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Jardim da infância

arte: Julie
arte: Julie

Não é o diretor, a pessoa mais importante de uma escola. É o jardineiro.

Um diretor cuida de alunos. Um jardineiro cuida de plantas. Todo aluno é uma espécie de planta.

Seu Clóvis era o diretor. Sisudo, austero e formal, como exigia o personagem. Sempre de terno cinza. De poucas aparições. Às vezes, surgia de surpresa durante a aula, tínhamos de ficar em pé. Eu tinha medo dele.

Seu Teodoro era o jardineiro. Amável, calado e introspectivo, como exigia o personagem. Sempre de macacão azul-marinho. Podia ser visto quase todos os dias entre as roseiras ou podando os pinheiros. Eu não tinha medo dele.

O que aprendi nos nove anos que passei ali, do pré-primário ao ginásio, o que absorvi das ciências e das geografias, o que sofri com as matemáticas e o que viajei com as letras foi definido, de certa forma, pelo Seu Clóvis.

Seu Teodoro não me ensinou nada.

É dele, no entanto, que me lembro quando passo em frente à velha escola estadual de primeiro grau. Seus pinheiros, ladeando a escola inteira, ainda estão lá. Não me parecem mais tão felizes como eram sob seus cuidados. Ou eu que prefiro pensar assim. A nostalgia é uma lembrança com photoshop.

Procuro o Seu Clóvis no Google. Encontro várias referências, memórias de ex-alunos – de amor e ódio – espalhadas nas comunidades virtuais e em páginas antigas do Diário Oficial.

De Seu Teodoro não se encontra nada. Ninguém parece se lembrar dele, quarenta anos depois. Exceto a garotinha sardenta que morava a um quarteirão dali. Se vivo, ele seria do tipo que não acessa internet, não tem email, nem smartphone. As plantas são a única, fundamental e melhor rede social para um jardineiro. Nem tudo precisa estar no Google para ser importante.

O nome Clóvis significa “guerreiro célebre”. Teodoro, “presente de Deus”. Nada é por acaso.

Da rua, não se vê mais o jardim do velho Teodoro através das compridas grades de ferro. Porque não tem mais grade. É tudo muro, agora. Sinal dos tempos. Só se avista, da rua, os pinheiros da cintura pra cima. Seu Teodoro certamente não aprovaria a tristonha intervenção arquitetônica que escondeu do bairro o seu jardim e, por tabela, suas crianças de uniforme.

Nunca soube o nome, nem o rosto, nem nada, dos outros jardineiros que assumiram suas plantas depois que ele foi embora. Nem nas escolas onde estudei depois. Deve ser por isso, e somente por isso, que chamam essa época de jardim da infância.

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O exército de bolinhas de sabão

Arte: Alanna Risse

Dorme o homem no jardim da praça da catedral. Fez ali sua cama, não se sabe a que horas. Já são onze da manhã e ele ainda não se levantou. Ao seu lado, trapos e tralhas não-identificadas a lhe fazer a guarda. O que houve com o homem? E o que ouve o homem, em seu sonho de terra, pedra e flor? O violino de Jean Luc Ponty ou a sanfona do Gonzagão? Os conselhos de seu pai ou os mandamentos de Deus?

É sábado. No dormitório do homem instalou-se, logo cedo, a feirinha de artesanato. Com música, barraca de pastel, anúncio de tudo. Tem criança pedindo coisa à madrinha. Tem velho de vida comprida, sentado no banco assistindo o vento. Tem moça de saia curta namorando em pé. E tem o homem, que ainda dorme e sonha no jardim. Sua madrugada é outra.

O vendedor de balões, para atrair a clientela, lança no ar bolinhas de sabão. Um exército delas, cuja missão – engana-se quem pensa que é proteger a alegria das crianças – é o ataque ao homem que dorme.

As soldadas, feitas de água rara e sabão barato, devem, a qualquer custo, subtrair-lhe o sossego. Fazê-lo ouvir a música, comprar na feirinha, comer o pastel, desejar o tudo que se anuncia. Beijam-lhe os pés pelados e encardidos (adormeceu sem meia, nem sapato), tocam-lhe o cenho intranquilo, quedam sobre seu peito oco e explodem, como serenas kamikazes. Outras erram a mira e acertam as flores do jardim, tal abelhas líquidas. De tão leves e delicadas, nenhuma acorda o Cinderelo bêbado. Trazem em sua fórmula o sopro divino do dono dos balões, criador do teatro mágico da praça da catedral. Mas falham: não servem para despertador.

As flores do meio-fio

Foto: arquivo pessoal

É para cruzar com cuidado, avisa a placa plantada na esquina. Esqueceram de escrever: “Antes, veja as flores que brotaram no meio-fio”. Placas de trânsito são tão racionais.

Qual noiva quererá as flores clandestinas para seu buquê? Elas têm graça e são de graça.

Morte de quem, enfeitarão?

Que bêbado se juntará a elas na madrugada, quando esquecer o caminho de casa? Antigamente, dizia-se que gente, se bebesse além da conta, ia parar na sarjeta. Não se vê mais isso. Agora, o bebum prefere o aconchego da marquise ou banco da praça à inospitalidade da calçada. Sarjeta virou só lugar de passar água que lavou quintal, caminho de água de chuva e depósito de bicho atropelado enquanto o pessoal da limpeza não vem recolher.

Só criança colhe flor da rua. Meus filhos sempre apanham uma aqui, outra ali, e me dão de presente. Adulto gosta mesmo é de comprar.

Ninguém vai visitar o bebê da amiga na maternidade levando um caprichado arranjo vindo do canteiro da avenida, por mais bonito que ele possa ficar. As pessoas têm vergonha de oferecer presentes que não geraram nota fiscal. Levamos muito a sério o “Não pise na grama”.

Marido nenhum chega em casa com as mãos para trás, segurando a supresa que é um punhado de flores do manacá da rua de baixo. Principalmente, quando a esposa foi dormir de bico na noite anterior.

Quem é que põe como enfeite na recepção do escritório as flores cultivadas bem ali, na floreira do prédio, tão fáceis, renováveis e disponíveis?

Nem todas as flores públicas estão ao alcance das mãos, é verdade. A maioria, no entanto, sim. Basta esticar o braço.

Brinco de imaginar que as flores sem grife do cruzamento, nascidas em meio ao mato e algum lixo, foram orquídeas raras na vida passada. E nesta vieram ser flor qualquer. Reino vegetal tem carma?

Só sei que as flores do meio-fio, sujeitas à poda impiedosa no próximo mutirão da prefeitura, estão à toa na vida, sem banda para ver passar. Ninguém as quer. Nem noiva, nem morto, nem bêbado. Nem eu, que só parei para fotografar.

Valsa

Foto: Nicholas Petrone/Flickr.com

– Eu vim cuidar do jardim.

O homem franzino pousou na calçada a sacola vermelha muito velha, encardida e cheia de ferramentas: pazinha, tesoura, luvas e regador. Desconfiada, a mulher de uniforme azul o olhou através das longas grades dos portões de ferro que, quando fechados, formavam uma clave de sol. Ele repetiu, havia vindo cuidar do jardim. A mulher se afastou.

– Espere aí que eu vou chamar a patroa – disse. E correu para dentro da casa.

Deu a notícia. Disse que o homem não era nenhum daqueles que, de quinze em quinze dias, apareciam para mexer nas plantas. Descreveu-o com nojo, apertando as mãos contra o peito. Estava com medo. A dona da casa, contaminada pelo nojo, foi chamar o outro dono da casa. O maestro, debruçado sobre o piano, tentava escrever o último compasso de sua valsa quando ela deu o aviso: um estranho tentava entrar em casa. Em instantes, a paz do lar fora ameaçada: quem era aquele homem?

– Melhor chamar a polícia, sugeriu a mulher de uniforme azul.

A dona da casa ordenou que as portas e cortinas fossem fechadas, Sem dar bandeira, ouviu?, enquanto ensaiava uma coreografia de pânico da sala de jantar para o estúdio, do estúdio para a sala de jantar. Parou para espiar através das cortinas. Quem se atrevia a tentar invadir sua fortaleza? Avistou o pequeno homem que aguardava na calçada, recostado à sombra do flamboyant.

– Ele ainda não foi embora!

Reunidos, os três discutiram hipóteses, traçaram rotas de fuga, um eventual enfrentamento. Não, ninguém havia trocado o serviço de jardinagem. Tampouco era dia, aqueles moços só vinham às quartas, lembrou a mulher de uniforme azul. Não, ninguém havia sido seguido naqueles dias. Nenhum telefonema estranho, também.

– Ele ameaçou você? – o maestro perguntou.

– Ameaçar, ele não ameaçou. Mas o senhor tinha que ver as roupas dele – disse. Era o nojo de novo.

– Então eu vou lá.

A dona da casa disse que ele estava doido, a mulher de uniforme azul fez o sinal da cruz. Mas quando o maestro encasquetava, ninguém podia fazer nada. As duas o acompanharam até o hall de entrada, preferiam assistir escondidas. Ele chegou ao portão e perguntou-lhe o nome. O homem disse que se chamava Theodoro e morava só, longe dali, e aquele era seu caminho desde que conhecera uma moça na rua de cima, Uma médica muito importante. Ela lhe dava, toda semana, comida e remédios. Contou também que era jardineiro, e toda vez que passava em frente à casa do maestro via um jardim fino e bem cuidado. Mas triste.

– Está vendo a dracena? – começou a dizer. – O sol castiga aquele canto o dia inteiro. Ela não gosta. Diferente da pata-de-elefante, que gosta de sol, mas está na sombra. Tem que trocar as duas de lugar, entende? Hoje eu vim mais cedo, só para cuidar disso. Trouxe sementes de girassol para aquele canteiro, quando crescerem os beijinhos vão parecer crianças dançando em volta deles!

E continuou. Disse, sem saber com quem falava, que jardim é que nem orquestra, uma planta dependendo da outra. O maestro, esquecendo-se da suspeita do início, ouvia tudo com atenção. Fez sinal para a esposa abrir os portões. Ela abriu foi um olho deste tamanho. Ele repetiu o sinal, para desespero da mulher de uniforme azul, que já estava roxa.

A clave de sol se abriu, Theodoro carregou suas coisas para dentro. O maestro mostrou o restante do jardim e pediu licença, precisava trabalhar. Beijou a esposa, pediu um vinho e voltou ao estúdio. Encontrara o compasso que faltava para sua valsa. Que agora já tinha nome: O Baile do Girassol.