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Verbo familiar

arte: Juliana Moraes
arte: Juliana Moraes

Agendar consulta das crianças na pediatra. Inspecionar orelhas do mais velho. Desembaraçar os cabelos da mais nova. Tirar dente mole dos dois.

Comprar os remédios do meu pai. Certificar-me que suas meias e cuecas estão em ordem. Levá-lo para cortar os cabelos e, na volta, passar no mercado para ele comprar bolachas.

Da matrioska, sou a boneca do meio. Cuido da boneca de fora, a que veio antes, e de onde vim. Cuido das que vieram depois, saídas de mim.

De mim, quem cuida?

Eu mesma agendo minhas consultas e nos dias marcados pego meu carro e vou. Lavo minhas orelhas, decido meus cabelos e, sem ninguém mandar, escovo os dentes – surgidos, tanto tempo atrás, em substituição aos meus moles. Não preciso de remédios; precisasse, os tomaria na hora certa. Determino o que entra e o que sai de meu guarda-roupa. Administro minhas próprias bolachas.

Encravado entre a infância e a velhice, o adulto é a peça autocuidante. No meio do jogo, é o presente, cuidador de si, do futuro e do pretérito.

O futuro, da vida, pensa que sabe tudo.

O pretérito sabe, efetivamente, tudo. No entanto, em triste gerúndio, vai se esquecendo.

O presente arde no desejo imperativo de tudo saber. Efetivamente, nada sabe.

São todos imperfeitos.

E isso é infinitivamente mais-que-bonito.

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Matrioska

Foto: Zeta/Flickr.com, efeitos: Gimp

A bebê dorme em seu carrinho. Enche de amor o coração da mãe que a embala. Enche de amor-perfeito a avó que as contempla. Enche o mundo de graça. E enche d’água meus olhos. Como podem três quilos e cinquenta centímetros ocupar tanto espaço? Na minha tarde de sexta-feira há três mulheres. Saídas uma de dentro da outra. Estou diante de uma matrioska viva. Passaria horas montando-a e desmontando-a. Brincando de nascer e desnascer. Mas quem gosta dessa brincadeira é Deus. A gente só brinca junto; as coordenadas são sempre dele.

No breve tempo de nanar, a bebê se desliga deste orbe, enquanto se liga ao de onde veio, aquele que deixou há pouco tempo. O dos anjos e jardins sem fim, gosto de imaginar desse jeito. Desconecta-se daqui e se reconecta lá. Mata as saudades dos amigos, ainda não sabe que os reencontrará aqui – é surpresa. Joga bola, canta uma canção, afaga um pássaro. E daqui trinta minutos pega um avião de volta, faminta de mãe.

No futuro, as fotografias dos álbuns de família mostrarão o quanto terão sido parecidas essas três mulheres. Pois cada uma tem em si um pouco da outra. O detalhe no sorriso, o jeito de ficar brava, a paixão por alguma arte. E também coisas que as outras se esqueceram de trazer nesta vida, ou não o fizeram de propósito, só para ver se a outra lembrava. Mulheres.

Cada uma delas cumpre um ciclo. E nem sabem por que o cumprem. Só sabem que é assim. Lá se vão, as três mulheres. A primeira ainda não sabe andar. A segunda, sim. A terceira está desaprendendo. Cabe à do meio ajudar as que estão nas pontas do tempo presente. Ela sabe que, breve, o terceiro lugar será seu. E arrepia-se só de pensar: a que cochila no carrinho, um dia, tratará de continuar a história, aumentando a matrioska.

É boa a roda da vida, como não? Vida de meia volta, volta e meia que se dá. Estamos todos cirandando.