Comer, escrever, amar

Ilustração: Gustavo Peres/Flickr.com

Antes de sair, deixou um bilhete sobre o fogão:

Tem frango no forno. Falta temperar a salada. O arroz é de ontem. O beijo é de hoje.

Apanhou a bolsa, os livros. Desceu as escadas correndo, tinha só quinze minutos. No caminho, lembrou-se. Faltou escrever que tinha uvas fresquinhas. Pensou em ligar e deixar um recado na secretária eletrônica de casa. Desistiu. A Clarisse já anunciara um milhão de vezes: precisava parar com isso. Essa mania de se preocupar se todos à volta estão nutridos, gordos, corados. O marido encontraria as uvas ao abrir a geladeira, Clarisse teria dito. E se não as encontrasse? Se não as encontrasse é porque ele não estava com vontade de comer uvas, respondeu mentalmente pela terapeuta. Estava indo bem nas sessões. Guardou o celular na bolsa. Orgulhosa.

O orgulho foi se dissolvendo aos poucos, deixando em seu lugar a dúvida. Impossível separar feminino e alimento, concluiu. Quem é que amamenta? A divindade que toma conta da agricultura é uma deusa, e não um deus. Ceres para os romanos, Deméter para os gregos, é mulher. Não é homem. Ela simboliza o materno, o nutritivo. A palavra cereal vem daí. Pegou o celular, Mas ele é tão distraído… Então é problema dele – pareceu ter ouvido a Clarisse, já brava, dizer. Guardou o aparelho novamente na bolsa. E sua mão ficou lá dentro, como que anexada a ele.

Todos os dias, ela escrevia bilhetes para o marido. Instruções para a cozinha em geral. Onde estava isso, como se preparava aquilo, quantos minutos no microondas. Não se encontravam à noite. Ela saía para a aula enquanto ele ainda não havia chegado do escritório. E no dia seguinte, ao raiar do sol, a checagem: Jantou direitinho ontem? Ela não estava, genuinamente, preocupada se o outro limpara o prato, se achara o bife à milanesa no tupperware. Perguntar era um movimento automático, um instinto ancestral de amor e proteção à espécie, quase incontrolável. Um mistério, contudo decifrável; tinha a Clarisse, que estava ajudando as coisas a ficarem mais claras.

Intervalo da primeira aula, o celular toca. É o marido. Com brutal naturalidade, ele dispara o míssil: O Bob está sem comida. Onde fica a ração?

Ela pede um minuto aos colegas, afasta-se da roda, respira fundo. Sente-se esmagada pela fome excruciante que o cachorro poderia ter sentido naqueles intermináveis instantes. Declara-se incapaz de cuidar de outro ser vivo. Clarisse, desta vez, não vem ao seu socorro. Ela, então, chora. E desliga.

About these ads

8 Comentários (+ adicionar o seu?)

  1. Laely
    mar 18, 2010 @ 11:48:35

    A gente tem essa mania de ser maternal, até exageradamente. E às vezes perguntas, só por perguntar, por achar que esta é a nossa função como boa mulher.

    Resposta

  2. inesbarreto
    mar 12, 2010 @ 16:00:48

    Sempre leio seu blog, mas nunca me manifesto. Só que não pude deixar de comentar esse texto.

    Eu vejo essa relação profunda entre alimento e mulheres e acho que você colocou isso de maneira linda.

    Adorei!

    Resposta

  3. Rafa
    mar 12, 2010 @ 08:30:24

    E ele achou as uvas? rs

    Beijo, Sil querida, com a saudade de sempre!

    Resposta

  4. Marga Dambrowski
    mar 10, 2010 @ 17:31:30

    A seguir, cenas dos próximos capítulos?
    Tem cheiro de quero mais!

    Beijo!

    Resposta

  5. Nara
    mar 10, 2010 @ 17:06:00

    E no final de semana, cansada de alimentar homens e cães, ela sai com amigos pra almoçar num lugar bem bacana e se diverte horrores! E o marido? Ah! Esse vai comer a comida do Bob mesmo!

    Bjs

    Resposta

  6. paula mello
    mar 10, 2010 @ 15:20:58

    Puxa vida, por quê será que nós mulheres somos assim?? Eu não tenho terapeuta para me socorrer, então…acho que a culpa (por quê a gente sempre tem que botar a culpa em alguém, combinado?) só pode mesmo ser do marido. Sempre.
    Uma semana meia mussarela meio calabreza. Bjs!

    Resposta

  7. cris prado
    mar 10, 2010 @ 12:50:56

    Olá querida!!
    É tão bem escrito, que dá muita vontade de comentar, mesmo sem ter mais nada a dizer (rsrsrs).
    Parabéns por tanta inspiração!
    bjs

    Resposta

  8. Noele Gomes
    mar 10, 2010 @ 08:13:30

    Porque será que somos assim??? Vou ali bater um papinho com Deus e se eu escutar a resposta, compartilho.

    Beijo

    Resposta

Quer comentar também? Não esqueça de indicar um e-mail válido (eu costumo responder).

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

Você está comentando usando sua conta WordPress.com. Sair / Mudar )

Imagem do Twitter

Você está comentando usando sua conta Twitter. Sair / Mudar )

Foto do Facebook

Você está comentando usando sua conta Facebook. Sair / Mudar )

Conectando a %s

%d bloggers like this: