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Crônica de minuto #50

Xampu que deixa o cabelo duas vezes mais resistente. Pasta de dente que deixa o hálito três vezes mais fresco. Pilha que dura seis vezes mais. Sabão em pó que lava duas vezes mais branco. Cloro em gel que limpa três vezes mais. Adoçante que adoça cinco vezes mais.

Eu, consumidora distraída, achando que era a propaganda, a alma do negócio. Não. É a matemática, meu bem.

Como se calcula o frescor de um bafo, a força sansônica de um fio de cabelo, a brancura do uniforme do filho? De que jeito medir o tamanho de uma limpeza, estimar a dimensão da doçura? O doce mais doce que o doce de batata-doce, todos sabem, é o doce de batata-doce.

Eu, que sou mil vezes mais esperta que muita gente, perdi a conta de quantas vezes caí nesse conto. Eu, que tenho duas vezes a idade do publicitário que bola a papagaiada, já conduzi minha compra baseada no apelo. Depois, sequer consegui tirar a prova dos nove.

É normal, às vezes, não parar para pensar. Mas só às vezes.

Hoje, quando vejo anúncio assim, dou três vezes mais risada. E fujo dez vezes mais rápido.

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O Havaí é aqui. Ou não

Arte: Ana Maria Dacol

Eu que nunca fico elegante de sandálias Havaianas, igual às moças que desfilam pela Oscar Freire de terça-feira à tarde. (Para elas, é sempre terça-feira à tarde). Botam camiseta, jeans, chinelo de dedo e lá vão, irremediavelmente chiques. Quase não-terrenas.

Eu não. De Havaianas, não pareço descolada, não fico moderna. Metidos nelas, meus pés denunciam a deselegância nata, ou discreta – em livre caetaneação. E, não importa o quão produzida eu esteja, incorporo, invariavelmente, o arquétipo da jeca.

Inveja das moças da Oscar Freire.

As Havaianas, que já foram ícone de pobreza, foram alçadas a uma incompreensível categoria superior, através dessas mágicas ocidentais cuja poção leva quilos de propaganda, generosas doses de bom humor e uma pitada de sorte.

Com as legítimas, fajuta sou eu. Eu, que não solto pela vida minhas tiras particulares – aquelas que julgo me sustentar – , percebo que o buraco é, literalmente, mais embaixo. Toca o chão.

No primário, as crianças remediadas da minha escola assistiam às aulas de Havaianas. Destoavam do resto da classe, com seus assexuados sapatos pretos, tão fechados quanto a blusa branca de logotipo bordado no bolso que fazia parte do uniforme. Minha mãe dizia para eu não reparar nos pés delas. Eu reparava.

Não dei conta, em apenas algumas décadas, de assimilar tamanha mudança de status daquele simples chinelo. Meu subconsciente ainda o vê como calçado ordinário. E, como tal, instrumento de vagar à toa pela casa, lavar quintal, podar as roseiras, organizar as gavetas – qualquer atividade solitária e, obrigatoriamente, indoor.

Mas a mágica ocidental é poderosa. Então, eu bem que tento: flerto nas lojas com as Havaianas temáticas, fascinantemente multicoloridas. Afinal, nos pés das moças da Oscar Freire elas caem lindamente. Ensaio a compra, prometo superar o bloqueio emocional e me integrar à nova era, pertencer ao bando, ser cool. Que nada. Vêm à mente os colegas da escola e seus pézinhos encharcados pelo enfrentamento das poças em dia de chuva. Mudo de loja e escolho um par de sapatilhas. Espero que meus filhos não carreguem a ruidosa herança determinista e se esbaldem nas Havaianas, com liberdade e altivez, por onde quer que andem.

Centenas de milhões de pessoas em oitenta países do globo usam as Havaianas. Eu não. Não pertenço a este mundo.

Meu reino por uma fotografia da Jackie Onassis de Havaianas.

Tenho meu par, pasmem. Ganhado, não adquirido. Ele vive em meu armário, raras vezes circula. Nunca foi ao shopping. Nem até a portaria do condomínio, buscar a pizza. Vou descalça, se for o caso. Posso sair de casa sem batom; de Havaianas, jamais.

Sou doente do pé. Provavelmente, ruim da cabeça também.

Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada

Arte: Nikkinella

Eu me divirto bastante quando vou cortar os cabelos. (Embora não tenha ousado grandes transformações. O comprimento dos meus, nem Joãozinho usa mais.)

Gosto do ritual da lavagem terceirizada. Gosto de vestir a capa plástica, para que os fios decepados não piniquem depois. Gosto do café adoçado com futilidade. Gosto das revistas de bobagens alheias. E gosto, sobretudo, do lero que antecede a operação, o papo despretensioso com o cabeleireiro, as divagações sobre paletas de cores, a previsão de como vai ficar, como se nada mais importante estivesse em curso no planeta. Aquela hora em que nada – nem as injustiças do mundo – tem relevância, exceto o planejamento do novo corte.

Uma coisa, no entanto, me aborrece: buscar inspiração nas revistas especializadas e encontrar penteados fictícios: aqueles que só existem na fotografia, só se realizam com mais de três produtos e/ou acessórios e só funcionam quando não tem vento, chuva ou qualquer outro fenômeno da natureza. Que dependem do ar-condicionado para sobreviver e valem somente se vistos de frente. É o penteado-instalação, cuja única função é ser assistido. Longe de ser uma obra-aberta, não permite interatividade – nem com a própria dona.

O cabeleireiro vai explicando: esse fica assim na base da pomada. Aquele foi conquistado com mousse, secador e chapinha – a santíssima trindade dos salões. A cor do outro tem Photoshop; humanos não dão conta de fazer esse degradé. A cada página, um cabelo devidamente organizado. Sentada no cadeirão, melenas molhadas escorrendo pelas orelhas, lanço a questão ao universo: com qual corte se pode, verdadeiramente, acordar, tomar banho e sair?

Mais aborrecido, só propaganda de xampu. Dobrada a esquina do século, elas insistem na velha fórmula dos cabelos longos (sempre longos; não há curtos nos comerciais) e brilhantes balouçando em câmera lenta. Que mentira, que lorota boa: a vida não passa em câmera lenta.

Tal como na propaganda, com seus filmes produzidos para faturar prêmios e não, necessariamente, ajudar a vender, há penteados preparados tão-somente para vencer concursos.

Quero ver nas revistas e nas tevês cabelos de verdade. Cabelos de levar a cria para a escola, de fazer reunião com cliente e faxina nos armários. Cabelos de bater perna no shopping, ir ao dentista, deitar no sofá para assistir as reprises do canal Viva. Cabelos de namorar, sem vergonha de ficarem nus. Cabelos de preparar camarão na moranga e ler Drummond na rede.

Cabelos que, fossem gente, usariam jeans, camiseta branca e havaianas.

Ao sucesso, com ou sem Hollywood

Antigamente, para ter sucesso, bastava fumar um Hollywood. Ao menos, era o que prometiam as lendárias propagandas dessa marca de cigarro, ao apostar na fórmula aventura & música.

Hoje, basta se matricular numa escola de inglês ou num curso de graduação. Nove entre dez desses anunciantes usam o termo “sucesso” para seduzir aspirantes a um lugar ao sol na praia corporativa. Como se sucesso fosse meio, e não fim. Como se garantia fosse para chegar ao topo. Topo? Só sabe do topo quem escalou montes, contemplou paisagens, sentiu o ar rarefeito, chorou ao pensar na família, achou que não ia dar, e deu.

Sucesso na vida profissional: procura-se a definição, desesperadamente. O estreito desejo de chegar à presidência da empresa a qualquer custo, ou a larga ilusão do contra-cheque de cinco, quase seis, dígitos, em troca de uma perigosa parceria com o tinhoso? Encravar-se na calçada da fama ou passear por ela, livre feito um passarinho?

O sucesso, talvez, seja mais simples: aquele diretorzão lhe parar no corredor para pedir uma dica – de qualquer coisa. Tirar trinta dias de férias, ninguém do escritório lhe procurar nesse meio tempo e, de verdade, tudo estar bem. A moça do café lembrar do seu aniversário, e lhe trazer um que ela acabou de passar. Acordar, nos dias úteis, de razoável bom humor.

Sucesso na profissão, para ser honesta, é ter um bebê em casa e conseguir dormir uma noite inteirinha, antes de ir trabalhar. Sucesso é seu filho brincar de ser você trabalhando – e se divertir muito. Sucesso é office-home, e não home-office.

Para não dizer que não se falou em flores, sucesso também é costurar o próprio vestido e as amigas perguntarem onde você o comprou. Alforriar os cabelos da chapinha e da escova progressiva – essas paroxítonas para suposta beleza. É o esmalte durar uma semana, sem lascar. Ter, todo ano, uma mamografia com resultado negativo.

Sucesso é ver o manacá que você plantou dar sua primeira florada. É clicar, no exato, único e derradeiro instante, o beija-flor na varanda lhe dando alô.

Sucesso é acertar o ponto da massa de nhoque, abrir embalagem de iogurte sem rasgar a tampa. Sucesso é apanhar a manga mais alta, suculenta e sem bicho, lá no sítio do seu pai.

Sucesso, sucesso mesmo, é apagar as velinhas no 115º aniversário, como fez a mulher mais velha do mundo, ano passado. É tirar “Let it be” no piano, depois de apenas dois meses de aula.

Sucesso é o cãozinho de três patas subir e descer escada, na boa. Ou aquele que saiu no jornal, só com as duas de trás, feliz da vida na sua cadeirinha de rodas.

Sucesso é terminar o quebra-cabeça de cinco mil peças. Caprichar num origami e todo mundo acertar o que é. Interpretar o I-Ching com a devida sabedoria. Sucesso é não desafinar na serenata. Sair na ladeira sem precisar do freio de mão.

Sucesso é aquele que vem atrás da gente, e não o contrário.

Sucesso é ter uma lista enorme de coisas que, se não levam ao sucesso, faz a gente imaginar que sim. Isso é Hollywood.

Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz?

Arte: Jim Devlin

Se você anda irritadiça, raivosa ou está pelas tampas, não convém assistir TV, muito menos ligar o rádio. Poderá topar, a qualquer instante, com um anúncio de feirão de carros. E, esteja você interessada ou não em adquirir ou trocar seu bólido, fique certa: o apoteótico clima do comercial a levará a um quadro de confusão mental, e você terá ímpetos de jogar a mãe do trem, matar a família e ir ao cinema depois.

A locução, sempre apressada, e a trilha sonora, infalivelmente nervosa, somam-se, no caso da TV, ao abuso do zoom in e zoom out e toda sorte de efeito gráfico. De estética acintosa, os típicos anúncios de feirões deveriam ser vetados pelo Conar e entrar na categoria dos alucinógenos, sendo, inclusive, proibidos pelo Ministério da Saúde.

Em algum lugar do passado, o lado sombrio da publicidade convencionou que, para fazer sucesso e aumentar as vendas no varejo, anúncio de carro deveria ser ruidoso e frenético (ao mesmo tempo), para despertar no potencial, porém desavisado, consumidor o súbito e irreversível desejo de comprá-lo. Ora, pessoas compram carros porque precisam deles, e não porque nãopodeperderessaoportunidadevaisernessedomingocorra!

Mas o cidadão de bem, zonzo, acaba indo ao evento. Sai de lá com um veículo financiado em 72 meses, com taxa de juros de 20% ao ano, crente que fez um ótimo negócio. Ao seu redor, carros suspensos por guindastes, música estridente, pipoca, malabaristas. O feirão virou circo; adivinha quem é o palhaço.

E tudo começou com uma inocente mensagem, tão curtinha – trinta segundos, só.

Jingle bells?

Ilustração: Adam Koford/Flickr.com

Gelei: acabo de topar com o primeiro anúncio de Natal. Papai Noel nem contratou os duendes temporários para fazer um bico no final de ano e já anunciaram: está tudo pronto. O bom velhinho deve odiar os publicitários. Viver às turras com o pessoal do marketing. Não é fácil ser lenda em terra comandada pelo dindim.

De meu posto, ainda em fase de embasbacação com as floradas da primavera nos ipês, jacarandás, sibipirunas e manacás-da-serra, em plena espera da boa-nova nos campos de concreto, já preciso pensar no presente de amigo-secreto. No chocotone. Na estratégia para armar a árvore de Natal na sala sem que os gatos comam os enfeites. E se eu insistir com as flores… Viver cada coisa em seu tempo, às vezes, é audacioso demais.

Todo ano é assim. Pior: o ano inteiro. Uma antecipação frenética e ensandecida das datas, fazendo com que tudo passe mais rápido do que já é. Me ponho ansiosa e concluo que, como o Coelho da Alice, estou atrasada. Se bem que coelho é lá na frente, na Páscoa. (Seus ovos que cada vez têm menos forma de ovo, no entanto, infestam os tetos dos supermercados bem antes.)

Tem mínimo para tudo: mínimo para pagamento da fatura do cartão de crédito, idade mínima para entrar no cinema, frequência mínima para passar de ano na escola, salário-mínimo. Campanha de data comemorativa também carece de limites mínimos: nada de outdoor de mãe, a não ser em maio. Comercial romântico de casal enamorado, só se for em junho. De pai, antes de agosto, nem pensar. E ninguém mais bota decoração verde e vermelha nos shoppings antes de dezembro. Infringiu, é multa. O calendário gregoriano reinará soberano, dando uma bela ‘banana’ para o calendário promocional. (Que carece, sobretudo, de novas inspirações. Mas isso são outros trezentos e sessenta e cinco.)

Até que isso aconteça, mês que vem, novembro, terei enjoado das bolas coloridas, dos anjinhos trombeteiros, das luzes piscantes nas janelas, das caixinhas de Natal para frentistas, garçons e manicures. Quando chegar o dia, propriamente dito, os gatos terão destruído a árvore e eu estarei completamente nauseada com a temporada de hohoho.

Que venha o Carnaval.

Vestindo a camisa

Foto: Patrícia Garcia/Flickr.com

Acontece de faltar algo no slogan daquelas camisas. Uma palavra, uma ideia, algo para dar continuidade ao que sujeito e predicado deixaram (de propósito?) no ar. E não falta apenas o objeto, direto ou indireto. “Para mulheres que decidem”, diz a frase. Ora, ora. Que decidem o quê?

Camisas para mulheres que decidem o destino dos milhões nas companhias ou das moedas no cofrinho do filho, louco para comprar um Lego?

Que decidem eleições ou o que a família vai comer no jantar?

Será que ela, camisa, cai bem tanto na mulher que decidiu ser mãe quanto naquela que jamais sonhou parir? Vestirá, igualmente, as que decidem interromper uma gravidez e as que resolvem adotar o bebê resgatado de um lixo-berço?

Ou é camisa para mulher que decide botar o bloco na rua, o blog na lua, posar nua?

E se ela representar o traje ideal para a mulher que decide salvar o planeta, mas deixa de salvar o cachorro faminto que passa a noite ao gélido relento?

Talvez seja para a mulher que já percebeu e, portanto, decidiu: a tristeza não lhe cai bem, e o melhor a fazer é vestir uma alegria bem bonita, com muitos bolsos, para ir guardando as felicidades que encontrar.

Nada disso, quem sabe? É roupa para mulheres que decidem pintar a sala de roxo e azul-turquesa num dia de colorida fúria. Que decidem encerrar o velho jejum de paixão, feito em nome de um amor evaporado. Que decidem por silicone aos dezesseis e fazer tatuagem aos sessenta. (Afinal, para umas, nunca é cedo. Para outras, nunca é tarde. E todas estão certas.) É vestimenta para mulheres que decidem não dançar conforme a música que toca e, em vez disso, compõem a própria trilha e saem bailando por aí. E que, bem sabem, camisa nenhuma confere poder de decisão a alguém – exceto a camisinha.

A camisa, parece, é generosa e nasceu para todas. Afinal, o que é um slogan? Um autorretrato bem encomendado ou uma enganação mal planejada? Eu, por enquanto, visto-me de ventania e vou flanando pelo mundo. Tudo que quero são roupas novas.