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Mais uma breve crônica para falar de amor

Image from page 50 of “Emblems of love, in four languages. Dedicated to the ladys by Ph. Ayres, esq” (1600)

Aproximou-se da cancela, baixou o vidro, estendeu o braço, apertou o botão.

– Retire seu cartão e boas compras.

Foi puxá-lo quando ouviu, no mesmo tom:

– Não se esqueça de ajeitar a gravata.

Ele recuou, assombrado. Por via das dúvidas, olhou-se no retrovisor.

– A gravata?

– É. Está torta.

Mirou o nó, levemente à esquerda, quase sob o colarinho. Olhou ao redor. Ninguém. Que brincadeira era aquela? Acenou para a câmera de segurança. Sentiu-se meio bobo. Ressabiado, olhou novamente à sua volta. Ajeitou rapidamente a gravata, estendeu o braço. O cartão o aguardava, metade dentro do dispensador, metade fora. A voz:

– Agora ficou melhor. Retire seu cartão e boas compras.

É pegadinha. Só pode ser.

Obedeceu, a cancela se abriu. Engatou a primeira e ainda teve tempo de olhar mais uma vez em volta, à procura do autor, quer dizer, autora da gracinha.

Durante o almoço, comentou com os colegas. Foi aconselhado a tirar umas férias. Rindo, distraiu-se e feriu-se com a faca que pendia ao lado do prato. Embrulhou o dedo no guardanapo de papel e foi ao banheiro. Enquanto a água sanguinolenta corria ralo abaixo, só pensava em duas coisas. Uma delas eram suas férias.

Dia seguinte, ainda intrigado, resolveu voltar ao shopping. Precisava de meias novas, mesmo. Escolheu a entrada, o plano era seguir à risca o que fizera na véspera. Aproximou-se devagar e olhou ao redor, escaneando o local na esperança de flagrar o mecanismo da pegadinha. Se é que era uma pegadinha. Se é que aconteceria novamente. A voz era bonita, aliás. Não seria de todo mal saber quem falara com ele. Por via das dúvidas (que agora já eram tantas), conferiu no retrovisor a gravata e emparelhou junto ao dispensador. Quer dizer, dispensadora.

– Retire seu cartão e boas compras. Que houve com o dedo?

Ainda que ele esperasse pelo diálogo, aquilo o perturbara. Ele, que chegara a ensaiar um possível diálogo com a máquina, treinando como descobriria de onde partia a voz, estava sem graça. Nada funcionou. “Ela” notara o band-aid.

– Cortei… com a faca… – disse, num gestual hesitante e patético (já que não sabia a quem ou o quê se dirigir), tentando explicar como é que acontecera.

– Precisava de um beijinho pra sarar. Retire seu cartão e boas compras.

Catou o cartão, encabulado. Engatou a primeira e pode-se dizer que chegou a cantar pneus cancela adentro.

Já era demais. Beijinho?

Deu três voltas no shopping, a fim de gastar pensamento e incompreensão. Piada de alguém, só podia ser. Viu-se num futuro próximo, em um daqueles programas dominicais de pegadinhas, a cidade inteira vendo-o pagar mico no estacionamento do shopping. Olhou o dedo, olhou o band-aid, lembrou da voz. Voz sem rosto. Doce, porém. Ih, já estava delirando. Desnorteado, esqueceu-se das meias e foi embora. Beijinho. Era só o que faltava.

E era mesmo o que faltava. Tinha tudo na vida, ele. Só não tinha beijinho.

Passaram-se dias, semanas. Ele pesquisou o sistema de segurança do estacionamento do shopping. O funcionário que poderia, eventualmente, vê-lo pela câmera e, assim, “falar” com ele através do dispensador de cartões, era um homem. Investigou: não havia mulheres naquela equipe há um ano. Chegou a usar outras entradas, e nada aconteceu. Pediu, secretamente, a dois amigos para repetirem a cena em seu lugar, na mesma cancela, e a fala mecânica foi a padrão, sem surpresas: retire seu cartão, boas compras e só. Contrariando sua mente cartesiana e sua alma cética, não restava dúvida: a própria dispensadora de cartões, sabe-se lá como, falava com ele. Sim: a máquina, dotada de impossível ânima, conversava com ele. E ele gostava.

Um dia, acordou decidido. Conferiu gravata, olhou a cicatriz no dedo. Dirigiu até o shopping, aproximou-se da cancela, baixou o vidro, estendeu o braço, apertou o botão.

– Retire seu cartão e boas compras. Senti sua falta.

– Eu também.

A cancela se abriu, ele engatou a primeira e sorriu. Era dia dos Namorados.

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Ser mãe é padecer na praça de alimentação

Foto: R. Maruo
Foto: R. Maruo

Em praça de alimentação pai, mãe, filhos e espírito santo não comungam da mesma hóstia. Um quer isto, o outro, aquilo. Senta para esperar, levanta para buscar o pedido, ao toque de mil buzinas descompassadas. Trezentos e sete. Oitenta e um. Cento e quinze. É a democracia gastronômica na base da senha.

Não raro, o lugar vira praça da alimentação interrompida. Geralmente, por causa de outra senha: a necessidade urgente da cria pequena de fazer número um ou número dois, bem no meio da comida. Semana passada, inaugurei mais um jeito de ficar com fome.

Era sábado e eu estava só com as crianças. Fomos almoçar no shopping, templo das conveniências gerais. Eles escolheram o self-service. Eu fui de risoto. Apaixonei-me pelo do cartaz e quis um igualzinho: arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. Meu apetite não era meramente ilustrativo.

Os pratos deles ficaram prontos em segundos. O meu demorou mais. Enquanto eu continuava famélica, eles se viram saciados. Natural que quisessem partir para a sobremesa. Como sou mãe de dois, razoavelmente crescidos e iniciados no mundo das finanças, nomeei o mais velho fiel depositário de vinte contos a fim de bancar sorvete para ambos. Um pilar e dez metros, não mais, separavam nossa mesa do balcão, atrás de mim. Lá foram. Eu dava uma olhadela, de vez em quando.

Dei a primeira garfada no meu, só meu, risoto de arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. A felicidade vem do mar, meu bem.

Segunda e terceira garfadas. A caçula veio chorando. Contou, aos prantos e em prejudicada narrativa, que o mais velho, dotado do espírito sacana comum aos primogênitos, havia feito não-sei-o-quê, que a fizera cair ao chão e todos à volta haviam visto sua calcinha.

Pousei o garfo. “Querida, acontece. Fica assim, não”. Fiz-lhe um carinho nos longos cabelos castanhos, dei beijinho para sarar (ainda que nada houvesse a ser curado, exceto seu orgulho). “Agora volte lá e compre o sorvete com seu irmão”. Ela foi.

Quarta e quinta garfadas no meu risoto de arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco. Segui apreciando cada fruto daquele mar que me concedera tal prazer. Quase pude sentir o aroma da uva que deu origem ao vinho que tudo aquilo envolveu. Minhas narinas – e meu estômago – faziam festa em alto-mar.

Ensaiei a sexta garfada. Problema à vista, Capitã. A caçula voltou. Contou, no mesmo padrão choroso-narrativo, que enquanto ela se queixava comigo da primeira vez, o irmão concluíra que ela não voltaria e resolvera comprar sorvete só para ele.

Mais fácil cuidar de um polvo que de dois bípedes. Ser mãe é padecer praticamente em qualquer lugar.

Recorri à paciência tatuada em meu braço esquerdo. Nem ela, nem o pai, nem o espírito santo para me salvar. Quis fazer como Cronos, que tinha o hábito de engolir seus filhos, assim que nasciam. O deus do tempo fazia isso por medo de que sua cria lhe superasse em poder. Meu motivo seria mais humilde: almoçar em paz.

Pousei o garfo pela segunda vez. “Isso não está certo, meu amor. Eu vou lá com você”. Levantei-me, percorri bufando os dez metros até o balcão, ralhei com o mais velho, certifiquei-me que o sorvete da caçula estava encaminhado e, quarenta segundos depois, eu voltava à mesa.

Tarde demais. A moça da limpeza passou e retirou meu prato, levando dois terços intactos do meu risoto feito com arroz arbóreo, suculentos camarões e tenros anéis de lula, tudo puxado no vinho branco.

Fim.

Just like a rolling stone

Foto: Quapan

Eu não disse? Nunca se deve circular com calcinha esgarçada e sutiã desatualizado. Se, por acaso, se é acometida de mal súbito e o socorro médico se faz necessário, é fatal: sua surrada intimidade será desastrosamente devassada. E nunca, jamais, dará tempo de substituir o traje antes que enfermeiros se divirtam com o péssimo estado da sua roupa de baixo.

Lição aprendida a duras penas: tive inédita cólica renal (das bravas) em pleno shopping center.

Aproveitava a liquidação quando ela deu seus primeiros sinais. Fingi que não era comigo. Estava deveras interessada em um jeans bacana, a poucos minutos de ser meu pela bagatela de trinta e nove reais. Cheguei a tomar o rumo do provador. Que nada. Tinha uma pedra no meio do caminho. Precisamente, entre o rim e a bexiga.

Ora (direis) ouvir estrelas! E eu vos direi, no entanto, que, frente à lancinante dor, não só as ouvi, como as vi. Todinhas.

Não me recordo como cheguei ao ambulatório do estabelecimento. Só me lembro de teimar com o segurança, não carecia de cadeira de rodas. Carecia. Em seguida, na maca, expus meu derrière a uma injeção intramuscular de analgésico. A calcinha? Uma das piores do meu prejudicado acervo.

Em seguida, a caminho do hospital, no rádio do carro o locutor relembra a impermanência: “Em vinte minutos, tudo pode mudar”. De fato, a agenda do meu dia mudara nesse exato e breve espaço de tempo. Os recados estão por toda parte.

No pronto-socorro, fui beneficiada pela meia-luz da sala de exames. Bastava de constrangimentos. Já em casa, ainda zonza, contabilizei os prejuízos. Marido deixou o trabalho mais cedo, para me acudir. A cria, para voltar da escola, foi rateada entre os amigos. Fui flagrada com lingerie mulambenta. Ratifiquei vox populi: “Pior que dor de parto”. Nada se compara, no entanto, à dor de ter perdido o jeans em promoção.

Eu, fã confessa e irrecuperável de Lygia Fagundes Telles, sabia que ainda viveria (mais) um episódio com ela. Só não imaginava que fosse tão literal; ainda bem que é uma pedra só, e não uma ciranda delas. Trouxe comigo seu retrato tirado no ultrassom. Desejo que ela siga seu caminho, de preferência em paz. Just like a rolling stone.

Até 70% de desconto

Há três coisas que se aprende, ao longo da existência, que não são de verdade: Papai Noel, coelhinho da Páscoa e liquidações com até 70% de desconto.

As duas primeiras são reveladas ainda na tenra infância, quando flagramos o bom velhinho chamando a mamãe de “querida” na cozinha e descobrimos, num passeio pelo sítio do vovô, que coelhos não põem ovos, nem aqui, nem na China. Muito menos de chocolate.

Já em relação às costumeiras promoções alardeando descontos irresistíveis, os primeiros insights de que não é bem assim vêm quando já somos marmanjas.

É quando você entra numa loja, ávida por pechinchas. Afinal, o shopping inteiro é um gigantesco sinal de porcentagem nessa época. Lá vai você, feliz da vida, crente que levará a bolsa dos sonhos por uma bagatela, o vestido lindão a preço de banana, três pares de sapatos pelo preço de um.

Aí você passa os olhos pelas araras e prateleiras, conferindo com atenção as reluzentes etiquetas promocionais: de tanto, por tanto. Numa rápida conta de cabeça, você constata um mixuruco 15% ou, talvez, 20% de desconto. Resolve perguntar à vendedora onde é que estão as ofertas com 70%. E ela aponta, no fundo da loja, um balaio bonito sobre o balcão, repleto de camisetas de manga curta, malha bem fininha. Brancas. Mais básicas que a cesta que você fornece para sua empregada todo mês. Apareceu o descontão, olê olê olá!

Na mesma loja, você nota que o preço daquela blusa em tie-dye que você chegou a flertar uma semana antes permanece inalterado. “É coleção nova”, esclarece a vendedora. A essa altura, você sente uma incontrolável vontade de tie (amarrar) e dye (tingir) de roxo-fúria a mocinha que, cinicamente, lhe encara.

Frustrada, você cogita a pantalona modernosa que está saindo por 199 contos, 220 antes da promoção. Uau. Você só não sabe se aplicará os 21 reais economizados (10%) na poupança ou renda fixa. Imperdível.

Há uma curiosa lógica comercial em torno das liquidações, determinando que só tranqueiras recebam os descontos maiores. No caso de roupas e calçados, são aquelas peças que ninguém quer, das cores que ninguém gosta, nos tamanhos que ninguém usa. Não deveria ser liquidação, e sim imploração. A chamada: “Pelo amor de Deus, comprem”.

Tão intrigantes quanto a lógica são as remarcações que antecedem as liquidações. Só pode ser obra do além, brincadeira de algum fantasma ganancioso, já que lojista nenhum confessa o crime. Ou então algo mais místico: véspera da liquidação – cafonamente batizada de “sale” -, uma gangue de gnomos peraltas invade, na calada da noite, as lojas e majora os preços, para que os descontos reais sejam bem menores que os panfletados. Nunca viu? A TV que custava R$ 2,8 mil passa, misteriosamente, para R$ 3,7 mil. Os 50% de desconto anunciados no megafone viram, na verdade, pouco mais de 30%. E você achava que gnomos só viviam nas florestas.

Não existe filé com 70% de desconto, meu bem. No máximo, acém. Porque patinho, vamos ser honestas, é quem ainda cai nessa.

Café com paciência

Ilustração: DesEquiLIBROS/Flickr.com

Na praça de alimentação, com a cria. Ele tem sete e ela, quatro. Enquanto brincam e se esbaldam com seus sorvetes, vejo meu cappuccino sendo tirado à perfeição. Deliciosamente perfumado, estalando de cremoso. Não chego a prová-lo, porém. O mais velho se aproxima, saltitando. Levemente desesperado, avisa:

– Cocô.

Se o moço do quiosque se chamasse José, seria de grande valia. “E agora, José?”, eu recorreria. Mas ele não é o José, aquele do Drummond. É o Artur. E no crachá do Artur, que não leva jeito de rei, nem de pai, está escrito “Em treinamento”. Bobagem alimentar alguma expectativa de que parta dele uma ideia brilhante para me ajudar a resolver a parada. Nenhum sopro de compaixão para com uma pobre mãe, não em dificuldades – posto que o episódio não é novidade e sempre se repete lá pela quarta garfada ou, raras vezes, na sobremesa –, e sim, em total desolação. Adeus, cappuccino. Artur, que está em treinamento, por certo não concordará em guardar nossas coisas por cinco minutos. Dez, para ser honesta. Crianças, principalmente em banheiros públicos, são altamente influenciáveis. A mais nova, vendo tudo, ficaria com vontade também. Processo em dobro.

Ainda que o Artur topasse, gentilmente, fazer a guarda da nossa mesa, o cappuccino, frio, se tornaria uma bebida imprestável. Os sorvetes, irreconhecíveis, não passariam de uma meleca morna e indeglutível. O jeito seria fazer um novo pedido. Filhos, está provado, dão despesa.

Procuro recordar-me dos treinamentos gerenciais do passado, ensinando técnicas de liderança, persuasão e tomada rápida de decisões. Desconfio que a verdadeira utilidade desses cursos se revela na maternidade. E não, necessariamente, nos negócios. Avalio a situação:

– Você tem certeza que não dá para segurar um pouquinho?

Crianças não têm noção muito sofisticada acerca do tempo, ainda mais quando estão apertadas para ir ao banheiro. Não são capazes de calcular o real tamanho de suas vontades, relativizar ou contextualizar. Engatinham em autocontrole, são aprendizes na arte da espera e, ao mesmo tempo, mestres da urgência. Simplesmente querem, e é para já. Sobretudo, não conhecem o prazer de degustar, em paz, um bom cafezinho após o almoço.

– Não dá, mãe.

Filhos são nossos melhores professores de paciência. Olho em volta. Não há como escapar dessa aula. Onde é que fui amarrar minha égua?

Resta tentar um acordo com o sorveteiro novato. Não para o cappuccino, que esse foi para as cucuias, mas com os sorvetes. Estão inteiros, bem que podem retornar à geladeira até a nossa volta.

– Artur, você quebra meu galho, e eu elogio você para o seu chefe. É pegar ou largar.

A meia-calça

Foto: Knitting Iris/Flickr.com

Encerrado o sushi, era só um cafezinho no primeiro andar e voar para o escritório. Nem precisei tirar os restos da mesa, as moças da limpeza estavam ali para isso. Aprendi quando levei bronca certa vez, enquanto praticava a boa cidadania recolhendo meu lixo. Já havia separado os talheres não-descartáveis, o plástico do alumínio, quando me levantei com a bandeja nas mãos. Assim você acaba com o nosso emprego, resmungou a funcionária do shopping. Constrangida, devolvi tudo à mesa. Agora eu sempre deixo intacta a cena final de meus apressados banquetes.

Atravessei a praça de alimentação de leste a oeste como um trópico, uma linha imaginária a dividi-la em dois hemisférios: o dos famintos e o dos empanturrados. No final da travessia por entre mesinhas quadradas e cadeiras redondas, alguém me puxou pelo braço. Matias? Não acredito! Há quantos anos a gente não se vê? Tudo isso? Não pode ser. Eu diria, no máximo, uns seis. É verdade, foi na despedida da Clara. Dez anos, então. Como o tempo passa.

Não achei conveniente me sentar, atrapalharia o almoço do ex-colega de trabalho. E estava, sobretudo, atrasada. Ele não se levantou. Postou-se como um cão a guardar seu bife, já esfriando no prato. Ficamos assim: eu em pé, ligeiramente inclinada, me apoiando na mesa com uma das mãos. O Matias sentado, rosto desconfortavelmente erguido. Cada um tentando atualizar, em cento e quarenta caracteres de um twitter falado, os anos que haviam se passado. No meio da conversa, reconheci o movimento em progresso sob meu vestido. Ah, não. De novo?

Sim. A meia-calça que eu usava naquele dia começava a descer e se enrolar na barriga. Era sempre assim. Ao vesti-la, o cós elástico se mantinha no lugar – evidentemente, ao redor da cintura. Em pouco tempo, porém, tinha início o processo. A abertura das comportas, expondo a barriga saliente, até então contida. Ficava à mercê do pavor mais apavorante: a de que alguém por perto tivesse visão de Raio-X. Meia-calça, dessas de nylon, só não enrola em barriga chapada, de tanquinho. E a minha não era nem uma coisa, nem outra. Muito pelo contrário. Inspirada na Revolução Industrial, ela se assemelhava com a própria máquina de lavar.

Encolhi a barriga, na tentativa de estacionar o processo. E você, por onde anda? Não entendia porque meias-calças eram assim. Nenhuma outra calça, que não agregasse a função de meia, tinha um efeito colateral tão devastador. Nunca mais soube da Clara, ela deu notícias? Jamais encontrara uma que não descesse barriga abaixo. Vamos almoçar qualquer dia desses? Estou sempre por aqui. Em casa passaria a tesoura no cós. Quinta que vem está ótimo. Seria pior: aí é que ela não pararia no lugar. Fique com o meu email, passe o seu. A barriga desabara de vez sobre o cós enrolado. O baixo ventre reclamava do aperto. Até quinta. Qualquer coisa, a gente se fala antes. Ziguezagueei até as escadas rolantes. Olhei para cima e para o lado. Tateei e encontrei o paradeiro da danada. Dei um puxão sobre o vestido, tec, e a trouxe de volta ao lugar. Ninguém viu nada. La-ra-ri-la-lá.

Panis et circenses

Ilustração: Thiago Carrapatoso/Flickr.com

Chama-se Praça de Alimentação. Mas poderia ser Festa das Nações, como aquelas quermesses de igreja, cheias de barraquinhas com comida típica de quase todos os cantos do planeta. Shoppings centers alteraram um bocado de coisas na vida das pessoas nas últimas décadas, e foram além: redesenharam o mapa-múndi – pelo menos no aspecto gastronômico – sob uma nova, interessante e apetitosa geografia. Nela, a Itália pode ficar ao lado do Japão, os Estados Unidos em frente à Arábia, a Alemanha vira vizinha do México. É a volta ao mundo em apenas algumas garfadas.

O mais interessante são os povos que circulam nessa pequena amostra de mundo. Todos falam a mesma língua, numa espécie de Babel ao contrário. Os comportamentos são parecidos, as afetações são gerais, a diversão é garantida. Embora eu faça parte desse microcosmo, por alguns instantes – meia hora, para ser exata – viro satélite. E vou capturando tudo.

Tem a turma do faz de conta. Faz de conta que não estão esperando aquela mesa vagar para saltar sobre ela com uma lança em punho, fincando nela sua bandeira. Faz de conta que não estão incomodados com a demora do casal que não termina nunca aquele cafezinho. Faz de conta que o refrigerante light vai salvar o estrago da lasanha. Faz de conta que eu acredito.

Tem a mulher que passa escolhendo o cardápio através dos luminosos, empertigada em seu traje de marinheiro. Terninho azul escuro, camiseta branca, sapatos bicolores azuis e brancos. Sisuda e séria. Barriga para dentro, peito para fora. Nenhum fio de cabelo fora do lugar. Seus passos são uniformes, como numa marcha. Instantes depois ela carrega com altivez sua bandeja. Mapeia o local e decide, estrategicamente, por uma mesa próxima à parede. Assim ficará de frente para o movimento, eliminando as chances de um ataque inimigo por trás. Senta-se e devora o filé à parmegiana com disciplina, condizente com as Forças Armadas. Mas em vez da Marinha ela poderia ter escolhido a Aeronáutica. Só para tirar um pouco os pés da terra, deixar as coisas voarem mais soltas, ao sabor dos ventos e, rumo às estrelas, descobrir que a Terra é azul.

Tem as Barbies. Moças que, se não nasceram iguais à boneca, foram dando um jeito pelo caminho. Embora algumas roupas só fiquem bem mesmo na original. Que não respira, não se mexe, não anda. Outras conseguem o impossível: ficar com a barriga incólume depois de um Número 1 com batata frita extra e meio litro de Coca-Cola. Só pode ser uma nova versão de Photoshop, que saiu dos computadores para a vida real. Como um spray, que pode ser levado na bolsa. Quem vai querer?

Tem o grupo de moças que reúne duas mesas para almoçarem juntas. Uma usa calça com cintura alta, quando não deveria. Outra veste blusa de um ombro só. O deslize: sutiã de alça de silicone. A bolsa de uma delas é Louis Vuitton, mas o sapato perdeu a validade há tempos. Enfim, entre as vítimas da moda, infelizmente algumas são fatais. Há poucas sobreviventes.

E tem a calça saruel. Oh, a saruel. A incógnita do início deste século. Se por um lado ela é uma celebração ao conforto e à liberdade de movimentos – a qual eu me rendo, sempre um pouco hesitante – por outro é uma quase afronta estética, um acidente. A saruel talvez seja o fundamento sobre o terceiro segredo de Fátima. Revelado antes da hora e, por isso, ainda incompreendido.

Tem a mãe que estaciona o carrinho do bebê, praticamente ocupando o espaço de outra mesa. Uma verdadeira extensão do quarto do pimpolho e da cozinha da família. Confiro os itens: uma mamadeira para água, outra para suco. Mais a de leite. O vidro com a papinha. O pratinho para a papinha. Um arsenal de babadores descartáveis. Dois travesseiros. Quatro brinquedos. Uma bolsa azul-clara de onde se tira tudo. E a mantinha, vai que o tempo vira. Ainda bem que tem rodas.

Tem outra de bebê. Sentada em seu cadeirão, a menininha tem um séquito de ajudantes para a mais simples das tarefas: comer. O avô segura-lhe o copo; o pai, o prato; a mãe faz o aviãozinho com a colher. Mas não há ninguém disponível para a única coisa que ela necessita, de verdade, naquela hora: pegar sua bonequinha que caiu no chão. É acudida pelo irmão mais velho. De três anos.

Tem o adolescente que pede dinheiro para o pai, quer um milk shake.  Ele se levanta e em dez segundos identifico, com extrema facilidade, cinco logomarcas na sua indumentária. Se ele fosse uma revista, seria remunerado para tê-las nas suas páginas. Mas ele ainda nem é um gibi.

Tem o casal que em meio a tudo – ou nada – promove um beijo longo e apaixonado, desses de cinema. Dá vontade de sentar na frente deles com um saco de pipocas, só para assistir. Eles não ouvem a sinfonia das latas de refrigerante se abrindo. Nem assistem a dança das cadeiras. A trilha sonora deles é outra.

Devo ser alvo de algum ‘satélite’, também. Talvez perguntem o que foi que comi, para rir sozinha e escrever tanto no verso do papel que veio na minha bandeja. Simples: sopa de letrinhas.