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Crônica de minuto #38

Quando Luca, sete anos, recebe sua mesada, pede para ir à papelaria, banca de jornal ou loja de brinquedos. E compra uma caneta, um caderno, gibis, figurinhas ou carrinho do Hot Wheels.

Ele sempre diz à Nina, quatro anos, para escolher alguma coisa “baratinha”. E ela sai de lá com um presentinho do irmão.

Nessa hora, esqueço as campanhas anticonsumismo. Nessa hora, finjo que ensinar a poupar não é tão importante assim. Nessa hora, presto atenção ao melhor da história. E penso que ela daria um belo comercial para aquele cartão de crédito.

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O Corcel do Pequeno Príncipe

Foto: Guenno/Flickr.com

Ontem vi um Corcel II, aquele carro antigo da Ford, estacionado em frente à padaria. Meu pensamento, como o ágil cavalo, deu um galope. Segurei suas rédeas com força e lá fui eu, de volta aos anos setenta.

No primário, havia um menino na minha classe. Loiro, olhos claros, ares de Pequeno Príncipe. Só tirava notas boas, sentava-se na primeira fileira, nunca esquecia o material, jamais faltava, sabia todas as respostas, era amigo de todos, sempre entregava os trabalhos no prazo, seu uniforme permanecia imaculado durante a aula inteira. Reinava absoluto no pequeno planeta do quadro-negro. E levava mesmo jeito para a nobreza: encarnou Dom Pedro I num desfile de Sete de Setembro na principal avenida do bairro. As professoras o idolatravam. Cansei de ouvir: por que nós, o resto da turma, não éramos como ele? Seus pais mantinham uma pródiga loja de calçados no pedaço. Hoje, não resta dúvida: foi sua família a grande inspiradora dos comerciais de margarina.

Um dia, na aula, vieram me contar. Ele havia dado um carro para sua mãe. Coisa fina: um Corcel II. Dourado – só poderia ser. E, de acordo com as informações que circularam, ele o havia comprado com o dinheiro da sua própria poupança. As professoras, fãs confessas do menino-príncipe, foram ao delírio. Até hoje ecoa na minha mente a estupefação de uma delas: “Que homenagem mais linda! Vocês [nós] deveriam fazer o mesmo”. Imaginem só, um menino comprar um carro zero-quilômetro. Hoje isso ainda seria um feito. Calcule-se o que pode ter representado – para ele, sua mãe, seus vizinhos, o corpo docente da velha escola estadual – mais de trinta anos atrás. (Tenho cá para mim que a história talvez não tenha sido exatamente assim. Pode ser que ela tenha sido um pouco abrilhantada, com a ajuda de algumas ferramentas do marketing pessoal.)

Eu nunca dei um carro para minha mãe. Meus presentes e agrados sempre foram mais singelos. Certa vez, eu era bem pequena e era seu aniversário. Abri sua gaveta, escolhi uma de suas blusas preferidas, que ela mesma havia comprado, fiz um embrulho bem bonito e a dei para ela. Ela achou graça, disse que adorou. E eu nem corri o risco de errar o número. De outra feita, ela estava adoentada. Resolvi preparar-lhe um café com leite bem saboroso. Afinal, eu me sentia eternamente responsável por aquilo que, todos os dias, cativava. Aproximei-me de sua cama com a bandeja, orgulhosa. Ela o bebeu com gosto, elogiou e quis saber onde eu havia encontrado leite, se o da geladeira havia acabado. Respondi: na tigela do gato. Não houve bronca alguma. Mães são outra categoria de ser humano. (A qual eu, em tese, pertenço, embora tenha perdido alguma coisa pelo caminho.)

Mas o Corcel II do Pequeno Príncipe. Não sei se desenvolvi um bloqueio psicológico a partir dessa experiência, mas o fato é que nunca consegui manter uma poupança. Já iniciei várias, todas prontamente encerradas diante da primeira oportunidade ou necessidade. Poupar não é comigo. Sinto uma tremenda inveja de quem tem algumas economias guardadas. Se, desde o dia em que nasci, o equivalente a um real fosse depositado numa conta, qual seria meu saldo quarenta e dois anos depois, com os devidos juros e correções? E todos os sapatos que comprei na vida, além do necessário, equivaleriam a quanto? Será que daria para comprar um carro para minha mãe? O que, no entanto, seria absolutamente inútil. Primeiro, porque ela nunca aprendeu a dirigir. Segundo, porque onde ela vive agora ninguém anda de carro. Estrela não tem rua.