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Os estranhos

“Silêncio”, Paris, 2014 – Simone Huck

 

Eu tenho.

Você também.

Todo mundo tem.

No álbum de fotografias daquela viagem a Paris. Ou Foz do Iguaçu. No registro, feito pelo garçom mal-humorado, da turma reunida na pizzaria, ano passado. Na foto tirada pelo celular na festa junina do seu filho.

Lá estão eles: os estranhos.

Os desconhecidos que participam das suas fotografias e são adicionados às suas recordações. Pessoas que você não sabe e nunca saberá quem são. Um exército de incógnitas humanas marcando presença na sua intimidade. Coadjuvantes do acaso. Interferências imagéticas eternizadas no enredo da sua vida. Gente que habitou o mesmo cenário que você, no instante da imortalização de um fato.

É quase impossível evitá-los, vêm junto com o clique.

O casal que também curtia a lua de mel e algum frio sob o Arco do Triunfo. Ou Usina de Itaipu. A criança irrequieta, e por isso ‘borrada’, na mesa ao lado da sua, na pizzaria. Os padrinhos da parceira do seu filho, em pleno momento tietagem depois da dança de quadrilha.

Quem é essa gente toda? Que histórias de vida têm, o que faziam ali, onde estão agora?

A mulher gorda e incompleta no canto esquerdo daquela foto do seu ex, no parque. Ventava naquele dia, o cabelo dele desalinhou. Um ano depois, o namoro também.

A turma atrás de você na fila da montanha-russa. Pelos traços e cor dos cabelos, ao menos dois são irmãos. Será que você também está no álbum deles? Seus cabelos, talvez.

O homem só, de costas, na escadaria da igreja escolhida por você para plano de fundo da última foto do último dia das suas férias. Que ano, mesmo?

E todos os fragmentos de corpos e objetos, cabeças, pés, mãos, bolsas. Centenas de recortes de vidas mescladas, por um átimo, à sua. Para sempre.

No instante congelado, há quem estabeleça afeto com o estranho de suas recordações. O amigo confessou que, em seus sonhos mais secretos, ainda nutre esperança de reencontrar a moça de cabelos vermelhos cujo rosto ele só sabe os olhos. Verdes? Acidentalmente, ele a registrou comprando postais, no por-do-sol mais lindo que já houve. Piazza Catullo, Riva Del Garda, Itália, outono de 1997 – para o caso de alguém ter alguma informação.

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O primeiro beijo

Arte: Hsiao Ying

Meu primeiro beijo romântico, aos doze, foi isto: uma porcaria. O menino era da escola, daqueles que eu via aqui e ali, em frouxa convivência. Um dia, ele apareceu em casa. Tocou a campainha, desci as escadas para atendê-lo. Trocamos meia dúzia de frases compactas, conforme o esperado para a pouca idade. Quando dei por mim, estava beijando no portão. Não foi beijo dado, nem roubado. Foi beijo acontecido.

Por muito tempo, cobrei-me não ter tido um primeiro beijo especial como os das amigas e seus relatos encantadores. Em geral, os primeiros e primeiras, o que quer que sejam, costumam carregar, injustamente, um fardo: a obrigação de serem mágicos, perfeitos, inesquecíveis. Nem o amor à primeira vista dá garantia de felicidade, tampouco de eternidade. E as amigas, até as melhores, costumam inventar.

Meu primeiro carro, aos dezenove, não ficou escondido na garagem, enfeitado a laço, e eu não fui conduzida até ele de olhos fechados, para não estragar a surpresa. Foi um Fiat 147 (troco em um negócio do meu pai) caindo aos pedaços, cuja palheta do para-brisa saiu voando quando precisei usá-la num dia de chuva. A primeira vez no sexo também não foi nenhuma maravilha, posto que o rapaz era, antes de tudo, meu amigo. O primeiro emprego, ah!, esse é preciso confessar: teve o charme da estreia e está num bonito porta-retrato da memória. Foi no Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga. Viver os bastidores do lugar que abriga a história do país, com acesso privilegiado, valeu cada hora de estágio. O primeiro salário, porém, não foi dedicado a nenhuma causa nobre, como pagar um jantar para os amigos ou ajudar os pais nas despesas do mês e, sim, torrado inteirinho numa única calça jeans.

Desajeitada, eu não queria continuar o beijo. Primeiro – e óbvio – motivo: não estava bom. Segundo, o medo de ser pilhada em flagrante. Um ato secreto e proibido como aquele não deveria ocorrer em território tão doméstico. Terceiro, não era daquele jeito que eu havia sonhado. Se é que sonhara. Às vezes, a gente sonha que sonhou. Primeiro beijo é feito de espera, susto ou sabor. O menino foi embora, razoavelmente decepcionado. Nunca soube se também era o seu primeiro. Ficou o beijado pelo não-beijado.

O que fazer com um beijo pioneiro absolutamente esquecível? Ele não foi, sequer, importante para os beijos que vieram depois. Não estudo mais naquela escola, não moro mais naquela casa e não sou mais colega do menino. E não tenho mais doze anos. Certos eventos não valem nem como experiência, ficam velhos, padecem e morrem. Servem apenas para risadas futuras. Ou para ilustrar histórias despretensiosas n’algum blog por aí.

Vida e morte de uma redação

Ilustração: Darlene Carvalho/Flickr.com

Começo assim: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento tolo”. Paro e leio o que acabo de escrever. Já vi vento fresco, mas tolo? Troco por ‘bom’. Continuo: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade”.

Carece agora explicar o que aconteceu. Falar, de modo breve e econômico, sobre o rapaz da história, que não era fresco, nem tolo, nem bom, mas que abandonara a mocinha, narradora, na véspera de seu casamento. Devo ser ousada nesta hora, o enredo é batido. Pior: não sei direito o que uma mulher sente numa hora dessa. Rôo as unhas e rascunho no canto da página: “Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade. Nenhuma paz restará enquanto essa noite assustadora fria [assim ficou melhor] me acompanhar”.

Até que está bonito. Bem ao gosto da melancólica professora que, dizem, terminou com o namorado. Vai chorar até. E eu ganho nota máxima. Ou um zero bem redondo, dependendo do estágio do luto. E do nível da caixa de lenços de papel em cima da mesa. Meia hora para entregar. Vamos lá, força na caneta.

“Então ele se foi, tão rápido quanto um vento bom. Deixando, em mim, a sombra do que eu aprendera a chamar de felicidade. Nenhuma paz restará enquanto essa noite fria me acompanhar. Eu, que aceitara viver com ele pelo resto dos meus dias, lhe acompanhando numa eterna contradança no salão das nossas vidas, agora me via condenada a um triste solo”.

Agora ficou meio bobo. ‘Salão das nossas vidas’?

“Então ele se foi (…) Eu, que aceitara viver com ele pelo resto dos meus dias, lhe acompanhando num eterno pax de deux, agora me via condenada a um triste solo”.

Faltam dez minutos. Eu deveria ter escolhido outro tema. Bomba atômica, Copa do Mundo, Rock in Rio. Não sirvo para escrever histórias românticas. Como é que eu saio dessa?

A morte há de resolver a parada. Mato todo mundo: ele num acidente de carro; ela, de bala perdida. Tudo numa prosa bem parnasiana. Vão os dois para o quinto dos infernos, e eu me livro, em três linhas, de perpetuar a bobajada.

Passo a limpo, entrego a redação, não encaro a professora. A caixa de lenços está vazia. Danou-se.

A lista

Ilustração: SteTop/Flickr.com

Eu já me apaixonei uma centena de vezes. E comecei cedo no negócio. Tinha até lista de namorados, registrada pela irmã mais velha. Com cinco anos de idade, eu ainda não dominava o alfabeto. Namorado, a bem da verdade, era modo de dizer. A lista, composta basicamente dos moços bonitos das redondezas (na minha infantil opinião), também incluía celebridades midiáticas. Não sei de onde tirei a ideia de ter tantos affairs, simultaneamente. Ingênua e perdoada poligamia.

Com 32 nomes, a lista original era encabeçada pelo Leão. O goleiro da seleção de futebol nos anos 70. Por causa das pernas, deixei claro. Em segundo lugar, aparecia o Sérgio Chapelin, apresentador do Jornal Nacional na mesma época, e do Globo Repórter nos dias de hoje. Acreditem: ele era um gato. Mais tarde, Chapelin perdeu o posto para Carlos Campbell, outro apresentador bonitão de telejornal. A irmã que fazia o inventário de amores conta que eu beijava a tela da TV cada vez que um deles aparecia. Nem reality, nem show. Aquele era meu treino afetivo.

Na sequência vinham, talvez não nessa ordem: o moço do açougue, o rapaz que aplicava injeção na farmácia, o marido da vizinha e seus dois irmãos. E tantos outros, cujos nomes e rostos se perderam na barafunda da memória. Boa parte deles sequer sabia dos meus sentimentos-mirins. Para os que me conheciam, ainda que de vista, eu era apenas uma garotinha engraçadinha da vizinhança. Os tempos eram outros. E ganhar uma bala de um conhecido mais velho não levantava suspeita de nenhuma espécie.

A lista se renovou ao longo da infância e adentrou a adolescência. Jogadores e jornalistas já não faziam mais tanto sucesso no meu coração. Era a vez dos garotos de carne e osso do bairro e, principalmente, os amigos da irmã liderarem a lista. Tirando meu sono, arrancando meus suspiros. O objeto do amor, finalmente, saíra das telas para a vida real. O que não fez tanta diferença, quase nenhum dos pretendidos queria saber de mim.

Cresci, a lista encurtou. Nada de dezenas de nomes. Agora era apenas um por temporada. Ator de seriado norte-americano, vocalista de banda inglesa, psiquiatra badalado (com consultório perto de onde eu trabalhava, para azar das colegas que eram obrigadas a passar em frente ao prédio todo dia), professor de inglês e até palhaço de programa infantil. De tudo, um pouco. A reduzida lista resistia, carimbada pela primitiva essência: a paixão platônica light, sem maiores intenções e por vezes alimentada só de diversão, agora convivendo pacificamente com os namoros de verdade, com seus sujeitos e predicados.

Namorei muito. Mas minha lista, hoje, é de um nome só. Também escrito numa folha de papel. Papel passado, como se diz. No Dia dos Namorados, só um presente. Bem melhor assim.

O fio da antiga meada – III

Está mais do que na cara. Gosto mesmo de gatos. E não é de hoje. Na sessão flashback do blog, outro texto da pasta vermelha para vocês. Escrito em 1992, aos 25 anos. Sonhando com amores, príncipes encantados e coisa e tal. Em tempo: Doris, a destinatária desta espécie de carta, viveu conosco por quinze anos. Encontrei-a, ainda filhote, abandonada numa estação do metrô. Naquele dia, ela foi comigo para o trabalho, escondida dentro da mochila. Difícil foi convencer o chefe que não havia gato nenhum ali.

Ilustração: Marina Cuello/Flickr.com

Doris

Viaja no tempo, a tempo de trazer de volta o desenho que fiz dele enquanto dormia. Vai, minha gatinha. Cruza qualquer oceano e grita, de onde estiver, caso ele esteja lá. Mergulha e volta breve para me abraçar, porque estarei triste.

Torna a voar, com asas de pelo e mel; avisa se o vir pelo ar. Mas volta tranquila, se nem assim o achar. Doce gatinha, precisava te contar. Anda até antes de tudo para achá-lo. E volta. Dá um beijo se sim, uma piscadela se não. Conforme for, seca meus olhos. Mas diz que não olhou direito.

Doris, Doris. Pensa e responde em qual rua vive o melhor da minha vida, que se vê tão esquecida na cor do seu olhinho, quase desmanchando de soninho. Mas, se nessa pressa de saber onde ele mora, você perceber, então, que é em mim, inventa rápido um jeito de avisar.

Boa noite, Doris.

Breve crônica para falar de amor

Ilustração: JacobT/Flickr.com

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Passou ventando pelo balcão de informações, sem ser notada pelo porteiro, vaidoso em seu uniforme azul escuro. Era novo. Roupa velha toma a forma do corpo, aquele jaquetão ainda estranhava os ombros miúdos do rapaz. Parou diante do enorme painel que ia até o teto. Apertou os olhos para ler o mar de letras e números, “Carvalho e Marcondes… Carvalho e Marcondes… que andar é, mesmo?”

Recorreu ao porteiro, única pessoa no saguão que não parecia ocupada demais.

– Você sabe qual o andar do escritório do Doutor Carvalho?

Sem olhá-la, entretido com os bolsos da calça nova, ele respondeu:

– Segundo.

Então, iria pela escada. Melhor assim, não gostava de esperar elevador. E estava em cima da hora. Mas não chegou ao terceiro degrau, resolveu descer. Foi até o balcão. Falava ou não?

– Moço…

Pela primeira vez, ele a encarou. “Pois não?”

– Eu estou muito maquiada? – perguntou, erguendo o queixo para facilitar a avaliação.

Ele se aprumou. Franziu a testa e, sério, estudou-lhe o rosto. Eram os olhos mais bonitos que os seus já tinham visto. Disfarçou e deu seu parecer.

– Acho que os olhos.

– O que tem os olhos?

– Muito pintados.

Ela vasculhou a bolsa. Aflita, buscou o espelhinho com a imagem da Nossa Senhora. “É, estão mesmo”. Sempre errava na sombra. Coloria demais os olhos, para compensar as cores que não via pela vida. “O Doutor Carvalho está precisando de recepcionista” – explicou, enquanto esmaecia, com a ponta do dedo, o verde ao redor dos olhos azuis – “Então, eu vou lá tentar”. Repentinamente tímida, agradeceu. Retomou as escadas. Mais uma vez, parou antes de alcançar o terceiro degrau. Voltou ao balcão, apoiou os cotovelos.

– Você acha que eu devo pedir quanto?

Ele baixou o volume do radinho escondido na gaveta. Ninguém havia lhe feito tantas perguntas. Nunca quiseram saber o que ele achava ou deixava de achar, sobre isso ou aquilo. Ora, como é que ele ia saber quanto os advogados do segundo andar pagavam para uma recepcionista? O escritório era fino, cheio de clientes bem arrumados. Aconselhou:

– É bom sobrar um pouquinho no fim do mês para passear. Daí, é você que vê.

Ela achou engraçado. Sempre haviam lhe dito que, dando para pagar as contas, estava bom.

Cinquenta e sete minutos depois, ela passou ventando, de novo, pelo balcão. Despediu-se com meio aceno e, pelo sorriso, o emprego era seu. Quem sabe, agora ela acertaria na sombra. Já alcançava a porta quando ele tomou coragem e a chamou. Não sem certa dificuldade: ele, apesar de tê-la ajudado a decidir sua vida, não sabia seu nome.

– Você me fez três perguntas – foi dizendo. – Então, será que eu poderia lhe fazer uma?

Ela não disse nem sim, nem não. Era sua deixa.

Ele saiu de trás do balcão. Aproximou-se dela, segurando o sorriso que teimava em fazer festa. Ajeitando a gola do jaquetão novo, perguntou o que ela iria fazer no feriado. É que abrira um lugar novo, lá pros lados da lagoa, e ele ouvira dizer que não havia galeto melhor na cidade inteira.