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Encontro vocálico

Foto: Allison Fontaine-Capel

Nina vem mostrar a lição de casa: tem que pesquisar seis palavras com encontro vocálico. Não está nada contente. Está bem chateada, aliás. Diz que vai demorar muito, que é uma trabalheira, que é muito difícil e não conseguirá achar nenhuma nas revistas espalhadas sobre sua escrivaninha. Ela não sabe, mas só na sua ladainha já foram cinco encontros vocálicos.

Olho-a bem dentro dos seus olhos castanhos.

Devo lhe dizer que eu daria tudo, mas tudo mesmo, para que, no dia de hoje, sendo o que sou e estando onde me encontro, minha máxima obrigação consistisse em rastrear uma revista, localizar meia dúzia de palavras, recortá-las e colá-las num caderno?

Devo contar o quanto me faria feliz gastar o quê?, dez minutos numa tarefa, para em seguida estar absolutamente livre para flanar pela casa, ver TV, brincar com os gatos, ir ver se tem algum amigo na rua, ou, se assim eu quisesse, livre até para – veja só – ir dormir às oito e meia da noite sem dar satisfação, ou sequer precisar passar os olhos na agenda para planejar o dia seguinte?

Talvez, no fundo, seja minha missão maior lhe dizer que, ao longo da vida, ela topará e terá que lidar com toda sorte de encontros vocálicos. Uns bons, outros nem tanto, mas todos essenciais. Ditongos, tritongos, hiatos: patrão, angústia, saudade, dieta, doença, viagem, paixão, separação, alegria, desilusão, cefaleia, salário, solidão, frio. Bem mais que a meia dúzia que ela precisa recortar para amanhã. Não adianta explicar o futuro a alguém com menos de um metro e trinta e dentes de leite.

Ou devo apenas lhe dizer, como boa, assertiva e focada mãe, que ou ela pega firme na lição ou não tem Chiquititas depois?

Conheci o pai dela em uma noite de verão. Foi nosso primeiro encontro vocálico, ainda que não soubéssemos disso. Trocamos telefones, nos falamos dias depois, combinamos de sair. Um longo passeio foi nosso segundo encontro vocálico. Começamos a namorar, moramos juntos e nos casamos. Mas não noivamos e a cerimônia não teve véu, nem marcha nupcial; pulamos todos esses encontros vocálicos. Daquela noite de verão em diante surgiriam duas pessoas, seu irmão e ela. E, de lá pra cá, entre ele e eu, tem encontro vocálico toda hora. Bom dia, tchau, como foi o trabalho, me dá um beijo, boa noite. Nosso derradeiro encontro (ou será desencontro?) vocálico há de ser a viuvez, minha ou dele. Nossa lição de casa estará feita.

Nina vira a página e se anima. “Olha, mãe: ‘estação’!”, diz, caprichando na sílaba tônica. Enquanto recorta a palavra da página, pergunta em qual estamos. Respondo: outono.

Vê, filha? Encontro vocálico é o que não falta nessa vida de meu Deus.

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Síndrome da lição de casa

Arte: Michael Whitehead

Vertigem. Taquicardia. Náuseas. Ansiedade. Desespero. Não, não é a descrição de um episódio de síndrome do pânico. Sou eu, fazendo lição com meus filhos.

A aversão das crianças ao dever de casa é milenar, ancestral. Claro que elas preferem brincar lá fora ou assistir TV, a ficar debruçadas sobre os livros, aprendendo coisas cuja utilidade, ao seu ver, é questionável.

A lição surge como um monstro a assombrar seu tempo livre, semelhante aos assustadores seres sob a cama. Pais e mães, no afã de lhes proporcionar alguma educação, se tornam malévolos algozes, carrascos insensíveis, ao exigir-lhes insensatezes como sentar-se direito na cadeira, não abrir o apontador de lápis no tapete e iniciar as frases sempre com letra maiúscula. Não pode haver benefício educativo com tanto “Apaga e faz de novo”, “Olha o acento”, “Não fura a borracha com o lápis, menino!”.

Os sintomas da síndrome da lição de casa, que acomete genitores estressados, entram em ação na chegada da escola, com a temida frase “Tenho tarefa!”. Num crescente, a angústia se instala e, no meu caso, quando me dou conta, já são dez da noite e ainda falta o dever de ciências. Onde se compra Rivotril sem receita?

Mistérios insondáveis rondam o “para casa”. Quando é para recortar de revistas objetos começados com “a”, todos os objetos com “a” desaparecem das páginas. Idem para todas as outras letras.

É para mandar uma garrafa pet vazia até amanhã? Não há nenhuma em casa. Sendo que, semana passada, você enviou três para o reciclável.

Se a atividade pede uma biografia, o trabalhoso não é a pesquisa; é argumentar com o aprendiz por que ela deve ir além das datas de nascimento e (se é o caso) morte da pessoa. No ensino fundamental, escrever dez linhas inteirinhas está fora de cogitação. Principalmente, se o programa preferido na TV começa em quinze minutos.

Em casa, matemática – razões evidentes – é com o pai. Que leva vantagem, o mais velho é fera nos números. Faz os exercícios rapidinho, pula etapas do cálculo, que ele considera dispensáveis. Não puxou a mim. Sorte dele.

Já Português é departamento da mamãe aqui. Levo, apesar da familiaridade, significativa desvantagem: embora criativo, ele não gosta de escrever, é econômico nas redações, quer logo se pirulitar e ir jogar bola. Resmunga, chora, xinga, atira-se no chão no melhor estilo chilique-de-supermercado. A tatuagem em meu braço (“paciência”) não tem serventia alguma nessa hora, parece ter sido removida com uma espécie de laser imaginário.

A lição de casa, na verdade, é minha. Careço aprender, nas entrelinhas da pedagogia, que filhos não vêm prontos. São obras em progresso. E na maternidade, não tem decoreba. Nem dá pra colar.