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Coisarada (baseada em uma estante real)

Arte: Andrea Joseph

Na estante de D. tem de tudo. E um tanto mais.

Tem porta-retrato sem retrato, ainda na embalagem. Vela, durex, elástico de cabelo e colírio. Três pequeninos bonecos de louça, sendo duas meninas e um menino. Uma bola de baseball e um frasco de cola Tenaz.

Tem aditivo para limpeza de para-brisa. Correspondência aberta e fechada. Etiqueta de cinto (sem o cinto), escrito “cor cinza ‘silver’”. Uns livros.

As coisas ali vão chegando e ficando. Sem censura, nem triagem, tudo é bem-vindo. Não há gavetas. É nas prateleiras que a vida vem, acumula e não vai.

Bala de goma, batom, garrafinha com mensagem dentro e broche de uma das meninas superpoderosas, que eu não sei qual é. Nunca sei.

Chaveiro de ursinho, cupom de sorteio do supermercado, preenchido e jamais posto na urna. Recibo de doação para entidade assistencial. Caixa do telefone celular com os acessórios (o telefone D. perdeu). Mais livros.

A estante fica no quarto e parece tragar tudo que dá sopa em seu entorno. Nada é rejeitado. Em ordem caótica e serena, fragmentos de mundo vão se arquivando. D. nunca está só.

Uma sombrinha, um transformador, uma – só uma – luva de couro. Calendário do ano, sacolinha plástica vazia, bem dobradinha. Frasqueira de zíper quebrado, dentro se vê outra sombrinha. É cinza, mas não ‘silver’.

Uma lembrancinha de chá-de-bebê, uma lanterna, um marcador de páginas, de borboleta, a não marcar página alguma. Um carretel de náilon e uma coleção de documentários em VHS.

Calculo quanto tempo D. levou para deixar seu acervo público de coisas como está, e quanto ele durará. Sabe-se que as faxinas físicas precedem as mentais. Temo pelos bonecos de louça; que o destino não os separe. Nem tudo inanimado é, necessariamente, ausente de ânima.

Pirulito de São Cosme e Damião, frasco de álcool, rolinho tira-pelo, vaso em formato de abóbora. Papelzinho de recado e Bic preta, com os quais rascunhei este inventário. Incompleto, por sinal; meu olhar não alcança a parte de cima.

Na estante de D. tem tanta coisa, mas tanta, que deve até ter felicidade.

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Não repara na bagunça

Ilustração: Nadia/Flickr.com

Assim como se implora à visita que adentra em casa para não reparar na bagunça, faz-se mister pedir a quem entra em nossa vida – namorado novo, por exemplo – para fazer o mesmo, mas em relação a outro tipo de bagunça: a da nossa cachola. Principalmente, se essa visita for voltar mais vezes.

Almofada no chão, pia cheia, roupa aqui e acolá, sapato perdido, pacote de biscoito aberto na cama, livro, correspondência e brinquedo, tudo junto na mesa de jantar… para tudo dá-se jeito. É questão de braço e disposição. Já para ideia fora do lugar, palavra que vem antes de pensamento, complexo e mania misturados na mesma gaveta, rotina analógica em descompasso com a digital, ah. Nem com as melhores caixas organizadoras do mundo. É quando a pessoa avisa que vai, mas talvez fique, e se ficar, talvez queira ir. Mais ou menos isso, ou nem tanto, muito pelo contrário. É nessa bagunça, de fato, que as visitas reparam.

Bagunça que vem lá dos tempos de projeto, quando a pessoa ainda estava na planta, está fadada a bater ponto, transformando a vida num eterno canteiro de obras. Nada toma forma, tudo é ainda, tudo é quase, tudo é gerúndio. E não adianta trocar o mestre de obras, o problema está na fundação.

Bagunça gera bagunça, num fenômeno que não é restrito à violência ou gentileza. Um relacionamento bagunçado desperta mal-estar na profissão e vice-versa. A culpa não é do chefe. Nem do terapeuta, essa espécie de personal organizer.

Ouvi dizer que quando a vida, no geral, está caótica, a baderna se refletirá no guarda-roupa. Fui correndo ver o meu e, dia seguinte, arregacei as mangas e parti para a arrumação. Minha esperança era enganar o universo, fazendo o caminho inverso. Ou seja, mudar de fora para dentro. Não deu muito certo, mas o armário ficou um brinco. Ninguém reparou.

Crônica de minuto #23

Para lavar o carro é R$ 25. Mas por conta dos farelos de biscoito, caixinhas de Toddy (com canudinho melecado), chiclete no tapete, um Bis esquecido e derretido no porta-treco e mais alguns materiais orgânicos irreconhecíveis sob os bancos, eu paguei R$ 30. E nem pude reclamar. Isso porque recolhi antes todos os brinquedos que estavam espalhados. O que polui o meio ambiente não é fumaça de escapamento. É filho.