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Esqueci minha senha

"The key", Andrea Joseph
“The key”, Andrea Joseph

Fui fazer compras na internet e o site pediu login e senha. Eu, que um dia cadastrei-me ali e inventei um acesso, não me lembrava qual era. Mas são bondosos os sites, dando-me a chance de recuperá-los. Bastou clicar em “Esqueci minha senha” para, plim!, o código secreto surgir na minha caixa postal. É bom contar com a memória alheia, ainda que de uma máquina.

Quem dera fosse assim fácil restaurar as coisas deslembradas ao longo dos tempos, já que venho esquecendo não só senhas.

Esqueci, por exemplo, como fico de vestido curto.

Esqueci também como é não me preocupar com a barriga e usar tudo, tudinho que der na telha.

Esqueci o nome da senhora que vendia as cocadas mais gostosas do mundo na porta de casa, quando eu era criança. Em vez de “esqueci minha senha” eu queria, na tela do pensamento, a opção “esqueci o nome da senhora das cocadas”. Salivando, clicaria ali com a esperança de, nas redes sociais, localizar seus netos, quiçá bisnetos, apenas para lhes contar da minha cremosa, pedaçuda e doce lembrança.

Por falar no meu tempo de criança, esqueci como eram as férias escolares no final do ano, quando eu tinha três meses inteirinhos para fazer tudo ou nada, mais nada do que tudo.

Falando em não fazer, esqueci de ir à dentista este ano. Ano passado idem. A esta altura, doutora Fernanda desistiu de mim, arquivando-me, desesperançosa, nos casos de pacientes perdidos.

Por falar em paciente, esqueci, sobretudo, onde foi que perdi minha paciência. E essa, receio, não dá para reaver com um simples e-mail.

Ainda falando em escola, esqueci o que minha mãe mandava na lancheira. Penso nisso quase todo dia, enquanto preparo as dos meus filhos. Não para fazer igual, mas para lembrar como hoje tudo é diferente.

Esqueci também a receita do bolo Nega Maluca que ela fazia e eu cheguei a reproduzir, satisfatoriamente, por muitos anos. Há reminiscências que não podem mais ser acessadas, nem com senha. Certa vez, fiz de um jeito, não funcionou. De outra, mudei aqui, ali, e nem sombra do velho bolo.  Não arrisquei a terceira tentativa. Não quis uma saudade bloqueada.

Falando em saudade, esqueci o dia em que minha gatinha Doris Day morreu, depois de catorze anos conosco. Mas não esqueci o dia que a encontrei, miúda e faminta, no metrô Anhangabaú e a levei para o trabalho, escondida dentro da mochila.

Esqueci outro tanto de coisas: como é ter medo de ir mal numa prova, como é voltar de uma balada com o sol raiando, como é fazer uma entrevista de emprego. São lembranças vencidas. Não é preciso recuperá-las. Estou, a todo momento, criando novas.

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Chega de saudade

Ilustração: Sil Falqueto/Flickr.com

A amiga assinou a mensagem assim: Saudades, Fulana. Considerando a veracidade da expressão, o que, exatamente, correrá nas veias dessa saudade? Acreditando que não seja coisa para ser declarada em vão, que inspirações levam alguém a anexar a palavra em suas missivas, além do evidente sentimento? Nessa hora, qual som, imagem ou referência brota no grande cinema do pensamento, durante os segundos que se leva para escrevê-la?

Pode ser a voz do outro, com aquele jeito diferente de pronunciar Roraima. Ou a lembrança da (saudosa) maloca, compartilhada nos tempos de faculdade. Uma tarde de primavera, verão, outono ou inverno – qualquer estação, de ano ou metrô, onde bons encontros já tiveram lugar. A carona das quintas. O cigarro secreto dos tempos de colégio, com direito a risada boba e bedéu idem. O colo emprestado e jamais devolvido. Os presentes de aniversário embrulhados com laços de ternura. As horas-extras regadas a pizza, bocejos e piadas no escritório, madrugada adentro. Uma coleção, enfim, de instantes registrados e classificados como bacanas no relatório periódico da vida. Seria bom saber como funciona e do que se alimenta a saudade alheia. Mas saudade, às vezes, não mostra o RG.

Ontem, depois da mensagem, me peguei no quarto, definindo saudade enquanto pendurava de volta as cortinas recém-lavadas. Cortina é coisa que pouca gente se lembra de limpar. E eu lembrei das da sala, na casa onde nasci. Tinha mania de trepar nelas e balançar, para desespero da minha mãe. Logo que foram instaladas, critiquei: Estão curtas. Sabida era ela, que já previa as brincadeiras da caçula ou conhecia as características do tecido. Logo, elas estavam no comprimento ideal. Foi a breve saudade em cascata na tarde invernal, me fazendo despencar dos quarenta e quatro para os sete anos: casa, mãe, infância. Se eu fosse escrever para minha mãe, botaria saudade no começo, no meio e no fim, para não deixar dúvida.

Quem ama não mata, dizem. Não, no caso da saudade. Quem ama pode, e deve, dar cabo dela. Não é crime. Deixar de fazê-lo é condenar-se a um tipo especial de xilindró: o do coração apertado. Amor e saudade, aliás, costumam viver às turras. Se desentendem e vão deixando lembranças espalhadas pelo chão. Eu que não vou recolhê-las. No fundo, eles sabem: um não vive sem a outra.

Quanto à amiga, é um convite para o seu aniversário. Já respondi, claro que vou. Imitei a despedida dela ao final, e ainda incluí ‘muitas’. E eu, só eu, sei do que elas são feitas.

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Nota: para quem quiser deixar um comentário, é só rolar a página até láááá embaixo. Não sei porque o WordPress é assim, chatinho.

Crônica de minuto #30

Tenho me preocupado com os beijos. Aqueles, encomendados e jamais entregues.

– Mande um beijo para Fulano.

Pouca gente se lembra deles depois. São os beijos esquecidos. Os que aguardam delivery, atrasados em sua missão. Muitos vão se extraviando pelo caminho. Outros, desorientados, seguem beijando o vento, os rostos anônimos e as bocas distraídas.

Deveria existir nas cidades, a exemplo da seção de achados e perdidos, um lugar especial para acolher os beijos na mesma situação. Mas só os perdidos. Porque ninguém acha beijo na rua. Ou acha? E se acha, devolve ou fica para si? Beijo achado não é beijo roubado.

Quando se faz o pedido a alguém, “Mande um beijo”, está dada a ordem ao universo, que trata de criá-lo, à imagem e semelhança da lembrança. O beijo, então, em milésimos de segundos, toma forma, cresce e nasce, deixando para trás o útero insondável do pensamento. Se acaso não chegar ao seu destino, viverá sua vida de beijo pairando sobre o planeta, imigrando entre os países, aguardando o instante da realização. Que, no caso dos esquecidos, é nunca. E beijo órfão não é beijo feliz. Nem aqui. Nem na China.