agravante.

É como se disséssemos ao velho: “Já viveu o bastante; pode ir”. E, da mesma forma, ao jovem: “Ainda não viveu o que tinha para viver; tem de ficar!”.

Por um instante, incomodei-me com a possibilidade de ninguém ligar quando eu morrer, quem sabe, com oitenta e quatro anos. Não que eu vá querer choro e vela (nem fita amarela), mas não gostaria que considerassem justa a minha morte apenas por conta da idade que terei no derradeiro dia. E se eu ainda não tiver vivido tudo a que tenho direito? Se ainda tiver planos? Se ainda estiver aprendendo a tocar piano? Quem decide os fins, afinal de contas?

Culpa do planejamento. Assim como se programam tarefas ao longo dos dias da semana, viver está distribuído em anos. Nascer, engatinhar, andar, brincar, estudar, trabalhar, comprar uma casa na cidade, casar, ter filhos, continuar trabalhando, fazer um cruzeiro, ter netos, se aposentar, comprar uma casa na praia, ter bisnetos, morrer. Tirante as pontas, poucas variações dessa ordem são aceitas. Se se morre fora do script, é como se a brincadeira não houvesse valido. Falha na programação. Error.

Não quero mais saber a idade dos mortos. Nem o peso, tampouco altura, dos recém-nascidos. Vou querer saber, sobre eles, outras coisas, mais relevantes para uma lembrança ou votos de vida.

O que explica o mundo, desconfio, não são as respostas. São as perguntas.

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Pelo universo

Arte: Víctor BS

Catei o gato e o enlacei. Ele miou curto, concedendo-me o prazer da contradança. Saímos rodopiando pela cozinha, o feijão no fogo. Faltava a música, então cantei “Across the universe”, baixinho, na sua orelha.

Está certo que troquei uns versos de lugar e esqueci outros. Eu cantava ao vivo, não havia playback. Ele percebeu, mas não disse nada.

Felinos entendem bem do refrão: nada muda o mundo de um gato. Acordar, comer, lamber a pata, alongar-se, quentar ao sol ou abrigar-se da chuva, dormir, caçar passarinho, dormir, caçar lagartixa, dormir. Mesmo que não tenha dono, sua agenda é a mesma (talvez com alguma privação), somada à fuga perante o inimigo.

Eu, que vivo cantando “Nothing’s gonna change my world”, sei que minto. O meu, na verdade, já mudou um bocado. A ponto de eu não reconhecê-lo. Não conto com tanta invencibilidade. É que tudo fica mais bonito numa canção.

John Lennon adorava gatos.

A história da humanidade é feita de guerras, revoluções e modas. A dos gatos, não. Eles permanecem praticamente os mesmos em suas gatices desde que foram domesticados, coisa de dez mil anos atrás. Os gatos não mudam de ideia. Sua revolução está na ponta da língua áspera. A moda deles segue a única tendência possível: liberdade. E um barbante será sempre um bom entretenimento.

Encontrá-los pelo mundo é uma espécie de déjà vu. Sejam os bichanos franceses, norte-americanos, libaneses, japoneses, angolanos ou apenas os que zanzam pelos telhados da rua de cima, é o mesmo teatro, o mesmo balé, o mesmo filme. Se querem carinho, vêm, vão, fingem não estar nem aí com você. Cavilosos, se escondem e voltam; hasteiam o rabo-antena, tombam no chão, esfregam-se em tudo. É a senha: “Vem”. Em dois minutos estão trançando em suas pernas. Se não querem papo, também nisso são todos iguais: ignoram. Entocam-se n’algum buraco, adentram alguma cerca, escalam o muro mais próximo, seguem pelo universo. Gato é um ser manifesto.

Todo mundo deveria saber imitar gato.

Repeti para ele, à exaustão, o mantra “Jai guru deva”, caprichando no “om”. Conectado com seu deus, o Grande Gato, ele o compreende melhor que eu. Fizemos mais uns passos, o feijão ficou pronto. Então ele, com o rabo, me disse: “Agora chega”. E pulou do meu colo.

Para Benta.

Eu, o Tempo

Arte: João Grando

Disse ele, o Tempo, n’algum dia desses:

“Vou lhe explicar, pessoa, por que não retorno ao ontem, nem demoro-me no hoje, tampouco antecipo-me ao amanhã. São justamente os verbos que jamais conjugo.

Ainda que resolvesse fazê-lo, perceba o caos: a feijoada da sexta, o casamento do sábado, a missa do domingo, nenhum deles teria início, nem fim. Só um eterno e desesperador durante.

Relógios endoideceriam. As horas, embaraçadas, confundiriam os minutos. Atos e acontecimentos acomodariam-se num único segundo, condenados a um gerúndio maldito.

O nascimento quedaria distante do parto. A morte não daria cabo da vida, como é de sua natureza. Super-heróis não salvariam o mundo que, por sua vez, não careceria ser salvo (ou viveria em permanente perigo). O Papa reproduziria o gesto da bênção para todo sempre, e os fiéis não teriam o que fazer com ela.

E, caso me dispusesse a atender tantas súplicas a mim dirigidas, a quem deveria dar ouvidos? Ao homem arrependido, à mulher apaixonada ou ao filho ansioso? Cada um tem seu desejo particular de conjugação. Não. Não correria o risco de importunar a Justiça, que em mim deposita tanta confiança.

Seria a era do tiro que perdura, da dor que não cessa, da oração sem amém. Do penne nunca al dente, do bife nunca ao ponto, da água nunca vinho. Nada de pouso ou decolagem. Nem partida, nem chegada. Dia e noite convertidos a uma só massa. O sinal verde sem vez, o vermelho reinante, o amarelo confuso e mais seis combinações possíveis para cada um – todas sem desfecho algum.

Portanto, pessoa, aceite: não sou seu, nem de ninguém. Nem às coisas, sequer, pertenço. Sou livre e desvencilhado, solitário e feliz. Sou aquele que arrebata, incomoda e salva.

Não dispenda sua força ao implorar por mundanices. Não reivindique que o final de semana se prolongue ou que o relógio custe a despertar ao amanhecer da segunda-feira; que a aula seja breve ou que o beijo não finde. De nada adiantarão suas rogativas, desconheço a compaixão. Faço o que quero. E sei o que faço”.