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Sem contato manual

arte: Luly Hirahata Nakao

Na caixa de maçãs vem escrito assim: embaladas sem contato manual.

É um diferencial mercadológico, um aval sanitário, praticamente um pedigree. O atestado de que as maçãs que adentrarão meu lar estão limpas e livres de resquícios de gente que não conheço.

Não vamos lavar a maçã depois, e deixar de molho na água com hipoclorito de sódio a 2%, de modo a não restar nenhum micro-organismo ou átomo de veneno para contar a história quinze minutos depois?

É contemporânea, a busca incessante e desesperada pela assepsia universal. Assim como é moderno o nojo da mão alheia, a ojeriza ao vital germe do outro. O que se declara produzido sem contato manual é puro, sadio, confiável, seguro, bom.

Ilusão maior não há.

Em minha cadeia produtiva particular, crio meus filhos com altíssima taxa de contato manual. Acarinho, belisco, cutuco, inspeciono, meço, retenho, solto. (Quase) Tudo que os alimenta passa pelas minhas mãos, por crivo, zelo ou instinto. O tato é apenas um dos bem mais que cinco sentidos de uma mãe.

Imprimir numa caixa de papel, em fonte helvetica, a notícia de que a maçã chegou à minha fruteira isenta de contato manual é falácia, despautério, fraude. Eva teve significativo contato manual com a maçã. Branca de Neve também. Beatles e a lendária gravadora. Steve Jobs! Quem sou eu, então, para desejar a maçã embalada sem contato manual?

Eu, de cá, prefiro maçãs vivas e impregnadas das digitais de cada plantador de mãos terrenas, entranhadas de cada apanhador, de cada par de mãos que as carregou às toneladas, de cada dono de venda ou terceirizado de hipermercado que as dispôs na gôndola, alinhadas e bonitinhas, para melhor me servir.

Só deveria se comer neste mundo maçã com história.

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Sobre aparências e enganos

Não sei você. Mas eu descubro se uma lanchonete ou restaurante são limpos pelo tratamento dispensado aos seus galheteiros. Os suportes com pequenos vidros para azeite, vinagre, sal, pimenta. Depois do avental do garçom e da situação da toalete, esse é o termômetro mais confiável da higiene de um lugar.

O local pode ter boa aparência e estar arrumado. “Um brinco”, como diziam as tias (expressão, aliás, que nunca compreendi). Porém, se sobre as mesas avistam-se tais utensílios com vestígios de conteúdo interno do lado de fora, fundidos com toda sorte de substância presente na atmosfera, coisa boa não há de ser. Hei de não me impressionar com as modernas aquarelas decorando as paredes, nem com as antiguidades, harmoniosamente dispostas ao longo de arcais em madeira de lei, tampouco com o elegante jazz a preencher o ambiente. As aparências, nesse caso, não enganam. Melhor não correr risco, nem aceitar o convite impresso para visitar a cozinha. O jeito é sair à francesa e fazer a refeição noutro lugar.

No mesmo banco dos réus estão os remanescentes frascos de maionese, catchup e mostarda. Se sua abertura oferecer resistência, por conta do produto ter se alojado no orifício, ou caso se observe, nas saliências da tampa, fragmentos orgânicos que não têm a ver com os condimentos ali presentes, nada feito. É caso de abandonar a coxinha no meio, abreviar o papo com o x-salada, despedir-se do enroladinho de presunto e queijo. Adiós, muchacho.

Ver por outra, encarno uma obcecada vigilante sanitária e inspeciono os compartimentos daquilo que se candidata a temperar meu almoço. Se for o caso, autuo o galheteiro, sem maiores delongas: “Teje preso!”. E aos estabelecimentos que aposentaram suas galhetas e frascos, potencialmente encardíveis, trocando-os pelos sachês individuais, um aviso: estou de olho nas suspeitíssimas cestinhas que os abrigam.

Crônica de minuto #23

Para lavar o carro é R$ 25. Mas por conta dos farelos de biscoito, caixinhas de Toddy (com canudinho melecado), chiclete no tapete, um Bis esquecido e derretido no porta-treco e mais alguns materiais orgânicos irreconhecíveis sob os bancos, eu paguei R$ 30. E nem pude reclamar. Isso porque recolhi antes todos os brinquedos que estavam espalhados. O que polui o meio ambiente não é fumaça de escapamento. É filho.

Pés sujos

Ilustração: Hagar E/Flickr.com

Dormi com os pés sujos, ontem.

Precisei dum tomate para preparar o jantar, interfonei para a vizinha. Vizinhos sempre têm tomates. Não tinha chinelo perto. Então fui buscar descalça.

Vizinhos são generosos ao emprestar comida. Você pede açúcar, leva a sua xícara para não dar trabalho, e eles surgem com uma quantidade muito maior, devidamente acondicionada numa vasilha grande. Às vezes, dão um pacote fechado. Mesma coisa com batata, ovo, leite condensado. Ontem, eu trouxe dois tomates estalando de vermelhos.

Não só. Voltei para casa com toda sorte de coisas grudadas nas solas dos pés. A maioria, invisível ao meu olho nu, tão nu quanto meu pé. Seres vivos do tamanho de um nada, habitantes das rugas do asfalto. Ciscos, pó.  Rastros de bichos que passaram por ali, pelo de cachorro, raspas das solas de sapatos que vão ficando pelo caminho, pensa que isso não acontece? Uma solitária gota d’água da chuva que veio e foi. Escamações do dia e da noite, pegadas do orvalho, fuligem de gente – a minha própria. Vieram todos dormir no meu lençol porque, findos jantar e dia, me deitei com os pés sujos. Uma preguiça invencível de lavá-los antes, e a certeza de que mal não haveria. Não tive nojo, nem medo de ficar doente. Sujeira boba assim não adoenta ninguém. Falta de comida e de música, sim.

A hora do nascimento é a única onde pé é genuinamente limpo. Os minúsculos dedos, cegos, à procura de algo onde possam se agarrar. O parto é um voo. A partir do pouso, sabão nenhum dará conta de deixar os pés tão limpos quanto eram no útero preservado.

Jesus sabe disso. Morreu com os pés sujos.

Quando meus filhos nasceram, não conferi o número de dedos em cada um de seus pés (e mãos), como já tinha ouvido algumas mães confessarem. Não conferi se faltava alguma coisa. Não conferi nada, essa é a verdade. Só lhes sorri e disse ‘olá’, como convém quando se reencontra um velho amigo.

À noite, na hora do banho, tudo que minha cria fez ao longo do dia está registrado em seus pés. Meus olhos, nariz e mãos de mãe descobrem tudo. Se pisaram a terra, se jogaram bola descalços. Se estiveram o dia todo de meia e sapato. Sola de pé é uma espécie de diário.

Luz apagada e sonhos em fila aguardando a vez, esfreguei meus pés, um no outro. Ih, espalhei tudo – pensei. Vestígios do dia, memórias de outra volta da Terra – redonda como o tomate que participou da minha refeição – em torno de si. Ou de mim? Que venha a boa noite.