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Eu, panfleteira

jeans

Omiti de meus empregadores, ao longo da vida, importante experiência profissional. E só agora me dei conta. Não está no curriculum vitae, nem na minha página do LinkedIn. Eu mesma já a havia apagado de meu portfólio mental de realizações. Lembrei dia desses, quando uma garota veio entregar folhetos no semáforo.

Desci o vidro. Apanhei o papel, novos apartamentos na cidade. Deitei os olhos sobre ela, enquanto o sinal não abria. Cabelos longos, pretos, magrela – “pau de virar tripa”, diria minha avó. Vi-me nela, trinta e cinco anos atrás. Sim, eu já fiz panfletagem nas ruas de São Paulo.

A amiga do colégio, parceira de pequenas, médias e grandes aventuras, arrumara um bico para nós duas. A gente não queria umas roupinhas novas? Trabalho para depois das aulas no Liceu, à tarde. Coisa tranquila. Ou nem tanto.

Apresentamo-nos na data e hora combinadas, munidas de tênis confortáveis. Sobre os planos da minha amiga não sei, mas eu tinha um objetivo claramente definido: queria comprar uma calça Levi’s.

O serviço era, basicamente, espalhar folhetos pelo bairro. Casas, carros estacionados, padarias, lojas. Um por vez. Sim, senhor. Não pode jogar no chão. Sim, senhor. Nenhum folheto sobrando no final do dia. Sim, senhor.

Primeiro quarteirão. Quilos de folhetos nos braços. O bairro de Santana, de ônibus, parecia mais plano. Mas eu estava radiante. Inserida no mercado de trabalho, ganhando meu próprio dinheiro com o suor do rosto que, literalmente, começava a brotar. A Levi’s esperava por mim.

Com disciplina militar aliada ao esmero feminino, seguíamos caprichosamente depositando os folhetos nas caixinhas de correspondência das residências, nos para-brisas.

Segundo quarteirão. Os folhetos pareciam ter se multiplicado, em peso e tamanho. De quê eram, jamais me lembrarei. Deixando o capricho de lado, passamos a enfiá-los, do jeito que dava, nas grades dos portões e sob os limpadores dos carros.

A timidez nos levou à primeira não-conformidade na execução da tarefa: com vergonha de adentrar as padarias e lojas para deixar os folhetos, fizemos breve reunião de equipe na calçada e resolvemos eliminar essa etapa do roteiro. O que nos fez andar mais. Quis desistir. Mas tinha a Levi’s.

Terceiro quarteirão, ladeira acima. Descobrimos que se fossem dois folhetos por para-brisa, terminaríamos antes. Quem perceberia?

Quarto, quinto, sexto quarteirão. Os folhetos não acabavam. Ganhavam vida em nossos braços. Agora eram cinco em cada portão, dez em cada para-brisa. Sétimo, oitavo, nono, décimo. Pra quê portão? Era só atirar os folhetos nas garagens, os moradores veriam do mesmo jeito.

Exaustas, dobramos a esquina e avistamos um cesto de lixo. Bastou um olhar entre nós. Anjos empoleirados nos muros ao longo da rua, todos vestidos com Levi’s, trombeteavam o final do expediente.

Dia seguinte, fomos acertar o pagamento pelo dia anterior e rescindimos unilateralmente o contrato de trabalho. Minha alegação: aos dezesseis anos, não tinha perfil para a função. Não estava alinhada com a filosofia da empresa. Queria novos desafios, sobretudo que não me fizessem andar tanto. A Levi’s ficou para depois.

Cinco anos depois daquela tarde de panfletagem, já na faculdade, consegui um estágio remunerado. Que fiz com o primeiro salário? Torrei num jeans.

A garota do sinal ofereceu seu folheto ao motorista do carro azul, que recusou com gentil aceno. Determinada, investiu no carro de trás, que também declinou. Sorrindo, fez nova tentativa com o táxi ao lado, que aceitou. A persistência é uma calça velha, azul e desbotada.

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O preço do dinheiro

Ilustração: João Pedro C. de Oliveira/Flickr.com

O primeiro salário que recebi na vida eu gastei inteirinho numa calça jeans. Adquirida, inclusive, no dia do pagamento. Ou seja, restaram apenas alguns trocados na minha conta bancária recém-aberta, e eles deveriam durar por mais vinte e nove dias. Mal davam, porém, para meia dúzia de passagens de ônibus. A boa notícia: eu não dependia deles para viver. A má: eu estava completamente enganada. Ou vice-versa.

A construção da minha relação com o dinheiro remonta à primeira infância. Certo dia, apareceu no portão de casa um rapaz vendendo bichinhos de pelúcia. Eu estava só, numa época em que isso não constituía infração ao estatuto da criança. Eu o atendi; ele tinha uma tralha interessante. Os bichinhos, um mais feio que o outro, fizeram meus olhos brilhar. Menina educada, expliquei que não tinha dinheiro. O moço perguntou qual deles eu havia gostado. O ursinho, claro. Malandro, ele propôs: eu não tinha algum objeto de valor para trocar? Uma jóia, por exemplo. Mas claro que tínhamos jóias! A gaveta de mamãe estava cheia delas. Pedi um minuto. E voltei com um par de brincos de ouro com água-marinha, prontamente trocados pelo ursinho cinza. Um escambo bem safado: recheado de jornal, o urso se desmantelou no dia seguinte. Os brincos eram modestos, mas valeriam pelo menos dez daquele brinquedo fajuto. Levei duas broncas: por ter recebido um estranho e por ter feito um péssimo negócio. Quanto à segunda, tenho dúvidas se aprendi a lição. Difícil mesmo foi aguentar as piadinhas em casa.

A calça jeans nem era tão bonita assim. Mas o raciocínio raso e curto – “eu podia pagá-la” – prevaleceu. Apesar de adulta, eu não tinha noção do quanto custava, por exemplo, manter uma casa. Hoje sei que meu capricho representou quase a metade da mensalidade da faculdade, e foi por causa dela que eu entrei no mercado de trabalho já de forma privilegiada. Às vezes, os pais pensam que estão fazendo algo de bom aos filhos, ao poupá-los de dividir as despesas da casa quando começam a trabalhar, mas não estão. Preciso me lembrar disso mais tarde.

Na minha rua tinha uma lojinha de bugigangas. Jane era a dona, moça bonita dos cabelos longos. Virei sua amiguinha, de tanto que eu aparecia por lá para ver as novidades. Uma vez, cheguei em casa com anéis e pulseiras novos. Meu irmão estranhou, quis saber de quem eram. Respondi: “A moça da loja deixou trazer, depois a mamãe passa lá para acertar”. Não foi bem o que aconteceu: tive que devolver tudo, e ainda explicar o porquê à Jane. Outra lição, esquecida anos mais tarde quando fiz meu primeiro cartão de crédito.

Ao assinar o cheque da calça – praticamente um salário-mínimo da época –, as lições aprendidas no passado não ecoaram na consciência. No fundo, percebi que não era interessante receber salário e ele acabar no dia seguinte. Tratei de usar o jeans todos os dias, para que a aquisição valesse a pena. O efeito foi contrário: a todo instante eu me dava conta do pecado fashion que havia cometido. Pensa que me emendei? O segundo salário eu torrei numa bolsa.

Luca, seis anos, sobre o preço das coisas: “Mãe, para Deus tudo deve ser barato”. Ficou pensativo e completou: “Ele deve poder levar tudo de graça!”. Uma das coisas mais interessantes no longa-metragem da vida é o revezamento dos papéis. Agora era minha vez de ensinar. Justo eu, que tão pouco aprendera a respeito. Reparei, no entanto, que a questão ali era outra. O que facilitou um bocado: “Deus não tem dinheiro, filho. Ele não precisa.”