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Cartinha do Papai Noel

Foto: Tom Magliery
Foto: Tom Magliery

Queridas crianças

Todos os anos, eu recebo bilhões de cartinhas de vocês. De algum tempo para cá, passei a receber e-mails também (já são dezenove milhões de mensagens não-lidas). No mês passado, recebi uma pelo WhatsApp. Como a maioria dos adultos, eu também não dou conta de ler tudo. Um dos motivos: vocês escrevem demais. Falta foco, meninos.

A verdade é que eu não me importo tanto assim se vocês foram bonzinhos e boazinhas o ano todo. Vocês não precisam me enviar um relatório comportamental. Nem leio essa parte. Andei pesquisando sobre as crianças índigo, e penso que ser bonzinho não define muita coisa. Nem é garantia de que, assim, vocês ganharão presentes. Na vida, as coisas não funcionam assim. Seus pais ainda não ensinaram isso?

A vida aqui no Polo Norte, preciso dizer, não anda fácil. Depois da PEC dos Elfos, meus ajudantes querem redução da jornada e direito ao Fundo de Garantia. Não tenho para quem repassar esses custos. A sorte é que, até agora, nenhum deles me processou na Justiça do Trabalho.

Então, eu tive algumas ideias e quero compartilhá-las com vocês.

Pretendo escalonar a entrega dos presentes. Já sei; vocês não sabem o que é escalonar. Por que nunca pedem dicionários no Natal? Bem, funcionará assim: a entrega será feita ao longo do ano. Quem tem nome começando de A até I continua ganhando os presentes no Natal. Nomes de J a R receberão seus presentes na Páscoa, através do Coelhinho. Ele é meu chapa. Nomes de S até Z terão seus mimos entregues pela Fada dos Dentes, a cada ‘janelinha’ inaugurada. Quem não tiver mais dentes de leite certamente não acredita mais em mim, nem nela, e ficará tudo certo. Que tal?

Para aqueles que preferem enviar suas cartinhas por e-mail, peço que coloquem o que querem ganhar no campo “assunto”. Ajudará um bocado. E, por favor, evitem mandar links do Submarino etc.. Ano passado, muitas cartinhas foram parar no spam. Que trabalheira! Em tempo: cartas por WhatsApp não serão aceitas. É impossível decifrar aqueles desenhinhos que vocês colocam no meio das frases.

Ah, ia esquecendo de avisar: este ano não usarei trenó. Está cada vez mais complicado trabalhar com as renas. Os protetores de animais andam reclamando. Dizem que elas sofrem maus tratos, vejam vocês! Se souberem de alguém que queira adotá-las, me avisem. Estão todas castradas e vacinadas.

Por fim, aproveito para dar um toque: digam aos seus pais que não fica muito bonito aqueles bonequinhos de Papai Noel nas janelas e varandas, subindo escadinhas que nascem do nada. Parecem uma versão lapônica do Homem Aranha. Era para ser fofo? Alguns são pendurados tão de qualquer jeito, que beijam as paredes. É entristecedor.

Por ora, é isso. Conto com a ajuda de vocês, crianças.

Abraços natalinos, ho ho ho, aquelas coisas todas.

Noel

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Crônica de minuto #2

Quando eu era pequena, sempre ganhava cortes de tecido de presente, geralmente das tias. Que viravam, pelas mãos da minha mãe, vestidos e blusas. Ninguém mais me dá cortes de tecido. Acho que é porque nem tenho mais tantas tias. Ou então, porque minha mãe não está mais aqui para fazer minhas roupas. As coisas todas têm suas razões.

O Corcel do Pequeno Príncipe

Foto: Guenno/Flickr.com

Ontem vi um Corcel II, aquele carro antigo da Ford, estacionado em frente à padaria. Meu pensamento, como o ágil cavalo, deu um galope. Segurei suas rédeas com força e lá fui eu, de volta aos anos setenta.

No primário, havia um menino na minha classe. Loiro, olhos claros, ares de Pequeno Príncipe. Só tirava notas boas, sentava-se na primeira fileira, nunca esquecia o material, jamais faltava, sabia todas as respostas, era amigo de todos, sempre entregava os trabalhos no prazo, seu uniforme permanecia imaculado durante a aula inteira. Reinava absoluto no pequeno planeta do quadro-negro. E levava mesmo jeito para a nobreza: encarnou Dom Pedro I num desfile de Sete de Setembro na principal avenida do bairro. As professoras o idolatravam. Cansei de ouvir: por que nós, o resto da turma, não éramos como ele? Seus pais mantinham uma pródiga loja de calçados no pedaço. Hoje, não resta dúvida: foi sua família a grande inspiradora dos comerciais de margarina.

Um dia, na aula, vieram me contar. Ele havia dado um carro para sua mãe. Coisa fina: um Corcel II. Dourado – só poderia ser. E, de acordo com as informações que circularam, ele o havia comprado com o dinheiro da sua própria poupança. As professoras, fãs confessas do menino-príncipe, foram ao delírio. Até hoje ecoa na minha mente a estupefação de uma delas: “Que homenagem mais linda! Vocês [nós] deveriam fazer o mesmo”. Imaginem só, um menino comprar um carro zero-quilômetro. Hoje isso ainda seria um feito. Calcule-se o que pode ter representado – para ele, sua mãe, seus vizinhos, o corpo docente da velha escola estadual – mais de trinta anos atrás. (Tenho cá para mim que a história talvez não tenha sido exatamente assim. Pode ser que ela tenha sido um pouco abrilhantada, com a ajuda de algumas ferramentas do marketing pessoal.)

Eu nunca dei um carro para minha mãe. Meus presentes e agrados sempre foram mais singelos. Certa vez, eu era bem pequena e era seu aniversário. Abri sua gaveta, escolhi uma de suas blusas preferidas, que ela mesma havia comprado, fiz um embrulho bem bonito e a dei para ela. Ela achou graça, disse que adorou. E eu nem corri o risco de errar o número. De outra feita, ela estava adoentada. Resolvi preparar-lhe um café com leite bem saboroso. Afinal, eu me sentia eternamente responsável por aquilo que, todos os dias, cativava. Aproximei-me de sua cama com a bandeja, orgulhosa. Ela o bebeu com gosto, elogiou e quis saber onde eu havia encontrado leite, se o da geladeira havia acabado. Respondi: na tigela do gato. Não houve bronca alguma. Mães são outra categoria de ser humano. (A qual eu, em tese, pertenço, embora tenha perdido alguma coisa pelo caminho.)

Mas o Corcel II do Pequeno Príncipe. Não sei se desenvolvi um bloqueio psicológico a partir dessa experiência, mas o fato é que nunca consegui manter uma poupança. Já iniciei várias, todas prontamente encerradas diante da primeira oportunidade ou necessidade. Poupar não é comigo. Sinto uma tremenda inveja de quem tem algumas economias guardadas. Se, desde o dia em que nasci, o equivalente a um real fosse depositado numa conta, qual seria meu saldo quarenta e dois anos depois, com os devidos juros e correções? E todos os sapatos que comprei na vida, além do necessário, equivaleriam a quanto? Será que daria para comprar um carro para minha mãe? O que, no entanto, seria absolutamente inútil. Primeiro, porque ela nunca aprendeu a dirigir. Segundo, porque onde ela vive agora ninguém anda de carro. Estrela não tem rua.