Arquivo da tag: Maria

Sobre a carta para a Maria

Mês passado eu arrumava umas coisas aqui em casa – livros, papéis, fotografias antigas – e encontrei uma carta da minha mãe para a Maria, parente nossa. No cabeçalho: “São Paulo, 17 de dezembro de 1980”.

Ontem foi 17 de dezembro de 2015.

Não sei se ela chegou a enviá-la. Pode ser que sim, e a que encontrei aqui, escrita em três páginas de papel almaço pautado, seja o rascunho, já que tem uma pequena rasura. Pode ser que tenha até recebido resposta. Pode ser também que ela, por algum motivo, não a tenha enviado. Desistiu, esqueceu, escreveu outra. E essa acabou ficando guardada. Inexplicavelmente intacta, resistindo ao tempo, às mudanças e às traças.

Ainda se usa papel almaço?

Quem ainda escreve cartas de três páginas?

E quem ainda escreve cartas, ainda as passa a limpo?

Sei que não se deve ler a correspondência dos outros. Mas, a esta altura e neste caso, há de ser um crime prescrito, e perdoado. Eu devorei a carta.

Dona Angelina fez só o primário, mas dominava um português acima da média para a pouca formação. Ela gostava de ler. A leitura geralmente salva da falta de escola.

A carta é longa. Ela vai contando como estão as coisas em casa, chora as pitangas, desabafa. Mas dedica um parágrafo para cada filho – meus irmãos e eu – a fim de atualizá-la das boas notícias. Está lá que passei de ano e fui para a oitava série. Eu tinha treze. Hoje, tenho quarenta e oito. Apenas quatro a mais que ela, quando escreveu a carta. E a diferença entre a vida dela e a minha é abissal. A começar pelas cartas: eu não as escrevo mais; confio minha correspondência – afetiva, social, profissional – aos comunicadores instantâneos. Como pode, entre uma geração e outra, caber tanta mudança?

Ela segue a narrativa carinhosa, manda lembranças para todos, um por um, deseja feliz Natal. Não me recordo se elas se viram nos sete breves anos que minha mãe teria pela frente.

Mas a carta não é minha, pertence à Maria. Não fazia mais sentido mantê-la. Então ontem, trinta e cinco anos depois de minha mãe tê-la escrito (e a enviado, ou não, talvez nunca saiba), eu a coloquei nos Correios. Fiz questão de aguardar a data exata; assim, o círculo do tempo se completará. Chegará nos próximos dias, enfim, à destinatária, como chegaria (chegou?) em 1980. Resolvi colocar uma cartinha minha junto, para que a Maria entenda a história toda. Aproveitei e a atualizei – como fez minha mãe naquele dia – das notícias de cá; há muito também não nos vemos.

Maria vai receber uma carta (inédita ou não) dentro da outra. Da pessoa que saiu de dentro da Angelina. O mundo é cheio disso, se a gente reparar bem. Tudo contém e está contido.

No final das contas, a vida é uma espécie de carta de nós para nós mesmos. A autocarta que está, a todo momento, sendo escrita e entregue. Nem sempre lida direito. Raramente respondida a contento.

Anúncios

O parto da Maria-Fedida

Bem que vi, dia desses, uma porção de ovinhos grudados na parede de fora. Pareciam sagu. Sem saber de que eram, deixei-os por ali. Dei palpite: “é de aranha”. Com tanta planta no condomínio, o padrão de vida delas aqui é bom.

Memorizei o local, para dar uma espiadinha de vez em quando. Chegava bem perto, e lá estavam eles. Foram mudando de cor, numa animada paleta biológica. Primeiro, ligeiramente perolados. Depois, cinzentos. Então ficaram transparentes e pude ver os bebês, preto-alaranjados, em formação. Mamãe-inseto nem precisa de ultrassom.

Esqueci-me e descontinuei a observação. Quando lembrei, os ovinhos já haviam eclodido, estavam secos e transparentes. Ao redor, oito dos recém-nascidos. De preto-alaranjados, eles tornaram-se cinza-claro. Não levo jeito para entomóloga, então continuei chamando tudo de aranhinha.

***

Hoje cheguei do supermercado e vi uma Maria-Fedida na parede, perto da porta. Sempre tem uma no pedaço. É o terror da criançada, nunca compreendi o escarcéu. Tem o fedozinho, é verdade, mas ela não fede em tempo integral. Se a deixam quieta em seus afazeres de artrópode, ela não empesteia. Gente só fica catinguenta se transpirar demais, se não tomar banho. Maria-Fedida só cheira mal se ameaçada ou atacada. Tudo na vida tem causa e efeito.

Dizem que Maria-Fedida é praga, que arruína plantação, que isso, que aquilo. Mas praga depende do ponto de vista, e isso nenhum antropocentrista diz.

Para as focas, homens são pragas. Elas só não sabem, coitadas, como acabar com os homens. Soubessem, fariam tudo para espantar os que vão todo ano caçá-las.

O antibiótico é a praga, no referencial de uma bactéria. O veneno que aniquila sua população. Soubessem usar a internet, as bactérias fariam blogs e tutoriais com dicas sobre “como acabar com as pessoas”.

Na história contada do mundo, mais importante que o fato, é o ponto de vista.

Então vi a Maria-Fedida perto da porta. Estava quietinha; pousei as compras no chão e a encarei. Seu corpo lembra um pentágono. Se fosse mulher, a Maria-Fedida seria essas que têm o ombro mais largo que o quadril. Quase todas as minhas tias eram assim.

De repente, ela bota um ovo! Um não, dois. Dois? Não, três. Espera, quatro. Cinco. Seis.

Pacientemente, a Maria-Fedida pariu seus filhos. Então era ela (ou alguma colega) que andava fazendo minhas paredes de maternidade, esse tempo todo. Permaneci imóvel e em silêncio, guardando distância, de modo a não atrapalhá-la. Em meus dois partos, ninguém me encheu o saco, nem ficou me cutucando. Achei respeitoso fazer isso por ela.

Corri por as compras na cozinha e voltei. Pude ainda acompanhar o décimo-quarto e último ovinho. Trabalho feito, ela se mandou. Nada como o parto natural.

Fiquei olhando os quatorze embriões no vão da alvenaria, sozinhos no mundo. Eles agora só têm um ao outro e, já já, nem isso. Seguirão suas vidas de Mariazinhas-Fedidas e será cada um por si, o Deus-Inseto por todos.

E eu, que nunca assistira ao parto de uma Maria-Fedida, lembrei dos dois que vivi. E se não fôssemos a supremacia intelectual do planeta, e outra espécie superior se pusesse a me observar enquanto eu dava à luz? E se rissem de mim? E se resolvessem acabar comigo num piparote? Tive, naquela hora, compaixão por sua vulnerabilidade e certa inveja de sua biologia tão simples e sem firula.

Ela, que também é Maria. Que também é mãe.

E agora, José?

Arte: Filipe Saraiva
Arte: Filipe Saraiva

Ando preocupada com José. José sumiu. Foi embora. Ninguém mais batiza em sua lembrança. É nome em extinção. João até que tem se virado bem. Que será que houve com a humanidade brasileira? Não será mais ele – o carpinteiro, companheiro de Maria – assim tão bonito para o RG?

Na praça de alimentação do shopping há uma mãe tentando convencer o Artur a comer a escarola. Na sala de espera do pediatra tem sempre um Gabriel mais danadinho, dando cambalhota na poltrona. E a lista de chamada do maternal lança mão dos sobrenomes para identificar tantos Enzos. O Zezinho, quedê? Faltou.

De eras em eras a moda ressuscita velhos nomes para novos bebês. É um tal de Joaquim, Valentina e Tomás em porta de quarto nas maternidades. Só o José não dá mais o ar da graça nas certidões. Até o Luís ressurge, sempre ao lado do Eduardo ou do Felipe ou do Henrique. O José, coitado. Nem só, nem acompanhado. Acabou.

José é dos poucos que não causam confusão na hora de escrever, posto que a ele não cabe variação. Facilita a vida em seu minimalismo sonoro, combina com os outros, é da paz. E acordo ortográfico nenhum, nem em mil anos, há de derrubar seu acento. A razão do seu declínio é uma incógnita contemporânea, uma charada nominal.

Volta, Zé! As Marias, ainda que Eduardas ou Fernandas, precisam de você.

O mundo também.

Carta para Maria

Grafite: "Madonna", SAO/Flickr.com

Cara Maria

Não se espante com a inédita missiva; por aqui, tudo segue em razoável ordem. De fato, é com seu filho que converso mais, em longas lamúrias com frente e verso, ou pelos recados ventados, só para dar um alô. Ele sempre diz que está por dentro das coisas que conto, mas tenho cá minhas dúvidas. A onisciência não dá garantia.

As crianças vão bem. Você, que é mãe, sabe o trabalho que filho dá. Não sei se os meus terão a fome serena de mudar o mundo, como teve o seu. Se eles conseguirem transformar o mundo deles, já estará bom. No fundo, todo filho é meio salvador. Não há fruto que não seja bendito.

Desde que você virou santa, Maria, toda mulher precisa inventar a própria santice, ainda que às avessas. É seu principal legado, nossa maior herança. E a despeito da minha impaciência e egoísmo, há momentos em que consigo ser Maria, por conta da milenar fagulha genética. Às vezes, lhe sou grata por isso. Às vezes, não.

Não sei muito sobre a Santíssima Trindade, mas será que não esqueceram de incluir você nela? Ou era uma espécie de Clube do Bolinha, onde mulher não entrava? Aí não seria trindade, o que poderia mudar a história da humanidade inteira, para o bem ou para o mal. Melhor deixar assim. Fiquemos com a nossa tríade paralela: mãe, filha e o espírito santo no meio, amalgamando tudo.

Falando nisso, você sabia (de verdade) quem embalava nos braços? Trocava-lhe as fraldas e dava-lhe de comer, como qualquer mãe? Afinal de contas, Maria, o que tinha no seu leite?

A sua tarefa foi a mais impossível, difícil e insana. Você poderia tê-la declinado, passado a batata quente adiante, ter dito ‘não’, enfim. Mas você, Maria, não foi com as outras. Assistiu, sem direito à raiva, nem esporro, o filho perecer. Não é para qualquer uma. Era parte do combinado perdê-lo tão cedo, ou você só ficou sabendo em cima da hora qual era seu papel no teatro da humanidade? Não lhe deu vontade de mandar tudo às favas e ir lá, arrancá-lo da cruz e dizer “Ok, a brincadeira acabou”? Seu choro na escuridão, quem é que ouviu? Quem acudiu você quando o bicho pegou? Seu coração, por fim, recebeu um pouco da cura que ele espalhou pelos quatro cantos? E hoje, tanto tempo passado, me diz, como mulher, não santa: você emprestaria seu ventre de novo?

Nós, que não sabemos a hora da nossa morte, vivemos orando para que você esteja atenta ao relógio do mundo. Saber que você é por nós, agora e depois, representa um alento e tanto. Mas esta noite, Maria, vamos fazer diferente. Hoje, quem roga por você sou eu. Dorme tranquila.

Boa noite,