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Não quer aproveitar?

Ilustração em “The Ladies’ home journal” (1889)

Entro na loja espaçosa, cheirosa, colorida e iluminada – bem do jeito que o Diabo ensinou aos marqueteiros – e peço:

– Quero ver os batons.

Dizem que ruivas ficam bem de batom vermelho. Testa aqui, testa ali, decido.

A vendedora apanha o batom vencedor e inquire, com a cara nem um pouco lavada (sua chefe jamais permitiria a infração, é uma loja de cosméticos):

– Não quer aproveitar e levar um xampu também?

Por instantes, busco mentalmente a relação direta entre cabelo e boca, a fim de justificar a oferta, e só encontro estas: ambos ficam na cabeça, são paroxítonas e têm quatro letras comuns.

Entrei ali movida pelo desejo de um batom, e não xampu. Fosse assim, teria feito diferente desde o início:

– Quero ver os xampus.

Ou ainda:

– Quero ver xampus e batons.

Uma vez que não foi essa a minha abordagem, declino o convite para “aproveitar”. Estou ficando boa nisso de recusar, nas lojas e na vida, coisas que não quero ou preciso.

– Só o batom mesmo, por favor.

Ela é brasileira, não desiste nunca e é comissionada:

– Os hidratantes estão com 20%, não vai aproveitar?

Moça, vamos nos sentar ali fora e conversar. Qual o objeto do aproveitamento proposto, afinal de contas?

Seria aproveitar o fato de que pagarei com cartão de crédito, e com cartão, já sabe: a gente não vê o dinheiro saindo da carteira, se empolga, e depois de quarenta dias, chora? Nesse caso, quem aproveita é o banco e a administradora do cartão.

Ou aproveitar que a loja foi projetada para ativar todos os meus sentidos e me fazer comprar o que preciso e , principalmente, o que não preciso? Nesse caso, quem aproveita é o dono.

Ou ainda: aproveitar que a vendedora é simpática e faz cara de cãozinho pidão, só faltando entortar a cabeça para o lado, e eu me sentirei feliz em fazê-la feliz, assim como quem afaga um cãozinho pidão? Nesse caso, quem aproveita é a vendedora, que engordará suas comissões no final do mês.

Parece-me que todo mundo aproveitará bastante o fato de eu sair da loja com batom, xampu e hidratante. Menos eu, que terei cem reais menos na conta e coisas demais no armário.

Eu, que só queria um batonzinho vermelho para confirmar se as ruivas ficam mesmo imbatíveis com ele, costumo aproveitar quando passo ao lado da sorveteria para tomar um picolé de limão.

Aproveito que o gato está dormindo na minha cama e tasco-lhe um cafuné demorado.

Aproveito quando não está chovendo e vou caminhar na Lagoa do Taquaral antes de buscar as crianças na escola. De vez em quando, aproveito e como um pastel também.

Sempre aproveito se a Nutella está barata, e levo dez potes de uma vez.

Mas, por ora, penso em inverter a situação e propor que a vendedora, não eu, aproveite. Diria-lhe assim:

– Você não quer aproveitar que tem pouca gente na loja e ligar para sua mãe que fez quimioterapia ontem e está toda tristinha e nauseada?

– Por que você não aproveita que é sexta e responde aquela mensagem dele, parada no seu WhatsApp desde a semana passada? Ele viu os dois risquinhos azuis e está desolado. Bobagem competir com o futebol da quarta, meu bem. Como diria Djavan, você insiste em zero a zero e ele quer um a um.

E o uso indiscriminado do verbo transitivo direto e indireto parece acometer todos ali. A moça do caixa entrega minha compra (composta de um item – salve!), e pergunta se quero aproveitar e fazer o cadastro. Balanço a cabeça, que tem cabelos, abro minha boca e digo:

– Não, obrigada. E aproveita, que hoje eu estou de bom humor.

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Estou só olhando

Foto: Cameron Russell

Entro.

Meus pés, treinados, me levam à seção dos vestidos. Os longos ficam a oeste. A leste, os curtos. Um espelho superlativo, ao norte. O caixa cruel, ao sul. São os pontos cardeais do consumo, orientando minha fome de roupa nova.

A vendedora surge, sorridente. Quer curar a minha deliciosa solidão.

– Estou só olhando.

Ela não sabe, mas eu minto. Não estou só olhando.

Uma a uma, puxo de leve as peças nos cabides, a fim de sabê-las melhor. Meus sentidos estão irremediavelmente despertos. Além dos olhos, curiosos, os ouvidos detectam conversas paralelas; calculo começos de histórias, invento finais. Farejo mangas e golas e entretelas. Arrepio na aspereza da fazenda. Quero comer o vestido de morangos.

Vê, moça? Não posso apenas estar olhando. Mente quem diz.

Penso, nauseada, na possibilidade de mãos infantis, indevidas e não-autorizadas, terem pregado aqueles botões, ao mesmo tempo em que matuto, aflita, no que farei para o jantar. Que horas são?

Dedico dez segundos de compaixão aos que derretem no verão externo, agradecendo a dádiva do ar condicionado interno, a reproduzir o outono com notável perfeição.

Vê, moça? A frase-padrão, que serve para se poder zanzar sossegada por entre as araras, é uma farsa.

Ela, vendedora, ronda. Insiste:

– Procurando alguma coisa especial?

Todos os dias, meu bem. Incansavelmente. Sigo procurando especiarias e especialidades em tudo: uma água quente sob a ducha, para terminar de me acordar. Uma manga doce para meu café da manhã. A volta de todos, em segurança, para casa – todo retorno ao ninho é especial. A esperança de que o dia tenha início, meio e sim. Mas hoje, confesso, procuro mesmo é algo que não me deixe barriguda. Devo respondê-la, será? Vendedora não tem tempo de ouvir. Vendedora só tem tempo de vender. Se eu levo todos os sentidos quando vou às compras, ela só traz um quando vem trabalhar.

O espelho do norte me encara. Ordena que eu confira meu layout original, do Oiapoque da minha écharpe ao Chuí das minhas sapatilhas. Que tipo de animal geográfico paramentado eu sou, afinal?

Saibam, moças vendedoras do mundo todo: nunca estaremos só olhando.

Finjo conferir o preço na etiqueta mas, em verdade, estou pensando na última vez que fui ao cinema, tentando lembrar qual é a capital do Camboja, me dando conta de que não tenho dinheiro. Todos as angústias cabem no bolso de uma camisa verde-limão.

Apanho uma pantalona, coloco-a na frente do meu corpo, tem que fazer barra, sempre tem. Conto as lampadinhas piscantes da vitrine e lembro do dia em que ganhei minha primeira bicicleta – não sei se foi de Natal ou aniversário. O banco veio muito alto, eu era (sou) pequena. A loja não faz ajuste.

Provo, reprovo, hesito, aprovo. Minhas roupas são cheias de verbos. Uma década e dois filhos me afastaram do 38, me puseram no 42 e me trouxeram de volta ao 40. Às vezes, não sei costurar passado e presente.

Ela, moça, quer saber até quando só olharei. Disfarça a impaciência e diz para eu ficar à vontade. Todo vendedor mente. Todo freguês, também.

Crônica de minuto #50

Xampu que deixa o cabelo duas vezes mais resistente. Pasta de dente que deixa o hálito três vezes mais fresco. Pilha que dura seis vezes mais. Sabão em pó que lava duas vezes mais branco. Cloro em gel que limpa três vezes mais. Adoçante que adoça cinco vezes mais.

Eu, consumidora distraída, achando que era a propaganda, a alma do negócio. Não. É a matemática, meu bem.

Como se calcula o frescor de um bafo, a força sansônica de um fio de cabelo, a brancura do uniforme do filho? De que jeito medir o tamanho de uma limpeza, estimar a dimensão da doçura? O doce mais doce que o doce de batata-doce, todos sabem, é o doce de batata-doce.

Eu, que sou mil vezes mais esperta que muita gente, perdi a conta de quantas vezes caí nesse conto. Eu, que tenho duas vezes a idade do publicitário que bola a papagaiada, já conduzi minha compra baseada no apelo. Depois, sequer consegui tirar a prova dos nove.

É normal, às vezes, não parar para pensar. Mas só às vezes.

Hoje, quando vejo anúncio assim, dou três vezes mais risada. E fujo dez vezes mais rápido.

De bolsa nova

Ilustração: r8r

Foi Dia dos Pais e também ganhei presente. Eu, que sou mãe. Não que misturemos os papéis em casa; esses já são suficientemente bagunçados no arquivo da estante (levei horas para localizar uma conta de luz recente, pediram na renovação da carteira de habilitação). É que me ocorreu de também merecer um mimo no segundo domingo de agosto: sem mãe não há pai. Na véspera, o diabinho que se empoleira no meu ombro esquerdo e vive às turras com o pequeno anjo sobre o direito me cutucou, soprando um recado. Uma ordem. Disse ele: “Vá e compre aquela bolsa que você gostou”. Eu fui. E o anjinho chorou.

Tudo posso na bolsa que me fortalece. Com ela a tiracolo (e dividida no cartão), fico pronta para o mundo.

Pronta para aturar o deselegante motorista da outra pista que vê minha seta e acelera. Relevar a indelicadeza do médico do convênio, que se despede enquanto eu faço uma pergunta. Tem nada, não. Eu estou de bolsa nova.

Preparada para correr com o almoço, levar as crianças à escola, voar para a reunião em outra cidade e voltar a tempo de buscá-las. Tudo bem; eu vou de bolsa nova.

Forte para lidar com o intolerável, assistir na TV guerras civis não-declaradas, declarar guerra às empregadas domésticas, suportar a má-vontade da moça da padaria que se aborrece por ter de explicar do que são os salgados. Que que tem? Minha bolsa é linda e nova.

Uma bolsa-dos-desejos transmuta qualquer humor feminino. É munição para a batalha, proteção em meio à selva urbana, patuá da espécie. No icônico depositário de pertences e utilitários vai a alma d’uma mulher. Já uma bolsa novinha em folha – com todo respeito pelas anciãs guardadas no armário – é capaz de tudo isso com o frescor de uma manhã recém-nascida. Bolsa nova é pura bossa-nova mental.

Sim, eu agito bandeiras verdes e anticonsumistas. Reservo-me, porém, o direito a recaídas samsáricas. Posso ser mundana, só um pouquinho? Estou em dia com Deus. E ele me disse, em segredo, que dá para conciliar aspirações espirituais e desejos materiais. Gosto de pensar assim. Além de que, não contei. Antes da ordem final do diabinho, eu já havia adquirido pela manhã, na mesma loja, um par de sapatilhas que estava dando sopa.

Mundanice pouca é bobagem.

Sentado à beira do caminho

Ilustração: Nerosunero/Flickr.com

Não gosto de ver sofá abandonado. Aqueles, rejeitados em seus lares e despejados anonimamente nas avenidas, canteiros, praças, terrenos baldios. Exilados de suas salas, condenados às intempéries da solidão urbana. Separados do abajur, distantes do tapete. Alguns em razoável estado, até. Nunca há alguém neles, lendo jornal enquanto o ônibus não vem, tirando uma soneca ou simplesmente sentado à beira do caminho. Em vez do living room, por que não a rua de estar? Nem o gato vadio precisa dele para afiar suas unhas. O vira-lata não quer trepar nele. Descontextualizado, o sofá na rua é o inusitado que passa batido, a travessura impune do anticidadão.

Ele, que já fez bonito nas lojas. Ele, entregue por rapazes uniformizados e recebido em casa com festa. Ele, zelado diariamente pela dona do lar com paninho e multiuso, onde o caçula era proibido de traçar um bife. Ele, cujo plástico da embalagem foi mantido até dois meses (ou mais) após a compra. Ele.

Culpa do tempo, esse implacável. A espuma, carcomida, já não sustenta a família. Aparecem as primeiras manchas de senilidade. As molas falham, surgem os nhecs. Com a chegada do Natal, o decreto: perda total. Não vale a pena reformar, é o preço de um novo (e ainda dá para dividir no cheque). A instituição de caridade não manifestou interesse, teriam que consertar para oferecer no bazar. O negócio é substituir. Sem ideia melhor, as vias públicas acenam com a única e possível solução. “Alguém passa e leva”. Lá vai ele, viver ao ar livre. Fazer sala para ninguém. Assistir a TV aberta das ruas. Quem mudou o canal?

Como ele vai parar ali é mistério. Sofá, cá entre nós, não é objeto de fácil descarte, como latinha de cerveja, embalagem de biscoito, bituca de cigarro. A menos que origem e destino estejam num raio de trinta metros, o transporte de um exemplar, de dois ou três lugares, requer planejamento e algum muque. A caminhonete do namorado da filha. A Kombi do vizinho. A calada da noite?

Há quem se compadeça e o retire do abandono, enxergando nele a serventia do passado. São os sofás adotados. No novo lar, ele ganha revestimento bacana, espuma da boa. Igual cachorro andarilho recolhido por alma caridosa, fica tinindo, late de alegria. E é fiel ao seu novo dono. Até que a chaise longue, aquela da novela, os separe.

Crônica de minuto #38

Quando Luca, sete anos, recebe sua mesada, pede para ir à papelaria, banca de jornal ou loja de brinquedos. E compra uma caneta, um caderno, gibis, figurinhas ou carrinho do Hot Wheels.

Ele sempre diz à Nina, quatro anos, para escolher alguma coisa “baratinha”. E ela sai de lá com um presentinho do irmão.

Nessa hora, esqueço as campanhas anticonsumismo. Nessa hora, finjo que ensinar a poupar não é tão importante assim. Nessa hora, presto atenção ao melhor da história. E penso que ela daria um belo comercial para aquele cartão de crédito.