Sob controle. Ou não

Ganhei do ex-namorado. Uma máquina de escrever Underwood, garimpada num antiquário em Santana de Parnaíba. Era 1992, era sábado e tinha sol.

Eu nunca soube precisar sua data de nascimento. Uns batem o olho e atestam: anos 30. Outros  chutam, é cinquentinha. Minha intuição (mentira; pesquisei rapidamente no Google) diz que ela está no meio dos dois. É o presente mais cheio de passado que já recebi.

Ficou bom tempo encostada, sem lugar que a acolhesse. É grandalhona, pesa feito chumbo (embora eu nunca tenha pego em chumbo). Há pouco, resolvi colocá-la em exibição na sala de jantar. Desde então, não dá outra. Cada um que passa por ela – em especial, crianças que nunca viram uma – faz questão de testá-la como bem entende, tec tec tec tec tec tec. Falta-lhe certa lubrificação, então lá se vão as letras, ou tipos, encavalando.

Eu, como mãe zelosa-furiosa a controlar a apalpação excessiva de seu recém-nascido pelas visitas assanhadas, vivia barrando. “Não faz assim”, “Assim estraga”, “Não puxa desse jeito”, “Não fica girando o cilindro!” e outras ordens, cumpridas à revelia ou desobedecidas na cara dura.

Movida pela compaixão (nostalgia?), mostro (brevemente; não tenho tanta paciência) como funciona. Querem saber se era a minha, quando criança. Para quem nasceu neste século, qualquer coisa com mais de quinze anos é antiguidade. Então, tanto faz se eu usava uma Underwood dos anos 40 ou uma Olivetti dos anos 90. É tudo velharia, passado longínquo, matéria dos livros de história.

A própria época do namoro e do passeio à Santana de Parnaíba já é velharia, passado longínquo, matéria do meu livro particular de história.

Como não consigo frear a curiosidade dos pequenos (deveria, afinal?), uma decisão tomei. Não os detenho mais. Desisti. A Underwood permanece em exposição em seu altar (mentira; é sobre o bufê). As crianças seguem em suas investidas. Mas já não dou uma voadora em quem aperta o liberador e o carro dispara para a esquerda, pá, plim! Divirto-me, aliás; o pequeno infrator sempre toma um susto. Não ligo se brincam com os marginadores. Não reclamo mais se os tipos encavalam.

O exemplo é bobinho, mas o aprendizado tem valido para um bocado de coisa, digamos, não-bobinha. A gente é mais feliz quando para de querer controlar o incontrolável. Cansa menos. E isso é de uma obviedade, tão fundamental quanto oculta, impressionante.

Escreve (datilografa ou digita) o que estou dizendo.

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8 comentários sobre “Sob controle. Ou não

  1. Silmara, mais uma leitura deliciosa!!! O incontrolável é incontrolável em qualquer esfera. Perfeita essa crônica. Continuo fã de carteirinha!!! Bjs

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  2. Adorei o texto!!!
    Algumas coisas só precisamos aceitar mesmo. A leveza vem junto…com curtição como bônus.
    O fato continua ali, vez em quando a “cutucar ” o desejo de controle, mas a mudança do ponto de vista, contribui pra gente não fazer ” tempestade em copo d’água”. 😊

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  3. Que preciosidade vc tem! Eu tenho (meu pai tem) uma maquina antiquissima, do jornal que ele trabalhava, e mais tarde comprou, que foi muitas vezes usada nos idos de 1930-1940, pelos irmaos Braga, Rubem e o outro, que nunca me lembro o nome, e que foram os fundadores do jornal. Datilografei muito nessa maquina, e pensava em quantas cronicas ela destilou sob os dedos dos Braga! Reliquias de um passado feliz e cheio de historias!

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  4. Sou fã das suas “escritas”!Sempre que alguém crítica o facebook eu cito gente assim como você, talentosa com as palavras.Não sei como explicar,mas parece que você capta o seu cotidiano e depois deixa fluir acrescentando beleza ou aspereza de maneira que fica delicioso ler o que vc escreve,Silmara! Parabéns pelo blog!

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