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Refúgio

Arte: Marie W.
Arte: Marie W.

Há uma lei universal e implacável, sobretudo sacana, que estabelece: sempre que você sair mal ajambrada de casa – mesmo que não seja esse o seu hábito – , a probabilidade de topar, ainda que ao acaso, com um amigo ou conhecido, da categoria dos que adoram puxar papo, é imensa. Noutras palavras: é batata.

Ela avista a ex-colega de trabalho no supermercado, não se viam há anos. Feliz reencontro? Que nada. Ela está na pior versão de si, com praticamente tudo por fazer: cabelos, unhas. Nem um lapisinho aqueles olhos viram, desde o amanhecer. Corretivo para as olheiras? Não. Uma coerência mínima entre a parte de cima e a de baixo? Qual o quê. Em termos de aparência, no horóscopo do dia ela é lua fora de curso. Trombada solar. O próprio apocalipse. Não há outra opção, exceto a fuga.

Quem mandou acertar o relógio para despertar às 7 p.m., e não 7 a.m.? Quem mandou ceder aos caprichos do sedutor edredon, implorando por mais dez minutinhos de puro romance assexuado? Quem mandou escolher as primeiras peças da pilha de roupas para guardar, sem se preocupar se ornavam ou não? Quem mandou engatar uma tarefa após a outra, ao longo do dia, sem encontrar tempo para reconfigurar o prejudicado layout? Quem mandou ir naquele supermercado?

Quem nunca?

Fugir é a única alternativa. No entanto, nada há em casa para o jantar. Ela terá, então, de se esquivar, se esconder, se camuflar, fazer mimetismo com os vidros de palmito. Ou meditação transcendental expressa, para alcançar a iluminação, o desapego e a invisibilidade.

Ela vê, por uma fresta da gôndola, a colega escolhendo pão de forma. Trata de seguir para o corredor oposto, na seção de hortifrútis. A missão: sair do seu campo de visão. Caso contrário, a colega, de tão alegre, perguntará como ela tem passado e, dadas suas más condições, desnecessária será a resposta. Inquirirá o que tem feito da vida, se tem visto o pessoal, vai sugerir trocarem emails, se adicionarem no Facebook. Um constrangimento sem tamanho para quem não tem nem certeza se passou desodorante. Ela cogita largar o carrinho de compras ali mesmo. Quem precisa de tomates?

Fosse um encontro casual com a vizinha ou a mãe de um amigo do filho, nem tudo estaria perdido. Ela seria beneficiada pela convivência: “Puxa, normalmente ela não é assim”. Mas não. Posto que, assim como levou anos para reencontrar a colega, serão outros tantos até o próximo esbarrão n’algum canto qualquer da cidade. A colega levará consigo, definitivamente, sua imagem como a mulher mais relaxada, descabelada e mal-cuidada do universo. Em sua memória, a partir de então, um único arquivo estará disponível. Algo como um link permanente, incapaz de ser editado ou excluído.

O negócio é buscar refúgio no setor de ferramentas.

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Chega de saudade

Ilustração: Sil Falqueto/Flickr.com

A amiga assinou a mensagem assim: Saudades, Fulana. Considerando a veracidade da expressão, o que, exatamente, correrá nas veias dessa saudade? Acreditando que não seja coisa para ser declarada em vão, que inspirações levam alguém a anexar a palavra em suas missivas, além do evidente sentimento? Nessa hora, qual som, imagem ou referência brota no grande cinema do pensamento, durante os segundos que se leva para escrevê-la?

Pode ser a voz do outro, com aquele jeito diferente de pronunciar Roraima. Ou a lembrança da (saudosa) maloca, compartilhada nos tempos de faculdade. Uma tarde de primavera, verão, outono ou inverno – qualquer estação, de ano ou metrô, onde bons encontros já tiveram lugar. A carona das quintas. O cigarro secreto dos tempos de colégio, com direito a risada boba e bedéu idem. O colo emprestado e jamais devolvido. Os presentes de aniversário embrulhados com laços de ternura. As horas-extras regadas a pizza, bocejos e piadas no escritório, madrugada adentro. Uma coleção, enfim, de instantes registrados e classificados como bacanas no relatório periódico da vida. Seria bom saber como funciona e do que se alimenta a saudade alheia. Mas saudade, às vezes, não mostra o RG.

Ontem, depois da mensagem, me peguei no quarto, definindo saudade enquanto pendurava de volta as cortinas recém-lavadas. Cortina é coisa que pouca gente se lembra de limpar. E eu lembrei das da sala, na casa onde nasci. Tinha mania de trepar nelas e balançar, para desespero da minha mãe. Logo que foram instaladas, critiquei: Estão curtas. Sabida era ela, que já previa as brincadeiras da caçula ou conhecia as características do tecido. Logo, elas estavam no comprimento ideal. Foi a breve saudade em cascata na tarde invernal, me fazendo despencar dos quarenta e quatro para os sete anos: casa, mãe, infância. Se eu fosse escrever para minha mãe, botaria saudade no começo, no meio e no fim, para não deixar dúvida.

Quem ama não mata, dizem. Não, no caso da saudade. Quem ama pode, e deve, dar cabo dela. Não é crime. Deixar de fazê-lo é condenar-se a um tipo especial de xilindró: o do coração apertado. Amor e saudade, aliás, costumam viver às turras. Se desentendem e vão deixando lembranças espalhadas pelo chão. Eu que não vou recolhê-las. No fundo, eles sabem: um não vive sem a outra.

Quanto à amiga, é um convite para o seu aniversário. Já respondi, claro que vou. Imitei a despedida dela ao final, e ainda incluí ‘muitas’. E eu, só eu, sei do que elas são feitas.

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Nota: para quem quiser deixar um comentário, é só rolar a página até láááá embaixo. Não sei porque o WordPress é assim, chatinho.