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Já é paciente?

temperance

Liguei, queria marcar a consulta.

– Já é paciente?

Segurei o telefone no ombro, comecei a rabiscar a agenda.

– Ainda não – suspirei. Embora tente. Ontem, veja só, peguei pela frente uma senhora de chapeuzinho florido – quem usa chapeuzinho florido nunca tem pressa, reparou? – a dez por hora. Sem chance de ultrapassá-la, restou-me ir a dez por hora também. O quarteirão ficou interminável, menina. É verdade, colei um bocadinho na traseira dela, pressionei. Bufei, também. Mas não buzinei. Fui razoavelmente paciente. Chego lá. A não ser que na fila do fast-food a pessoa à minha frente (sempre elas; às vezes, acho que a solução para tudo neste mundo é eliminar, sumariamente, as pessoas à frente) resolva perguntar, em detalhes gastro-inquisidores, o que vem nos pratos, se é grelhado ou frito, a maionese temperada vai ovo?, é alérgico a ovo, batata sauté na manteiga ou margarina? E, apesar da rara boa vontade do atendente descrevendo o modo de fazer de cada coisa, como se apresentasse um canal de receitas no You Tube, a pessoa tudo ouve e solta um lacônico, mortal, indeciso Aaahn. Por que é tão difícil simplesmente pedir o combo número 3? Está bem, confesso: folheio revistas do fim para o começo, sempre dou uma espiadela nas últimas páginas dos livros quando ainda estou no primeiro capítulo, completo a frase de quem demora a concluir o pensamento. E já que estou contando isso, perco a paciência, sim, quando meu pai tenta colocar o cinto de segurança. É ele demonstrar um único sinal de dificuldade e eu assumo o comando, “Assim ó, click, pronto!”. A impaciência, descobri, é prima de segundo grau da solicitude. Mas não se bicam muito. A espera para quem não é paciente está muito grande? Não sei se você percebeu da outra vez que estive aí, tenho tatuada a palavra “paciência” em meu braço. O problema é que as pessoas ficam perguntando se tem funcionado, e geralmente eu não tenho paciência para ficar respondendo. Para ser honesta, não devo mesmo me orgulhar de meu estoque de paciência. Em especial com adolescências, velhices e lojas que querem fazer cadastro. Como na vida é preciso, em algum momento, lidar com as três, separadas ou juntas, como no meu caso, o jeito é treinar dia após dia, após dia, após dia. Sendo assim, posso dizer: sou paciente em progresso. E tenho genuína boa intenção. Prova disso é que esperei a Maria-Fedida botar seus quatorze ovinhos no batente da porta antes de passar com as compras do supermercado, apenas para não incomodá-la. O doutor há de levar isso em consideração. Tem horário para a semana que vem?

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Crônica de minuto #59

Quando eu era pequena, meu pai nunca mandava a gente colocar o cinto de segurança no carro. Porque ninguém usava cinto de segurança naquela época. Os carros vinham equipados, mas era um acessório inútil, condenado a permanecer intacto, enroladinho, exatamente como saíra da fábrica. O quanto viajamos no Fusquinha, todos tão soltos.

Quando meu pai entra no meu carro eu preciso, invariavelmente, pedir para ele colocar o cinto de segurança. Ele, que já foi motorista de táxi, nunca se lembra. Porque nunca usou. E sempre se atrapalha. Eu sempre fico irritada e tenho de ajudá-lo. Ele sempre reclama que o cinto deve estar com problema. Eu sempre peço a Deus que me dê paciência com quem tantas vezes me levou passear de carro.

Hoje eu sei o real significado dos três pontos dos cintos. Pai, filha e Espírito Santo.

Amém.

Baila comigo

arte: Shiko
arte: Shiko

Em tempos de desespero hídrico, paulistas, mineiros e fluminenses apelaram aos rituais mágicos para que a água retornasse às torneiras áridas. Entrou em cena a dança da chuva, a performance ancestral que promete eficácia na geração de torós.

Se o elemento água, artigo em falta nos canos do sudeste, pode ser trazido de volta com uma dancinha, por que não promover um grande baile nacional, quiçá mundial, a fim de evocar atitudes escassas, esquecidas, evaporadas com o tempo, levadas com o vento?

Uma dança da gentileza, por exemplo. Com precipitações abundantes de amabilidade para socorrer, entre tantas necessidades, o trânsito das pequenas, médias e grandes cidades. Só não é recomendável realizá-la na hora do rush, no meio da avenida.

Dança da paciência. Solitária, em par ou em grupo, para que escorra sobre cada um o dom da serenidade e da calma, a fim de melhor lidarmos com todos e tudo, de infâncias a velhices, de sofrimentos a injustiças, de chatices a arrogâncias. (Comigo, confesso, nunca funcionou; venho dançando há décadas, e ela ainda não deu o ar da graça por aqui. Talvez eu que não esteja fazendo direito os passos.)

A dança da tolerância, para alumiar mentes obtusas diante do diferente, e a dança da compaixão, até que ela, assim como o amor cantado por George Harrison, venha para cada um.

Sólidas ou líquidas, são muitas as coisas faltantes neste mundo. Invente a sua coreografia, e bote todo mundo na roda. Os deuses responsáveis hão de se sensibilizar. “Dance bem, dance mal, dance sem parar”.

Não custa tentar.

Tratado geral e incompleto da paciência

Foto: Mario Gomes Maestre
Foto: Mario Gomes Maestre

A paciência de esperar crescer a unha que quebrou no cantinho, fazendo doer a carne, é a mesma de aguardar o girassol dar flor, para se tirar uma foto bem bonita e colocá-la como papel de parede na tela no computador.

A paciência de esperar seu pai de oitenta e um anos colocar o cinto de segurança no carro é a mesma de aguardar sua filha de seis pentear e arrumar os cabelos para ir à escola. (Ele esperou setenta e cinco anos pela neta. Nunca reclamou.)

Paciência não é garrote, para ser laçada à força, contra a vontade. Paciência não se aprisiona, ela tem que querer vir com a gente. Feito gato. E há que ser conquistada, diária e romanticamente, num exercício eterno. Ficar no corpo feito tatuagem, habitar a hipoderme, invadir a entranha mais entranhada, para que de lá irradie sua essência aos pontos cardeais do corpo, do dedo mindinho do pé ao fio de cabelo que acaba de nascer, dos ouvidos à ponta da língua. Só assim.

A paciência de suportar a delonga do freguês à frente ao fazer o pedido no fast-food, enquanto analisa o cardápio inteiro e faz perguntas esparsas ao atendente, é a mesma de esperar a velhinha de perfume adocicado e levemente confusa tirar um extrato no caixa eletrônico.

A paciência de permitir às formigas em fila indiana atravessarem a pia antes de você abrir a torneira é a mesma de esperar seu filho escrever no caderno a palavra “elevador”, caprichando no ‘a’ e perguntando se a barriga do ‘d’ é para a direita ou para a esquerda.

Paciência não vive de aluguel. Só mora em casa própria.

A paciência de chegar ao fim do livro pela ordem natural das páginas é a mesma de aportar ao cume da montanha no fim do mundo, sem valer-se de atalhos. A mesma de aquietar-se no inverno do sinal vermelho para esperar a primavera do sinal verde. Paciência é a contemplação de toda obra em progresso.

A paciência é virtude generosa. Aceita, compreende e perdoa até mesmo a mais mentirosa das urgências.

É bom possuir alguns tipos de paciência ao longo de uma vida. Impaciência causa a má digestão do dia. Eu reúno poucas, em meu breviário de anos. A despaciência é meu arquivo corrompido, minha ‘page not found’, meu defeito de nascença que impede, inclusive, que eu complete este ensaio. Aprendo a lição todo santo dia, mas volto para casa cheia de correções para o dia seguinte. Assim não passo de ano. E para quem é reprovado em paciência, os anos novos não chegam, nem bastam. Fim.

A insustentável leveza da faixa de segurança

Arte: Johanesj

A garotinha de presumidos três anos atravessa a rua de mãos dadas com sua mãe presumida, na faixa de presumida segurança. A mulher, com pressa, muita pressa. A garotinha, pressa alguma. Tanto que inventa, nos quinze segundos de travessia, sua brincadeira particular: só pode pisar nas faixas brancas. O que, devido ao tamanhico de suas pernas, é um exercício e tanto. Lá vai ela, caprichando nos pulos, determinada em seu objetivo, rindo gostoso entre um salto e outro. A mãe, constrangida, tenta, em vão, abreviar a história. Quase leio o apelo em seus lábios, “A moça quer passar!”.

A moça – eu – quer mesmo passar. Estou atrasada (quando não?). A verdade é que não há como não deixá-las em paz. Como motorista, meu dever de dar preferência ao pedestre só não é maior que meu direito de curtir a cena.

Faço sinal para a mãe, “Relaxa”. Ela entende; mães são telepáticas. Não que eu seja boa nisso o tempo todo (pelo contrário) mas, naquele instante, os significados de urgência e importância, e a sempre duvidosa relação que transita entre ambas, ganharam clareza instantânea e inabalável.

O parentesco – mãe e filha – é adivinhado, posto a tipicidade do comportamento, digamos, repressor. Fosse madrinha da garota, esta não só a autorizaria pular à vontade, como talvez entrasse na brincadeira. Mas a pai e mãe parece não ter sido concedido o dom da paciência; só a segurança branca do relógio lhes sustenta.

A pressa ignora o universo da leveza. A espera o contempla. Feitos de pressa, somos a ignorância em forma de átomos de carbono.

As duas alcançam o outro lado da calçada. A mãe agradece o inagradecível. A garotinha não quer nem saber, já procura mais coisas para fazer.

Busco no retrovisor o reflexo dos rostos de meus filhos. Vem a insegurança: levarão eles consigo, vida afora, a lembrança das tantas faixas brancas não-brincadas?

Tão simples, ser mãe do filho dos outros.

Café com paciência

Ilustração: DesEquiLIBROS/Flickr.com

Na praça de alimentação, com a cria. Ele tem sete e ela, quatro. Enquanto brincam e se esbaldam com seus sorvetes, vejo meu cappuccino sendo tirado à perfeição. Deliciosamente perfumado, estalando de cremoso. Não chego a prová-lo, porém. O mais velho se aproxima, saltitando. Levemente desesperado, avisa:

– Cocô.

Se o moço do quiosque se chamasse José, seria de grande valia. “E agora, José?”, eu recorreria. Mas ele não é o José, aquele do Drummond. É o Artur. E no crachá do Artur, que não leva jeito de rei, nem de pai, está escrito “Em treinamento”. Bobagem alimentar alguma expectativa de que parta dele uma ideia brilhante para me ajudar a resolver a parada. Nenhum sopro de compaixão para com uma pobre mãe, não em dificuldades – posto que o episódio não é novidade e sempre se repete lá pela quarta garfada ou, raras vezes, na sobremesa –, e sim, em total desolação. Adeus, cappuccino. Artur, que está em treinamento, por certo não concordará em guardar nossas coisas por cinco minutos. Dez, para ser honesta. Crianças, principalmente em banheiros públicos, são altamente influenciáveis. A mais nova, vendo tudo, ficaria com vontade também. Processo em dobro.

Ainda que o Artur topasse, gentilmente, fazer a guarda da nossa mesa, o cappuccino, frio, se tornaria uma bebida imprestável. Os sorvetes, irreconhecíveis, não passariam de uma meleca morna e indeglutível. O jeito seria fazer um novo pedido. Filhos, está provado, dão despesa.

Procuro recordar-me dos treinamentos gerenciais do passado, ensinando técnicas de liderança, persuasão e tomada rápida de decisões. Desconfio que a verdadeira utilidade desses cursos se revela na maternidade. E não, necessariamente, nos negócios. Avalio a situação:

– Você tem certeza que não dá para segurar um pouquinho?

Crianças não têm noção muito sofisticada acerca do tempo, ainda mais quando estão apertadas para ir ao banheiro. Não são capazes de calcular o real tamanho de suas vontades, relativizar ou contextualizar. Engatinham em autocontrole, são aprendizes na arte da espera e, ao mesmo tempo, mestres da urgência. Simplesmente querem, e é para já. Sobretudo, não conhecem o prazer de degustar, em paz, um bom cafezinho após o almoço.

– Não dá, mãe.

Filhos são nossos melhores professores de paciência. Olho em volta. Não há como escapar dessa aula. Onde é que fui amarrar minha égua?

Resta tentar um acordo com o sorveteiro novato. Não para o cappuccino, que esse foi para as cucuias, mas com os sorvetes. Estão inteiros, bem que podem retornar à geladeira até a nossa volta.

– Artur, você quebra meu galho, e eu elogio você para o seu chefe. É pegar ou largar.

Lições da Dona

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

A receita diz para deixar a massa descansar por trinta minutos. Acho engraçado. E massa lá fica cansada? Só gente e bicho é que carece de descanso, aprendi assim. “Não é isso, querida”, segreda baixinho Dona Benta – a própria, do livro. Ela conversa comigo: “Para ficar pronto, tudo precisa, antes, de certo repouso. Mas isso não vem escrito nas receitas”. Cá estou, ouvindo livro falar. Livro, não; a autora dele. Bem diferente.

“Feita de farinha, água e fermento, a massa que descansa não está à toa na vida, vendo a banda passar. Está se preparando. Se arrumando, bem bonita, para virar pão. Esse é o destino da massa. Se for ao forno antes da hora, não cresce direito. O pão fica feio, embatumado. Só passarinho é que vai gostar. Por outro lado, se passar da hora também estraga. Mas é a espera, o descanso, que garante que sua sina seja cumprida. Com gente é mais ou menos a mesma coisa, já percebeu?”. Me pega de surpresa, essa senhora. Só estou tentando fazer um pão para o lanche. Mas ela não para: “Gente precisa saber o seu tempo de descanso. Isso é simples. O relógio da Terra está sempre certo, é só ajustar o seu de acordo com ele”. E eu, achando que a Dona Benta só entendia de comida.

O relógio do meu avô estava sempre certo. Ele costumava fazer a sesta. Depois do almoço, chupava uma laranja e ia se ajeitar na poltrona. Recostava-se e punha uma almofada atrás da cabeça. Cruzava os braços e tirava sua soneca, sentado mesmo. Preparava-se para os afazeres da tarde, que não eram poucos. Inventar traquitanas para facilitar a vida da minha avó, alvejar sacos de algodão para fazer panos de prato, buscar cimento no carrinho de mão. Os três pilares fundamentais: alimento, descanso e movimento. Não entendia por que não se deitava de uma vez. Nunca perguntei, então, ele nunca respondeu. Hoje sei: o descanso do dia não deve ser igual ao descanso da noite. Meu avô, que sabia disso, viveu quase cem anos. O descanso sagrado, mais a mania de subir no telhado feito gato, por certo ajudaram na sua longevidade. Eu, que não faço sesta, nem subo no telhado, devo ser forte candidata a uma vida breve.

“Já acendeu o forno, querida?”, a quituteira quer saber. Ih, esqueci. “O que está esperando? Papai Noel?”. Engraçadinha, a velhota. Corro com os fósforos. Em silêncio, na tigela sobre a pia, a massa parece meditar. Sabe de sua missão, que é ser pão. E espera, pacientemente.

Deus, dizem, só descansou no sétimo dia. Não acredito. Fazer mundo é trabalho dos mais penosos. Duvido que, assim que inventou os dias, não tenha feito a sesta, como meu avô, antes de continuar a criação. Além do mais, universo não tem fim. Há sempre alguma coisa para ser criada ou consertada. Meu avô pensava assim. Começo a entender o negócio da imagem e semelhança.

Fecho o forno, guardo o livro e os mantimentos que espalhei pela cozinha. No relógio cinza e branco que, aliás, pertencia ao meu avô, marco o tempo. Agora ele está sincronizado com o da Terra. Como Dona Benta ensinou. Ela deve ter ficado triste comigo, não lhe dei muita bola. O que ela não sabe é que prestei muita atenção a tudo que ela disse. Tudinho.